AS ESCRITAS DE SI E ESCRITAS
SOBRE O OUTRO: CAROLINA
MARIA DE JESUS E AS DIVERSAS
POSSIBILIDADES DE LEITURAS
REVELL – ISSN: 2179-4456 - 2022– v.2, nº.35 – abril de 2023
WRITINGS ABOUT ONESELF AND WRITINGS ABOUT OTHERS: CAROLINA
MARIA DE JESUS AND THE VARIOUS POSSIBILITIES OF READING
Alessandra Correa de Souza1
Resumo: Neste trabalho escolhemos discutir as teorias e as praticas das escritas do eu e de
generos como: autobiografias, autoficçoes e outros relatos baseados em memorias individuais
e coletivas. Geralmente, nos, pesquisadores sentimos dificuldades em relacionar os textos
teoricos com as vidas e as obras das autoras e os seus respectivos textos literarios, a partir desse
lugar de rizomas e rastros resíduos. Como metodologia discursiva, o presente artigo tem como
eixo um leque de teoricos que versam sobre as escritas de si. Primeiramente sao
problematizadas as suas contribuiçoes, autocríticas e ate mesmo papeis de raça, genero e classe
frente ao texto Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus, posteriormente como guisa
discursiva entre teoria e pratica discorremos na seçao Carolina: escritora, personagem de ficção
e as diversas possibilidades de leitura - a potencia discursiva e o protagonismo de grupos que
historicamente foram representados como minorizados na literatura canonica da America
Latina.
Palavras-chave: Literaturas Afro-latino-americanas; Memorias; Escrevivencias; Carolina Maria
de Jesus; Escrita de si.
Abstract: In this work we chose to discuss the theories and practices of writings of the self and
genders such as: autobiographies, autofictions and other reports based on individual and
collective memoirs. Generally, we, researchers, feel in relating the theoretical texts with the lives
and works of the authors and their respective literary texts, from this place of rhizomes and
residual traces. As a discursive methodology, this article has as its axis a range of theories that
140
1Doutora em Letras Neolatinas pela Univerdidade Federal do Rio de Janeiro - Brasil, com bolsa
sanduíche PDSE/CAPES na Universidad Nacional Mayor de San Marcos - Peru. Professora
Adjunta da Universidade Federal de Sergipe - Brasil. ORCID iD: [Link]
4691-8592. E-mail: professoralessandra@[Link]
deal with self-writing. Firstly, her contributions, self-criticism and even roles of race, gender and
class are problematized in relation to the text Quarto de Despejo by Carolina Maria de Jesus,
later as a discursive guise between theory and practice, we discuss in the section Carolina:
writer, fictional character and the various possibilities reading - the discursive power and
protagonism of groups that have historically been represented as minorized in the canonical
literature of Latin America.
Keywords: Afro-Latin American Literatures; Memoirs; Writings;Carolina Maria de
Jesus; Writing of
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1. INTRODUÇÃO
O escritor pode apenas imitar um gesto sempre
anterior, jamais original, seu unico poder esta em
mesclar as escrituras. O texto e um tecido de citaçoes
oriundas dos mil focos da cultura.
Barthes
A palavra e o modo mais puro e sensível da relaçao
social.
Bakhtin
Em primeiro lugar, a heterogeneidade constitutiva
dos generos, sua estabilidade apenas relativa, o fato
de nao existirem formas “puras”, mas constantes
misturas e hibridizaçoes, em que a tradiçao se
equipara a abertura, a mudança e a novidade. Arfuch
Neste artigo temos como eixo estruturador desenvolver um dialogo entre
a teoria e a pratica para estabelecer uma melhor compreensao dos generos
literarios: autobiografias, diarios, memorias, autoetnografia, autoficçao e
141
outros. Assim como os conceitos de escrevivencia, de Conceiçao Evaristo; e lugar
de fala, de Djamila Ribeiro cooperam para as possibilidades de leituras dos
textos carolinianos, como tambem para unificar a teoria e a pratica das escritas
de si e do outro.
Quanto as tres epígrafes escolhidas de Arfuch, Bakhtin e Barthes, elas sao
fundamentais para os encaminhamentos entre os textos Quarto de Despejo e
Diário de Bitita de Carolina Maria de Jesus que sao pluridiversos.
Com o intuito de mapear estudiosos que debruçam suas pesquisas sobre
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a tematica das escritas de si e escritas sobre o outro, como Versiani (2015),
Arfuch (2010), Dosse (2015), Lejeune (2014), Bakhtin (2003), Figueiredo
(2013), Evaristo (2009; 2013; 2016a; 2016b), Cortes (2016), Ribeiro (2017) e
outros, oportunizamos suas contribuiçoes ao nosso texto.
Para Daniela Versiani (2015) e necessario desfazer as fronteiras entre “as
escritas de si” e as “escritas sobre o outro”. As autobiografias, os diarios, as
memorias, os testemunhos, as biografias e as etnografias estabelecem relaçoes
interacionais e nao sao campos discursivos separados. Citemos: “as identidades
de um ‘eu’ e de um ‘outro’ nao se constituem isoladamente, mas tao somente em
interaçao: o eu-se escreve-e-revela- a medida que descreve-e-revela- o outro.”
(VERSIANI, 2015, p.1.)
