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Economia Circular: Sustentabilidade e Inovação

Economia Circular

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Introdução

Desde a Revolução Industrial, ocorrida ainda no século 18, predomina na economia mundial o
chamado modelo de produção ou economia linear. Na economia linear a conversão de recursos
naturais em resíduos ocorre através da extracção de matéria-prima do ambiente, manufatura e
posterior descarte dos resíduos gerados nesse processo. Essa lógica do modelo linear leva à
deterioração do meio ambiente de duas maneiras: pela remoção do capital natural do meio
ambiente (através da mineração/colheita insustentável) e pela redução do valor do capital natural
causada pela poluição causada pelo desperdício. A poluição também pode ocorrer no estágio de
aquisição de recursos.

Por outro lado, consumidores em todo o mundo têm desenvolvido, nas últimas décadas, uma
nova consciência quanto ao consumo de produtos e serviços que prezam pela redução do impacto
ambiental e da poluição, pela manutenção dos recursos naturais, e pelo respeito às melhores
condições de trabalho e de saúde da população do planeta e das próximas gerações. Em função
disso, as empresas têm se adaptado às novas exigências, através do desenvolvimento de
mecanismos em seus processos produtivos, bem como em suas relações comerciais, mais
alinhados às dimensões económica, ambiental e social da sustentabilidade.

Paralelamente, diferentes países, por meio de acções individuais ou colectivas, têm desenvolvido
instrumentos regulatórios e acordos, visando buscar soluções para problemas que são
consequências dessa lógica da economia linear. Tais acções, instrumentos e acordos têm
influenciado as organizações a se adequarem à nova ordem mundial.

Assim, como resposta às regulamentações de mudanças climáticas, ao aumento dos custos de


aquisição de matérias-primas e ao impacto ambiental dos processos de descarte, na última década
as organizações implementaram sistemas de produção e cadeia de suprimentos para prolongar o
ciclo de vida de produtos, subprodutos e resíduos úteis, indo ao encontro da lógica de produção
defendida pela chamada Economia Circular. A Economia Circular defende sistemas de produção
que são restauradores e regenerativos por objectivo, mudando as cadeias de valor da produção
linear (“extrair-produzir-usar-descartar”) para a produção circular (“extrair- -produzir-usar-
recuperar”).
Economia circular

Actualmente o mercado consumidor assume um novo papel nas relações comerciais. O modelo
económico de “extrair, transformar e descartar” empregado hoje, exige a utilização de grandes
quantidades de matéria-prima e energia, ocasionando, além da escassez de insumos, a
dificuldade em obter grandes quantidades de materiais de baixo custo e de fácil acesso (EMF,
2012).

Para Cooper (1999), o modelo de uma economia linear no qual é suposto que haja uma oferta
ilimitada de recursos naturais e que o ambiente tem uma capacidade ilimitada de absorver
resíduos gerados, deve ser descartado. Em vez disso, uma economia circular é proposta, na qual
o consumo de energia e de matérias-primas são reduzidos. A economia circular promove uma
utilização mais apropriada dos recursos gerados pelo processo produtivo por meio da
implementação de uma visão mais “verde da economia” (greener economy), em que surgem
empreendimentos inovadores que gerenciamos impactos causados pela operação industrial,
oferecendo condições de desenvolvimento de práticas organizacionais que prezem pela
manutenção destes recursos para as futuras gerações (GHISELLINI; CIALANI; ULGIATI,
2016).

Esse novo modelo económico surge da junção de vários precedentes. Segundo Geissdoerfer et al.
(2017), o conceito de economia circular foi influenciado pela obra de Boulding (1966), que
descreve a Terra como um sistema fechado e circular com capacidade assimilativa limitada, e
infere disso que a economia e o ambiente devem coexistir em equilíbrio, um sistema fechado no
qual praticamente não há trocas de matéria com o ambiente exterior. Raízes da economia circular
também são encontradas na teoria geral dos sistemas (VON BERTANLAFFY, 1950, 1968) e
Ecologia Industrial (PRESTON, 2012). EMF (2012) afirma que as principais escolas de
pensamento relacionadas à economia circular surgiram na década de 1970, ganhando
proeminência nos anos de 1990. Exemplos incluem a economia de serviços (economia do
desempenho) de Walter Stahel, a filosofia “cradle to cradle” (berço a berço) de William
McDonough e Michael Braungart, a biomimética articulada por Janine Benyus, a ecologia
industrial de Reid Lifset e Thomas Graedel, o capitalismo natural de Amory e Hunter Lovins e
Paul Hawken, e a abordagem dos sistemas de Blue Economy (economia azul) descritos por
Gunter Pauli.

