Análise Sismoestratigráfica da Bacia de Almada
Análise Sismoestratigráfica da Bacia de Almada
ANÁLISE
SISMOESTRATIGRÁFICA DAS
SEQUÊNCIAS TRANSICIONAL E
DRIFTE DA BACIA DE ALMADA
SALVADOR – BAHIA
OUTUBRO – 2019
Documento preparado com o sistema LATEX.
Documento elaborado com os recursos gráficos e de informática do CPGG/UFBA
Análise Sismoestratigráfica das sequências Transicional e Drifte da
Bacia de Almada
por
José Welington dos Santos Júnior
Geólogo (Universidade Federal da Sergipe – 2014)
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
Submetida em satisfação parcial dos requisitos ao grau de
MESTRE EM CIÊNCIAS
EM
GEOFÍSICA
ao
Conselho Acadêmico de Ensino
da
Universidade Federal da Bahia
Comissão Examinadora
550.3(134.3)(043)
"As oportunidades multiplicam-se à
medida que são agarradas"(Sun
Tzu)
Agradecimentos
Primeiramente a Deus, que permitiu que isso acontecesse da maneira mais incrível possível:
aprendendo; conhecendo pessoas; compartilhando vivências e conhecimentos.
À minha família: minha mãe, Marinalva; minha esposa e companheira, Flávia; meus irmãos,
Fábio e Viviane; meu tio Zé; minha cunhada Márcia. Pessoas que sempre estiveram do meu
lado e entenderam o meu propósito, os dias que não estive próximo, o cansaço com a luta.
Ao meu orientador, Michael Holz, por toda a compreensão que teve com a minha jornada.
Ensinamentos de academia e de vida que sempre levarei comigo e que espero poder contar
sempre que a vida permitir.
Aos amigos que o GETA me deu, e que faço aqui questão de mencionar: Adevilson, Ana
Clara, André, Caio, Cora, Daniel, Edric, Flávio, Leonardo, Lorena, Vinícius, Maísa, Maria,
Paulão, Priscilla e Wilker. Quem me conhece, sabe o quanto eu valorizo as amizades que
eu tenho, e eu valorizo cada momento que passamos juntos: reuniões, broncas, brincadei-
ras...enfim, foram dois anos de muito companheirismo ao lado de vocês. Isso não acabará
nunca! Estarão sempre na minha cabeça e no meu coração.
Aos professores Porsani, Alex e Michelângelo, pela colaboração e paciência que tiveram
comigo nessa jornada.
Aos integrantes do laboratório Progeologia: professor Antônio Garcia, Samuel, Márcio, Ka-
ren, Arthur, Misael, juntamente com a galera do Projeto Geoengenharia. Com vocês a minha
jornada na pesquisa foi iniciada. Serei sempre grato a vocês.
Agradeço à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) pelo for-
necimento dos dados que viabilizaram esta pesquisa.
Deixei por último, neste agradecimento, as pessoas que sempre olham para mim, apesar de
4
não estarem mais aqui conosco: meus avós, Luiz e Alice, e meu pai Welington. Tenho a
certeza de que eles estão muito orgulhosos por mim.
5
Resumo
6
Resumo 7
A interpretação sísmica estrutural considerou a Falha de Aritaguá que, junto com outras
falhas normais que se desenvolveram na região, compartimentou a bacia em três trechos
principais de falhas normais de alto ângulo e rejeito, formando-se assim um sistema de
falhas. O mapeamento estratigráfico considerou sequências de segunda e terceira ordem. Os
resultados da interpretação permitiram a confecção de mapas e seções geológicas, de maneira
a ilustrar os principais sistemas sedimentares atuantes em cada estágio de sedimentação da
bacia, de acordo com seus respectivos tratos tectônicos interpretados.
The present work aims to interpret well data and post-stacked 2D seismic lines from the
Almada Basin area, aided by the interpretation of well geophysical profiles. The database
comprises a set of 50 migrated post-stack seismic lines, 22 dip lines and 28 strike lines. The
methodology of the work has the main steps for the accomplishment of a standard seismic
stratigraphic interpretation, contemplating the elaboration of synthetic seismogram of well
data for correlation with the seismic lines, besides the use of seismic attributes, useful for the
identification of stratum terminations, stratigraphic surfaces and structural features such as
disagreements and faults, for example.
The seismic stratigraphic analysis allowed us to understand the process of filling the
Almada Basin, from the shallow basement region to the deepwater region, where a third
order sequence related to the transitional phase and six third order sequences associated
with the Drifte phase were identified. Interpretations have shown that drifte evolution has
gone through three distinct depositional phases: first a transgressive phase, between the
Turonian and the Eomaastrichtian, followed by a concentrated sedimentation phase in the
plateau region between the Neomaastrichtian and the Mesoeocene and finally a regressive
phase, from Mesoocene to recent. Some important geological features of the basin were
mapped, such as mass transport complexes and a canyon in the platform and slope region,
known as Almada Canyon.
The Almada Basin is included in the category of passive east bank Brazilian basins in
southeastern Bahia. Despite the availability of seismic data and its oil potential, it is still
considered a poorly explored basin. The study area consists of a polygon of approximately
9500km2 . The stratigraphic mapping considered the disagreements that limit the top of
the rift section through the DPR (Post-Rift Disagreement); top of the Transitional section,
through DPT (Post Transitional Disagreement); and the tops of each Drifte subsection.
The structural seismic interpretation considered the Aritaguá Fault that, along with
other normal faults that developed in the region, compartmentalized the basin into three
main sections of normal high angle faults and tailings, thus forming a fault system. Stra-
8
Abstract 9
tigraphic mapping considered second and third order sequences. The interpretation results
allowed the elaboration of maps and geological sections, in order to illustrate the main sedi-
mentary systems acting in each sedimentation stage of the basin, according to their respective
interpreted tectonic tracts.
Agradecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
Abstract . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
Índice . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
Índice de Tabelas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
Índice de Figuras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
2 Aspectos Teóricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
2.2 Unidades Sedimentares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.3 Variáveis que controlam a sedimentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.4 Tratos de Sistemas Geométricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
2.5 Noções de Sismoestratigrafia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
3 Metodologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
3.1 Banco de Dados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
10
Índice 11
4 Análise Sismoestratigráfica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
4.1 Falha de Aritaguá . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
4.2 Canion de Almada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
4.3 Discordância Pós-Rifte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
4.4 Discordância Pós-Transicional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
4.5 Sequência Transicional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
4.6 Sequência DRIFTE-1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
4.7 Sequência DRIFTE-2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
4.8 Sequência DRIFTE-3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
4.9 Sequência DRIFTE-4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
4.10 Sequência DRIFTE-5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
4.11 Sequência DRIFTE-6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
5 Análise de Dados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
5.1 Seções Sísmicas Interpretadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
5.2 Seções Sísmicas Compostas Interpretadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
5.3 Mapas de Topos Estruturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
5.4 Mapas de Isópacas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
6 Conclusões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Referências Bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Índice de Tabelas
12
Índice de Figuras
13
Índice de Figuras 14
5.1 Seção sísmica dip da região norte da Bacia de Almada: (A) não interpretada;
(B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo amplitude . . . . 63
5.2 Seção sísmica dip da região centro-norte da Bacia de Almada: (A) não inter-
pretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo amplitude 64
5.3 Seção sísmica dip da região centro-sul da Bacia de Almada: (A) não interpre-
tada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo amplitude 65
5.4 Seção sísmica dip da região central da Bacia de Almada: (A) não interpretada;
(B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo amplitude . . . . 66
5.5 Seção sísmica cortando toda a porção da região leste da Bacia de Almada: (A)
não interpretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo
amplitude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
5.6 Seção sísmica localizada na porção central da Bacia de Almada: (A) não
interpretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo
amplitude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
5.7 Seção sísmica composta que passa pelas porções proximal, de talude e distal
da Bacia de Almada: (A) não-interpretada, (B) [Link] ambos os
casos, utilizando o atributo amplitude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
5.8 Seção sísmica composta que passa pelas porções proximal e de talude do centro
norte da Bacia de Almada: (A) não-interpretada, (B) [Link] ambos
os casos, utilizando o atributo amplitude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
5.9 Mapas de topo estrutural para as superfícies interpretadas no referido trabalho 71
5.10 Mapas de isópacas para as superfícies interpretadas no referido trabalho . . . 72
Introdução
A indústria do petróleo impulsionou, nos últimos 80 anos, diversas áreas científicas que
sofreram grandes avanços tecnológicos, entre elas a geofísica, que estuda o substrato geo-
lógico através dos denominados métodos indiretos. Entre os métodos geofísicos, a sísmica
de reflexão é aquela que apresenta o maior sucesso na exploração de acumulações de hidro-
carbonetos, por conta da profundidade que pode ser alcançada durante uma investigação e,
também, pela quantidade de informações fornecidas pelas seções sísmicas, responsáveis pelo
imageamento das feições em subsuperfície, a partir do registro do tempo duplo de trânsito
de ondas acústicas.
15
Introdução 16
A margem continental brasileira é constituída por várias bacias, dentre as quais se en-
contra a Bacia de Almada, localizada na área de estudo do trabalho. Situada no extremo
sul do Estado da Bahia, entre os paralelos 140 e 140 37’ Sul e os meridianos 380 e 390 Leste,
estendendo-se mar adentro até a crosta oceânica e ocupando uma área de aproximadamente
7500km2 , até a cota batimétrica de 3000m, de acordo com Gontijo (2007). O limite norte
da bacia ainda encontra certo grau de especulação, mas neste trabalho foi colocado como
sendo o Alto de Taipus, e ao sul pelo Alto de Olivença, fazendo fronteira com a Bacia de
Jequitinhonha. Ferreira (2009) mapeou e constatou a presença de rochas evaporíticas no
registro sedimentar da sequência de transição dessa bacia. Mesmo com uma boa disponi-
bilidade de dados sísmicos e com o aumento das operações exploratórias nos últimos anos,
estudos mais aprofundados ainda são necessários, principalmente quando comparada com
outras bacias sedimentares da margem leste brasileira, como as bacias de Santos e Campos.
A bacia está integrada ao sistema rifte que se implantou no Cretáceo Inferior, quando teve
início o processo de separação das placas Sul-Americana e Africana.
Diversos estudos foram realizados na região, a partir da década de 60, mesmo com
pequena disponibilidade de tecnologias para análise sismoestratigráfica. Com as ferramentas
disponíveis hoje em dia (sísmica 2D e 3D, estratigrafia de sequências, modelagem geológica,
etc.), novas descobertas podem ser feitas nos próximos anos.
entendimento da história de deposição das rochas que compõem o registro geológico local.
1
Geologia da Bacia de Almada
As bacias das margens Leste, Sudeste e Equatorial incluem várias bacias, dentre as quais
podem ser citadas as de Pelotas e Campos, passando pelas Bacia de Almada, Camamu,
Sergipe-Alagoas e Pernambuco-Paraíba, de acordo com Chang (1974), ocupando a planície
costeira, plataforma continental e talude da porção oeste do Oceano Atlântico Sul. Foram
originadas a partir da separação entre os continentes Sul-americano e Africano, como parte
do processo de fragmentação do Supercontinente Gondwana, iniciado no Triássico, com a
implantação de riftes no Atlântico Central. O evento de implantação desse sistema de riftes,
também conhecido como a Reativação Wealdeniana (Almeida 1967 apud Zalán 2004), foi em
parte controlado pelas estruturas impressas no embasamento durante a Orogenia Brasiliana
ou Pan-Africana (Almeida et al. 1977; Almeida et al. 2000). Na região do Atlântico Sul, o
processo de abertura foi iniciado no Neojurássico, com a instalação dos primeiros riftes na
costa da Argentina (intervalo de 170 a 120 Ma da Figura 2.1; Urien e Zambrano 1996 apud
Almeida e Carneiro 2004). Nessa região, a crosta oceânica foi implantada no Eocretáceo,
deslocando o sistema de riftes para norte do Lineamento vulcânico de Florianópolis (Asmus
1984) até a Sub-bacia de Alagoas.
