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Conversação como Intervenção Educacional

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Brazilian Journal of Health Review 1469

ISSN: 2595-6825

A prática interdisciplinar de jovens universitários: a conversação como


intervenção em alunos de uma escola pública

The interdisciplinary practice of young university students: the


conversation as intervention in students of a public school
DOI:10.34119/bjhrv7n1-111

Recebimento dos originais: 15/12/2023


Aceitação para publicação: 16/01/2024

Iara Lamas
Graduanda em Psicologia
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: iaralamas@[Link]

Paulo Vinícius Costa Moresi


Graduando em Medicina
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: paulomoresi@[Link]

Christian Higor Marques de Souza


Graduando em Psicologia
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: higorchristianfamily@[Link]

Hannya Braga Pinto Coelho


Graduanda em Medicina
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: hannyabraga@[Link]

Natália Lanza Bagno


Graduanda em Medicina
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: natebagno@[Link]

Olívia Mendonça Nunes


Graduanda em Medicina
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: oliviamennunes@[Link]

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ISSN: 2595-6825

Guilherme Domingues Ferreira


Graduando em Medicina
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: [Link].k@[Link]

Mariana Magalhães Miranda


Graduada em Psicologia
Instituição: Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro, Belo Horizonte – MG, CEP: 30130-110
E-mail: [Link]@[Link]

RESUMO
Introdução: A conversação é uma metodologia de intervenção em grupo no campo da educação,
cuja técnica é um dispositivo clínico que permite o exercício da psicanálise aplicada
considerando as particularidades do sujeito diante do sofrimento psíquico e impasses da vida
escolar. Objetivo: Aplicação da técnica de Conversação enquanto estratégia de promoção à
saúde de adolescentes e como prática de desenvolvimento de competência de acadêmicos de
medicina e psicologia em lidar com demandas da juventude. Método: Trata-se de uma pesquisa-
intervenção apresentada como relato de experiência a partir da aplicação da técnica de
conversação realizada com alunos de uma escola pública estadual em Belo Horizonte, no
período de março a maio de 2023. Foram realizadas reuniões diagnósticas e devolutivas com a
direção da escola e cinco encontros semanais com os alunos. Resultados: Os temas abordados
pelos alunos foram ansiedade, estresse, depressão, respeito, bullying, espaço físico da escola
(barulho e descrita com grades por todos os lados parecendo uma cadeia), horário integral, grade
curricular, preparação para o mercado de trabalho, críticas aos professores e direção, incerteza
quanto ao futuro acadêmico/profissional, e percepção de não se sentirem “ouvidos” pela escola.
Conclusão: Educadores devem estar capacitados e abertos para as vivências dos discentes,
considerando suas subjetividades. A Conversação auxilia essa interlocução por meio do
discurso livre que facilita e estimula a auto reflexão, a identificação com grupo, os aspectos
subjetivos e a alteridade, importantes referências para a construção da identidade dos jovens,
promovendo crescimento e amadurecimento no ambiente escolar.

Palavras-chave: conversação, psicanálise, adolescentes, escola, juventude.

ABSTRACT
Introduction: Conversation is a group intervention methodology in the field of education, whose
technique serves as a clinical tool to the practice of applied psychoanalysis, taking into account
the individual's particularities in the face of psychological distress and challenges in the school
environment. Objective: Application of the Conversation technique as a strategy for promoting
adolescent health, and as a practice for medical and psychology students to develop competence
in handling youth demands. Method: An intervention research presented as an experiential
report based on the application of the Conversation technique conducted with students from a
public state school in Belo Horizonte, from March to May 2023. Diagnostic and feedback
meetings were held with the school's administration, along with five weekly meetings with the
students. Results: The topics addressed by the students included anxiety, stress, depression,
respect, bullying, the physical space of the school (noise and bars on all sides making it seem
like a prison), full-time schedule, curriculum, preparation for the job market, criticisms of
teachers and administration, uncertainty about academic/professional future, and a perception
of not feeling "heard" by the school. Conclusion: Educators should be equipped and open to

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students' experiences, considering their subjectivities. Conversation aids this dialogue through
free discourse, which facilitates and encourages self-reflection, group identification, subjective
aspects, and alterity - all important references for the construction of young people's identity,
promoting growth and maturity in the school environment.

