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Impactos das Mudanças Climáticas na Saúde

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CAPÍTULO 6

SAÚDE HUMANA, BEM-ESTAR E SEGURANÇA

Autores principais: Paulo Hilário Nascimento Saldiva- USP; Roberto Luiz do Carmo – UNICAMP;
Pedro Dantas Fernandes- UFCG; Roberto Germano Costa-UFPB
Autores colaboradores: Micheline de Sousa Zanotti Stagliorio Coelho –USP; Samya de Lara Pinhei-
ro –USP; Hélio dos Santos Silva – FURB; Alfredo Kingo Oyama Homma-EMBRAPA; Josilene Ticianelli
Vannuzini Ferrer-CETESB;
Autores revisores: Ulisses Eugenio Cavalcanti Confalonieri – FIOCRUZ; Josilene Ticianelli Vannuzini
Ferrer-CETESB; Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio- UNICAMP; Alberício Pereira de Andrade-
-INSA; Jair do Amaral Filho-UFC

262 VOLUME 2
ÍNDICE

6.1. MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE HUMANA: UMA PERSPECTIVA BRASILEIRA 266


[Link]ÇÃO 266
6.1.2. CLIMA, POLUIÇÃO E OS IMPACTOS NA SAÚDE HUMANA 269
[Link]. ESTUDOS NO BRASIL. 269
[Link]. DOENÇAS VEICULADAS POR VETORES: DENGUE 270
[Link]. ESTUDOS NA METRÓPOLE: SÃO PAULO 271
6.1.3. COBENEFÍCIOS IMEDIATOS E LOCAIS À SAÚDE HUMANA DAS POLÍTICAS
DE MITIGAÇÃO DA EMISSÃO DE GASES DE EFEITO ESTUFA. 274
[Link] COMO CAMINHO PARA AS POLÍTICAS DE MITIGAÇÃO E ADAPTAÇÃO
FRENTE ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 275
6.1.5. RECOMENDAÇÕES 275

6.2 SEGURANÇA HUMANA 275


6.2.1. INTRODUÇÃO 275
6.2.2. SEGURANÇA HUMANA A PARTIR DA PERSPECTIVA DOS CONCEITOS DE
RISCO E VULNERABILIDADE 277
6.2.3. PERCEPÇÃO AMBIENTAL E RISCOS 278
6.2.4. EM SÍNTESE 280

6.3. SUBSISTÊNCIA E POBREZA 281


6.3.1. INTRODUÇÃO 281
6.3.2. SUBSISTÊNCIA 282
[Link]. SUBSISTÊNCIA EM EXTRATIVISMO AGRÍCOLA 284
[Link]. FRUTAS DO SEMIÁRIDO 285
6.3.3. SUBSISTÊNCIA – POBREZA E FOME 287
6.3.4. SUBSISTÊNCIA E SAÚDE 289
6.3.5. AMAZÔNIA: AÇÕES PARA REDUZIR A SUBSISTÊNCIA, A POBREZA E AS
MUDANÇAS CLIMÁTICAS 290

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 304

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 263


6.1. MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE HUMANA: UMA PERSPECTIVA BRASILEIRA

[Link]ÇÃO

Em se tratando das mudanças climáticas de origem antrópica, paradoxalmente o próprio homem é um


dos alvos preferenciais dos impactos dos desequilíbrios ambientais por ele causados. Em áreas urbanas,
a população vivenciará os impactos das inundações, dos deslizamentos de terra, do recrudescimento
de doenças veiculadas por insetos, da carência de água e alimentos e dos deslocamentos de
grande número de pessoas (Hopp e Foley, 2003; Saldiva, 2010). A vulnerabilidade ambiental dos
grandes centros urbanos é mais acentuada nas megacidades dos países em desenvolvimento que
experimentaram crescimento muitas vezes caótico, criando cinturões de pobreza onde a qualidade dos
serviços ambientais é precária. Ilhas de calor, moradias situadas em áreas críticas de declividade ou
de enchentes, transporte e saneamento básico precários são a regra na periferia das grandes cidades
do mundo em desenvolvimento, aumentando a vulnerabilidade dos mais desfavorecidos às mudanças
climáticas e criando as bases da desigualdade socioeconômica e ambiental (Tarifa e Armani, 2001;
Ribeiro, 2005; Martins et al., 2004, Saldiva, 2010).

A magnitude e intensidade dos impactos à saúde humana que podem advir das mudanças climáticas
tornam imperativas medidas de mitigação e adaptação, que envolvem investimentos de monta, bem
como mudanças significativas de comportamento humano em relação aos seus hábitos de consumo.
Mantido o atual padrão de consumo energético excessivo e insustentável, incorreremos em riscos
importantes para a saúde humana. O acúmulo de poluentes primários emitidos a partir de termoelétricas
e escapamentos de veículos aumentará a taxa de mortalidade por câncer e doenças dos sistemas
cardiovascular e respiratório. O aumento do ozônio troposférico causará danos aos nossos pulmões
(Saldiva et al., 1995; Braga, 2002; Coelho-Zanotti, 2010). Maior dose de radiação ultravioleta
elevará o risco para tumores de pele. O consumo de água de pior qualidade levará a uma maior taxa
de doenças de veiculação hídrica, como a diarreia ou intoxicação por metais pesados (McMichael
e Githeko, 2001). Os mosquitos transmissores de doenças infecciosas, como a malária e a dengue,
proliferarão mais rapidamente e invadirão áreas hoje de clima temperado, aumentando o número de
vítimas (Reiter et al., 2004; Patz et al., 2005; Sutherst, 1998). Outro ponto a merecer atenção é que
as cidades vêm apresentando alterações do seu perfil climático, que embora dependam de fenômenos
locais, como alterações do uso e ocupação do solo e aumento da frota automotiva, reproduzem em
micro escala algumas das alterações globais esperadas frente ao aquecimento global. Neste cenário,
as alterações do clima urbano, de caráter regional, podem fornecer indicações quantitativas de como
os seres humanos, respondem às variações do clima. Finalmente, as megacidades, notadamente
aquelas situadas nos países em desenvolvimento, possuem elevada heterogeneidade socioeconômica,
configurando um verdadeiro “laboratório natural” para obter parâmetros sobre como as condições de
privação econômica e cultural influenciam as alterações climáticas. Em resumo, o estudo das relações
entre saúde e mudanças regionais do clima urbano pode fornecer importantes indicações sobre as
consequências futuras das alterações climáticas globais sobre a qualidade de vida de nosso planeta.
Infelizmente, informações extraídas dos laboratórios nossos, tanto no contexto das vulnerabilidades
como das medidas de adaptação quando da ocorrência de eventos que resultaram em impactos
danosos, ou até em catástrofes. Em novembro de 2008, o Estado de Santa Catarina foi surpreendido
por um evento de precipitação intensa onde, aproximadamente, 700 mm de chuva em 4 dias
devastaram parte do Vale do Itajaí. O Centro de Operações de Defesa Civil de Santa Catarina estimou
que 1,5 milhões de pessoas afetadas, sendo 135 mortes (CIRAM, 2009). Assim, houve um esforço
das esferas técnico-científica e governamental da região para compreender a dinâmica do desastre
ocorrido. Concluiu-se que além do volume pluviométrico anômalo, a vulnerabilidade dos munícipios
da região contribuiu para a gravidade do evento. Capacitação e treinamento de pessoas, tratamento
da concepção de risco na população, investimentos na infraestrutura de estações meteorológicas,
radares, modelagem numérica, implementação de um sistema de informações integrado são algumas
das ações em implementadas para no futuro minimizar os efeitos dos fenômenos extremos na região.
Santa Catarina trouxe um importante exemplo de como adaptar ideias para a mitigação e prevenção

264 VOLUME 2
de desastres à realidade brasileira, evidenciando a importância do investimento e o co-benefício asso-
ciado. Em 2011, a região serrana fluminense enfrentou situação similar. Dado um período chuvoso de
10 dias que atingiu toda a região Sudeste, inclusive a região de Teresópolis e Nova Friburgo, iniciou-se
um processo de enxarcamento do solo, seguido por fortes chuvas pré-frontais e advecção de umidade
amazônica via Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Esta região do Estado do Rio de Janeiro
é geologicamente instável e possui rios muito erosivos. Devido ao crescimento desordenado, o número
de pessoas que viviam em áreas de risco era preocupante. Assim, aliando estes fatores, na primeira
quinzena de janeiro de 2011, a área foi atingida por fortes precipitações, contabilizando mais de 800
mortes. O evento recebeu atenção nacional, e logo o governo federal se mobilizou para enviar fundos
para reconstrução e auxílio aos afetados. A COPPE/UFRJ, desde então, procurou organizar-se para
estabelecer medidas, ações e estudos de apoio à esfera governamental no processo de tomada de
decisão e alocação de recursos em prevenção e mitigação a desastres naturais no estado (COPPE/
UFRJ, 2011). Com objetivos semelhantes ao plano feito pelos catarinenses, a COPPE/UFRJ ressalta a
importância do mapeamento de risco mais realista, juntamente com o aprimoramento dos sistemas de
alerta, do plano de contingência e da política de ocupação urbana, que deve estar comprometida em
primeira instância com a realocação de pessoas que vivem em áreas de risco.

Outro exemplo de ações para o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas foi a reconstru-
ção de áreas atingidas por desastre natural ocorrido em Alagoas. Em junho de 2010 a região sofreu
com enchentes que afetaram cerca de 268.000 pessoas, sendo 37 mortes, gerando prejuízos mate-
riais, ambientais e econômico-sociais estimados em R$ 954 milhões. O Programa de Reconstrução
teve início desde a tragédia. Na etapa inicial o foco foi assegurar condições de sobrevivência às víti-
mas. Na etapa seguinte, a reconstrução propriamente dita foi instituída. Neste programa procurou-se
delinear ações de forma sustentável, a exemplo que os próprios moradores estão sendo capacitados
para a construção das casas.

No decorrer de 2011, novos eventos extremos atingiram Santa Catarina e o Nordeste Brasileiro. Gran-
des áreas foram destruídas novamente, contudo, o número de mortes foi reduzido significativamente.
Este fato reforçou a importância da observação do “laboratório natural” para a identificação das
vulnerabilidades frente à ocorrência de eventos deste tipo e na estruturação de uma política efetiva de
prevenção e mitigação adaptada à heterogênea realidade brasileira.

Após as enchentes de 2011, o nordeste brasileiro convive novamente com uma forte seca em 2013.
Em torno de 10 milhões de pessoas estão sendo atingidas e várias cidades declararam estado de
emergência. A região nordeste do Brasil, apresenta grande variabilidade espacial (500 mm/ano de
precipitação no semi-árido e em torno de 1.500 mm/ano de precipitação na costa leste) e temporal
da precipitação. Além disso, apresenta um alto potencial de evaporação devido às altas temperaturas
e disponibilidade de energia solar. Anos de secas e enchentes se alternam de forma irregular, causando
morte, doenças e perdas econômicas.

Cenários socioeconômicos de emissões globais de gases do efeito estufa (GEE) propostos pelo IPCC
mostram os principais resultados científicos consensuais das projeções regionalizadas de clima envol-
vendo os diferentes biomas do Brasil. Os cenários consideraram os períodos de início (2011-2040),
meados (2041-2070) e final (2071-2100) do século XXI. Especificamente para o bioma Caatinga que
representa grande parte do Nordeste brasileiro, as projeções indicam aumento de 0,5º a 1ºC na tem-
peratura do ar e decréscimo entre -10% e -20% na chuva durante as próximas três décadas (até 2040).
No período de 2041-2070, os modelos indicam aumento gradual de temperatura para 1,5º a 2,5ºC
e diminuição entre -25% e -35% nos padrões de chuva. No final do século (2071-2100), as projeções
indicam condições significativamente mais quentes (aumento de temperatura entre 3,5º e 4,5ºC) e
agravamento do déficit hídrico regional, com diminuição de praticamente metade (-40 a -50%) da
distribuição de chuva. Para o bioma Mata Atlântica onde está inserido outra parte do Nordeste, as
projeções são aumento relativamente baixo nas temperaturas de 0,5º a 1ºC e decréscimo nas chuvas
em torno de -10% até 2040. Para meados do século (2041-2070) a tendência de aquecimento entre
2º e 3ºC e diminuição pluviométrica entre -20% e -25%. No final do século (2071-2100), esperam-se

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 265


condições de aquecimento intenso (aumento de 3º a 4ºC) e diminuição entre -30% e -35% nos pa-
drões de chuva regional (Marengo et al., 2012).

Diante destas previsões, independente do que possa vir a ocorrer com o regime de precipitação no
Nordeste, o aumento previsto das temperaturas já seriam suficientes para aumentar as taxas de evapo-
ração (lagos, açudes e reservatórios) e de evapotranspiração. Isto significa que a água se tornará um
bem mais escasso, com sérias consequências para a sustentabilidade do desenvolvimento regional.
Como consequência a produção agrícola e de subsistência de grandes áreas poderá tornar-se inviável
colocando em risco a sobrevivência das pessoas e favorecendo a migração para cidades costeiras e
grandes centros urbanos, agravando os problemas urbanos já existentes (CGEE, 2008).

Objetivando estudar a região mais vulnerável do Brasil frente às mudanças climáticas, foram utilizados
os modelos climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) (Marengo et al., 2012) para
mapear algumas das possíveis consequências sociais e econômicas das mudanças climáticas sobre a
Região Nordeste do Brasil, nas proximas décadas até 2050. Os resultados indicaram queda na taxa de
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste em torno de 11.4 %. Com relação às terras cul-
tiváveis os modelos mostraram o encolhimento de 79,6% para o Ceará, 70,1% para o Piauí, de 66,6%
para Paraíba e 64,9% para Pernambuco. Com relação às doenças, estima-se maior suscetibilidade ao
surgimento de casos de desnutrição infantil no Maranhão e de mortalidade infantil por diarreia no Ma-
ranhão, em Alagoas e em Sergipe. Entre 2030 e 2050, os modelos mostraram aumento significativo
(até 24%) na taxa de migração das áreas mais carentes para os grandes centros urbanos do Nordeste
e de outras regiões. Maior suscetibilidade à ocorrência de esquistossomose na Bahia, de leishmaniose
tegumentar no Maranhão, de leishmaniose visceral no Maranhão e no Ceará, de leptospirose no Ce-
ará e em Pernambuco, doença de Chagas em Sergipe (CEDEPLAR/UFMG e FIOCRUZ, 2008).

Na Região Norte do País, as alterações climáticas causaram a seca na Amazônia no ano de 2005/06
que foi uma das mais intensa e extensa dos últimos 100 anos (Marengo et al., 2008). Novamente em
2010 ocorreu outra seca de magnitide semelhante à de 2005 (Marengo et al., 2011), porém em outra
área da Amazonia, sugerindo o aumento na frequencia de eventos extremos (Cox et al., 2008). Nos
últimos anos que os padrões de precipitação na região Amazônica estão se alterando, em 12 anos a
Amazônia apresentou três secas intensas 1998, 2005 e 2010. O aquecimento anormal do Atlântico
Tropical Norte pode explicar parte da seca. Quando o Atlântico esquenta demais, ele concentra as
chuvas sobre a água mais quente e consequentemente inibe as chuvas na Amazônia. A seca de 2010
especificamente, também sofreu a influência do El Niño (aquecimento da superfície das águas do Pa-
cífico). Como consequência, o Rio Negro atingiu o nível mais baixo da sua história deixando pessoas
ilhadas e provocando alterações no bioma de difícil mensuração (CPTEC, 2012). Em 2005/06 a falta
prolongada de chuvas nos leitos dos rios Solimões, no Amazonas, e Madeira, em Rondônia, fez cair o
nível da água e deixou muitas cidades da região Amazônica praticamente isoladas. Para a população
ribeirinha os reflexos foram a falta de água potável, surtos epidêmicos de doenças e dificuldade de
acesso a outras cidades (Ambrizzi et al., 2007). Três epicentros atingiram a Amazônia na seca de 2005:
o sudoeste da Amazônia, a região central norte da Bolívia e o estado brasileiro do Mato Grosso. A
morte de árvores devido ao impacto da seca interfere no estoque de carbono em floresta primária.
Com isso, uma parte do dióxido de carbono na atmosfera não é absorvida, e mais: uma quantidade
extra do gás é liberada na atmosfera, o que pode acentuar os efeitos do aquecimento global. Ao ana-
lisar a relação da morte de árvores com a intensidade e extensão da seca, estima-se que a floresta não
irá absorver 1,5 bilhões de toneladas de CO2 estimados que são lançados na atmosfera nos anos
de 2010 e 2011, e que um adicional de 5 bilhões de toneladas de CO2 será liberado para a atmos-
fera durante os próximos anos. O impacto é comparável as emissões dos Estados Unidos em 2009,
referente aos combustíveis fósseis que foi de 5,4 bilhões de toneladas de CO2 (Davison et al., 2008).
Por outro lado, a forte cheia de 2009 também reflete um extremo climático e, é uma evidencia dos efei-
tos do desequilíbrio do clima nesta região, em menos de uma década houve alternância de extremos
de seca e cheia na Amazônia com impactos ainda difíceis de serem estimados (Marengo et al., 2010).
As perdas no ecossistema são irreparáveis e para os moradores da Amazônia que dependem dos rios
para suas atividades mais básicas (locomoção, fonte de alimentação) estes impactos são imensuráveis.

266 VOLUME 2
Além disso, após a diminuição das chuvas a população convive com as ameaças das doenças como
a leptospirose, doenças diarreicas e hepatites.

6.1.2. CLIMA, POLUIÇÃO E OS IMPACTOS NA SAÚDE HUMANA

[Link]. ESTUDOS NO BRASIL.

• Doenças Respiratórias – Afecções das Vias Aéreas Inferiores (AVAI)


No Brasil, alguns trabalhos mais específicos foram feitos utilizando modelagem estatística para estimar
risco de internações a partir de variáveis meteorológicas. Os resultados permitem estimar cenários para
extremos de temperatura e umidade. Na tabela 1, estão descritos as capitais brasileiras e as estimativas
de risco relativo a partir de variação de temperatura. O estudo fornece ferramentas para prevenção
de eventos extremos a partir de informações de previsão de tempo, desta forma contribuindo para a
tomada de decisões por parte dos órgãos públicos (Coelho-Zanotti, 2010). De acordo com a Tabela
1, a cada variação de 4 graus de temperatura pode-se estimar o risco relativo de internações nas
capitais brasileiras descritas. Nota-se que para grande parte das capitais brasileiras, o descréscimo de
temperatura provoca um aumento no risco de internações por doenças repiratórias. Contrariamente,
as cidades de Fortaleza, Belém e Manaus, mostram um padrão diferente, sugerindo que estas cidades
não são impactadas pelas variações de temperatura. Este resultado sugere que outros fatores sejam
responsáveis pelo aumento das internações por doenças respiratórias.

Tabela 6.1.1 Risco Relativo (RR) de internações hospitalares por doenças respiratórias (asma e bronqui-
te) a partir da variação de Temperatura do ar. IC95% (+0,99 a -0,99).