Versiani (2015, p.86-7) traz o conceito de autoetnografia, que e bem
produtivo para a disputa de como devemos “etiquetar” determinados textos
literarios. O conceito autoetnografia e uma alternativa conceitual util ao
pesquisador da cultura preocupado em superar, ao aproximar-se de discursos
de construçao do eu, uma serie de dicotomias que tem sido, ate ha pouco,
predominantes na reflexao teorica dedicada tanto as autobiografias quanto as
etnografias, ja que convida a pensar as dicotomias self alter ,
indivíduo/coletividade, sujeito produtor de conhecimento/objeto ou
142 subjetividade pesquisado/a como termos em continuidade, e nao mais em
oposiçao.
Daniela Versiani destaca que, a partir dessa perspectiva, o conceito de
autoetnografia poderia servir como pressuposto teorico para a elaboraçao de
estrategias de leitura, por exemplo, de coletaneas, obras coletivas ou coleçoes
de textos autobiograficos reunidos sob uma identidade coletiva.
A presença do prefixo auto, do grego autos, serviria de “lembrete” a
impedir a tendencia a supressao das diferenças intragrupos, enfatizando as
singularidades de cada sujeito-autor, enquanto o termo etno localizaria, parcial
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e pontualmente, esses mesmos sujeitos em um determinado grupo cultural.
Assim, poderíamos pensar em autoetnografias como espaços comunicativos e
discursivos atraves dos quais ocorre o “encontro de subjetividades” em dialogo.
De certa forma, tambem poderia ser empregado na leitura de cartas, e-
mails, obras escritas em forma dialogica, coautorias, etc. Versiani (2015)
ressalta que o conceito autoetnografia tambem parece produtivo em estrategias
de leitura de discursos de construçao de eus mais “tradicionais”, tais como
autobiografias e memorias, que enfatizam os processos de reflexao do sujeito
(auto) sobre sua propria inserçao social, historica, identitaria em uma diferente
coletividade (etno) ou coletividades.
Nesses casos, o conceito de autoetnografia permite que o subjetivo e o
coletivo nao sejam mais percebidos como noçoes opostas, mas em continuidade
esta que vai se estabelecendo atraves da identificaçao parcial e pontual do
sujeito com “identidades” por ele percebidas como coletivas.
Tomamos de emprestimo a argumentaçao da teorica de maneira integral
para iluminar o nosso percurso de comparaçao entre o seu discurso e de
teoricos que compoem esta seçao, visto que sua analise sobre o termo
autoetnografia e de extrema importancia para os textos literarios de Carolina
Maria de Jesus. 143
Ela ressalta que o coletivo e o subjetivo nao sao opostos. Pelo contrario,
cria um neologismo necessario ao nosso ponto de vista argumentativo. Nao
podemos analisar os textos literarios atuais com teorias do passado e de um
outro contexto cultural que nao nos atendem como sujeitos diversos.
Ja, Arfuch (2010) problematiza Lejeune(2014) quanto ao conceito
espaço biográfico e pelas leituras feitas, vemos que a teorica argentina questiona
o mesmo Versiani(2015). Se a primeira cria um neologismo para atender as
nossas subjetividades e identidades contemporaneas, a segunda propoe
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relaçoes sem hierarquias e afirma que autores eurocentricos e do passado,
representados como universais, nao atendem ao momento e a heterogeneidade
atual. Citemos: (...) a biografia/testemunho de Victor Hugo, a autobiografia
“falada” de Sartre, diversos relatos de vida etc.) nao configuram um horizonte
interpretativo capaz de dar conta da enfase bibliografica que caracteriza o
momento atual. (ARFUCH, 2010, p.58.)
Com o mesmo ponto de vista, Francis Dosse (2015) e Mikhail Bakhtin
(2003) contribuem em nossa perspectiva de relaçoes entre os generos ao
afirmarem que entre biografia e autobiografia nao ha fronteiras. A saber:
Entendo por biografia ou autobiografia (descriçao de uma vida) a forma
transgrediente imediata em que posso objetivar artisticamente a mim mesmo e
minha vida (BAKHTIN, 2003, p.139.)
Dosse (2015) destaca a importancia do genero biografico, que
antigamente era considerado menor e que hoje tem sido um tema importante
para escritores, historiadores e pesquisadores em ciencias humanas. Para esse
autor: A biografia, genero híbrido, se situa em tensao constante entre a vontade
de reproduzir um vivido real passado, segundo a regra da mimesis e o polo
imaginativo do biografo. (DOSSE, 2015, p.55.)
Em uma outra perpectiva, Phillipe Lejeune (2014) afirma que nao ha
144 relaçoes entre os generos biografia e autobiografia, romance e autobiografia. Ele
define autobiografia como: narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa
real faz de sua propria existencia, quando focaliza sua historia individual, em
particular a historia de sua personalidade. (p.16)
Ao passo que Lejeune (2014) se diferencia dos teoricos ate aqui
destacados ao estabelecer que nao ha relaçoes entre biografia e autobiografia,
se contradiz ao apresentar os generos vizinhos da autobiografia: memorias,
biografia, romance pessoal, poema autobiografico, diario, autorretrato ou
ensaio. Entendemos que, para o teorico frances, o pacto inicial começa quando
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o personagem nao tem nome na narrativa e o autor e o narrador sao identicos,
como podemos vislumbrar na obra Diário de Bitita(1986).