Keywords: conversation, psychoanalysis, adolescents, school, youth.

1 INTRODUÇÃO
O cenário da Educação no Brasil, atualmente, vem sendo marcado por uma crise difusa
e multifatorial que repercute no desempenho escolar dos alunos e na atividade profissional dos
professores. No período pós pandemia percebeu-se, em escolas de baixa renda, um declínio na
aprendizagem. Este deveu-se à gravidade dos impactos causados pela crise sanitária, naquele
momento, recente (GOMEZ, GONZÁLEZ & MURGUIA, 2023). Os problemas que mais
impactam essa realidade são: o desrespeito à autoridade do professor, a desmotivação pela
aprendizagem, a violência, a intolerância e o preconceito, a indisciplina, a medicalização
excessiva e a normalização de diagnósticos relativos a déficits dos alunos. Os recursos
pedagógicos e educacionais assim como a formação e capacitação dos profissionais mostram-
se insuficientes para solucionar esses problemas (SANTIGO, 2011). Por outro lado, o
encaminhamento habitual para uma avaliação psicológica do aluno “problema” pode ser uma
intervenção que culpabiliza o sujeito, visando um diagnóstico e tratamento individual, podendo
inclusive “reforçar a sua segregação e exclusão social”. A proposta da intervenção da
psicanálise na Educação busca, exatamente, reverter essa realidade por meio da oferta da
palavra a fim jogar luz naquilo que afeta cada um e lhe causa sofrimento (LIMA et all., 2015).
Afinal, assim como afirmam VARGAS & ROMERO (2021), é de extrema importância o apoio
psicológico na adolescência, período em que os indivíduos passam por uma fase de transição
da infância para a vida adulta.
A técnica de conversação como método de intervenção e pesquisa foi criada por
Jacques-Alain Miller na década de 1990 e tem como base teórica a psicanálise. Nas Escolas, “o
foco da conversação está no sujeito em sua singularidade e não em um transtorno ou um déficit
do aluno”. A proposta é “falar com os alunos e não sobre os alunos” trazendo-os para a posição
de sujeitos, numa relação de respeito fundamentada no simbólico, cujo objetivo é desbloquear
identificações com o grupo, promovendo nos participantes a reflexão sobre o que eles estão
tomando para si em relação ao tema abordado (MIRANDA, 2006). Esses espaços coletivos de
discussão propiciam o acolhimento de conflitos existentes em todo processo de aprendizagem

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e auxiliam na busca por soluções de problemas na prática pedagógica ou na relação


professor/aluno/escola/comunidade. (LIMA et all, 2015).
LACADÉE (1999-2000) afirma que a conversação pode efetivar "uma prática inédita
da palavra", rebelando o laço social daqueles que foram marcados por identificações. A
proposta é "destravar essas identificações" por meio da circulação da palavra, que pode fazer
despertar nos sujeitos a consciência daquilo que os afeta, e na aposta de que podem livrar-se do
gozo em que estão alojados (eu sou uma pessoa “incapaz”, “violento” ou “fracassado”) e
construir uma nova percepção do “eu”, mais consciente e verdadeira. A conversação possibilita
a escuta do inconsciente e une o tratamento à intervenção, na medida em que se “reconhece e
respeita a singularidade e a palavra de cada um, dando um lugar peculiar para o simbólico”
(MARCOS & MENDONÇA, 2020).
A técnica de Conversação permite a circulação da palavra e nesse movimento alguns
significantes identificatórios se destacam e podem gerar uma “mudança na posição do sujeito
no discurso do Outro”. A coletivização do enunciado tenciona a produção de efeitos singulares
de expressão que possibilitam ao adolescente perceber porque assumiu determinado modo de
se apresentar, de ser e estar no mundo (SANTIAGO, 2009).
Dessa forma, o objetivo do projeto foi promover, a partir da técnica de Conversação, a
produção e transmissão de um saber inédito sobre o mal-estar no qual os alunos e escolas estão
envolvidos, possibilitando um espaço de promoção de saúde e prevenção de eventos inerentes
à juventude, baseando-se em um modelo voltado ao adolescente e a atenção à saúde. O projeto
também visou que os acadêmicos participantes desenvolvessem habilidades e competências
para lidar com as demandas apresentadas pelos jovens.

