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História da Ciência na América Latina

historia da ciencia

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GiseleRangel
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ntrodução:

Este volume reúne pela primeira vez uma história da ciência como um todo na
região geográfica e cultural conhecida como América Latina. Os autores são
historiadores da ciência e discutem, entre outras questões, o que, em diferentes
momentos e sob diferentes circunstâncias, foi entendido como ciência na América
Latina, as formas assumidas pela atividade científica, os cenários responsáveis
pelas peculiaridades autóctones da ciência na região, bem como a adoção da
ciência europeia e sua evolução na América Latina. Esta é uma história local de
como acidentes geográficos, indivíduos e grupos de indivíduos, instituições,
ideologias, conceitos e teorias científicas afetam uns aos outros num contexto
social e cultural específico.

Esta história social da ciência de forma alguma despreza os aspectos intelectuais


da ciência. Pelo contrário, ajuda-nos a compreender a natureza e o comportamento
dos grupos sociais (os cientistas) que criaram, desenvolveram ou incorporaram
conceitos e teorias num determinado contexto social e sempre como
consequência desse contexto. Igual atenção é dada aos aspectos gerais da
sociedade e da geografia regional (ordem social, cultura, recursos naturais,
localização geográfica, etc.) que são responsáveis por atitudes em relação à
ciência e que lhe impõem um estilo particular. Os autores deste volume usam
novas perspectivas analíticas (formas de abordagem da história das ciências) e
oferecem uma nova imagem do passado científico latino-americano.

Por que essa história nunca foi escrita antes? Não tivemos, durante séculos, os
mais variados testemunhos de que experimentos originais de ciência e técnica
foram desenvolvidos nesta parte do planeta? Além disso, em praticamente toda a
América Latina, têm havido esforços significativos para registrar a história de
momentos, pessoas, instituições, realizações e outros aspectos da atividade
científica que ali se desenvolveu. Existem até histórias que apresentam a ciência
como formuladora de uma visão nacional completa. No entanto, aparentemente
não foi compreendido que a ciência é um dos muitos fios compartilhados que
certamente continuarão a amarrar ainda mais fortemente a estrutura da história
latino-americana. A ciência, por estar entrelaçada com outros aspectos da vida
social e cultural, tem sido a causa e também o efeito de importantes eventos
históricos regionais e é vista como tal nos capítulos que compõem este livro.
Certamente, também há diferenças nacionais a serem levadas em consideração,
que datam de muitos séculos e se desenvolveram em circunstâncias desiguais.

A premissa dos autores dos estudos aqui reunidos é que a América Latina é uma
região. Na geografia da ciência americana, os aspectos não triviais podem ser
distinguidos pela compreensão de sua natureza e organização, pois são estes que
diferenciam esta região das outras. O relevo topográfico, a natureza do terreno, o
clima, a grande diversidade de flora e fauna em algumas áreas, os tipos de
depósitos minerais e assim por diante, criam áreas geográficas muito definidas e
características, como a região amazônica, a região mesoamericana, planícies, as
terras altas andinas e mexicanas. Os padrões culturais e científicos da região
dependem dessas condições materiais. Exemplos claros incluem as ciências e a
tecnologia ameríndias (fitoterapia, astronomia, técnicas agrícolas, medicina) e a
história natural dos séculos XVII ao XIX (botânica, zoologia, paleontologia,
mineralogia), como se verá.

Da mesma forma, traços coletivos característicos surgiram ao longo da dinâmica


histórica da região. Os exemplos incluem as culturas e civilizações autóctones
altamente desenvolvidas nos Andes e na Mesoamérica, que impuseram, e ainda
impõem, características particulares na vida social dessas regiões. Essa
circunstância determinou, por exemplo, a decisão dos conquistadores europeus de
estabelecer seus principais vice-reinados no Peru e no México — lugares onde
civilizações social, política e culturalmente avançadas já existiam. Em contraste, a
colonização anglo-saxônica da parte nordeste da América do Norte seguiu um
padrão totalmente diferente. Com uma população indígena que se pode chamar de
pouco desenvolvida do ponto de vista social e cultural, a organização social
desenvolvida naquela área imitava a da Europa e diferia daquela desenvolvida na
América indígena-hispano-portuguesa. No entanto, devemos notar que um estilo
particular de tradição científica também se desenvolveu nas treze colônias
britânicas originais ao longo do tempo e através de dinâmicas sociais.

Os estilos científicos revelam as diversas condições sócio-históricas e geográficas


a que foi submetida a ciência. É o caso da América espanhola, onde, à medida que
a Conquista e a imposição da civilização ocidental truncaram os processos sociais
e culturais nativos, o sincretismo entre os antigos saberes locais e os novos
conhecimentos impostos pelos europeus, a fertilização cruzada desses sistemas e
formas não típicas das práticas científicas tradicionais europeias e ameríndias
surgiram. A prova se encontra na sobrevivência de significativas comunidades
indígenas que possuem uma cultura sólida com elementos de suas ciências e
técnicas tradicionais.

As novas sociedades que começaram a se desenvolver nas Américas no século XVI


levaram a uma evolução social e cultural sem precedentes históricos. Novas
características sociais derivadas tanto da ordem social e cultural imposta quanto
da ordem nativa. Para nossos propósitos, a criação gradual dos colonos de sua
própria identidade latino-americana (pela “indianização” dos nativos e através da
miscigenação e creolização [criollismo]) durante trezentos anos de vida colonial é
especialmente significativa. Esses fatos sociais e culturais foram expressos na
ciência que se desenvolveu na região. Essa ciência tinha uma propensão a usar o
conhecimento estabelecido para entender a realidade natural e humana imediata
ou para desenvolvê-la se necessário. Um sentimento territorial, ou telúrico, e o zelo
para que seus conhecimentos desempenhem um papel social foram estímulos
intelectuais e sociais importantes e atuaram sobre os cientistas latino-americanos
no final da era colonial.
A emancipação das sociedades americanas na segunda década do século XIX viu
mais uma vez a atividade científica seguir um curso particular. As novas nações
americanas deram as boas-vindas ao século XIX com otimismo, e tinham
esperança na ciência para dar uma educação moderna a seu povo e proporcionar
o bem-estar e a transformação material da sociedade. A herança sociocultural
colonial e os formidáveis desafios internos e externos que as novas nações tiveram
que enfrentar impediram os projetos científicos da “Geração da Independência”.
No entanto, a América Latina sentiu a necessidade de se transformar e se adaptar
às novas exigências de sua evolução social. A reforma educacional baseada na
ciência foi empreendida em todos os países recém-independentes, e o emprego
das ciências e da tecnologia para fins sociais e políticos, imaginado na
independência e motivado pelo objetivo do “progresso”, começou na segunda
metade do século.