Ele tambem se posiciona a partir da perspectiva do leitor para definir
autobiografia. Cabe cita-lo, pois cremos que sua proposiçao e valida quanto ao
texto literario citado: A identidade se define a partir de tres termos: autor,
narrador e personagem. Narrador e personagem sao as figuras as quais
remetem, no texto, o sujeito da enunciaçao e o sujeito do enunciado. O autor,
representado na margem do texto por seu nome, e entao o referente ao qual
remete, por força do pacto autobiografico, o sujeito da enunciaçao. (LEJEUNE,
2014, p.42.)
Lejeune utiliza as teorias de Gerard Genette para classificar a identidade
entre narrador e personagem principal como narrador autodiegetico, mas
tambem afirma que e possível haver obras literarias escritas na terceira pessoa
verbal, como tambem na segunda pessoa verbal, e cada uma delas provoca
efeitos diferentes. Interessante destacar que Lejeune e o unico teorico escolhido
nesta seçao que diferencia biografia e autobiografia, e nao iremos nos
aprofundar nas diferenças estabelecidas por tal estudioso, mas sim destacar
algo que achamos de extrema relevancia para este dialogo.
Em “O pacto autobiografico (bis)”, Lejeune(2014) faz uma autorreflexao 145
sobre suas publicaçoes anteriores; isso, sim, achamos produtivo e dialoga
diretamente com a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus.
Voltemos a Lejeune, que revisita seu texto inicial “O pacto autobiografico”
e faz um caminho de autoanalise, sobretudo a partir das críticas feitas a seu
primeiro texto. Citemos: Autobiografia (...) obra literaria, romance, poema,
tratado filosofico etc., cujo autor tem a intençao, secreta ou confessa, de contar
sua vida, de expor seus pensamentos ou de expressar seus sentimentos. A
autobiografia abre um grande espaço a fantasia e quem a escreve nao e
absolutamente obrigado a ser exato quanto aos fatos, como nas memorias, ou a
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dizer toda a verdade, como nas confissoes. (LEJEUNE, 2014, pp.62-3.)
Na mesma linha discursiva, modaliza as terminologias “contrato” e
“pacto”, que podem oferecer alguns perigos e suscitar mal-entendidos por parte
da crítica. O teorico frances coloca-se na posiçao de leitor para definir
autobiografia. Tanto que afirma que “e preciso admitir que podem coexistir
leituras diferentes do mesmo texto, interpretaçoes diferentes do mesmo
‘contrato’ proposto. O publico nao e homogeneo.” (LEJEUNE, 2014, p.67.)
Com essas contribuiçoes vemos que o proprio crítico, ao construir suas
autoanalises como pesquisador, se coloca tambem como um estudioso aberto as
críticas e capaz de usa-las para nosso crescimento profissional e academico. Na
mesma perspectiva, Figueiredo (2013) destaca que, a partir da decada de 1980,
ha um crescimento como tambem bastante diversificaçao nas escritas de si.
Ressalta o surgimento do termo “autoficçao”, que contribuiu para trazer mais
dificuldade em identificar e analisar alguns textos literarios. Enfatiza que os
romances mais atuais trazem em seu enredo uma carga de escritas de si.
Apos a leitura da estudiosa, depreendemos que os textos literarios Becos
da Memória (2013) e Ponciá Vicencio (2003), de Conceiçao Evaristo, cumprem
esse novo paradigma da autoficçao, ou seja, possuem elementos biograficos
presentes no paratexto ou no proprio texto.
146
Em relaçao a este ultimo, a propria autora em uma entrevista diz que a
pessoa que a estava entrevistando errou seu nome e a chamou de Poncia
Vicencio. Interessante destacar que Figueiredo, em “A morte do autor”
historiciza as contribuiçoes de Barthes e Foucault em um outro subcapítulo,
intitulado “As escritas (auto)biograficas: a volta do autor”. Figueiredo enfatiza -
“a preocupaçao de distinguir o sujeito empírico daquele que fala de si nos
relatos autobiograficos, na perspectiva da narratologia.” (FIGUEIREDO, 2013,
p.24).
Na pintura, o autorretrato e um correspondente da escrita
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autobiografica, como “As meninas”, de Velasquez, um exemplo de
metalinguagem, onde o pintor se projeta no quadro. Em um novo subcapítulo,
Figueiredo traz as contribuiçoes de Phillipe Lejeune (2014) sobre o pacto
autobiografico e faz uma especie de resumo das ideias gerais do teorico frances;
o que cremos que seja profícuo, e que o proprio Lejeune, na ediçao que
trabalhamos, se contradiz e aceita as críticas dos teoricos para repensar
algumas pontuaçoes inflamadas que podem gerar ambiguidades.
Se, a luz dos teoricos os conceitos de autobiografia, autoetnografia,
autoficçao, espaço biografico ja foram delimitados, trazemos a baila o genero
“diario”, que deve ser destacado antes mesmo do saber etimologico do mesmo.
Tomamos o título do livro brasileiro publicado em 1986: Diário de Bitita. Por
mais que tenha o nome “diario”, o texto nao e um diario, pelo menos nao o
observamos como tal. Justificamos o uso do termo, a partir da traduçao do
frances ao portugues, pois “tratava-se originalmente de um adjetivo (diurnalis)
que queria dizer quotidien (quotidiano)” (LEJEUNE, 2014, p.300).
Apos a analise dos manuscritos originais de Carolina Maria de Jesus no
Instituto Moreira Sales, reiteramos que ha diversos generos em um unico livro;
a editora recortou e organizou as historias diversas contadas pela menina Bitita
em capítulos, que sao bem semelhantes a um romance autobiografico,
147
autoetnografia, autoficçao, memorias e outros.
