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Entendendo o Inquérito Policial no Brasil

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INQUÉRITO POLICIAL

Conceito:

De acordo com Aury Lopes Jr. o inquérito policial define-se como:

“O conjunto de atividades desenvolvidas concatenadamente por


órgãos do Estado, a partir de uma notícia-crime, com caráter prévio e
de natureza preparatória com relação ao processo penal, e que
pretende averiguar a autoria e as circunstâncias de um fato
aparentemente delituoso, como o fim de justificar o processo ou o
não processo.”

O inquérito policial desempenha dupla função:

1ª) Preparatória: atua no fornecimento de elementos informativos para que o titular do


exercício da ação penal possa formar a justa causa e, com isso, ingressar em juízo. Ademais,
serve ao acautelamento de meios probatórios com risco de desaparecimento no futuro.

2ª) Preservadora: atua na proteção do acusado contra o exercício arbitrário estatal, com a
prévia existência de um inquérito policial. Isso evita a instauração de uma ação penal
infundada.

Natureza Jurídica:

O inquérito é um procedimento administrativo, que traz uma sequência de atos


administrativos.

Importante registrar que para Aury Lopes Jr., o inquérito policial ostenta natureza de
procedimento administrativo pré-processual, pois “a atividade carece do mando de uma
autoridade com potestade jurisdicional e por isso não pode ser considerada como atividade
judicial e tampouco processual, até porque não possui a estrutura dialética do processo”.

Destinatários do Inquérito Policial:

O inquérito policial tem como destinatários imediatos o Ministério Público e o ofendido (na
ação penal privada). O Ministério Público oferece a denúncia ou não com base no inquérito.
Ele precisa de um lastro probatório mínimo (prova da existência da infração e indícios
suficientes de autoria), que irão fornecer justa causa para a denúncia. O ofendido oferece a
queixa-crime com base no inquérito policial.

Essa denúncia, ou o requerimento de arquivamento, serão feitos ao juiz. Portanto, diz-se que o
inquérito policial tem como destinatário MEDIATO o juiz.

DESTINATÁRIO IMEDIATO MP
DESTINATÁRIO MEDIATO Juiz
No âmbito do processo penal brasileiro, o juiz mantém-se afastado da investigação preliminar
– na qualidade de garantidor -, no qual se limita a exercer o controle formal da prisão em
flagrante e a autorizar eventuais medidas restritivas de direitos.

O juiz encontra-se na posição de destinatário mediato, pois o artigo 155 do CPP dispõe que o
juiz não poderá fundamentar sua decisão exclusivamente com base nos elementos
informativos colhidos na investigação, com exceção das provas cautelares, não repetíveis e
antecipadas.

Aury Lopes Jr. critica o citado art. 155 do CPP sob os seguintes fundamentos:

“O grande erro da reforma pontual (Lei 1690/2008) foi ter inserido a


palavra “exclusivamente”. Perdeu-se uma grande oportunidade de
acabar com as condenações disfarçadas, ou seja, as sentenças
baseadas no inquérito policial, instrumento inquisitório e que não
pode ser utilizado na sentença. Quando o art. 155 afirma que o juiz
não pode fundamentar sua decisão “exclusivamente” com base no
inquérito policial, está mantendo aberta a possibilidade (absurda) de
os juízes seguirem utilizando o inquérito policial, desde que também
invoquem algum elemento probatório do processo. (...) Isso é violar a
garantia da própria jurisdição e do contraditório.”

Características do Inquérito Policial:

 É um procedimento administrativo, pois é conduzido pela autoridade policial, e não


pelo juiz.

 É um procedimento escrito, pois todos os seus atos devem escritos ou, quando orais,
reduzidos a termo, conforme o art. 9º do CPP.

 É um procedimento inquisitivo, pois é pré-processual, não apresentando as figuras do


autor e do réu.

 É um procedimento discricionário, pois a autoridade policial irá conduzir a


investigação da maneira que entender mais frutífera. Por isso, o rol de atos do art. 6º
não se apresenta em uma sequência necessária a ser seguida pelo delegado. Ademais,
a autoridade policial poderá realizar ou não as diligências requeridas pelo ofendido ou
seu representante legal, conforme art. 14 do CPP:

CPP, Art. 14. O ofendido, ou seu representante legal, e o indiciado poderão requerer qualquer
diligência, que será realizada, ou não, a juízo da autoridade.