Geissdoerfer et al. (2017) definem a Economia Circular como um sistema regenerativo no qual a
entrada de recursos e o vazamento de resíduos, emissões e energia são minimizados pela
desaceleração, fechamento e estreitamento de materiais e circuitos de energia. Isso pode ser
alcançado por meio de projecto, manutenção, reparo, reutilização, remanufatura, reforma e
reciclagem de longa duração. Na visão de Ghiselline, Cialani e Ulgiati (2016), a economia
circular contribui positivamente para o desenvolvimento sustentável, a partir de um maior
balanceamento de factores económicos, empresariais e governamentais, por actuar directamente
com as práticas de gerenciamento de desperdício, reuso e reciclagem, prevenção da poluição,
produção mais limpa (cleaner production), por meio de um modelo de produção com
direcionamento circular, no qual os resíduos e a energia são reaproveitados em todo o processo.
Economia circular é vista como um novo modelo de negócio que pode conduzir a um
desenvolvimento mais sustentável e uma sociedade harmoniosa.

Feng et al. (2007) descrevem a economia circular como um modo de desenvolvimento


económico baseado na circulação ecológica de materiais naturais, exigindo a conformidade com
as leis ecológicas e a utilização adequada dos recursos naturais para alcançar o desenvolvimento
económico. Para Murray, Skene e Haynes (2015) a economia circular é um modelo económico
em que o planeamento, a obtenção de recursos, a aquisição, a produção e o reprocessamento são
projectados e gerenciados, tanto como processo quanto como resultado, para maximizar o
funcionamento do ecossistema e o bem-estar humano.

Nessa perspectiva, os ciclos produtivos serão fechados, o papel de fluxo reverso de materiais
e/ou energia devera se elevar exponencialmente (LACY, RUTQVIST, 2015). Um sistema de
economia circularé tratado como um pré-requisito para a manutenção da sustentabilidade da vida
humana na Terra, visto que o sistema fechado de produção acarreta em praticamente nenhum
intercâmbio de matéria com o ambiente externo, devido ao reaproveitamento de materiais e
energia, reduzindo assim o impacto ambiental causado pelas operações produtivas
(GHISELLINI; CIALINI; ULGIATI, 2016).

A palavra circular tem um segundo significado descritivo, inferido, que se relaciona com o
conceito do ciclo. Assim, a economia circular distingue-se em dois ciclos, técnico e biológico. O
ciclo técnico envolve a gestão dos estoques de materiais finitos em que o uso substitui o
consumo. Os materiais técnicos são recuperados e restaurados em sua maioria. O ciclo biológico
abrange os fluxos de materiais renováveis, materiais biológicos não tóxicos e que podem ser
facilmente devolvidos ao solo por compostagem ou digestão anaeróbia e que em sua maior parte
se regeneram (EMF, 2012).

A Figura 1 apresenta as diferentes fases de um modelo de Economia Circular, iniciando com a


entrada de matéria-prima, passando pelas etapas de produção, seguindo para as fases de uso,
reuso e reparo, sendo encaminhado para a colecta e reciclagem, descartando os resíduos e
incluindo no sistema novamente o material reaproveitado na função de matéria-prima.
Figura 1 – Fases de um modelo de economia circular

Fonte: European Commission (2014).

A economia circular tem como objectivo equilibrar o consumo dos recursos finitos da terra, por
meio da optimização do uso destes, gerando assim crescimento, criando mais e novos postos de
empregos e reduzindo os impactos ambientais. Nessa lógica há um pensamento sistémico de
como as empresas, pessoas ou plantas estão ligados uns aos outros (EMF, 2012). Nesse contexto,
EMF (2012) apresenta os princípios dos 3Rs (redução, reuso e reciclagem) como essenciais para
a implementação da economia circular.