O texto de Diario de Bitita(1986) de Carolina Maria de Jesus e tao rico
que o podemos encaixa-lo em diversos argumentos aqui representados. Pois
bem, diario e obra ou genero literario cuja narrativa e feita atraves de um
conjunto de registros mais ou menos diarios, geralmente de carater íntimo.
Segundo Figueiredo (2013, p.29), trata-se, em princípio, de textos
manuscritos, em cadernos ou cadernetas. Pode-se usar tambem agendas ou
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ainda escrever em folhas soltas. No subcapítulo “Diarios de escritoras”,
Figueiredo traz o seu posicionamento frente ao texto Quarto de Despejo que
refutamos, pois e a partir desse discurso que a teorica apresenta o texto literario
de Carolina Maria de Jesus como mediado por Audalio Dantas.
Observemos:
No seculo XX, um diario de uma mulher negra e pobre teve enorme
repercussao no Brasil, Quarto de Despejo: diário de uma favelada
[1960], de Carolina Maria de Jesus, obra bastante marginal, que
poderia ser classificada como literatura testemunho, escrita com a
mediação do jornalista Audálio Dantas. (FIGUEIREDO, 2013, p. 37,
grifos nossos).
Eurídice Figueiredo (2013) ao classificar Carolina Maria de Jesus como
uma mulher negra e favelada, nao a marginaliza, pois destaca o seu lugar de fala;
no entanto, a professora utiliza o discurso hegemonico de que a escrita nao e o
seu lugar, ao delimitar que a obra e bastante marginal e que foi mediada por
Audálio Dantas.
Na mesma proposiçao omite que o livro teve diversas ediçoes, foi
traduzido em mais de 30 idiomas. Refutamos categoricamente a assertiva de
Figueiredo, a partir de dados sobre Carolina Maria de Jesus de nosso acervo de
pesquisa, a escrita nao foi mediada; esse termo desautoriza a escrita de Carolina
148 Maria de Jesus. E um argumento racista e classista da estudiosa em destaque.
A nossa hipotese e que, a partir da teoria do ponto de vista feminista, e
possível falar de lugar de fala. Ao reivindicar os diferentes pontos de analises e
a afirmaçao de que um dos objetivos do feminismo negro e marcar o lugar de
fala de quem as propoem, percebemos que essa marcaçao se torna necessaria
para entendermos realidades que foram consideradas implícitas dentro da
normatizaçao hegemonica (...) nao se trataria de afirmar as experiencias
individuais, mas de entender como o lugar social que certos grupos ocupam
restringe oportunidades.
O falar nao se restringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir.
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Pensamos lugar de fala como forma de refutar a historiografia tradicional e a
hierarquizaçao de saberes consequente da hierarquia social. (Cf. Ribeiro, 2017,
pp.59-61;64.)
Para contribuir a problematizaçao dos termos racistas e classistas
construídos por Euridíce Figueiredo(2013), o conceito de escrevivencia de
Conceiçao Evaristo (2016a; 2016b), assim como o lugar de fala, de Djamila
Ribeiro (2017) e a contribuiçao de Dalcagastne (2008, p.97), vale a pena citar -
“Carolina Maria de Jesus constroi, enfim, uma narrativa repleta de significados
e de ambiguidades, onde a protagonista e, antes de tudo, mulher, trabalhadora,
mae e escritora. A miseria nao apaga nada disso.”
Para os estudiosos Munanga e Gomes (2016) - a obra Quarto de Despejo,
escrita por uma moradora de favela, negra, semianalfabeta, causou um grande
impacto nos meios academicos. Carolina Maria de Jesus jamais poderia
imaginar o poder explosivo que estava contido em seus diarios. Quarto de
Despejo alcançou sucesso inesperado e impressionante. Sua primeira ediçao, de
10 mil exemplares, esgotou em menos de uma semana. O livro foi traduzido para
cerca de trinta idiomas, merecendo sucessivas reediçoes com tiragens
superiores a 100 mil unidades. A obra foi adaptada para teatro, radio, televisao
e cinema, sempre com grande sucesso. Carolina Maria de Jesus tambem
149
publicou outras: Diário de Bitita, Casa de Alvenaria, Crônicas, Pedaços da Fome e
outros. (MUNANGA E GOMES, 2016, p.202.)
O termo escrevivencia, alcunhado por Conceiçao Evaristo, e de suma
relevancia para o entendimento de que por mais que haja diversos generos
literarios, as escritas de si de Carolina Maria de Jesus nao podem ser reduzidas
a etiquetas singulares. Para, Cristiane Cortes, a palavra (escre)vivencia e um
neologismo que, por uma questao morfologica, facilmente compreendemos do
que se trata. A ideia de juntar escrita e experiencia de vida esta em varios textos
ligados a literatura contemporanea. Entretanto, Evaristo se apropria do termo
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para elucidar o seu fazer poetico. (CORTES, 2016, p.52.)
Ja Borkosky (2013), diferentemente dos autores citados, afirma que
autobiografias, cartas, memorias, relatos de viagens sao representados como
autodiscursos e sao construídos desde a Antiguidade. Toda escrita esta
condicionada por um marco historico, geografico e ideologico que a determina
como produto cultural de um momento determinado. (BORKOSKY 2013,
p.13;17)
Eurídice Figueiredo (2013) define autobiografia e memorias: “a
primeira consiste na reconstituiçao e narraçao da vida daquele que escreve,
enquanto as memorias sao mais abrangentes e recriam todo o mundo social.”
