Avaliação da Arborização em João Pessoa
Avaliação da Arborização em João Pessoa
Resumo
Este estudo avaliou a arborização viária da cidade de João Pessoa, Paraíba, Brasil. Realizou-se um inventário
arbóreo distribuindo os bairros em 4 setores do perímetro urbano. Foram utilizadas as ruas e avenidas para
quantificação e classificação dos indivíduos, excluindo praças e bosques. Para o levantamento piloto, por
meio de amostragem sistemática, teve uma suficiência amostral de 241 unidades amostrais (3,86% do total).
Para efeito de sistematização e avaliação arbórea foram consideradas as 30 espécies mais abundantes.
Em cada setor avaliado, identificaram-se os problemas relacionados às questões fitossanitárias e conflitos
com equipamentos urbanos. Os resultados mostraram que a espécie mais abundante foi Ficus benjamina
L. (37,42%). No inventário arbóreo, 15,23% dos indivíduos apresentaram problemas com insetos, 19,88%
tiveram danos provocados por microrganismo, 42,49% têm conflitos com equipamentos públicos aéreos,
37,10 % equipamentos terrestres e 28,65% com danos físicos. Conclui-se que a arborização urbana de
João Pessoa necessita de um plano de manejo para criar um programa sistemático de cadastramento,
monitoramento e ações de intervenção.
Palavras-chaves: Inventario arbóreo; plano de manejo; silvicultura urbana
ABSTRACT
This study evaluated the urban afforestation of the city of João Pessoa, Paraíba, Brazil. A tree inventory
was carried out distributing the neighborhoods in 4 sectors of the urban perimeter. Streets and avenues
were used to quantify and classify individuals, excluding squares and forests. For the pilot survey, through
systematic sampling, a sampling adequacy of 241 sample units was identified (3.86% of the total). For the
purpose of systematization and tree evaluation, the 30 most abundant species were considered. In each
evaluated sector, problems related to phytosanitary issues and conflicts with urban equipment were identified.
Results showed that the most abundant species was Ficus benjamina L. (37.42%). In the tree inventory,
15.23% of the individuals had problems with insects, 19.88% presented damage caused by microorganism,
42.49% have conflicts with public air equipment, 37.10% with terrestrial equipment and 28.65% with physical
damages. It is concluded that the urban afforestation of João Pessoa needs a management plan through a
program of systematic registration and tree monitoring of the city, with a set of proposed actions.
Keywords: Tree inventory, management plan, urban forestry.
INTRODUÇÃO
Os centros urbanos são locais de convívio de grande parte da população. Estes constantemente são
modernizados e, ou, alterados, resultando em um desequilíbrio entre o homem e a vegetação (DE
ANGELIS et al., 2007). Uma das ferramentas para manter o contato com a natureza é a arborização
de ruas e avenidas, que no Brasil pode ser considerada como atividade recente, quando comparada
aos países europeus (DANTAS; SOUZA, 2004).
Arborização urbana nos remete a um padrão de distribuição de árvores em um território urbano,
em vias públicas e demais áreas livres de edificação. O sucesso da arborização depende de um
correto e criterioso planejamento, devendo levar em consideração os fatores que influem na seleção
de espécies, na produção de mudas e na implantação da mesma (BOBROWSKI; BIONDI, 2012).
