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Promoção da Saúde Bucal em Áreas Rurais

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ARTIGO ORIGINAL

Promoção de Saúde Bucal no trabalho em


áreas rurais: ecos de cirurgiões-dentistas
Oral Health Promotion at the workplace in rural areas: echoes from
dental surgeons

Suyene de Oliveira Paredes1, Franklin Delano Soares Forte1,2, Maria Socorro de Araújo Dias2,3

DOI: 10.1590/2358-289820241408604P

RESUMO Estudo compreendeu o trabalho dos cirurgiões-dentistas da Estratégia Saúde da Família, na


perspectiva da Promoção da Saúde Bucal (PSB) em território rural. Trata-se de uma investigação trans-
versal e qualitativa. A coleta dos dados foi realizada a partir de entrevistas semiestruturadas realizadas
com quatorze profissionais que atuavam em equipes de saúde bucal rurais do estado da Paraíba. Para
compreensão e sistematização dos dados, adotou-se a análise de conteúdo temática. O referencial teórico
condutor do método considerou pilares, valores e princípios da Promoção da Saúde (PS). As narrativas
revelam conceitos imprecisos de PSB, restringindo-os às atividades de prevenção aos agravos bucais.
Existem potencialidades e fragilidades nas ações de PSB em áreas rurais. Há desigualdades quanto às
unidades de apoio e existem populações rurais sem qualquer assistência aos serviços especializados de
saúde bucal. Observou-se envolvimento dos profissionais nas práticas campanhistas e nas metas com
gestantes. Existem dificuldades na formação de grupo, e as ações intersetoriais são praticamente resumidas
à parceria entre saúde/educação. As realidades são discrepantes frente ao apoio da gestão. Os discursos
apontaram para ações de PSB capazes de produzir autoestima e melhorar a qualidade de vida, pautadas
na integralidade e nos valores de solidariedade e humanização.

PALAVRAS-CHAVE Atenção Primária à Saúde. Promoção da saúde. Saúde da população rural.

ABSTRACT This study included the work of dental surgeons of the Family Health Strategy, from the perspec-
tive of Oral Health Promotion (OHP) in rural territory. This is a cross-sectional and qualitative investigation.
Data collection was performed through semi-structured interviews carried out with fourteen professionals
who worked in rural oral health teams from the state of Paraíba. To understand and systematize the data,
thematic content analysis was adopted. The theoretical framework that guided the method considered pillars,
values and principles of Health Promotion (HP). Narratives reveal imprecise OHP concepts, restricting them
to oral disease prevention activities. There are potentialities and weaknesses in the OHP actions in rural
areas. There are inequalities regarding support units and there are rural populations without any assistance
1 UniversidadeFederal da
to specialized oral health services. Professionals’ involvement was observed in the campaign practices and
Paraíba (UFPB) – João
Pessoa (PB), Brasil. in the goals with pregnant women. There are difficulties in group formation, and intersectoral actions are
franklinufpb@[Link] practically limited to the partnership between health/education. The realities are discrepant in the face of
2 Rede Nordeste de
management support. The speeches pointed to OHP actions capable of producing self-esteem and improving
Formação em Saúde da quality of life, based on integrality and the values of solidarity and humanization.
Família (Renasf) – Eusébio
(CE), Brasil.
KEYWORDS Primary Health Care. Health promotion. Rural health.
3 Universidade Estadual
Vale do Acaraú (UVA) –
Sobral (CE), Brasil.

Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative
Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer
meio, sem restrições, desde que o trabalho original seja corretamente citado. SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 48, N. 140, e8604, Jan-Mar 2024
2 Paredes SO, Forte FDS, Dias MSA

Introdução demandam políticas específicas, para se garan-


tir equidade, integralidade e resolutividade nos
A Promoção de Saúde (PS), a princípio, en- serviços, direitos assegurados em lei e difíceis
tendida como processo de capacitação das de serem alcançados na assistência à saúde
pessoas para aumentar o controle e melhorar para essas populações7,8,13,14. Para muitas lo-
sua qualidade de vida e saúde1, atualmente, calidades rurais, a Estratégia Saúde da Família
considera ações que transcendem o fortale- (ESF) representa a única opção de assistên-
cimento de capacidades dos indivíduos e o cia na atenção primária à saúde9,13,15,16. E, a
campo da saúde, por representar um amplo respeito dos serviços de saúde bucal na ESF,
processo político2. Ações de promoção da apesar da expansão das equipes17, ampliação
saúde voltam-se para a mudança dos deter- do acesso e do número de procedimentos18,
minantes sociais da saúde, que compreendem ainda há desafios para se alcançar cobertura
aspectos de ordem econômica, social, cultural, universal, sendo a redução de investimentos
política e ambiental3–5. financeiros considerada um agravante para a
Promover a saúde implica considerar as assistência direcionada aos pequenos muni-
iniquidades que impactam diretamente o cípios do interior do País e às áreas rurais17.
bem-estar, exigindo abordagens tanto inter- Pessoas que vivem em áreas rurais geral-
setoriais quanto intrasetoriais, abrangendo mente experimentam resultados de saúde
esforços coletivos e individuais5. Nesse con- adversos em comparação às populações
texto, reconhece-se que as populações residen- urbanas6,19–21, devido ao acesso limitado aos
tes em áreas rurais são um grupo prioritário serviços de saúde e à escassez de serviços
para iniciativas de promoção da saúde6–9. No especializados8,21,22. No tocante aos agravos
âmbito intrasetorial, destaca-se a relevância bucais, as perdas dentárias em adultos são
das ações voltadas para a promoção da saúde altamente prevalentes e preocupantes, pois
bucal, visando a aprimorar as condições de repercutem em impactos negativos na quali-
saúde bucal dessas comunidades. dade de vida19,23.
A Promoção da Saúde Bucal (PSB) está Além disso, existem outras adversidades pe-
inserida na Política Nacional de Saúde Bucal culiares às populações rurais, as quais extrapo-
(PNSB), ancorada na perspectiva ampla de lam a abrangência do setor saúde e necessitam
saúde que transcende a atenção odontológi- da parceria de outros setores24. As dificuldades
ca. A busca da autonomia dos usuários é um de acesso estão relacionadas à distância entre
enfoque das diretrizes da PNSB10, assim como os equipamentos e os locais de moradia e às
é um dos princípios da Política Nacional de barreiras geográficas, com pouca ou nenhuma
Promoção da Saúde (PNPS)11. Adicionalmente, garantia de transporte para trabalhadores e
a humanização das ações está entre as propo- usuários9,16,22,25. Existem, ainda, as barreiras
sições da PNSB e entre os valores das políti- de linguagem ou culturais4,7, as quais obsta-
cas transversais do Sistema Único de Saúde culizam o acesso às informações, com reflexos
(SUS), como a PNPS11 e a Política Nacional no processo de cuidar. Percebe-se, também,
de Humanização12. A articulação com outras que as ações de caráter individual e orienta-
políticas, como a de alimentação saudável, das pelo modelo médico centrado ainda são
redução do tabagismo, acesso à água tratada predominantes na ESF, tanto em áreas rurais
e fluoretada, além da redução de fatores de como urbanas14,26. Há fragilidades no processo
risco para doenças bucais, é estratégia citada de definição da territorialidade e adscrição da
para alcançar PSB junto às coletividades10. população, com priorização do atendimento à
Com relação aos municípios rurais remotos demanda espontânea, sem ações de acompa-
brasileiros e às populações rurais no cenário do nhamento, principalmente nas localidades mais
campo, observa-se que as realidades distintas isoladas às sedes dos municípios9,14.

