AS MARCAS DA VARÍOLA
“Para mitigar a febre, você asperge, do pote cheio, OS REGISTROS MAIS ANTIGOS
com a vassoura, a água da imortalidade.(...) Você refresca da varíola foram encontrados em egípcios mumificados há
o calor escaldante das pústulas; Shitala, eu te venero.” cerca de 3 mil anos. Do Vale do Nilo, espalhou-se para a
Oração indiana Índia, chegando à China no século I d.C. As primeiras
descrições da doença são do médico chinês Ko
A VARÍOLA ERA UMA DOENÇA AGUDA, Hung (340 d.C), de Ahrun de Alexandria (622)
causada por um vírus – o Poxvirus variolae. e do persa Abui-Bekr Al-Razi (Rhazes),
Ocorria sob duas formas, com comportamentos em seu livro De Pestilentia, no século X.
epidemiológicos distintos, mas manifestações É possível que a moléstia tenha sido
clínicas semelhantes. A varíola major, a causa de epidemias como a Praga de
popularmente conhecida como bexiga, Atenas (430 a.C.), a Praga Antonina (165)
caracterizava-se por quadros clínicos mais e pela devastação do exército etíope na
graves e alto índice de mortalidade. A varíola Guerra dos Elefantes em Meca (568). Mumificado em 1157 a.C.,
minor, ou alastrim, mais branda, matava o faraó Ramsés V mostra,
em seu rosto, cicatrizes
menos de 1% dos atingidos. características da varíola.
O período de incubação durava de
Vírus da varíola em membrana
visto ao microscópio. 10 a 14 dias. As primeiras manifestações
da doença eram febre, mal-estar e dores de cabeça e
nas costas. Dois a três dias depois, começavam
repentinamente as erupções na pele, normalmente
no rosto, nos braços e nas pernas. A princípio, eram
pequenas brotoejas, que evoluíam depois para pústulas
(bolhas purulentas). Muitas vezes, estas lesões eram Gravura medieval de
Guerreiro Sarraceno.
confluentes, isto é, carreiras de pústulas se unindo
ao longo do corpo, formando o que popularmente se
chamava de bexiga de canudo. Nas formas mais graves, A primeira referência à doença na Europa foi feita por
os pacientes apresentavam hemorragias na pele e nas Gregório de Tours, cronista do reino franco, em 582, relatando
mucosas, falecendo entre o quinto e o sexto dia. a morte de dois jovens príncipes por uma moléstia que
Com freqüência, a varíola deixava cicatrizes na chamou de corales. Ela retornou às terras européias no século
pele, especialmente na face. Outras seqüelas mais raras VIII, junto com os sarracenos, e espalhou-se pelo continente,
eram cegueira e deformidades nos membros. levada pelos cruzados, provocando epidemias devastadoras.
Entre os ortopoxvirus, figuram ainda os vírus Epidemias de varíola na Inglaterra no século XVII
da varíola do camundongo, de camelos, de macacos, apresentavam taxas de mortalidade equivalentes a
de bovinos (cowpox) e da vacínia (um mutante um sexto da natalidade. Calcula-se que somente no século
utilizado na vacina). Os três últimos podem XVIII, quando era endêmica na maior parte do mundo,
Ao lado, menina com varíola, s/d.
Acervo Biblioteca Nacional de Paris. infectar o homem. a doença matou mais de 60 milhões de pessoas.
ATRAVESSANDO MUNDOS
“Muitos morreram com a pegajosa, A PRIMEIRA EPIDEMIA DE VARÍOLA NO
compacta, dura doença dos grãos.” BRASIL COMEÇOU EM 1563, na Ilha de Itaparica,
Eduardo Galeano na Bahia, e chegou até São Paulo, matando pelo menos 30 mil índios.
Em 1599, devastou o Rio de Janeiro, fazendo mais de 3 mil vítimas,
entre indígenas e negros. Meseba-ayba, a doença maligna – era
A VARÍOLA CHEGOU ÀS como os tupis chamaram a varíola.
AMÉRICAS junto com os espanhóis No final do século XIX, foram registrados os primeiros surtos de
e, em contato com populações sem nenhuma varíola minor na Flórida (EUA) e África do Sul. A forma mais branda
imunidade, assumiu proporções trágicas. Ajudou da doença logo se espalhou pelo mundo, tornando-se endêmica
Cortez, dizimando quase metade dos exércitos em várias partes da África, nos Estados Unidos e no Brasil.
astecas, inclusive o rei Cuitlahuac, que substituíra
Montezuma no comando. Espalhou-se para o sul e norte, devastando
o império inca e matando o imperador Huayna Chupauc, DOENÇA DA INFÂNCIA, A VARÍOLA NÃO
seu herdeiro e vários generais. POUPAVA NINGUÉM. Mas a miséria lhe dava uma face
A varíola foi vital para a colonização dos Estados Unidos e mais trágica. Era nos bairros populares que a devastação se fazia maior,
do Canadá, devastando as tribos indígenas a partir do século XVII. favorecida pelas péssimas condições de higiene e pela promiscuidade.