2 DESENVOLVIMENTO
2.1 METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa-intervenção do tipo relato de experiência, realizada a partir da
vivência de condução da técnica de Conversação desenvolvida com adolescentes no campo da
educação implementado no âmbito do Programa de Extensão “Acolhimento e cuidados
individuais e coletivos nas escolas”, proposta por uma liga acadêmica de faculdade do estado
de Minas Gerais, em parceria com uma escola pública integral na cidade de Belo Horizonte no
período de março a maio de 2023.
A pesquisa-intervenção articula o objeto investigado e a forma de investigá-lo,
entrelaçando dois momentos distintos da investigação que permite uma diversidade de
caminhos possíveis. Os pressupostos são estratégias que têm como proposta “a participação dos

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grupos sociais na busca de soluções para as problemáticas vividas, envolvendo um processo de


compreensão e mudança da realidade”. Nessa perspectiva, pesquisadores e pesquisados são co-
autores do processo de diagnóstico da situação-problema e da construção de possibilidades de
solução das questões. É um processo contínuo que provoca transformação dos sujeitos e requer
desdobramentos de condutas e relações entre os envolvidos (NASCIMENTO & LEMOS,
2020).
O relato de experiência como ferramenta de pesquisa “descreve a experiência vivida
propriamente dita, de maneira informal e sem ação crítica-reflexiva”. Após o tratamento dos
dados apresenta uma reflexão sobre as ações executadas em uma determinada intervenção, a
fim de compreender acontecimentos e organizar analiticamente o conhecimento. O relato de
experiência como expressão de vivências é uma importante estratégia de construção do
conhecimento nas ciências sociais (MUSSI, 2021).
A conversação é uma metodologia de intervenção em grupo no campo da educação, cuja
técnica é um dispositivo clínico que permite o exercício da psicanálise aplicada considerando
as particularidades do sujeito diante do sofrimento psíquico e impasses da vida escolar. A
técnica foi elaborada por Jacques Alain-Miller em 1990 e “aplicada na França em 1966, no
CIEN (Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Infância), a fim de ampliar o campo da
investigação da fala com outros discursos que incidem na infância” (MIRANDA, 2006).
Segundo Jacques-Alain Miller a conversação é:

Uma situação de associação livre, se ela é exitosa. A associação livre pode ser
coletivizada na medida em que não somos donos dos significantes. Um significante
chama outro significante, não sendo tão importante quem o produz em um momento
dado. Se confiamos na cadeia de significantes, vários participam do mesmo. Pelo
menos é a ficção da conversação: produzir - não uma enunciação coletiva - senão uma
associação livre coletiva, da qual esperamos um certo efeito de saber. Quando as
coisas me tocam, os significantes de outros me dão ideias, me ajudam e, finalmente,
resulta - às vezes - algo novo, um ângulo novo, perspectivas inéditas (MARCOS &
MENDONÇA, 2020).

O significante para Lacan existe apenas articulado com outros significantes. Lacan
(1953/1998) “fazia uso de conceitos como palavra plena e palavra vazia para presumir um tipo
de fala que carregue significação mesmo que usada isoladamente”. Na psicanálise “não existe
significante isolado, é necessário que ele esteja articulado em cadeia com outros significantes”
(LACAN, 1955-6/1985). Assim como qualquer língua possui sua sintaxe, “o encadeamento
entre os significantes pressupõe uma estrutura que estabelece seu sistema de regras, e por meio
da articulação entre os significantes, um saber é produzido, permitindo supor que ali houve
emergência de sujeito” (LANG & ANDRADE, 2019).

