Conversação como Intervenção Educacional
Conversação como Intervenção Educacional
ISSN: 2595-6825
Iara Lamas
Graduanda em Psicologia
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: iaralamas@[Link]
RESUMO
Introdução: A conversação é uma metodologia de intervenção em grupo no campo da educação,
cuja técnica é um dispositivo clínico que permite o exercício da psicanálise aplicada
considerando as particularidades do sujeito diante do sofrimento psíquico e impasses da vida
escolar. Objetivo: Aplicação da técnica de Conversação enquanto estratégia de promoção à
saúde de adolescentes e como prática de desenvolvimento de competência de acadêmicos de
medicina e psicologia em lidar com demandas da juventude. Método: Trata-se de uma pesquisa-
intervenção apresentada como relato de experiência a partir da aplicação da técnica de
conversação realizada com alunos de uma escola pública estadual em Belo Horizonte, no
período de março a maio de 2023. Foram realizadas reuniões diagnósticas e devolutivas com a
direção da escola e cinco encontros semanais com os alunos. Resultados: Os temas abordados
pelos alunos foram ansiedade, estresse, depressão, respeito, bullying, espaço físico da escola
(barulho e descrita com grades por todos os lados parecendo uma cadeia), horário integral, grade
curricular, preparação para o mercado de trabalho, críticas aos professores e direção, incerteza
quanto ao futuro acadêmico/profissional, e percepção de não se sentirem “ouvidos” pela escola.
Conclusão: Educadores devem estar capacitados e abertos para as vivências dos discentes,
considerando suas subjetividades. A Conversação auxilia essa interlocução por meio do
discurso livre que facilita e estimula a auto reflexão, a identificação com grupo, os aspectos
subjetivos e a alteridade, importantes referências para a construção da identidade dos jovens,
promovendo crescimento e amadurecimento no ambiente escolar.
ABSTRACT
Introduction: Conversation is a group intervention methodology in the field of education, whose
technique serves as a clinical tool to the practice of applied psychoanalysis, taking into account
the individual's particularities in the face of psychological distress and challenges in the school
environment. Objective: Application of the Conversation technique as a strategy for promoting
adolescent health, and as a practice for medical and psychology students to develop competence
in handling youth demands. Method: An intervention research presented as an experiential
report based on the application of the Conversation technique conducted with students from a
public state school in Belo Horizonte, from March to May 2023. Diagnostic and feedback
meetings were held with the school's administration, along with five weekly meetings with the
students. Results: The topics addressed by the students included anxiety, stress, depression,
respect, bullying, the physical space of the school (noise and bars on all sides making it seem
like a prison), full-time schedule, curriculum, preparation for the job market, criticisms of
teachers and administration, uncertainty about academic/professional future, and a perception
of not feeling "heard" by the school. Conclusion: Educators should be equipped and open to
students' experiences, considering their subjectivities. Conversation aids this dialogue through
free discourse, which facilitates and encourages self-reflection, group identification, subjective
aspects, and alterity - all important references for the construction of young people's identity,
promoting growth and maturity in the school environment.
1 INTRODUÇÃO
O cenário da Educação no Brasil, atualmente, vem sendo marcado por uma crise difusa
e multifatorial que repercute no desempenho escolar dos alunos e na atividade profissional dos
professores. No período pós pandemia percebeu-se, em escolas de baixa renda, um declínio na
aprendizagem. Este deveu-se à gravidade dos impactos causados pela crise sanitária, naquele
momento, recente (GOMEZ, GONZÁLEZ & MURGUIA, 2023). Os problemas que mais
impactam essa realidade são: o desrespeito à autoridade do professor, a desmotivação pela
aprendizagem, a violência, a intolerância e o preconceito, a indisciplina, a medicalização
excessiva e a normalização de diagnósticos relativos a déficits dos alunos. Os recursos
pedagógicos e educacionais assim como a formação e capacitação dos profissionais mostram-
se insuficientes para solucionar esses problemas (SANTIGO, 2011). Por outro lado, o
encaminhamento habitual para uma avaliação psicológica do aluno “problema” pode ser uma
intervenção que culpabiliza o sujeito, visando um diagnóstico e tratamento individual, podendo
inclusive “reforçar a sua segregação e exclusão social”. A proposta da intervenção da
psicanálise na Educação busca, exatamente, reverter essa realidade por meio da oferta da
palavra a fim jogar luz naquilo que afeta cada um e lhe causa sofrimento (LIMA et all., 2015).