Variação de temperatura (°C)


Cidades
1(20 – 16) 2(16 – 12) 3(12 – 8) 4(8 – 4) 5(4 – 0)
Porto Alegre 0.61 0.67 0.74 0.82 0.91
Florianópolis 0.58 0.65 0.72 0.81 0.90
Curitiba 0.74 0.74 0.74 0.82 0.91
São Paulo 0.74 0.79 0.84 0.89 0.94
Vitória 0.82 0.85 0.89 0.92 0.96
Belo Horizonte 0.70 0.75 0.81 0.87 0.93
Goiânia 0.71 0.76 0.82 0.87 0.93
Brasília 0.60 0.66 0.73 0.81 0.90
Salvador 0.61 0.67 0.74 0.82 0.91
São Luiz 0.17 0.24 0.34 0.49 0.70
Fortaleza 1.08 1.07 1.05 1.03 1.02
Belém 1.79 1.59 1.42 1.26 1.12
Manaus 2.46 2.05 1.72 1.43 1.2
Palmas 0.71 0.76 0.82 0.87 0.93

*Ajuste pela sazonalidade de longa e curta duração, dias da semana, feriados e estação do ano.
Fonte: Coelho-Zanotti & Saldiva, 2011a

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 267


[Link]. DOENÇAS VEICULADAS POR VETORES: DENGUE

O Índice de Breteau (IB) é um valor numérico que define a quantidade de insetos em fase de
desenvolvimento encontrada nas habitações humanas pela quantidade de total vistoriada. Este
índice é utilizado no Brasil para a determinação de infestação do mosquito da dengue. Apesar das
limitações do índice com respeito à contaminação do mosquito pelo vírus da dengue, este índice revela
informações importantes para o Brasil (Fig. 6.1.1). Os mapas mostram a distribuição de IB semelhantes
distribuição das chuvas no País, sugerindo uma relação importante entre precipitação e transmissão
de dengue (Silva et al., 2008). O estudo mostra que região Norte apresentou núcleos intensos do
IB no verão e outono. No norte de Rondônia (Fig 6.1.1a), noroeste do Pará (Fig.6.1.1b) e sudoeste
do Amazonas/Acre o IB apresenta altos valores durante todo o ano. O período chuvoso da região
é compreendido entre Novembro e Março, com período de seca entre Maio e Setembro (Figueroa e
Nobre, 1990). Há regiões na fronteira entre Brasil e Peru, Colômbia e Venezuela em que o total anual
atinge 3500 mm (Marengo, 1995). Nestas regiões não existe período de seca e os elevados valores
de precipitação próximos à Cordilheira dos Andes, explicam a persistência dos altos valores de IB
observado no sudoeste da Amazônia brasileira. A temperatura mostra pequena amplitude, com valores
médios entre 24 e 26ºC, condição ideal para vida do mosquito.

No Nordeste, na época do verão e do outono (Fig. 6.1.1 a e Fig. 6.1.1 b) toda a região apresenta
valores significativos do IB (período de chuvas convectivas do semiárido). A faixa litorânea da região é
favorecida por fatores de grande escala como a Zona de Convergência Intertropical - ZCIT (Coelho-
Zanotti, 2002), Frentes Frias e de sistemas de mesoescala (brisa marítima, linhas de instabilidade e
Sistemas Convectivos de Mesoescala). A alta incidência do IB no inverno (Fig. 6.1.1c) na costa leste é
associada às ondas de leste (Yamazaki, 1975). Há um enfraquecimento do IB na faixa litorânea apenas
na primavera, época mais seca do Nordeste.

Nas regiões Centro-Oeste e Sudeste verificam-se núcleos significativos no sul de Mato Grosso, norte
do Mato Grosso do Sul e Noroeste de Minas Gerais e São Paulo na época do verão. Este é o período
mais chuvoso destas regiões, com maior atuação da Zona de Convergencia do Atlantico Sul (ZCAS)
(Rocha e Gandú, 1996). Áreas isoladas em Minas Gerais e São Paulo são observados persistindo até
o inverno (Fig. 6.1.1b e Fig. 6.1.1c). A região Sul do Brasil não mostrou estar sujeita a altas taxas
do IB, pois o mosquito da dengue não sobrevive a temperaturas abaixo de 16ºC. A transmissão
ocorre preferencialmente em temperaturas superiores a 20ºC e a temperatura ideal para proliferação
é em torno de 30 a 32 ºC (SUCEN, 2004). Segundo Marengo et al. (2007), a Região Sul do Brasil
apresenta uma redução na freqüência de dias frios, ou seja, indicando que a região esta ficando
mais aquecida, desta forma, tornando-se um ambiente favorável para o vetor da dengue. Talvez esta
alteração no clima da Região, possa explicar os casos de dengue autóctone já observados no sul do
País (Mendonça, 2005).

Figura 6.1.1 Distribuição do índice de


Breteau (IB) médio para o período de
(a) verão, (b) outono, (c) inverno e (d)
primavera no período de 2001-2005.

Fonte: Silva e Coelho-Zanotti et al., 2008

268 VOLUME 2
[Link]. ESTUDOS NA METRÓPOLE: SÃO PAULO

No Brasil, vários estudos têm sido feitos, principalmente em São Paulo. Grande parte destes estudos
foi iniciada e continuam sendo feitos pela Faculdade de Medicina da USP, por meio do Laboratório de
Poluição Atmosférica e Experimental (LPAE). Diante das inúmeras pesquisas feitas sobre a influência da
poluição na saúde humana, ficou claro que a poluição em São Paulo é um problema de Saúde Pública
(Imai et al., 1985; Saldiva et al., 1994; Sharovsky, 2001; Lima et al., 2001; Lin et al., 2004). Muitos
destes estudos usaram as variáveis meteorológicas como variáveis de controle, pois o interesse era fil-
trar apenas o impacto dos poluentes. Contudo, com os recentes eventos extremos ocorridos na cidade,
despertou-se para o entendimento de como a meteorologia poderá interferir na saúde da população,
pois estes eventos extremos meteorológicos fugiram do padrão sazonal, levando os pesquisadores a
observar a meteorologia não só como variáveis de controle, e sim, como um potencial causador de
desfecho na saúde (Gonçalves e Coelho-Zanotti, 2010; Coelho-Zanotti, 2010).

A sinergia entre poluentes e variáveis meteorológicas é evidente e, se faz necessário evidenciar esta
sinergia em forma de índice que represente o ar das metrópoles. Desta forma a modelagem se torna
mais realística. Coelho-Zanotti e Saldiva (2011b) utilizaram uma técnica estatística multivariada, a fim
de obter um índice que reflita a sinergia entre as variáveis meteorológica e os poluentes atmosféricos
para cidade de São Paulo, denominado “Ìndice de Ar Urbano”. Este índice pondera a influencia de
cada variável do ar paulistano, produzindo um índice que reflita com mais realidade o ar que respira-
mos. Desta forma a modelagem utilizada se torna o mais próximo da realidade. Estudos iniciais para
a cidade de São Paulo mostram que as doenças respiratórias podem ser influenciadas pelos poluentes
Material Particulado (PM10), SO2, CO, O3, temperatura e umidade mínimas. Estas variáveis juntas ex-
plicam 71.5% do processo. Para doenças cardiovasculares, além dos poluentes acima citados o NO2
também participa do processo e a temperatura máxima e umidade mínima são as variáveis meteoro-
lógicas que compõe o índice. Todas as variáveis juntas explicam 74.4% do processo.

• Doenças cardiovasculares
Na época do inverno, a cidade de São Paulo é uma localidade de alto risco para doenças respirató-
rias. A falta de chuva característica desta época do ano seria um problema menor se não fosse o ex-
cesso de poluentes no ar da cidade. Mais uma vez, a cidade de São Paulo tem um ar peculiar e estudar
as condições atmosféricas nesta cidade não é trivial, tanto na ótica de saúde como no entendimento
das interações de escala dos fenômenos meteorológicos que ocorrem da cidade.

Em 2010, um evento de baixa umidade relativa do ar ocorrido em agosto (Fig. 6.1.2) chamou atenção
pela quantidade de dias em que a umidade relativa do ar ficou abaixo de 30%, no total foram 11
dias consecutivos. Evento semelhante só ocorreu antes em 1999, desde que se tem registro da série
histórica que é desde 1961 (INMET, 2010). Agosto de 2010 foi um mês atípico, marcado por evento
meteorológico extremo da cidade de São Paulo, ou seja, este evento fugiu da sazonalidade esperada
para o inverno. Ao analisar os dados de autopsia do SVOC1 , verificou-se que este evento pode ter
influenciado a morte de idosos por doenças cardiovasculares na cidade. Utilizando análise estatística,
verificou-se que houve acréscimo de internação de 0,26% para 0,64% quando a umidade diminui de
100% para 10%, independentes da influência dos poluentes (Coelho-Zanotti et al., 2011a). Apesar de
parecer um valor pequeno, este resultado é independente de outros fatores, como a poluição. Desta
forma, além da influencia da poluição na cidade o evento meteorológico extremo parece ter contribu-
ído para as mortes na cidade.

1
SVOC - Compostos Orgânicos Semi Voláteis, sigla em Inglês.

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 269


Figura 6.1.2 Número de dias com umidade relativa abaixo de 30% em 2010.

Fonte: Estação Meteorológica do IAG-USP.

• Doenças Respiratórias: Afecções Vias Aéreas Superiores


Gonçalves e Coelho-Zanotti (2010) analisaram a série histórica das temperaturas medidas na estação
Meteorológica do IAG-USP da cidade de São Paulo no período de 1930 a 2009. As análises mostra-
ram que o mês de abril está ficando mais quente (taxa de aumento de 0,04). Já para o mês de maio,
o aquecimento é mais suave (taxa de aumento de 0,03). Antes das alterações climáticas na cidade,
este contraste de temperatura era mais suave, visto que o mês de abril não estava tão “quente” como
atualmente. Este fato mostra a alteração do padrão da temperatura da cidade e, isso é uma evidência
do impacto da alteração climática local (Xavier, 2008). Como consequência na saúde da população,
observou-se um pico de internação por Afecções das Vias Aérea Superiores (AVAS) em maio, possivel-
mente devido ao problema de termo-regulação em indivíduos adaptados ao clima/tempo mais ameno
de abril, antes da mudança no clima (Gonçalves e Coelho-Zanotti, 2010).

• Doenças Respiratórias – Afecções das Vias Aéreas Inferiores (AVAI)


Analisando a série de afecções vias aéreas inferiores (asma e bronquite) na população paulistana no
período de 1998-2005, notou-se um aumento na tendência de internações a uma taxa de 0,02% (Fig.
6.1.3). Este resultado chama atenção, uma vez que o tratamento para doença tem evoluído positiva-
mente, principalmente devido ao desenvolvimento de medicamentos (ECRHS, 1996). Neste estudo,
resultados iniciais mostraram que quando as internações ultrapassam 33% da média esperada (por
dia) as variáveis associadas são a temperaturas menores que 17ºC e MP10 acima de 56.0 mg/m3.
Segundo o modelo, estes dois fatores juntos poderão aumentar em 4.5 vezes a chance de internação
por asma. Quando as internações ultrapassam 62% da média esperada (por dia) a variável associada
é o O3. A concentração de O3 a partir de 76.87 mg/m3 poderá aumentar em 9.7 vezes a chance de
internação por asma. Este resultado tem algumas implicações importantes dentre elas o fato do padrão
ideal para o poluente está diferente do adotado pelos órgãos reguladores. Por outro lado, com a me-
lhoria de previsão de tempo no País é possível avisar com antecedência quando a temperatura cairá
no patamar menor que 17°C (Veja São Paulo, 2011).

270 VOLUME 2
Figura 6.1.3 Número de internações diárias por Afecções das Vias Aéreas Inferiores (asma e bronquite)
para cidade de São Paulo no período de 1998-2006.

Fonte: Dados provenientes do DATASUS

• Doenças veiculadas por vetores: Leptospirose


Além do caos urbano, perdas de produtividade, prejuízos econômicos provocados pelas enchentes de
verão em São Paulo, estudo feito por Coelho-Zanotti e Massad (2012) mostra que depois de 14 dias
de exposição à água contaminada de uma enchente, os moradores de São Paulo tem risco de adoecer
por leptospirose (Fig. 6.1.4). Por exemplo, para uma chuva de 100 mm ocorrida em um determinado
dia, depois de 14 dias é possível que ocorra um acréscimo de aproximadamente 150% nas internações
por Leptospirose. O estudo mostrou que os meses de primavera e verão são os mais relacionados com
a leptospirose e o mês de fevereiro se mostrou com maior número de internações.

Figura 6.1.4 Gráficos dos


acréscimos para os res-
pectivos lags. A linha
preta contínua é a média
dos acréscimos.

Fonte: Coelho-Zanotti e
Massad, 2012.

As doenças veiculadas por vetores é uma preocupação diante de eventos extremos de precipitação,
principalmente em grandes centros urbanos onde os impactos de uma enchente podem acarretar além
de mortes por desmoronamento, afogamentos, óbitos por doenças veiculadas pelas águas. Na cidade
de São Paulo esta preocupação se faz necessária, pois os eventos extremos de precipitação estão se
tornando mais frequentes e localizados nas áreas centrais da cidade. Utilizando a Distribuição Gumbel
para analisar os dados de precipitação de São Paulo, verificou-se que as chuvas com valores de 70
mm e 80 mm, estão mais frequentes (Fig. 6.1.5), Ambrizi et al. (2007).

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 271


Figura 6.1.5 Frequência de precipitação de 70 mm e 80 mm por décadas para a cidade de São Paulo.

Fonte: Dados INMET – 7°Distrito de Meteorologia São Paulo.

6.1.3. COBENEFÍCIOS IMEDIATOS E LOCAIS À SAÚDE HUMANA DAS POLÍTICAS DE MITIGAÇÃO


DA EMISSÃO DE GASES DE EFEITO ESTUFA.

Há uma percepção generalizada de que as medidas necessárias para mitigar as mudanças climáticas
terão alto custo social e econômico. Este conceito pode não ser necessariamente verdadeiro. Estudos
recentes indicam que as políticas voltadas para mitigar as mudanças climáticas promovem, ao mesmo
tempo, benefícios à saúde da população nas áreas onde são adotadas. Os cobenefícios de saúde, que
se somam àqueles já descritos na escala global, têm o potencial de reduzir, ou mesmo absorver com
sobras, os custos das medidas tomadas visando à redução das mudanças climáticas. Por exemplo,
um estudo recente de meta-análise focalizando os efeitos das políticas climáticas sobre a qualidade
do ar indica um ganho entre US$ 2,00 a US$196,00 (média de US$49,00) por tonelada de redução
de emissões locais de CO2, sendo que os maiores benefícios, neste caso, seriam sentidos nos países
de menor renda (Nemet et al., 2010). Estes resultados apontam que os cobenefícios locais represen-
tam um ganho da mesma ordem de magnitude dos custos inerentes às medidas de abatimento das
emissões, fornecendo argumentos adicionais em favor da redução de emissões e, ao mesmo tempo,
incentiva as nações a adotar políticas de abatimento o mais rapidamente possível (Haines et al., 2009).
Alguns exemplos pontuais de cobenefícios à saúde das políticas de mitigação às mudanças climáticas
são apresentados a seguir.

A adoção de uma política de transporte ativo, como a caminhada ou ciclismo, reduz a emissão de
gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, reduz o risco de doenças como a hipertensão arterial, obe-
sidade, osteoporose e diabetes nos seus praticantes. Uma rede eficiente de transporte coletivo aumenta
a eficiência energética da mobilidade urbana, como também promove a caminhada (da casa aos
pontos de ônibus e estações de metrô e destes ao trabalho) trazendo os benefícios do exercício regular
e redução dos poluentes tóxicos de efeito local e acidentes de trânsito. Estudo realizado em São Paulo
indica que o Metrô, como alternativa modal de alta capacidade movida à energia elétrica, reduz as
emissões de poluentes em 75% e o risco de mortalidade cardiorrespiratória de sua população, com um
ganho de US$ 36 a 50 milhões/ano com as mortes evitadas (Bastos, 2009; 2010).

A disposição e manejo adequado dos resíduos sólidos reduzem a emissão de metano e, ao mesmo
tempo promove melhorias da saúde humana. Os resíduos sólidos orgânicos que sofrem processo de
decomposição constituem um meio apropriado para a proliferação de agentes infecciosos (bactérias
e parasitos), consequentemente a exposição da população a esse tipo de resíduo pode dar origem a
doenças, principalmente as gastrointestinais e dérmicas (PAHO 2005; Ribeiro e Gunther, 2003). Por-
tanto medidas de tratamento e disposição final de resíduos sólidos orgânicos, como compostagem,
são relevantes para reduzir o risco à saúde da população.

272 VOLUME 2
[Link] COMO CAMINHO PARA AS POLÍTICAS DE MITIGAÇÃO E ADAPTAÇÃO FRENTE ÀS
MUDANÇAS CLIMÁTICAS

As grandes cidades possuem responsabilidade para a causa do aquecimento global e também é


nestas metrópoles que os impactos das mudanças do clima afetam a população, através de extremos
meteorológicos. As metrópoles consomem 75% de toda energia produzida no mundo e emitem 70%
de CO2 (C40, 2011). Com base nessa realidade, foi formado em outubro de 2005 o C40, Grupo de
Liderança das Grandes Cidades pelo Clima, que reúne as 40 maiores metrópoles do planeta (São Pau-
lo, Rio de Janeiro e Curitiba são as três cidades brasileiras participantes), lideradas por Londres e Nova
York, para discutir e unir forças no combate à neutralização do aquecimento global. É a quarta vez que
os prefeitos das maiores cidades do mundo se reúnem, através da Rede C40, no São Paulo C40 Large
Cities Climate Summit para discutir medidas de combate às mudanças climáticas. A edição de 2011 é
um marco, por dois motivos: o primeiro é a primeira oportunidade na qual a reunião de líderes acon-
tece na América do Sul. O segundo é a decisão do Comitê Gestor Internacional de acatar a sugestão
de São Paulo de incorporar de forma incisiva o tema da Saúde Humana na pauta do evento. Após a
participação no evento de 2007, a Prefeitura do Município de São Paulo aceitou o desafio e estruturou
de forma pioneira no Brasil sua Política Municipal sobre Mudança do Clima (Saldiva et al., 2011).

6.1.5. RECOMENDAÇÕES

A melhoria das condições de saúde, tanto localmente como globalmente, deve ser um dos critérios
para a adoção de procedimentos de mitigação das mudanças climáticas. O tema de saúde humana
deve ser ampliado para além das convencionais considerações sobre a adaptação das populações
afetadas, passando também a contemplar os cobenefícios potenciais de saúde que devem ser consi-
derados quando da formulação de políticas de mitigação.

As relações entre saúde e clima, nos domínios de adaptação e cobenefícios da mitigação de gases de
efeito estufa devem profundadas em escala regional e local, com ênfase na maior vulnerabilidade das
populações, tendo em conta as características físicas e geográficas das diferentes regiões, bem como
as importantes diferenças culturais e econômicas das populações, fatores sabidamente modificadores
das vulnerabilidades regionais frente às mudanças climáticas globais.