No século XX, especialmente mais para o final, a ciência e a tecnologia tornaram-


se onipresentes. Agora envolvem tudo, incluindo assuntos internacionais. A ciência
também se tornou uma disciplina acadêmica importante, e as escolas “invisíveis”
se comunicam com mais intensidade agora. Em meados do século XX, tornou-se
evidente a necessidade de estimular estratégias de desenvolvimento social e
econômico que incluíssem as ciências e a tecnologia como um componente
importante. Diante de situações críticas como o endividamento externo e a
concomitante redução dos recursos gastos em ciência e tecnologia, os latino-
americanos perceberam que a cooperação e a colaboração científica regional
poderiam ser a resposta à “década perdida” dos anos 1980.

Com a globalização de todos os tipos e o desafio da terceira Revolução Industrial,


a coordenação da ciência e da tecnologia tornou-se uma estratégia adequada e
apropriada para o futuro da América Latina. Atualmente, existem inúmeras áreas
das ciências e da tecnologia em que existe cooperação regional e sub-regional.
Questões vitais para todos os países — como proteção do meio ambiente,
comunicações e ciência da informação, energia, novos materiais, saúde,
agricultura, biotecnologia, desenvolvimento científico e tecnológico, ciências
básicas e ensino de ciências — estão exigindo cooperação mais estreita entre as
nações latino-americanas.

A escolha pela ciência e tecnologia endógena nesses países, na opinião dos


colaboradores deste livro, é historicamente irreversível. Mas, ao mesmo tempo, é
igualmente importante reconhecer que as pessoas pertencem a um determinado
ambiente sociocultural e que a modernização não é transferível nem garante o
sucesso. A prevalência de décadas de voluntarismo científico e técnico confirma
isso. É por isso que os estudos sócio-históricos da ciência e tecnologia se tornaram
indispensáveis e nos permitem entender a dimensão cultural da ciência e da
tecnologia, onde os principais atores da mudança podem submeter a ciência ao
seu controle (ou seja, contribuir com um pouco do realismo tão necessário aos
projetos atuais de desenvolvimento).

Abordagens historiográficas: o surgimento da “ciência periférica”

Desde a década de 1940, a história das ciências como disciplina desenvolveu-se


conceitual e tecnicamente. Passou do nível de “gênero literário” imposto no século
XVIII (para relatar os principais episódios da evolução da ciência) às ideias
científicas e às condições externas que tornam a ciência possível. A ausência da
América Latina e, em linhas gerais, da periferia chama a atenção na literatura
especializada internacional sobre a evolução técnica da historiografia da ciência.
Isso não significa que os estudos históricos das ciências desses países ou das
regiões periféricas sejam inexistentes. Tem havido sim alguns e é possível falar
sobre certas tradições — como as da América Latina. Em vez disso, refiro-me aqui
à situação embaraçosa que um historiador da ciência latino-americano enfrenta:
de um lado, a afirmação do caráter universal e positivo do conhecimento científico;
e de outro, a natureza contextual da atividade científica amplamente reconhecida.
Essa situação consiste em “estar” (como diz José Sala ao se referir à América
Latina) entre a história da ciência e a sua filosofia.
Este importante tema está em foco desde os anos 1980. A conhecida polêmica
entre a ciência espanhola e a latino-americana, que incluía nuances raciais e
separava culturas e regiões da capacidade de produzir ciência, foi posta de lado. A
pesquisa baseada em fatos foi necessária para demonstrar o quanto a atividade
científica latino-americana tem sido frutífera e variada; para mostrar a existência de
questões teóricas na historiografia da ciência essenciais para regiões geográficas e
culturais específicas e, finalmente, para derrubar o complexo quadro de ideias
sobre o que é a história das ciências e a própria ciência e localizar no campo
filosófico da historiografia as questões sérias e prementes do que tem sido algo
mais do que mero esquecimento: a existência de uma ciência latino-americana.

Além disso, na América Latina, a história da ciência tinha sido essencialmente uma
história “secreta”, segundo Elías Trabulse, ou mesmo “não contada”, como afirma
Marcos Cueto. De fato, essa história permaneceu oculta e subterrânea, embora
tenha se desenvolvido cronologicamente paralelamente à os acontecimentos
políticos, sociais, econômicos e culturais que constituem o passado do povo
latino-americano.

Pois bem, por que essa história “secreta” permaneceu secreta e por que os
historiadores, via de regra, não a estudaram? Foi por causa da abordagem, dos
métodos historiográficos e das teorias que prevaleceram até recentemente. Não
obstante, a evolução da historiografia da ciência permitiu que o campo se abrisse
à atividade científica de regiões culturais antes excluídas, a América Latina, no
nosso caso. Assim, indivíduos e circunstâncias, textos, instituições, práticas,
políticas e teorias que nunca antes foram pensadas — e das quais este livro trata —
surgiram no trabalho dos historiadores das ciências.
Os estudos históricos sobre a ciência local tiveram, até a década de 1980, um
horizonte limitado e uma compreensão distorcida da atividade científica.
Basicamente, os trabalhos que buscaram registrar a experiência científica latino-
americana foram histórias laudatórias, cronologias de acontecimentos e relatos
comemorativos, todos revelando imprecisões metodológicas e pouca
compreensão das peculiaridades do campo. Outros trabalhos buscaram
desenvolver uma história das “contribuições” para a ciência universal. Um
eurocentrismo subjacente na historiografia conduziu esforços a partir do século XIX
para delinear conceitualmente a história da ciência latino-americana, que,
surpreendentemente e ex hipothesi, excluía a América Latina. Além disso, as
“contribuições” latino-americanas foram realmente muito escassas. Esta situação
levou os historiadores contemporâneos da ciência a desenvolver uma perspectiva
a partir da qual a ciência surgiria, como diz Shozo Motoyama, “como um processo
social que poderia ser compreendido mesmo fora do quadro europeu”.