EXCEÇÕES:

- O delegado não tem discricionariedade quando um crime deixa vestígios.


Se um crime deixa vestígios ele tem que determinar a realização de exame
de corpo de delito (artigo 158 do CPP).
- O delegado não tem discricionariedade quando ocorre requisição do juiz
ou do Ministério Público.

- Lavratura do auto de prisão em flagrante: quando o delegado lavra este


auto, há uma cognição coercitiva. Lavrado o auto de prisão em flagrante,
deve haver a instauração do inquérito policial.

 O inquérito é dispensável, sendo apenas uma peça de informação. O Ministério


Público pode oferecer a denúncia sem inquérito policial, mas ele precisa de peças de
informação de onde se possa extrair prova da infração e indícios suficientes de autoria.
Na maioria dos casos a peça de informação é o inquérito policial, mas não precisa ser.

 O inquérito é sigiloso, conforme previsão no art. 20 do CPP.

 O inquérito é indisponível para a autoridade policial, que não poderá nunca arquivá-lo.
Quem promove o arquivamento é o Ministério Público, devendo esse requerimento
ser feito ao juiz.

Art. 17. A autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito.

Instauração do inquérito policial:

Art. 5o Nos crimes de ação pública o inquérito policial será iniciado:

I - de ofício;

II - mediante requisição da autoridade judiciária ou do Ministério Público, ou a requerimento


do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo.

O inquérito pode ser instaurado:

- De ofício (após o auto de prisão em flagrante ou mediante Portaria).


- Mediante requisição do juiz ou do Ministério Público.
- A requerimento do ofendido ou de seu representante.

Nos crimes de ação penal privada, somente a partir do requerimento da vitima é que se pode
instaurar o Inquérito Policial, nos termos do art. 5º, §5º do CPP.

Se for um crime de Ação Penal Pública Condicionada, somente a partir de representação da


vítima pode ser instaurado o inquérito policial, nos moldes do art. 5º, §4º do CPP.
Do despacho que indeferir o requerimento de abertura de inquérito caberá recurso para o
chefe de Polícia.
Notitia criminis:

Notitia criminis é o conhecimento da ocorrência de um fato criminoso pela autoridade policial.


Pode ser apresentada por qualquer pessoa do povo, conforme dispõe o §3º do art. 5º do CPP:

Art. 5º, §3º: Qualquer pessoa do povo que tiver conhecimento da existência de infração penal
em que caiba ação pública poderá, verbalmente ou por escrito, comunicá-la à autoridade
policial, e esta, verificada a procedência das informações, mandará instaurar inquérito.

- Espécies:

a) De cognição imediata (espontânea): ocorre quando a autoridade policial tem conhecimento


da infração penal por meio de suas atividades rotineiras.

b) De cognição mediata (provocada): ocorre quando a autoridade policial tem conhecimento


da infração penal por meio de um expediente escrito.

c) De cognição coercitiva: ocorre quando a autoridade policial tem conhecimento da infração


penal em virtude da apresentação do sujeito preso em flagrante.

O que é Notitia Criminis Inqualificada?

Trata-se da denominada “denúncia anônima”. Neste ponto, cabe lembrar que o art. 5º, IV da
CF veda o anonimato, a fim de que não existam acusações infundadas. Diante disso, conclui-se
que a denúncia anônima não tem o condão de permitir a instauração de um inquérito policial.

Destaca-se que o STF firmou jurisprudência no sentido de que “nada impede a deflagração da
persecução penal pela chamada “denúncia anônima”, desde que esta seja seguida de
diligências realizadas para averiguar os fatos nela noticiados” (HC 99490).

OBSERVAÇÃO: Nos crimes cuja pena não seja superior a dois anos, cumulada ou não com
multa, e nas contravenções penais há a instauração de Termo Circunstanciado, com base no
art. 69 da Lei 9.099/1995.