A comunidade de saúde deve assumir papel de liderança pelo exemplo, por meio da redução das
emissões dos sistemas de saúde. Compete à saúde também discutir de forma clara os aspectos éticos
embutidos nas relações entre mudanças climáticas e saúde humana, dada à realidade objetiva que a
maior parte dos efeitos adversos sobre a saúde ocorrerão em regiões com menor potencial de adap-
tação e com menor responsabilidade pelas emissões.

6.2 SEGURANÇA HUMANA

6.2.1. INTRODUÇÃO

O quarto relatório do IPCC (2007) utilizou ferramentas e metodologias computacionais mais precisas
para evidenciar a existência e extensão das mudanças climáticas. Com isso houve no âmbito científico
assim como na sociedade em geral, uma diminuição significativa das incertezas em relação à efetivi-
dade e as decorrências das mudanças climáticas.

Dentre as principais decorrências das mudanças climáticas estão, por um lado, a probabilidade de
aumento do número e da intensidade de eventos climáticos extremos, como precipitações intensas,
períodos de seca prolongados, oscilações de temperatura e ressacas marítimas (Meehl et al., 2007;
Sun et al., 2007). Por outro lado, a elevação do nível do mar, com implicações importantes para um
país com mais 8 mil quilômetros de extensão da zona costeira, conforme apontam Carmo e Silva

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 273


(2009). Os aspectos relativos às características geológicas das variações do nível do mar, assim como
da variação dos sedimentos e efeitos sobre os ecossistemas, possuem ampla abordagem, conforme
mostram os trabalhos de Suguio et al. (1988), Cohen et al. (2005), Angulo et al. (2006) e Mesquita e
Harari (2011).

As consequências negativas dos eventos climáticos extremos são bem conhecidas pela população
brasileira, através de suas implicações em termos de inundações, alagamentos, deslizamentos de
encostas e deslocamentos populacionais das regiões atingidas (por enchentes ou períodos de seca
prolongados). Estas situações afetam tanto as áreas rurais quanto as áreas urbanas, com impactos e
implicações diferenciadas. Por um lado, com o histórico do rápido processo de urbanização brasileiro,
o maior volume de pessoas expostas está concentrado nas áreas urbanas, assim como grande parte
dos investimentos sociais em infraestrutura. Por outro lado, também são afetadas as populações rurais
e as atividades produtivas primárias, agricultura e pecuária, que são muito susceptíveis às variações
climáticas.

No contexto das mudanças climáticas, a segurança humana estará sujeita a um número crescente de
ameaças, com perdas de vidas e perdas materiais, com efeitos que perduram ao longo do tempo,
uma vez que são afetadas moradias e também as atividades geradoras de empregos. A perspectiva
de maior incidência dos eventos climáticos extremos exige atenção da sociedade, no sentido de se
organizar para enfrentar essas situações, o que envolve múltiplos aspectos a serem considerados,
conforme apontam a WHO (2003) e WHO (2009). Dentre estes aspectos destaca-se a necessidade
de cuidados em relação à saúde mental dos grupos sociais afetados, OPAS (2010).

Para se compreender a segurança humana no contexto das mudanças climáticas destacam-se dois
conjuntos temáticos de abordagem: riscos e desastres. Em ambos os casos evidencia-se como
fundamental o conceito de vulnerabilidade, em suas várias acepções. A mediação através da percepção
dos indivíduos e das representações sociais sobre as decorrências das mudanças climáticas também
são aspectos importantes a considerar.

No caso brasileiro essa discussão sobre as decorrências das mudanças climáticas, seja através da
abordagem dos riscos ou da abordagem dos perigos, desenvolve-se em um contexto de transições
importantes. Por um lado, a transição demográfica, que aponta no sentido da diminuição das taxas
de crescimento da população brasileira para as próximas décadas. Por outro lado, o processo de
urbanização, que faz com que a população esteja concentrada em determinados espaços, ou que
amplos espaços passem a ter características de ocupação urbana.

Assim, a população do Brasil chegou, conforme o Censo Demográfico 2010 realizado pelo IBGE, a
190,7 milhões de habitantes, tendo aumentado 21 milhões de habitantes durante a primeira década
do século XXI. Embora o crescimento na última década tenha sido expressivo em valores absolutos,
verificou-se que a diminuição das taxas de crescimento da população brasileira foi sensivelmente mais
acentuada do que as projeções apontavam. Os dados confirmam que o Brasil já se encontra em uma
fase adiantada da Transição Demográfica. As taxas de natalidade e mortalidade foram reduzidas de
maneira significativa, o que indica que, nas próximas décadas, a população brasileira deverá atingir
um volume populacional máximo de cerca de 206 milhões de habitantes no ano 2030, tendendo a
diminuir o volume populacional na década seguinte.

A redistribuição espacial da população é outro aspecto que deve ser considerado, dado que a
Transição Demográfica se faz acompanhar pela Transição Urbana. Em 1950, a população residindo
em áreas urbanas no Brasil era da ordem de 18,7 milhões de pessoas (36% do total da população). Em
2010, segundo os resultados do Censo do IBGE, a população residente em áreas urbanas alcançou
160,8 milhões de habitantes (84% da população). O aumento do volume da população urbana e do
grau de urbanização recoloca a preocupação com a relação entre desigualdade social e problemas
ambientais, principalmente no contexto das mudanças climáticas, especificamente no caso dos eventos
climáticos extremos.

274 VOLUME 2
Nesse contexto, mesmo considerando a diminuição do crescimento populacional, permanecem os
déficits históricos de infraestrutura urbana, que ainda vão exigir esforços significativos para o seu
equacionamento. Ao mesmo tempo, é importante considerar que o processo de expansão urbana foi
realizado em grande parte sem planejamento adequado, com ocupações em grande parte espontâneas,
determinadas pela ação do mercado imobiliário por um lado, e pela necessidade premente e falta de
acesso ao mercado por outro lado. O resultado desse processo foi a ocupação de áreas inadequadas,
suscetíveis a inundações e deslizamentos de terra. O acirramento dos eventos climáticos traz uma nova
emergência para o enfrentamento dessas questões.

Mesmo com essa importante concentração populacional nas áreas urbanas há que se destacar que
existe um significativo volume populacional residente em áreas rurais. São 30 milhões de pessoas que se
encontram em áreas relativamente isoladas ou remotas. E essas populações também vão estar sujeitas aos
efeitos dos eventos climáticos extremos, em uma situação que pode ser ainda de maior vulnerabilidade,
tendo em vista as dificuldades de acesso em caso de desastre. Grupos populacionais específicos,
devido a suas características culturais e de organização econômica, como os grupos indígenas e as
comunidades quilombolas, são especialmente susceptíveis aos eventos climáticos extremos, exigindo
uma atuação específica. Principalmente após situações de desastre, quando a rearticulação de sua
estrutura de organização social pode levar muito tempo para se reorganizar. Neste sentido, D’Antona e
Carmo (2010) discutem a transição demográfica e a questão ambiental, mostrando como os debates e
problemas da Demografia podem ser pensados à luz da relação população e ambiente no que tange à
localização, distribuição no espaço e uso dos recursos pela população.

6.2.2. SEGURANÇA HUMANA A PARTIR DA PERSPECTIVA DOS CONCEITOS DE RISCO E


VULNERABILIDADE

As causas das mudanças climáticas e seus impactos para a população já haviam sido sistematizados por
O´Neill et al. (2001). Nesse contexto, os impactos sociais dos eventos climáticos extremos evidenciam
a necessidade de se pensar a segurança humana a partir da perspectiva dos riscos decorrentes do novo
conjunto de perigos configurados a partir das mudanças climáticas. Em sentido amplo, reafirmam o
que havia sido apontado por Beck (1992), ao definir a “sociedade de risco”:
“(...) in the risk society the unknown and unintended consequences come to be a dominant force in
history and society”. (p.22)

No Brasil as discussões sobre o conceito de risco foram desenvolvidas especialmente no âmbito dos
estudos de saúde e epidemiologia, como apontam Freitas e Gomez (1996). Para estes autores a partir
de 1980:

“Com a crescente mobilização em torno dos riscos tecnológicos e o aumento dos casos relacionados
ao assunto que alcançaram a esfera judicial, o Estado foi impelido a ampliar o seu papel institucional
mediante o desenvolvimento da legislação no campo da saúde, segurança e do meio ambiente,
tendo como consequência o crescimento das agências públicas encarregadas do problema (Covello
e Mumpower, 1985). As indústrias, em alguns casos obrigadas a arcar com os custos de indenizações
pelos danos causados, passaram a montar equipes e instalar laboratórios capazes de fornecer dados
científicos para se contrapor aos seus críticos no governo e nos movimentos sociais e às regulamentações
mais restritivas de proteção da saúde e do meio ambiente (Gillespie, 1979).” (Freitas e Gomez, 1996,
p. 491)

Ao ser ampliado para abarcar as questões ambientais, o conceito de risco passa a ter conotações que
remetem a uma ampla gama de fatores. Especificamente remete à relação entre dinâmica social e
aspectos ambientais, passando a ser importante a perspectiva da vulnerabilidade. As vulnerabilidades,
que podem ser de diversas ordens, são definidas a partir dos riscos, que também podem ser
diversificados, dependendo o perigo ao qual estão referidos.

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 275


A discussão teórica sobre riscos e vulnerabilidade avançou de maneira significativa durante as décadas
recentes, com vários trabalhos que sistematizam os conceitos e a aplicação que é realizada desses conceitos
em várias disciplinas científicas, como Marandola Jr. e Hogan (2009), Moser (2006) e Feito (2011).

A vulnerabilidade pode ser do lugar, indicando maior susceptibilidade aos riscos, ou pode ser social,
que incorpora além da susceptibilidade a perspectiva da capacidade de enfrentamento dos riscos de
diversas ordens, principalmente através dos ativos (sociais, econômicos ou outros) que podem ser
mobilizados nesse processo.

Entretanto, a operacionalização do conceito de vulnerabilidade não é fácil. Principalmente em função


da dificuldade de obtenção de dados adequados. Principalmente quando se trabalha em escalas de
detalhe, como é geralmente o caso em que ocorrem os eventos climáticos extremos.

Uma das dificuldades é a inexistência de mapeamentos de áreas de risco em escalas detalhadas


que sejam acessíveis à população. Mesmo quando a informação existe nem sempre é divulgada
de maneira acessível. Assim, dois elementos são fundamentais para que se avance no sentido da
segurança humana: o efetivo mapeamento das áreas de ocupação humana, para fins residenciais ou
produtivos, que estão em situação de risco. E a possibilidade de acesso direto a essas informações.

Mapear ajuda a conhecer as áreas sujeitas aos perigos que podem ser potencializados pelas
mudanças climáticas, e a planejar a ação em casos de incidência de eventos extremos. Entretanto, é
importante salientar que o mapeamento em si não é a solução para os problemas relacionados com
a vulnerabilidade, porque não implica necessariamente em evidenciar as origens do problema, nem
em apontar soluções. Esses dois aspectos centrais possuem um cunho social e político, que necessitam
de um ferramental teórico e metodológico das Ciências Sociais para ser compreendido. Evidencia-
se assim a necessidade de abordagens que sejam interdisciplinares, de maneira a tornar possível o
conhecimento capaz de subsidiar políticas e ações sociais efetivas. Nesse sentido, por exemplo, é
importante conhecer os processos de uso e ocupação do espaço urbano e rural, especialmente no que
diz respeito aos condicionantes envolvidos na localização espacial e construção das habitações

6.2.3. PERCEPÇÃO AMBIENTAL E RISCOS

O encontro das Nações Unidas sobre Meio Ambiente realizado no Rio de Janeiro em 1992 foi um
marco para as discussões ambientais. Diferentemente do que havia acontecido em Estocolmo em
1972, havia já um acúmulo maior de experiências sobre a questão ambiental, com uma estruturação
também maior dos movimentos ambientalistas (Conca, 1995; Najam, 2005; Biermann et al., 2009).

Nesse novo contexto, ganhou importância também à necessidade de realizar no Brasil esforços mais
sistemáticos de avaliação sobre a percepção e o comportamento dos brasileiros sobre a questão
ambiental. Crespo (2003) apresenta o resultado de pesquisas amostrais, representativas para o
conjunto do país, que foram realizadas nos anos de 1992, 1997 e 2001. Nessas pesquisas foram
utilizadas questões com o objetivo de: entender o conceito predominante de meio ambiente para a
população; medir o conhecimento sobre os problemas ambientais; medir a disposição da população
em ajudar na solução dos problemas identificados; avaliar o desempenho dos atores e instituições
com atribuições de proteger o meio ambiente. Crespo aponta que as questões foram constituídas
de maneira a serem comparáveis com as realizadas em outros países, o que também significava a
aplicação de questões que já haviam sido previamente testadas. Dentre os resultados encontrados
no Brasil, Crespo (2003) destaca que, primeiramente, a variável “nível de escolaridade” é a mais
importante, funcionando como preditor, ou seja, como determinante no padrão de respostas. Quanto
mais alto o nível de escolaridade, mais consistente é o interesse, o conhecimento e a preocupação
com as questões ambientais. Os grupos com maior nível educacional apareceram como os mais
preocupados com o meio ambiente desde os estudos realizados durante a década de 1970, conforme
aponta Ester et al.. (2005).

276 VOLUME 2
De acordo com MMA (2010), o Ministério do Meio Ambiente brasileiro vem realizando a cada quatro
anos, desde 1992, pesquisa nacional que acompanha a evolução da consciência ambiental no País.
Os dados da pesquisa têm revelado que a consciência cresce em todas as classes sociais e regiões
brasileiras, mas que ainda existe um abismo entre a preocupação e o comportamento efetivo, sendo
que persiste a tendência dos brasileiros considerarem como “meio ambiente” apenas flora e fauna,
deixando de fora o ambiente humano por excelência que são as cidades. Um dos objetivos primordiais
da pesquisa foi identificar de um lado, o potencial de adesão da população a comportamentos
ambientalmente responsáveis, e de outro, as contradições, mitos e erros de informação, que levam
milhares de cidadãos a agirem de modo ainda predador e pouco engajado.

É importante destacar que grande parte dos estudos sobre percepção ambiental, especialmente
no Brasil, abordam especialmente populações residindo em áreas urbanas. Nesse sentido, o
conhecimento prático das populações tradicionais, assim como o acúmulo de experiências dos grupos
sociais residentes em áreas rurais, podem contrabalançar essa importância que é atribuída ao nível de
escolaridade da população para uma atitude mais preocupada com as questões ambientais.

Entretanto, essas pesquisas realizadas até o início da década de 2000 não perguntaram especificamente
sobre a questão do aquecimento global. Em um levantamento realizado no âmbito do Projeto Clima,
desenvolvido pelo NEPO/UNICAMP, foi acrescentada uma questão específica sobre aquecimento
global. Essa pesquisa teve como objetivo compreender a situação de vulnerabilidade da população
residente em duas regiões metropolitanas do estado de São Paulo: Região Metropolitana de Campinas
e Região Metropolitana da Baixada Santista. Guedes e Carmo (2012) apontam que o questionário
foi aplicado em 1.823 domicílios dos 19 municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC)
e 1.595 domicílios nos nove municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS), no
segundo semestre de 2007. Seu desenho amostral foi feito a partir de Zonas de Vulnerabilidade
(ZVs), que foram compostas a partir dos dados do Censo 2000, sem representação espacial, mas
permitindo uma análise domiciliar (Cunha et al., 2006). A pergunta sobre aquecimento global foi
a seguinte: “O aquecimento global é um problema ambiental muito grave, pouco grave ou nada
grave?”. Os resultados mostraram que os residentes nas áreas definidas como de mais elevada
vulnerabilidade social e residencial (definida a partir de um conjunto de indicadores socioeconômicos
e de características do entorno domiciliar), 78% dos residentes dessa categoria na RMBS e 82% dos
residentes na RMC consideraram o aquecimento global como um problema muito grave. Dentre aqueles
com vulnerabilidade intermediária, 80% dos residentes dessa categoria na RMBS e 87% dos residentes
na RMC consideraram o aquecimento global como um problema muito grave. E os entrevistados
residentes nas áreas de menor vulnerabilidade, 93% dos residentes dessa categoria na RMBS e 94%
dos residentes na RMC consideraram o aquecimento global como um problema muito grave. A crença
nas informações científicas que fundamentam o Aquecimento Global não é unânime. Entretanto, os
desastres relacionados à ocorrência de eventos extremos suscitam maior preocupação social com o
tema das mudanças climáticas. Principalmente os desastres que afetam comunidades inteiras com
óbitos e prejuízos materiais acima da capacidade de sobrevivência individual dos Municípios e Estados.

Para entender a percepção das comunidades e suas representações sociais com relação aos efeitos
do aquecimento global e nas mudanças climáticas, faz-se necessário se, primeiramente, a adoção de
paradigmas mais amplos, que sejam capazes de incorporar as relações que se estabelecem em variáveis
complexas, decorrentes da dinâmica social. E a partir daí estabelecer um novo diálogo, que possibilite
a troca de informações que permita como trabalhar com as comunidades as questões relativas à
melhoria das suas condições de segurança, que envolvem aspectos tais como mudança de endereço,
exercícios frequentes de evacuação, retirada de comunidades inteiras e de forma definitiva para áreas
mais seguras ou menos vulneráveis dos municípios. Neste sentido, Toscana Aparício (2011) analisa
a forma na qual o nível de governo municipal atua frente aos “pequenos desastres” associados a
fenômenos naturais, entendendo por “pequenos desastres” aqueles que impactam na escala local, mas
suas consequências não transcendem o âmbito municipal. Neste sentido, Giddens (2010) reflete sobre
algumas experiências específicas, em especial em países da União Europeia. Ele considera que esta
é uma equação difícil: englobar indivíduos, empresas, organizações e setor público. Para resolução,

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 277


Giddens opta por demonstrar porque o Estado é um ator fundamental e deve ser protagonista da con-
vergência, não hesitando em mostrar que pouco ou nada foi feito para alterar hábitos e modelos que
podem nos conduzir a uma catástrofe de proporções épicas. No seu entender, isso decorre da ausência
de políticas concretas e de análises bem desenvolvidas, seja em âmbitos nacionais ou internacionais. E
que as iniciativas mais relevantes têm brotado de ações pessoais e da energia da sociedade civil. Ester
et al. (2004) afirma que fatores culturais exercem um impacto considerável sobre as atitudes públicas
e comportamentos para o ambiente e a forma como os quadros públicos questões ambientais, e que
além de atender o desafio objetivo de degradação ambiental, alterações de valores culturais têm
provocado expressão pública de preocupação e determinado a sua disposição de fazer sacrifícios e
empreender ações para ajudar a proteger o ambiente. Sua pesquisa indica que a mudança de valor
em determinadas regiões culturais originaram o mais alto nível de consciência ambiental e de apoio
à proteção ambiental do mundo. Mudança cultural gradual, associada a crescente prosperidade e a
segurança material, conseguiu gerar públicos altamente sensíveis aos problemas ambientais, como
ocorre hoje na Europa.