A estratigrafia geral, do Jurássico até o Cretáceo, das bacias da margem do Leste Brasi-
leiro, pode ser representada por cinco megassequências: continental, evaporítica transicional,
plataforma carbonática rasa, transgressiva marinha e regressiva marinha (Ponte, 1978). A
figura 1.1 abaixo mostra um resumo de todas as megassequências que serão analisadas.
18
Geologia da Bacia de Almada 19
Formada por três sequências que, em conjunto, formam a chamada sequência rifte ou sequên-
cia sin-rifte, sendo a primeira sequência, denominada sin-rifte I, foi pouco afetada por falha-
mentos, enquanto as outras duas sequências, sin-rifte II e III, foram intensamente falhadas.
• Sin-rifte I - Durante o Jurássico (Andar Dom João ou Volgiano), duas áreas separaram-
se como consequência do processo inicial de ruptura do continente Gondwana. Ao norte
da Bacia do Espírito Santo, uma enorme depressão foi formada, conhecida como a De-
pressão Afro-Brasileira (Ponte, 1971), que logo foi preenchida por um complexo de
Geologia da Bacia de Almada 20
leques fluviais de clima árido e depósitos grosseiros fluviais com quantidade restrita de
evaporitos, representando ambientes locais de playas, juntamente com depósitos eóli-
cos. Ao sul da Bacia do Espírito Santo ocorreu uma sequência vulcânica, como ocorre
na Bacia do Baixo do Rio Congo no Zaire.;
Ocorreu durante o Albiano, quando a estreita passagem marinha para os evaporitos do Ap-
tiano permitu a formação de uma extensa plataforma carbonática de alta energia, composta
por calcários de água rasa. Ao longo da antiga linha de costa Albiana, sistemas clásticos do
tipo fan-delta foram desenvolvidos e se intercalaram com rochas carbonáticas.
Geologia da Bacia de Almada 21
No fim do Albiano, a sequencia de carbonatos de alta energia deu lugar a uma sequência de
baixa energia, composta por calcilutitos, margas e folhelhos, depositados a partir de ambiente
mais profundo.
A Falha de Aritaguá, de acordo com Netto (1991), possui um traço encurvado e côncavo
para o leste, com movimentação normal, separando o embasamento de um grande baixo es-
trutural a ela associado, fazendo com que as falhas mais próximas à borda oeste mergulhem
em direção ao depocentro, ou seja, com planos que mergulham para o leste, além de pos-
síveis componentes de transcorrência sinistral em relação ao bloco baixo localizado a leste,
estendendo-se para além da parte emersa. Cuinas Filho (1991) identificou que o sistema de
falhas na parte sul da bacia apresenta direções preferenciais para NE, refletindo a direção
da Zona de Cisalhamento Itabuna-Itaju do Colônia (figura 1.3), formada no pré-cambriano
e reativado no mesozoico, que controlou a formação da bacia na porção terrestre separando
o embasamento de um grande baixo estrutural a ela associado, podendo estar relacionada a
um contexto estrutural de borda falhada.
Geologia da Bacia de Almada 24
A seguir, será feita uma análise geral da Bacia de Almada, com uma descrição das
sequências sedimentares de cada estágio, além de suas respectivas unidades litoestratigráficas,
baseada na carta estratigráfica proposta por Gontijo (2007).
Figura 1.5:
Carta Estratigráfica da Bacia de Almada. Fonte: Gontijo (2007)
2
Aspectos Teóricos
2.1 Introdução
A estratigrafia é uma ciência geológica que estuda os tratos rochosos, bem como seus atribu-
tos físicos, de acordo com a sua gênese e disposição temporal. Tal definição contempla todos
os tipos de rochas (sedimentares, ígneas e metamórficas), onde o estratígrafo tem a respon-
sabilidade de descrever a sucessão de rochas, e assim interpretar sua origem. A interpretação
é baseada em diversos fatores, por exemplo, a litoestratigrafia utiliza como principal fator o
aspecto litológico das rochas, separando-as em conjuntos que diferem em granulometria e/ou
composição mineral. Entretanto, existem diversas outras maneiras de interpretar e classifi-
car os estratos rochosos, entre elas a: cronoestratigrafia, bioestratigrafia, pedoestratigrafia,
aloestratigrafia, dentre outros. Contudo, elas utilizam de características determinísticas das
rochas, sem abordar diretamente o contexto geológico do ambiente que as formou.
Com o advento da sedimentação episódica, (Hsü, 1983) e (Dott, 1983), o conceito da es-
tratigrafia de sequências, representando uma revolução no meio geocientífico, foi fortemente
embasado na estratigrafia formal porém muito mais aplicável aos modelos universais. O novo
modelo permite dividir o preenchimento de uma bacia sedimentar em pacotes (sequências
deposicionais) geneticamente relacionados e delimitados pelas discordâncias e concordâncias
relativas; portanto, diferente do modelo anterior, a estratigrafia de sequências visa a com-
preensão dos fatores que influenciam na sedimentação (clima, tectônica e eustasia), e assim
descrever a história de deposição dos estratos rochosos presentes numa região.
27
Aspectos Teóricos 28
Mesmo o novo modelo de estratigrafia apresenta como base conceitual a análise de litofácies,
pois é a partir dela que se é inferido os sistemas deposicionais e seus agrupamentos genéticos.