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Nas áreas rurais, as ações de PS mais eviden- Essa Unidade Federativa possui 223 municí-
ciadas dizem respeito às práticas educativas pios, os quais estão subdivididos, administra-
em grupo e ao modelo campanhista, com marca tivamente, em três Macrorregiões e 16 Regiões
de descontinuidade14,25. Ações de prevenção de Saúde. Esta pesquisa teve como cenário as
de doenças, viabilizadas por meio de palestras, áreas rurais de 14 municípios localizados nas
são entendidas como PS, sendo que essa se três Macrorregiões de Saúde.
distingue quanto aos propósitos e métodos/ Participaram do estudo cirurgiões-dentistas
estratégicos. Nessa perspectiva, é evidente de EqSB rurais, há pelo menos um ano na
que o aumento da oferta de serviços odon- mesma equipe. Foram excluídos os profis-
tológicos curativos e preventivos nas áreas sionais afastados por licença médica ou por
rurais é relevante para diminuir as urgências qualquer outro motivo.
e hospitalizações27, mas promover saúde bucal A inclusão dos participantes se deu na
transcende essas práticas. Por isso, os aspec- perspectiva da técnica da bola de neve31.
tos de investigação das práticas de PS devem Dessa forma, o recrutamento dos participan-
considerar muito além das atividades preven- tes deu-se de modo consecutivo, a partir da
tivas, e se orientar por princípios e valores seleção dos primeiros convidados, os quais
como equidade, participação, sustentabilidade, indicavam outros profissionais que atendes-
autonomia, empoderamento, integralidade, sem aos critérios de elegibilidade. Na ausência
intersetorialidade, governança11,28, territoria- dessa indicação, procedeu-se com busca ativa
lidade, solidariedade11 e humanização11,12, e, de outro cirurgião-dentista.
assim, colaborar para a emancipação humana. A coleta de dados foi realizada a partir de
Diante do exposto, este estudo se propôs a 14 entrevistas semiestruturadas no período de
responder ao seguinte questionamento: como setembro a novembro de 2022. A perspectiva
se dá o trabalho dos cirurgiões-dentistas que de entrevista adotada foi a de uma conversa
atuam nas equipes da ESF rurais da Paraíba, entre dois sujeitos com o objetivo de dialogar
na perspectiva da PSB? sobre algumas ideias em torno do objeto do
estudo, valorizando as ideias, percepções, im-
pressões sobre o trabalho em saúde bucal em
Material e métodos áreas rurais, assim como de PSB29.
Previamente às entrevistas, houve revisão
Realizou-se um estudo qualitativo sobre o dos aspectos potenciais de investigação, con-
trabalho de cirurgiões-dentistas de Equipes siderando a percepção e as práticas de PSB11,28
de Saúde Bucal (EqSB) em áreas rurais da no processo de trabalho do cirurgião-dentista.
Paraíba, na perspectiva da PSB11,28. Optou-se Nessa ocasião, o roteiro elaborado foi revisado
pela pesquisa qualitativa para melhor com- por outro pesquisador. O segundo momento
preensão do trabalho em saúde bucal na ESF visou a testar a clareza dos questionamentos
em áreas rurais, considerando a percepção pelos pesquisadores. Assim, as questões gera-
dos sujeitos que o vivenciam e produzem nos doras elencadas no roteiro foram analisadas
territórios rurais29. por três especialistas, sendo elas duas pes-
O estudo foi desenvolvido no estado da quisadoras e profissionais que atuavam em
Paraíba, região Nordeste do Brasil. Esse estado EqSB e uma pesquisadora com experiência
possui 56.467,242 km² e população de 4.059.905 na temática do estudo.
habitantes30. O Índice de Desenvolvimento Após a definição do roteiro final, seguiu-se
Humano em 2010 foi igual a 0,65830. A popu- com o treinamento, que foi realizado por meio
lação coberta por Equipes de Saúde da Família de estratégia baseada em simulação, técnica
(EqSF) e por EqSB representava 94,9% (em que envolveu a participação de cirurgiões-den-
2020) e 89,4% (em 2021), respectivamente. tistas do SUS não incluídos nos participantes

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do estudo32. As simulações foram supervi- coleta. A validação da transcrição foi realizada


sionadas por um pesquisador experiente na pelo pesquisador responsável por ouvir o áudio
área de pesquisa qualitativa. Essa etapa de e acompanhar a transcrição, fazendo ajustes
treinamento foi importante, também, para quando necessário.
se testar o roteiro das entrevistas, não sendo A análise dos dados empíricos conside-
necessário fazer ajustes ao instrumento orien- rou o seguinte referencial teórico: o modelo
tador das entrevistas. baseado nos pilares (equidade, participação
Na perspectiva de imersão no cenário e con- e sustentabilidade) e nos valores (autonomia,
texto da pesquisa, é importante mencionar que empoderamento, integralidade, intersetoria-
a pesquisadora principal possui aproximação lidade e governança) da PSB28; como também
prévia com o objeto do estudo por ter atuado nos valores e princípios da PNPS11, os quais
como cirurgiã-dentista em equipe de saúde se assemelham aos pilares e valores da PSB,
bucal mista da ESF. sendo alguns deles comuns.
Realizou-se contato informal com o cirur- Realça-se que, embora para fins analíticos,
gião-dentista, por meio de um aplicativo de tenham-se categorizado os ecos que mais elu-
mensagens (WhatsApp®), para agendamento cidam a presença ou ausência de determina-
das entrevistas e envio do convite formal e do dos princípios, estes não são excludentes. Ao
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido contrário, eles se conectam e, algumas vezes,
(TCLE), os quais foram encaminhados por completam. Uma mesma ação pode e deve ser
meio de correio eletrônico (e-mail). Após orientada por mais de um princípio.
anuência concedida, por meio da assinatura Para análise dos dados, adotou-se a Análise
do TCLE pelo participante, a entrevista foi de Conteúdo com abordagem temática34, na
realizada individualmente, de forma presencial qual foram seguidas três etapas. Na pré-análise,
ou virtual, de acordo com a preferência do pro- realizou-se a exploração do material, por meio da
fissional. Na modalidade virtual, utilizou-se a leitura flutuante dos depoimentos. Na segunda
plataforma Google Meet®. Todas as entrevistas etapa, realizou-se a leitura exaustiva do material,
foram audiogravadas. respeitando-se os princípios da exclusão mútua,
Após os cumprimentos iniciais, a entre- da representatividade, da homogeneidade e da
vistadora explicou os objetivos do estudo e pertinência. Nessa etapa, buscou-se ressaltar os
coletou as informações sociodemográficas, aspectos relevantes de cada questionamento,
seguindo-se com roteiro. Ao final, agrade- analisando-se os pontos convergentes e diver-
ceu e perguntou se o participante desejava gentes entre os relatos. Além disso, foram se-
acrescentar algo. As entrevistas não tiveram lecionadas as unidades de análise, a partir dos
tempo preestabelecido e duraram, em média, recortes dos depoimentos. Na terceira e última
45 minutos. Impressões adicionais sobre os etapa, as unidades de análise foram agrupadas em
sentimentos, comportamentos e colaboração categorias e interpretadas com base na literatura.
dos participantes foram registradas em um Após elencadas as categorias, realizou-se uma
diário de campo. Essa ferramenta foi impor- reunião com uma terceira pesquisadora, a fim
tante para uma compreensão mais reflexiva de construir a matriz final de análise.
dos dados29. Com o intuito de proteger a identidade
Respeitando-se a saturação teórica, a reali- do participante e assegurar o compromisso
zação das entrevistas foi interrompida quando com a privacidade e a confidencialidade das
se constatou que a inclusão de novos elementos informações pessoais, os entrevistados foram
não era mais capaz de modificar o entendi- codificados pela letra E (entrevistado), seguida
mento da teorização almejada33. pelo número de ordem sequencial de ocor-
Todas as entrevistas audiogravadas foram rência das entrevistas. As narrativas foram
transcritas por uma pessoa não envolvida na apresentadas sem correções gramaticais.