Afinal, assim como afirmam VARGAS & ROMERO (2021), é de extrema importância o apoio
psicológico na adolescência, período em que os indivíduos passam por uma fase de transição
da infância para a vida adulta.
A técnica de conversação como método de intervenção e pesquisa foi criada por
Jacques-Alain Miller na década de 1990 e tem como base teórica a psicanálise. Nas Escolas, “o
foco da conversação está no sujeito em sua singularidade e não em um transtorno ou um déficit
do aluno”. A proposta é “falar com os alunos e não sobre os alunos” trazendo-os para a posição
de sujeitos, numa relação de respeito fundamentada no simbólico, cujo objetivo é desbloquear
identificações com o grupo, promovendo nos participantes a reflexão sobre o que eles estão
tomando para si em relação ao tema abordado (MIRANDA, 2006). Esses espaços coletivos de
discussão propiciam o acolhimento de conflitos existentes em todo processo de aprendizagem
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa-intervenção do tipo relato de experiência, realizada a partir da
vivência de condução da técnica de Conversação desenvolvida com adolescentes no campo da
educação implementado no âmbito do Programa de Extensão “Acolhimento e cuidados
individuais e coletivos nas escolas”, proposta por uma liga acadêmica de faculdade do estado
de Minas Gerais, em parceria com uma escola pública integral na cidade de Belo Horizonte no
período de março a maio de 2023.
A pesquisa-intervenção articula o objeto investigado e a forma de investigá-lo,
entrelaçando dois momentos distintos da investigação que permite uma diversidade de
caminhos possíveis. Os pressupostos são estratégias que têm como proposta “a participação dos
Uma situação de associação livre, se ela é exitosa. A associação livre pode ser
coletivizada na medida em que não somos donos dos significantes. Um significante
chama outro significante, não sendo tão importante quem o produz em um momento
dado. Se confiamos na cadeia de significantes, vários participam do mesmo. Pelo
menos é a ficção da conversação: produzir - não uma enunciação coletiva - senão uma
associação livre coletiva, da qual esperamos um certo efeito de saber. Quando as
coisas me tocam, os significantes de outros me dão ideias, me ajudam e, finalmente,
resulta - às vezes - algo novo, um ângulo novo, perspectivas inéditas (MARCOS &
MENDONÇA, 2020).
O significante para Lacan existe apenas articulado com outros significantes. Lacan
(1953/1998) “fazia uso de conceitos como palavra plena e palavra vazia para presumir um tipo
de fala que carregue significação mesmo que usada isoladamente”. Na psicanálise “não existe
significante isolado, é necessário que ele esteja articulado em cadeia com outros significantes”
(LACAN, 1955-6/1985). Assim como qualquer língua possui sua sintaxe, “o encadeamento
entre os significantes pressupõe uma estrutura que estabelece seu sistema de regras, e por meio
da articulação entre os significantes, um saber é produzido, permitindo supor que ali houve
emergência de sujeito” (LANG & ANDRADE, 2019).
projeto, a fim de discutir sobre as impressões e manejo do grupo e a condução dos encontros
seguintes.
A proposta metodológica da Conversação é: no primeiro encontro com os estudantes,
os acadêmicos se apresentam, explicam o objetivo do projeto, convidam os alunos a
continuarem participando dos encontros de maneira voluntária, garantem o sigilo do que for
falado no grupo e estabelecem as regras de funcionamento (principalmente em relação ao
silêncio, ao respeito ao tempo da fala dos outros e ao não julgamento do colega). Também
explicam ao grupo que a demanda da intervenção surgiu a partir da observação da direção da
Escola de que algo não vai bem na dinâmica escolar dos alunos que vêm apresentando sintomas
de sofrimento psíquico, prejudicando tanto a vida acadêmica quanto a pessoal. A partir dessa
colocação os alunos são questionados se compartilham da mesma percepção e o que eles têm a
falar sobre essa questão.
Ao abrir a palavra para o grupo o condutor da conversação deve ficar atento a toda forma
de expressão que possa conduzir a um significante que identifique o sujeito naquele grupo de
jovens. Ele deve acolher e estimular que os alunos falem. No primeiro momento é comum os
participantes ficarem inibidos e somente alguns falarem, mas à medida que eles começam a
ficar à vontade, normalmente todos falam ao mesmo tempo e tudo parece um caos. Cabe ao
condutor destacar as questões que ficam subentendidas no discurso e direcionar a conversa de
forma que venha à tona algo que, usualmente, é difícil de ser expresso verbalmente. É possível
usar o recurso de registrar algumas palavras chave ou expressões no quadro para dar destaque
às ideias que estejam emergindo. Ao final da sessão é importante observar se algum participante
apresentou qualquer desconforto ou mudança de comportamento e oferecer apoio e, se
necessário, uma conversa individual.
