Promoção da Saúde Bucal em Áreas Rurais
Promoção da Saúde Bucal em Áreas Rurais
Suyene de Oliveira Paredes1, Franklin Delano Soares Forte1,2, Maria Socorro de Araújo Dias2,3
DOI: 10.1590/2358-289820241408604P
ABSTRACT This study included the work of dental surgeons of the Family Health Strategy, from the perspec-
tive of Oral Health Promotion (OHP) in rural territory. This is a cross-sectional and qualitative investigation.
Data collection was performed through semi-structured interviews carried out with fourteen professionals
who worked in rural oral health teams from the state of Paraíba. To understand and systematize the data,
thematic content analysis was adopted. The theoretical framework that guided the method considered pillars,
values and principles of Health Promotion (HP). Narratives reveal imprecise OHP concepts, restricting them
to oral disease prevention activities. There are potentialities and weaknesses in the OHP actions in rural
areas. There are inequalities regarding support units and there are rural populations without any assistance
1 UniversidadeFederal da
to specialized oral health services. Professionals’ involvement was observed in the campaign practices and
Paraíba (UFPB) – João
Pessoa (PB), Brasil. in the goals with pregnant women. There are difficulties in group formation, and intersectoral actions are
franklinufpb@[Link] practically limited to the partnership between health/education. The realities are discrepant in the face of
2 Rede Nordeste de
management support. The speeches pointed to OHP actions capable of producing self-esteem and improving
Formação em Saúde da quality of life, based on integrality and the values of solidarity and humanization.
Família (Renasf) – Eusébio
(CE), Brasil.
KEYWORDS Primary Health Care. Health promotion. Rural health.
3 Universidade Estadual
Vale do Acaraú (UVA) –
Sobral (CE), Brasil.
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative
Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer
meio, sem restrições, desde que o trabalho original seja corretamente citado. SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 48, N. 140, e8604, Jan-Mar 2024
2 Paredes SO, Forte FDS, Dias MSA
Nas áreas rurais, as ações de PS mais eviden- Essa Unidade Federativa possui 223 municí-
ciadas dizem respeito às práticas educativas pios, os quais estão subdivididos, administra-
em grupo e ao modelo campanhista, com marca tivamente, em três Macrorregiões e 16 Regiões
de descontinuidade14,25. Ações de prevenção de Saúde. Esta pesquisa teve como cenário as
de doenças, viabilizadas por meio de palestras, áreas rurais de 14 municípios localizados nas
são entendidas como PS, sendo que essa se três Macrorregiões de Saúde.
distingue quanto aos propósitos e métodos/ Participaram do estudo cirurgiões-dentistas
estratégicos. Nessa perspectiva, é evidente de EqSB rurais, há pelo menos um ano na
que o aumento da oferta de serviços odon- mesma equipe. Foram excluídos os profis-
tológicos curativos e preventivos nas áreas sionais afastados por licença médica ou por
rurais é relevante para diminuir as urgências qualquer outro motivo.
e hospitalizações27, mas promover saúde bucal A inclusão dos participantes se deu na
transcende essas práticas. Por isso, os aspec- perspectiva da técnica da bola de neve31.
tos de investigação das práticas de PS devem Dessa forma, o recrutamento dos participan-
considerar muito além das atividades preven- tes deu-se de modo consecutivo, a partir da
tivas, e se orientar por princípios e valores seleção dos primeiros convidados, os quais
como equidade, participação, sustentabilidade, indicavam outros profissionais que atendes-
autonomia, empoderamento, integralidade, sem aos critérios de elegibilidade. Na ausência
intersetorialidade, governança11,28, territoria- dessa indicação, procedeu-se com busca ativa
lidade, solidariedade11 e humanização11,12, e, de outro cirurgião-dentista.
assim, colaborar para a emancipação humana. A coleta de dados foi realizada a partir de
Diante do exposto, este estudo se propôs a 14 entrevistas semiestruturadas no período de
responder ao seguinte questionamento: como setembro a novembro de 2022. A perspectiva
se dá o trabalho dos cirurgiões-dentistas que de entrevista adotada foi a de uma conversa
atuam nas equipes da ESF rurais da Paraíba, entre dois sujeitos com o objetivo de dialogar
na perspectiva da PSB? sobre algumas ideias em torno do objeto do
estudo, valorizando as ideias, percepções, im-
pressões sobre o trabalho em saúde bucal em
Material e métodos áreas rurais, assim como de PSB29.