1. Centro de Energias Alternativas e Renováveis, Universidade Federal da Paraíba – UFPB. João Pessoa / PB, Brasil.
2. Setor de Conservação da Natureza, Universidade Federal de Lavras. Lavras / MG, Brasil.
3. Departamento de Engenharia Florestal, Universidade de Brasília – Unb. Brasília / DF, Brasil.
MATERIAL E MÉTODOS
Os setores contem os seguintes bairros: SETOR A: Aeroclube, Altiplano Cabo Branco, Bairro dos
Estados, Bairros dos Ipês, Bancários, Bessa, Brisamar, Cabo Branco, Castelo Branco, Jardim Oceania,
João Agripino, Manaíra, Miramar, Pedro Gondim, Ponta do Sol, São José, Tambaú, Tambauzinho
e Torre; SETOR B: Água Fria, Anatólia, Barra de Gramame, Cidade dos Colibris, Costa do Sol, Cuiá,
Jardim Cidade Universitária, Jardim São Paulo, José Américo, Mangabeira, Muçumagro, Paratibe,
Penha, Planalto da Boa Esperança e Valentiva; SETOR C: bairros das Indústrias, Costa e Silva, Distrito
Industrial, Ernani Sátiro, Ernesto Geisel, Funcionários, Gramame, Grotão, Jardim Veneza, Mumbaba
e Mussuré; SETOR D: Alto do Céu, Alto do Mateus, Centro, Cristo Redentor, Cruz das Armas, Ilha
do Bispo, Jaguaribe, Mandacarú, Oitizeiro, Padre Zé, Rogér, Tambiá, Treze de Maio, Trincheiras,
Varadouro e Varjão.
Sci. For., Piracicaba, v. 47, n. 121, p. 71-82, mar. 2019
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Araújo et al. – Avaliação da arborização viária da cidade de João Pessoa, Paraíba, Brasil
O levantamento foi realizado por meio da amostragem sistemática das ruas e avenidas, pavimentadas
ou não, como unidade amostral. Para cada setor, as ruas foram organizadas em ordem alfabética e
numeradas. Realizou um sorteio aleatório entre as 10 primeiras, depois de encontrado a primeira
rua foram identificadas as ruas de 10 em 10 de forma sistemática. A suficiência amostral se obteve
por um inventário arbóreo piloto em 20 ruas. Posteriormente, foi determinado o número mínimo
de amostra, de acordo com Biondi (1985). Utilizou a suficiência amostral de 95% de probabilidade
e com erro máximo de 10%, obtendo um número mínimo de 252 amostras (4,03%).
Nas unidades amostrais sorteadas foi realizado o censo arbóreo nas calçadas e canteiros centrais,
excluindo praças, parques e áreas verdes. Os indivíduos arbóreos foram os que apresentaram
circunferência a altura do peito (CAP) ≥ 15 cm. A altura total do indivíduo (HT) foi estimada da
base do tronco ao ápice da copa, utilizando como referência uma régua graduada retrátil de 2 m.
Em campo coletou-se o nome comum das plantas e, a posteriori, foram identificadas pelo nome
científico. A identificação botânica das espécies deu-se mediante as características vegetativas e
reprodutivas (ritidoma, folhas, flores e/ou frutos).
Para os indivíduos arbóreos não identificados in loco, foram coletadas amostras de estrutura férteis,
quando possível, para ser identificado por um especialista ou para identificação por comparação de
amostras já identificadas, depositadas no Herbário Lauro Pires Xavier, da Universidade Federal da
Paraíba. Para a classificação das famílias botânicas seguiu-se o Angiosperm Phylogeny Group – APG
IV (APG, 2016). Os nomes científicos das espécies e família foram conferidos na Lista das Espécies
da Flora do Brasil (IBRJ, 2017) e na base de dados de plantas tropicais do Missouri Botanical Garden
(TROPICOS, 2016).
A classificação dos aspectos fitossanitários seguiu uma adaptação de Biondi (1985). Foram
classificadas quanto à presença ou ausência de danos que apresentam perigo ao desenvolvimento da
planta, em alguma estrutura, provocada por insetos (cupins, formigas cortadeiras, lagartas, besouros,
percevejos, pulgão, ácaros, entre outros) e patógenos provocados por microrganismo. Danos físicos no
tronco (defeitos e danos físicos, descascamento e anelamento, objeto do tronco e cortes em troncos
e galhos que não sejam de poda), e conflitos com equipamentos públicos aéreos (rede elétrica e
telefônica, placas de sinalização e semáforos) e terrestres (tubulação de esgoto, abastecimento de
água e levantamento ou quebra de calçadas e linha d’água).
Os dados foram tabulados com o auxilio de planilhas e o uso de tabelas dinâmicas do Excel®.