Tudo isso ilustra o papel marginal atribuído à América Latina, que, embora não
tenha participado da Revolução Científica, tem nos últimos quatro séculos e meio
contribuído com realizações científicas originais para a estrutura sustentada pelos
grandes avanços europeus. Nosso interesse pela história social da ciência latino-
americana se deve a este fato. É uma história ligada à cultura e identidade da região,
porque a inegavelmente valiosa ciência que se desenvolveu na nossa região
interagiu com o contexto social e está a ela indissoluvelmente ligada. Além disso,
essa história também concerne à história geral das ciências, uma vez que relata o
complexo processo da difusão da ciência européia, bem como sua adoção nos
países receptores. É claro que esse processo é uma parte importante da ciência
que se originou na Europa, e estudá-lo é ver no espelho o reflexo das fontes. Mais
importantes são as causas e as circunstâncias dessa reflexão (distorcida ou
refinada) de um feixe que não se espalhou inalterado pela geografia ou pelo tempo.

Se a imagem que se reflete é interessante para a história geral da própria ciência, o


plano da reflexão, continuando a metáfora, é interessante para compreender o
papel que a ciência desempenhou nas sociedades receptoras, bem como as
dificuldades estruturais de estabelecê-la e consolidá-la como ciência nacional.
Assim, história das ciências pode mostrar a dinâmica da cultura científica e das
comunidades, o ethos científico particular, as escolas de pensamento, os
mecanismos sociais de valorização do trabalho científico, as instituições, a política
de desenvolvimento, a constituição de instituições de ensino. Quando essa história
é comparada ao padrão europeu, os efeitos “perversos” e outros aspectos sociais
de grande importância, além de nos permitirem entender o desenvolvimento
científico latino-americano, nos ajudam a esclarecer nossas opções.

Mimese Historiográfica

Na década de 1950, os historiadores da ciência latino-americanos descobriram a


ciência local como um produto da história local. Nessa época surgiram
metodologias como o economicismo e a análise social, que buscaram definir o
objeto da história da ciência. Trabalhos pioneiros como os de José López Sánchez
(Tomás Romay y el origen de la ciencia en Cuba, publicados originalmente em
1950), Fernando de Azevedo (As ciências no Brasil, 1955), e Eli Gortari (La ciencia
en la historia de México, originalmente publicado em 1963), abriram uma nova
janela na historiografia da ciência latino-americana. Entretanto, esse
ressurgimento da historiografia não trouxe a reforma imediata dos problemas
epistemológicos ou das categorias analíticas. Na verdade, um eurocentrismo
incômodo, oriundo de uma certa mimese metodológica, continuava na forma de
uma aparente incapacidade de definir e apreender o objeto apropriado da história
da ciência latino-americana, apesar de incorporar à análise a história social. Uma
geração posterior de historiadores declarou que o modelo universalista da “história
das ciências na América Latina” era insuficiente. Nem a mera referência aos fatos
sociais nem à história era suficiente para compreender a natureza das ciências
nesses países.
A crítica filosófica às metodologias tem mostrado a utilidade de uma “vigilância
epistemológica” nesta disciplina. Até a década de 1980, esse assunto não era
abordado por especialistas, que consideravam natural acompanhar seus colegas
europeus no estudo do passado científico da América Latina. Foi, de fato, numa
imitação metodológica que a ciência e seus condicionadores essenciais
buscaram, em diferentes contextos sociais, as contribuições latino-americanas
para o mainstream científico ou os condicionantes socioeconômicos e culturais
típicos da ciência europeia moderna. Embora o positivismo e o economicismo
tenham sido encorajados para fins nacionalistas (ou seja, para encontrar um lugar
para a América Latina na história da ciência), a questão da especificidade foi
ignorada. Como consequência, produziu-se um estranho e paradoxal discurso
histórico que objetivou compreender o elemento histórico de uma ciência definida
geográfica e culturalmente de acordo com contornos universais. A nova história das
ciências, entendida fundamentalmente como história social, deixava claro que não
apenas o objeto de estudo, mas também os conceitos para apreendê-lo eram
específicos.

Entre as décadas de 1930 e 1950, surgiram na região expectativas de um rápido


desenvolvimento das ciências na América Latina como parte de projetos de
desenvolvimento econômico. Esses projetos concebiam a ciência como fator de
desenvolvimento. Portanto, os latino-americanos buscaram enxertar ou injetar
modernização científica na sociedade e criar instituições e políticas
especificamente dedicadas a esse fim. Colocou-se então a questão da situação da
ciência na América Latina e suas possíveis consequências futuras. Ao contrário dos
métodos historiográficos anteriores, a nova preocupação estava direcionada a
identificar as condições que possibilitam — ou que impedem — o desenvolvimento
científico num determinado contexto sócio-histórico. Fernando de Azevedo, por
exemplo, inspirou-se na sociologia da cultura de Weber. A obra de López Sánchez e
Gortari, por sua vez, teve origem na metodologia fornecida pelo materialismo
histórico.
Azevedo enxergou o desenvolvimento científico brasileiro como parte integrante da
cultura brasileira. Ele questionou as causas do atraso científico de seu país,
tentando identificar a doença e propor remédios. A sua obra afirma que a causa é a
associação do poder civil ao religioso, caracterizada pela Contra-Reforma em
Portugal, porque políticas culturais obscurantistas, necessárias à exploração
económica, foram impostas na colónia. Somente em 1837, durante a Regência,
teve início a ruptura com a tradição colonial de ensino jesuíta. Posteriormente,
ocorreram manifestações científicas esporádicas no campo da pesquisa
experimental e da ciência aplicada. Finalmente, no século XX, os efeitos sobre o
crescimento urbano do desenvolvimento do comércio e da indústria,
principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, levaram à fundação das primeiras
universidades do país (na década de 1930) e de outros centros científicos — que
tinham, até então, abandonado o modelo cultural dominante (literário e retórico).
Azevedo concluiu que as ideias que determinaram o processo cultural brasileiro se
originaram em determinadas políticas e forças econômicas e sociais; somente a
transformação destas poderia ter um impacto positivo na evolução da cultura e, por
conseqüência, das ciências. A história das ciências ajudaria, segundo Azevedo, os
brasileiros a tomarem conhecimento das mudanças que a cultura nacional exigiu
para o desenvolvimento científico.

Quando surgiu, essa abordagem analítica constituiu uma novidade historiográfica.