(FIGUEIREDO, 2013, p.48).
Concordamos com a teorica brasileira especifica que na teoria e facil
diferenciar a autobiografia das memorias, no entanto, na pratica, sobretudo nos
textos literarios atuais, a linha de divisao e tenue e em alguns autores, como
Conceiçao Evaristo, e bem difícil identificar tal diferença. Daí retomamos a
argumentaçao de Versiani (2015) que iniciamos o debate: todas as escritas de
si e escritas do outro estao entrelaçadas e propoem uma nova terminologia.
Na mesma corrente, tomamos as contribuiçoes de Elizabeth Jelin (2002)
150 sobre as memorias e as historias no plural. Se analisamos as versoes das
historias oficiais e nao oficiais começamos a enxergar como tem sido o processo
de construçao de memorias individuais e coletivas em diversas epocas na
America Latina e como tem funcionado esse resgate de ouvir ou estabelecer a
escrita de todos sem que haja hierarquias, e sim diversidade. Cabe citar:
(...) a memoria tem um papel altamente significativo, como
mecanismo cultural para fortalecer o sentido de pertencimento a
grupos ou comunidades. Frequentemente no caso de grupos
oprimidos, silenciados e discriminados, a referencia a um passado
comum permite construir sentimentos de autovalorizaçao e maior
confiança em si mesmo e no grupo. (JELIN, 2002, p.9-10).
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Com essa citaçao, finalizamos a introduçao teorica sobre os discursos do
eu e do outro para depreender como Carolina Maria de Jesus e de suma
importancia ao debate desses novos textos literarios, como tambem para
reflexao sobre os papeis sociais do racismo estrutural e estruturante em ainda
fomentar estudos de textos literarios em muitos casos eurocentricos e escritos
por homens brancos do sudeste ou estrangeiros nos ementarios de diversas
universidades no Brasil.
1 - CAROLINA: ESCRITORA, PERSONAGEM DE FICÇÃO E AS DIVERSAS
POSSIBILIDADES DE LEITURAS
A literatura nao e produzida em
suspensao, nao se trata de algo em
suspensao no ar. Ela provem de um
lugar, ha um lugar incontornavel de
emissao da obra literaria. Glissant
O corpo negro se constitui e se
redefine na experiencia da diaspora
e na transmigraçao, por exemplo, da
senzala para o quilombo, do campo
para a cidade, do nordeste para o
sudeste e vice-versa.
Beatriz Nascimento 151
Ao estudar as historias das Americas, identificamos o diverso proposto
por Glissant (2005) e constatamos que a raiz unica destacada em verso e prosa
por muitos pesquisadores ainda se atrela aos pares dicotomicos, como
colonizador/colonizado, ou branco/negro. Cremos, no entanto, que essas
antíteses nao nos levarao a novas utopias, tampouco as mudanças significativas
no contexto sociopolítico das Americas. Devemos pensar nossas riquezas
culturais como um rastro/resíduo. Os rastros/resíduos trazidos pelos negros as
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Americas pelo trafico negreiro, foram se transformando em identidades
culturais para reafirmar as pluralidades que lhes foram roubadas nas travessias
entre os oceanos.
Podemos identificar esses traços na musica, na dança, na religiao e em
tantas outras maneiras de revalorizaçao da herança africana. Glissant nos ajuda
a repensar os rastros/ resíduos trazidos desde que o primeiro negro pisou em
solo americano. Ja no navio negreiro por imposiçao dos escravagistas da epoca,
colocaram os “seres humanos” encaixotados e amarrados, onde os
“alimentavam” e ali mesmo faziam suas necessidades basicas.
Os que nao suportavam o “bom” atendimento a bordo eram jogados ao
mar e, para completar, colocavam homens e mulheres de etnias diferentes bem
proximos, para dificultar a comunicaçao, para evitar conflitos na travessia e as
unioes entre os escravizados para futuras rebelioes no novo continente.
O elemento linguístico e as rivalidades de alguns grupos etnicos
favoreceram aos traficantes em certa medida; contudo, as “relaçoes”, assim
como a “crioulizaçao, sao imprevisíveis, ja que o ser e a relaçao com o outro, nao
e raiz unica, somos raízes indo ao encontro de outras raízes”. (GLISSANT, 2000,
p.18)
152 Carolina Maria de Jesus e exemplo dessa imprevisibilidade dos novos
contextos atuais. A autora tenta buscar o diverso e as outras raízes em seus
discursos de denuncia e utiliza a escrita como elo de (res)significaçao nas obras
Quarto de despejo – diario de uma favelada [(1960)1995], Diario de Bitita
(1986) e em outras obras.
Para Joel Rufino dos Santos, Carolina Maria de Jesus nao teve lugar
reconhecido na historia de nossa literatura, ate hoje. O autor enfatiza, que por
meio de Jesus, em Quarto de despejo [(1960)1995;2000], podemos avistar
melhor os acontecimentos, ou serie de acontecimentos, tao distantes entre si, o
populismo, a origem das favelas, o racismo, o golpe de 64, o exodo rural, etc.