A proposta dos encontros subsequentes é de iniciar a discussão perguntando como os
participantes se sentiram em relação ao encontro anterior e se houve alguma repercussão na sua
forma de perceber, pensar ou agir diante de determinadas situações. E a partir da fala de cada
um abrir a Conversação para novas reflexões.
Ao final da intervenção de cinco encontros deve-se realizar uma reunião devolutiva para
a Escola sobre os temas discutidos com os alunos, os quais eles concordaram em partilhar com
a direção, constituindo assim, uma oportunidade rica para a Escola falar sobre a sua percepção
em relação às possíveis mudanças ocorridas nas condutas dos alunos, para os pesquisadores
apresentarem suas impressões e para discutir sobre possibilidades, sugestões e planejamento
das demandas apresentadas pelos alunos, conforme descrito nos resultados.
colegas dificultava o grupo em situar os significantes que eram elaborados pelos participantes.
Assim, em diversos momentos, os acadêmicos interviram e retomaram a pauta discutida, dando
o espaço de fala e escuta a todos. Eles tinham muita necessidade de falar, muitas vezes repetindo
os temas sem avançar nas reflexões e sem abertura para propostas de solução dos problemas.
Houve, inclusive, dificuldade de finalizar alguns encontros, pois os alunos continuavam
falando. Muitas vezes, eles queriam definir pautas para os encontros seguintes, algo que foge
um pouco da proposta da conversação que é o discurso livre. Houve também, alguns confrontos
verbais entre os alunos que foram rapidamente paralisados pelos acadêmicos, que reiteraram os
combinados sobre as regras estabelecidas inicialmente. Por outro lado, observou-se a
participação de pessoas com um perfil mais tímido que só se manifestavam com os acadêmicos
após as atividades e diziam que não se sentiam confortáveis em se manifestarem publicamente.
Houve caso em que o aluno deixou de participar do projeto, apesar da insistência da escola e
dos acadêmicos.
Um dos encontros ficou extremamente esvaziado, porque os alunos tiveram problemas
com a direção da escola e se sentiam muito revoltados. Nesse dia os significantes e palavras
chave foram: “a escola é um lixo”, “a escola deveria ser um local para acalmar a gente”,
“ninguém se importa com a gente”, “as aulas são chatas e inúteis”, “estamos com raiva, com
vontade de desistir de tudo”, “é como se eles tivessem acabado com os nossos sonhos”.
Reclamaram que a escola não sabia conduzir uma crise de ansiedade, sentem falta de um lugar
tranquilo e arejado para ficaram quando tem crise de ansiedade, um “cantinho do sossego”,
humanizado, acolhedor, com elementos da natureza. A discussão girou em torno do tema da
ansiedade, dos sintomas (“asma psicológica”), das formas de enfrentamento, e sobre o que
gostam de fazer para relaxar. Apresentaram várias ideias para despertar a motivação de estudar
como excursão no Parque das Mangabeiras, horta, humanização da escola, “aula invertida”,
aula fora da sala de aula e apontaram também duas professoras como referências de apoio,
confiança e motivação.
No quarto encontro o grupo voltou a encher, pois se sentiram motivados com as
discussões do encontro anterior, conseguiram organizar melhor as ideias e, inclusive, enxergar
a responsabilidade de cada um nas condições que vivenciam na escola. Fizeram uma lista dos
pontos negativos e também uma série de sugestões para melhorar as relações e o aprendizado,
além de muitas reflexões sobre o ensino, as opressões, as injustiças, conflitos familiares e
escolares. As palavras chave foram: “A escola ideal deve ser motivadora, edificante, escutar os
alunos”, “A escola também é o aluno”, “a escola deveria ter um psicólogo para auxiliar nas
crises de ansiedade dos alunos”.
No último encontro os alunos elegeram os temas que deveríamos levar para a direção,
sendo os principais deles: os professores devem respeitar e escutar mais os alunos; elaborar
aulas mais criativas, atividades fora da escola; os alunos querem participar do planejamento das
atividades; os alunos também devem ter respeito pelos professores e escola e reconhecerem os
seus erros. Como sugestão: ter aulas ao ar livre, atividades físicas para liberar a tensão, ter uma
pessoa qualificada para lidar com as crises de ansiedade e fazer a interlocução dos alunos com
a escola por meio das professoras referência para os alunos.