Previamente às entrevistas, houve revisão
Realizou-se um estudo qualitativo sobre o dos aspectos potenciais de investigação, con-
trabalho de cirurgiões-dentistas de Equipes siderando a percepção e as práticas de PSB11,28
de Saúde Bucal (EqSB) em áreas rurais da no processo de trabalho do cirurgião-dentista.
Paraíba, na perspectiva da PSB11,28. Optou-se Nessa ocasião, o roteiro elaborado foi revisado
pela pesquisa qualitativa para melhor com- por outro pesquisador. O segundo momento
preensão do trabalho em saúde bucal na ESF visou a testar a clareza dos questionamentos
em áreas rurais, considerando a percepção pelos pesquisadores. Assim, as questões gera-
dos sujeitos que o vivenciam e produzem nos doras elencadas no roteiro foram analisadas
territórios rurais29. por três especialistas, sendo elas duas pes-
O estudo foi desenvolvido no estado da quisadoras e profissionais que atuavam em
Paraíba, região Nordeste do Brasil. Esse estado EqSB e uma pesquisadora com experiência
possui 56.467,242 km² e população de 4.059.905 na temática do estudo.
habitantes30. O Índice de Desenvolvimento Após a definição do roteiro final, seguiu-se
Humano em 2010 foi igual a 0,65830. A popu- com o treinamento, que foi realizado por meio
lação coberta por Equipes de Saúde da Família de estratégia baseada em simulação, técnica
(EqSF) e por EqSB representava 94,9% (em que envolveu a participação de cirurgiões-den-
2020) e 89,4% (em 2021), respectivamente. tistas do SUS não incluídos nos participantes
Quadro 1. Unidades de análise das categorias ‘Percepção de Promoção de Saúde Bucal’ e ‘Humanização e Solidariedade
nas Ações’ e depoimentos dos participantes
Unidade Percepção de Promoção de Saúde Bucal
Percepção de PSB ... é basicamente levar a informação correta para o paciente... é prevenir ele das doenças bucais, promover
através de palestras, e não em ambiente clínico... (E1)
... eu acredito que seja passar algum tipo de informações... é a gente evitar doenças. Evitar que essas pessoas
sejam acometidas por cárie, por doença periodontal, por doença de boca. (E7)
... é explicar para o paciente como fazer a higienização, que tipo de alimentação e tudo para que ele não vá
desenvolver a cárie e a parte de profilaxia... (E12)
... é promover realmente saúde com educação continuada, tanto de profissional como da população, da
comunidade em si, de uma forma que a gente consiga desenvolver autonomia desses pacientes. Porque,
como eu disse antes, não adianta eu estar toda semana lá, se eles não assimilam o que eu propago... eu faço
o máximo para a gente salvar um dente. Então, é promover educação junto com a autonomia dos próprios
pacientes. (E3)
... é promover bem-estar, promover qualidade de vida... é uma coisa mais preventiva... evitar adoecer ou
precisar dos serviços curativos... prezar pelo bem-estar pleno... É um estado meio utópico, mas, enfim, promo-
ção de saúde é fazer o bem, e fazer as pessoas se sentirem bem... (E4)
A gente, às vezes, é muito curativista... Então, assim, é trabalhar a população como um todo. Promover a
saúde no sentido amplo, né? Que, desde a 8ª Conferência de Saúde, toda aquela mudança de conceito de
saúde. E eu sou apaixonado por esta questão. Eu acho que saúde se promove de maneira ampla, não é só
aquele homem físico, aquela mulher física. (E11)
Quadro 1. Unidades de análise das categorias ‘Percepção de Promoção de Saúde Bucal’ e ‘Humanização e Solidariedade
nas Ações’ e depoimentos dos participantes
Unidades Humanização e Solidariedade nas Ações
Humanização ... encontrei uma outra paciente ontem que a gente realizou umas extrações... o município fornece prótese
gratuita... E a paciente apareceu... com a prótese... elogiei... Aí eu perguntei para ela: ‘deu uma melhorada na
autoestima?’ Ela disse: ‘Com certeza’... é muito gratificante. (E2)
... minha contribuição é cuidar... promover a saúde do paciente... Devolver a autoestima também, né, princi-
palmente. Devolver sorrisos... (E6)
Solidariedade Quando a gente vê o profissional... que tem amor pela profissão, que entenda a dor do paciente e não deixa
para depois o que pode ser resolvido hoje. A gente tem total condições de... levar um atendimento de qualida-
de... para aquele paciente que nunca fez um raio x, sempre tira os dentes sem raio x... (E1)
... eu dificilmente encaminho paciente do PSF. Até cirurgias, quando é do terceiro molar, que é tranquila, eu
faço... o que eu faço na minha clínica eu faço lá, porque... a Odontologia está em mim e não tá no lugar que
eu trabalho... (E12)
Fonte: elaboração própria.