A redução de resíduos provenientes desta estratégia contribui para a melhoria do consumo de


energia, a optimização dos recursos materiais por meio da redução do manuseio e do
armazenamento intermediário, o que levará a uma redução da poluição do meio ambiente (VAN
DER WIEL; BOSSINK; MASUREL, 2012). O princípio de redução visa minimizar a entrada de
energia primária, matérias-primas e resíduos por meio da melhoria da eficiência na produção (a
chamada eco eficiência) e processos de consumo, por exemplo, introduzindo melhores
tecnologias, ou produtos mais compactos e leves, embalagens simplificadas, electrodomésticos
mais eficientes, um estilo de vida mais simples etc. (FENG; YAN, 2007).
O princípio do reuso (ou reutilização) refere-se a “qualquer operação pela qual os produtos ou
componentes que não são resíduos são usados novamente para o mesmo propósito para o qual
foram concebidos” (EU, 2008). O reuso de produtos é muito atraente em termos de benefícios
ambientais, pois requer menos recursos, menos energia e menos mão-de-obra, em comparação
com a fabricação de novos produtos a partir de materiais virgens (CASTELLANI et al., 2015) ou
até reciclagem ou descarte. Castellani et al. (2015) também mostraram que a reutilização de
produtos evita a emissão de substâncias nocivas, bem como muitos outros impactos ambientais.

Embora a economia circular seja frequentemente identificada com o princípio da reciclagem,


deve ser sublinhado que esta pode ser a solução menos sustentável em comparação com os
outros princípios supracitados (Redução e Reutilização) em termos de eficiência e rentabilidade
dos recursos (STAHEL, 2010). O princípio do reciclar refere-se a “qualquer operação de
recuperação pela qual os materiais residuais são reprocessados em produtos, materiais ou
substâncias para o fim original ou para outros fins. A reciclagem de resíduos oferece a
oportunidade de se beneficiar de recursos ainda utilizáveis e reduzir a quantidade de resíduos que
precisam ser tratados e/ou descartados, diminuindo também o impacto ambiental relacionado
(CAGNO; TRUCCO; TARDINI, 2005; GHISELLINI; CIALANI; ULGIATI, 2016).

Ghisellini, Cialani e Ulgiati (2016) ressaltam que, para a transição do modelo linear de produção
para o modelo de circularidade adoptado pela economia circular, além dos princípios dos 3R’s, a
economia circular deve incorporar três princípios adicionais: o eco-design, a reclassificação dos
materiais e a renovação.

O eco-design visa o desenvolvimento de projectos com partes componentes dos produtos


voltados para desmontagem, reuso e reciclagem, de modo a optimizar a vida útil do produto,
minimizando a geração de resíduos e/ou a produção de um novo com recursos virgens. Consiste
no design apropriado, enfatiza a importância do estágio de projecto na busca de soluções para
evitar a descarga de resíduos em aterros sanitários: “Os produtos são projectados para um ciclo
de desmontagem e reutilização” (GHISELLINI; CIALANI; ULGIATI, 2016, p. 6). O objectivo
final dessa abordagem seria alcançar a dissociação do crescimento económico do esgotamento
dos recursos naturais e da degradação ambiental (LIU et al., 2009; MURRAY; SKENE;
HAYNES 2015; XUE et al., 2010). Por fim, o design ecológico proporciona produtos e
processos mais ecológicos e, ao mesmo tempo, mantém altos padrões de qualidade e
desempenho dos produtos (VAN BERKEL et al., 2009).

A reclassificação de materiais apresenta um novo valor para um material ou produto ao final do


seu ciclo de vida, para reutilização, encaixe em outra cadeia como insumo. Podem ser
reclassificados como materiais técnicos ou nutrientes. Os materiais técnicos, como metais e
plásticos, são projectados para serem reutilizados no final do ciclo de vida, enquanto os
nutrientes biológicos, que em geral não são tóxicos, podem retornar com segurança à biosfera ou
em uma cascata de usos consecutivos. O uso da palavra “restaurativa” é importante, já que a
economia circular não é apenas uma abordagem preventiva, reduzindo a poluição, mas também
visa reparar os danos anteriores ao projectar melhores sistemas dentro da própria entidade da
indústria. Tal ideia alinha-se ao conceito de cradle to cradle. Seu conceito de reprojectar sistemas
de fabricação e fornecimento de serviços se concentra em obter valor a partir desse redesenho,
em vez de simplesmente melhorar a utilização de recursos (BRAUNGART et al., 2007).