Segundo Hogan e Marandola Jr., (2005), riscos e perigos naturais sempre intervieram no relaciona-
mento entre população-ambiente (P-E). Tendo em conta que os riscos e perigos sempre influenciam,
em certa medida, os padrões de assentamento de populações humanas, eles fazem parte da mediação
entre as pessoas e seu meio ambiente.

6.2.4. EM SÍNTESE

Aspectos objetivos decorrentes da discussão sobre a segurança humana, os perigos, os riscos e vulne-
rabilidades decorrentes das mudanças climáticas:
- as mudanças climáticas, embora em uma escala ampla atinjam a população humana como um
todo, vão afetar de maneira mais incisiva a determinados grupos populacionais que já subsistem em
situações de risco. Estas situações de risco decorrem principalmente da ocupação de áreas do espaço
urbano marcadas pela ocupação sem direcionamento planejado, resultante de um tipo de ocupação
espontâneo por exclusão de opções;
- não existe um mapeamento sistemático das áreas que são mais sujeitas aos perigos e riscos decor-
rentes das mudanças climáticas;
- os mapeamentos existentes não estão disponibilizados, ou não são de acesso simples aos residentes
ou aos indivíduos que estejam interessados em residir nas áreas;
- além do mapeamento é importante compreender a realidade social em que se encontram os grupos
mais vulneráveis, de maneira a construir políticas mais efetivas de redução dessa vulnerabilidade;
- a bibliografia sobre desastres e suas abordagens já está bem consolidada internacionalmente, embo-
ra no Brasil ainda seja uma discussão ainda pouco desenvolvida;
- a relação da Defesa Civil com a população ainda é assimétrica, calcada em uma linguagem que di-
ficulta o entendimento entre as partes, com fluxo de informação em sentido único (ou seja, os técnicos
são conhecedores dos riscos e impõem a sua perspectiva analítica). - dependendo da vinculação em
que se encontra a origem (bombeiros, polícia, planejamento urbano) da Defesa Civil, muda a perspec-
tiva de atuação do órgão, enfatizando a setorialidade à qual está mais afeita;
- a importância da organização do sistema de Defesa Civil ganhou expressão nos últimos anos, es-
pecialmente com os esforços de reorganização do sistema, e com a realização no ano de 2010 da
Primeira Conferência Nacional de Defesa Civil e Assistência Humanitária. Seria importante a criação
de instrumentos que garantissem a implementação das deliberações que são geradas nessas conferên-
cias, para que estas possam ser efetivadas na prática;
- ainda não existe um sistema nacional de registro dos desastres. Tendo em vista as recorrências dos
fenômenos, seria importante construir inclusive um arquivo histórico no qual estivessem armazenadas
as informações sobre a ocorrência dos desastres, as atitudes que foram tomadas (durante e depois dos
desastres), assim como uma contextualização detalhada dos aspectos característicos da região antes
do desastre; e,

278 VOLUME 2
- Seria importante também, um acompanhamento da evolução da situação de desastre ao longo do
tempo, o que aconteceu com a área de ocorrência do desastre, o que aconteceu com as populações
atingidas, qual foi a efetividade das ações tomadas pelo poder público no que diz respeito aos vários
fatores envolvidos. Certamente um acompanhamento dessas situações de desastre e uma avaliação
crítica dos procedimentos seriam fundamentais para garantir a melhoria do sistema de segurança
social frente a situações de risco, principalmente na conjuntura atual, quando se começam a sentir os
efeitos das mudanças climáticas.

6.3. SUBSISTÊNCIA E POBREZA

6.3.1. INTRODUÇÃO

Na história da humanidade, há registros e evidências de ter o planeta Terra passado por períodos de
mudanças em seu clima, estendendo-se por ciclos de duração variável, alguns abrangendo períodos
longos. Nesse contexto, há os registros bíblicos de uma gigantesca inundação − o dilúvio − narrativa
inspirada no texto épico babilônico de ‘Gilgamesh’, sobre uma grande enchente que teria acontecido
no Oriente Médio e na Ásia Menor (Kadanoff, 2001); em anos recentes, os geólogos da Columbia
University, Professores William Ryan e Walter Pitman, realizaram estudos no Mar Mediterrâneo e no Mar
Negro, descobrindo evidências que dão suporte a essa estória da Babilônia (Ryan e Pitman, 2000).

Na Idade Média foram observados fenômenos de aquecimento e esfriamento, caracterizando o que


foi denominado de ‘Pequena Era do Gelo’. Algumas das grandes ondas de migração humana, como
as chamadas “invasões bárbaras” de povos do norte e leste em direção ao sul da Europa, e a entrada
de grupos asiáticos no continente americano pelo Estreito de Bhering foram, em parte, decorrentes de
fenômenos climáticos (Barcellos et al., 2009).

Ao longo de toda a história natural, períodos quentes se intercalaram com períodos frios. Com base
em princípios físicos, se sabe que a atmosfera terrestre é responsável pelo aprisionamento de calor
emitido pela superfície terrestre, que se aquece com a radiação proveniente do sol, fenômeno natural,
denominado efeito estufa. Vale ressaltar que o efeito estufa já ocorria na Terra, antes mesmo de surgir o
ser humano, sendo responsável por efeitos benéficos, como a filtragem de raios solares, a estabilização
da temperatura da atmosfera e ciclagem de gases essenciais para a vida (Nordel, 2007).

Tais ciclos de aquecimento do planeta podem ter sua origem explicada por processos naturais, ligados
a alterações no eixo de rotação da terra, explosões solares e dispersão de aerossóis emitidos por vul-
cões. A grande preocupação da sociedade contemporânea está volume de gases que intensificam o
efeito estufa na troposfera (Barcellos et al., 2009).

Os debates mais recentes sobre a questão do aquecimento global dos dois últimos séculos são con-
cordantes, de maneira geral, na tese da intensificação do efeito estufa planetário estar diretamente
relacionada ao padrão de produção e consumo da sociedade moderna. A elevação do volume de
gases de aquecimento na troposfera – derivados em sua quase totalidade das atividades humanas
(indústria, agricultura e transportes, principalmente) – e também daqueles associados à destruição da
camada de ozônio, estaria provocando uma considerável transformação da composição atmosférica
e da dinâmica dos gases que a compõem (Monteiro e Mendonça, 2003). Corroborando com essa
relação antrópica, no âmbito do Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC foi divulgado,
recentemente, haver 90% de chance de o aquecimento global, observado nos últimos 50 anos, ter
sido causado por ação humana (IPCC, 2007), através de aumento das emissões de gases de efeito
estufa. O aumento na emissão desses gases pode induzir um aquecimento da atmosfera, o que pode
resultar em uma mudança no clima mundial, em longo prazo. As mudanças climáticas são reflexos do
impacto de processos socioeconômicos e culturais, como o crescimento populacional, a urbanização,
a industrialização e o aumento do consumo de recursos naturais e da demanda sobre os ciclos bio-
geoquímicos (McMichael, 2003).

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 279


De acordo com o IPCC (AR5 WGII Cap 13), dificilmente, as mudanças climáticas são responsáveis
sozinhas, pelas condições de pobreza e subsistência encontrada em diversos países. As mudanças
climáticas interagem com diversos fatores não climáticos que, devido a este caráter transdisciplinar, faz
da detecção de causas e atribuições para pobreza e subsistência, um desafio. (IFAD, 2011)

Na América Latina, durante o período entre 1950 e 1970, o continente presenciou um crescimento
econômico anual de 5% no seu produto interno bruto. Estes níveis de crescimento expressivo permi-
tiram o desenvolvimento de parques industriais nacionais, urbanização e a criação ou extensão do
desenvolvimento nacional. Entretanto este modelo econômico produziu um parque industrial débil,
incapaz de competir com as indústrias estrangeiras, afetando inclusive outros setores, particularmente
a agricultura, responsável pela estruturação inicial do parque industrial. Nos anos 80, toda esta região
passou uma grande crise financeira, que forçou o continente a adotar regimes macroeconômicos
rigorosos onde, controles de inflação e de déficit público, se tornaram as principais medidas implanta-
das pelos governos. Assim, esta década ficou marcada pela deterioração econômica e de condições
sociais, desemprego, crescimento da economia informal e pobreza. Atualmente, a combinação de
baixos números de crescimento econômico e grande desigualdade, pode fazer com que populações
de regiões se tornem vulnerável economicamente e a desastres naturais também, acentuando as ainda
mais as consequências sociais (UNDP-GEF, 2003).

Para o Brasil, alguns cenários de alterações climáticas têm sido destacados por pesquisadores: in-
tensificação do fenômeno ENSO (eventos El Nino-Oscilação Sul), refletindo-se em secas no Norte e
Nordeste e enchentes no Sul e Sudeste; diminuição de chuvas no Nordeste; aumento de vazões de rios
no Sul; alterações significativas de ecossistemas e biomas, com destaques para o semiárido, mangues,
pantanal e floresta amazônica (Marengo, 2007; Nobre et al., 2007; Barcellos et al., 2009).

No centro de todos esses debates está o ser humano. Como tem sobrevivido a todas as mudanças e a
todos os desastres, as implicações sobre seu modo de vida e sua saúde têm sido objeto de estudos e de
preocupações. Tais estudos visam, não apenas, a sua preservação, mas, principalmente, o seu viver
com qualidade. Em várias partes do mundo, milhares de pessoas passam privações, as mais diversas,
sendo a fome a mais crítica, vinculada, geralmente, a estágios diversos de pobreza, com possibilidades
de tal quadro se agravar no contexto de mudanças climáticas em todo o globo.

As preocupações aumentam ao se considerar o contingente de pessoas que apenas sobrevivem – sub-


sistem – conseguindo manter a vida em situações de pobreza. Pode-se dizer que entre o ‘viver com
cidadania’ e a ‘morte’ há um estágio intermediário, o de subsistência.

Neste trabalho procurou-se reunir conhecimentos sobre o tema subsistência e pobreza, no contexto
das mudanças climáticas, objetivando-se contribuir para um entendimento mais claro e alertar pesqui-
sadores, governantes e a própria sociedade.

6.3.2. SUBSISTÊNCIA

Pelo dicionário de Caldas Aulete, subsistir significa ‘existir na sua substância’, ... ‘manter a vida’, ...
‘continuar a existir’... É difícil aplicar tais conceitos a um animal ou a uma planta, por seu significado
extremo e radical, sendo incompreensível e inadmissível a sua interpretação no contexto de vida de um
ser humano. Subsistência 2 é algo sub-humano...

2
A ideia da subsistência foi cunhada na Inglaterra, a partir de 1890 e primeiras décadas do século XX,
aparecendo em leis (Poor Laws) abordando assistência aos pobres. Tal formulação passou a exercer grande
influência sobre práticas científicas e políticas em todo o mundo, aparecendo inicialmente em parâmetros
estatísticos das condições sociais de vários países e, posteriormente, aplicadas por agências internacionais,
como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (Salama e Destremau, 2001; Codes, 2008)

280 VOLUME 2
Subsistência está relacionada às questões dos mínimos biológicos, centrada nas necessidades de ali-
mentação, indispensáveis para uma pessoa sobreviver. Podem ser considerados dois contextos de sub-
sistência: (a) a de quem subsiste, vive no limiar da pobreza, sob condições extremas de necessidades,
dependendo o seu sustento de ocupações esporádicas (trabalhos de bico) ou de atividades de mine-
ração artesanal, em que o sucesso é ocasional; (b) a situação daqueles que se dedicam a atividades
agrícolas, cultivando culturas, explorando florestas (extrativismo ou não) ou criando animais, depen-
dendo sua vida do que conseguem obter dos cultivos e das criações.

No primeiro caso, em que se incluem as pessoas com ocupações ocasionais e esporádicas e aquelas
envolvidas em atividades de mineração artesanal, a vida depende muito da esperança de algo positivo
acontecer e melhorar o amanhã.

Ao setor agrícola, porém, será dada maior ênfase, por sua fragilidade dentre os outros segmentos da
economia, no contexto de uma das mais baixas rendas per capita, persistindo unidades de agricultura
familiar ao lado de empresas capitalistas de portes variados, abordando-se a subsistência em aspectos
relacionados à vida no campo. Subsistência, em tais condições, significa ter algo para sobreviver, não
estando exposto ao extremo das penúrias. Paradoxalmente à sua nobre missão de alimentar a todos,
inclusive as metrópoles, no campo são identificadas grandes injustiças sociais, fonte de muitas das
mazelas das cidades, pelas baixas perspectivas de vida de seus habitantes, dificuldades de acesso a es-
colas e a serviços de saúde, dentre outros pontos fundamentais para a qualidade de vida das pessoas.

Na perspectiva de mudanças climáticas, comunidades com agricultura dependente de chuvas, que é o


caso do Brasil serão muito mais sensíveis a mudanças nos padrões da precipitação, em comparação
com outra onde a mineração é o meio de subsistência dominante. Do mesmo modo, um ecossistema
frágil, como o Semiárido brasileiro, é mais sensível à diminuição da precipitação do que outros, devido
ao impacto subsequente nos fluxos de água. No nordeste do Brasil, é esperado maior impacto das mu-
danças de clima, com redução da pluviosidade e aumento de temperatura, com consequências sobre
a produção de alimentos provenientes das espécies tradicionalmente cultivadas; tenderão a gerar inse-
gurança alimentar, em função da queda na produção da agricultura de subsistência. Em item à frente,
sobre Subsistência e Cidadania, serão abordadas as perspectivas que se abrem para comunidades que
apenas sobrevivem, no contexto das mudanças climáticas.

No campo, subsistência geralmente significa a garantia de um teto, não importando a sua qualidade,
ter algo para comer, ou mesmo salário e renda. Todo ano, naqueles mesmos meses, as esperanças
se renovam nas primeiras chuvas e sementes de milho, feijão e jerimum, estacas de batata-doce e de
macaxeira são enterradas no chão. No Semiárido brasileiro, práticas agrícolas importadas de outras
regiões são, ainda hoje, de uso corriqueiro, e exitoso quando chove regularmente, fato difícil de ocor-
rer em mais de 60% dos anos; mesmo nos anos de boas chuvas, elas se estendem por, no máximo, 3
a 4 meses, quando se planta, colhe e parte da produção é guardada para servir de alimento nos meses
seguintes. A subsistência é garantida com a criação de animais, principalmente, galinhas, cabras e
ovelhas, mas só nos casos em que o agricultor é também proprietário da terra, situação caracterizada
como agricultura familiar; caso contrário, em muitas situações há restrição para tais atividades criató-
rias, por parte dos donos da terra.

As consequências disso são quadros de fome e pobreza, nos anos de seca ou quando são poucas as
chuvas. A expectativa de vida é baixa, pelas implicações, sobre a saúde, da falta de água tratada e
serviços de esgotos, grandes dificuldades de acesso a serviços de atendimento médico e tratamento
de doenças. Diante deste cenário, muitos recorrem à migração como ultimo recurso, mudando-se
para cidades onde, continuarão a viver na subsistência. Considerando as questões abordadas no
penultimo parágrafo, sobre a situação no campo, quando o ano é ‘bom de inverno’ e foi possível
guardar grãos para servirem de alimento no restante dos meses, ocorrerão perdas quantitativas e
qualitativas, pois dificilmente escaparão do ataque de pragas de insetos e o resultado será a de-
terioração da qualidade e quantidade da comida. E quando não chove o suficiente, para garantir
colheita? É possível imaginar a seguinte situação: culturas de outras condições climáticas foram im-

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 281


plantadas, as plantas começaram a crescer, mas as chuvas não continuaram, ou acontece um longo
verão e tudo, ou quase tudo se perde.

A agricultura de subsistência pode conviver com outras formas de produção; como exemplo, embora
raro na exploração comercial da cana-de-açúcar, algumas empresas permitem que trabalhadores
habitando casas em suas terras tenham uma pequena área de exploração em torno de sua casa, onde
plantam hortas e algumas fruteiras e criam pequenos animais; nas grandes plantações de café no Bra-
sil colonial, muitas vezes os escravos praticavam essa forma de cultivo, não só para a sua mantença
pessoal e familiar, mas, também, para a dos seus senhores (Frederico e Castillo, 2004).

[Link]. SUBSISTÊNCIA EM EXTRATIVISMO AGRÍCOLA


.
O extrativismo constitui um ciclo econômico constituído de três fases distintas. Na primeira fase, verifi-
ca-se um crescimento na extração, quando os recursos naturais são transformados em recursos econô-
micos com o crescimento da demanda. Na segunda fase, atinge-se o limite da capacidade de oferta,
em face dos estoques disponíveis e do aumento no custo da extração, uma vez que as melhores áreas
tornam-se cada vez mais difíceis. Na terceira fase, inicia-se o declínio na extração, com o esgotamento
das reservas e o aumento na demanda, induzindo ao início dos plantios, desde que a tecnologia de
domesticação esteja disponível e seja viável economicamente. Muitos plantios foram iniciados pelos
indígenas e pelas populações tradicionais identificando as plantas com as melhores características de
interesse e, posteriormente, nas instituições de pesquisa. A expansão da fronteira agrícola, a criação
de alternativas econômicas, o aumento da densidade demográfica, o processo de degradação, o
aparecimento de produtos substitutos são também fatores indutores desse declínio (Homma, 2010a).

A sustentabilidade do extrativismo vegetal também depende do mercado de trabalho rural, onde, com
a tendência da urbanização, a população rural está perdendo não só seu contingente em termos rela-
tivos mais também em termos absolutos. Com isso, aumenta o custo de oportunidade de trabalho no
meio rural, o que tende a tornar inviável a manutenção do extrativismo e da agricultura familiar, dada
a baixa produtividade da terra e da mão-de-obra. Em longo prazo, a redução do desmatamento na
Amazônia seria afetada pelo processo de urbanização e da redução da população rural em termos
absolutos, promovendo a intensificação da agricultura e, com isso, os recursos florestais poderão so-
frer menor pressão.

A dispersão dos recursos extrativos na floresta faz com que a produtividade da mão-de-obra e da terra
seja muito baixa, fazendo com que essa atividade seja viável pela inexistência de opções econômicas,
de plantios domesticados ou de substitutos sintéticos. Na medida em que alternativas são criadas e as
conquistas sociais elevem o valor do salário mínimo e, por ser uma atividade com baixa produtividade
da terra e da mão-de-obra, torna-se inviável a sua permanência. Um dos erros dos defensores da
opção extrativa para a Amazônia é considerar esse setor como sendo isolado dos demais segmentos
da economia. A economia extrativa está embutida dentro de um contexto muito mais amplo do que é
tradicionalmente analisado. Em geral, a sequência consiste na descoberta do recurso natural, extrati-
vismo, manejo, domesticação e, para muitos, na descoberta do sintético. No caso do extrativismo do
pau-rosa, por exemplo, passou diretamente do extrativismo para a descoberta do sintético.

Mesmo com a agregação de inovação tecnológica, é considerado como extrativismo sustentável,


quando são envolvidas atividades de cultivo, criação, artesanato e agroindústria, desde que tais ativi-
dades se harmonizem com valores, crenças e costumes da população extrativista e com as caracterís-
ticas do seu ambiente natural; nesse conceito serão incluídos, igualmente, os casos de enriquecimento
da vegetação nativa com introdução de plantas das espécies desejadas, desde que não sejam áreas
unicamente com plantios implantados pelo homem, muito menos, monoculturas.