Com o resultado do inventário, foram analisadas as 30 espécies mais significativas em número de
indivíduos. Foi analisada a adaptabilidade e a resistência a patógenos, considerando as necessidades
de ações e potenciais riscos no meio urbano. Elaborou-se um programa de ações preventivas e
corretivas da manutenção da arborização viária.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
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Sci. For., Piracicaba, v. 47, n. 121, p. 71-82, mar. 2019
Prosopis juliflora (Sw.) DC. algaroba 17 0,60 8 47,06 4 23,53 6 35,29 6 35,29 5 29,41
OBS. Classificado por família botânica, espécie, nome comum, número total de indivíduos (Nº) e relativos (Nº%), indivíduos com problemas fitossanitários provocados por insetos (FI) e relativos (FI%) e provocado por
microrganismo (FP) e relativos (FP%), indivíduos em conflitos com equipamentos aéreos (CA) e relativos (CA%) e terrestres (CT) e relativos (CA%), e indivíduos com danos físicos (DF) e Relativos (DF%).
75
76
Tabela 1: Continuação...
Table 1: Continued...
Família/Nome científico Nome comum Nº Nº% FI FI% FP FP% CA CA% CT CT% DF DF%
Senna siamea (Lam.) H.S. Irwin & cassia-ferruginha 281 9,98 44 15,66 48 17,08 164 58,36 68 24,20 73 25,98
R.C. Barneby
MALVACEAE
Talipariti pernambucense(Arruda) algodão-da-praia 46 1,63 5 10,87 3 6,52 14 30,43 11 23,91 13 28,26
Bovini
Talipariti tiliaceum (L.) Fryxell algidão-da-praia 19 0,67 3 15,79 4 21,05 7 36,84 7 36,84 2 10,53
Pachira aquatica Aubl. castanheira-do- 27 0,96 2 7,41 10 37,04 7 25,93 5 18,52 7 25,93
maranhão
MELIACEAE
Azadirachta indica A. Juss nim 142 5,04 12 8,45 18 12,68 64 45,07 48 33,80 31 21,83
MYRTACEAE
Syzygium malaccense (L.) Merr. & jambeiro 61 2,17 16 26,23 11 18,03 26 42,62 19 31,15 24 39,34
L.M. Perry
Syzygium cumini (L) Skeels oliveira 29 1,03 4 13,79 5 17,24 7 24,14 4 13,79 2 6,90
MORACEAE
F. benjamina L. ficus 1054 37,42 144 13,66 165 15,65 475 45,07 609 57,78 244 23,15
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SAPINDACEAE
Filicium decipiens (Wt. & Arn.) Thw felícia 72 2,56 11 15,28 10 13,89 28 38,89 24 33,33 11 15,28
Total 2.817 100,00 429 15,23 560 19,88 1197 42,49 1.045 37,10 807 28,65
a acomodação superficial das raízes e, sendo este tipo de solo comumente encontrado nas cidades
(CADORIN; MELLO; MONTEMEZZO, 2013; PERIOTTO et al., 2016).
As espécies que apresentaram maiores conflitos com equipamentos públicos (aéreos e terrestres)
foram: L. tomentosa; A. pavonina; M. indica; S. siamea; C. nucifera; F. bejamina; D. regia, e; C. fairchildiana.
As espécies que presentaram os menores índices de indivíduos em conflito com equipamentos públicos
(aéreos e terrestres) foram: T. aurea; V. merrillii; A. intumescense; S. malaccense; P. echinata C. nucifera;
D. decaryi, e; S. cumini. As espécies T aurea, V. merrillii, A. intumescense e P. echinata se destacam por
apresentarem os menos índices de conflito com equipamentos aéreos e terrestres.
No bairro Santiago, município de Ji-Paraná/RO, 30% da população apresentavam conflitos com
cabos aéreos de telecomunicações e de energia elétrica (SANTOS JUNIOR; COSTA, 2014). Na cidade
de Medianeira, PR, 49% da arborização apresentavam interferência na fiação elétrica e 14,1% com
potencial de causar conflito com a rede elétrica (PERIOTTO et al., 2016). Os resultados encontrados
em João Pessoa foram maiores que do município de Ji-Paraná e menores que achados em Medianeira.