Posteriormente a uma análise de fácies sedimentares (conhecida como a unidade sedimentar
básica fundamental) é que o estratígrafo passa a ter um caráter mais interpretativo a respeito
dos mecanismos de controle do preenchimento sedimentar de uma bacia, diferente do caráter
apenas descritivo das formações na "antiga estratigrafia".
A partir do conjunto de fácies sedimentares é que são obtidos as demais unidades sedi-
mentares, analisado para cada uma delas o padrão de empilhamento. Cada unidade sedi-
mentar tem sua abrangência espacial e temporal, onde quanto menor a ordem da unidade,
maior será essa abrangência, ou seja, uma sequência deposicional constitui uma espessura
de sedimentos, bem como um tempo de formação, muito maior do que uma parassequência
(exemplificando em magnitudes, uma sequência deposicional pode representar alguns mi-
lhares de metros de espessura que foram formados durante milhões de anos, enquanto que
parassequências não ultrapassam dezenas de metros formados num período de dezenas de
milhares de anos). Como resumo, a figura 2.1 esquematiza a hierarquização das unidades
sedimentares.
Simplificadamente, em fases de nível de base alto, existe muito espaço para ser preen-
chido pelo sedimento suprido; o contrário ocorre em nível de base baixo. Tais processos
resultam, respectivamente, nas transgressões e regressões. No caso de nível de base alto,
o sedimento não chega a se distribuir por toda a bacia, ficando confinado nos ambientes
continentais e junto à linha de costa. Se o nível de base continua subindo, aumenta-se o
espaço de acomodação, e assim a linha de costa se retrai gradativamente, configurando uma
transgressão.
No caso das bacias brasileiras de margem leste passiva, cada estágio de sua evolução
tectono-sedimentar é controlado por um fator principal diferente, como por exemplo, na fase
rifte das bacias o fator mais importante é a tectônica, enquanto que na fase drifte, a eustasia
assume a maior importância. A Figura 2.2 mostra um modelo esquemático de todos os
estágios da evolução de uma bacia de margem passiva, elucidando os fatores principais na
sedimentação.
Figura 2.2: Modo esquemático de evolução de uma bacia de margem passiva com
seus respectivos estágios, litologias, mecanismos controladores e fatores
principais de sedimentação. Fonte:(Holz, 2017)
Um conjunto de parassequências (introduzido por Van Wagoner et. al. (1988)) com um
mesmo padrão de empilhamento, determina um trato de sistemas geométrico (termo proposto
por Thorne e Shift (1991)). O trato reúne um padrão de parassequências que pode ser
Aspectos Teóricos 30
Figura 2.3: Padrão de empilhamento estratal de acordo com a relação entre o nível
de base (NB) e aporte sedimentar (modificado de Catuneanu, 2006).
Na Fig. 2.4 segue uma curva da variação do nível de base ao longo do tempo, identifi-
cando os respectivos tratos de sistemas geométricos, dentro de um ciclo que determina uma
sequência sedimentar.
• Onlap - É uma terminação estratal onde reetores horizontais, terminam contra uma
superfície inclinada e evidencia hiato entre as rochas acima e abaixo da superfície
marcada. Geralmente encontrado na base dos pacotes estratigrácos, representam a
sedimentação desenvolvida durante a subida do nível de base após a geração do limite
de sequências, representando dessa forma eventos transgressivos;
Embora as terminações sejam uma ferramenta útil, elas são muitos bem aplicadas quando
não se tem uma tectônica pós-deposicional presente na bacia. Nesses casos, é difícil distinguir
a relação estratigráfica original, por exemplo, um downlap pode ser confundida com onlap.
Outro fator que contribui de forma negativa para o mapeamento das terminações, embora
seja um problema inerente apenas ao dado 2D é a direção em que a linha sísmica é feita em
relação a direção de deposição, isto é, se dip, ou strike pois um onlap claro em uma linha
dip possivelmente não aparecerá na strike.
Em uma análise mais específica o intérprete sísmico poderá avaliar qualitativamente cada
Aspectos Teóricos 35
Após a delimitação das sequências deposicionais e dos tratos geométricos, o próximo as-
pecto que deve ser observado na sismoestratigrafia refere-se a fácies sísmicas, que representa
o padrão de configuração dos refletores sísmicos, considerando os parâmetros de intensidade
da amplitude, continuidade e frequência representados na figura 2.7 (Veeken, 2007). Cada
parâmetro pode estar relacionado a alguma variação geológica e a análise de cada um per-
mite a realização de certas interpretações. A amplitude, por exemplo, indica contrastes de
impedância acústica que geologicamente se referem à velocidade-densidade das rochas da su-
cessão estratigráfica. A continuidade dos refletores, por outro lado, pode refletir o padrão de
acomodação dos depósitos. Por fim, a frequência sísmica pode indicar a variações litológicas
verticais.
36
Metodologia 37
Os dados de poços adquiridos não incluíam apenas os perfis geofísicos, mas também
continham arquivos gerais de poços com as informações de perfilagens, coordenadas geográ-
ficas, descrições de amostras de calha e etc. Os dados sísmicos adquiridos eram todos 2D
em formato SEG-Y (padrão da Society of Exploration Geophysics).