282 VOLUME 2
Nesse prisma de sustentabilidade, o extrativismo deve: a) basear-se na exploração de espécies de flora e
fauna locais; b) integrar o sistema de valores do trabalhador extrativista; c) inserir-se na organização do es-
paço existente no extrativismo; d) incluir sistema de manejo apoiado em saberes, práticas e tradições do tra-
balhador extrativista; e) harmonizar-se com os hábitos dos processos de trabalho extrativistas (Rego, 1999).

A crise ambiental, a universalização da consciência ecológica e a revolução tecnológica deste final de


século exigem das sociedades modernas uma nova estratégia, o desenvolvimento sustentável aplicável
também ao extrativismo agrícola, diferenciando-se das formas em que não há renovação do que é
extraído. Dentre os produtos explorados, podem ser incluídos: flores, frutos e sementes; cascas, ramos
e folhas, raízes e estruturas subterrâneas das plantas; fibras, madeira e carvão, além da própria terra
vegetal (serrapilheira), coletada em matas para ser utilizada em jardins. Igualmente relevante em estu-
dos de subsistência relacionados a extrativismo, é a forma de produção, se é isolada, cada indivíduo
por si, ou se é estruturada e organizada, a tecnologia utilizada, a forma de atuação no mercado e o
perfil das pessoas envolvidas.

Antes de aprofundar mais esse tema, vale focalizar o quadro atual de crescente conscientização, em
curso em todo o mundo, despertando a humanidade para o meio ambiente e tudo que lhe é rela-
cionado, o que aumentou após a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o De-
senvolvimento – Eco 92, realizada em 1992 e da Rio +20, realizada em 2012, ambos no Rio de Ja-
neiro. Aumentaram as preocupações, os cuidados e ocorreram avanços em questões de preservação
ambiental, valorização de ecossistemas e conservação dos recursos naturais, clima e biodiversidade,
relações entre homem-natureza e deveres e responsabilidades perante as gerações futuras e todas as
espécies.

Nesse contexto de relevância para a sociedade, ao longo dos anos, a dimensão ambiental da susten-
tabilidade, conceitualmente de origem nas ciências biológicas, está ganhando contornos ecológicos,
culturais, sociais, econômicos e políticos na história da humanidade. Setores empresariais estão, tam-
bém, se associando aos novos conceitos de valorização do meio ambiente, inserindo em suas agendas
discussões sobre desenvolvimento sustentável nos diferentes contextos socioeconômicos e culturais
(Tonneau, 2004).

A subsistência através de extrativismo, além de ser uma atividade econômica que subsistiu e subsiste
em momentos difíceis de pessoas e comunidades e, inclusive, da economia do país, se constitui, num
modo de vida, uma cultura e uma forma diferenciada de ver o mundo. Para Rego (1999), isso ocorre
porque os hábitos das populações que vivem no campo, por experimentarem um relativo isolamento
geográfico dos centros urbanos e uma forte influência cultural do meio em que vivem, acabam depen-
dentes dos ciclos naturais da natureza.

Existem comunidades de tradição extrativista e tendo como atividade econômica predominante, desde
o período colonial, a coleta e venda de matéria prima in natura, predominante, em alguns casos em
poucos meses, ou alternando-se com a coleta de outros materiais no restante do ano. São exemplos tí-
picos no Nordeste brasileiro, o umbu, fruto do umbuzeiro (Spondias tuberosa Arruda Câmara), espécie
endêmica da Caatinga, o licuri [Siagrus coronata (Martius) Beccari], principalmente no norte da Bahia
e em áreas de Alagoas e de Pernambuco e a mangaba (Hancornia speciosa Gomes), nos Estados de
Alagoas e Sergipe.

[Link]. FRUTAS DO SEMIÁRIDO

O umbuzeiro ocorre em áreas secas de vários Estados do Nordeste, sendo comum a venda de frutos,
no período da safra, coincidindo com os primeiros meses de chuvas, ao longo de rodovias e em feiras
livres da maioria das cidades da região, inclusive em Salvador, onde há pontos tradicionais de comer-
cialização de umbu.

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 283


No norte da Bahia desenvolveu-se muito o extrativismo de umbus, garantindo renda e subsistência de
muitas famílias, culminando com a criação, em 2004, da COOPERCUC, Cooperativa Agropecuária
Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (BA). Atualmente, são mais de 230 famílias, 15 minifábricas
instaladas em comunidades e uma fábrica central no município de Uauá, espaços que possibilitam
uma maior qualidade e o aumento do volume produzido pelos grupos (COOPERCUC, 2008). Os
produtos, com selo de comércio justo FLO (Fair Trade Labelling Organization) e Certificação Orgânica,
concedida pela ECOCERT, desde 2005 são exportados para a França, através da Alter Eco; graças à
sua presença em feiras internacionais, com apoio da Slow Food e outros parceiros, os produtos ‘lim-
pos’ ganharam fama em outros países europeus e, a partir de 2008, passaram a serem exportados,
também, para a Áustria, Itália e Alemanha (MDA, 2011).

Visando avaliar a importância do cooperativismo em uma atividade extrativista de umbu, Santos e


Oliveira (2001) registraram a produção por planta em 2001, e verificaram que, enquanto as pessoas
da zona rural recebiam R$ 5,00 por saco de umbus (60 kg), vendido a fábricas de polpa em Feira
de Santana, através da COOPERCUC, o mesmo saco de umbu rendia aos cooperados o total de R$
134,35. Mostrando assim quão significativo é o impacto dessa atividade extrativista sobre a vida das
famílias organizadas na cooperativa.

Além de produtos do umbu (picles de xilopódios, doces em pastas, compotas sucos e geléias), está
havendo diversificação da produção, incorporando geleia de maracujá do mato, outra espécie nativa
da Caatinga, além de produtos mix de frutas, envolvendo umbu, maracujá, goiaba e banana. Uma
mudança significativa está ocorrendo na região norte da Bahia, com plantios de umbuzeiros e ma-
racujazeiros, em áreas da Caatinga degradada por outras atividades agrícolas, em anos anteriores,
incentivados os extrativistas produtores pelos rendimentos auferidos por suas famílias. Essa é uma ma-
nifestação clara e prática de adaptação às situações de estresses provocados pelo clima.

Tendo como pólo a cidade de Capim Grosso-BA, os catadores de licuri se reuniram, também em co-
operativa, a COOPES (Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina), criada em
2005. O interesse maior é pela amêndoa de licuri, utilizada para consumo in natura, por sua riqueza
em proteínas, servindo, igualmente, para preparação de bolos, pães, mingau, sorvete, pudim, beiju,
doce, aguardente, compota, petiscos, chibata, chocolate, arroz, ovo de páscoa, peixe, bacalhau e etc.
As folhas são matéria prima para a fabricação artesanal de bolsas, esteiras e chapéus, dentre outros
artigos de palha, sendo utilizadas, também, para a alimentação animal ([Link]
Vários de seus produtos já foram expostos e degustados em feiras na Itália.

Outra fruteira muito importante para a subsistência de comunidades do Nordeste é o cajueiro, ocu-
pando áreas extensas em vários locais, em plantios realizados pelo homem ou tendo se espalhado na-
turalmente. O principal é a castanha, tanto por sua boa cotação no mercado internacional como pela
facilidade de conservação (baixa perecibilidade). Além de sua coleta, pessoas se especializaram em
torrá-las, acondicionando-as em saquinhos, mais comuns de 100 e 200 gramas, uma forma de agre-
gação de valor à atividade extrativista, vendidos ao longo de várias rodovias que cortam as ocorrências
de cajueiros. O maior volume, entretanto, é comercializado na forma de castanhas para agroindústrias
especializadas na extração da amêndoa, visando à exportação. Segundo dados do IBGE, em 2009
foram colhidas mais de 200 mil toneladas de castanhas no Brasil, 98,7% no Nordeste brasileiro, com
renda superior a 197 milhões de reais. Não é possível ainda estimar quanto desse volume correspon-
deu a atividades de subsistência de extrativistas.

Além da castanha, há interesses, também, no pedúnculo dos cajus, utilizados em agroindústrias de


porte variado, mas, geralmente domésticas, na fabricação de sucos, compotas, licores e passas de
caju. Pela quantidade de castanhas colhidas depreende-se ser muito grande a tonelagem de pedún-
culos, considerando ser seu peso muito superior ao das castanhas; cada castanha corresponde a um
pedúnculo de caju, sendo altíssimos os índices de perda, decorrente de sua perecibilidade, abrindo-se
perspectivas de instalação de novas agroindústrias na região.

284 VOLUME 2
Baseando-se, igualmente, na flora da região, muitas pessoas subsistem às custas de produtos medi-
cinais coletados de partes renováveis de plantas, como flores, frutos e folhas Em frutos e folhas, a
preocupação é com a quebra de ramos, quando há depredação das plantas. Em geral, os extrativistas,
interessados em tais partes dos vegetais, têm consciência – baseados em suas próprias experiências e
convicções de sobrevivência – que sua vida e reprodução se assentam, exatamente, na preservação
dessas plantas, criando inter-relações pessoais com os recursos naturais e a natureza.

Na subsistência baseada no extrativismo agrícola, são preocupantes as explorações de cascas e raízes


de plantas com fins medicinais (angico, caju, pau d’arco, cumaru, papaconha, faveleira, jurema, qui-
xabeira, bom-nome, pereiro, bauhinia, dentre outras), por resultarem em degradação e possibilidades
de erosão genética, principalmente, quando não se conhecem iniciativas de reposição ou de plantios
comerciais.

Nessa área de plantas medicinais se vislumbram perspectivas promissoras para o futuro, consideran-
do a grande riqueza das plantas de vários biomas, dentre eles as da Caatinga, em princípios ativos
a serem utilizados na farmacologia. Com os avanços dos estudos de caracterização fitoquímica das
plantas, abrir-se-ão novas oportunidades de renda, associando-se, certamente, a atividade de extrati-
vismo a empresas produtoras de fitoterápicos; para os coletores de plantas o seu trabalho extrapolará
a simples atividade de subsistência.

Finalmente, considere-se o elevado apelo social da agricultura de subsistência, pois uma parcela sig-
nificativa de agricultores depende dessa atividade para a sua sobrevivência. A permanência indefinida
de uma agricultura de subsistência corresponde à manutenção de uma situação de penúria, por ser
incerta e altamente dependente de fatores diversos, destacando-se dentre eles o clima. O desejável é
que esses agricultores consigam, com o tempo, no mínimo evoluir para o cooperativismo ou associa-
tivismo (Paterniani, 2001), a exemplo de algumas comunidades do Nordeste brasileiro, já abordadas.

6.3.3. SUBSISTÊNCIA – POBREZA E FOME

Os impactos de mudanças no clima, com reflexos sobre a produção de alimentos e, de forma mais
abrangente, sobre as condições de vida, provavelmente, tornarão mais acentuadas as diferenças entre
populações detentoras de mais recursos para fazer frente a tais problemas e as populações que não os
possuem. A agricultura industrializada, talvez, possa reagir às mudanças do clima, porém, a de sub-
sistência deverá se adaptar, radicalmente, explorando atividades mais apropriadas aos novos tempos.

O problema maior deverá ser a pobreza, a se traduzir em fome e, segundo Celso Castro (Castro,
2006), fome é “a marca de uma morte lenta, consequência indireta de uma alimentação cotidiana
presente, mas insuficiente em quantidade e/ou qualidade”. Há muitas fomes, a forma mais visível e
cruel é a fome aguda ou crônica, quando se manifesta no físico das pessoas, havendo outras grada-
ções, a fome oculta, fome moderada, ‘invisível’, entre outras. Algumas dessas formas podem afetar
pessoas fora do ciclo de pobreza, mais por desvios em hábitos alimentares.

Na subsistência, a noção de pobreza se vincula a questões dos mínimos biológicos, centrada nas ne-
cessidades de alimentação indispensáveis para uma pessoa sobreviver. Nesse contexto, está sujeita a
várias críticas, referindo-se a principal, ao fato de um indivíduo não necessitar, apenas, de alimentos
para viver, ultrapassando as necessidades a dimensão alimentar da vida humana (Rocha, 2006; Co-
des, 2008).

Segundo Amartya Kumar Sen, Prêmio Nobel de Economia, em 1998, a pobreza é um mundo complexo
e a descoberta de todas as suas dimensões exige uma análise clara. “Não se pode estabelecer uma linha
de pobreza e aplicá-la, rigidamente, a todos da mesma forma, sem levar em conta as características e

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 285


circunstâncias pessoais” (Sen, 1999). Esse autor cita, ainda, ser a fome explicada pela ocorrência de
determinadas falhas no sistema econômico-social, detendo, em um determinado grupo de pessoas,
direitos sobre a quantidade de comida que outros precisariam para sobreviver; é uma característica de
quem não tem o suficiente para comer, porém, não é característica da inexistência de comida, mas de
relações envolvendo a propriedade da comida.

Ainda, na visão de Amartya Sen, uma das grandes vergonhas da sociedade mundial são as “fomes
coletivas”, consideradas uma das mais revoltosas e cruciais formas de perda de liberdade, por afetar
um povo ou comunidades. Salienta que grande parte das “epidemias” de fomes coletivas, sofridas
no mundo civilizado, não se deu por escassez de alimentos, mas sim de circunstâncias, aliando a má
distribuição de renda e de alimentos a políticas desvinculadas de estratégias, visando ao bem comum
(Sen, 2000).

Várias abordagens existem sobre pobreza, sendo uma delas a de necessidades básicas, adotada na
década de 1970 pelos organismos internacionais, embora já existisse desde a década de 1950, quan-
do surgiu a idéia de ser o progresso social o melhor meio para ser alcançada a satisfação das ne-
cessidades básicas das pessoas, em vez de crescimento econômico (Codes, 2008). Segundo Rocha
(2006), insatisfeita a adoção de práticas para atendimento das necessidades das pessoas, é necessário
ir além dos itens de alimentação, incorporando uma gama mais ampla de necessidades humanas, tais
como educação, saneamento e habitação. Esse novo entendimento sobre pobreza passou a abranger
outros aspectos de vida cotidiana, pelo fato de o ser humano não apenas se alimentar, mas, também,
se relacionar, trabalhar. Essas outras atividades, a comporem a dimensão da vida, não estão relacio-
nadas, obrigatoriamente, ao critério de renda, ou à condição de alimentação, mas são necessidades
básicas na vida de qualquer indivíduo. Fica patente o grande fosso existente entre tais condições e as
de pessoas em subsistência.

Ao final dos anos 1970, a abordagem das necessidades básicas (basic needs) foi reforçada, investindo
na dimensão social da pobreza, “porque as condições de existência não se limitam, unicamente, aos
aspectos materiais ou individuais (alimentação, renda), mas incluem as relações sociais, o acesso ao
trabalho e aos cuidados, dentre outros” (Salama e Destremau, 2001).

Em anos seguintes, a pobreza passou a ser interpretada como privação relativa, definida através de
uma realidade social específica e o padrão de vida em que as necessidades são supridas. A noção de
pobreza como privação relativa é entendida pela comparação entre o que se pode considerar como
condições normais, com algo que está abaixo de tais condições, ou seja, ser pobre significa não ter
determinados meios necessários para atingir de modo satisfatório suas necessidades, no contexto so-
cial em que a pessoa vive (Rocha, 2006; Codes, 2008); portanto, para quem vive em uma sociedade
desenvolvida, as necessidades para romper o limite de pobreza serão bem maiores que as de alguém
vivendo em um contexto pouco desenvolvido. Sendo fácil raciocinar em termos de subsistência.

Para muitos que perdem o emprego, o futuro passa a ser marcado pela instabilidade, à margem do
trabalho e nas fronteiras das formas de troca socialmente consagradas; desempregados por período
longo, moradores dos subúrbios pobres, beneficiados da renda mínima de inserção, vitimas das rea-
daptações industriais, jovens à procura de emprego e que passam de estágio a estágio, de pequeno
trabalho à ocupação provisória (Castel, 1998). As proposições de Castel, segundo Veras (1999),
apesar de terem sido forjadas na realidade francesa trazem contribuições importantes para o debate
conceitual brasileiro, fundamentalmente porque abarcam questões de vulnerabilidades sociais que se
desenrolam, também, em nosso cotidiano; dentre elas, podem ser consideradas as dos contingentes
de pessoas que vivem da subsistência.

Em 2000, Amartya Sen (Sen, 2000) introduziu um novo conceito de pobreza, o da privação de capaci-
dades. O termo capacidades se refere a um conjunto de vetores a refletir a liberdade de uma pessoa de
levar um ou outro tipo de vida. Nessa perspectiva de análise da justiça social, as vantagens individuais
são aferidas em termos de capacidades que uma pessoa possui, ou seja, das liberdades substantivas

286 VOLUME 2
de que ela usufrui para levar um tipo valorizado de vida. Disso decorre a noção de que a pobreza não
deve ser identificada com o critério padrão da escassez de renda, mas deve ser interpretada como a
privação das chamadas capacidades básicas (Sen, 1999). Esse mesmo autor afirma que a disponibi-
lidade de um bem ou serviço à população, não é sinônimo de ser ele acessado, concretamente pelas
pessoas. Para tanto, são necessárias capacidades essenciais, em que, muitas vezes, as populações
desfavorecidas socialmente não as possuem para poderem buscar a concretização do acesso a esses
serviços ou bens. Nos tempos atuais, um exemplo concreto disso são os sistemas de acesso a serviços
oferecidos por Universidades através de internet.

A pobreza se revela inicialmente como desigualdade econômica, caracterizada pelo baixo rendimen-
to, mas, é muito mais complexa, podendo ser considerada como uma síndrome multidimensional de
carências diversas (Rocha e Ellwanger, 1993). Os estudos mais recentes tendem a se afinar com tal
perspectiva, buscando enfatizar sua complexidade, em que pesam vários fatores. É consensual tratar-se
de um fenômeno social, referente não apenas a privações em termos de necessidades materiais de
bem-estar, mas, também, à negação de oportunidades de levar a vida dentro de padrões aceitáveis
socialmente.

A multiplicidade de carências e penúrias impostas àqueles que vivem em situações de pobreza faz com
que suas existências possam ser prematuramente encurtadas, além de duras, dolorosas e perigosas.
Em suas manifestações subjetivas, o fenômeno provoca nas pessoas pobres sentimentos de impotên-
cia diante de seus destinos, de vulnerabilidade, de insegurança e de falta de poder político. Mestrum
(2002) defende a “definição multidimensional da pobreza, por ela permitir que se leve em conta um
número ilimitado de problemas, tanto em termos de suas causas e consequências, como de seus sin-
tomas”.

Portanto, o cerne da pobreza não está apenas nas restrições quantitativas como renda, mas em, um
conjunto de incapacidades qualitativas. Não se limita apenas às esferas do econômico, tais como ní-
veis de renda e consumo; em seu extremo, pobreza significa fome e, repetindo Josué de Castro, “fome
é a marca de uma morte lenta”. Acima de tudo, a fome é exclusão a se manifestar no cotidiano e em
diversos planos da existência das pessoas, repercutindo sobre comportamentos e todos os sinais de
vida.