É provável que algumas dessas epidemias tenham sido deliberadamente Entre os aristocratas, a facilidade de isolamento durante as epidemias
causadas pelos brancos, conforme comprova esta fazia com que fossem infectados mais tarde, muitas vezes já adultos.
correspondência entre Sir Jeffrey Amherst, Num mundo regido pelas aparências, os estigmas da varíola despertavam
comandante-em-chefe das forças britânicas na América um terror maior do que a própria morte. Do dia para a noite, casamentos
do Norte, e o coronel Henry Bouquet, em 1763, e ambições se dissipavam na escuridão dos conventos, onde um
na época da rebelião no Potomac: grande número de mulheres, antes desejáveis, escondia seus rostos
marcados dos olhares indiscretos.
A varíola matou imperadores chineses, czares russos, monarcas
europeus e califas árabes. Morreram da doença Luís XV da França,
“Não seria possível inventar um meio de difundir Mary II, rainha da Inglaterra, o imperador José I da Áustria, rei Luís I da
a varíola entre estas tribos de índios desleais? Neste Espanha, czar Pedro II da Rússia e d. Pedro Carlos, genro de d. João VI.
momento, devemos utilizar cada estratagema Muitos sobreviveram. Alguns, com mais sorte,
em nosso poder para reduzir seu número.” quase sem cicatrizes, como Luís XIV, outros bem
Representação asteca da varíola.
“Tentarei inocular [ ] fazendo cair em suas marcados, como a rainha Elizabeth I e Mirabeau.
mãos alguns cobertores e tomando Tiveram varíola ainda Catarina de Médicis,
cuidado para não me contaminar.” Chateaubriand e George Washington.
No canto direito, a varíola colocou Luís XVI no trono – e no caminho da guilhotina –,
pois matou seu pai, o Delfim, em 1711, e seu avô, Luís XV, em 1774.
Ao lado, charge retirada de O Tagarela, setembro de 1904. Autor: A. Rego. Acervo Casa de Oswaldo Cruz.
SOB O OLHAR DA DIVINDADE
“Atotô, Omolu, pai da bexiga negra, da força
e da saúde, atotô, meu pai Obaluaê”.
Jorge Amado
FACE A UMA MOLÉSTIA TÃO
DEVASTADORA, o remédio era recorrer
aos deuses. Shitala Mata, a deusa da varíola,
abençoava os hindus, enviando-lhes a moléstia. Trazer
suas marcas representava um sinal da graça divina.
Morto pelos hunos em 452, logo após
recuperar-se de um ataque da doença,
São Nicásio, bispo de Rheims, era reverenciado
na Idade Média como padroeiro das vítimas da
varíola. T'ou-Shen Niang-Niang era a deusa da
varíola na China. Já os japoneses recorriam a Chinzei
Shitala Mata, deusa Hachiro Tametomo, um herói mítico do século XII.
indiana da varíola.
Para os africanos, Xapanã (Sapona), senhor das doenças contagiosas
e da cura, enviava a varíola a seus inimigos. Chamado
de Obaluaê (Senhor da Terra) ou de Omolu (Filho do Senhor),
chegou ao Brasil trazido pelos escravos. Os iaôs (filhos) de
Omolu cobrem-se de palha desde a cabeça, ocultando
o rosto, e brandem xaxarás, espécie de vassoura, que
representa a propagação e a cura da bexiga.
Homenageia-se o orixá com pipoca.
No Brasil, o sincretismo religioso associou
Omolu a São Lázaro que, de santo protetor
dos leprosos, passou a velar também pelos
bexiguentos. Acredita-se que a crença em
Omolu foi um dos motivos para a participação
da população negra na Revolta da Vacina.
Deusa da varíola, T’ou-Shen Niang-Niang, era associada a uma monja
budista do século XI, que se acreditava ter introduzido a variolização no país.
Os iaôs de Omolu dançam Segundo lenda japonesa, Tametomo, um arqueiro habilidoso,
curvados, como que impedira o demônio da varíola de aportar na Ilha de Oshima, onde estava exilado.
atormentados por dores,
imitando as coceiras e os tremores Os chineses apelavam ainda a Ma-chen, que curava as cicatrizes da doença.
da doença. Gravura de Caribé
para o romance de Jorge Amado,
Tereza Batista Cansada de Guerra.
MAGIA E POÇÕES
“Corri mais, corri daquela casa, daquele laboratório de horror em que o africano
deus selvagem da bexiga, Obaluaê, escancarava a face deglutindo pus.”
João do Rio
Os bezoares mais famosos vinham
das cabras selvagens da Pérsia.
ERA FÉRTIL E VARIADO O RECEITUÁRIO
CONTRA A VARÍOLA. Havia remédios para evitar a doença,
para tratar os doentes e para remover as cicatrizes. O médico árabe
Al-Razi (Rhazes) recomendava os poderes preventivos da cânfora
durante as epidemias. Empregava-se ainda o óxido de mercúrio,
a água de alcatrão e a tintura de mirra.