Apesar da tendência de associar a PSB exclu- discurso de um dos entrevistados (E1) (quadro
sivamente à prevenção, identificaram-se ecos 1). E, para além desse direito, a indicação da
que suplantam esse entendimento (E3, E4 e radiografia, previamente à realização do pro-
E11), os quais, mesmo se referindo aos métodos cedimento cirúrgico, é uma medida não apenas
preventivos para evitar o adoecimento, agrega- de protocolo, mas de segurança, tanto para o
ram, também, preceitos como autonomia dos paciente quanto para o profissional.
usuários, qualidade de vida e ações irrestritas
ao campo da saúde (quadro 1). Equidade e Integralidade na Atenção
à Saúde Bucal
Humanização e Solidariedade nas
Ações A equidade das ações foi compreendida na
perspectiva da prioridade do atendimento,
Melhorar a autoestima e a qualidade de vida identificada nos grupos com maiores vulnera-
dos usuários, com práticas pautadas na inte- bilidades e nas ações direcionadas ao enfrenta-
gralidade do cuidado, foram benefícios iden- mento do câncer bucal. Os cirurgiões-dentistas
tificados nas falas sobre reabilitação bucal se reportaram às palestras direcionadas e
(E2 e E6) (quadro 1). O ‘se colocar no lugar do buscas ativas em grupo de fumantes e em
outro’ para tentar resolver os problemas de população de agricultores sem qualquer pro-
saúde bucal destaca-se como principal valor teção à radiação solar. As narrativas revelam
de solidariedade. O direito básico de realização iniquidades quanto à disponibilidade de uni-
de uma tomada radiográfica, anteriormente à dades de apoio ou satélites (mencionadas nos
realização de exodontia, pode nunca ter sido depoimentos como âncoras) para comunidades
ofertado a um trabalhador rural, segundo o rurais de mesmo município (quadro 2).
Quadro 2. Unidades de análise da categoria ‘Equidade e Integralidade na Atenção à Saúde Bucal’ e depoimento dos participantes
Unidades Equidade e Integralidade na Atenção à Saúde Bucal
Iniquidades ... eu gostaria que tivesse realmente uma âncora, uma estrutura física em cada sítio... Eu fico achando que os pacientes do [nome do sítio] eles têm
quanto à dis- mais... benefícios, que não precisa se deslocar, pagar passagem... eles todos moram lá perto... não precisa acordar tão cedo para vir pegar ficha na cidade...
ponibilidade seria legal, né, que todos os sítios tivessem sua âncora... pra que não precisasse a gente ter sala emprestada, de uma unidade de saúde na cidade. A gente
de unidades tem uma sala para toda a equipe. Então, a médica, ela atende na frente do dentista, do enfermeiro, de quem tiver na sala... isso é invasão de privacidade...