O controle de qualidade dos perfis digitais do poço foi realizado por observações relevan-
tes quanto à qualidade/contabilidade dos valores registrados nos perfis geofísicos, onde, em
zonas desmoronadas (registrados pelo cáliper) e informações ausentes de alguns perfis foram
anotados. Para sintetizar as principais informações referentes à interpretação individual do
poço e as curvas que ele contém, é feito um inventário que resume as profundidades mapea-
Metodologia 38
Após a avaliação dos perfis, foi observado que alguns deles necessitavam de correção,
pois apresentavam valores anômalos do padrão das curvas, especialmente em zonas desmo-
ronadas. A correção das curvas foi auxiliada pelos perfis compostos recebidos, onde, em
zonas desmoronadas, foram aplicados alguns métodos matemáticos utilizando equações) que
relacionam diferentes curvas, para obter informações de trechos não perfilados e reduzir o
erro médio associado a essas correções. O tratamento pode ser resumido em três etapas:
• Avaliar quais são os trechos desmoronados ou que não foram perfilados para ver os
trechos com as medidas mais confiáveis;
• Preencher os trechos não perfilados ou melhorar os desmoronados. Isso pode ser feito
em intervalos onde se tenha o perfil de resistividade para que, através da equação de
Faust, 1953, se obtenha as velocidades. Outra opção, é obter as velocidades através do
perfil de densidade utilizando a equação de Gardner et al. (1974).
Como primeiro procedimento após a chegada dos dados sísmicos, foi realizada uma avaliação
da qualidade das amplitudes dos traços, bem como uma verificação das informações do
levantamento de cada linha sísmica (contidas no header dos dados). Todos os arquivos
recebidos estavam em formato SEG-Y. Para tal verificação foi utilizado o software SeisSee,
bem como uma visualização das amplitudes das linhas sísmicas.
As linhas sísmicas foram inseridas logo após a verificação das informações no programa
SEISEE. Os dados de localização dos poços foram inseridas manualmente (nome, coordena-
das da locação, profundidade medida, altura do Kelly Bushing), como mostra a figura 3.2
abaixo.
com a inserção dos dados culturais, para que uma noção da localização dos dados fosse
notada.
O arquivo em LAS foi importado ao software após a criação do poço, inserindo a coordenada
geográfica da boca e fundo do poço, onde também foram adicionadas tabelas da profundidade
vertical e efetiva dos poços no caso dos poços direcionais.
Dados Sísmicos
Os dados sísmicos em formato SEG-Y foram todos importados, sendo necessária a verifi-
cação do datum sísmico de cada linha (considerando que existem linhas de levantamentos
distintos) e os dados que estavam em diferentes referências do SAD-69, foram convertidos
automaticamente. Em seguida, foi verificada a concordância da leitura das informações car-
regadas, contidas no header do arquivo, como por exemplo, taxa de amostragem, tempo de
registro e coordenadas geográficas do CDP. Ilustrando o carregamento dos dados, foi gerado
o mapa da Figura 3.3 mostrando a disposição das linhas sísmicas (em cinza) e dos poços (em
verde) sobre o mapa estrutural da porção sul da Bacia do Almada.
Metodologia 41
Figura 3.3: Área de estudo, mostrando as linhas sísmicas, poço e dados culturais
utilizados.
Dados Culturais
Após todo o levantamento bibliográfico, foram escolhidos alguns mapas da região de estudo.
A Figura 3.3 ilustra um mapa da região estudada, carregado no software IHS Kingdom,
tendo como referência os trabalhos desenvolvidos por Ferreira et al.(2009), Carvalho et al.
(1965) e Gontijo et al. (2007). Para a importação dos dados culturais, foi necessário um
ajuste de escala e localização dos mapas em relação ao mapa de estudo do projeto. Os mapas
serviram de grande auxílio, não apenas na localização dos poços e dados sísmicos em relação
à área da bacia às quais estão inseridas, mas também na interpretação propriamente dita.
Figura 3.4: Tabela de fácies sedimentares de acordo com a média de GAPI no perfil
GR
O padrão das curvas de raios gama, junto com a fácies interpretada do nível de radiação,
são úteis na interpretação dos ambientes deposicionais formadores; a inferência dos principais
sistemas deposicionais, referentes às diferentes fácies litológicas, são evidenciadas na tabela
da Figura 3.5.
O perfil cáliper basicamente mede o diâmetro do poço, enquanto que o sônico avalia os
tempos de trânsito de uma onda mecânica atravessando a formação. Os perfis sônico e de
densidade são úteis também na conversão de profundidade para tempo dos perfis de poço.
Metodologia 43
Após a interpretação dos perfis, foram confeccionados sismogramas sintéticos a fim de cor-
relação entre os dados de poços e as seções sísmicas; vale salientar que para tal correlação
alguns processos devem ser realizados como a conversão de profundidade para tempo na
construção dos sismogramas sintéticos (igualando a unidade vertical analisada, o tempo),
bem como suavizações dos traços sintéticos estimados a partir dos perfis de poço, conside-
rando as diferentes resoluções entre os traços na sísmica (da ordem de dezenas de hertz) e nos
sintéticos construídos com os perfis de poços (atingindo até dezenas de kHz), o que facilita
a comparação e ajuste entre as curvas. O modelo convolucional do traço sísmico explica a
formação de um traço sísmico:
Metodologia 44
t=ω∗r (3.1)
Sendo t o traço sísmico obtido a partir da deconvolução entre a wavelet (w) e a função
refletividade (r). Sinteticamente, no método sísmico um pulso artificial (wavelet) é gerado
na superfície, atravessa as rochas em subsuperfície, e retorna ao encontrar interfaces entre
camadas rochosas que apresentam contrastes de impedância acústica (produto entre a ve-
locidade sísmica, v, e a densidade média da camada, (ρ). A fração da amplitude inicial do
sinal que retorna à superfície é função da magnitude deste contraste de impedância, dado
pela função refletividade:
ρ1 v1 − ρ2 v2
r= (3.2)
ρ1 v1 + ρ2 v2
4t 2 1 4t
ω(t) = 1 − ( ) exp(− ( )2 ) (3.3)
T 2 T
Construídos os sismogramas sintéticos, eles foram então comparados com as seções sís-
micas, onde a correlação foi realizada pelo ajuste dos picos de reflexões entre as camadas, ao
qual deve-se observar o momento de máximo coeficiente de correlação. Tal ajuste é otimizado
pelo bulk shift, o que seria o deslocamento de uma janela de tempo dos traços sintéticos,
e pela mudança na fase. Todo o processo anteriormente descrito é realizado pelo próprio
software de interpretação, e um exemplo de uma amarração concluída pode ser visualizada
através do painel de correlação da Figura 3.6.