Com relação a conflitos com equipamentos terrestres, no município de Medianeira/PR, Periotto et al.
(2016) encontraram 18,52% das árvores com afloramento de raízes, consequentemente, no erguimento
da calçada, valor menor que o encontrado em João Pessoa.
Os dados indicaram que 28,65% (807) dos indivíduos apresentaram danos físicos, sendo os mais
comuns à quebra de galhos, pancada com retirada da primeira camada de tecido e objetos presos
ou fincados. As espécies que se destacam pelo maior índice de exemplares que sofreram este tipo
de agressão foram: A. colubrina (72,22%), D. regia (68,18%), L. tomentosa (65%), A. intumescens
(63,04%) e T. pentaphylla (56,07%). Dos indivíduos identificados, as espécies que tiveram menores
taxas de danos físicos foram: D. decaryi (0%), V. merrillii (2,78%), S. cumini (6,90%), C. nucifera
(7,14%) e H. chysotrichus (9,52%).
Na área central do município de São Joaquim/SC, 41% dos exemplares que compõem a
arborização de ruas apresentaram algum tipo de injúria provocada por vandalismo (SOUZA et al.,
2014). Nascimento et al. (2014) constataram que no Bairro Central da cidade de Resende/RJ, 55%
das árvores apresentavam sinais de injúrias ou agressões mecânicas. Os resultados encontrados nos
municípios citados foram menores que o indicado por este estudo.
As espécies listadas indicam as estruturas de copa adequada ou não a dinâmica da cidade.
Este fato causa pouca interferência na rotina da população, informando os locais onde não houve
um planejamento da arborização urbana. Das cinco espécies que menos sofreram danos físicos, três
são da família Arecaceae.
Os resultados por setor (Tabela 2) demonstram características e indicam os problemas existentes
na vegetação de cada região. Com relação aos aspectos fitossanitários, o setor D apresentou a maior
densidade relativa de indivíduos com problemas provocados por insetos, e o setor C, a menor
densidade relativa. O setor A apresentou o maior índice de indivíduos sobre o ataque aparente de
microorganismos, e o setor D, o menor índice.
Os setores A e D apresentam os maiores valores relativos de indivíduos em conflitos com
equipamentos urbanos aéreos e terrestres, e o setor B, o menor índice (Tabela 2). O setor A apresentou
a maior taxa de indivíduos com danos físicos, e o setor D, apresentou o menor índice. Os indivíduos
de F. benjamina, S. siamea, T. pentaphylla, Handroanthu sp. e T. catappa, merecem atenção especial por
Tabela 2: Quantidade de indivíduos identificados com problemas e na arborização da cidade de João Pessoa/PB nos
setores.
Table 2: Number of individuals identified with problems and in the afforestation of the city of João Pessoa / PB in
the sectors.
Setores NI NI% NP NP% NCA NCA% NCT NCT% ND ND%
A 145 13,01 306 26,14 635 78,86 578 63,51 386 34,08
B 103 15,23 133 19,22 167 29,99 127 23,05 174 24,94
C 65 12,19 83 14,35 128 32,24 96 27,41 132 23,12
D 116 23,08 38 7,09 267 76,57 244 68,55 115 21,86
Total 429 15,45 560 19,88 1.197 42,49 1.045 37,1 807 28,65
Onde: Número absoluto de indivíduos com insetos (NI) e relativo (NI%); Número absoluto de indivíduos com patógenos (NP) e relativos
(NP%); Número absoluto de indivíduos em conflitos com equipamentos urbanos aéreos (NCA) e relativos (NCA%); Número absoluto de
indivíduos em conflitos com equipamentos urbanos terrestres (NCT) e relativos (NCT%), e; Número absoluto de indivíduos com danos físicos
(ND) e relativos (ND%).
Fonte: IBGE (2017).
CONCLUSÃO
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