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Diagnóstico e Tratamento da Asma Infantil

Artigo medicina

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Lethicia Beatriz
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J Bras Pneumol.

2024;50(1):e20240051 EDUCAÇÃO CONTINUADA:


[Link] PNEUMOLOGIA PEDIÁTRICA

Diagnóstico e tratamento da asma na


infância: uma visão geral das diretrizes
Laissa Harumi Furukawa¹a, Laura de Castro e Garcia¹a, Marina Puerari Pieta¹a,
Miguel Ângelo de Castro1a, Leonardo Araújo Pinto1,2a, Paulo M Pitrez3a

A asma é a doença respiratória crônica mais comum na MANEJO DE EXACERBAÇÕES GRAVES


infância em todo o mundo, com aproximadamente 15% As exacerbações graves representam uma piora aguda
das crianças e jovens afetados.(1) Esta revisão fornece ou subaguda dos sintomas e da função pulmonar em
um resumo conciso do diagnóstico e manejo da asma relação ao estado habitual do paciente ou, em alguns
pediátrica, beneficiando os profissionais de saúde em casos, um paciente pode apresentá-los pela primeira vez
diversos locais de saúde infantil. durante uma exacerbação. O objetivo do manejo é aliviar
rapidamente a obstrução do fluxo aéreo brônquico e a
DIAGNOSTICANDO ASMA EM CRIANÇAS hipoxemia, abordar a fisiopatologia inflamatória subjacente
e prevenir recaídas. Os seguintes procedimentos devem
Na prática, o diagnóstico de asma deve ser estabelecido
ser seguidos em todos os ambientes de PS(1):
considerando padrões de sintomas característicos. A
• Avaliar a gravidade da exacerbação com base na
asma se distingue por sintomas flutuantes, que podem
dispneia, frequência respiratória e saturação de
incluir sibilância, dispneia, aperto no peito e tosse. oxigênio; iniciar tratamento com short-acting β2
Também é caracterizada pela limitação variável do fluxo agonist (SABA, β2-agonista de curta duração) e
aéreo expiratório. Tanto os sintomas quanto a gravidade oxigenoterapia; e aderir a medidas de controle
geralmente mudam com o tempo.(1) As variações são de infecção.(1)
frequentemente desencadeadas por fatores como • Administrar SABA repetidamente; para a maioria dos
exercícios, aeroalérgenos e principalmente por infecções pacientes, por inalador dosimetrado pressurizado com
respiratórias virais, que podem causar exacerbações espaçador. O paciente deve ser monitorado quanto
à resposta clínica e saturação de oxigênio após 1 h.
episódicas que podem ser graves ou até mesmo fatais.(1)
• Prescrever corticosteroides sistêmicos em exacerba-
Outros fatores que indicam o diagnóstico de asma são os
ções graves. Sulfato de magnésio intravenoso deve
sintomas respiratórios que pioram à noite ou ao acordar.(2) ser considerado para pacientes com exacerbações
Além da apresentação clínica característica, os pacientes graves que não respondam ao tratamento inicial.(1)
com asma geralmente apresentam história pessoal de • Se houver sinais de exacerbação grave ou se o
dermatite atópica ou rinite alérgica e/ou história familiar paciente apresentar sonolência, confusão ou tórax
de doenças alérgicas. silente, transfira-o imediatamente para cuidados
agudos ou UTI. Durante o transporte, utilizar SABA
O diagnóstico é estabelecido pela identificação do padrão
inalatório e brometo de ipratrópio, oxigenoterapia
clínico de sintomas respiratórios associados à limitação
e corticoide sistêmico.(1)
variável do fluxo aéreo expiratório, confirmada por meio
As evidências não indicam o uso rotineiro de antibióticos
da espirometria, mostrando redução do VEF1 e/ou da
no tratamento de exacerbações agudas da asma, a menos
relação VEF1/CVF (< 0,9 em crianças), e variabilidade
que haja evidência de infecção pulmonar bacteriana
excessiva na função pulmonar, geralmente demonstrada
(por exemplo, febre alta e persistente ou evidência
por responsividade positiva ao broncodilatador (aumento
radiológica de pneumonia bacteriana).(1) Da mesma forma,
do VEF1 em relação ao valor basal em > 12% dos valores a radiografia de tórax de rotina não é recomendada, a
previstos).(2) menos que haja sinais físicos sugestivos de pneumotórax,
pneumonia bacteriana ou inalação de corpo estranho.(3)
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Os diagnósticos diferenciais mais comuns e seus sintomas TERAPIAS DE MANUTENÇÃO
distintivos da asma em crianças são os seguintes: fibrose Os principais objetivos da terapia de manutenção
cística(3) (hipocratismo digital, história familiar de fibrose são controlar os sintomas diários a fim de minimizar o
cística, sintomas gastrointestinais); discinesia ciliar risco de exacerbações e melhorar a função pulmonar.
primária (sintomas presentes desde o nascimento, tosse A avaliação destas questões deve ser feita de forma
persistente, sintomas nasais crônicos); bronquiectasias(4,5) objetiva e periódica, utilizando ferramentas clínicas como
(tosse produtiva persistente, hipocratismo digital); o questionário de controle da asma da GINA ou o teste de
anormalidade estrutural(5) (sem variação na sibilância); e controle da asma, que avalia retrospectivamente o controle
disfunção das cordas vocais(5) (estridor, ruído respiratório da asma no prazo de quatro semanas, a cada consulta
induzido por exercício). clínica, assim como testes de função pulmonar uma ou