Os principais desafios encontrados pelos acadêmicos para conduzir a técnica de
Conversação foram lidar com a ausência dos alunos, perda de interesse, não identificação com
o grupo, alegação de que os problemas não deveriam ser tratados ali e não acreditavam que
seriam resolvidos pela direção, apesar de gostarem de participar da atividade; muita conversa
paralela; os alunos não se escutavam; dificuldade para interromper a fala e a descontinuidade
da participação regular dos alunos.
O espaço físico também foi um fator dificultador, tanto para os alunos como para os
acadêmicos, pois o ambiente das salas disponíveis era extremamente barulhento e
movimentado, prejudicando o exercício de uma escuta efetiva e a manifestação espontânea dos
alunos. Além disso, em alguns momentos houve maior movimentação de alunos não
participantes fora da sala que, por curiosidade, passavam na frente das janelas e portas querendo
ver e entrar para entender o que estava acontecendo. Isso, por vezes, gerou desconforto e
distração dos participantes tirando o foco da conversação. Foi sugerido fechar as portas e pedir
ao coordenador que orientasse os alunos quanto ao projeto e para não interromperem os
encontros, a fim de manter a privacidade dos participantes.
Outro fator dificultador foi o pouco contato de alguns acadêmicos com as práticas de
terapia e a timidez, o que gerou falta de confiança e dificuldade de aplicação da técnica ao longo
do processo.
A reunião devolutiva aconteceu com a presença do coordenador da escola, da professora
supervisora do projeto e de uma acadêmica. Foram repassadas as demandas discutidas com os
alunos, as sugestões, as impressões dos acadêmicos e da supervisora. O coordenador da escola
recebeu bem a devolutiva, percebeu o engajamento de alguns alunos no projeto, e agradeceu as
sugestões. Entre os pontos que foram observados podemos citar a necessidade da participação
dos alunos no planejamento e tomada de decisão sobre as atividades desenvolvidas dentro e
fora da Escola, como forma de ampliar as possibilidades de vivências e interesse pelo
aprendizado, sendo que essa interlocução poderia ser facilitada pelos professores eleitos pelos
alunos. Outro ponto fundamental é a importância da abertura da escola para a rede de saúde
pública e o fortalecimento desse vínculo, pois a partir do momento em que a escola se abre para
a comunidade, centros de saúde e centros de atenção psicossocial existe a possibilidade de
tratamento dos estudantes em rede e, consequentemente, a descentralização das demandas na
escola.
3 CONCLUSÃO
O ambiente escolar é palco de inúmeros desafios o que torna necessário fazer com que
os educadores e todo corpo docente estejam capacitados e abertos para a vivência dos discentes,
considerando os aspectos de cada aluno em sua subjetividade, a fim de proporcionar um
desenvolvimento humano e construtivo, sendo imprescindível transpor as barreiras de
comunicação.
A técnica da Conversação pode auxiliar nessa interlocução, em oposição à perspectiva
de punições e culpabilização dos indivíduos que pouco contribuem para o aprendizado de uma
criança ou adolescente. Os benefícios de se fazer a troca para uma roda de conversas de discurso
livre, é facilitar e estimular a auto reflexão, o componente de identificação com um grupo e os
aspectos da subjetividade e alteridade, importantes referências para a construção da identidade
dos jovens. Desta maneira, promove-se o crescimento e amadurecimento dos estudantes no
ambiente escolar.
Este trabalho de extensão objetivou dar espaço à consciência acerca da saúde entre os
jovens alunos por meio da técnica de Conversação, além de estimular o desenvolvimento de
habilidades de comunicação entre eles e também entre os universitários extensionistas. Ao final
da intervenção esses objetivos foram cumpridos, sendo identificados pontos positivos tanto
pelos participantes do projeto quanto pela coordenação da escola. Esta experiência mostra-se
válida nesse contexto de promoção ativa de saúde entre uma população com alto índice de
vulnerabilidade, além de provar-se útil para estimular o amadurecimento por meio de discursos
abertos e auto responsabilização.
REFERÊNCIAS
CARVALHO, V.; ALBUQUERQUE, B. S. de; SANTIAGO, A. L. Para além do encanto pelas
palavras, a indisciplina dos professores. Almanaque, Belo Horizonte, ano 1, ed. No.22, 2019.
Disponível em: [Link]
pelas-palavras-a-indisciplina-dos-professores. Acesso em: 1 out. 2023.
LACAN, J. (1953). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. (1955-6). O Seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1985.