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Promoção de Saúde Bucal no trabalho em áreas rurais: ecos de cirurgiões-dentistas 5

Procedimentos éticos privados. Todos possuíam carga horária semanal


de 40 horas, sendo o trabalho desenvolvido em
Este estudo foi aprovado (sob os pareceres quatro dias da semana, em alguns relatos, pois
4.724.462 e 5.025.305) pelo Comitê de Ética o quinto dia útil se destinava às atualizações em
em Pesquisa com Seres Humanos do Centro plataformas digitais, como estratégia de educação
Universitário de Patos. Para a sua execução, permanente em saúde.
foram respeitadas as diretrizes e normas Os resultados foram agrupados em seis catego-
propostas pelas Resoluções nº 466/201235, rias: (1) Percepção de Promoção de Saúde Bucal;
nº 510/201636 e nº 580/2018 do Conselho (2) Humanização e Solidariedade nas Ações; (3)
Nacional de Saúde. Equidade e Integralidade na Atenção à Saúde
Bucal; (4) Autonomia e Empoderamento dos
Usuários e Cuidadores nas Decisões em Saúde
Resultados Bucal; (5) Intrassetorialidade e Intersetorialidade
nas Ações de Saúde Bucal; (6) Governança e
Participaram deste estudo 14 cirurgiões-dentistas Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal.
que compõem a EqSB rural no estado da Paraíba,
sendo nove do sexo feminino e cinco do sexo Percepção de Promoção de Saúde
masculino. As idades variaram de 26 a 44 anos. Bucal
Quanto ao tempo de atuação na equipe, houve
variação de 1 a 14 anos. As narrativas apontam para relatos imprecisos
Oito participantes tinham vínculo de servidor de PSB, com tendência a referi-las como ativida-
estatutário e seis eram profissionais contratados. des de prevenção aos agravos bucais. A maioria
Sobre atuação em outros serviços odontológicos, das narrativas reflete a realização de palestras
do total dos participantes, apenas um não com- com transmissão técnica de conhecimentos para
plementava a renda com outro vínculo. A maioria a população, e não encontro educativo com a
dos entrevistados conciliava suas atividades no população como estratégia de translação do co-
serviço público com as realizadas nos serviços nhecimento, como requerido pela PS (quadro 1).

Quadro 1. Unidades de análise das categorias ‘Percepção de Promoção de Saúde Bucal’ e ‘Humanização e Solidariedade
nas Ações’ e depoimentos dos participantes
Unidade Percepção de Promoção de Saúde Bucal
Percepção de PSB ... é basicamente levar a informação correta para o paciente... é prevenir ele das doenças bucais, promover
através de palestras, e não em ambiente clínico... (E1)
... eu acredito que seja passar algum tipo de informações... é a gente evitar doenças. Evitar que essas pessoas
sejam acometidas por cárie, por doença periodontal, por doença de boca. (E7)
... é explicar para o paciente como fazer a higienização, que tipo de alimentação e tudo para que ele não vá
desenvolver a cárie e a parte de profilaxia... (E12)
... é promover realmente saúde com educação continuada, tanto de profissional como da população, da
comunidade em si, de uma forma que a gente consiga desenvolver autonomia desses pacientes. Porque,
como eu disse antes, não adianta eu estar toda semana lá, se eles não assimilam o que eu propago... eu faço
o máximo para a gente salvar um dente. Então, é promover educação junto com a autonomia dos próprios
pacientes. (E3)
... é promover bem-estar, promover qualidade de vida... é uma coisa mais preventiva... evitar adoecer ou
precisar dos serviços curativos... prezar pelo bem-estar pleno... É um estado meio utópico, mas, enfim, promo-
ção de saúde é fazer o bem, e fazer as pessoas se sentirem bem... (E4)
A gente, às vezes, é muito curativista... Então, assim, é trabalhar a população como um todo. Promover a
saúde no sentido amplo, né? Que, desde a 8ª Conferência de Saúde, toda aquela mudança de conceito de
saúde. E eu sou apaixonado por esta questão. Eu acho que saúde se promove de maneira ampla, não é só
aquele homem físico, aquela mulher física. (E11)

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6 Paredes SO, Forte FDS, Dias MSA

Quadro 1. Unidades de análise das categorias ‘Percepção de Promoção de Saúde Bucal’ e ‘Humanização e Solidariedade
nas Ações’ e depoimentos dos participantes
Unidades Humanização e Solidariedade nas Ações
Humanização ... encontrei uma outra paciente ontem que a gente realizou umas extrações... o município fornece prótese
gratuita... E a paciente apareceu... com a prótese... elogiei... Aí eu perguntei para ela: ‘deu uma melhorada na
autoestima?’ Ela disse: ‘Com certeza’... é muito gratificante. (E2)
... minha contribuição é cuidar... promover a saúde do paciente... Devolver a autoestima também, né, princi-
palmente. Devolver sorrisos... (E6)
Solidariedade Quando a gente vê o profissional... que tem amor pela profissão, que entenda a dor do paciente e não deixa
para depois o que pode ser resolvido hoje. A gente tem total condições de... levar um atendimento de qualida-
de... para aquele paciente que nunca fez um raio x, sempre tira os dentes sem raio x... (E1)
... eu dificilmente encaminho paciente do PSF. Até cirurgias, quando é do terceiro molar, que é tranquila, eu
faço... o que eu faço na minha clínica eu faço lá, porque... a Odontologia está em mim e não tá no lugar que
eu trabalho... (E12)
Fonte: elaboração própria.

Apesar da tendência de associar a PSB exclu- discurso de um dos entrevistados (E1) (quadro
sivamente à prevenção, identificaram-se ecos 1). E, para além desse direito, a indicação da
que suplantam esse entendimento (E3, E4 e radiografia, previamente à realização do pro-
E11), os quais, mesmo se referindo aos métodos cedimento cirúrgico, é uma medida não apenas
preventivos para evitar o adoecimento, agrega- de protocolo, mas de segurança, tanto para o
ram, também, preceitos como autonomia dos paciente quanto para o profissional.
usuários, qualidade de vida e ações irrestritas
ao campo da saúde (quadro 1). Equidade e Integralidade na Atenção
à Saúde Bucal
Humanização e Solidariedade nas
Ações A equidade das ações foi compreendida na
perspectiva da prioridade do atendimento,
Melhorar a autoestima e a qualidade de vida identificada nos grupos com maiores vulnera-
dos usuários, com práticas pautadas na inte- bilidades e nas ações direcionadas ao enfrenta-
gralidade do cuidado, foram benefícios iden- mento do câncer bucal. Os cirurgiões-dentistas
tificados nas falas sobre reabilitação bucal se reportaram às palestras direcionadas e
(E2 e E6) (quadro 1). O ‘se colocar no lugar do buscas ativas em grupo de fumantes e em
outro’ para tentar resolver os problemas de população de agricultores sem qualquer pro-
saúde bucal destaca-se como principal valor teção à radiação solar. As narrativas revelam
de solidariedade. O direito básico de realização iniquidades quanto à disponibilidade de uni-
de uma tomada radiográfica, anteriormente à dades de apoio ou satélites (mencionadas nos
realização de exodontia, pode nunca ter sido depoimentos como âncoras) para comunidades
ofertado a um trabalhador rural, segundo o rurais de mesmo município (quadro 2).

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Promoção de Saúde Bucal no trabalho em áreas rurais: ecos de cirurgiões-dentistas 7