Pela primeira vez, a atividade científica brasileira foi relacionada a eventos sociais
marcantes da história do país. Mas será que realmente trouxe um relato da
atividade científica no país? O argumento de Azevedo parecia ser um apelo sobre o
que deveria ser mudado para que a ciência pudesse florescer. O que ele sugeriu foi
uma estrutura cultural diferente, capaz de engendrar a ciência como esta
funcionava em países cientificamente avançados.

Paradoxalmente, a tese de que não existiam as condições adequadas (ou seja, a


ausência da ética e da cultura protestantes) para fomentar a ciência contradiz os
esforços de Azevedo e seus colaboradores para fazer uma história de algo que
ainda não existia: as ciências no Brasil. A ilogicidade pode ser explicada pela não
exclusão do tratamento contextual do objeto de estudo e por considerá-lo, antes,
como um exemplo do protótipo — a ciência europeia. Ao contrário das aparências,
a abordagem de Azevedo foi uma variação do eurocentrismo e, do ponto de vista
epistemológico, do externalismo.

Inspirados em teses marxistas, José López Sánchez (em Cuba) e Eli Gortari (no
México) compuseram interpretações históricas do desenvolvimento científico de
seus países, embora López tenha estudado apenas o final do século XVIII. Ambos
os autores sustentaram que a introdução da ciência moderna foi o resultado do
estabelecimento do capitalismo. Na opinião deles, os efeitos revolucionários da
ciência se manifestaram na economia por causa da contribuição direta das
ciências para o desenvolvimento das forças produtivas — no plano ideológico, pela
luta da ciência contra a religião e o pensamento escolástico; na educação, pelo
progresso que a ciência representa para a agricultura e a indústria.

Como vários pesquisadores apontaram, a função supostamente produtiva das


ciências não existia durante o tempo de que falam esses autores, nem em Cuba,
nem no México. Também há dúvidas sobre suas teses anti-escolásticas e anti-
religiosas, pois não é difícil comprovar a união entre ciência e fé na América Latina
colonial. Quanto ao impacto educacional da ciência, devemos reconhecer que no
México, ao contrário de outros lugares, estava presente, mas pouco influenciou as
atividades industriais.

Se aceitarmos o modelo teórico adotado por López Sánchez e Gortari, teríamos que
concluir que na América Latina não havia ciência, uma vez que estavam ausentes
as condições consideradas necessárias pelos proponentes do externalismo para o
surgimento da ciência moderna. De fato, historiadores da ciência europeia que
regularmente evitavam falar de ciência latino-americana chegaram a essa
conclusão. López Sánchez e Gortari se inspiraram na louvável intenção de
encontrar um lugar histórico para a atividade científica latino-americana. Na
verdade, é impossível se aceitarmos o economicismo e o eurocentrismo.
Consequentemente, deve-se negar a existência da ciência na periferia ou qualificá-
la como “excepcional” por carecer de um locus teórico. Nenhuma das opções
fornece um relato fiel do que realmente aconteceu e, do ponto de vista histórico,
nenhuma responde à pergunta inicial: o que tem sido especificamente a atividade
científica latino-americana e que condições sociais a tornaram possível?

É esse o caso do sociologismo de Azevedo e do externalismo economista de López


e Gortari, que envolve uma simples transferência da historiografia europeia, que é
positivista, reducionista e a-histórica quando aplicada acriticamente à América
Latina. É, portanto, uma metodologia inadequada porque surge da mimese.
Quando não se levam em conta as diferenças contextuais essenciais entre a
Europa e a América Latina, presume-se que os mesmos fatores sociais atuam na
dinâmica da ciência. Em história, imitar é, portanto, perder a identidade.

“Pensando nossa ciência”: Vinte e cinco anos de historiografia da ciência latino-


americana

Desde meados da década de 1980, entendemos que a história das ciências e da


tecnologia apresenta problemas de natureza epistemológica (sua especificidade
geográfica e cultural, por exemplo) que o historiador não pode ignorar. Na verdade,
a disciplina começou a se tornar autoconsciente quando começou a se questionar
sobre como seria a história das ciências se incluísse definições contextuais? Nesta
seção, falaremos sobre como essa autoconsciência surgiu.

Para romper com a mimese metodológica, era necessário traçar um novo rumo para
a historiografia, com o foco na especificidade das ciências na periferia. “Pensar a
nossa ciência” tornou-se a palavra de ordem. Esse processo começou a ocorrer na
década de 1980 e é caracterizado pela modernização conceitual e terminológica,
contudo, resulta do progresso dessa disciplina em outras partes do mundo —
enquanto os historiógrafos latino-americanos colocavam os problemas
conceituais em primeiro plano como parte de sua busca por uma alternativa para o
dilema sobre internalismo ou externalismo. Assim, é importante a crítica à
perspectiva que centrou a história da ciência na história das ideias científicas e nas
ideias de fundamentação matemática, pois excluiu as regiões que não estavam na
chamada corrente principal do desenvolvimento científico. Na tradição
historiográfica, áreas e culturas como as da América Latina e até mesmo dos
Estados Unidos até o final do século XIX estavam fora desse campo. Portanto,
tornou-se necessário quebrar o esquematismo característico do externalismo.

A criação da Sociedad Latinoamericana de Historia de las Ciencias y la Tecnología


na cidade de Puebla, México, em 1982, e o lançamento de sua revista, Quipu,
Revista Latinoamericana de Historia de las Ciencias y la Tecnología em 1984, são
igualmente importantes. Ambas ajudaram a impulsionar o crescimento na década
de 1980 partindo de abordagens amadoras para tornar a disciplina profissional e
trazer reconhecimento internacional para a história das ciências na região.

Assim, foi desenvolvida uma nova linguagem capaz de singularizar situações e


ações científicas nunca antes consideradas pelos historiadores da ciência. É,
portanto, apropriado dizer que, a partir daí, ampliou-se o campo de ação dos
historiadores da ciência. A ciência “periférica” ofereceu facetas novas e específicas
para o estudo histórico. Na verdade, as ciências da América Latina passaram a ser
reconhecidas como ciência dentro de seu próprio contexto. Vamos considerar
alguns dos principais desenvolvimentos que ocorreram nessa disciplina.