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Carolina foi o que os dicionarios chamam de grafomaníaca: pessoa com
tendencia compulsiva, doentia, a fazer registros graficos, rabiscos e,
especialmente, escrever em qualquer superfície ou material imediatamente
acessível (SANTOS, 2009, pp.22-5).
Diario de Bitita (1986) nao teve a mesma projeçao que Quarto de despejo
– diario de uma favelada [(1960)1995;2000]; aquele teve apenas duas ediçoes
em portugues, foi publicado em 1982, em frances, pelas jornalistas que
recolheram os cadernos manuscritos de Carolina Maria de Jesus quando a
entrevistaram em 1975.
Considerando que a crioulizaçao e imprevisível, podemos vislumbrar a
maneira como Carolina Maria de Jesus, em Quarto de despejo – diario de uma
favelada e Diario de Bitita abraça as poucas oportunidades que lhes sao
dispensadas como bussolas, sobretudo de denuncia ao sistema, pois, se a escrita
foi imposta pelo discurso do poder na epoca das “descobertas” do Novo Mundo,
nada mais significativo que hoje sirva para trazer a baila as memorias de si e
sobretudo ir ao encontro dos rizomas e de outras raízes.
As memorias, as historias e as trajetorias nao nos encerram como
vencidos, pois do rastro/resíduo que se construiu dessa Africa negada aos
nossos antepassados, em contato com as raízes diversas. se constroi a 153
crioulizaçao – o mundo se criouliza. (GLISSANT, 2000, p.17)
Utilizemos a metafora do mar mediterraneo como mar aberto, mar de
transito, de passagens e encontros e de circularidade para (re)pensar muitas
questoes que nao podem ser elucidadas sem que olhemos para os indivíduos
fora da logica da razao indolente (SANTOS, 2009), sem que procuremos as
narrativas que muitos desconhecem por ficarem ocultas ou ocultadas nas
brumas do cotidiano. Apesar de “esquecidas”, porque nao sao registradas em
livros, historias brotam, nascem-morrem todos os dias. Historias jazem nas
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memorias dos sujeitos a espera de quem as registre, de quem as decifre.
Desse modo, buscamos balizar nossa argumentaçao nos dialogos e nas
interseçoes sobre a personagem e autora Carolina Maria de Jesus no passado e
no presente. A experiencia social em todo o mundo e muito mais ampla e variada
do que a tradiçao política e filosofica ocidental conhece e valoriza (Santos, 2009,
p.30).
O pensamento desse autor nos fez refletir a respeito das racionalidades
outrora (in)visibilizadas pela razao indolente. Ha, neste momento, um
desperdício da experiencia social em funçao daquilo que o autor chama de um
modelo de racionalidade que funciona no/com o apagamento de outras
racionalidades possíveis.
O que ha de comum entre a personagem Carolina e a autora Carolina
Maria de Jesus? Quais sao os interditos e os nao ditos dessa narradora e
personagem? Cremos que, para essa mulher, a razao indolente nao seria um
impedimento para a desconstruçao do discurso hegemonico, a fim de
(res)significar os espaços demarcados e supostamente destinados a mulher
negra.
A experiencia social que Carolina Maria de Jesus partilha tece outras
154 redes para a desconstruçao do discurso do “poder” que, segundo Marilena Chauí
(1982), unifica classes, e neutro, historico e atemporal. Essa suposta unificaçao
e hierarquizada, assimetrica, desigual; funciona como um veu que invisibiliza a
diversidade.
Cheguei em casa, alias no meu barracao, nervosa e exausta. Pensei na
vida atribulada que eu levo. Cato papel, lavo roupa para dois jovens,
permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta. (JESUS,1995,
p.9).
Ja que a questao racial esta presente em nossa sociedade ora como tema
de analise, ora como objeto de preocupaçao, nos propomos a refletir sobre a
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apropriaçao do passado, nao para conhece-lo “como ele foi de fato”, mas para
sabe-lo como uma possível ameaça ao presente.
Numa perspectiva social, ha sentido e significaçao nessas praticas, cujo
significado se realiza atraves de um conjunto de fatores sociais. Nao sao palavras
o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou
mas, importantes ou triviais, agradaveis ou desagradaveis, etc. A palavra esta
sempre carregada de um conteudo ou de um sentido ideologico ou vivencial. E
assim que compreendemos as palavras e somente reagimos aquelas que
despertam em nos ressonancias ideologicas concernentes a vida. (BAKHTIN E
VOLOSHINOV, 1981, p.95.)
E necessario rediscutir o que outrora fora compreendido, pela razao
ocidental, como fragmentaçao. Seria possível observar, sob outras perspectivas,
sujeitos como as personagens citadas e suas experiencias sociais e
racionalidades como um terceiro discurso (OLIVEIRA E ALVES, 2006), cujo
enredo nao necessariamente seria o reverso ou a rejeiçao do pensamento
hegemonico. Terceiro discurso seria o que foge aos padroes e aos significados
das praticas racistas.
De acordo com Santos (2009, p.46), Carolina nao trilhou os caminhos de
ascensao costumeira dos negros no país da democracia racial: futebol, musica, 155
burocracia. Naturalmente houve antes dela muitos negros escritores – que vao
dos conhecidíssimos Cruz e Souza e Lima Barreto, as menos conhecidas Auta de
Souza (1876-1901) e Maria Firmina (1825-1917). Houve mesmo uma imprensa
negra na Sao Paulo que se industrializava, mas muito poucos ganharam a vida
com letras.