Metodologia 45
Taner et al. (1979), continuando as pesquisas sobre atributos sísmicos iniciada por
O’doherty e Anstey (1971), foi um dos primeiros trabalhos que introduziram a análise dos
atributos do traço em sua parte complexa, que podem ser calculadas através das transforma-
das de Fourier e de Hilbert, obtendo-se a parte real e imaginária do traço, respectivamente.
Após o carregamento dos dados, devem ser calculados, para todas as seções sísmicas
disponíveis, os principais atributos sísmicos do traço complexo utilizados na interpretação
sismoestratigráfica; são eles: amplitude, fase e frequência instantâneas, além do TecVA
(Técnica Volume de Amplitudes).
A interpretação sísmica foi auxiliada com a utilização de alguns atributos sísmicos, de-
finidos por Tanner (2001) como qualquer informação obtida por meio de dados sísmicos,
seja por meio de medições diretas, lógicas ou baseadas nas experiências e nos conhecimentos
anteriores. Entre todos os atributos empregados neste estudo, os mais importantes foram os
do traço complexo: amplitude instantânea, TecVA (Técnica Volume de Amplitudes), além
de fase e frequência instantânea (figura 3.7).
Após a interpretação dos dados do poço, e sua correlação com as seções sísmicas, chega-se en-
tão à interpretação sísmica, ao qual irá se basear nos conceitos da estratigrafia de sequências
aplicadas às seções drifte, tendo o auxílio da análise de atributos sísmicos empregados.
A interpretação pode ser realizada seguindo dois principais aspectos: estruturais e es-
tratigráficos. Na interpretação estrutural, importantes alvos de identificação são sistemas
de falhas e a superfície de embasamento. O presente trabalho prioriza a caracterização do
padrão de empilhamento dos depósitos sedimentares, por isso o maior foco na interpretação
estratigráfica, definindo as superfícies estratigráficas baseadas na estratigrafia de sequências
para seções drifte, e assim delimitando os tratos de sistemas identificados.
Metodologia 47
série de onlaps muitas vezes indicado por refletores inclinados ao seu redor.
Posterior à marcação das principais falhas, como um dos primeiros passos da interpreta-
ção estratigráfica, deverão ser identificadas as superfícies estratigráficas. Primeiramente,
identificam-se as discordâncias, caracterizadas principalmente pela presença de truncamentos
erosivos abaixo e onlaps acima delas, auxiliadas geralmente pela alta amplitude apresentada
pelo refletor correspondente, principalmente em grandes mudanças de litologia (como por
exemplo, as discordâncias que separam diferentes estágios tectônicos, como a discordância
pós-rifte, DPR).
4
Análise Sismoestratigráfica
A figura 4.l abaixo ilustra o arcabouço estrutural da parte oeste (emersa) da bacia. As
falhas limites definem o padrão romboédrico e têm direção geral N50E, de idade Cretáceo
Inferior (Andar Rio da Serra), pertencente à fase rifte. Este padrão é formado pelas falhas
de Apipique, Aritaguá, Maron e da Serra Pilheira, que delimitam a bacia, colocando o
embasamento em bloco alto e a seção sedimentar no bloco baixo. Estas falhas formam um
sistema, associando falhamentos sintéticos e antitéticos, de direção dominante N-S.
A Falha de Aritaguá localiza-se além dos limites da parte emersa da Bacia de Almada.
Possui um traço encurvado e côncavo para leste. No bloco baixo é encontrada a Formação
49
Análise Sismoestratigráfica 50
Rio de Contas, de idade Cretáceo Inferior (Barremiano), ausente no bloco alto. De acordo
com Netto e Sanchez (1991), as rochas sedimentares mais antigas que o Andar Aratu têm
o mesmo padrão de espessura em ambos os lados da falha, o que permite datar a Falha de
Aritaguá como de idade Buracica.
Segundo Shepard (1981), os mecanismos mais comuns para a formação dos cânins são:
• O controle tectônico para a formação dos cânions (Wegener, 1924). (Bruhn e Mo-
raes, 1989) considerou que o Cânion de Almada foi originado apenas pela escavação
provocada durante a passagem de inúmeras correntes de turbidez.
A figura 4.2 abaixo mostra uma interpretação, através do topo da camada que cha-
maremos posteriormente de DRIFTE-3, que ilustra e posiciona o Cânion de Almada, de
orientação NW-SE.
cânions de assoalho de bacia, conforme (Bonham-Carter, 1988), sendo que estas feições
negativas foram originadas, controladas e assoreadas durante as variações tectono-eustáticas
entre o Neocretáceo e o Eoterciário. O cânion de Almada situava-se junto à plataforma
continental e apresentaram como principal mecanismo precursor o avanço do sistema fluvial,
causado pela variação negativa do nível do mar. A combinação do tectonismo diastrófico e
da halocinese controlou o posicionamento estrutural e a localização destes paleocânions.
Análise Sismoestratigráfica 53
A discordância pós-rifte (DPR), segundo (Dias, 2004), configura uma fase de quiescência
tectônica com falhamentos expressivos ocorrendo somente de forma localizada, ou seja, ex-
pressiva diminuição da taxa de criação de espaço de acomodação, e, além disso, representa
o início do predomínio da atuação subsidência térmica na Bacia de Almada. Essa discor-
dância está relacionada a um evento de expressivo rebaixamento do nível de base. Neste
trabalho, a DPR foi interpretada tanto pela análise do dado de poço quanto pela análise das
linhas sísmicas e, de acordo com o modelo estratigráfico adotado, representa o limite entre
as sequências Rifte e Transicional.