Quadro 2. Unidades de análise da categoria ‘Equidade e Integralidade na Atenção à Saúde Bucal’ e depoimento dos participantes
Unidades Equidade e Integralidade na Atenção à Saúde Bucal
Iniquidades ... eu gostaria que tivesse realmente uma âncora, uma estrutura física em cada sítio... Eu fico achando que os pacientes do [nome do sítio] eles têm
quanto à dis- mais... benefícios, que não precisa se deslocar, pagar passagem... eles todos moram lá perto... não precisa acordar tão cedo para vir pegar ficha na cidade...
ponibilidade seria legal, né, que todos os sítios tivessem sua âncora... pra que não precisasse a gente ter sala emprestada, de uma unidade de saúde na cidade. A gente
de unidades tem uma sala para toda a equipe. Então, a médica, ela atende na frente do dentista, do enfermeiro, de quem tiver na sala... isso é invasão de privacidade...
de apoio (E7)
... a equipe vai pra unidade âncora.... a gente acompanha e vai pras escolas no caminho... a equipe saiu pra ir pra uma escola, o pessoal fica cobrando. ‘Ah,
mas foi pra escola, não vai ter atendimento, não?’... o pessoal ainda busca muito a parte curativa em relação à parte de promoção de saúde. (E5)
A equipe, ela tem por volta de 9 a 10 âncoras. Só que cadeiras odontológicas, nós temos em seis dessas âncoras... a ideia da gestão é que em todos os
sítios tenha uma cadeira odontológica. Melhorou muito... Antes, você tinha três cadeiras. Você já tem seis unidades com cadeira, e a ideia da gestão é
ampliar para todos da zona rural. (E11)
Prioridade no ... com ação das escolas, eu percebo que tem muita cárie. Criancinhas de rosto inchado, essas coisas que os pais não ligam. Dou como prioridade toda
atendimento criança, independente da agenda que eu esteja lotada. Dou prioridade a criança, gestante e idoso. (E12)
Equidade di- ... a gente tenta sempre fazer essa promoção de saúde voltada ao uso do cigarro para evitar que eles usem... a maioria dos agricultores usar boné para
recionada ao fazer a colheita, protetor solar, protetor labial... (E7)
enfrentamen- ... a gente tá tendo muito caso, câncer... Como aqui é uma região muito quente, não tem proteção... não tem um protetor. Porque poderia promover algu-
to do câncer ma coisa, para essa questão... de protetor solar, quanto protetor labial. Eu pego muitos pacientes com os lábios que têm aquelas cicatrizes brancas... E ali
bucal pode se desenvolver um câncer. E eu sempre converso... ‘olhe! O senhor vai na farmácia, compre um protetorzinho labial, que é transparente’. Eles já têm
aquela brutalidade da lida. Muitos não vão... (E10)
Com relação ao grupo de fumantes... a cada mês, vai um dentista da equipe para desenvolver um trabalho... o município fornece os adesivos, os remé-
dios... a tentativa de orientação pra ver se ele desmama. Se ele para de fumar... todo fumante eu tenho uma atenção maior, quando tem o tabagismo e o
álcool, com relação ao exame clínico da busca ativa do carcinoma espinocelular, a gente sabe que é um grupo mais de risco... quando eu vou pra palestra,
no grupo de fumantes, eu organizo uma fila, levo o material pra eu fazer o exame clínico... porque o carcinoma, ele é pouco divulgado... Porque normal-
mente quando a gente descobre, que vai encaminhar, ele já tá muito avançado. Então, assim, eu faço busca ativa das lesões, as lesões pré-cancerígenas, é
uma leucoplasia, uma eritroplasia... As lesões que observam pré-cancerígenas eu já fico atento... (E11)
Já peguei pacientes que eu descobri câncer no começo e se curaram, já perdi alguns... Aparecem alguns... geralmente são fumantes que andam no sol,
tem parentes que já têm câncer bucal. Então, quando aparece assim, uma lesãozinha, já dou uma avaliadazinha, eu já mando para o buco. O buco faz a
biópsia. Já encaminho, e noventa por cento dos casos já dá, e ele já começa o tratamento logo cedo... (E12)
... eu faço mais [palestras sobre câncer] para a parte dos homens, porque eles são os que trabalham mais em roça, lá no sol... eu tenho palestras pron-
tas para isso... (E12)
Rede de apoio ... há bastante valorização do CEO... é um prédio já novo... o município nem conta com tanto recurso, e o coordenador dá um jeito de inserir algum tipo de
resolutiva prótese que não seja só total... tenta fazer algo diferente... (E4)
... a gente tem uma rede de apoio, de referência, contrarreferência, que ajuda muito... a gente tem o CEO aqui, e tem as especialidades de periodontia,
cirurgia, endodontia e Odontopediatria. (E9)
... eu encaminho para a clínica do LINCCO [Liga Interdisciplinar de Combate ao Câncer Oral], na universidade... A secretaria dá esse suporte... Manda
um carro para o paciente ser levado... E a gente tenta fazer este trabalho, inclusive com os outros dentistas do município... Quando já tem o diagnóstico
positivo, o LINCCO já encaminha pra FAP [Fundação Assistencial da Paraíba]... quando é assim, a contrarreferência não vem, mas eu sei por causa do
Agente de Saúde... quando ele chega em casa, eu acompanho. O médico da equipe acompanha com a gente. (E11)
Fragilidades Não tem referência de CEO lá... Aí a gente não consegue pactuar pra CEO... A única parte que tem assim de pactuação é a parte médica... se você enca-
na rede de minha pra o CEO de [município de médio porte], eles não dão resposta. É como se não tivesse vinculado. Aí, normalmente, a demanda vai encaminha-
apoio da, não por encaminhamento, né, porque não tem a parceria… mas é mais de informação, pra faculdades... (E5)
... eu sempre atendo urgência. Independente de marcar... são sempre extração... não tem CEO... pra fazer um canal... ele tem que ir em João Pessoa... pra
poder ir outro dia, pra poder fazer o canal... por mais que a cidade forneça o ônibus... os pacientes não querem, porque eles não sabem... se eles vão con-
seguir marcar... antes da pandemia... a gente encaminhava para o HU [Hospital Universitário]. Com a pandemia, perdemos esse convênio... por mais
que a gente sempre fale, pra renovar... a Odontologia fica esquecida mesmo... a gente conseguiu um favor pra encaminhar pra o Coca, em João Pessoa...
Só que aí, pra agendar, tem que ir lá. É toda uma dificuldade... os pacientes não vão... Nem tem convênio, nem tem pra onde encaminhar, nem tem o que
fazer, nem tem como ajudar o paciente. (E14)
Fonte: elaboração própria.

A respeito da integralidade das ações, per- representada pelos Centros de Especialidades


cebeu-se ampla desigualdade da oferta dos Odontológicas (CEO), para outras, inexiste
serviços para os diferentes territórios rurais. qualquer pactuação que venha a garantir o
Se, para algumas populações, existe rede mesmo direito e a respeitar o mesmo princípio.
de apoio resolutiva na atenção secundária, Nas localidades onde não há referência para

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CEO, os profissionais mencionaram indicar usuários e/ou cuidadores para a tomada de


serviços vinculados a instituições de ensino decisões conscientes sobre suas vidas e de
superior em municípios próximos, porém, sem seus dependentes, a fim de ressignificarem ou
nenhuma garantia de atendimento (quadro 2). ampliarem as ações com vistas à PSB. Como
consequência da efetividade dessas ações,
Autonomia e Empoderamento dos tem-se a promoção da autonomia do sujeito
Usuários e Cuidadores nas Decisões como agente ativo de seu cuidado, mas não
em Saúde Bucal único responsável; daí, também se identificam
nas vozes dos cirurgiões-dentistas o incentivo
Compreendem-se nos discursos as ações e o apoio às gestantes para a realização de
dos profissionais dirigidas à capacitação de pré-natal odontológico (quadro 3).

Quadro 3. Unidades de análise da categoria ‘Autonomia e Empoderamento dos Usuários e Cuidadores nas Decisões em Saúde Bucal’ e
depoimentos dos participantes

Unidades Autonomia e Empoderamento dos Usuários e Cuidadores nas Decisões em Saúde Bucal
Incentivo e apoio às ges- Fluorose que eu friso bastante. A paciente gestante não ingerir a água dos poços da nossa região, que
tantes contêm um índice altíssimo de flúor. Peço para elas, desde o primeiro trimestre, a beber água mineral
ou água de chuva filtrada, porque, há mais de quatro gerações, a gente vê os pacientes com fluorose
dentária... um grau altíssimo... Acho que a minha maior motivação é ver as crianças das minhas
gestantes, depois de nascidas, na formação dos dentes, elas não tendo a fluorose. Porque eu estudei a
minha vida todinha com colegas que tinham aquelas manchas... Então, eu via a impactação social na
vida deles. Eles tinham vergonha de sorrir, eles tinham vergonha de falar... eu ia ficar muito realizada
quando eu visse que o filho daquela gestante que eu orientei... que ele não tenha fluorose dentária.
Quando ele tiver os dentes permanentes dele, que eu ver que não tem fluorose... eles não sabiam que
era a água, que era porque a mãe bebia aquela água na gestação ou a criança bebia a água depois de
nascida ainda na formação de dentes. (E1)
... a gente ainda tem, no caso de algumas gestantes, uma resistência muito grande... Elas se sentem,
muitas vezes, desconfortáveis e tal. Mas a gente tem conquistado, tem conquistado a confiança delas,
e elas têm ido... (E9)
Capacitação de usuários e/ ... teve um caso bem complicado, a paciente era agressiva... eram extrações múltiplas, e eu disse que a
ou cuidadores para a toma- paciente tinha que ser sedada, tinha que ser em ambiente hospitalar. Então, eu movi minha secretaria
da de decisões de saúde, a diretora do hospital, o cirurgião bucomaxilofacial... pedi ambulância pra ir buscar e pra ir
deixar, pedi autorização pra fazer no hospital daqui. O cirurgião disse que fazia a cirurgia, e o anestesis-
ta disse que sedava a paciente... pensa que deu certo? Deu não! A família disse ‘eu não quero, eu não
deixo’. Eu movi rios... os sete mares... e, na hora, a família desistiu. Então, assim, é complicado. (E4)
Empoderamento da Comu- Quando um paciente não gosta de alguma coisa, ele denuncia na rádio... Eu nunca recebi nenhuma
nidade denúncia ... eu não tenho nenhum envolvimento político, não conheço ninguém... já tentaram me tirar
de lá, e a própria população fez um abaixo-assinado para não me tirarem... política... queriam botar
a filha de não sei quem lá, e a própria população fez um abaixo-assinado, e bateu pé e disse que não
queria que eu saísse... (E12)
Fonte: elaboração própria.