de apoio (E7)
... a equipe vai pra unidade âncora.... a gente acompanha e vai pras escolas no caminho... a equipe saiu pra ir pra uma escola, o pessoal fica cobrando. ‘Ah,
mas foi pra escola, não vai ter atendimento, não?’... o pessoal ainda busca muito a parte curativa em relação à parte de promoção de saúde. (E5)
A equipe, ela tem por volta de 9 a 10 âncoras. Só que cadeiras odontológicas, nós temos em seis dessas âncoras... a ideia da gestão é que em todos os
sítios tenha uma cadeira odontológica. Melhorou muito... Antes, você tinha três cadeiras. Você já tem seis unidades com cadeira, e a ideia da gestão é
ampliar para todos da zona rural. (E11)
Prioridade no ... com ação das escolas, eu percebo que tem muita cárie. Criancinhas de rosto inchado, essas coisas que os pais não ligam. Dou como prioridade toda
atendimento criança, independente da agenda que eu esteja lotada. Dou prioridade a criança, gestante e idoso. (E12)
Equidade di- ... a gente tenta sempre fazer essa promoção de saúde voltada ao uso do cigarro para evitar que eles usem... a maioria dos agricultores usar boné para
recionada ao fazer a colheita, protetor solar, protetor labial... (E7)
enfrentamen- ... a gente tá tendo muito caso, câncer... Como aqui é uma região muito quente, não tem proteção... não tem um protetor. Porque poderia promover algu-
to do câncer ma coisa, para essa questão... de protetor solar, quanto protetor labial. Eu pego muitos pacientes com os lábios que têm aquelas cicatrizes brancas... E ali
bucal pode se desenvolver um câncer. E eu sempre converso... ‘olhe! O senhor vai na farmácia, compre um protetorzinho labial, que é transparente’. Eles já têm
aquela brutalidade da lida. Muitos não vão... (E10)
Com relação ao grupo de fumantes... a cada mês, vai um dentista da equipe para desenvolver um trabalho... o município fornece os adesivos, os remé-
dios... a tentativa de orientação pra ver se ele desmama. Se ele para de fumar... todo fumante eu tenho uma atenção maior, quando tem o tabagismo e o
álcool, com relação ao exame clínico da busca ativa do carcinoma espinocelular, a gente sabe que é um grupo mais de risco... quando eu vou pra palestra,
no grupo de fumantes, eu organizo uma fila, levo o material pra eu fazer o exame clínico... porque o carcinoma, ele é pouco divulgado... Porque normal-
mente quando a gente descobre, que vai encaminhar, ele já tá muito avançado. Então, assim, eu faço busca ativa das lesões, as lesões pré-cancerígenas, é
uma leucoplasia, uma eritroplasia... As lesões que observam pré-cancerígenas eu já fico atento... (E11)
Já peguei pacientes que eu descobri câncer no começo e se curaram, já perdi alguns... Aparecem alguns... geralmente são fumantes que andam no sol,
tem parentes que já têm câncer bucal. Então, quando aparece assim, uma lesãozinha, já dou uma avaliadazinha, eu já mando para o buco. O buco faz a
biópsia. Já encaminho, e noventa por cento dos casos já dá, e ele já começa o tratamento logo cedo... (E12)
... eu faço mais [palestras sobre câncer] para a parte dos homens, porque eles são os que trabalham mais em roça, lá no sol... eu tenho palestras pron-
tas para isso... (E12)
Rede de apoio ... há bastante valorização do CEO... é um prédio já novo... o município nem conta com tanto recurso, e o coordenador dá um jeito de inserir algum tipo de
resolutiva prótese que não seja só total... tenta fazer algo diferente... (E4)
... a gente tem uma rede de apoio, de referência, contrarreferência, que ajuda muito... a gente tem o CEO aqui, e tem as especialidades de periodontia,
cirurgia, endodontia e Odontopediatria. (E9)
... eu encaminho para a clínica do LINCCO [Liga Interdisciplinar de Combate ao Câncer Oral], na universidade... A secretaria dá esse suporte... Manda
um carro para o paciente ser levado... E a gente tenta fazer este trabalho, inclusive com os outros dentistas do município... Quando já tem o diagnóstico
positivo, o LINCCO já encaminha pra FAP [Fundação Assistencial da Paraíba]... quando é assim, a contrarreferência não vem, mas eu sei por causa do
Agente de Saúde... quando ele chega em casa, eu acompanho. O médico da equipe acompanha com a gente. (E11)
Fragilidades Não tem referência de CEO lá... Aí a gente não consegue pactuar pra CEO... A única parte que tem assim de pactuação é a parte médica... se você enca-
na rede de minha pra o CEO de [município de médio porte], eles não dão resposta. É como se não tivesse vinculado. Aí, normalmente, a demanda vai encaminha-
apoio da, não por encaminhamento, né, porque não tem a parceria… mas é mais de informação, pra faculdades... (E5)
... eu sempre atendo urgência. Independente de marcar... são sempre extração... não tem CEO... pra fazer um canal... ele tem que ir em João Pessoa... pra
poder ir outro dia, pra poder fazer o canal... por mais que a cidade forneça o ônibus... os pacientes não querem, porque eles não sabem... se eles vão con-
seguir marcar... antes da pandemia... a gente encaminhava para o HU [Hospital Universitário]. Com a pandemia, perdemos esse convênio... por mais
que a gente sempre fale, pra renovar... a Odontologia fica esquecida mesmo... a gente conseguiu um favor pra encaminhar pra o Coca, em João Pessoa...
Só que aí, pra agendar, tem que ir lá. É toda uma dificuldade... os pacientes não vão... Nem tem convênio, nem tem pra onde encaminhar, nem tem o que
fazer, nem tem como ajudar o paciente. (E14)
Fonte: elaboração própria.