Por fim, a economia circular considera primordial a utilização de energias renováveis em


comparação com fontes baseadas em combustíveis fósseis, ou em comparação a energias
consideradas limpas, mas que geram um grande impacto ambiental para possibilitar sua geração
e distribuição. A adopção de tal princípio (renovação) pode aumentar a resiliência do sistema
económico em relação aos efeitos negativos do petróleo (GHISELLINE; CIALANI; ULGIATI,
2016). A partir da aplicação de alguns dos princípios da economia circular, ou de todos eles
conjuntamente, abre-se a perspectiva para adopção de novos modelos de negócios em diferentes
sectores da economia, principalmente na cadeia de suprimento de frutas frescas, foco deste
trabalho.

Os princípios da economia circular são apresentados no Quadro 1.

Tabela 1 – Princípios da Economia Circular.

Fonte: Adaptado de Ghisellini, Cialani e Ulgiati (2016).

Percebe-se que, entre os princípios da economia, os chamados 3Rs – redução, reuso e reciclagem
possuem um papel essencial. Essas iniciativas dos 3Rs geralmente estão presentes nos processos
de gestão de resíduos sólidos, o que deixa claro que a gestão de resíduos constitui um importante
“subconjunto” dos modelos circulares de produção. Como tal, entende-se que uma gestão de
resíduos eficiente e eficaz representa uma condição necessária para migração do modelo linear
para o modelo circular e, em regiões que estão iniciando o caminho em direcção à economia
circular, pode representar o primeiro passo. Em função disso, o próximo tópico trata da gestão de
resíduos no contexto Moçambicano.

Implementação da Economia Circular

A implementação do novo modelo de economia circular, sobretudo qualquer mudança ou


transição a nível territorial requer participação, esforço e comprometimento dos agentes
reguladores, intervenientes e sociedade civil devido às práticas relativas a cada sector serem
fortemente conectadas entre si, tornando o seu processo de transição bastante complexo.

Ainda que haja a necessidade de integração dos representantes de cada sector no ciclo de vida
dos produtos, as empresas e gestores do território possuem a responsabilidade de propor uma
inovação mais radical e se vêem obrigados a repensar mais além da utilização dos recursos e da
eficiência energética inerentes ao processo produtivo, visando conseguir a aplicação e
desenvolvimento da economia circular também aos processos de manufatura e redesenho dos
produtos (Fugii, 2019; Leitão, 2015).

Ao serem adotadas novas práticas com mudanças mais desafiadoras aos modelos de negócio na
cadeia de valor, são associados custos adicionais para possibilitar a aplicação de novos métodos
em um sistema de financiamento com visão a longo prazo, especialmente para empresas privadas
de pequeno e médio porte que não conseguem implementar novos processos sem incentivos
financeiros (Leitão, 2015).

Como apresenta Fugii (2019), a economia circular pode ser implementada em diversos níveis,
desde a cadeia de valor, à uma única empresa e até a uma escala mais global, mas a sua aplicação
na prática está direccionada aos processos industriais e ao sistema económico que transformam
resíduos em recursos adquiridos de diversas origens.

Não obstante, como apresentado por Geissdoerfer et al. (2017), o conceito e aplicação sobre o
modelo ganhou visibilidade com os formuladores das políticas públicas incentivando governos e
agências intergovernamentais nas diversas escalas do território, tendo sido a Alemanha o país
pioneiro na implementação das leis nacionais em 1996 com a promulgação do “Closed
Substance Cycle and Waste Management Act”, seguido pelo Japão em 2002 com “Basic Law for
Establishing a Recycling-Based Society”.

Há em mesma via, de acordo Kalmykova et al. (2018), uma grande quantidade de estudos acerca
da aplicação e desenvolvimento da economia circular na China, sendo iniciada às acções e
incentivos ao modelo em 2002 como proposta de desenvolvimento urbano a nível nacional,
passando pela produção dos planos de Produção Mais Limpa em 2003 e pela Lei de Poluição e
Prevenção e Controle de Resíduos sólidos em 2005, e somente em 2009 foi promulgada a Lei de
Promoção da Economia Circular, onde o objectivo era atingir os ciclos na cadeia de valor como
praticados na Alemanha.