O estímulo ao empoderamento foi perce- Intrassetorialidade e


bido nas vozes dos cirurgiões-dentistas, prin- Intersetorialidade nas Ações de
cipalmente na atenção voltada aos grupos de Saúde Bucal
gestantes e fumantes/agricultores. Destaca-se
que uma comunidade empoderada tem condi- O princípio da intrassetorialidade tange
ções de fazer escolhas saudáveis e reivindica à desfragmentação da atenção a partir de
dos setores governamentais o cumprimento redes cooperativas e resolutivas no mesmo
das suas responsabilidades. setor11 como orientador das práticas dos

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Promoção de Saúde Bucal no trabalho em áreas rurais: ecos de cirurgiões-dentistas 9

cirurgiões-dentistas e se materializou nos profissionais. O apoio de profissionais dos


relatos dos cirurgiões-dentistas que indicaram Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e dos
a parceria dos profissionais na discussão de Núcleos Ampliados de Saúde da Família (Nasf )
casos, no planejamento das ações e na pactu- foi mencionado principalmente nos casos de
ação de estratégias para consecução de metas auxílio psicológico no tratamento do bruxismo
definidas no Programa Previne Brasil. Além infantil. Nesse circuito colaborativo, tem-se,
disso, existe o envolvimento da equipe nas também, as ações dos Agentes Comunitários
campanhas e/ou atividades educativas, envol- de Saúde (ACS) na identificação das famílias
vendo linhas de cuidado, como saúde do ado- mais vulneráveis e na comunicação entre os
lescente, saúde do homem, saúde da mulher e profissionais e os usuários, colaborando de
saúde mental, com narrativas que expressam forma decisória para a promoção da equidade,
dificuldades de formação de grupos pela falta outro princípio da PSB (quadro 4).
de transporte, o que acarreta desestímulo dos

Quadro 4. Unidades de análise da categoria ‘Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal’ e
depoimentos dos participantes
Unidades Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal
Envolvimento dos E a nossa equipe discute os casos. Às vezes na viagem, que é longa, e às vezes em reuniões... a gente discute
profissionais da equipe e a gente vê como cada um pode contribuir... (E11)
na discussão de casos, ... a nossa equipe, apesar de ser zona rural, de ser horário corrido, é, a gente tá no primeiro lugar lá nos indi-
no planejamento e cadores, nas metas alcançadas, e isso é um trabalho em equipe, não foi só a enfermeira, não foi só eu, foi em
nas metas do Previne conjunto. (E3)
Brasil O atendimento odontológico a gestante hoje é uma meta do Previne Brasil. Então, a enfermagem, ela já se
importa de colocar essas gestantes para fazer o pré-natal odontológico... (E7)
... nós fazemos as reuniões mensais, e a gente faz o planejamento para traçar as metas. Porque, uma vez no
mês, a gente faz as reuniões mensais da equipe, e ali cada um expõe, né, suas necessidades, suas metas, seus
planejamentos. E a gente tem também aqui o Previne Brasil, que a gente trabalha com metas... toda a equipe
tem que atingir aquela meta... A questão do pré-natal odontológico... Nos últimos quadrimestres, a gente
vem atingido a meta... (E9)
Participação dos ... todo ano tem ações Novembro Azul, né, Setembro Amarelo.... eu tento trazer um pouco da odontologia...
profissionais nas cam- ‘ah, hoje a gente vai tratar saúde mental’, que a odontologia não pode entrar. Pode entrar, sim. E, assim, a
panhas e atividades gente vai quebrando um pouco paradigma de que o dentista é só o consultório. (E2)
envolvendo linhas de ... um problema muito relevante na minha área... Tem muito paciente que faz uso de psicotrópico... tem
cuidado problema de saúde mental e tem muita medicação dessa natureza de uso contínuo lá... especificamente, no
sítio onde é a sede... tem muita gente lá que precisa desses cuidados especiais. (E4)
... muitos pacientes com algum transtorno ou alguma dificuldade mental, social... a gente organiza palestras,
pra intensificar essa questão sobre o cuidado com a mente... (E8)
A minha enfermeira, ela é muito caprichosa quando tem os eventos tipo o Outubro Rosa, Novembro Azul,
Agosto Dourado... ela se empenha muito pra fazer as atividades coletivas... Tavam esperando 10, 12 gestan-
tes, não apareceu uma.... tem esse lado que desestimula a gente.... (E4)
Porque a zona rural da gente... você precisa deslocar o pessoal pra uma associação, uma escola...você não
tem o transporte... o Outubro Rosa... a população não tem o meio de ir pra unidade… tinha o grupo de taba-
gismo... a população não ia pela dificuldade de se locomover... isso também vai desestimulando um pouco a
equipe... (E5)
Até eu entrava nessa parte sexual também. Essa questão nos adolescentes... Essa questão de doenças tam-
bém, porque eles são um pouquinho pra frente lá... Aí eu puxei pra esse lado também. (E10)
... eu não me isento. Eu tô sempre participativo. Quando a atividade educativa não é comigo, mas é com a
enfermeira... O médico não está. É uma questão da saúde do homem. A enfermeira, mulher, fica um pouco
constrangida: ‘você poderia?’ Eu digo: ‘com certeza’. (E11)

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Quadro 4. Unidades de análise da categoria ‘Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal’ e
depoimentos dos participantes
Unidades Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal
Parceria com outros ... nessa pós-pandemia que tem aumentado as pessoas que têm chegado com hábitos parafuncionais, que
núcleos têm chegado com bruxismo, que tem chegado com DTM... Isso tudo por conta da ansiedade... tem que ter
profissionais uma equipe multidisciplinar para tratar esses pacientes... A gente tem aqui o Caps... tem psicólogo, psiquia-
tra, terapeuta ocupacional. Todo mundo lá que dá esse apoio. (E9)
Nós temos o Caps, onde a gente encaminha. Nós temos o Cras, que quando acontece algum problema que
a gente identifica de abuso infantil... quando vou fazer alguma atividade, eu solicito o apoio deles [profissio-
nais do Nasf], e eles se envolvem muito. (E11)
Eu tenho uma paciente que teve uma fratura dento-alveolar... aí eu precisei encaminhar ela para o nutricio-
nista do NASF, porque ela vai precisar passar por uma alimentação líquida e pastosa. E aí eu preciso de outro
profissional para me ajudar, senão o meu tratamento não vai ser eficiente... Temos muito paciente infantil
que tem casos de bruxismo, e aí eu já encaminhei para o psicólogo do Nasf... (E1)
Apoio dos ACS ... a gente tem o apoio dos agentes de saúde, né? Que eles fazem essa ponte para gente, entre os usuários e
os profissionais. Então eles vão também, eles fazem essa comunicação, da gente com os usuários, né? Por-
que, de toda forma, eles que tão lá de porta a porta. Eles que conhecem os usuários. Sabem, aqueles que são
mais vulneráveis, né? (E9)
... a escola é próxima... muitas crianças com dente infeccionado, aí a gente foi identificando falando com
agente de saúde... Quando a gente descobriu, era uma menina que vendia bala, biscoito recheado, tudo, na
porta. A gente até teve um problema com essa menina, porque era o ganha pão dela. Mas a gente chamou
a nutricionista da escola... convocou os pais para uma reunião, pra tentar combater... Acho que o cuidado é
isso, você identificar as fragilidades daquela população e tentar suprir e melhorar a saúde. Melhorar a vida da
população. A gente tá ali para isso. (E11)
Participação no PSE O PSE a gente não está fazendo... precisa ter o transporte pra ir fazer, mas não tem... a equipe geralmente vai
quando o carro vai... aí faz aquela cobrança: ‘ah, vai ter o PSE nas escolas, uma equipe fazer o levantamen-
to’... O único PSE que se faz é esse, de fazer aplicação de flúor. Mas em alguns municípios quando a gente ia,
você tinha como levar as crianças pra fazer o acompanhamento... começar e terminar a parte clínica, não só
a parte educativa. Tinha a parte educativa, mas tinha que atender aquele pessoal que foi triado no levanta-
mento epidemiológico. Nesse município não tem isso. (E5)
E aí acaba que eu só englobo a escola da manhã, porque a da tarde o PSE não funciona. E aí a gente faz
palestras... faz o índice de CPO... a gente já agenda também prioridade. Tem um dia de prioridade para as
crianças da escola... Eu faço geralmente de seis em seis meses [índice] e palestra mês e mês... aí, toda vez
que eu volto eu tento fazer uma sala... como eu só atendo de manhã e lá funciona de manhã e de tarde, essas
outras crianças da tarde acabam ficando um pouco perdidas, porque eu não estou lá, e elas não têm tanto
acesso a transportes pela manhã. (E12)
Promoção de saúde bucal... eu trabalho muito com isso nas escolas, no PSE... Mesmo as [crianças] que
tinham mais medo sentaram na cadeira... eu atendi um por um... E a aplicação de flúor surte efeito, muito
efeito.... Hoje, é completamente diferente o quadro. Peguei uma criança essa semana que eu me espantei
com ela. Com muita cárie... mas aí, a falha foi minha, porque eu não tinha ido pela manhã, há mais de um
ano... Nessa escola, eu só tinha ido à tarde... (E13)
...alguns [usuários] vêm de transporte próprio, outros vêm nos ônibus escolares, que vêm todo dia e voltam,
né? Para deixar os alunos... e também a prefeitura oferece, assim, quando precisa, oferece os carros também
para pegar e deixar. (E9)
Então, uns vão a pé, outros vão de moto, outros vão de bicicleta, outros vão nos carros da escola, chegam no
carro da escola, saem no carro da escola... (E12)
Fonte: elaboração própria.