Em situações onde há deficiência ou ausência do Estado, vem sendo muito positivo o trabalho de gru-
pos religiosos, em articulação com redes sociais, atuando, algumas vezes, em parceria com o Poder
Público, com atenuação dos sinais de pobreza (Eide, 2002); em geral, são situações a exigir urgência
no encaminhamento de soluções, pela soma de forças e envolvimento de lideranças locais, com resul-
tados positivos no encaminhamento de soluções para os problemas de determinados grupos de risco,
como descrito por Sousa (2003), em comunidades do Rio de Janeiro.

De acordo com Eide (2002) e Vasconcelos (2005), ao longo de sua recente história democrática, o
Brasil tem despendido esforços para a integração social e a correção da desigualdade, que deram
lugar ao desenvolvimento de estratégias para a eliminação da fome e para a promoção do direito
humano à alimentação.

Tratar o tema da dificuldade de subsistência alimentar em situação de pobreza ou, como atualmente
tem se colocado, sobre o tema da insegurança alimentar, obviamente remete à histórica construção da
desigualdade social e econômica, imposta por modelos econômicos.

[Link]. LUTA CONTRA A POBREZA

As lutas contra a pobreza se inserem em uma lógica econômica global que não é inocente, pois fa-
vorece a uns e desfavorece a outros, criando dessa maneira, sob as bases constantemente renovadas,

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 287


como consequência das novas tecnologias, desigualdades e antagonismos de classes. O liberalismo
econômico considera o mercado como um fato natural, por conseguinte, indiscutível, e não como uma
construção social que depende das circunstâncias concretas de seu funcionamento (Mestrum, 2002).
Na lógica do capitalismo, as relações mercantis só podem ser desiguais, porque se constituem em
condição para a acumulação privada do capital (Houtart, 2005).

Na lógica da luta contra a pobreza do pensamento liberal uma parte da humanidade é incapaz de
se integrar ao mercado, massas inúteis porque não são produtoras de um valor agregado e não são
consumidoras (George, 2002). Sob essa ótica, os pobres devem ser ajudados a se integrar ao merca-
do, seja tornando-os capazes de vender sua força de trabalho, seja transformando-os em pequenos
empresários , o que explica, entre outras coisas, a importância que é dada ao microcrédito integrado
ao sistema bancário.

A luta contra a pobreza se insere numa lógica mercantil, possibilitando a setores que haviam ficado
de fora da acumulação capitalista, tais como a agricultura camponesa e os serviços públicos, a se
inserirem no sistema. É uma forma de inserir os pobres em estratégias individualistas contribuindo para
debilitar as lutas sociais coletivas. Enfraquece o perigo potencial para os ricos, como disse Kofi Annan
no Fórum Econômico Mundial (Davos), em sua reunião em Nova York, em 2004. Além de contribuir
para contenção das desigualdades, indispensáveis para estimular o crescimento, sob limites razoáveis,
evita explosões sociais. Em resumo, como diz Francine Mestrum (2002), cria “uma pobreza dócil, res-
peitosa, que se consola com um pouco de dinheiro”.

A pobreza é mal avaliada, por ser, sobretudo, um problema de injustiça aos pobres, sempre desarma-
dos para fazer frente à desnutrição e às doenças; são carentes de respeito e consideração. O problema
dos carentes é sua impotência diante do desprezo, da ignorância e dos golpes do destino, subsistem
a todas as injustiças.

Existem alternativas. Antes de tudo, é importante recordar que a luta contra a pobreza é, em primeiro
lugar, a luta dos pobres, ou melhor, é a luta dos empobrecidos. São eles que subsistem e conseguem
sobreviver e que devem lutar para melhorar suas condições de vida. Uma questão, porém, ecoa: ‘Será
possível outra filosofia que suprima os obstáculos à libertação da pobreza, considerando a economia
como atividade humana que produz as bases materiais da vida física, cultural e espiritual de todos os
seres humanos no mundo?’

Outras políticas podem conduzir a caminhos em direção à emancipação dos empobrecidos. A huma-
nidade de hoje tem os meios intelectuais e materiais para aplicá-los a todos os níveis, desde a utopia
do “bem de todos”, até as alternativas a médio e em curto prazo... Por que não o faz?

6.3.4. SUBSISTÊNCIA E SAÚDE


.
“A saúde, vista como um estado dinâmico socialmente produzido deve ser compreendida como resul-
tado de um conjunto de fatores e situações biológicas, sociais, econômicas e culturais, cuja interação
define a cada momento e em cada lugar o padrão de saúde, inclusive o quadro de transição/polari-
zação epidemiológica contemporâneo” (Carvalho e Santos, 2005).

As populações mais vulneráveis aos efeitos do clima são as que, por razões de ordem social, estão
mais expostas aos desastres ambientais, assim como, têm menor capacidade de se proteger e de res-
ponder aos impactos adversos pelo limitado acesso das pessoas a bens e serviços básicos, inclusive os
de saúde. Em tal quadro se encaixam, facilmente, aqueles que apenas subsistem.

Outra consequência de aumento da vulnerabilidade se relaciona à alta concentração da população


em zonas urbanas, principalmente de pessoas dependentes de atividades de subsistência, fugindo
das condições adversas de áreas rurais, mais vulneráveis a tais riscos; agravar-se-ão as condições de

288 VOLUME 2
sobrevivência, com implicações sobre a pobreza e, consequentemente, sobre o tipo e a qualidade de
alimentação das pessoas, resultando em graus variados de subnutrição e problemas de saúde. Consi-
derem-se, ainda, os aspectos de insegurança alimentar, em função da queda prevista de produção da
agricultura praticada nos moldes tradicionais. As migrações para vilas e cidades agravarão o tipo e a
qualidade de alimentação das pessoas, resultando, assim como nas áreas rurais, em graus variados
de subnutrição e problemas de saúde, como consequência de deterioração das condições sanitárias
das periferias dos centros urbanos.

A existência, em território brasileiro, de várias doenças infecciosas endêmicas, sensíveis ao clima, pode
resultar em alteração dos respectivos ciclos, favorecendo tanto o aumento como a diminuição de inci-
dências, por variações de temperatura e umidade, entre outros fatores; há também, a possibilidade de
se redistribuírem espacialmente, como consequência de fenômenos demográficos regionais. Esse foi o
caso dos surtos de calazar (leishmaniose visceral), observados em capitais do Nordeste, no início das
décadas de 1980 e 1990, como consequência da grande migração rural-urbana, impulsionada por
secas prolongadas (Confalonieri e Marinho, 2007).

O setor saúde se encontra frente a um grande desafio. As consequências epidemiológicas dos pro-
cessos de transformações climáticas podem ser radicais e imprevisíveis. Possivelmente, o setor saúde
deverá ser atingido indiretamente pelos impactos decorrentes das mudanças climáticas, devido à pos-
sibilidade dos efeitos decorrentes ameaçarem as conquistas e os esforços de redução de doenças,
algumas delas sob controle nos tempos atuais. A emergência de novas doenças, com chances de se
manifestarem, também, como epidemias fatais e devastadoras, não é uma possibilidade apenas fic-
cional (Ceresnia e Ribeiro, 2000).

As ameaças sobre conquistas e redução das doenças transmissíveis e não transmissíveis ocorrerão pela
possibilidade da exposição a diversos fatores de risco, não sendo possível evitá-las, em curto prazo.
As modificações possíveis para alteração desse quadro, em nível global, podem consumir décadas
para se obter um efeito estabilizador do clima (Barcellos et al., 2009). As consequências serão drásti-
cas, requerendo providências e intervenções de ‘adaptação’, para reduzir ao mínimo os impactos via
ambiente. Atrasos nas ações se refletirão em vidas. Ainda segundo Barcelos et al. (2009), as interven-
ções de adaptação devem se iniciar por discussões e ações intersetoriais, envolvendo todos os atores
relacionados ao setor saúde, com reforço em investimento estratégico em programas de proteção da
saúde para populações ameaçadas pelas mudanças climáticas e ambientais, como sistemas de vigi-
lância de doenças transmitidas por vetores, suprimento de água e saneamento, bem como, redução
do impacto de desastres.

Certamente, os determinantes das mudanças climáticas globais sobre a saúde poderão ser superados,
mas apenas em longo prazo, com medidas de mitigação. Segundo Confalonieri (2005), o modelo
atual de desenvolvimento e a própria produção de energia causam problemas à saúde das pessoas,
através de acidentes de trânsito (resultam em 1,2 milhão de óbitos/ano) e poluição do ar (mais de 800
mil óbitos/ano), e com mais alto índice no fator sedentarismo (mais de 1,9 milhão de óbitos por ano).
Na perspectiva de maiores mudanças no ambiente, deverão ocorrer alterações na infraestrutura de
produção, consumo e circulação, com perspectivas de redução na emissão de gases efeito estufa, por
uma parte, e por outro lado, diminuição de várias causas importantes de mortandade.

Barcellos et al. (2009) se referem a riscos decorrentes da associação de perigos e vulnerabilidades,


ligados as alterações de ordem climática. Os perigos, no caso das mudanças globais, são decorrentes
de condições ambientais e da magnitude de seus eventos; já as vulnerabilidades são conformadas por
condições e desigualdades sociais, as diferentes capacidades de adaptação, resistência e resiliência.
Uma estimativa de vulnerabilidade das populações brasileiras apontou o Nordeste como a região mais
sensível a mudanças climáticas, devido aos baixos índices de desenvolvimento social e econômico
(Pruss-Ustun e Corvalan, 2006).

Nesse contexto, podem-se analisar condições de subsistência de populações rurais, pobres e sujeitas

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 289


a problemas de saúde. Há pressupostos de que grupos populacionais com piores condições de ren-
da, educação e moradia, sofreriam os maiores impactos das mudanças ambientais e climáticas. No
entanto, como ressalta Guimarães (2005), as populações mais pobres nas cidades e no campo têm
demonstrado uma imensa capacidade de adaptação, por já se encontrarem excluídas de sistemas
técnicos; mesmo sendo mais afetadas, já estão acostumadas (aclimatadas) a tais adversidades. Ao
contrário, a parcela mais abastada da sociedade, aparentemente isenta de riscos, terá uma resposta
imunológica mais baixa, em casos extremos.

A possível expansão de áreas de transmissão de doenças não pode ser compreendida como um
regresso de doenças como a malária, febre amarela, dengue, leptospirose, esquistossomose, entre
outras. Ou melhor, a possibilidade de retorno dessas doenças se daria sobre bases históricas, com-
pletamente distintas, daquelas existentes no século XIX. As transformações sociais e tecnológicas ocor-
ridas no mundo, nas últimas décadas, permitem avaliar que essas doenças adquiriram, ao longo das
décadas, outras características, além de distinção nos fatores biológicos intrínsecos. A possibilidade
de se prevenir, diagnosticar e tratar algumas pessoas e excluir outras desses sistemas aprofundou as
diferenças regionais e sociais de vulnerabilidades e transformou as desigualdades sociais num impor-
tante diferencial de riscos ambientais (Barcellos et al., 2009). Cabe ao setor saúde não só prevenir tais
riscos, fornecendo respostas para os impactos causados pelas mudanças ambientais e climáticas, mas
atuar na redução de suas vulnerabilidades sociais, através de mudanças no comportamento individual,
social e político, por um mundo mais justo e mais saudável.

O quadro tradicional já é de distorção dos hábitos alimentares, muitas vezes sendo obrigado, o in-
divíduo, a trocar alimentos ricos, mas em pequena disponibilidade, por outros em maior volume,
perdendo em qualidade, mas conferindo-lhe a sensação de ‘barriga cheia’. Em tal contexto, as prin-
cipais deficiências, decorrentes da subnutrição, são hipovitaminose A, anemia ferropriva, obesidade,
carências minerais, dentre outras. As doenças relacionadas à má qualidade de alimentação são várias,
citando-se, como exemplos: hipertensão arterial, osteoartroses, intolerância à glicose, diabetes melli-
tus, dislipidemias, diferentes tipos de câncer e doenças cardiovasculares (Valente, 2002).

Na contemporaneidade, cientistas sociais e pesquisadores buscam, com novos olhares, estudar e


entender os valores culturais e sociais de tais relações, para aprofundar o conhecimento sobre suas
implicações em problemas de saúde. É necessário um olhar antropológico, com sua perspectiva só-
cio-cultural, capaz de apreender o entrecruzamento de diferentes laços sociais e a coexistência de
uma pluralidade de valores e normas, frequentemente em conflito, característico de uma sociedade
complexa.

6.3.5. AMAZÔNIA: AÇÕES PARA REDUZIR A SUBSISTÊNCIA, A POBREZA E AS MUDANÇAS CLI-


MÁTICAS

Vários modelos têm indicado que o ecossistema da bacia amazônica pode ser afetado pelo aqueci-
mento global devido a possíveis mudanças nos regimes de precipitação pluvial e temperatura, assim
como na frequência e sazonalidade das chuvas, efeito agravado devido os desmatamentos, queima-
das e outras ações humanas. O uso da terra atual associado com mudanças na cobertura vegetal
na Amazônia pode estar induzido modificações no clima e no ciclo hidrológico próprio desse bioma,
podendo trazer consequências o futuro da regional e, até global.

O efeito das calamidades climáticas tem afetado de forma indireta a Amazônia onde, com as gran-
des secas do Nordeste, destacando-se as de 1877-1879, 1942 e 1970, provocou o deslocamento
de grande massa de nordestinos para a região. Nas quatro décadas mais recentes, o deslocamento
de migrantes para a região tem sido induzido por motivações econômicas e sociais, e pelas políticas
governamentais.

No período 1877/1879, uma das mais graves secas atingiu todo o Nordeste. O Ceará, na época,

290 VOLUME 2
com uma população de 800 mil habitantes foi intensamente atingido. Desse total de habitantes, 120
mil (15%) migraram para a Amazônia e 68 mil pessoas foram para outros Estados. Esta migração
induzida pelas secas promoveu o povoamento da Amazônia, com a anexação do Acre ao estado
brasileiro, viabilizou-se a extração da borracha. No período 1943/45, a seca no Nordeste provocou
novo deslocamento de 50 mil nordestinos para a Amazônia induzidos para reativar os seringais nati-
vos para atender às necessidades bélicas, que ficaram conhecidos como os “soldados da borracha”
(Homma, 2007).

No dia 6 de junho de 1970, durante a visita do Presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) ao
semiárido nordestino, o Presidente ficou impressionado com o drama da seca e tomou a decisão da
abertura da rodovia Transamazônica (“os homens sem terra do Brasil a ocuparem as terras sem homens
da Amazônia”). Executada durante o período do Milagre Econômico a ação do governo militar visava
entre outros objetivos à transferência de parte da população mais pobre do Nordeste promovendo a
ocupação ao longo dos grandes eixos rodoviários que foram abertos.

Na Amazônia, a agricultura das várzeas, sempre tem sido afetada pela magnitude das enchentes ou
das vazantes extremas. Em 29/05/2012, a cota do rio Negro, que mantém as medições a partir de
1902, registra o recorde histórico com a cota de 29,97m, suplantando a cheia recorde de 2009 com
29,77m e de 1953, com 29,69m (Tabela 6.3.1).

Em 2005, a despeito da cota do rio Negro indicar 14,75 m, sendo a sétima vazante no ranking, os
seus efeitos foram dramáticos: impediu a navegação fluvial para as comunidades, mortandade de
peixes e colapsamento da produção das várzeas. Em 24/10/2010 atinge o recorde histórico de menor
vazante, com a cota de 13,63m, superando a mínima de 1963, com 13,64m. É impressionante res-
saltar que no curto período de 2009 a 2012, ocorreram à primeira (2012) e a segunda (2009) maior
enchente, e a maior vazante (2010).

Relacionar os recordes de cheias e vazantes do rio Amazonas com as mudanças climáticas fica um
grande questionamento, uma vez que já ocorreram estes mesmos fenômenos no passado. Os seus
efeitos estão mais relacionados com a atual magnitude da população residente, tanto urbana como
rural. Estes eventos, muito próximos, têm conduzido a discussões, sobretudo, da população leiga e da
imprensa, quanto ao fenômeno das mudanças climáticas. Todos estes eventos produziram situações
inusitadas que chamaram atenção da imprensa nacional e mundial: decretação de calamidade pú-
blica para os municípios atingidos, perda de roçados, fome, impedimento das crianças irem para as
escolas e, em 2010, impossibilidade dos eleitores comparecerem aos locais de votação.

Nas áreas de terra firme, a instabilidade das chuvas, na concepção dos agricultores tem provocando
ilações muitas vezes contraditórias: secas mais prolongadas, atraso no início das chuvas, escassez e
fortes chuvas, ventos fortes com destelhamento de casas. Isto tem sido exteriorizado na seca das pas-
tagens, secamento e rompimento de açudes, igarapés e rios, necessidade de irrigação para culturas
como pimenta-do-reino e açaizeiro, proliferação de incêndios florestais, entre outros aspectos. Por
outro lado o excesso de chuvas tem traduzido em vicinais intransitáveis, perda de safras agrícolas, pro-
liferação de doenças, inundações das periferias urbanas, ruas alagadas, entre os principais.

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 291


Tabela 6.3.1 Dez cotas máximas e mínimas atingidos pelo rio Amazonas junto à foz do rio Negro
(1902-2012)

Ano Cota Máxima Enchente Data


2012 29,97 29/05
2009 29,77 01/07
1953 29,69 09/06
1976 29,61 14/06
1989 29,42 03/07
1922 29,35 18/06
1999 29,30 24/06
1909 29,17 14/06
1971 29,12 24/06
1975 29,11 23/06
1994 29,05 26/06
Ano Cota Mínima Vazante Data
2010 13,63 24/10
1963 13,64 30/10
1906 14,20 13/11
1997 14,34 04/11
1916 14,42 07/10
1926 14,54 12/10
1958 14,74 18/10
2005 14,75 25/10
1936 14,97 29/09
1998 15,03 30/10

Fonte: [Link] Acesso em 01/04/2012.

[Link] PRIMEIRA, SEGUNDA E TERCEIRA NATUREZA

Existem três grandes desafios para a conservação e a preservação da Amazônia sem destruição de no-
vas áreas, mantendo as atividades econômicas e reduzir os riscos de mudanças climáticas. O primeiro
refere-se à de como manter a Primeira Natureza representada pela floresta prístina. A segunda seria a
de transformar a Segunda Natureza representada pelas áreas desmatadas em uma Terceira Natureza
com atividades produtivas mais adequadas. A terceira, a de recuperar ecossistemas que não deveriam
ter sido destruídos (Vesentini, 1996; Homma, 2010a; Homma, 2011).

