SISTEMAS DE EQUAÇÕES LINEARES: UMA ANÁLISE À LUZ DA
TEORIA DE REPRESENTAÇÃO SEMIÓTICA
Carolina Ferreira da Silva1
Vanilde Bisognin2
Eixo: 01 – Ensino e aprendizagem na e da Educação Matemática
Modalidade: Comunicação Científica
Categoria: Aluno de Pós-Graduação
Resumo
Neste artigo são apresentados resultados parciais de uma pesquisa realizada com estudantes de um
curso de Licenciatura em Matemática do Rio Grande do Sul, com o objetivo de investigar as
contribuições de uma sequência didática para o ensino e aprendizagem de Sistemas de Equações
Lineares, à luz da Teoria de Registros de Representações Semióticas. Para esse fim, foi aplicada de
modo remoto, uma sequência didática, contendo dez problemas sobre Sistemas de Equações Lineares.
No trabalho aqui relatado, o foco é dado para sistemas de equações impossíveis. Explorou-se os
distintos métodos de análise das soluções e diferentes representações. Os dados foram obtidos por
meio das respostas apresentadas pelos alunos e por conversas via conferências. Concluímos que a
maior parte dos estudantes conseguiu transitar ao menos entre dois tipos distintos de representações de
um mesmo objeto matemático, não tendo grandes dificuldades nas conversões e tratamentos de
problemas que reportavam a sistemas impossíveis. No entanto apresentaram dificuldades na
representação gráfica e algumas lacunas existentes estão relacionadas à interpretação dos dados do
problema, descritos em língua natural.
Palavras-chave: Sistemas impossíveis, Conversões, Tratamentos, Ensino de Matemática.
Introdução
O conteúdo matemático de Sistemas de Equações Lineares, de acordo com Ponte,
Branco e Matos (2009), possibilita aos estudantes o desenvolvimento das habilidades com o
uso da representação algébrica, do raciocínio algébrico matemático e na resolução de
problemas.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no Ensino Fundamental, destaca que
para a potencialização do pensamento algébrico, são essenciais a criação, interpretação e a
1
Universidade Franciscana e carolsilva.cf57@[Link].
2
Universidade Franciscana e vanildebisognin@[Link].
transição entre as representações gráficas e simbólicas, com o propósito de resolver problemas
por meio de equações e inequações, ocorrendo assim, a compreensão dos procedimentos
utilizados e das conjecturas construídas no processo de resoluções. (BRASIL, 2017).
Diante disso, com o objetivo de investigar as contribuições de uma sequência didática
para o ensino e aprendizagem de Sistemas de Equações Lineares, à luz da Teoria de Registros
de Representações Semióticas, foi desenvolvida uma pesquisa de mestrado em um Programa
de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática do Rio Grande do Sul. Neste artigo,
são apresentados os pressupostos teóricos e resultados do terceiro bloco da sequência didática
desenvolvida nesta investigação.
Fundamentação Teórica
A Teoria dos Registros de Representações Semióticas, de Raymond Duval, tem como
propósito a compreensão e investigação das possíveis dificuldades que os estudantes possam
ter na construção do conhecimento matemático, e visa auxiliar no aprimoramento do
raciocínio, análise e visualização, por meio dos registros de representações semióticos de um
objeto matemático.
Duval (2009) salienta que a mobilização de distintos registros de um mesmo objeto
matemático, na maioria das vezes, não se dá de maneira natural e óbvia para os estudantes.
Nesse sentido, em concordância com a teoria citada, destaca-se que para a compreensão de
um conceito é primordial que os discentes consigam transitar de um registro de representação
semiótico a outro, sabendo seu significado, não confundindo a representação com o objeto
matemático.
Duval (2013) faz referência a quatro tipos de registros de representação, divididos em
discursivos e não discursivos. Os registros discursivos são aqueles que fazem referência à
escrita, viabilizando a formulação de proposições, transformação de expressões,
proporcionado a descrição, o raciocínio e calcular. Já, os registros não discursivos favorecem
a visualização, em virtude de mostrar as formas e as configurações. Diante disso, a língua
natural, as escritas para os sistemas de numeração, as formas algébricas, os gráficos, os
diagramas e as figuras geométricas, são registros de representações semióticas,
compreendidos em um sistema de capacidades específicas, com o propósito de descrever ou
representar os objetos matemáticos.