Os relatos também denotam o potencial da transporte dos profissionais. O uso do transporte


intersetorialidade na parceria da saúde e da edu- escolar gratuito pelos usuários de áreas rurais
cação para o Programa Saúde na Escola (PSE). mais afastadas da Unidade de Saúde da Família
Apesar disso, as falas sinalizaram desigualdades (USF) foi apontado como meio importante de
nas ações do PSE quanto às atividades realizadas. deslocamento. Houve menção sobre o apoio de
A maioria dos discursos revelou atividades pon- setor do desenvolvimento/assistência social, por
tuais, sem acompanhamento, não abrangentes a meio do Centro de Referência de Assistência
todas as crianças e marcadas pela dificuldade de Social (Cras) (quadro 4).

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Promoção de Saúde Bucal no trabalho em áreas rurais: ecos de cirurgiões-dentistas 11

Governança e Sustentabilidade nas manutenção, infraestrutura, condições de


Ações de Saúde Bucal trabalho, valorização dos profissionais e
perspectivas futuras. As falas também fizeram
Nessa categoria, as análises referiram-se referência às gestões dos âmbitos estadual e
ao apoio, ou à falta dele, da gestão local em federal (quadro 5).

Quadro 5. Unidades de análise da categoria ‘Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal’ e depoimento
dos participantes
Unidades Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal
Apoio da gestão local A gente não fez o levantamento. Infelizmente, ali a gente não tem esse suporte da gestão, para os levanta-
na manutenção e con- mentos epidemiológicos mesmos. (E11)
dições de trabalho As condições de trabalho são bastante eficientes, tanto no que eu digo de estrutura, manutenção também. A
gestão é totalmente preocupada com o serviço... Por exemplo, se hoje quebra uma cadeira, o técnico já vem...
A gestão não deixa faltar nada. (E1)
a odontologia não existe sem água... Eu acho que esse é o principal problema e que se arrasta há mais de
uma gestão... vai cansando... (E3)
Se a autoclave está quebrada, eu não vou passar álcool no kit clínico pra poder atender mais pessoas... Por
eu ser concursada, talvez a gestão não me veja com bons olhos... A gente tinha cinco espátulas de resina. Se
aparecessem seis restaurações, eu não conseguiria fazer... ‘não, passa o álcool e faz nessa’. Não faço! A gente
só tinha três... Se tivesse mais que três extrações de dente permanente... eu batia de frente, porque eles me
cobravam um atendimento a uma demanda maior. Porém, não me forneciam material necessário pra que eu
conseguisse suprir essa demanda... (E8)
... eu já trabalhei em duas gestões... A gestão anterior, faltava muita coisa, faltava luva, a cadeira quebrava e
passava quinze dias sem funcionar... Essa gestão... se quebrou meu consultório hoje, amanhã de manhã tem
alguém para arrumar... Em termos de materiais... até na pandemia mal faltava luva... (E12)
Apoio da gestão local ... assim não tem ponte... às vezes, não consegue passar por conta do carro que fica atolando. Aí ajeitou
na infraestrutura hoje... Se por acaso a noite deu uma chuva mais forte, no outro dia já não passa também... tavam pleiteando
fazer uma ponte... é aquela coisa que vai se travando... ‘não, porque a obra depende do incentivo por exemplo
do governo estadual’. Aí, já não vem a verba. Aí, o municipal não consegue fazer... Reivindicam todo ano... Aí,
o paliativo vem. Depois da chuva, faz o caminho, só que no ano que vem vai acontecer o mesmo problema...
Foge um pouco da parte de atenção... dos profissionais. (E5)
Quando é na época das chuvas, tem cantos que a gente não consegue, às vezes, ir, porque tem riacho, tem
esses pormenores, né, que a gente tem que enfrentar na zona rural. (E11)
O tempo que é mais complicado para eles é o tempo de chuva, porque aí o carro não passa... eles ficam mais
bloqueados nesse sentido. (E12)
Apoio das gestões ... Eu participei de uma capacitação no ano passado, em que a palestrante da capacitação, ela falou que
Estadual e Federal atualmente... não só o Ministério da Saúde, né, todos os ministérios estão uma bagunça. Eu acredito que isso
vai refletindo nos estados, nos municípios. Então, eu acho que isso é um reflexo da atual gestão presidencial
também. (E3)
... no Estado, eu sempre achei muita negligência... a saúde bucal é nas costas dos municípios, porque, com a
exceção dos cirurgiões-bucomaxilofacial, que essa especialidade tem na rede hospitalar do Estado, não existe
saúde bucal na Paraíba a nível de Estado... porque o recurso é federal, e o Programa de Saúde da Família que
se vire pra resolver as demandas. (E4)
Nós tivemos um bom período... pela primeira vez, eu acho que desde que o SUS foi criado, uma atenção para
a saúde bucal, e colocando ela na importância que ela tem... eu acredito que falta sensibilidade dos gesto-
res. Eu acho que isso em todos os níveis... Estadual, para mim, praticamente inexiste o estado na odontologia.
Federal, nós temos as políticas do Brasil Sorridente. Mas hoje, eu acredito que muito deixada de lado... (E11)
Os municípios, eles estão realmente com a corda no pescoço. A questão de você municipalizar a saúde, eu
acho ótimo... Só que, de uns tempos para cá, a gente tem tido muito regresso em questão de transferência de
recursos... muitas vezes, a gente chega com uma ideia. O gestor até se dispõe a comprar a ideia, mas ele não
tem da onde tirar recurso para isso. (E11)

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Quadro 5. Unidades de análise da categoria ‘Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal’ e depoimento
dos participantes
Unidades Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal
Valorização dos Acredito que a gestão goste do meu trabalho... eu acho que eles têm uma confiança no meu trabalho... (E1)
profissionais por parte ... em algumas situações, a gente vê gestores tratando odontologia como segunda classe... há muita impor-
da gestão local tância para a área médica, na figura do médico, e se esquece muito a importância odontológica... (E11)
... ela [ASB] leva o fotopolimerizador... porque nos outros dois postos, não tem. Era um dos motivos que a
gente pegava o carro da prefeitura. Mas a secretária proibiu, porque estava atrasando [cita o núcleo profis-
sional], porque pra gestão é mais importante um atendimento médico do que um odontológico. (E13)
... ainda tem cidade que paga mais abaixo... é um dos motivos também que a gente não tem empodera-
mento. Às vezes, vai e diminui a gente um pouco... nas reuniões: ‘Olhe! Aqui é assim, se não gostou, vai pra
o particular.’... Só que o mercado tá tão difícil que a gente tem que se submeter a isso.... E a gente não pode
deixar o certo, mesmo que pouco, pra aventurar o incerto... E a falta de coragem nos corta a asa. (E13)
Apoio da gestão e Pode ser que esteja bem, mas pode ser que esteja pior... esse SBBrasil que estão fazendo... consiga dar uma
perspectivas para os reestruturada, mudança na Política Nacional de Saúde Bucal... Quando a gente não tem uma figura lá em
próximos 10 anos cima, que apoie certas causas, certas bandeiras, isso reflete muito na população. (E3)
Se continuar do jeito que está, não vai mudar muita coisa. Vai ter pessoas com cárie, pessoas arrancando os
dentes... perdendo dente por nada... se a gestão e os profissionais não tiverem essa visão, da importância da
prevenção... A gente vai continuar com os mesmos problemas e resolvendo os mesmos problemas. (E8)
Fonte: elaboração própria.