Prazo do Inquérito Policial:

Uma vez instaurado um inquérito policial, há limitação a um determinado prazo.


A regra é a do artigo 10 do CPP, segundo a qual o inquérito policial deverá ser concluído
dentro de 10 dias se o indiciado estiver preso e 30 dias se estiver solto. Esse prazo é um prazo
penal, sendo contado de acordo com as regras do Código Penal.

Art. 10. O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido preso em
flagrante, ou estiver preso preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia
em que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, quando estiver solto, mediante
fiança ou sem ela.
Ademais, pelo artigo 66 da Lei 5010/66, o inquérito na policia federal tem o prazo de 15 dias se
o indiciado estiver preso, prorrogável por mais 15 dias, fundamentadamente. A lei é omissa
quanto ao prazo do réu solto, e diante dessa omissão aplica-se a regra de 30 dias.

RÉU PRESO RÉU SOLTO

Regra Geral 10 dias 30 dias

Crimes Federais 15 dias 30 dias

O prazo de conclusão do inquérito não é para encerrar as investigações. Quando se fala em


concluir o inquérito significa relatá-lo e remetê-lo ao Ministério Público. O Ministério Público
pode remeter novamente o inquérito à autoridade policial, com o requerimento de novas
diligências.

Excesso de prazo: caso haja excesso de prazo de forma desproporcional, a prisão do acusado
deverá ser objeto de relaxamento.

- O prazo do réu preso é de natureza penal ou processual penal?

Duas correntes:

1ª) o prazo é de natureza penal, ou seja, o 1º dia do prazo é computado. Tese a ser adotada
para a prova da Defensoria Pública.

2ª) o prazo é de natureza processual penal, ou seja, o 1º dia do prazo não é computado.

Tramitação do Inquérito Policial:

A autoridade deve resguardar o sigilo necessário para a elucidação dos fatos. Por isso, diz-se
que o inquérito é SIGILOSO para as pessoas do povo em geral.

Art. 20. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou


exigido pelo interesse da sociedade.
Parágrafo único. Nos atestados de antecedentes que lhe forem solicitados, a autoridade
policial não poderá mencionar quaisquer anotações referentes a instauração de inquérito
contra os requerentes.

- O acesso do defensor aos autos do inquérito policial:

Tradicionalmente entendia-se que o advogado não poderia ter acesso ao inquérito policial, sob
o prisma do seu sigilo interno. Ocorre que, com o advento do art. 5º, LXIII da CF e pelo art. 7º,
XIV (com a redação originária) autoriza-se tal acesso do advogado.

Em 2009 editou-se a Súmula Vinculante com o seguinte teor:


É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova
que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência
de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa.

Comentários sobre a Súmula Vinculante:

- É um direito do defensor: logo, pode ser mantido o sigilo externo (por exemplo: meios de
comunicação);

- No interesse do representado: esse interesse é jurídico e vinculado à plenitude do direito de


defesa;

- Ter acesso amplo aos elementos de prova já documentados: o acesso se dá de forma


irrestrita aos atos de investigação, desde que já documentados.

- Procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária:


esse mandamento dirige-se, sem dúvidas, à polícia judiciária e aos atos realizados no curso do
inquérito policial. Entretanto, não há razão para não se estender a eventuais investigações
feitas pelo Ministério Público ou mesmo em sede de Comissões Parlamentares de Inquérito
(CPIs).

Recentemente, a Lei 13.245/2016 promoveu alterações muito importantes no art. 7º da Lei


8906/1994 (Estatuto da OAB):

O art. 7o da Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994 (Estatuto da Ordem


dos Advogados do Brasil), passa a vigorar com as seguintes
alterações:

“Art. 7o
XIV - examinar, em qualquer instituição responsável por conduzir
investigação, mesmo sem procuração, autos de flagrante e de
investigações de qualquer natureza, findos ou em andamento, ainda
que conclusos à autoridade, podendo copiar peças e tomar
apontamentos, em meio físico ou digital;

XXI - assistir a seus clientes investigados durante a apuração de


infrações, sob pena de nulidade absoluta do respectivo interrogatório
ou depoimento e, subsequentemente, de todos os elementos
investigatórios e probatórios dele decorrentes ou derivados, direta ou
indiretamente, podendo, inclusive, no curso da respectiva apuração:

a) apresentar razões e quesitos;

§ 10. Nos autos sujeitos a sigilo, deve o advogado apresentar


procuração para o exercício dos direitos de que trata o inciso XIV.