Quadro 3. Unidades de análise da categoria ‘Autonomia e Empoderamento dos Usuários e Cuidadores nas Decisões em Saúde Bucal’ e
depoimentos dos participantes
Unidades Autonomia e Empoderamento dos Usuários e Cuidadores nas Decisões em Saúde Bucal
Incentivo e apoio às ges- Fluorose que eu friso bastante. A paciente gestante não ingerir a água dos poços da nossa região, que
tantes contêm um índice altíssimo de flúor. Peço para elas, desde o primeiro trimestre, a beber água mineral
ou água de chuva filtrada, porque, há mais de quatro gerações, a gente vê os pacientes com fluorose
dentária... um grau altíssimo... Acho que a minha maior motivação é ver as crianças das minhas
gestantes, depois de nascidas, na formação dos dentes, elas não tendo a fluorose. Porque eu estudei a
minha vida todinha com colegas que tinham aquelas manchas... Então, eu via a impactação social na
vida deles. Eles tinham vergonha de sorrir, eles tinham vergonha de falar... eu ia ficar muito realizada
quando eu visse que o filho daquela gestante que eu orientei... que ele não tenha fluorose dentária.
Quando ele tiver os dentes permanentes dele, que eu ver que não tem fluorose... eles não sabiam que
era a água, que era porque a mãe bebia aquela água na gestação ou a criança bebia a água depois de
nascida ainda na formação de dentes. (E1)
... a gente ainda tem, no caso de algumas gestantes, uma resistência muito grande... Elas se sentem,
muitas vezes, desconfortáveis e tal. Mas a gente tem conquistado, tem conquistado a confiança delas,
e elas têm ido... (E9)
Capacitação de usuários e/ ... teve um caso bem complicado, a paciente era agressiva... eram extrações múltiplas, e eu disse que a
ou cuidadores para a toma- paciente tinha que ser sedada, tinha que ser em ambiente hospitalar. Então, eu movi minha secretaria
da de decisões de saúde, a diretora do hospital, o cirurgião bucomaxilofacial... pedi ambulância pra ir buscar e pra ir
deixar, pedi autorização pra fazer no hospital daqui. O cirurgião disse que fazia a cirurgia, e o anestesis-
ta disse que sedava a paciente... pensa que deu certo? Deu não! A família disse ‘eu não quero, eu não
deixo’. Eu movi rios... os sete mares... e, na hora, a família desistiu. Então, assim, é complicado. (E4)
Empoderamento da Comu- Quando um paciente não gosta de alguma coisa, ele denuncia na rádio... Eu nunca recebi nenhuma
nidade denúncia ... eu não tenho nenhum envolvimento político, não conheço ninguém... já tentaram me tirar
de lá, e a própria população fez um abaixo-assinado para não me tirarem... política... queriam botar
a filha de não sei quem lá, e a própria população fez um abaixo-assinado, e bateu pé e disse que não
queria que eu saísse... (E12)
Fonte: elaboração própria.
Quadro 4. Unidades de análise da categoria ‘Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal’ e
depoimentos dos participantes
Unidades Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal
Envolvimento dos E a nossa equipe discute os casos. Às vezes na viagem, que é longa, e às vezes em reuniões... a gente discute
profissionais da equipe e a gente vê como cada um pode contribuir... (E11)
na discussão de casos, ... a nossa equipe, apesar de ser zona rural, de ser horário corrido, é, a gente tá no primeiro lugar lá nos indi-
no planejamento e cadores, nas metas alcançadas, e isso é um trabalho em equipe, não foi só a enfermeira, não foi só eu, foi em
nas metas do Previne conjunto. (E3)
Brasil O atendimento odontológico a gestante hoje é uma meta do Previne Brasil. Então, a enfermagem, ela já se
importa de colocar essas gestantes para fazer o pré-natal odontológico... (E7)
... nós fazemos as reuniões mensais, e a gente faz o planejamento para traçar as metas. Porque, uma vez no
mês, a gente faz as reuniões mensais da equipe, e ali cada um expõe, né, suas necessidades, suas metas, seus
planejamentos. E a gente tem também aqui o Previne Brasil, que a gente trabalha com metas... toda a equipe
tem que atingir aquela meta... A questão do pré-natal odontológico... Nos últimos quadrimestres, a gente
vem atingido a meta... (E9)
Participação dos ... todo ano tem ações Novembro Azul, né, Setembro Amarelo.... eu tento trazer um pouco da odontologia...