Na análise dos dados de poço, interpretou-se esta superfície com bom grau de confiança,
principalmente devido à mudança na espessura e na ocorrência de litologia na calha, não
sendo registrados indícios de sedimentação evaporítica. O critério utilizado para demarcação
desta superfície foi mudança na amostragem de camadas de folhelhos flúvio-deltaico-lacustres
para camadas mais arenosas, indicando um ambiente deposicional diferente. Ambos os
critérios também foram sustentados pela diminuição no valor registrado no perfil de raio
gama para os folhelhos situados logo abaixo e os folhelhos situados logo acima da marcação
sugerida, indicando um provável evento de rebaixamento do nível de base, provocando erosão
e originando a discordância em questão.
A análise dos dados de poço configurou um importante auxilio para interpretação dessa
superfície na área de estudo. Para o poço utilizado, a Discordância Pós-Transicional foi
marcada no momento em que as camadas de arenitos diminuem de espessura, dando lugar
ao aumento de espessura dos folhelhos, que configura a mudança da sedimentação de rochas
salinas para sedimentação de folhelhos e rochas carbonáticas. Assim como na marcação da
DPR, os critérios citados foram sustentados por variações negativas do perfil de raio gama,
indicando rebaixamento do nível de base.
A análise de poço localizado na parte proximal da bacia permitiu identificar que, nesta
região, a sequência transicional é composta por depósitos associados tanto à sedimentação
siliciclástica, quanto por camadas pelíticas (folhelhos). O poço, localizado na porção centro-
norte da área de estudo, apresenta um registro sedimentar bem representativo desta região
e ilustra a alternância entre diversos ciclos de deposição pelítica, interrompidos por influxos
de sedimentação siliciclástica, indicando, possivelmente, variações no nível de base ao longo
da deposição da seção transicional. No poço selecionado, a seção transicional apresenta uma
espessura total de aproximadamente 70 a 100 metros. Por outro lado, as camadas de folhelho.
A ausência de outros sais na região proximal pode estar relacionada a não deposição de um
ciclo evaporítico completo, onde a variação da salinidade é mais intensa, ou a dissolução
destes minerais que são quimicamente mais solúveis.
Exemplos desses casos são vistos na região norte de estudo onde a DPR encontra-se
abruptamente mais rasa e associada a falhas que apresentam expressivos rejeitos, configu-
rando possíveis altos estruturais, resultantes do processo de rifteamento da bacia.
Na região distal, assim como no talude, não foram utilizados dados de poços para a
referida interpretação. Em termos de fácies sísmicas, a sequência transicional encontra-se
associada a uma configuração interna fortemente caótica, com refletores de baixo padrão de
amplitude. Nas linhas sísmicas distais ocorrem os fenômenos de atenuação e dispersão do
sinal sísmico. As maiores espessuras indicam que esta área poderia representar o depocentro
da bacia, no momento de deposição desta sequência, para onde as rochas evaporíticas devem
ter migrado por fluxo gravitacional, das regiões mais rasas. O contínuo acúmulo de sal, asso-
ciado a pressão litostática, exercida pelas sequências superiores, e aos falhamentos da bacia,
foram precursores para ocorrência de fenômenos ligados à halocinese. Tais fenômenos são
comprovados pela identificação, nas seções sísmicas, de diversas estruturas ligadas à movi-
mentação do sal: diápiros, muralhas e almofadas de sal, além de mini-bacias. A deformação
das camadas da sequência Drifte, com dobras e falhas expressivas, que estão sobrepostas a
sequência transicional, também é uma das evidências de atuação da halocinese. Nos diápiros
que apresentam maior expressão vertical são vistas também sismofácies classificadas como
transparentes.
Essa sequência se distribui por toda a bacia, cobrindo a seção transicional com espessuras
que variam de pequenas a médias, porém aumentando em direção a bacia. Na região da pla-
taforma, próximo a quebra para o talude ela praticamente inexiste, fruto dos efeitos erosivos
posteriores da Superfície 1 (onde é notada a presença da Discordância Pré-Urucutuca). Na
porção proximal, é reconhecido que durante a sua deposição deve ter ocorrido reativação das
falhas formadas durante a fase rifte, uma vez que algumas falhas atingem essa sequência.
Litologicamente essa sequência formou-se na plataforma carbonática rasa, com deposição
Análise Sismoestratigráfica 57
Na análise do dado de poço, verifica-se uma intercalação de arenitos (que possui espes-
suras variando de 3 a 50 metros), com espessuras diminuindo da base para o topo, ao mesmo
tempo que é notada a presença de folhelhos (com espessuras que vão de 1 a 10 metros) que,
da base para o topo, inicialmente diminuem de espessura e, conforme vai chegando ao topo
da formação, vai apresentando um novo aumento na espessura da referida litologia. Assim,
com as camadas de arenitos diminuindo sua espessura ao mesmo tempo que os folhelhos
estão aumentando, pode-se concluir que nessa sequência se inicia um momento transgressivo
na bacia, ou seja, um momento onde a taxa de deposição sedimentar é maior que a taxa de
acomodação.
A Sequência Drifte-2 é limitada no topo pela Superfície 2 e na base pela Superfície 1, onde
se encontra a Discordância Pré-Urucutuca. A sequência Drifte-2 possui idade Turoniano-
Campaniano.