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Outro ponto que merece destaque, dentro da Teoria de Duval, é a importância de o
estudante transitar ao menos em dois tipos distintos de representação de um mesmo objeto
matemático, havendo assim, a compreensão do conteúdo, e consequentemente, a construção
de conexões mentais de aprendizagem. “[...] essa apreensão é significativa a partir do
momento que o aluno consegue realizar tratamentos em diferentes registros de representação
e passar de um a outro o mais naturalmente possível”. (MACHADO, 2010, p.168).
Para Duval (2009) existem dois tipos de transformações de representações semióticas,
chamadas de tratamentos e conversões, os quais representam os diferentes signos empregados
na Matemática. Por tratamentos entende-se que são transformações de representações que
ocorrem em um mesmo registro, por exemplo, resolver um sistema de equações lineares. Já
por conversão, compreende-se que são transformações de representações que consistem em
mudar de registro, por exemplo, passar do registro algébrico de um sistema de equações
lineares à sua representação gráfica.
Neste trabalho, procuramos o desenvolvimento de conversões e tratamentos, entre os
registros de língua natural, algébrica e gráfica, de modo que os licenciandos construíssem
conhecimentos, como é ressaltado na teoria de Duval.
Aspectos Metodológicos
A pesquisa aqui relatada foi desenvolvida por meio de uma sequência didática que
propiciou elementos para a coleta e análise dos dados. Os participantes da pesquisa foram seis
estudantes de um curso de Licenciatura em Matemática, matriculados na disciplina de
Álgebra Linear I, que se dispuseram a responder a sequência didática. Todos os estudantes
assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e para preservar suas identidades
foram denominados por E1, E2, E3, E4, E5 e E6.
A sequência didática elaborada incluiu dez problemas envolvendo o conteúdo de
Sistemas de Equações Lineares, dividida em quatro blocos e dois desses blocos contendo o
que denominamos por “Explorando Conhecimentos”, que são questionamentos com a
intenção de identificar as conjecturas e percepções dos participantes em relação os problemas
e suas resoluções. O Bloco I foi destinado a um reconhecimento inicial do conteúdo, uma
familiarização dos estudantes com sistemas possíveis e impossíveis 2x2. Ainda, este bloco
contém o tópico “Explorando Conhecimentos”.
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O Bloco II foi composto por problemas envolvendo sistemas possíveis 3x3 e 4x5. O
Bloco III continha problemas impossíveis 3x3 e o último bloco foi destinado a representação
gráfica de três sistemas 2x2 para a classificação quanto suas soluções. Para finalizar possuía
mais um “Explorando Conhecimentos”. Nesse trabalho apresentamos os problemas
relacionados a sistemas de equações lineares impossíveis.
As respostas foram analisadas à luz da teoria de Registros de Representações
Semióticas com foco nas conversões e tratamentos, e aplicadas seguindo os passos da
metodologia de Resolução de Problemas de Onuchic e Allevato (2009), a saber: preparação
do problema, leitura individual, leitura em conjunto, resolução do problema, observar e
incentivar, registro das resoluções na lousa, plenária, buscado consenso e formalização do
conteúdo.
Ressaltamos que a aplicação da sequência didática, deu-se de forma remota, devido a
pandemia, ocasionada pelo vírus da COVID-19. Desse modo, os problemas foram enviados
por blocos aos estudantes, via formulários Google, e ao final de cada bloco ocorreram
encontros virtuais, via Google Meet, na disciplina de Álgebra Linear I, para as discussões das
resoluções, possíveis dificuldades e dúvidas que os participantes pudessem ter no
desenvolvimento das questões, uma vez que a pesquisadora não teve contato presencial no
momento de solução das questões por parte dos estudantes.
Como já mencionado, as aplicações ocorreram de maneira remota, e em vista disso,
algumas adaptações tiveram que ser realizadas, no que diz respeito as categorias de análise de
Resolução de Problemas. Desse modo, nos encontros virtuais a pesquisadora solicitou que um
dos participantes comentasse sobre o que entendeu do problema e os demais complementaram
concordando ou discordando, assim ocorreram as discussões, englobando os passos de leitura
individual e em grupos da resolução de problemas.