profissionais nas cam- ‘ah, hoje a gente vai tratar saúde mental’, que a odontologia não pode entrar. Pode entrar, sim. E, assim, a
panhas e atividades gente vai quebrando um pouco paradigma de que o dentista é só o consultório. (E2)
envolvendo linhas de ... um problema muito relevante na minha área... Tem muito paciente que faz uso de psicotrópico... tem
cuidado problema de saúde mental e tem muita medicação dessa natureza de uso contínuo lá... especificamente, no
sítio onde é a sede... tem muita gente lá que precisa desses cuidados especiais. (E4)
... muitos pacientes com algum transtorno ou alguma dificuldade mental, social... a gente organiza palestras,
pra intensificar essa questão sobre o cuidado com a mente... (E8)
A minha enfermeira, ela é muito caprichosa quando tem os eventos tipo o Outubro Rosa, Novembro Azul,
Agosto Dourado... ela se empenha muito pra fazer as atividades coletivas... Tavam esperando 10, 12 gestan-
tes, não apareceu uma.... tem esse lado que desestimula a gente.... (E4)
Porque a zona rural da gente... você precisa deslocar o pessoal pra uma associação, uma escola...você não
tem o transporte... o Outubro Rosa... a população não tem o meio de ir pra unidade… tinha o grupo de taba-
gismo... a população não ia pela dificuldade de se locomover... isso também vai desestimulando um pouco a
equipe... (E5)
Até eu entrava nessa parte sexual também. Essa questão nos adolescentes... Essa questão de doenças tam-
bém, porque eles são um pouquinho pra frente lá... Aí eu puxei pra esse lado também. (E10)
... eu não me isento. Eu tô sempre participativo. Quando a atividade educativa não é comigo, mas é com a
enfermeira... O médico não está. É uma questão da saúde do homem. A enfermeira, mulher, fica um pouco
constrangida: ‘você poderia?’ Eu digo: ‘com certeza’. (E11)
Quadro 4. Unidades de análise da categoria ‘Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal’ e
depoimentos dos participantes
Unidades Intrassetorialidade e Intersetorialidade nas Ações de Saúde Bucal
Parceria com outros ... nessa pós-pandemia que tem aumentado as pessoas que têm chegado com hábitos parafuncionais, que
núcleos têm chegado com bruxismo, que tem chegado com DTM... Isso tudo por conta da ansiedade... tem que ter
profissionais uma equipe multidisciplinar para tratar esses pacientes... A gente tem aqui o Caps... tem psicólogo, psiquia-
tra, terapeuta ocupacional. Todo mundo lá que dá esse apoio. (E9)
Nós temos o Caps, onde a gente encaminha. Nós temos o Cras, que quando acontece algum problema que
a gente identifica de abuso infantil... quando vou fazer alguma atividade, eu solicito o apoio deles [profissio-
nais do Nasf], e eles se envolvem muito. (E11)
Eu tenho uma paciente que teve uma fratura dento-alveolar... aí eu precisei encaminhar ela para o nutricio-
nista do NASF, porque ela vai precisar passar por uma alimentação líquida e pastosa. E aí eu preciso de outro
profissional para me ajudar, senão o meu tratamento não vai ser eficiente... Temos muito paciente infantil
que tem casos de bruxismo, e aí eu já encaminhei para o psicólogo do Nasf... (E1)
Apoio dos ACS ... a gente tem o apoio dos agentes de saúde, né? Que eles fazem essa ponte para gente, entre os usuários e
os profissionais. Então eles vão também, eles fazem essa comunicação, da gente com os usuários, né? Por-
que, de toda forma, eles que tão lá de porta a porta. Eles que conhecem os usuários. Sabem, aqueles que são
mais vulneráveis, né? (E9)
... a escola é próxima... muitas crianças com dente infeccionado, aí a gente foi identificando falando com
agente de saúde... Quando a gente descobriu, era uma menina que vendia bala, biscoito recheado, tudo, na
porta. A gente até teve um problema com essa menina, porque era o ganha pão dela. Mas a gente chamou
a nutricionista da escola... convocou os pais para uma reunião, pra tentar combater... Acho que o cuidado é
isso, você identificar as fragilidades daquela população e tentar suprir e melhorar a saúde. Melhorar a vida da
população. A gente tá ali para isso. (E11)
Participação no PSE O PSE a gente não está fazendo... precisa ter o transporte pra ir fazer, mas não tem... a equipe geralmente vai