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SANTIAGO & COLARES, 2021 apontam que no contexto da Conversação é esperado


que cada sujeito se permita falar de forma livre a partir de um problema comum desencadeante,
se entregando à livre associação que aos poucos vai se coletivizando fazendo “emergir algo
usualmente difícil de ser abordado pela palavra”. A aposta é que os participantes, ao escutarem
uma pessoa falar, possam refletir, reposicionar e resgatar o saber fazer dos outros, possibilitando
surgir novas ideias e construções para o enfrentamento de uma questão pessoal sem,
necessariamente, alcançar um acordo entre o grupo.
Segundo SANTIAGO (2009), a Conversação funciona como “instrumento de
abordagem do sintoma nas escolas”, pois ela objetiva que os sujeitos falem a partir de uma
posição em que eles assumem a existência de um impasse para a vida escolar. A prática da
Conversação foca no mal-estar que pode emergir da fala dos participantes, facilitando que a
queixa sobre um impasse se apresente como um tópico, e o próprio desdobramento desse
conteúdo se manifeste como uma resposta ou solução para o impasse.
Nesse estudo a metodologia de Conversação foi utilizada em alunos de uma escola
pública em Belo Horizonte. O público alvo foram adolescentes dos primeiro, segundo e terceiro
anos do segundo grau. Foram realizadas uma reunião diagnóstica e uma reunião devolutiva pós-
intervenção com a direção da Escola, e cinco encontros com os alunos. A primeira reunião
diagnóstica realizada com o coordenador da Escola aconteceu para coletar dados sobre as
demandas dos alunos observadas pela direção, explicar o projeto, planejar o calendário e o
cronograma de atividades. O representante responsável pelo projeto na Escola apresentou suas
expectativas em relação à intervenção e ficou acordada a realização de cinco encontros com os
alunos, uma vez por semana, com a duração de uma hora, sendo reservada uma sala espaçosa
para acomodar todos e preservar a privacidade dos alunos.
Os principais problemas identificados pela Escola em relação aos alunos foram:
ansiedade, automutilação, depressão e falta de interesse e motivação pelo processo de
aprendizagem. A Escola identificou a necessidade de intervenção em alguns alunos e os
convidou para participar do projeto, formando um grupo de aproximadamente 20 pessoas.
Todos os participantes tinham faixa etária entre 15 e 19 anos. Os encontros aconteceram uma
vez por semana e foram coordenados por três acadêmicos (2 do curso de Psicologia e 1 do curso
de Medicina), sendo que dois conduziam a Conversação e um observava o grupo, fazia as
anotações e intervia quando necessário. Os acadêmicos foram previamente orientados sobre a
técnica de Conversação e preparados para conduzir a prática, direcionar a abordagem e
identificar as temáticas problemas e seus significantes, que pudessem surgir ao longo das falas.
Após cada encontro os acadêmicos foram supervisionados pela professora responsável pelo