A Sequência DRifte-4 é limitada no topo pela Superfície 4 e na base pela Superfície 3, du-
rante o intervalo Paleoceno-Eoceno. Litologicamente, a Formação Urucutuca continua sendo
depositada, com folhelhos depositados de maneira quase prioritária, juntamente com algu-
mas lentes de arenitos localizados nas porções proximal e distal da bacia. De acordo com
Gontijo (2007), na seção proximal, os folhelhos estão intercalados com marcas e calcarenitos,
marcando a base da seçao progradante da bacia. No talude, as quantidades de arenitos e
calcarenitos diminuem drasticamente, e na parte distal da bacia, os folhelhos estão interca-
lados com arenitos, margas, calcilutitos e calcarenitos, caracterizando um ambiente nerítico
profundo a batial.
A Sequência DRifte-5 é limitada no topo pela Superfície 5 e na base pela Superfície 4 Eoceno-
Oligoceno. De acordo com Gontijo (2007), esta seção, que continua apresentando caráter
regressivo, é representada pela progradação dos sedimentos pelíticos da Formaçao Urucutuca,
juntamente com os sedimentos plataformais relacionados às Formações Rio Doce (arenitos)
e Caravelas (carbonatos), este último sugerindo o desenvolvimento de uma plataforma car-
bonática na bacia e diminuem drasticamente em direção à bacia. Em relação ao perfil GR
temos, na base dessa seção, a uma profundidade de aproximadamente 1470 metros, uma
abrupta progradação, mostrada através de uma rápida diminuição do GR. A partir disso, os
valores do GR diminuem suavemente, continuando a fase regressiva que se iniciou no topo
da sequência Drifte-3
A Sequência DRifte-5 é limitada no topo pela Superfície 6 e na base pela Superfície 5 durante
o intervalo Oligoceno-Mioceno. De acordo com Gontijo (2007), esta sequência continua
com seu caráter regressivo, com a progradação dos sedimentos plataformais relacionados às
formações Rio Doce e Caravelas, além dos folhelhos da formação Urucutuca. Além disso,
encontra-se a formação Barreiras, que ocorre ao longo de toda a faixa litorânea do Brasil.
Em relação ao dado de poço, o perfil GR continua com um padrão levemente progradacional
(diminuição do GR) até o topo da perfilagem produzida
5
Análise de Dados
Abaixo estão representadas as seções sísmicas das linhas dip (figuras 5.1, 5.2, 5.3 e 5.4) e
strike (5.5 e 5.6), que foram analisadas no capítulo anterior. São de extrema importância
para o entendimento da área e da dinâmica da camada de sal, bem como das seções que são
depositadas após ela, assim como o entendimento da dinâmica das sequências transicional e
drifte.
Para melhor correlação da sequência transicional, nos diferentes setores da bacia, além de
demonstrar o espessamento das camadas nas sequências transicional e dritfe da Bacia de
Almada, foram confeccionadas seções sísmicas compostas, representadas pelas figuras 5.7 e
5.8. As seções ilustradas foram importantes para delimitar as sequências transicional e drifte
que foi sedimentada acima do sal mostrando, de uma maneira geral, como a bacia é formada.
60
Análise de Dados 61
Na porção norte da área de estudo, próximo ao limite com a Bacia de Camamu, as confi-
gurações das curvas de isovalores e as seções sísmicas indicam um raseamento das superfícies
estratigráficas, possivelmente pela presença de altos estruturais ligados às movimentações
tectônicas da Zona de Acomodação Taipus-Mirim.
maneira geral, há uma tendência de aumento das espessuras com os depósitos mais recentes.
A figura 5.10 abaixo mostra os mapas de isópacas extraídos das interpretações do referido
trabalho.
Análise de Dados 63
Figura 5.1: Seção sísmica dip da região norte da Bacia de Almada: (A) não inter-
pretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo
amplitude
Análise de Dados 64
Figura 5.2: Seção sísmica dip da região centro-norte da Bacia de Almada: (A)
não interpretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o
atributo amplitude
Análise de Dados 65
Figura 5.3: Seção sísmica dip da região centro-sul da Bacia de Almada: (A) não in-
terpretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo
amplitude
Análise de Dados 66
Figura 5.4: Seção sísmica dip da região central da Bacia de Almada: (A) não in-
terpretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o atributo
amplitude
Análise de Dados 67
Figura 5.5: Seção sísmica cortando toda a porção da região leste da Bacia de Al-
mada: (A) não interpretada; (B) interpretada. Em ambos os casos,
utilizando o atributo amplitude
Análise de Dados 68
Figura 5.6: Seção sísmica localizada na porção central da Bacia de Almada: (A)
não interpretada; (B) interpretada. Em ambos os casos, utilizando o
atributo amplitude
Análise de Dados 69
Figura 5.7: Seção sísmica composta que passa pelas porções proximal, de talude e
distal da Bacia de Almada: (A) não-interpretada, (B) [Link]
ambos os casos, utilizando o atributo amplitude
Análise de Dados 70
Figura 5.8: Seção sísmica composta que passa pelas porções proximal e de talude
do centro norte da Bacia de Almada: (A) não-interpretada, (B) inter-
[Link] ambos os casos, utilizando o atributo amplitude
Análise de Dados 71
73
Conclusões 74
da região do talude quanto da porção norte da área de estudo, no limite entre as bacias de
Camamu e Almada, segundo Ferreira (2009).
No dado de poço utilizado para o presente trabalho, não foram encontradas rochas evapo-
ríticas na sequência transicional. Mesmo assim, foi possível mapear as Discordâncias (DPR
e DPT) e gerar a correlação com a linha sísmica localizada na referida região. No restante
da área de estudo, a sequência transicional é composta majoritariamente por sedimentos
siliciclásticos, com ocorrências pouco expressivas de sais na região proximal e no extremo sul
da bacia.
Após analogias com estudos realizados em outras bacias, percebe-se que a tectônica
do sal pode ter atuado gerando dois principais tipos de trapas acumuladoras de petróleo:
as trapas formadas pelo acunhamento de corpos de rocha reservatório contra os flancos de
diápiros de sal, e trapas associadas às estruturas dômicas desenvolvidas sobre almofadas de
sal.
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