Os passos de registros na lousa, plenária e busca de consenso, ocorreram de maneira
análoga aos anteriores. A formalização do conteúdo deu-se em uma conversa da pesquisadora
sobre os diferentes métodos de resolver Sistemas de Equações Lineares. O passo de observar
e incentivar ocorreu quando os participantes procuravam a pesquisadora, via WhatsApp, para
relatar dificuldades e dúvidas.
Descrição e Análise dos Dados
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A sequência didática contava com questionamentos que conduziam os participantes a
transitar entre as representações em língua natural, algébrica e gráfica. O Bloco III, continha
dois problemas de Sistemas de Equações Lineares Impossíveis. No Quadro 1, trazemos o
enunciado do Problema 1.
Quadro 1: Enunciado do Problema 1
Benício, João e Antônio foram a uma lanchonete. Benício pagou R$8,00 por dois refrigerantes e um
pastel; João pagou R$10,00 por um refrigerante e dois pastéis; e Antônio pagou R$14,00 por dois
refrigerantes e dois pastéis.
a) Qual o valor do refrigerante e do pastel dessa lanchonete? Os três amigos pagaram o preço correto?
b) Represente graficamente o modelo que representa uma possível solução do problema. O que você
observa?
c) Analise os diferentes métodos de solucionar o problema.
d) Quais poderiam ser os preços corretos que cada amigo pagou?
Fonte: Dados da pesquisa
Seguindo as ideias da Resolução de Problemas e as categorias de análises elencadas
nesta pesquisa, todos os participantes compreenderam o problema, retiraram os dados e
identificaram as incógnitas, de modo que conseguiram realizar a conversão de língua natural
para algébrica sem grandes dificuldades. Na Figura 1, exibimos a conversão realizada pelo
participante E6.
Figura 1: Conversão do registro de língua natural para algébrica do E6
Fonte: Dados da pesquisa
No registro apresentado pelo participante E6 e exposto na Figura 1, observamos que o
estudante compreendeu o problema, retirou os dados, definiu as incógnitas a serem
encontradas, conseguindo assim, realizar a conversão de registros solicitada.
Para solucionar o problema, os participantes utilizaram apenas o método da
substituição. Sendo assim, na Figura 2, apresentamos a resolução do participante E5.
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Figura 2: Resolução do Problema 1 do participante E5
Fonte: Dados da pesquisa
Notamos que o participante E5 fez o uso correto de tratamentos algébricos necessários
para solucionar o problema, por meio do método escolhido, descobrindo uma desigualdade
para os valores encontrados, evidenciando assim, que o sistema é impossível.
Quanto a conversão para o registro gráfico, apenas o participante E2, apresentou uma
construção gráfica de modo manual, ou seja, optou por não utilizar o software Geogebra para
realizar a conversão do registro algébrico para o gráfico. Na Figura 3, exibimos a conversão
realizada pelo participante mencionado.
Figura 3: Conversão de registro algébrico para gráfico realizada pelo participante E2
Fonte: Dados da pesquisa
Notamos, no esboço gráfico apresentado pelo E2, que ele não definiu os pontos de
intersecção das retas no gráfico e, tampouco mencionou o que observou. Diante disso, a
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pesquisadora questionou ao participante sobre o que ele observava na representação gráfica
construída. Com isso, o E2, relatou que nesse problema, SI, as retas se interceptam em mais
de um ponto. Logo, por meio do questionamento da pesquisadora, o participante conseguiu
expressar seu pensamento e observação.
Em relação aos diferentes métodos de solução do problema foi citado somente o
método de Cramer. Contudo, no momento de plenária e busca de consenso o participante
relatou que independentemente do método escolhido, não era possível determinar os
valores dos pastéis e refrigerantes, uma vez que o problema não tem solução.
No Quadro 2, mostramos o enunciado do Problema 2.
Quadro 2: Enunciado do Problema 2
Um agrimensor mediu três glebas de terra, concluindo que a área das três juntas é 60 hectares, a área
intermediária tem 45 hectares a menos que o dobro da área maior, e a diferença entre a área maior e a
menor tem 5 hectares a mais do que o dobro da área intermediária. Essas conclusões foram apresentadas
em um documento para um inventário. Ao ler esse documento, o juiz, que conhecia matemática, exigiu
novas medições dos terrenos, mostrando, de forma irrefutável, que havia erro nas informações,
documentadas.
a) Ao determinar novas medições, o juiz estava correto? Por quê?
b) Represente graficamente o modelo que representa uma possível solução do problema. O que você
observa?
d) Analise os diferentes métodos de solucionar o problema.