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projeto, a fim de discutir sobre as impressões e manejo do grupo e a condução dos encontros
seguintes.
A proposta metodológica da Conversação é: no primeiro encontro com os estudantes,
os acadêmicos se apresentam, explicam o objetivo do projeto, convidam os alunos a
continuarem participando dos encontros de maneira voluntária, garantem o sigilo do que for
falado no grupo e estabelecem as regras de funcionamento (principalmente em relação ao
silêncio, ao respeito ao tempo da fala dos outros e ao não julgamento do colega). Também
explicam ao grupo que a demanda da intervenção surgiu a partir da observação da direção da
Escola de que algo não vai bem na dinâmica escolar dos alunos que vêm apresentando sintomas
de sofrimento psíquico, prejudicando tanto a vida acadêmica quanto a pessoal. A partir dessa
colocação os alunos são questionados se compartilham da mesma percepção e o que eles têm a
falar sobre essa questão.
Ao abrir a palavra para o grupo o condutor da conversação deve ficar atento a toda forma
de expressão que possa conduzir a um significante que identifique o sujeito naquele grupo de
jovens. Ele deve acolher e estimular que os alunos falem. No primeiro momento é comum os
participantes ficarem inibidos e somente alguns falarem, mas à medida que eles começam a
ficar à vontade, normalmente todos falam ao mesmo tempo e tudo parece um caos. Cabe ao
condutor destacar as questões que ficam subentendidas no discurso e direcionar a conversa de
forma que venha à tona algo que, usualmente, é difícil de ser expresso verbalmente. É possível
usar o recurso de registrar algumas palavras chave ou expressões no quadro para dar destaque
às ideias que estejam emergindo. Ao final da sessão é importante observar se algum participante
apresentou qualquer desconforto ou mudança de comportamento e oferecer apoio e, se
necessário, uma conversa individual.
A proposta dos encontros subsequentes é de iniciar a discussão perguntando como os
participantes se sentiram em relação ao encontro anterior e se houve alguma repercussão na sua
forma de perceber, pensar ou agir diante de determinadas situações. E a partir da fala de cada
um abrir a Conversação para novas reflexões.
Ao final da intervenção de cinco encontros deve-se realizar uma reunião devolutiva para
a Escola sobre os temas discutidos com os alunos, os quais eles concordaram em partilhar com
a direção, constituindo assim, uma oportunidade rica para a Escola falar sobre a sua percepção
em relação às possíveis mudanças ocorridas nas condutas dos alunos, para os pesquisadores
apresentarem suas impressões e para discutir sobre possibilidades, sugestões e planejamento
das demandas apresentadas pelos alunos, conforme descrito nos resultados.

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2.2 RESULTADOS E DISCUSSÃO


Durante a primeira sessão de conversação os alunos apresentaram certa resistência em
compreender o processo ao qual estavam sendo submetidos. A reunião começou com a sala
cheia, mais de 20 alunos, ambiente tumultuado com conversas paralelas, silêncios, pouca
participação e muito barulho externo. Foi necessário interromper a conversação e convidar a
ficar na sala apenas quem realmente queria participar. A partir daí foi possível iniciar
corretamente a metodologia, apesar de o barulho externo incomodar muito. Observou-se nos
alunos o receio em se exporem e desconfiança sobre o que deveria ou não ser dito. Na medida
em que fomos conduzindo as falas e sintetizando seus significados, eles tiveram mais liberdade
para expor suas demandas, questionamentos, dificuldades e todos passaram a falar alto, ao
mesmo tempo e desabafaram sobre suas queixas.
Um grupo de alunos foi mais participativo, responsivo e colaborativo e outro ficou mais
calado. Eles trouxeram demandas acerca dos seguintes temas: ansiedade, estresse, depressão,
respeito, bullying, espaço físico da escola (barulho e descrita pela presença de grades por todos
os lados parecendo uma cadeia), horário integral, grade curricular, vontade de trabalhar,
preparação para o mercado de trabalho, críticas aos professores e direção, pressão familiar e
escolar, incerteza quanto ao futuro acadêmico/profissional, e sobre a percepção de não se
sentirem “ouvidos” pela escola. E as palavras chave foram: “não saber”, “sensação de estar
preso” e “desmotivação”. Durante os encontros, foi observada uma insatisfação por parte dos
alunos na conduta da escola com o uso do horário integral. Esse desconforto era justificado
pelos participantes devido a lei 13.415/17 que prevê mudanças na grade curricular do ensino
médio, proporcionando aumento da carga horária e de novas disciplinas para a aprovação. De
certa forma, o grupo discente relatou baixa produtividade em relação ao tempo demandado no
ambiente escolar. Alguns participantes relataram insegurança acerca do futuro e sobre as
diversas possibilidades externas que poderiam ser oferecidas para o desenvolvimento deles na
ocupação do tempo escolar referente às disciplinas complementares.
Nos encontros subsequentes vários alunos novatos participaram, além dos alunos que
estiveram presentes no primeiro encontro, o que causou uma transição contínua de
participantes. Na medida em que eles eram indagados a iniciarem a conversação, percebeu-se
uma quebra de continuidade do grupo pela intermitente participação de diferentes sujeitos. E,
visto essa dificuldade, muitas vezes temas abordados em encontros anteriores eram retomados
em uma tentativa de fazer fluir os tópicos que os alunos pudessem se engajar. Mas, à medida
que a discussão fluía, todos falavam alto e ao mesmo tempo, não se escutavam e permaneciam
na queixa. De certa forma, o desejo dos alunos de falarem simultaneamente com os demais