Por razões bem conhecidas, longos períodos da história da América Latina têm se
passado sob a égide da cultura religiosa. Como o pensamento científico e a cultura
religiosa coabitaram na América Hispano-Lusitana? Do ponto de vista tradicional,
haveria oposição absoluta entre ciência e religião. Portanto, para os cientistas
coloniais, a ciência não se encaixava muito bem nesse tipo de esquema
interpretativo, e os historiadores frequentemente negavam a existência de qualquer
atividade científica ou, quando não podia ser ignorada, declaravam excepcionais
as descobertas científicas e técnicas nas Américas. Mas quando os laços com a
história tradicional foram rompidos como conseqüência de contínuas pesquisas,
surgiram indivíduos, textos científicos e instituições insuspeitadas, como López
Piñero evidenciou no caso da ciência espanhola. Trabulse estudou as ciências
exatas no México dos séculos XVI e XVII, períodos declarados por historiadores
anteriores como desprovidos de ciência. Na mesma linha, Trabulse, em Ciencia y
religión en el siglo XVII, estudou a astronomia e a religião e afirma que eram
“indivisíveis, visto que se concentrar em apenas um aspecto... mutilaria o que deve
ser considerado como um todo.” Na verdade, essa decisão foi algo mais do que unir
termos díspares, porque estudar cometas nos séculos XVI e XVII significa
necessariamente misturar duas concepções do universo: uma vinda da ciência
medieval e a outra da nova cosmologia mecanicista, que havia surgido naquela
época. Vale ressaltar que isso aconteceu não só na Nova Espanha, mas também na
Europa, portanto, podemos dizer que os cientistas latino-americanos estavam a
par das correntes e preocupações científicas da época.

A análise sócio-histórica da ciência foi desenvolvida em parte sob a influência da


sociologia funcional. Simão Schwartzman aplica essa metodologia ao estudo da
formação da comunidade científica brasileira. Contrariando a ideia que estabelece
a ciência como uma construção progressiva da construção ideal da verdade, e
apoiando-se em R. K. Merton e Thomas S. Kuhn, Schwartzman estuda temas
importantes como ciência na periferia e ciência e desenvolvimento. Schwartzman
estabelece que a história da ciência pode ser vista “como a história dos esforços na
direção de estabelecer comunidades científicas nacionais para trabalhar com os
modelos, temas e estilos de trabalho característicos da ciência em cada época”.
A obra de Thomas S. Kuhn deve ser mencionada aqui porque vários estudiosos
aplicam a metodologia kuhniana à ciência latino-americana. Trabulse faz isso em
Historia de la ciencia en México, quando atribui um papel central às noções de
“paradigma” e comunidade científica. Esse conceito o leva diretamente a
questionar o locus teórico da ciência mexicana. Ao reconhecer que as
comunidades científicas se caracterizam pela adesão a um paradigma, Trabulse
consegue atribuir um locus à atividade científica mexicana, uma vez que, em sua
opinião, esta exibe sucessivas adoções de paradigmas científicos, cada um
correspondendo à evolução da ciência. Trabulse também usa uma tese
complementar sobre a continuidade das comunidades científicas mexicanas
como base para afirmar a existência de uma tradição científica local a partir do
século XVI e divide a dinâmica do desenvolvimento científico em períodos
correspondentes às mudanças de paradigmas.

A noção de comunidade científica é útil quando aplicada à “ciência normal”, como


os sistemas e instituições nos quais a ciência é ensinada e aqueles em que a
pesquisa é conduzida. Utilizam esta abordagem o trabalho de José Murilo de
Carvalho no Brasil, os estudos de Hebe Vessuri sobre as instituições científicas da
Venezuela, a história da Universidad Nacional de Ingeniería do Peru de J. I. López
Soria, os trabalhos de María A. M. Dantes sobre institutos de pesquisa no Brasil e o
estudo de Nancy Stepan sobre o uso do Instituto Oswaldo Cruz (entre outros).
Todos esses autores estão interessados em compreender os mecanismos que
funcionaram para institucionalizar a ciência na América Latina. Essa questão está
no cerne do desenvolvimento da ciência latino-americana porque, segundo Roger
Hahn, as instituições científicas são a forja na qual o conhecimento e a política se
unem para criar uma ciência viável.

A política como forma de conciliar interesses tornou-se uma área de pesquisa nos
últimos anos no sentido mais geral do papel desempenhado pelo Estado em
relação à ciência, uma vez que o Estado atua sobre os mecanismos institucionais,
formas organizacionais, objetivos, financiamentos e condicionantes que tornam a
atividade científica possível. Depois de notar que os fatores fundamentais para o
desenvolvimento científico europeu (ou seja, a indústria e o exército) praticamente
não influenciaram o desenvolvimento científico da América Latina, alguns
pesquisadores se perguntaram sobre o agente de mudança estrutural da ciência
latino-americana. A própria constituição da história da América Latina, ou seja, um
regime político de força durante o período colonial e um ambiente de exclusão
econômica desde a independência, deixou a cargo dos Estados-nação a criação de
uma infraestrutura científica. A relação entre ciência e ordem política não é de
forma alguma secundária, pois afetou diretamente as condições que tornaram
possível o desenvolvimento científico latino-americano. Este foi o método de Frank
Safford para analisar as tentativas de formar uma elite tecnológica na Colômbia no
século XIX. Como não havia uma demanda real por parte da indústria, essa elite foi
parar na administração pública ou no magistério, o que impediu o avanço
tecnológico. Marcel Roche, ao estudar Rafael Rangel e os problemas inevitáveis
que enfrentou, analisou como a ciência venezuelana começou a ser politizada. No
México, existem estudos que ilustram o papel coordenador do Estado em relação à
ciência desde a independência. Já mostrei como as políticas do Estado têm sido
fundamentais na organização e promoção da atividade científica e,
reciprocamente, como a ciência e a tecnologia ajudaram o Estado-nação a
transformar a política em engenharia social para criar uma nova sociedade. À figura
política do “estado soberano”, eu acrescentei a figura científica do “estado racional
ou científico”.

Os cientistas latino-americanos certamente estiveram em contato com a Europa


desde o século XVI. Este fato levou vários autores a se concentrar na transmissão
transcultural das ciências. Esta abordagem significa analisar processos de
incorporação e adoção da ciência em contextos sócio-históricos definidos. Lewis
Pyenson, por exemplo, introduziu novas categorias analíticas, como "funcionários"
e "buscadores" científicos. Isso nos permitiu esclarecer a complexa estrutura,
ligada à política internacional, na qual a atividade científica na América Latina
permaneceu enredada. Foi o caso das ciências exatas, submetidas ao
imperialismo cultural de que constantemente sofreu a América Latina. Moreno e
Pruna estudaram o darwinismo dentro dessa estrutura.