As narrativas sugerem falta de suporte da bucomaxilofacial. Sobre a esfera federal, os


gestão para realização de levantamentos epi- relatos de desestímulo à PNSB são aponta-
demiológicos de saúde bucal e de insumos dos como reflexo da gestão nacional vigente
básicos para efetivar as práticas de PSB. Chama à época das entrevistas (quadro 5).
atenção a falta de água em algumas unidades.
Um relato mencionou a inércia da gestão para
resolver o problema da água de consumo, a Discussão
qual, possivelmente, contém altos teores de
fluoreto residual, diante da identificação dos A PSB enfrenta desafios na ESF, pois ainda há
casos de fluorose dentária. A falta de opção de forte propensão à adoção de modelo de doença
outras fontes de água impede que a população centrado nas ações curativistas37–39. Se existe
faça escolhas quanto ao consumo da água (E10) tensão quanto ao cuidado em saúde bucal dire-
(quadro 5). cionado às populações socioeconomicamente
A cobrança, por parte da gestão, para um maior desfavorecidas, com foco nos determinantes
número de atendimentos, aliada ao quantitativo primários das doenças e desprezo às causali-
insuficiente de instrumentais e materiais dispo- dades sociais mais amplas39, essas dificuldades
nibilizados, foi explanada em um dos discursos podem ser ainda mais acentuadas quando se
(E8). A falta de pontes e as dificuldades de des- considera a atuação das EqSF em localida-
locamento dos profissionais e dos usuários, nos des rurais40. Nesse contexto, e sabendo-se
períodos de chuva, são problemas enfrentados que a responsabilidade pela PSB não é uma
pelas populações de áreas rurais. Ao se reporta- atribuição exclusiva dos profissionais da área
rem sobre a desvalorização do cirurgião-dentista da saúde bucal, os resultados deste estudo
nas EqSB, muitos relatos apontam para o en- compreenderam a insipiência de ações de
tendimento da odontologia como uma área de PSB, a partir dos pensamentos, sentimentos
‘segunda classe’. e das experiências de cirurgiões-dentistas que
A respeito da gestão estadual, as iniciativas atuavam na ESF em áreas rurais, de diferentes
foram percebidas apenas na rede hospitalar, no municípios, considerando a amplitude geoes-
que diz respeito à traumatologia e à cirurgia pacial do estado da Paraíba.

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Promoção de Saúde Bucal no trabalho em áreas rurais: ecos de cirurgiões-dentistas 13

Com relação à percepção de PSB, houve As falas revelaram iniquidades referentes à


tendência a caracterizá-la como sinônimo de cobertura das áreas e ao acesso pelos usuários.
prevenção de doenças bucais. Nesse sentido, Em alguns municípios, o cirurgião-dentista
as ações de PSB foram entendidas como sendo, atuava em apenas uma unidade de referência,
exclusivamente, informações direcionadas ao localizada na zona rural ou na zona urbana do
paciente e à realização de palestras educativas município, mas, nesse caso, era responsável por
orientadoras para mudanças de comportamen- cobrir apenas populações rurais a ela adscritas.
to. A dificuldade em conceituar PS também foi Em outras situações, os profissionais eram
atribuída a outros profissionais da saúde26,40,42. responsáveis pela cobertura de áreas muito
Ao se relacionar PSB como prevenção aos extensas, com até nove unidades de apoio, as
agravos bucais, remete-se ao modelo de prá- quais possuíam ou não equipos odontológicos
ticas prescritivas, curativistas, individuais e instalados. Em uma das narrativas observou-se
centradas no cirurgião-dentista. Contudo, que, além da unidade localizada da zona rural,
esse entendimento não foi uma unanimidade uma sala emprestada de uma USF situada na
entre os relatos deste estudo. Observaram-se, zona urbana era usada por toda a equipe para
também, narrativas que abordaram a concep- atender, de forma improvisada, à demanda de
ção ampliada na direção da autonomia e da algumas comunidades rurais, comprometendo
qualidade de vida como princípio e objetivo o direito da privacidade no atendimento. A
das ações. Ao citar a 8ª Conferência Nacional falta de privacidade foi mencionada, em outro
de Saúde, a garantia de condições dignas de estudo, como um dos obstáculos a serem su-
vida, com integração das políticas de saúde e perados na atenção à saúde em áreas rurais8.
socioeconômicas43, foi compreendida por um Nas narrativas, pôde-se perceber que,
dos participantes. O conceito mais ampliado, quando não havia equipo odontológico nas
entendendo a PS como um processo dinâmi- unidades de apoio, o atendimento odonto-
co, envolvendo a forma de viver e o direito lógico curativo era substituído por ativida-
de cidadania, também foi evidenciado pelo des coletivas, em sua maioria, realizadas
cirurgião-dentista em outro estudo44. em escolas. Essas atividades referiram-se
A humanização e a solidariedade foram às aplicações tópicas de flúor e às palestras
valores que apareceram nos relatos de pro- educativas. Esse fato foi considerado uma
moção da autoestima e da qualidade de vida. problemática pelos usuários, corroborando
Segundo a PNPS, a humanização valoriza a valorização mecanicista de procedimentos
aptidões para promover melhores condi- curativos no âmbito do consultório39. Sobre
ções e mais humanas, construindo práticas os tipos de serviço de primeiro contato em
pautadas na integralidade do cuidado e da municípios rurais e remotos, outro estudo
saúde11. Considerando que as perdas den- mostrou que as unidades satélites, vinculadas
tárias são evidentes no contexto rural 19,23, a às USF rurais, dão suporte para as ações das
reabilitação como forma de devolver esté- equipes, entre elas, o atendimento em saúde
tica e função foi considerada, neste estudo, bucal9. Nessas unidades e em outros espaços
para além dos princípios da integralidade comunitários, os atendimentos são espontâ-
e da resolutividade. Além disso, a solida- neos e sem acompanhamento longitudinal9.
riedade é um valor de solicitude para com Há de se pensar, nas localidades rurais onde
o próximo11, observado nas narrativas que não há equipo odontológico, que o trabalho
abrangem o sentido de se colocar no lugar feito pelas Unidades Odontológicas Móveis45
do outro, a tentativa de resolver o máximo e a adoção de estratégias da odontologia de
de problemas identificados e a vontade de mínima intervenção, como o Tratamento
ofertar procedimentos básicos excludentes Restaurador Atraumático, garantiriam o
às populações rurais. acesso e ampliariam as ações45.