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colegas dificultava o grupo em situar os significantes que eram elaborados pelos participantes.
Assim, em diversos momentos, os acadêmicos interviram e retomaram a pauta discutida, dando
o espaço de fala e escuta a todos. Eles tinham muita necessidade de falar, muitas vezes repetindo
os temas sem avançar nas reflexões e sem abertura para propostas de solução dos problemas.
Houve, inclusive, dificuldade de finalizar alguns encontros, pois os alunos continuavam
falando. Muitas vezes, eles queriam definir pautas para os encontros seguintes, algo que foge
um pouco da proposta da conversação que é o discurso livre. Houve também, alguns confrontos
verbais entre os alunos que foram rapidamente paralisados pelos acadêmicos, que reiteraram os
combinados sobre as regras estabelecidas inicialmente. Por outro lado, observou-se a
participação de pessoas com um perfil mais tímido que só se manifestavam com os acadêmicos
após as atividades e diziam que não se sentiam confortáveis em se manifestarem publicamente.
Houve caso em que o aluno deixou de participar do projeto, apesar da insistência da escola e
dos acadêmicos.
Um dos encontros ficou extremamente esvaziado, porque os alunos tiveram problemas
com a direção da escola e se sentiam muito revoltados. Nesse dia os significantes e palavras
chave foram: “a escola é um lixo”, “a escola deveria ser um local para acalmar a gente”,
“ninguém se importa com a gente”, “as aulas são chatas e inúteis”, “estamos com raiva, com
vontade de desistir de tudo”, “é como se eles tivessem acabado com os nossos sonhos”.
Reclamaram que a escola não sabia conduzir uma crise de ansiedade, sentem falta de um lugar
tranquilo e arejado para ficaram quando tem crise de ansiedade, um “cantinho do sossego”,
humanizado, acolhedor, com elementos da natureza. A discussão girou em torno do tema da
ansiedade, dos sintomas (“asma psicológica”), das formas de enfrentamento, e sobre o que
gostam de fazer para relaxar. Apresentaram várias ideias para despertar a motivação de estudar
como excursão no Parque das Mangabeiras, horta, humanização da escola, “aula invertida”,
aula fora da sala de aula e apontaram também duas professoras como referências de apoio,
confiança e motivação.
No quarto encontro o grupo voltou a encher, pois se sentiram motivados com as
discussões do encontro anterior, conseguiram organizar melhor as ideias e, inclusive, enxergar
a responsabilidade de cada um nas condições que vivenciam na escola. Fizeram uma lista dos
pontos negativos e também uma série de sugestões para melhorar as relações e o aprendizado,
além de muitas reflexões sobre o ensino, as opressões, as injustiças, conflitos familiares e
escolares. As palavras chave foram: “A escola ideal deve ser motivadora, edificante, escutar os
alunos”, “A escola também é o aluno”, “a escola deveria ter um psicólogo para auxiliar nas
crises de ansiedade dos alunos”.