§ 11. No caso previsto no inciso XIV, a autoridade competente poderá


delimitar o acesso do advogado aos elementos de prova relacionados
a diligências em andamento e ainda não documentados nos autos,
quando houver risco de comprometimento da eficiência, da eficácia
ou da finalidade das diligências.

§ 12. A inobservância aos direitos estabelecidos no inciso XIV, o


fornecimento incompleto de autos ou o fornecimento de autos em
que houve a retirada de peças já incluídas no caderno investigativo
implicará responsabilização criminal e funcional por abuso de
autoridade do responsável que impedir o acesso do advogado com o
intuito de prejudicar o exercício da defesa, sem prejuízo do direito
subjetivo do advogado de requerer acesso aos autos ao juiz
competente.”

Considerações sobre a alteração legislativa:

 A Lei de forma expressa prevê que o advogado poderá examinar os autos de


procedimento de investigação de qualquer natureza;

 A Lei prevê a possibilidade de o advogado ter acesso aos autos do inquérito policial,
com o direito a tirar cópias e realizar apontamentos, em meio físico ou digital;

 A Lei dispõe que em regra o advogado poderá ter acesso aos autos da investigação
mesmo que não detenha procuração do investigado, com exceção dos autos que
estejam sujeitos ao sigilo, conforme art. 7º, §10;

 A Lei alude à responsabilização criminal e funcional por abuso de autoridade em


hipótese de inobservância dos direitos previstos no inciso XIV, nos termos do art. 7º,
§12;

 A Lei dispõe sobre o direito de o advogado estar presente no interrogatório e nos


depoimentos que forem colhidos durante o procedimento de apuração da infração. O
advogado poderá apresentar razões e quesitos.

 A Lei prevê que, se for negado o direito de o advogado participar do interrogatório ou


depoimento, haverá nulidade absoluta desses atos e, por consequência, nulidade
também de todas as demais provas que decorrerem deles.

- No âmbito da Defensoria Pública:

No caso da Defensoria Pública da União, há previsão semelhante a do art. 7º, XIV no art. 44,
VIII da LC 80/1994:

Art. 44. São prerrogativas dos membros da Defensoria Pública da União:


(...)
VIII – examinar, em qualquer repartição pública, autos de flagrantes, inquéritos e processos,
assegurada a obtenção de cópias e podendo tomar apontamentos;
De igual forma, o art. 87, XII da LC 6/1977 (Lei Orgânica da DPE-RJ):

Art. 87 – São prerrogativas dos membros da Defensoria Pública:


XII – examinar, em qualquer repartição policial ou judiciária, autos de flagrante, inquéritos e
processos, quando necessitar de prova ou de informações úteis ao exercício de suas funções.

É certo que o defensor público não é advogado e, com isso, não está sujeito aos ditames do
Estatuto da OAB.

Entretanto, o novo inciso XXI do art. 7º (assistir a seus clientes investigados durante a
apuração de infrações, sob pena de nulidade absoluta do respectivo interrogatório ou
depoimento e, subsequentemente, de todos os elementos investigatórios e probatórios dele
decorrentes ou derivados, direta ou indiretamente, podendo, inclusive, no curso da respectiva
apuração: a) apresentar razões e quesitos) deve ser aplicado por analogia aos Defensores
Públicos, eis que não há razão jurídica que justifique tratamento diferente em relação aos
advogados, sob pena de afronta ao princípio da igualdade.

Qual é a medida judicial a ser adotada pelo defensor se houver negativa ao pedido de vista
do inquérito policial?

Por decorrer de decisão que nega eficácia à Súmula Vinculante, o remédio processual
adequado é a Reclamação, feita diretamente ao STF, com base nos arts. 102, I, “l” e 103-A,
§3º da CF.