Duas medidas preventivas foram mais difundidas. Uma era
a retirada do sangue do cordão umbilical, para evitar que as impurezas
uterinas – para muitos, causa da varíola – fossem transmitidas à criança.
Outra foi o uso de bezoares – pedrinhas encontradas no estômago ou
nos intestinos de alguns animais ruminantes.
Instalada a doença, a classe médica dividia-se. Uns procuravam
expulsar a doença com calor, colocando o paciente em ambiente Em várias receitas contra a varíola,
figurava o chifre de unicórnio, animal
superaquecido e usando bebidas sudoríferas, como cidra com canela mítico, visto abaixo em gravura
medieval sobre a lenda de Santa Úrsula.
e pimenta, vinho quente e licores. Outros defendiam métodos
refrescantes, como exposição dos doentes a correntes de ar,
tisanas frias, eméticos e sangrias.
Ishinho, uma obra médica japonesa de 982 d.C., foi o primeiro livro
a mencionar o tratamento vermelho, isto é, a colocação de tecidos,
materiais e luzes de cor vermelha nos quartos de pacientes com varíola.
Empregado também na China, Índia, Turquia e na Geórgia asiática, chegou
à Europa no século XII. Ao adoecerem, Carlos V, da França, e Elizabeth I, da
Inglaterra, usaram trajes vermelhos e cobertas vermelhas. A eritroterapia
persistiu até a década de 30 e teve como um de seus defensores o
dermatologista Niels Finder, prêmio Nobel.
Os jesuítas recomendavam um cordial, composto por flor de
papoulas vermelhas, bagas de sabugo, fezes de cavalo bem recentes e
bezoártico do Curvo – um preparado que continha pós de bezoar e
Pan-chen protegia as vítimas de chifre de unicórnio, olhos de caranguejo, raízes e folhas de ouro fino,
da bexiga negra. A cor
vermelha era associada à entre outras coisas. Para as cicatrizes, as opções eram suco de miolo
maioria dos deuses que
protegiam contra a varíola. de coelho assado, pós de alvaiade e de pedra-ume.
O CASTIGO DOS DEUSES
“Para o povo, porém, a bexiga de canudo JORGE AMADO MOSTRA a bexiga
era uma espécie mais virulenta ainda de como um velho conhecido da população, sempre
varíola, a mais terrível, dita a mãe da assombrando as terras da Bahia. Devastando
bexiga, de todas as outras, da negra, os bairros mais miseráveis, retrata o descaso
da branca, do alastrim, da varicela.” das autoridades com os mais pobres e a
Jorge Amado precariedade dos serviços de saúde.
Em Tereza Batista Cansada de Guerra, é bexiga
NA LITERATURA, as cicatrizes negra, “determinada a matar, fazendo-o com
e o terror que estas inspiravam às mulheres maestria, frieza e malvadez, forte, feia e ruim”, mas
transformou a varíola na punição exemplar que acaba derrotada pela solidariedade e coragem
para aquelas que se desviavam dos padrões dos marginalizados. Em Capitães de Areia, Omolu
morais vigentes. manda a varíola para se vingar dos ricos, mas
Em As Relações Perigosas, Choderlos de como estes estavam vacinados, transforma-a
Laclos pune Valmont com a morte em duelo, em “alastrim, bexiga branca e tola”.
Gravura do romance
mas reserva à marquesa de Merteuil um “...que sabia Omolu de vacinas? Era uma pobre deusa das florestas Tereza Batista
Cansada de Guerra,
destino bem mais trágico: “...seria uma felicidade da África. (...) Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos de Jorge Amado.
para ela morrer de varíola. Salvou-se, é verdade, negros. O lazareto é que os matava.”
mas horrivelmente desfigurada; e perdeu Numa crônica em que conta uma visita ao Hospital São Sebastião,
também um olho. (...) disseram-me que “grande forno da peste sangrenta”, João do Rio relata seu horror,
está realmente medonha.” quando se defronta com a desfiguração causada pela varíola:
Émile Zola não só mata Nana de varíola,
mas destrói-lhe a beleza, responsável pela “Eu tinha diante de mim um monstro. As faces inchadas,
ruína de tantos homens: vermelhas e em pus, os lábios lívidos... Era como se aquela
Édouard Manet baseou-se em
personagem homônima do livro
“Vênus estava em decomposição. face fosse queimada por dentro e estalasse em empolas e em
A Taberna (1876), de Émile Zola, para
pintar Nana (1877). O quadro deu
Parecia que o vício contraído por ela nos córregos, sobre as carniças apostemas a epiderme. Quis recuar, quis aproximar-me (...)
ao escritor uma imagem mais clara
da protagonista do seu romance
toleradas, esse fermento com o qual havia envenenado um povo, Há epidemia, oh! sim, há epidemia! E eu tenho medo, Hospital de
Isolamento São
admirável de 1879, Nana. acabara de lhe subir ao rosto e a havia feito apodrecer.” meu amigo, um grande, um desastrado pavor...” Sebastião, no Caju.