Os recursos na economia circular podem seguir um curso na cadeia de valor que direccionam a
aplicação dos fluxos do modelo compreendida em nove etapas (Figura 2), que consistem em
Fornecimento de materiais; Design; Manufatura; Distribuição e vendas; Consumo e Uso (em
possibilidade de compartilhamento); Coleta e Disposição; Reciclagem e Recuperação;
Remanufaturamento e por fim as Entradas Circulares (Kalmykova et al., 2018).

Figura 2 - Fluxo dos recursos na cadeia de valor na Economia Circular.

Fonte: Kalmykova et al., 2018.

Encaminhou-se na mesma via o plano de acção com medidas a nível supra nacional de apoio à
transição para a economia circular no Plano de Acção da União Europeia para a economia
circular (Comissão Europeia, 2015). Expõem-se dessa maneira que a aplicação do modelo tem
ganhado mais notoriedade com o passar dos anos devido alguns locais adoptarem as medidas
propostas, salientando o quão importante e realmente exequível é a transição para a economia
circular.
No contexto actual, os trabalhos produzidos pela Ellen MacArthur Foundation (Ellen MacArthur
Foundation, 2013, 2015, 2017a, 2017b) através das suas diversas publicações, livros e relatórios
colaboram para o desenvolvimento recentes das novas práticas para políticas económicas.

Através de um estudo apresentado em um dos relatórios produzido pela pela Ellen MacArthur
Foundation (2015), a fundação identificou um conjunto de seis acções que podem ser adoptadas
pelas empresas e gestores do território em modo integrado, aspirando a transição que consiste
nas práticas de regenerar, compartilhar, optimizar, reciclar, virtualizar e trocar. Tais acções
constroem uma estrutura nomeada de “RESOLVE”.

Tabela 2 - Estrutura “RESOLVE”

Fonte: Ellen MacArthur Foundation, 2015.


A fundação ainda levanta que a estrutura construída tem a capacidade de proporcionar às
empresas estratégias circulares e iniciativas voltadas para o crescimento através da reutilização
de produtos, prolongando a sua vida útil e substituindo a utilização de recursos finitos e
“virgens” pelo de fontes renováveis, reforçando que cada acção influencia a outra em um fluxo
fechado (Ellen MacArthur Foundation, 2015).

Toda fundamentação acerca da implementação da economia circular tem o intuito de acelerar


esse processo, onde devem ser aplicados investimentos estrategicamente a nova infra-estrutura
digital, P&D, treinamento, apoio à promoção da entrada de novos produtos no mercado ou apoio
temporário aos setores afetados (Ellen MacArthur Foundation, 2015). Logo, fica claro que a
transição para o modelo circular de economia requer das empresas compromisso e mudanças um
tanto radicais, mas não somente desse sector. É indispensável que todos os sectores estejam
envolvidos, inclusive quem consome os produtos disponibilizados, sabendo que todos possuem
papel importante na implementação da economia circular e precisam ser incentivados pelos
gestores nas diversas escalas do território.

Dificuldades de implementação

As vantagens da transição para economia circular se relaciona à utilização de subprodutos como


matéria-prima pela indústria acarretando na redução de custos, facilidade de acesso aos insumos
e eliminação de resíduos poluentes no território (Almeida et al., 2016), como abordado
anteriormente no capítulo sobre Os benefícios da Economia Circular.

Para caminhar nessa direcção, Almeida et al. (2016) reforça que é requisitado uma sinergia entre
as empresas para produção de projectos de pesquisa e desenvolvimento para fechar o ciclo onde
os resíduos retornam ao fluxo como recurso, porém surgem em mesma via desafios quando os
intervenientes se deparam com obstáculos legais e burocráticos para conseguir aplicar as
medidas e directrizes da economia circular.

Se tratando de um modelo económico recente, é inerente o surgimento de problemas que


precisam ser sanados e ajustados durante o seu processo de aplicação (Fugii, 2019), e mesmo
sendo uma temática amplamente discutida e abordada na literatura, a implementação da EC na
prática tem deixado a desejar, necessitando sair do plano conceitual para a prática da transição
propriamente dita.

Nesse sentido, dada velocidade necessária de repensar as práticas comuns e a necessidade de


racionalizar recursos, Ellen MacArthur Foundation (2015) apresenta que acelerar o processo de
adopção da economia circular à uma taxa mais alta que os ciclos normais de transição, elevam os
custos associados ao procedimento e acabam ocasionando o abandono ao meio do andamento
por parte das empresas.