Isso não impede que o defensor, primeiramente, impetre Mandado de Segurança junto ao
Juízo de primeiro grau (quando a negativa de acesso for da autoridade policial) ou ao
respectivo tribunal (quando o ato coator emana de juiz).

Ademais, a Lei 13254/2016 introduziu a responsabilização criminal e funcional por abuso de


autoridade no art. 7º, §12 do Estatuto da OAB: “A inobservância aos direitos estabelecidos
no inciso XIV, o fornecimento incompleto de autos ou o fornecimento de autos em que houve
a retirada de peças já incluídas no caderno investigativo implicará responsabilização criminal
e funcional por abuso de autoridade do responsável que impedir o acesso do advogado com
o intuito de prejudicar o exercício da defesa, sem prejuízo do direito subjetivo do advogado
de requerer acesso aos autos ao juiz competente.”

- A investigação preliminar é um procedimento sujeito ao contraditório e a ampla defesa?

Posição para a prova da Defensoria Pública do RJ:

Antes de abordar o tema, cabe trazer as lições da saudosa Ada Pellegrini Grinover:

“Defesa e contraditório estão indissoluvelmente ligados, porquanto é do contraditório (visto


em seu primeiro momento, da informação) que brota o exercício da defesa; mas é esta –
como poder correlato ao de ação – que garante o contraditório. A defesa, assim, garante o
contraditório, mas também por este se manifesta e é garantida. Eis a íntima relação e
interação da defesa e do contraditório.”
A ampla defesa está consagrada no art. 5º, LV da CF, no art. 8.2 da CADH e também em
diversos artigos do CPP. Deve ser destacado que a Constituição utiliza o adjetivo ampla defesa,
enfatizando o alcance da proteção, de forma que deve ser exercida com todos os meios e
recursos a ela inerentes.

De acordo com Marta Saad em “O direito de defesa no inquérito policial”:

“Justamente por ser o inquérito uma etapa importante para a obtenção de meios de provas,
inclusive com atos que depois não mais se repetem, o acusado deve contar com assistência de
defensor já nessa fase preliminar, preparando adequada e tempestivamente sua defesa,
substancial, de conteúdo.”

De acordo com a citada professora da USP, o direito de defesa pode ser exercido de duas
formas distintas durante a investigação preliminar:

a) Exercício endógeno: é o exercício do direito de defesa que ocorre dentro dos autos da
investigação preliminar, por exemplo: o disposto no art. 14 do CPP: “O ofendido, ou seu
representante legal, e o indiciado poderão requerer qualquer diligência, que será realizada, ou
não, a juízo da autoridade.”

Neste ponto, destaca-se a nova previsão do art. 7º, XXI do Estatuto da OAB que permite a
apresentação de razões e quesitos no curso da apuração investigatória.

b) Exercício exógeno: é o exercício do direito de defesa manifestado fora dos autos da


investigação preliminar, por exemplo: a impetração de habeas corpus.

- Investigação Penal Defensiva:


Em sede da investigação defensiva, a qual se desenvolve de maneira totalmente desvinculada
da investigação estatal, cabe ao defensor traçar a estratégia defensiva no âmbito das
investigações, sem qualquer subordinação às autoridades públicas.
Há necessidade de respeitar os critérios constitucionais e legais de obtenção de meios de
provas.

Em outras palavras, enquanto na investigação pública o defensor atua como mero


coadjuvante, na investigação defensiva ele assume o papel de protagonista.

De acordo com Antonio Scarance Fernandes:

“Não há, no direito processual penal brasileiro, regra a respeito da


investigação pela defesa. Nada impede a sua realização, mas, além
de o investigado não poder contar com a colaboração da polícia,
eventuais elementos obtidos pela defesa são vistos com muita
desconfiança pelos promotores e juízes e, em regra, pouco
considerados”.

Nota-se que o autor chama a atenção para um dos principais problemas enfrentados pela
investigação defensiva, qual seja, a diferença do valor probatório dos elementos materiais
obtidos pelo defensor e pelos órgãos públicos.
- Arquivamento do Inquérito Policial:

O Ministério Público requer o arquivamento e quem arquiva é o JUIZ. A autoridade policial não
pode arquivar o Inquérito Policial, conforme já estudado.