O desafio não está em somente estancar a sangria do desmatamento crônico, mas a de transformar
a curva decrescente da cobertura florestal da Amazônia com o reflorestamento das áreas que não
deveriam ter sido desmatadas, recompor as Áreas de Reserva Legal (ARL) e de Preservação Permanente
(APP). Seria assumir a forma de “U” com já está ocorrendo em diversos países como os Estados Uni-
dos, Japão, Alemanha, Finlândia, Áustria, Itália, Espanha, China, Índia, Chile, Suécia, Ucrânia, Costa
Rica, entre outros (Kauppi et al., 2006). A Lei 12.7727/2012 que estabeleceu o Novo Código Flores-
tal, apesar dos protestos, deverá induzir a recuperação do passivo ambiental acumulado ao longo do
tempo.

A Amazônia representa 60% do território brasileiro no qual seria possível colocar mais da metade
dos países europeus. Apesar de ter sido desmatado mais de 74 milhões de hectares (2011), 17% da
Amazônia, mais de duas vezes o tamanho do Japão ou da Alemanha, respectivamente, a terceira e
a quarta economia do planeta, a contribuição no PIB nacional é inferior a 8% (2009). Nessa região

292 VOLUME 2
vivem 25 milhões de habitantes representando 12,8% da população brasileira.

A Amazônia não é homogênea. Ela é dividida em nove Estados e cada Estado, como se fosse um país,
apresenta diferentes tipos de atividade econômica, formação histórica, social e política, no qual exige
tratamento diferenciado. No que concerne ao setor primário verifica-se a alta participação no PIB esta-
dual para os estados de Mato Grosso, Maranhão, Tocantins, Acre e Rondônia. A participação relativa
do setor primário na economia do Estado do Pará vem sendo ofuscado pela magnitude do setor mine-
ral (Tabela 6.3.2). Percebe-se a participação da pecuária e pesca suplantando a agricultura, silvicultura
e exploração florestal nos estados de Rondônia, Pará e Tocantins. Quanto ao Estado do Amazonas, a
dimensão relativa e absoluta do setor primário é baixa decorrente do pólo industrial da Zona Franca de
Manaus. A inclusão das áreas de cerrados na Amazônia Legal tem sido motivo de diversos equívocos
na contabilidade da destruição das florestas tropicais (Rebello e Homma, 2009).

Tabela 6.3.2. Participação percentual das atividades do setor agrícola no valor adicionado bruto a
preço básico (2007).

Agricultura, silvicultura Pecuária e


Estado Total
e exploração florestal pesca
Rondônia 7,9 12,4 20,3
Acre 11,9 5,3 17,2
Amazonas 3,6 1,2 4,8
Roraima 5,3 1,4 6,7
Pará 3,0 5,5 8,5
Amapá 3,2 1,1 4,3
Tocantins 8,8 9,0 17,8
Maranhão 14,1 4,5 18,6
Mato Grosso 22,2 5,9 28,1
Brasil 3,8 1,7 5,5

Fonte: IBGE

Outro aspecto está relacionado com o fato de que na Amazônia os problemas não são independentes.
Estas decorrem de problemas econômicos e sociais e muitas dependem de soluções externas à região.
O contínuo fluxo de migrantes em direção a Amazônia na busca de sonhos e esperanças é decorrente
da pobreza do Nordeste brasileiro, da falta de alternativas econômicas nos seus locais de origem, da
implantação de obras de infraestrutura, do crescimento de mercados, da falta de terras, etc.

Outro fenômeno em curso refere-se à mudança na estrutura da população brasileira que se iniciou a
partir da década de 1970. Na Amazônia mais de 75% da população já vivem nas cidades e a partir
de 1970 a população rural brasileira vem decrescendo a cada ano e este mesmo fenômeno está ocor-
rendo com a população rural da Amazônia a partir de 1991. Isto é uma indicação de que é importante
aumentar a produtividade da terra e da mão-de-obra, o que não coaduna com atividades de baixa
produtividade do extrativismo vegetal e da agricultura familiar.

A despeito da avaliação mundial do país estar enfocado na redução nos desmatamentos e queimadas
na Amazônia, em longo prazo, deve aumentar a pressão com relação à segurança alimentar. A po-
pulação mundial deve passar dos atuais 7 bilhões para 9,2 bilhões de habitantes em 2050 (Nature,
2010), exigindo a necessidade de uma Segunda Revolução Verde, com demanda de produção agrí-
cola de mais de 600 milhões de toneladas de alimentos. A partir de 2004 está ocorrendo a continua
redução dos desmatamentos e queimadas na Amazônia, com variações para Estados, que deveria ser
acompanhada do aumento de produção incorporando áreas degradadas na mesma quantia da sua
supressão sob o risco de provocar a desativação das atividades produtivas, não permitindo que se atin-
ja maiores produções no Brasil. Não fazer isso, constitui o erro das atuais políticas ambientais no país.

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 293


[Link] LIMITAÇÕES DA OPÇÃO EXTRATIVA – FLORESTA EM PÉ

Há muitas propostas visando à salvação da floresta amazônica e que agora associa com a mitigação
das mudanças climáticas. Uma que teve grande repercussão refere-se à criação das reservas extra-
tivistas, que ganhou forte impacto, sobretudo depois do assassinato de Chico Mendes (1944-1988)
em 22/12/1988. Com o Governo Lula, a partir de janeiro de 2003, essa política foi ampliada com a
criação de megareservas extrativistas, com o objetivo de proceder à inclusão social, servir de tampão
para conter a expansão da fronteira agrícola, atender a simpatia internacional, servir de compensação
ecológica, doutrina partidária, entre outros aspectos. A atividade extrativa é viável enquanto o mer-
cado for pequeno, mas quando o mercado começa a crescer, os agricultores são estimulados efetuar
plantações e com isso ocorre o colapso dessa atividade. Isto sucedeu para mais de três mil plantas
que são cultivadas e para centenas de animais domesticados. A economia extrativa é um ciclo no qual
se inicia a fase da expansão, depois a estabilização e finalmente o seu declínio. Na sequência têm-se
os recursos naturais, o início da atividade extrativa, o manejo, a domesticação e que pode evoluir até
a descoberta de sintéticos (Homma, 2010b). Daí a importância de desenvolver plantios das espécies
da biodiversidade amazônica que apresentem potenciais de mercado, com estoques reduzidos e em
conflito com a demanda. Insistir na permanência no extrativismo para produtos com oferta reduzida faz
com que consumidores e produtores percam oportunidade de produtos a preços mais baixos, melhor
qualidade e quantidade e oportunidade de geração de renda.

Nesta última década acentuou-se a politização da natureza, a mercantilização do carbono e de des-


carbonizar a economia (Becker, 2010). Nesse contexto, saem duas vertentes com relação à Amazônia,
visando à redução dos desmatamentos e das queimadas. Uma capitaneada pelo REDD (Reduce Emis-
sions for Deforestation and Degradation ou Redução de Emissões para o Desmatamento e Degrada-
ção) no qual se prevê o pagamento para não desflorestar, envolvendo a mercantilização do carbono,
conta com o apoio dos governadores da região amazônica, grandes empresas e parte da comunidade
acadêmica. A outra vertente defende a utilização da floresta em pé, utilizando a tecnologia de ponta,
para produção de fármacos, cosméticos, inseticidas naturais, entre outros produtos.

Para os países desenvolvidos a forma mais barata para reduzir as emissões de carbono seria suprimir
os desmatamentos e queimadas nos países tropicais. Dessa forma a região amazônica vem recebendo
especial atenção por parte dos promotores do REDD devido às perdas de florestas e as possibilida-
des potenciais da mitigação das alterações climáticas, sobretudo através do desmatamento evitado.
Muitas dessas propostas não passam de um assistencialismo ambiental apoiando grandes negócios
ambientais com controle externo. Se estes recursos forem efetivamente colocados à disposição, a in-
ternacionalização branca da Amazônia estará em marcha, transformando em paraíso para as ONGs
e prescindindo dos investimentos federais na região.

[Link] A DOMESTICAÇÃO DOS RECURSOS EXTRATIVOS

Uma grande oportunidade está reservada para a agricultura familiar no plantio racional dos recursos
da biodiversidade amazônica aproveitando o crescimento do mercado. A oferta fixa de muitos pro-
dutos extrativos indica que a coleta é viável enquanto o mercado for restrito, mas com o crescimento
da demanda, o plantio domesticado torna-se inevitável. Destaque deve ser dado às instituições de
pesquisa da rede Embrapa na Amazônia, ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e ao Museu
Paraense Emílio Goeldi, no esforço de domesticação da seringueira, guaranazeiro, castanha-do-pará,
cupuaçuzeiro, açaizeiro, pupunheira, pimenta longa, jambu, que fazem parte de plantios racionais,
gerando renda e emprego para o segmento da agricultura familiar.

Os benefícios econômicos da domesticação de recursos da biodiversidade se forem avaliados, mostra-


riam grandes retornos dos investimentos da pesquisa que foram realizados. Os esforços da Embrapa
e de outras instituições de pesquisa, com o advento da Lei dos Sucos, em 1973, fizeram com que a

294 VOLUME 2
produção de guaraná crescesse de 250 t, na década de 1970, para quase 5.500 t (1999). O cupuaçu
que estava restrito a coleta extrativa e a produção nos quintais, com a tecnologia gerada pela Embrapa
e das experiências dos produtores permitiu o plantio racional de mais de 25 mil hectares na Amazônia.

O discurso da biodiversidade precisa sair do contexto abstrato e dar atenção para a biodiversidade
do passado, do presente e, incorporar novas plantas com metas concretas de domesticação para
viabilização de plantios racionais. Há dezenas de produtos da biodiversidade como fruteiras, plantas
medicinais e aromáticas, que poderiam ser incentivados nas áreas desmatadas e recuperar áreas
degradadas. Pode-se mencionar mencionar a seringueira, castanheira-do-pará, pau-rosa, açaizeiro,
cumaruzeiro, entre dezenas de outras.

[Link] A SOLUÇÃO VIA SISTEMAS AGROFLORESTAIS (SAFS)

Outra solução está relacionada com a implantação de SAFs, baseado na experiência dos agricultores
nipo-brasileiros em Tomé-Açu. Trata-se um sistema adequado para ocupar as áreas degradadas e o
seu sucesso vai depender do mercado das plantas componentes, tais como cacaueiro, seringueira,
castanheira-do-pará, cupuaçuzeiro, açaizeiro, reflorestamento, dendezeiro, etc. Não se pode esquecer
que as culturas anuais e pastagens exigem grandes extensões de área para atender o mercado. No
caso de cultivos perenes com um décimo das áreas destinadas aos cultivos anuais é suficiente para
garantir o abastecimento interno, suprimir as importações e gerar excedente para exportação (Barros
et al., 2009).

As possibilidades dos SAFs são muito maiores do que a opção extrativa. Seria possível ampliar as atu-
ais áreas de cultivos perenes da Amazônia ao dobro, acrescentando no mínimo 600 mil hectares de
cultivos como cacaueiro, dendezeiro, seringueira, açaizeiro, bacurizeiro, no contexto de uma política
de substituição de importações e garantir o abastecimento regional (Tabela 6.3.3).

Tabela 6.3.3. Possibilidade de expansão de alguns cultivos perenes e madeireiros.

Espécie Área projetada (1.000 ha)


Dendezeiro 700
Açaizeiro 50
Seringueira* 300
Cacaueiro** 150
Castanha-do-pará*** 100
Bacurizeiro 20
Pau Rosa**** 2
Madeira carvão***** 1.200
Mogno****** 40
Total 2.562

Fonte: Elaboração prórpria (Fernandes, P. D.)


Nota: * Acabar com 70% das importações de borracha vegetal do país; ** Reduzir 1/3 das impor-
tações de amêndoas de cacau; *** A produção mundial está estagnada nos últimos 60 anos; ****
Considerando a quantidade máxima de óleo essencial de pau-rosa exportado em 1951 (441 t);
***** Para atender a demanda atual de carvão vegetal para as guseiras ao longo da Estrada de
Ferro Carajás; ****** Garantir a exportação máxima dessa madeira no passado.

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 295


Duas plantas da Amazônia: o cacaueiro e a seringueira que foram muito importantes no passado fo-
ram levados para os países africanos e asiáticos e tornaram-se cultivos principais nesses novos locais.
Atualmente o Brasil importa 1/3 do consumo de cacau e 70% do consumo de borracha natural. Para
acabar com as atuais importações é preciso plantar mais de 150 mil hectares de cacaueiro e 300 mil
hectares de seringueiras, gerando emprego e renda para a população da Amazônia. O consórcio
utilizando o cacaueiro ou a seringueira como planta sombreadora é adequado e apresenta grande
possibilidade de expansão em termos de área a ser plantada, com mercado assegurado e apropriado
para a agricultura familiar.

Outra atividade promissora refere-se ao cultivo do dendezeiro, no qual o Brasil importa 2/3 do seu
consumo para usos nobres, indicando a necessidade de plantar mais de 120 mil hectares dessa pal-
meira. Com o lançamento do Programa de Produção Sustentável da Palma de Óleo no Brasil, , em
Tomé-Açu em 2010, para biodiesel, prevê o plantio de 350 mil hectares de dendezeiros, abre-se a
perspectiva de um vasto mercado nacional e externo. A Malásia e a Indonésia, dois maiores produtores
mundiais possuem em conjunto 9 milhões de hectares de dendezeiros em produção, alvo de pesadas
críticas internacionais.

Como é bastante difícil inventar uma máquina que vá sangrar a seringueira, efetuar a colheita do ca-
cau, cupuaçu, pupunha, açaí, pimenta-do-reino, dendê, estas culturas devem ser exclusivas da agricul-
tura familiar. Algumas atividades onde se aproveitava da presença de mulheres e menores de idade em
face da sua agilidade para subir nos pés de açaizeiros, coleta de frutos caídos no chão (murici, tape-
rebá, etc.), colheita de pimenta-do-reino, acerola, urucu, etc. tem sido motivo de querelas trabalhistas.
Com a aprovação da Emenda Constitucional 20, a partir de dezembro de 1998, estabeleceu a idade
mínima de 16 anos para ingresso no mercado de trabalho, faz com que as restrições quanto ao uso
da mão-de-obra infantil tornem privativo da agricultura familiar (Ferro e Kassouf, 2005). No Estado
do Pará entre o Censos Demográficos de 1991 e de 2010, a população rural manteve praticamente
constante e a população urbana dobrou, indicando a escassez de mão-de-obra no meio rural, agra-
vado pelo Programa de Transferências Governamentais. Com a redução absoluta da população rural,
aumenta o custo de oportunidade da mão-de-obra rural, tornando-se mais lucrativo a sua venda, sem
os riscos que a atividade produtiva apresenta e inviabilizando aquelas atividades com menor produtivi-
dade (Rezende, 2005). A elevação dos salários pode levar a um maior assalariamento e subemprego
do trabalhador rural e inviabilizando atividades intensivas em mão-de-obra e inviabilizando a própria
agricultura familiar se manter com baixa produtividade.

[Link] DAR ATENÇÃO PARA A AGRICULTURA, PECUÁRIA E REFLORESTAMENTO

Outro aspecto a considerar refere-se à importância que a agricultura da Amazônia representa no ce-
nário nacional. A Amazônia concentra em termos nacionais: bovinos (36%), bubalinos (70%), dendê
(90%), pimenta-do-reino (85%), soja (33%), arroz (30%), mandioca (36%), algodão (49%), entre outras
(IBGE, 2006). Dessa forma é crucial modernizar a rotação de culturas baseado no processo neolítico
da derruba e queima praticado por mais de 600 mil pequenos produtores que se perpetua desde os
primórdios da ocupação, dos assentados do Incra, das invasões dos posseiros e do MST. É importante
intensificar a agricultura, utilizar mais fertilizantes e mecanização agrícola, desenvolver tecnologias
apropriadas, melhorar a infraestrutura social nas fronteiras abertas e a garantia contra as invasões.

Não se pode esquecer que as pastagens representam a maior forma de uso da terra na Amazônia.
Há necessidade de desenvolver uma nova pecuária na Amazônia procurando a sua intensificação
reduzindo a atual área ocupada pela metade e mantendo o mesmo rebanho, liberando áreas para a
regeneração e para outras atividades mais sustentáveis. Cerca de 51 milhões de hectares, representan-
do 70% da área desmatada até o momento, são de pastagens em diferentes estágios de degradação.
Trata-se de uma pecuária (corte e leite) de baixa produtividade na sua maioria, tanto do rebanho como
das pastagens. Tem-se 12,8 milhões de hectares de culturas anuais, no qual seria possível manter a

296 VOLUME 2
mesma área aumentando a produtividade (Tabela 6.3.4). A produtividade de mandioca no Pará (maior
produtor) é de 16 t/ha, enquanto no Paraná (segundo produtor) os agricultores conseguem obter 24 t/
ha. A produtividade de arroz é de apenas 1.500 kg/ha nas áreas derrubadas e queimadas, enquanto
em mecanizadas é possível obter o dobro dessa produtividade. Em se tratando de cultivos perenes no
qual se têm mais de 636 mil hectares, pode-se dobrar ou triplicar essa área, tanto em monocultivos
como em Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Outra grande possibilidade de utilização para as áreas derrubadas e para recuperação de áreas que
não deveriam ter sido desmatadas refere-se ao reflorestamento. Na Amazônia tem-se somente 7,56%
da área reflorestada do país, um pouco mais de 492 mil hectares. Isto representa uma vez e meia a
área reflorestada no Estado do Espírito Santo. Apresenta potencial de ampliar o reflorestamento até dez
vezes e substituir o modelo de extração madeireira de florestas nativas.

Tabela 6.3.3. Área das culturas anuais e perenes para a Amazônia Legal, Região Norte e Mato Grosso,
2008/2010.
Culturas anuais Área 1.000 ha Culturas perenes Área 1.000 ha
Amazônia 12.800 Amazônia 636
Região Norte 2.200 Região Norte 525
Mato Grosso 8.900 Mato Grosso 75
Soja 6.900 Cafeeiro 196
Milho 2.600 Bananeira 97
Arroz 0.900 Cacaueiro 150
Mandioca 572 Dendezeiro 140
Algodão 436 Coqueiro 35
Feijão 380 Pimenta-do-reino 22
Cana-de-açúcar 304 Laranjeira 20

Fonte: Dados básicos IBGE com cálculos autor.


Com a redução absoluta e relativa da população rural, a agricultura familiar terá que intensificar suas
atividades produtivas. A atual população urbana/rural na Amazônia indica que cada trabalhador rural
precisa produzir alimento para si e para mais três pessoas que moram nos centros urbanos, sem contar
com as exportações. Esta é uma indicação de que é preciso aumentar a produtividade da terra e da
mão-de-obra e mudar da agricultura de derruba/queima.