A questão da difusão da ciência produziu resultados muito interessantes no que diz


respeito à nossa compreensão dos modos de adoção ou apropriação de teorias e
formas de prática científica em diferentes contextos. Não é possível separar a
difusão científica na periferia do processo de recepção, que não é apenas material,
mas também conceitual, ideológico e cultural. Nesse sentido, o processo de
difusão-recepção foi concebido como uma realidade histórica enraizada em
interesses sociais. Luis Carlos Arboleda utilizou conceitos retirados da sociologia
do conhecimento para analisar a difusão das teorias científicas e estabeleceu o
seguinte: que os fatos históricos se encarregaram de socializar os paradigmas
científicos, ou seja, que seriam responsáveis pela compreensão das condições
sociais e culturais sob as quais o sistema teórico original passou por um processo
de intermediação e reinterpretação até que a opinião pública ficasse favorável. José
Sala e Antonio Lafuente destacaram a importância do papel socioprofissional
desempenhado pelos cientistas nas regiões colonizadas para compreender a
institucionalização da ciência na Nova Espanha. De minha parte, mostrei que todas
as abordagens difusionistas da história da ciência deliberadamente omitem o
contexto local como uma categoria explicativa para o que aconteceu em
circunstâncias sócio-históricas particulares; assim, tornam a ciência das periferias
dependente do misoneísmo científico mítico e, consequentemente, ideológico de
uma Europa “desinteressada”.

O papel cultural que a ciência desempenhou nos países subdesenvolvidos também


é relevante para a difusão transcultural. Se, como mostra a historiografia da ciência
europeia, existiu uma ligação direta entre a ciência e a civilização na Europa, é
necessário aceitar a ciência como cultura. Isso leva a uma análise que não faça
uma diferenciação entre a vida e seus problemas, nem entre a vida e o objetivo
intelectual de aprimorar o conhecimento. Vessuri assinalou que o conhecimento
científico latino-americano não mais deve ser separado da rede de pressões
culturais ou compromissos ideológicos que normalmente moldam as decisões
sociais e políticas. A reavaliação do senso comum local e a (re-)construção de
tradições, portanto, tornam-se um objetivo muito importante para o pesquisador.
Nessa mesma linha, Marcos Cueto desenvolveu pesquisas sobre a relação entre
pesquisa científica e ideologias nacionalistas e indigenistas, como no caso da
pesquisa biomédica no Peru.

A questão da difusão da ciência a partir de um centro identificado com a Europa


durante a maior parte da história da América Latina começa a exigir um tipo
diferente de análise, ou seja, a análise multilateral, por se tratar de um assunto
verdadeiramente complexo. A crença de que “a causa de tudo” nos processos
científicos e tecnológicos latino-americanos é a difusão de novas teorias e
métodos científicos e a organização da atividade científica dos países de origem.
Esse ponto de vista pressupõe que renovação cultural é a expressão de uma
vontade única, fixa e completa que funciona de cima para baixo, que vai diminuindo
até finalmente desaparecer na dinâmica característica das sociedades
“periféricas” ou coloniais. Por isso, o tema do nacionalismo na ciência começa a
chamar a atenção. Já mostrei que não é possível conceber uma evolução científica
das regiões periféricas apenas como resultado de uma “injeção” ou “introdução
abrupta e rápida de ciência e tecnologia”. Devemos levar em consideração fatores
locais, que geralmente constituem a condição sine qua non para a globalização das
ciências (a sua “ecologia”).

Como vimos, conceituar a ciência periférica como excepcional não nos ajuda a
compreender o seu processo. Arboleda, seguindo esse raciocínio, chamou de
"ciência patriótica" os projetos que visavam ajudar a elite de Nova Granada a
prosperar usando a ciência moderna para explorar o país em benefício dos
interesses locais. O conceito de "ciência nacional" se expandiu porque não inclui
apenas o período nacional, mas, em alguns casos (Nova Espanha, Peru e Nova
Granada), também abrange o final do período colonial, quando a ciência local
alcançou um papel claramente central na sociedade (ver Cap. 2 , 3 e 5 neste
volume). É importante enfatizar que as iniciativas científicas e institucionais
coloniais espanholas baseavam-se na ciência nacional que florescia na Cidade do
México, Lima e Santa Fé de Bogotá.

No caso da América Latina colonial, e particularmente em regiões como o México


e o Peru, a noção de "tradição científica" ou "ciência endógena" (às vezes, é claro,
não isenta de exclusão social ou heterodoxia) deve ser introduzida para entender o
contexto cultural, ideológico e político em que ocorre a difusão da ciência — que
gera efeitos sociais e culturais no país receptor. Na verdade, o fracasso de projetos
concebidos nos países de origem, as discussões polêmicas com cientistas
estrangeiros e os efeitos perversos da ciência estrangeira ocorreram com mais
frequência do que geralmente se imagina. Um rápido exame das causas é
suficiente para demonstrar que a difusão da ciência não ocorre dentro de um vácuo
cultural; por isso, pode haver oposição a essa difusão ou às modalidades de
desenvolvimento — como aconteceu no caso mexicano com a química, a física e a
botânica, ou na Colômbia em relação à matemática. Por isso, foi necessário buscar
as raízes e o contexto que tornaram historicamente possível a ciência importada e
local nas regiões periféricas.

No caso da Nova Espanha, a existência de nacionalismo ideológico e uma tradição


científica “criolla” mostra, por exemplo, que nessa colônia havia uma base
adequada para a introdução de teorias, instituições e políticas científicas no final
do século XVIII. Ou seja, a ciência mexicana seguiu um processo organizacional
evolutivo que culminou naturalmente em institucionalização. Em outras palavras,
houve um processo cumulativo de experiência social em relação ao conhecimento
científico e sua organização. Até agora, ênfase excessiva tem sido dada aos
elementos externos e suas rupturas concomitantes, porque a relação entre os
componentes externos e internos na ciência latino-americana não foi tratada
dialeticamente.

Por fim, devo salientar que nesta análise é cada vez mais crucial estudar o papel
desempenhado na Europa pelos cientistas nascidos na periferia e a influência que
exerceram sobre a ciência nos países de origem. Isso nos ajudará a entender
melhor a ação “bidirecional” do processo de divulgação da ciência.