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No último encontro os alunos elegeram os temas que deveríamos levar para a direção,
sendo os principais deles: os professores devem respeitar e escutar mais os alunos; elaborar
aulas mais criativas, atividades fora da escola; os alunos querem participar do planejamento das
atividades; os alunos também devem ter respeito pelos professores e escola e reconhecerem os
seus erros. Como sugestão: ter aulas ao ar livre, atividades físicas para liberar a tensão, ter uma
pessoa qualificada para lidar com as crises de ansiedade e fazer a interlocução dos alunos com
a escola por meio das professoras referência para os alunos.
Os principais desafios encontrados pelos acadêmicos para conduzir a técnica de
Conversação foram lidar com a ausência dos alunos, perda de interesse, não identificação com
o grupo, alegação de que os problemas não deveriam ser tratados ali e não acreditavam que
seriam resolvidos pela direção, apesar de gostarem de participar da atividade; muita conversa
paralela; os alunos não se escutavam; dificuldade para interromper a fala e a descontinuidade
da participação regular dos alunos.
O espaço físico também foi um fator dificultador, tanto para os alunos como para os
acadêmicos, pois o ambiente das salas disponíveis era extremamente barulhento e
movimentado, prejudicando o exercício de uma escuta efetiva e a manifestação espontânea dos
alunos. Além disso, em alguns momentos houve maior movimentação de alunos não
participantes fora da sala que, por curiosidade, passavam na frente das janelas e portas querendo
ver e entrar para entender o que estava acontecendo. Isso, por vezes, gerou desconforto e
distração dos participantes tirando o foco da conversação. Foi sugerido fechar as portas e pedir
ao coordenador que orientasse os alunos quanto ao projeto e para não interromperem os
encontros, a fim de manter a privacidade dos participantes.
Outro fator dificultador foi o pouco contato de alguns acadêmicos com as práticas de
terapia e a timidez, o que gerou falta de confiança e dificuldade de aplicação da técnica ao longo
do processo.
A reunião devolutiva aconteceu com a presença do coordenador da escola, da professora
supervisora do projeto e de uma acadêmica. Foram repassadas as demandas discutidas com os
alunos, as sugestões, as impressões dos acadêmicos e da supervisora. O coordenador da escola
recebeu bem a devolutiva, percebeu o engajamento de alguns alunos no projeto, e agradeceu as
sugestões. Entre os pontos que foram observados podemos citar a necessidade da participação
dos alunos no planejamento e tomada de decisão sobre as atividades desenvolvidas dentro e
fora da Escola, como forma de ampliar as possibilidades de vivências e interesse pelo
aprendizado, sendo que essa interlocução poderia ser facilitada pelos professores eleitos pelos
alunos. Outro ponto fundamental é a importância da abertura da escola para a rede de saúde

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pública e o fortalecimento desse vínculo, pois a partir do momento em que a escola se abre para
a comunidade, centros de saúde e centros de atenção psicossocial existe a possibilidade de
tratamento dos estudantes em rede e, consequentemente, a descentralização das demandas na
escola.

3 CONCLUSÃO
O ambiente escolar é palco de inúmeros desafios o que torna necessário fazer com que
os educadores e todo corpo docente estejam capacitados e abertos para a vivência dos discentes,
considerando os aspectos de cada aluno em sua subjetividade, a fim de proporcionar um
desenvolvimento humano e construtivo, sendo imprescindível transpor as barreiras de
comunicação.
A técnica da Conversação pode auxiliar nessa interlocução, em oposição à perspectiva
de punições e culpabilização dos indivíduos que pouco contribuem para o aprendizado de uma
criança ou adolescente. Os benefícios de se fazer a troca para uma roda de conversas de discurso
livre, é facilitar e estimular a auto reflexão, o componente de identificação com um grupo e os
aspectos da subjetividade e alteridade, importantes referências para a construção da identidade
dos jovens. Desta maneira, promove-se o crescimento e amadurecimento dos estudantes no
ambiente escolar.
Este trabalho de extensão objetivou dar espaço à consciência acerca da saúde entre os
jovens alunos por meio da técnica de Conversação, além de estimular o desenvolvimento de
habilidades de comunicação entre eles e também entre os universitários extensionistas. Ao final
da intervenção esses objetivos foram cumpridos, sendo identificados pontos positivos tanto
pelos participantes do projeto quanto pela coordenação da escola. Esta experiência mostra-se
válida nesse contexto de promoção ativa de saúde entre uma população com alto índice de
vulnerabilidade, além de provar-se útil para estimular o amadurecimento por meio de discursos
abertos e auto responsabilização.

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