quando o carro vai... aí faz aquela cobrança: ‘ah, vai ter o PSE nas escolas, uma equipe fazer o levantamen-
to’... O único PSE que se faz é esse, de fazer aplicação de flúor. Mas em alguns municípios quando a gente ia,
você tinha como levar as crianças pra fazer o acompanhamento... começar e terminar a parte clínica, não só
a parte educativa. Tinha a parte educativa, mas tinha que atender aquele pessoal que foi triado no levanta-
mento epidemiológico. Nesse município não tem isso. (E5)
E aí acaba que eu só englobo a escola da manhã, porque a da tarde o PSE não funciona. E aí a gente faz
palestras... faz o índice de CPO... a gente já agenda também prioridade. Tem um dia de prioridade para as
crianças da escola... Eu faço geralmente de seis em seis meses [índice] e palestra mês e mês... aí, toda vez
que eu volto eu tento fazer uma sala... como eu só atendo de manhã e lá funciona de manhã e de tarde, essas
outras crianças da tarde acabam ficando um pouco perdidas, porque eu não estou lá, e elas não têm tanto
acesso a transportes pela manhã. (E12)
Promoção de saúde bucal... eu trabalho muito com isso nas escolas, no PSE... Mesmo as [crianças] que
tinham mais medo sentaram na cadeira... eu atendi um por um... E a aplicação de flúor surte efeito, muito
efeito.... Hoje, é completamente diferente o quadro. Peguei uma criança essa semana que eu me espantei
com ela. Com muita cárie... mas aí, a falha foi minha, porque eu não tinha ido pela manhã, há mais de um
ano... Nessa escola, eu só tinha ido à tarde... (E13)
...alguns [usuários] vêm de transporte próprio, outros vêm nos ônibus escolares, que vêm todo dia e voltam,
né? Para deixar os alunos... e também a prefeitura oferece, assim, quando precisa, oferece os carros também
para pegar e deixar. (E9)
Então, uns vão a pé, outros vão de moto, outros vão de bicicleta, outros vão nos carros da escola, chegam no
carro da escola, saem no carro da escola... (E12)
Fonte: elaboração própria.
Quadro 5. Unidades de análise da categoria ‘Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal’ e depoimento
dos participantes
Unidades Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal
Apoio da gestão local A gente não fez o levantamento. Infelizmente, ali a gente não tem esse suporte da gestão, para os levanta-
na manutenção e con- mentos epidemiológicos mesmos. (E11)
dições de trabalho As condições de trabalho são bastante eficientes, tanto no que eu digo de estrutura, manutenção também. A
gestão é totalmente preocupada com o serviço... Por exemplo, se hoje quebra uma cadeira, o técnico já vem...
A gestão não deixa faltar nada. (E1)
a odontologia não existe sem água... Eu acho que esse é o principal problema e que se arrasta há mais de
uma gestão... vai cansando... (E3)
Se a autoclave está quebrada, eu não vou passar álcool no kit clínico pra poder atender mais pessoas... Por
eu ser concursada, talvez a gestão não me veja com bons olhos... A gente tinha cinco espátulas de resina. Se
aparecessem seis restaurações, eu não conseguiria fazer... ‘não, passa o álcool e faz nessa’. Não faço! A gente
só tinha três... Se tivesse mais que três extrações de dente permanente... eu batia de frente, porque eles me
cobravam um atendimento a uma demanda maior. Porém, não me forneciam material necessário pra que eu
conseguisse suprir essa demanda... (E8)
... eu já trabalhei em duas gestões... A gestão anterior, faltava muita coisa, faltava luva, a cadeira quebrava e
passava quinze dias sem funcionar... Essa gestão... se quebrou meu consultório hoje, amanhã de manhã tem
alguém para arrumar... Em termos de materiais... até na pandemia mal faltava luva... (E12)
Apoio da gestão local ... assim não tem ponte... às vezes, não consegue passar por conta do carro que fica atolando. Aí ajeitou
na infraestrutura hoje... Se por acaso a noite deu uma chuva mais forte, no outro dia já não passa também... tavam pleiteando
fazer uma ponte... é aquela coisa que vai se travando... ‘não, porque a obra depende do incentivo por exemplo
do governo estadual’. Aí, já não vem a verba. Aí, o municipal não consegue fazer... Reivindicam todo ano... Aí,
o paliativo vem. Depois da chuva, faz o caminho, só que no ano que vem vai acontecer o mesmo problema...