O posicionamento cada vez mais claro da ciência latino-americana dentro de um


contexto social definido não significa que o interesse por “questões científicas” ou
pelas peculiaridades regionais da produção de conhecimento tenha desaparecido
por completo. O surgimento de ferramentas conceituais para incluir a ciência no
contexto latino-americano foi tão inovador que foi necessário o uso de uma
terminologia provisória antes que fosse possível produzir conceituações e
expressões adequadas. Assim surgiu a noção de periferia aplicada à ciência. A
categoria “periferia” vem da teoria da dependência (em voga nas décadas de 1960
e 1970) que tratava da relação estrutural e assimétrica entre os países
industrializados e os subdesenvolvidos. Quando aplicado à ciência, o conceito de
assimetria foi utilizado para comparar os países subdesenvolvidos com aqueles
considerados centros produtores de conhecimento e detentores de infraestrutura
científica, comunidades e tradição de pesquisa. “Ciência periférica” acabou sendo
a ciência produzida em países com uma pequena comunidade científica
estruturada, onde apenas uma pequena parte de seu produto interno bruto era
direcionada ao desenvolvimento científico e a produtividade dos cientistas era
baixa (medida em termos de quantos vezes em que seus artigos eram citados em
revistas especializadas internacionais). Atualmente, a validade de várias
conclusões derivadas da noção de ciência periférica está sendo questionada.

Outras conclusões expressam realidades impossíveis de ignorar porque se referem


a condições fundamentais como o baixo investimento em ciência e tecnologia e o
pequeno número de pesquisadores per capita. Em particular, os critérios de
produtividade e outros chamados indicadores internacionais de qualidade na
atividade científica têm sido questionados por sua natureza enviesada e por não
corresponderem às modalidades regionais de prática científica.

Os historiadores das ciências apontam como o conceito de dependência é rígido


quando aplicado a eventos históricos, pois impede a compreensão de fatos e
situações. Por exemplo, como se explica que às vezes a ciência latino-americana
tem sido “central” em relação à ciência europeia? A botânica da Nova Granada e o
herbalismo mexicano, a matemática colonial peruana, a nova metalurgia
espanhola ou o fato de Newton e Sigüenza serem contemporâneos — todos esses
são exemplos de excelência científica do passado. Mais recentemente, tivemos
descobertas em endocrinologia do argentino Bernardo Houssay e em microbiologia
do brasileiro Oswaldo Cruz. Na década de 1980, Marcos Cueto estudou “a estranha
combinação de trabalho moderno e criativo em contextos supostamente
tradicionais e 'periféricos' distantes dos centros mundiais da ciência” e mostrou
que a pesquisa biomédica no Peru na primeira metade do século XX exibia
excelência acadêmica. Roy Macleod, por outro lado, introduziu a ideia de
“metrópole em movimento” para se referir à criatividade intelectual que ocorre nos
regimes coloniais dentro de uma alternância dialética entre difusão e reelaboração:
este conceito hoje chama a atenção de pesquisadores de todo o mundo porque,
em certa medida, também caracteriza a ciência europeia.

É justamente a falta de pensamento original, já que sempre há uma dívida para com
os pioneiros de uma disciplina, que levanta a seguinte questão: quando uma
comunidade científica é realmente criativa? Em certo sentido, todas as
comunidades são receptores, mas nem todas as comunidades reprocessam o que
recebem até que o tenham tornado seu e contribuído para o seu desenvolvimento.
“A ciência é dependente quando recebe passivamente e não reprocessa”, escreve
Celina Lértora. Esta historiadora argentina definiu a reelaboração como uma
característica da atividade científica latino-americana nos seguintes termos: há
reelaboração quando a pesquisa na comunidade receptora produz um resultado
teoricamente (ou tecnicamente) diferente do pressuposto anteriormente
sustentado, e esse resultado é obtido independentemente de outras comunidades
científicas.

Quanto às condições que tornam possível a criatividade e desenvolvimento


endógeno da ciência, Shozo Motoyama descreve a evolução científica latino-
americana como um processo que avança por fases usando um modelo
denominado SMT (substrato mental e técnico). A primeira fase é o substrato mental,
ou “base intersubjetiva que fornece e limita a ação do intelecto para formular
questões sobre a natureza”. A segunda fase, o substrato técnico, é “capaz de
engendrar os instrumentos e aparatos necessários para captar as respostas às
questões já colocadas sobre a natureza — decorrentes da mediação do substrato
mental”. A maturação de ambas as fases permite o pleno desenvolvimento
científico. Motoyama analisa o caso histórico da física no Brasil e estuda a
formação de substratos mentais e técnicos. Ele conclui que a dinâmica do
desenvolvimento científico, tecnológico e cultural de seu país desde a década de
1970 fez com que esses substratos atingissem certo nível de desenvolvimento, o
que possibilitou à ciência brasileira o fim de uma etapa meramente imitativa e o
início de outra, mais autêntica e original.

Embora esta revisão do progresso conceitual alcançado na disciplina chamada


história social da ciência na América Latina seja superficial, já nos permite avaliar
o notável dinamismo desse ramo da história nas últimas décadas e como se tornou,
com razão, um campo de conhecimento. Além dos estudos citados, abundam os
estudos empíricos que representam uma releitura interessante do passado
científico e, não raro, oferecem à historiografia tradicional dados novos ou até então
ignorados. Uma imagem, até certo ponto inesperada, da ciência latino-americana
e suas relações sociais e culturais emergiu, mas permanece, em grande parte,
desconhecida fora do ambiente acadêmico.

Este livro foi organizado para remediar, pelo menos em parte, essa situação. Um
seleto grupo de pesquisadores foi convidado a apresentar seus trabalhos ao
público. Esses estudos foram realizados usando novas abordagens teóricas para
uma história das ciências contextualizada. Nossa intenção é analisar, pela primeira
vez, de forma comparativa e abrangente (cronológica e tematicamente), a
experiência científica desta região, tão vasta no tempo e no espaço. O resultado é
um conjunto de monografias dirigidas ao público erudito e interessado em
descobrir as dimensões e o valor da ciência latino-americana.