Hipóteses autorizadoras do arquivamento do inquérito:

a) Atipicidade formal ou material;


b) Excludente da ilicitude/culpabilidade (salvo inimputabilidade);
c) Causa extintiva da punibilidade;
d) Ausência de elementos informativos quanto à autoria e materialidade.

Por sua vez, a coisa julgada se subdivide em:

a) Coisa Julgada Formal: é o fenômeno de caráter endoprocessual, no qual não se pode mais
modificar a decisão dentro da mesma relação processual. Isso não impede, contudo, eventual
rediscussão em outro processo, desde que observados os requisitos legais.

b) Coisa Julgada Material: é o fenômeno que extrapola os limites da relação processual, pois a
decisão não poderá ser modificada no mesmo ou em outro processo.

A decisão de arquivamento faz coisa julgada formal e material nas seguintes hipóteses:
a) Atipicidade formal ou material;
b) Causas extintivas da punibilidade;
c) Excludente de culpabilidade;
d) Excludente de ilicitude**

Não há entendimento pacífico sobre a excludente de ilicitude formar coisa julgada formal e
material no âmbito da jurisprudência dos Tribunais Superiores!

- No STJ, a Corte recentemente confirmou o seu entendimento de que “promovido o


arquivamento do inquérito policial pelo reconhecimento da legítima defesa (o que abrange
demais causas excludentes de ilicitude), a coisa julgada material impede rediscussão no caso
penal em qualquer novo feito criminal, descabendo perquirir a existência de novas provas”
(Resp 791471/RJ).

- Enquanto que no STF, esse tema sempre foi objeto de enorme controvérsia. Há um
precedente isolado da 1ª Turma em que se concluiu que “decisão que determina o
arquivamento de inquérito policial, a pedido do Ministério Público e determinada por juiz
competente, que reconhece que o fato apurado está coberto por excludente de ilicitude, não
afasta a ocorrência de crime quando surgirem novas provas, suficientes para justificar o
desarquivamento do inquérito, como autoriza a Súmula 524 deste Supremo Tribunal Federal”.
(HC 95211/ES).

A decisão de arquivamento produz coisa julgada formal na seguinte hipótese:

a) Ausência de elementos informativos quanto à autoria e materialidade.


Procedimento:

Caso o juiz discorde do pedido de arquivamento, ele irá remeter o inquérito ao Chefe do
Ministério Público (o Procurador-Geral de Justiça no âmbito estadual), que irá decidir se
concorda ou não com o arquivamento.

Se discordar do arquivamento, o mesmo irá oferecer denúncia ou designar outro membro do


MP para oferecê-la. Na hipótese em que houver concordância com o pedido de arquivamento,
o juiz estará obrigado a atendê-lo:

Art. 28. Se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar a denúncia, requerer o


arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de
considerar improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de
informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do
Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então
estará o juiz obrigado a atender.

OBSERVAÇÃO: O STJ e o STF não aceitam a tese do arquivamento implícito, quando o


membro do Ministério Público requer o arquivamento em relação apenas a certos fatos ou a
alguns acusados, silenciando-se quanto aos demais.

Desarquivamento:

Na hipótese em que a decisão do arquivamento do inquérito não produz coisa julgada


material, não há óbice à reabertura de investigações, caso a autoridade policial tenha notícia
de novas provas:

Art. 18. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela


autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade
policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras provas tiver
notícia.

Súmula 524: Arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a


requerimento do Promotor de Justiça, não pode a ação penal ser
iniciada, sem novas provas.

Observa-se que a regra é que, uma vez determinado o arquivamento do inquérito, a sua
reabertura é condicionada ao surgimento de notícias de novas provas, inclusive com a
possibilidade de propositura de ação penal, condicionando-se à demonstração cabal do
surgimento de novas provas.

Em razão disso, aponta-se que a decisão do arquivamento, em regra, rege-se pela cláusula
rebus sic stantibus. Mantidas as circunstâncias e pressupostos verificados quando do
arquivamento, a decisão deve se manter intangível. Por outro lado, havendo alterações no
acervo probatório, com a notícia de novas provas, é possível o desarquivamento.

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