Foge um pouco da parte de atenção... dos profissionais. (E5)
Quando é na época das chuvas, tem cantos que a gente não consegue, às vezes, ir, porque tem riacho, tem
esses pormenores, né, que a gente tem que enfrentar na zona rural. (E11)
O tempo que é mais complicado para eles é o tempo de chuva, porque aí o carro não passa... eles ficam mais
bloqueados nesse sentido. (E12)
Apoio das gestões ... Eu participei de uma capacitação no ano passado, em que a palestrante da capacitação, ela falou que
Estadual e Federal atualmente... não só o Ministério da Saúde, né, todos os ministérios estão uma bagunça. Eu acredito que isso
vai refletindo nos estados, nos municípios. Então, eu acho que isso é um reflexo da atual gestão presidencial
também. (E3)
... no Estado, eu sempre achei muita negligência... a saúde bucal é nas costas dos municípios, porque, com a
exceção dos cirurgiões-bucomaxilofacial, que essa especialidade tem na rede hospitalar do Estado, não existe
saúde bucal na Paraíba a nível de Estado... porque o recurso é federal, e o Programa de Saúde da Família que
se vire pra resolver as demandas. (E4)
Nós tivemos um bom período... pela primeira vez, eu acho que desde que o SUS foi criado, uma atenção para
a saúde bucal, e colocando ela na importância que ela tem... eu acredito que falta sensibilidade dos gesto-
res. Eu acho que isso em todos os níveis... Estadual, para mim, praticamente inexiste o estado na odontologia.
Federal, nós temos as políticas do Brasil Sorridente. Mas hoje, eu acredito que muito deixada de lado... (E11)
Os municípios, eles estão realmente com a corda no pescoço. A questão de você municipalizar a saúde, eu
acho ótimo... Só que, de uns tempos para cá, a gente tem tido muito regresso em questão de transferência de
recursos... muitas vezes, a gente chega com uma ideia. O gestor até se dispõe a comprar a ideia, mas ele não
tem da onde tirar recurso para isso. (E11)
Quadro 5. Unidades de análise da categoria ‘Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal’ e depoimento
dos participantes
Unidades Governança e Sustentabilidade nas Ações de Saúde Bucal
Valorização dos Acredito que a gestão goste do meu trabalho... eu acho que eles têm uma confiança no meu trabalho... (E1)
profissionais por parte ... em algumas situações, a gente vê gestores tratando odontologia como segunda classe... há muita impor-
da gestão local tância para a área médica, na figura do médico, e se esquece muito a importância odontológica... (E11)
... ela [ASB] leva o fotopolimerizador... porque nos outros dois postos, não tem. Era um dos motivos que a
gente pegava o carro da prefeitura. Mas a secretária proibiu, porque estava atrasando [cita o núcleo profis-
sional], porque pra gestão é mais importante um atendimento médico do que um odontológico. (E13)
... ainda tem cidade que paga mais abaixo... é um dos motivos também que a gente não tem empodera-
mento. Às vezes, vai e diminui a gente um pouco... nas reuniões: ‘Olhe! Aqui é assim, se não gostou, vai pra
o particular.’... Só que o mercado tá tão difícil que a gente tem que se submeter a isso.... E a gente não pode
deixar o certo, mesmo que pouco, pra aventurar o incerto... E a falta de coragem nos corta a asa. (E13)
Apoio da gestão e Pode ser que esteja bem, mas pode ser que esteja pior... esse SBBrasil que estão fazendo... consiga dar uma
perspectivas para os reestruturada, mudança na Política Nacional de Saúde Bucal... Quando a gente não tem uma figura lá em
próximos 10 anos cima, que apoie certas causas, certas bandeiras, isso reflete muito na população. (E3)
Se continuar do jeito que está, não vai mudar muita coisa. Vai ter pessoas com cárie, pessoas arrancando os
dentes... perdendo dente por nada... se a gestão e os profissionais não tiverem essa visão, da importância da
prevenção... A gente vai continuar com os mesmos problemas e resolvendo os mesmos problemas. (E8)
Fonte: elaboração própria.
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Recebido em 19/05/2023
51. Moretti AC, Teixeira FF, Suss FMB, et al. Interseto- Aprovado em 19/01/2024
Conflito de interesses: inexistente
rialidade nas ações de promoção de saúde realizadas
Suporte financeiro: não houve
pelas equipes de saúde bucal de Curitiba (PR). Ciênc.
Editora responsável: Lenaura de Vasconcelos Costa Lobato
saúde coletiva. 2010; 15(supl1):1827-34.