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A respeito das ações de enfrentamento das metas do Programa Previne Brasil47 e


do câncer bucal, as palestras direcionadas a sensibilização das mães na promoção de
foram reportadas, com recomendações à melhores condições bucais dos filhos.
proteção solar dos agricultores, mas sem Uma narrativa mostra a reivindicação da
qualquer menção de apoio da gestão à comunidade pela permanência do cirurgião-
doação de protetores solares ou labiais, por -dentista no serviço, situação que denota
exemplo. No tocante aos grupos de fuman- importante expressão de empoderamento da
tes, observou-se, em uma das localidades, comunidade ao reivindicar seus direitos de
incentivo ao combate ao tabagismo, por cidadania11. Os propósitos do empoderamen-
meio de reuniões periódicas e distribuição to social/comunitário devem capacitar os in-
de adesivos. Existe a preocupação com a divíduos e coletivos para atuarem sobre seus
busca ativa das lesões, com rede de apoio próprios problemas, dando voz aos grupos
para biópsias, na atenção especializada marginalizados, a partir de sujeitos refle-
ou pactuação com instituição de ensino xivos e autônomos48. No empoderamento
superior. Entretanto, existem populações das comunidades, os profissionais da saúde
rurais na Paraíba sem qualquer assistência devem estimular os usuários considerando
aos serviços especializados de saúde bucal. as condições socioeconômicas e culturais
Isso é preocupante, pois, nessas localidades, e os determinantes sociais das doenças5,11.
possivelmente, há inexistência de fluxos que A respeito da intrassetorialidade, existe in-
orientem para o cuidado integral aos usuá- tegração dos profissionais para atenção voltada
rios com lesões suspeitas ou confirmadas. aos grupos, no envolvimento em campanhas,
Sobre as ações de enfrentamento ao na discussão dos casos, nas visitas domiciliares,
câncer bucal, outro estudo reporta que a com importante participação do ACS na iden-
falta de serviços especializados, a insegu- tificação dos problemas de saúde da população
rança no diagnóstico e o baixo envolvimento e na comunicação com a equipe. As reuniões
multiprofissional são as maiores objeções da equipe são necessárias ao planejamento, à
na ESF 46. Além disso, a PNSB ainda não organização das agendas e discussão de casos
consegue ofertar uma rede efetiva de cuida- situacionais37. Além disso, o ACS e as visitas
dos integrais, sendo a média complexidade domiciliares são fundamentais para promoção
incapaz de absorver a demanda da ESF18, de vínculo com a comunidade37.
comprometendo a integralidade e a reso- A cooperação interprofissional também foi
lutividade do cuidado em saúde bucal. A mencionada na questão da saúde mental. Neste
falta de oferta de serviços especializados e estudo, os discursos revelaram aumento do uso
hospitalares é uma barreira de acesso para de psicotrópicos e casos de ansiedade nas áreas
populações rurais8,13. Algumas delas podem rurais. Seguindo esse pensamento, outro estudo
conseguir acesso mínimo em centro urbano indicou que o cuidado centrado em medica-
próximo 8, e a dificuldade de estabelecer ções para cuidar do sofrimento psíquico dos
fluxo dentro da rede acaba isolando as EqSF pacientes, em detrimento da escuta, acaba se
rurais no cuidado à saúde13. naturalizando à demanda e ao fluxo nas USF49.
Nas ações desenvolvidas pelos cirurgiões- Além disso, os relatos desta pesquisa associaram
-dentistas e pelas equipes, enxergaram-se o aumento de casos de bruxismo e de disfunção
práticas de autonomia e estímulo ao empo- temporomandibular à ansiedade. Por isso, o
deramento destinadas, principalmente, ao envolvimento dos profissionais do Caps e dos
grupo de gestantes e fumantes/agriculto- Nasf (atualmente, denomina-se eMulti) faz-se
res. A respeito das gestantes, o incentivo à necessário para promover o cuidado ampliado
adesão ao tratamento odontológico deve ser por meio de estratégias como consultas com-
compreendido sob duas vertentes: o alcance partilhadas e discussão dos casos50.

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Promoção de Saúde Bucal no trabalho em áreas rurais: ecos de cirurgiões-dentistas 15

Os relatos deste estudo mostraram que ou terapêuticos, com receio de aumentar a


atividades com enfoque intersetorial são in- prevalência ou severidade nas crianças, prin-
sipientes, ligadas ao setor da educação, como cipalmente quando se observa um número
visto em outros estudos37,51. Verificaram-se significativo de cárie dentária na população
fragmentação das atividades, descontinuidade infantil nos territórios rurais20.
no planejamento e desrespeito ao princípio da Por fim, as outras fragilidades identificadas,
universalidade, com a exclusão de crianças da como distâncias geográficas, dificuldades de
mesma escola em função do turno em que estão transporte, carências socioeconômicas e pouca
matriculadas. Segundo Moretti et al.51, as ações adesão dos usuários às práticas ofertadas aos
desenvolvidas de forma isolada em escolas, grupos são reflexos das singularidades da
como palestras, levantamentos epidemioló- ruralidade. Mesmo com comprometimento e
gicos, escovação supervisionada, aplicação motivação das EqSB nas ações de PSB, outro
tópica de flúor, provocam efeitos positivos estudo expõe a participação dos usuários,
temporários na melhoria das condições de geralmente ligada ao incentivo da gestão41.
saúde bucal da população51.
Os discursos sobre infraestrutura fazem
menção às dificuldades enfrentadas por Considerações finais
equipes e usuários no período chuvoso, devido
à falta de estradas ou pontes. As práticas inter- Esta investigação aprofundou o conhecimen-
setoriais (nesse caso, setores saúde/obras) são to do promover saúde no trabalho de cirur-
desafios a serem conquistados, mas possíveis, giões-dentistas que vivenciam diariamente
quando amparadas e estimuladas por gestões as singularidades e os problemas das áreas
locais cuidadosas e eficientes51. rurais. Os discursos revelaram imprecisão
Os resultados deste estudo revelaram dis- sobre a concepção de PSB, restringindo-a
crepâncias de apoio da gestão na manutenção, a um sinônimo de prevenção aos agravos
infraestrutura, condições de trabalho e valori- bucais. Há iniquidades em termos de oferta
zação dos profissionais. Em duas localidades dos serviços odontológicos na ESF, como,
distintas, observou-se nos discursos o impacto também, de referência para a atenção especia-
social da fluorose dentária para as comunida- lizada. Existem dificuldades de formação de
des rurais. As condutas dos profissionais varia- grupos, descontinuidade das ações coletivas,
ram desde o aconselhamento para o consumo desestímulos dos profissionais, ações interse-
de água mineral ou água de chuva filtrada à toriais insipientes e apoios diferenciados das
tentativa de resolver o problema junto à gestão. gestões locais. Essas fragilidades são acen-
A conduta dos profissionais ultrapassa o papel tuadas pelas singularidades da ruralidade,
de assistir e orientar o cidadão às boas práti- com destaque para as distâncias geográficas,
cas de saúde. Ela se reveste de postura ético- dificuldades de transporte, pouca acessibi-
-política ao se engajar na luta junto à gestão lidade no período chuvoso, falta de água e
pública na reivindicação do fornecimento de carências socioeconômicas. Apesar dessas
água potável com concentrações adequadas adversidades, identificaram-se ações ligadas
de fluoretos. à PSB nas atividades coletivas, no trabalho
O consumo de água sem tratamento e a falta em equipe, na integralidade e nas práticas
de água são realidades das comunidades rurais para promover autonomia, empoderamento,
da Paraíba a serem consideradas pelo poder autoestima e qualidade de vida.
público local52. Sobre a imprecisão relaciona- Espera-se que as fragilidades identificadas
da à etiologia da fluorose dentária, é preocu- possam sensibilizar gestores e servir de subsí-
pante o fato de o profissional ter paralisado dios para reorientação dos serviços públicos de
as aplicações de flúor para fins preventivos saúde bucal, a fim de assegurar melhorias nas

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16 Paredes SO, Forte FDS, Dias MSA

condições de trabalho, bem como na qualidade Colaboradores


de vida das populações rurais.
Este estudo, ao contemplar a temática PS Paredes SO (0000-0002-8068-5729)*, Forte
à área da saúde bucal, buscou compreender FDS (0000-0003-4237-0184)*, Dias MSA
a insipiência das ações, sob a ótica dos cirur- (0000-0002-7813-547X)* contribuíram para
giões-dentistas. Na perspectiva de análises concepção e delineamento do trabalho e para
futuras voltadas à PSB, sugere-se que os ecos discussão dos resultados; redação do manus-
de gestores, usuários e outros partícipes de crito e revisão crítica do conteúdo; e aprovação
setores da saúde possam ser englobados na da versão final do manuscrito. s
produção de novos conhecimentos.

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and Contributor ID).

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2508.

Recebido em 19/05/2023
51. Moretti AC, Teixeira FF, Suss FMB, et al. Interseto- Aprovado em 19/01/2024
Conflito de interesses: inexistente
rialidade nas ações de promoção de saúde realizadas
Suporte financeiro: não houve
pelas equipes de saúde bucal de Curitiba (PR). Ciênc.
Editora responsável: Lenaura de Vasconcelos Costa Lobato
saúde coletiva. 2010; 15(supl1):1827-34.

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