É preciso avaliar mais a fundo as vantagens da velocidade requerida para tal transição, se são
verdadeiramente eficazes e se os custos já mencionados se justificam como estímulos às
empresas com economia estagnada (Ellen MacArthur Foundation, 2015), se os mesmos
conseguirão manter o exercício proposto pelo modelo e arcar com os possíveis riscos, mas ainda
perceber os reais benefícios em médio e longo prazo que serão adquiridos em abordagens
educativas.

Junto aos embates burocráticos, as empresas ainda enfrentam complicações e incertezas quanto à
qualidade dos produtos adquiridos, dado a dificuldade em perceber os processos de reciclagem
praticados pelos seus agentes como dos níveis de impureza e contaminação das matérias-primas
secundárias (Almeida et al., 2016).

Dada a necessidade de sinergia requerida, é preciso que as mudanças atinjam níveis mais altos de
participação no que diz respeito a influência dos atores à cadeia de valor, onde a conscientização
para os exercícios propostos não parta exclusivamente dos gestores e representantes da indústria,
mas também da sociedade civil ao perceber o seu potencial de influência na cadeia de valor e dos
benefícios que serão alcançados.

Logo, devem-se ser considerados os riscos em todo o processo sistémico que é a transição para
uma nova economia, tendo em conta as necessidades de adaptação e do desenvolvimento das
burocracias ao sector dos resíduos para atingir um padrão de qualidade às matérias-primas
secundárias e a promoção de novos modelos de negócio e garantir os efeitos em toda cadeia.

Gestão de Resíduos sólidos em Moçambique

A sociedade moderna enfrenta um grave problema com a grande geração de resíduos sólidos e a
forma como esse resíduo é deflagrado no meio ambiente, que causam impactos socioambientais,
como comprometimento do solo e dos cursos d’água. Há uma preocupação especial para os lixos
domiciliares pois sua produção encontra-se em uma crescente.

Níveis populacionais crescentes, economia em expansão, urbanização rápida e o aumento do


padrão de vida das pessoas aceleraram bastante a taxa de geração de resíduos sólidos municipais
nos países em via desenvolvimento. Os municípios, geralmente responsáveis pela gestão de
resíduos nas cidades, têm o desafio de fornecer um sistema eficaz e eficiente aos habitantes. No
entanto, eles frequentemente enfrentam problemas além da capacidade da autoridade municipal
de lidar, principalmente devido à falta de organização, recursos financeiros, complexidade e
multidimensionalidade do sistema, especialmente em municípios de menor porte.

Os principais objectivos da gestão de resíduos são: (1) proteger os seres humanos e o meio
ambiente; e (2) economizar recursos. Sob os princípios da sustentabilidade, esses objectivos, que
se aplicam em todo mundo a qualquer economia, devem ser alcançados de maneira que não
prejudique o bem-estar das gerações actuais e futuras. Assim, a prática de gestão de resíduos não
deve exportar problemas relacionados a resíduos no espaço ou no tempo, exigindo, por exemplo,
capacidades de tratamento adequadas e aterros sanitários que não necessitem de grandes
manutenções posteriores.
Para lidar com os problemas relacionados aos resíduos sólidos de uma forma organizada e
integrada, é importante que se adopte algum modelo de gestão, de preferência cuja utilização já
tenha sido testada e validada em outros países. Um desses modelos é o Modelo Integrado de
Gerenciamento Sustentável de Resíduos (Integrated Sustainable Waste Maagement), que permite
estudos de sistemas complexos e multidimensional de forma integral. O modelo foi desenvolvido
por consultores em meio ambiente urbano e desenvolvimento, e parceiros ou organizações que
trabalham nos países em desenvolvimento, em meados da década de 1980, sendo posteriormente
aprimorado em meados dos anos 1990. O modelo reconhece a importância de três dimensões ao
analisar, desenvolver ou alterar um sistema de gerenciamento de resíduos. As dimensões são: os
stakeholders ou partes interessadas que têm interesse no gerenciamento de resíduos sólidos, os
elementos ou etapas do movimento ou fluxo de materiais desde os pontos de geração ate o
tratamento e o descarte final, e os aspectos e ou “lentes” através dos quais o sistema é analisado.