[Link] PISCICULTURA PARA SUBSTITUIR A CARNE BOVINA

A partir da década de 1960 o país assistiu a uma grande expansão da avicultura tornando-se o maior
exportador mundial e a produção de carne de frango suplantou a da carne bovina e com menores
impactos ambientais. Há quatro décadas o consumo de aves estava restrito para doentes ou mulheres
em resguardo. A liderança mundial nas exportações de carne de frangos e de bovinos é obtida desti-
nando-se 31% (2010) e 16,5% (2011) da produção nacional, respectivamente, para exportação. Infe-
lizmente, o mesmo não ocorre com a pesca, onde 56,1% da produção nacional é de origem extrativa e
43,9% proveniente de criatórios. Em nível mundial essa proporção é 58,7% entre extrativa e 41,3% da
aquicultura (Rocha, 2012). Deve-se ressaltar que as estatísticas de pesca extrativa no país estão subes-
timadas e provavelmente estão no limite de capacidade de captura, indicando a necessidade de am-
pliar a aquicultura. A produção de pescado no país é de apenas 11% do que é produzido de carne de
frango ou 16% de carne bovina (2011). Com certeza o desmatamento da Amazônia teria sido maior
se a produção de frango não tivesse alcançado os atuais patamares tecnológicos. Os Estados de Mato
Grosso, Amazonas e Rondônia fizeram avanços significativos na produção de pescado via criatórios.

No dia 10/6/2009 o Grupo Pão Açúcar, Carrefour e Walmart decidiram que só iriam adquirir carne-

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 297


bovina da Amazônia desde que não forem originadas de áreas desmatadas e obedecendo a aspectos
éticos. Nesta ação a responsabilidade do desmatamento foi transferida para os consumidores de carne
bovina. Por hipótese, se uma pessoa deixar de consumir carne bovina um dia da semana, durante um
ano poderia reduzir 14% seu consumo per capita. Se todos os consumidores deixarem de consumir
por dois dias, durante um ano, seria 28% do consumo nacional de carne (quase um terço do consumo
nacional total). Esta proposta teria validade se criar uma alternativa barata para a carne bovina. Para
os consumidores de baixa renda, a carne bovina representa a fonte de proteína mais econômica ao se
comparar o rendimento da quantidade similar de carne bovina, de frango e de peixe.

A disponibilidade de espelhos d’água na Amazônia, sem paralelo no mundo, permitiria promover uma
revolução na produção de pescado similar ao que ocorreu com o frango no país. Enquanto a pecuária
de corte leva 2 a 3 anos para se conseguir 300 a 500 kg de boi vivo/hectare, nessa mesma área seria
possível obter 10 a 15 t de peixe/hectare/ano.

[Link] RECUPERAR ÁREAS QUE NÃO DEVERIAM TER SIDO DESMATADAS

Outro importante tópico está relacionado com a recuperação de áreas que não deveriam ter sido des-
matadas, tais como margens e nascentes dos rios, morros, áreas de interesse da biodiversidade e para
compor as APP e ARL, etc. Aqui há dois caminhos: uma pela utilização econômica e a outra deixar a
própria Natureza efetuar a recuperação (Homma, 2010a). Com a mudança da civilização das várzeas
para a civilização de beira de estradas, que se pode tomar como ponto de referência a abertura da
rodovia Belém-Brasília, em 1960, margens de cursos d’água e áreas pedregosas e montanhosas fo-
ram desmatadas promovendo um violento processo de redução da cobertura florestal, sobretudo nas
décadas de 1960 a 1980.

Outro aspecto é o problema ambiental urbano na Amazônia. Por exemplo, na calha do rio Amazonas
e seus afluentes estão localizadas médias e grandes cidades, algumas delas como Manaus e Belém,
com mais de dois milhões de habitantes. Como o rio é parte mais baixa, todo o esgoto termina sendo
drenado para a calha do rio Amazonas. Como muitos dos afluentes do rio Amazonas tem suas nas-
centes nos países vizinhos onde também ocorrem desmatamentos nas suas cabeceiras, há necessidade
de formar um condomínio dos países da bacia amazônica para garantir a sua integridade (Kinoshita,
1999). Não se descarta dos riscos de vazamentos quanto à extração de petróleo na Amazônia brasi-
leira, peruana e equatoriana.

[Link] CONSTANTE PERDA DE OPORTUNIDADES

Várias plantas amazônicas foram domesticadas nestes últimos três séculos, destacando-se o cacauei-
ro (1746), cinchona (1859), seringueira (1876) e, guaranazeiro, castanheira-do-pará, cupuaçuzeiro,
pupunheira, açaízeiro, jaborandi, pimenta longa, jambu, sobretudo a partir da década de 1970. É
paradoxal afirmar que muitas tentativas de domesticação apresentam chances de sucesso fora da área
de ocorrência do extrativismo vegetal como aconteceu com o cacaueiro e a seringueira.

O ciclo do extrativismo do cacaueiro foi importante atividade econômica na Amazônia que perdurou
até a época da Independência do Brasil, quando foi suplantado pelos plantios racionais da Bahia,
levado em 1746, por Louis Frederic Warneaux para a fazenda de Antônio Dias Ribeiro, no município
de Canavieiras, Bahia. É interessante frisar que da Bahia, o cacaueiro foi levado para o continente
africano e asiático, transformando-se em principais atividades econômicas nos seus novos locais. Com
a entrada da vassoura-de-bruxa nos cacauais da Bahia em 1989, a produção decresceu do máximo
alcançado em 1986, de 460 mil toneladas de amêndoas secas, para o nível mais baixo em 2003
com 170 mil toneladas e o início da recuperação com as técnicas de enxertia de copa para 196 mil
toneladas em 2004.

A despeito da existência de 108 mil ha de cacaueiros plantados nos estados do Pará, 32 mil em

298 VOLUME 2
Rondônia, 8 mil no Amazonas e um mil hectares no Mato Grosso esta cultura não tem recebido a de-
vida atenção por parte de planejadores agrícolas. No triênio 2008-2010, quase 65 mil toneladas de
amêndoa de cacau foram importadas somando mais de 159 milhões de dólares, equivalente a 1/3 da
produção brasileira de cacau. Isso indica a necessidade de duplicar a área plantada na Região Norte
nos próximos cinco anos, criando uma alternativa de renda, emprego e de recuperação de áreas
desmatadas.

A partir de 1951 o Brasil iniciou a importação de borracha vegetal, que atinge 70% do consumo na-
cional. Em 1990, a produção de borracha obtida de plantios superou a borracha extrativa. No triênio
2009-2011, a participação da borracha extrativa representava apenas 1,39% do total da produção
de borracha natural do país. A despeito dos fracassos de planos como o PROHEVEA (1967), PROBOR
I (1972), PROBOR II (1977) e PROBOR III (1981) a produção de borracha de seringais de cultivo
cresceu de 35.185 t no triênio 1990/92 para 236.362 t no triênio 2009/2011. Neste mesmo período
a produção de borracha extrativa despenca de 21.719 t para 3.328 t (Homma, 2011). Não é com o
extrativismo da seringueira, mas com a implementação de um Plano Nacional da Borracha é que o
país pode atingir a autossuficiência nos próximos 10 a 20 anos.

Em 2010 o Brasil bateu o recorde de importação de borracha natural, atingindo a marca de US$
790,4 milhões (260,8 mil toneladas) contra US$ 283 milhões (161,3 mil toneladas) no ano anterior;
aumento de 179,3%. Para suprimir as importações já devia estar em idade de corte cerca de 300.000
ha de seringueiras, que poderia gerar emprego e renda para 150 mil agricultores familiares.

A Lei dos sucos (73.267 de 06/12/1972) estabeleceu no caso do guaraná, quantitativos de 0,2 gra-
ma a 2 gramas de guaraná para cada litro de refrigerante e, de 1 grama a 10 gramas de guaraná
para cada litro de xarope. Apesar do quantitativo entre o mínimo e o máximo permitido legalmente ser
de 10 vezes, provocou uma grande demanda pelo produto, fazendo com que a produção semi-extra-
tiva do Estado do Amazonas que oscilava entre 200 a 250 toneladas anuais atingisse patamares de
até 5.500 toneladas (1999) caindo no quadriênio 2005/08 para 3.100 toneladas, no qual a Bahia,
se tornou no maior produtor nacional. Em 2006, a produção brasileira de refrigerantes atingiu mais de
13 bilhões de litros, dos quais 22,8% de sabor guaraná, perfazendo quase 3 bilhões, induzindo uma
desconfiança quanto ao real conteúdo de extrato de guaraná, uma vez que a produção não atende ao
mínimo exigido na legislação (Homma, 2007).

O plantio de pupunheira para palmito no qual existem mais de 15 mil hectares de pupunheiras no
país, dos quais 7.000 hectares em São Paulo e 2.500 hectares na Bahia representa outro exemplo de
sucesso no cultivo de plantas amazônicas.

A transferência mais recente está relacionado com o jambu, que faz parte culinária tradicional da re-
gião (pato no tucupi, tacacá, pizza), tem 15 patentes registradas na United States Patent and Trademark
Office (USPTO) e 6 na World Intellectual Property Organization (WIPO). O alcalóide spilanthol é descri-
to nessas patentes como apropriadas para uso anestésico, anti-séptico, creme dental, refrigerante, com
diversos produtos no mercado, vendidos como remédio e cosmético. O jambu foi levado pela Natura
que antes adquiria na Região Metropolitana de Belém, para o Estado de São Paulo, sobretudo nos
municípios de Pratânia, Botucatu, Ribeirão Preto e Jaboticabal, desde 2004. Esta produção é adquirida
pela Centroflora, que efetua a secagem em Botucatu e a venda para a Natura. O uso do jambu pela
Natura destina-se a produção de cremes antissinais da linha Chronos.

[Link] MECANISMOS DE CONTROLE SOBRE A AMAZÔNIA (NACIONAIS E EXTERNOS)

Estão sendo criados diversos mecanismos de controle dos produtos que são produzidos ou exportados
da Amazônia. Estes indicadores de sustentabilidade estão relacionados com o uso de agrotóxicos, pro-
dutos orgânicos, transgênicos, rastreabilidade, uso de mão-de-obra infantil ou escrava, desmatamento
da floresta, áreas manejadas, adoção de práticas sustentáveis, responsabilidade social, risco de extinção,

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 299


entre os principais. Estas atividades de monitoramento vem sendo ocupadas pelas ONGs que estão
se tornando em prestadoras de serviços das empresas interessadas em promover o esverdeamento
institucional, favorecer as exportação de seus produtos para os países desenvolvidos e da salvaguarda
do mercado de direitos difusos.

Com a maior peso e inserção de a partir de 1992 ONGs na administração pública estas passaram
a depender de recursos governamentais, reduzindo seu caráter crítico, cujo papel está sendo desem-
penhado pelo Ministério Público Federal. A redução dos níveis de desmatamentos e queimadas na
Amazônia retira das ONGs a bandeira de luta e defesa, obrigando a busca de novas alternativas como
o REDD e a certificação.

Entre as grandes entidades internacionais de controle estão às certificadoras de produtos orgânicos,


àquelas que regulam o comércio da madeira como a International Tropical Timber Organization (ITTO)
sediada no Japão e Forest Stewardship Control (FSC) na Alemanha e, também a Convention on In-
ternational Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (CITES) com sede na Suíça e, com a
expansão do dendezeiro no Estado do Pará, a presença do Roundtable on Sustainable Palm Oil (RSPO)
com sede na Suíça, entre dezenas que tem conexão com a região amazônica.

[Link] AUMENTANDO A PRODUTIVIDADE DA TERRA E DA MÃO-DE-OBRA

É baixa a produtividade da agricultura familiar na Amazônia, tanto de culturas anuais como perma-
nentes ou da pecuária. Não se justifica a derrubada de um hectare de floresta densa para produzir 1,5
t de arroz com casca, 0,3 t de milho e 16 t de raiz de mandioca e, seguindo da pastagem por 10 ou
12 anos e, depois a transformação em juquira3 . A maior crítica a essa prática, que envolve derruba e
queima, deve-se ao fato de parcelas de floresta densa estão sendo derrubadas para o cultivo por dois
ou três anos, visando à subsistência do agricultor. Como resultado dessa atividade, há o surgimento de
capoeiras (vegetação secundária) substituindo áreas de floresta densa. Fatores como crescimento po-
pulacional e a falta de opções tecnológicas têm contribuído para o encurtamento do tempo de pousio.
Como consequência, observa-se o declínio da produtividade agrícola causado pelo tempo insuficiente
para que a capoeira acumule biomassa e nutrientes, e melhore a fertilidade do solo. Esse quadro tem
provocado instabilidade no uso da terra, resultando no crescimento de áreas abandonadas e pode
levar a agricultura de subsistência ao colapso (Vieira et al., 2006). Com as técnicas de recuperação de
áreas degradadas desenvolvidas pela Embrapa é possível que a agricultura familiar aumente o tempo
de permanência no lote e a produtividade das culturas e criações.

A proposta do governo brasileiro na United Nations Climate Change Conference 2009 (COP 15),
em Copenhague, no período de 7 a 18/12/2009, comprometeu a diminuir as emissões de gases do
efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020, isto é, algo como 15 ou 20% em relação a 2005. Não é
muito significativo, porque o grande aumento na emissão no país foi no período 1990/2000, quando
o desmatamento estava no seu auge. Só a redução do desmatamento já seria suficiente para atingir
essa meta. A redução mais significativa é a dos europeus e dos japoneses, em relação a 1990.

Existem diversas práticas agrícolas que poderiam reduzir de forma considerável a emissão de gases
de efeito estufa tais como plantio direto, integração lavoura e pecuária, reflorestamento, recuperação
de pastagens degradadas, e aumento das áreas cultivadas onde se incentiva a fixação biológica de
nitrogênio, entre as principais (Tabela 6.3.5). Visando atender os compromissos do governo brasileiro
no COP 15, no dia 7 de junho de 2010, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento instituiu
o programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC). A iniciativa prevê a aplicação de R$ 2 bilhões em

3
Vegetação formada de ervas daninhas características de terras em avançado estádio de degradação. Essa
vegetação secundária apresenta diversas gradações (juquira, capoeirinha, capoeira e capoeirão) que até a
sua transformação em floresta densa pode levar de 50 a 100 anos.

300 VOLUME 2
técnicas que garantem eficiência no campo, com balanço positivo entre sequestro e emissão de dióxi-
do de carbono. O crédito será financiado com taxa de juros de 5,5% ao ano e prazo de reembolso de
12 anos. Medidas similares, independente, dos governos que assumirem deverão ser incrementadas
nos próximos anos. Ressalta-se o grande encargo do setor agrícola brasileiro no cumprimento das me-
tas estabelecidas, no qual há necessidade de se preocupar com o pós-2020, sobretudo com relação
aos demais setores da economia.
Tabela 6.3.5. Programa Agricultura de Baixo Carbono

Área atual Área Meta Redução CO2


Atividade
1.000.000 ha 1.000.000 há 1.000.000 t
Recuperação
pastagens degra- 15 83 a 104
dadas
Reflorestamento 6 9 8 a 10
Integração
Lavoura Pecuária 4 18 a 22
Floresta
Plantio Direto 25 33 16 a 20

Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (documento interno).

[Link]. MELHORIA DA INFRA-ESTRUTURA PRODUTIVA

Estão sendo executados e planejados grandes empreendimentos na Amazônia. Destaca-se a Usina


Hidrelétrica de Belo Monte (Pará), no rio Xingu; Usinas Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio (Ron-
dônia), no rio Madeira; Usina Hidrelétrica de Estreito (Maranhão e Tocantins), no rio Tocantins; Usina
Hidrelétrica de Dardanelos (Mato Grosso), no rio Aripuanã, afluente do rio Madeira; a Siderúrgica
Aços Laminados do Pará (Alpa); e o Programa de Produção Sustentável da Palma de Óleo (Pará).
Outras obras que deverão mudar o cenário da agricultura amazônica referem-se a conclusão das
eclusas de Tucuruí que viabilizará a Hidrovia Araguaia-Tocantins e a Ferrovia Norte-Sul, como canais
de escoamento para grãos, pecuária, minérios, etc. Todos estes projetos apresentam grandes impac-
tos ambientais e decorrentes da sua inevitabilidade deveriam ser executados mediante programas de
compensação ambiental.

Na Amazônia Legal somente 11% das estradas são asfaltadas, 36% das propriedades rurais possuem
energia elétrica, quase 2,7 milhões de famílias recebem Bolsa Família, representando quase 20% do
total nacional, para uma região com 12,8% da população brasileira, mais de 214 mil infectados com
malária e apresenta um baixo IDH.

Há um reduzido contingente de cientistas na Amazônia. Somente seis mil pesquisadores com nível de
doutorado envolvidos em todas as áreas do conhecimento, representando 5,88% do total nacional,
quando se sabe que no Brasil anualmente são graduados mais de 11 mil estudantes com nível de dou-
torado. A guisa de comparação somente a USP possui quase 8 mil doutores. O custo social da falta
de um agressivo sistema de pesquisa agrícola e de extensão rural é bastante elevado que pode ser tra-
duzido pela destruição dos recursos naturais até o momento e da utilização de práticas insustentáveis.

A mitigação das mudanças climáticas na Amazônia vai depender de maiores investimentos visando à
melhoria do capital social, da eficiência do setor público e do esforço da ampliação da fronteira de
conhecimento científico e tecnológico.

PRIMEIRO RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NACIONAL 301


[Link] A GUISA DE CONCLUSÃO

A política agrícola é mais importante para resolver questões ambientais da Amazônia do que a pró-
pria política ambiental. A redução da destruição dos recursos naturais na Amazônia vai depender do
desenvolvimento de atividades agrícolas mais sustentáveis em áreas desmatadas do que a coleta de
produtos florestais e a venda dos serviços ambientais. Muitas comunidades de agricultura familiar es-
tão imaginando que vão sobreviver mediante a venda de serviços ambientais, quando na verdade estes
vão seguir as regras da oferta e procura em médio e longo prazos.

A Amazônia Legal apresenta um padrão de ocupação desbalanceado. As pastagens representam a


maior forma de uso da terra estimado em 51 milhões hectares. É possível com aumento da produtivi-
dade das pastagens e do rebanho, reduzir pela metade a área de pastos e manter o mesmo rebanho.
As áreas reflorestadas representam pouco mais de 492 mil hectares, com possibilidade decuplicar esta
área. Quanto às culturas anuais, com 12,8 milhões hectares, sobretudo no Estado de Mato Grosso,
é importante manter esse patamar mediante aumento da produtividade. No que concerne às culturas
permanentes com 636 mil hectares, poderia ser duplicado. Os estudos do Terraclass desenvolvidos
pela Embrapa e o Inpe demonstraram em números redondos a existência de 33 milhões de hectares
de pastos limpos na Amazônia Legal, 11 milhões de hectares de pastos degradados e 15 milhões de
hectares de vegetação secundária. A politica adequada seria transformar os 11 milhões de hectares
de pastos degradados para outras atividades e manter intacto a vegetação secundária para conversão
em Áreas de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente.

A Amazônia precisa aumentar a produtividade agrícola para reduzir a pressão sobre os recursos na-
turais, promover a domesticação de plantas potenciais e substituir importações de produtos tropicais
(borracha, dendê, cacau, etc.) e incentivos à recuperação de áreas que não deveriam ter sido des-
matadas. Os problemas ambientais na Amazônia não são independentes, estão conectados a outras
partes do país e do mundo, e a sua solução vai depender da utilização das áreas desmatadas e de um
forte aparato de pesquisa científica e de extensão rural. É possível construir o futuro da Amazônia em
um cenário sem desmatamento e queimadas, independente de pressões externas.

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