O livro também contém várias inovações. Com relação ao período colonial, os


Capítulos 2, 3, 4 e 5 apresentam novas maneiras de se referir à atividade científica
que ocorreu durante o Iluminismo. No Capítulo 2, considero a modernização
científica o produto da dinâmica social (econômica, demográfica, cultural, técnica
e científica) que a região passou e também uma resposta às necessidades
decorrentes desse desenvolvimento. Ao abandonar as explicações tradicionais em
que a modernização depende de fatores externos (como o "bom rei" Carlos III, as
idéias progressistas da transnacional Sociedade de Jesus e o misoneísmo dos
"centros científicos"), eu demonstro claramente como o nacionalismo foi imposto
à ciência do Iluminismo e seu caráter ideológico libertador.

Luis Carlos Arboleda e Diana Soto Arango (Cap. 3) analisam polêmicas do século
XVIII em relação à introdução das teorias científicas modernas e descobrem que
esses argumentos foram motivados pela luta entre os setores civil e religioso pelo
controle cultural e educacional, e não por atores “desinteressados” no processo de
modernização — como às vezes se afirma. Demonstram a inadequação da
explicação difussionista costumeira, que omite o contexto local em que a
modernidade é recebida e adotada e que também sempre deixa sua marca no
resultado final.

Antonio Lafuente e Leoncio López-Ocón (Cap. 4), da mesma forma, deixam para
trás a visão que apresenta as iniciativas de expedições científicas como originadas
exclusivamente nos países de origem. Esses autores também reconhecem fortes
raízes locais — vice-reis e eclesiásticos — como duas das principais fontes de
informações sobre a natureza, a geografia e as comunidades americanas. Também
destacam o processo de regionalização cultural que se originou nas atividades
científicas expedicionárias, particularmente aquelas do século XVIII.

O nascimento das nações americanas independentes estimulou atividades


científicas inusitadas. Ao contrário da tese tradicional de que a independência
criou um vazio científico, no Capítulo 5, refiro-me ao surgimento de Estados-nação
simultaneamente com uma consciência do valor que a ciência teria para completar
a emancipação política. Numa atmosfera de otimismo prevalecente sobre o que
envolveria a liberdade recém-conquistada, a geração da era da independência
formulou em todos os países uma ideologia científica republicana, que recebeu
sanção social e política ao ser incluída nas constituições dos novos estados. O
século XIX começou com essa ideologia no horizonte e, ao longo do século,
esforços diligentes foram feitos para transformá-la em realidade.

Emilio Quevedo e Francisco Gutiérrez (cap. 6) estudam a medicina e a saúde


pública no século XIX. Como aconteceu em outras áreas, ao longo do século a
medicina passou por profundas transformações conceituais e técnicas. Com
referências frequentes a, por exemplo, Bogotá, Rio de Janeiro, Lima, Cidade do
México e Buenos Aires, os autores descrevem os processos pelos quais a medicina
foi “modernizada” e apontam o papel que o contexto local desempenhou na
formação de uma medicina teórica e prática capaz de responder às necessidades
de saúde pública.
Hebe M. C. Vessuri (Cap. 7) apresenta o surgimento da ciência acadêmica no
século XX e os fatores internos e externos que contribuíram para isso. É importante
mencionar que os historiadores dedicaram pouca atenção à ciência do século XX
antes de Vessuri. Vessuri usa uma tese sociológica e periodização com o propósito
de compreender a natureza e a complexidade da evolução da atividade científica
acadêmica na América Latina durante a maior parte do século XX.

Marcos Cueto (cap. 8), também referindo-se ao século XX, apresenta o caso do
amadurecimento bem-sucedido de uma disciplina científica na América Latina, a
saber, a fisiologia, e o papel que a nova historiografia pode desempenhar na
dissolução e no abandono de preconceitos (tão arraigados quanto geralmente
falsos) que existem igualmente entre os cientistas da região e seus historiadores.
As falsas concepções incluem, entre outras, o caráter dependente da ciência
latino-americana, a necessidade de grandes investimentos para seu
desenvolvimento e a influência invariavelmente negativa do nacionalismo na
ciência.

Como se sabe, a Primeira Guerra Mundial envolveu os cientistas de forma muito


significativa e, a partir daí, suas atividades adquiriram relevância política e
internacional. Regis Cabral estuda (cap. 9), olhando os grandes eventos, o caso
menos conhecido, mas significativo, das ciências exatas na América Latina e seu
envolvimento em problemas políticos mundiais. Se quisermos compreender
completamente os diversos fatores endógenos e exógenos que estão envolvidos no
campo da ciência regional, devemos fazer da história diplomática latino-americana
e mundial outro elemento da história social da ciência.

Acredito que este livro apresenta novas perspectivas sobre a ciência latino-
americana. O conhecimento e a ampla difusão da história científica da região
tornam-se indispensáveis quando, como agora, a ciência e a tecnologia
alcançaram um nível significativo de desenvolvimento. É agora que os esforços
científicos devem ser aumentados consideravelmente para responder aos
enormes desafios resultantes do subdesenvolvimento da região. Essa etapa é
necessária para formar uma cultura científica regional ou local e para continuar
construindo o “nicho ecológico” de que a ciência latino-americana precisa.

É evidente que aspectos muito importantes, como a viabilidade estratégica,


precisam de informações históricas pertinentes para permitir que os principais
agentes de mudança se modifiquem e assumam o controlem. É igualmente
importante basear essas modificações na história social da ciência local.
Resumindo, é fundamental “aprender de si mesmo”. Para tanto, a história da
ciência deve ser escrita de forma a permitir a construção da capacitação científica
nacional. Na América Latina, a amnésia coletiva sobre o passado científico e
tecnológico não pode continuar sem o risco de perdermos o futuro. Como a recente
experiência europeia e asiática provou, a diversidade cultural das regiões que
constituem o “mercado” global tornou-se (na verdade, sempre foi) o recurso mais
valioso. Essa diversidade constitui a reserva de experiências a partir das quais
teremos que começar a criar uma verdadeira ciência e sociedade internacionais.
Conhecê-la e compreendê-la é, portanto, imperativo.

Posfácio, 2001

A versão em espanhol deste livro foi publicada no final do século XX. Esta tradução
(financiada pela Universidad Nacional Autónoma de México aparecerá no início do
novo século, após o XXI Congreso Internacional de Historia de la Ciencia na Cidade
do México. O tema geral da conferência foi “Ciência e Diversidade Cultural”. Esta
versão em inglês permite que os resultados da conferência encontrem distribuição
mundial. Esperamos, assim, criar uma nova imagem da ciência como tudo incluído,
de forma a ver o universal, como diz o romancista Miguel Torga, como o local sem
muros.

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