Para Andrade (2012), Carolina de Jesus foi assunto em publicaçoes
nacionais e internacionais, com reportagens nas revistas: Life, Paris Match,
Epoca, Realite e New York Times. Seu livro foi traduzido para cerca de treze
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idiomas (holandes, alemao, frances, ingles, checo, italiano, japones, castelhano,
dinamarques, hungaro, polones, sueco e romeno), com sucessivas reediçoes,
circulando em quarenta países.
A tiragem inicial do livro, que seria de tres mil exemplares, foi de trinta
mil, esgotando-se em tres dias somente na cidade de Sao Paulo. Assim, iniciou-
se o “periplo” de sonho concretizado pela favelada: viajou ao Uruguai, a
Argentina e ao Chile; foi entrevistada por jornalistas brasileiros e estrangeiros;
reuniu-se com prefeitos e governadores; foi convidada para festas de ricos e
famosos. Com esses tres dias de vendas, o livro superou todas as expectativas
dos editores e passou a ocupar o primeiro lugar nas seçoes literarias dos jornais.
Na lista dos mais vendidos na epoca passou a figurar Carolina Maria de
Jesus em primeiro lugar, seguida de Bertrand Russel (2º lugar), Marechal
Montgomery (3º lugar), Graham Greene (4º lugar) e Jean Paul Sartre (5º lugar).
Para problematizar e exemplificar melhor a relaçao entre as personagens,
trazemos trechos de duas obras de Carolina Maria de Jesus, que auxiliam o
entendimento das diversas personagens escritas por essa autora. Citemos:
Voces sao incultas, nao pode compreender. Vou escrever um livro
referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que
voces me fazem. Eu quero escrever o livro, e voces com estas cenas
desagradaveis me fornece os argumentos. (JESUS, 1995, p. 17).
156 Trabalhamos quatro anos na fazenda. Depois o fazendeiro, nos
expulsou de suas terras (...) Por que e que nos nao podíamos ter
terras para plantar. (Jesus, 1986, pp.135-7.)
“Se alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a
mandar” (ARISTOTELES, 2006, p.22), e preciso questionar os mecanismos que
mantem alguns grupos presos a um estereotipo. O pensamento de Aristoteles
ratifica a nossa compreensao a respeito da perpetuaçao de padroes do discurso
hegemonico. Ha outros discursos a serem proferidos, ouvidos e aceitos tao
validos ou autorizados, porque narram taticas que deflagram movimentos
outros, nao hegemonicos, que pressupoem uma estetica e uma etica
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diferenciadas ou a reversao de uma hegemonia.
Carolina, em seu livro Quarto de despejo, descreve sua insatisfaçao
política, sobretudo sua experiencia de residir em uma favela. Narra seu
descontentamento em relaçao as pessoas do lugar onde mora. E na escrita que
essa mulher se liberta do ambiente que rejeita, no qual nao se reconhece. A
favela e o quarto de despejo da cidade. Para a autora, essa condiçao a encerrava
em um caos do qual transcendia em seus sonhos de dias melhores em uma casa
de alvenaria – outra forma de atingir a condiçao de cidada que lhe fora negada,
pois o centro da favela tambem e a margem.
Ou seja, “a ideia de centro e de periferia nao tem base geografica nem
científica, e apenas e tao somente definida pelo poder de que desfrutam os
grupos que habitam uns ou outros espaços.” (OLIVEIRA, 2008, p.29.) Nesses
espaços, pulsam praticas e outras narrativas que nao se restringem a
lamentaçao social, do sentimento de despertencimento, da perda, conforme os
estudos de Certeau (1994), que ensinam a perceber os pormenores – no
cotidiano ha mil formas de fazer e de romper o discurso do poder. O meu sonho
era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa
confortavel, mas nao e possível (...) o desgosto que tenho e residir em favela.
(JESUS, 1995, p.19.)
157
Carolina e uma leitora apaixonada, autodidata, le o mundo com os oculos
da teoria que nao foi ensinada nos poucos anos de experiencia escolar. Teoria
da vida, da subversao dos discursos, da autonomia de quem se apropria do
discurso hegemonico para criticar/questionar aqueles que parecem ter sido
engolidos pela fome do obvio quando rotulados como subalternizados.
Os textos literarios Quarto de Despejo e Diario e Bitita podem ser lidos
como literatura de testemunho, diario, memorias autobiografia, entre outros;
por exemplo, tomando o discurso de Phillipe Lejeune (2014, p.18): “para que
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haja autobiografia (e numa perspectiva mais geral, literatura íntima), e preciso
que haja relaçao de identidade entre o autor, o narrador e o personagem.”. Para
enriquecer a discussao sobre os generos a que Quarto de Despejo e Diario de
Bitita pertencem, alem das contribuiçoes de Lejeune, utilizamos termos como
autoficçao, autobiografia, como propostos por Eurídice Figueiredo (2013) e
alguns outros autores que discutem a tematica.
A primeira interpretaçao de Diario de Bitita (1986) e que Carolina Maria
de Jesus se apropriou das memorias individuais e recortou fatos do passado
para expressar a violencia e a exclusao sofridas da infancia a fase adulta. A
escrita funciona como uma catarse e tambem como ato simbolico de redefiniçao
de seus papeis sociais como escritoras, mulheres e cidadas politizadas.