Essa questão de como os diferentes stakeholders (governos e órgãos correlatos, empresas,


cidadãos, e outros envolvidos) influenciam e participam da gestão de resíduos sólidos é
fundamental e, por isso mesmo, deve-se mapear, em cada contexto específico (país, estado,
município), quem são e qual a influência destes para que se tenha uma gestão efectiva dos
resíduos. Os factores vinculados à actuação de cada um dos stakeholders envolvem aspectos
técnicos, ambientais, financeiros, socioculturais, institucionais e legais, que são determinantes
para a existência e o funcionamento de um sistema de gestão de resíduos sólidos de forma
eficiente e eficaz.

Nesse sentido, no contexto de cidades localizadas em diferentes países em via de


desenvolvimento, contexto esse que se assemelha à realidade de Moçambique, é possível
identificar os principais factores que influenciam (positivamente ou negativamente) o
desempenho de sistemas de gestão de resíduos, vinculados a cada um dos aspectos supracitados,
os quais são apresentados no Quadro 2.
Tabela 3 - Factores que influenciam o desempenho dos sistemas de gestão de resíduos.
Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Guerrero, Maas e Hogland (2013).

Os principais stakeholders reconhecidos como importantes para o desempenho dos sistemas de


gestão de resíduos incluem as autoridades locais, alguns ministérios do governo central e
empreiteiros privados que prestam serviços, sendo os governos diferentes níveis (nacional e
local) reconhecidos com muito relevantes, pois são aqueles que estabelecem políticas para a
implantação dos sistemas de gerenciamento de resíduos sólidos (GUERRERO; MAAS;
HOGLAND, 2013). Além destes, destacam-se também os usuários dos serviços (cidadãos,
empresas de diferentes sectores), empresas de reciclagem, captadores, entre outros. A existência
de uma estrutura legal com aplicação efectiva das regras facilita o planeamento e a efectiva
execução de todas as actividades inerentes ao um sistema de gestão de resíduos.
Considerações Finais

O Poder Público tem o dever de ajustar o desenvolvimento económico em prol da preservação de


um meio ambiente ecologicamente equilibrado para as gerações actuais e futuras, deve propiciar
às gerações futuras o acesso a um meio ambiente sadio que lhes promova qualidade de vida
(SOUZA, 2015).

Para que a economia circular tenha êxito é preciso que ocorram algumas alterações sistémicas na
produção e no consumo, além da actuação do Estado, através de políticas públicas
comprometidas com o bem-estar social, logo é fundamental que todos os agentes da sociedade
estejam envolvidos.

A responsabilidade compartilhada entre produtores, consumidores e o sector público é essencial


para a garantia o bom funcionamento da economia circular. A Educação Ambiental é um
instrumento essencial para promover a acção da Economia Circular e, consequentemente, o
desenvolvimento sustentável, pois a participação da educação ambiental, via políticas públicas e
educação em geral faz toda a diferença na construção de uma conscientização colectiva da
racionalidade ambiental e do desenvolvimento sustentável.

Por outro lado os fatos mostram que em Moçambique a necessidade deste novo paradigma da
economia circular em substituição a economia linear para a sobrevivência do próprio sistema
económico que se depara com a actual crise ambiental, que é o resultado da utilização de forma
descontrolada dos recursos naturais. Neste sentido, é preciso produzir de forma circular,
utilizando matéria-prima secundária, reinserida na cadeia produtiva, diminuindo a quantidade de
resíduos encaminhados para os aterros sanitários e praticando a responsabilidade compartilhada,
evitando o desperdício e incentivar um sistema produtivo restaurador.
Referencias Bibliográficas

SANTOS. Vanusa & CARDOSO. Emile, Economia Circular e a Gestão dos Resíduos sólidos
em Belém e Rmb: Desafios e Potencialidades da cadeia produtiva, Universidade Federal do
Pará, 2021;

LIMA. Uedja et al, Da Gestão de Resíduos Sólidos à Economia Circular: Maximizando o


valor do Resíduo, Universidade Federal de Pernambuco, 2022;

CARVALHO. Denise et al, Abordagem da Economia Circular na Gestão de Resíduos em


um Restaurante Universitário, Universidade Estadual de Maringá, 2020;

SANTOS. Vanessa, Economia circular e gestão de resíduos sólidos em Curitiba,


Universidade nova de Lisboa, 2022.

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