Fonte: Dados do problema
Os participantes E1 e E4, tiveram dificuldades em compreender o problema, retirar os
dados e definir as incógnitas a serem encontradas. Assim, Duval (2003) justifica que a
transição de um enunciado em língua natural a uma representação em outro registro atinge um
complexo conjunto de operações que tem por intuito designar os objetos. Isto é, esse processo
de transitar entre um registro semiótico a outro não é tão simples quanto parece, mas
necessário para o processo de construção de conhecimentos dos estudantes.
Contudo, com o auxílio e incentivo da pesquisadora, os participantes da pesquisa
conseguiram compreender o problema e realizar a conversão do registro de língua natural para
o algébrico. Na Figura 4, apresentamos a conversão realizada pelo participante E6.
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Figura 3: Conversão do registro de língua natural para algébrica do E6
Fonte: Dados da pesquisa
Notamos, na Figura 4, que o participante definiu as incógnitas do problema, retirou os
dados corretamente, transitando entre o registro de língua natural para o algébrico,
conseguindo realizar a conversão solicitada.
Para resolver o problema, os participantes, utilizaram: o método de Cramer (E5),
escalonamento (E6) e os demais escolheram o método da substituição. Na Figura 5, exibimos
a solução do participante E6.
Figura 5: Resolução do Problema 2 do participante E6
Fonte: Dados da pesquisa
Com a resolução apresentada pelo participante, notamos que ele fez o uso adequado e
correto de tratamentos algébricos necessários para a solução do problema, chegando à
conclusão de que o sistema proposto por meio do Problema 2, era um Sistema Impossível,
uma vez que chegou a um absurdo, no qual zero é igual a vinte (0=20).
Em relação à conversão do registro algébrico para o gráfico, solicitado no subitem “b”
do Problema 2, todos os participantes utilizaram o software Geogebra. Na figura 6, exibimos
a conversão realizada pelo participante E4.
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Figura 6: Conversão de registro algébrico para gráfico realizada pelo participante E4
Fonte: Dados da pesquisa
Com o auxílio do software, o participante conseguiu realizar a conversão para o
registro gráfico. Todavia, não foi apresentada nenhuma conclusão ou observação do gráfico
construído, evidenciando que o participante não tinha conhecimentos sobre as interseções de
planos e o que elas significam para a solução de um sistema. Desse modo, mais uma vez, foi
explicitado pela pesquisadora, que este caracteriza um gráfico de um sistema impossível, pois
os três planos não se interceptam simultaneamente.
Considerações finais
Ao analisar as respostas apresentadas pelos participantes de pesquisa, foi possível
notar que eles não tiveram grandes dificuldades em transitar entre os registros de língua
natural, algébricos e gráficos quando se tratava de problemas que reportavam a sistemas
impossíveis. As lacunas existentes estão relacionadas à interpretação dos dados do problema,
descritos em língua natural. Em relação a conversão para o registro gráfico, foi notória a
dependência do uso de softwares para representar graficamente um Sistema de Equações
Lineares.
Ainda, diante do que foi exposto, mencionamos que as expectativas e as intenções
desse bloco foram atingidas, pois os estudantes apesar das fragilidades apresentadas,
conseguiram transitar entre as distintas representações propostas nesta pesquisa, de modo que
construíram e consolidaram conhecimentos relacionados a sistemas impossíveis e suas
resoluções algébricas e gráficas, tendo para esta última o apoio do software Geogebra.
Os participantes da pesquisa conseguiram transitar ao menos entre dois registros
distintos de Sistemas de Equações Lineares, como ressalta Duval (2009). À vista disso, a
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construção do conhecimento sobre o conteúdo matemático ficou clara nas soluções
apresentadas.
Referências
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Brasília, DF, 2017. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 28 jan. 2021.
DUVAL, R. Semiósis e pensamento humano: Registros semióticos e aprendizagens
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