Nesta obra, a narradora autodiegetica recria personagens da infancia,
moradores e familiares do interior de Minas Gerais, resgata a maneira como
aprendeu a ler, sobretudo o papel da leitura no decorrer de sua vida, representa
a utopia de uma jovem que almejava alçar novos voos na capital economica do
Brasil.
Traz críticas sociais, questionamentos sobre racismo, sexismo e genero,
por intermedio do discurso narrativo em que coincidem autora, narradora e
personagem. Ja a narradora autodiegetica, Os elos que unem os enredos das
158 obras sao a tomada de consciencia política e a reivindicaçao das personagens,
orquestradas por narradoras que utilizam a primeira pessoa verbal tanto em
Quarto de Despejo como em Diário de Bitita.
Em pesquisas sobre Carolina Maria de Jesus observamos que o livro
Diario de Bitita partiu de memorias da infancia da autora. Ela utilizava cadernos
manuscritos para registrar suas recordaçoes e os entregou para duas
jornalistas, em 1970.
A autora faleceu sete anos apos a entrega dos cadernos as jornalistas
francesas e infelizmente nao teve acesso ao projeto final de seu livro. Na
verdade, o título manuscrito feito pela autora – Um Brasil para Brasileiros – foi
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modificado pelas jornalistas para publicaçao francesa. O título inicial era ser
pobre e: “sera que vamos ter um governo que prepara um Brasil para os
brasileiros?”.
A questao expoe uma das críticas emblematicas da narradora sobre a
construçao ideologica do colonialismo quanto a se valorizar mais os
estrangeiros europeus em detrimento da populaçao brasileira, sobretudo a mao
de obra explorada que contribuiu para a construçao do país, os negros raptados
e trazidos de seu continente para serem escravizados nas fazendas de açucar,
algodao e cafe.
Jesus e relembrada pela crítica, sobretudo por sua obra Quarto de
despejo – diario de uma favelada [2000;1995(1960)]. Contudo, cabe ressaltar
que, desde o início deste artigo ate o presente momento, novas teses,
dissertaçoes, artigos científicos estao sendo publicados sobre as demais obras
literarias da autora, resgatando sua importancia para a literatura brasileira.
Carolina Maria de Jesus sonhava em publicar seus livros para sair do
quarto de despejo e projetava uma vida feliz na casa de alvenaria; sua meta
pessoal era ser poetisa. Acreditamos que, se tivesse vivido hoje e recebido
críticas bem fundamentadas sobre seu acervo literario, teria tido uma vida mais
harmoniosa. 159
Como se diz na sabedoria popular, “os poetas sao imortais”; assim e a
Bitita do passado, presente e futuro. Para a estudiosa Guimaraes Lopes (2000),
Diario de Bitita nao possui uma estrutura de diario por apresentar uma divisao
em capítulos e por nao ter uma ordem cronologica. “As jornalistas Clelia Pisa e
Maryvanne Lapoupe, juntamente com a editora Anne Marie Metaille, doaram
copias da ediçao de dois cadernos de Carolina Maria de Jesus – que nos anos de
1970, a escritora havia deixado com elas. Esses cadernos contem anotaçoes do
trabalho de traduçao realizado por Regine Valbert e estabelecido por Metaille,
que deram origem ao Journal de Bitita, publicado em 1982, ocasiao em que
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recebeu diversos premios.
As duas versoes publicadas no Brasil sao resultado da traduçao dessa
versao francesa do livro, publicado primeiramente na França. Ainda assim, esta
baseada em recordaçoes, associaçoes de imagens e ideias e com um estilo mais
proximo ao de um romance. Infelizmente, a autora brasileira faleceu em 1977,
mas nos deixou textos literarios, como romances, contos, letras de musica,
memorias, diarios que vem sendo descobertos por essa nova safra de
pesquisadores, como Germana Henriques Pereira Sousa, Eliane da Conceiçao
Silva, Mario Augusto Medeiros da Silva, entre outros.
ENCAMINHAMENTOS FINAIS
Como possibilidades finais de jornada discursiva, afirmamos o que foi
proposto em nossa introduçao teorica juntamente com a seçao sobre Carolina
Maria de Jesus, sobretudo, o nosso papel como pesquisadora organica foi bem
discutido, trouxemos os lugares sociais do heterocispatriarcado como um locus
social que ainda ocupa centralidade nos estudos de genero e nas escritas de si.
Na mesma perspectiva, destacamos que as escritas de Carolina Maria de
160
Jesus sao plurais e as teorias precisam ser repensadas nao apenas no lugar de
“etiquetas” como bem pontuamos. Outro ponto a ser destacado e que as teorias
eurocentricas nao conseguem dar conta de nossas diversidades na America
Latina, em especial em nosso país.
E nao menos importante, destacar que o colonialismo e a hierarquizaçao
imposta pela modernidade capitalista desde a invasao do continente africano e
das Americas, ainda se faz presente, quando se pode exemplificar no texto
teorico sobre as escritas de si - uma assertiva racista e classista da professora
da Universidade Federal Fluminense, Eurídice Figueiredo(2013) que classificou
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Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus como um texto bastante
marginal e que foi mediada por Audálio Dantas. Por fim, esperamos ter
conseguido alinhar as teorias das escritas de si e do outro e a vida e a obras de
Carolina: escritora, personagem de ficção e as diversas possibilidades de leituras.
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REVELL – ISSN: 2179-4456 - 2022– v.2, nº.35 – abril de 2023
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Aceito em 08/09/2023.
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