1. Grupo de Pesquisa em Epidemiologia e Genética das Doenças Respiratórias da Infância, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS –
Porto Alegre (RS) Brasil.
2. Programa de Pós-Graduação em Medicina: Pediatria, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS – Porto Alegre (RS) Brasil.
3. Pavilhão Pereira Filho, Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Porto Alegre (RS) Brasil.

© 2024 Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia ISSN 1806-3756 1/3


Diagnóstico e tratamento da asma na infância: uma visão geral das diretrizes

Idade Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 Etapa 4 Etapa 5

Considerar dose Continuar o uso de


baixa de Dose baixa medicação controle
Dose baixa
<6 anos CI de forma “duplicada” e encaminhar
de CI diária
intermitente ou de CI para a avaliação
diária de especialista.

Dose baixa de Dose média de


Encaminhar para fenotipagem
Dose baixa de CI + LABA ou CI + LABA ou baixa
e/ou dose maior de CI + LABA
CI sempre que Dose baixa dose média de dose de
6-11 anos com/sem terapia adicional
SABA for de CI diária CI ou dose CI + formoterol;
([Link]. anti-IgE, anti-IL4Ra,
utilizado muito baixa encaminhar para
anti-IL-5)
de CI + formoterol especialista

Terapia adicional com LAMA,


Baixa dose de encaminhar para fenotipagem.
Dose baixa de Dose média de
CI + formoterol Considerar dose alta de
>12 anos CI + formoterol CI + formoterol
somente quando CI + LABA como manutenção
como manutenção como manutenção
necessário com/sem anti-IgE, anti-IL4Ra,
anti-IL-5

Manejo das Salbutamol inalatório é o broncodilatador usual para o manejo da asma aguda e exacerbações leves ou médias.
exacerbações O uso de SABA inalatório (4-10 jatos a cada 20 min na primeira hora) ajuda a reverter rapidamente a limitação
(crianças e adultos) ao fluxo aéreo. Após a primeira hora, a dose necessária de SABA varia de 4-10 jatos a cada 3-4 h até 6-10 jatos a
cada 1-2 h ou mais frequentemente.

Figura 1. Quadro resumido do tratamento de manutenção da asma, separado por idade e etapas, seguido de resumo
do manejo das exacerbações. CI: corticoide inalatório; SABA: β2-agonista de curta duração; LABA: β2-agonista de longa
duração; e LAMA: antagonista muscarínico de longa duração. Baseado em Carvalho-Pinto et al.(7)

duas vezes ao ano.(6,7) As terapias de manutenção formoterol, conforme necessário. Na etapa 3, a


seguem recomendações nacionais e internacionais manutenção em doses baixas de CI + formoterol
baseadas em etapas (Figura 1) como segue: diariamente é a escolha preferida. Na etapa 4,
doses médias de CI + formoterol é o tratamento
• Para crianças com 6 anos ou menos, aquelas
preferencial. Na etapa 5, complementar a
que não apresentam sintomas frequentes de
terapia com LAMA e encaminhar o paciente
asma que justifiquem o uso de medicação
para avaliação do fenótipo clínico, considerando
controle diariamente em geral estão na etapa
doses de manutenção altas de CI + LABA com
1. A partir da etapa 2, recomenda-se o uso de
ou sem anti-IgE, anti-IL4R, anti-IL-5 e anti-TLSP
corticosteroides inalatórios (CI), e a dose de
(tezepelumabe).(1) Corticosteroides orais em doses
CI aumenta à medida que as etapas avançam.
baixas podem ser considerados em pacientes
A partir da etapa 4, torna-se necessária uma
com difícil acesso a produtos biológicos, assim
avaliação especializada.(1)
como o uso de macrolídeos para pacientes com
• Para crianças de 6 a 11 anos, o tratamento fenótipos T2 baixos.
preferido na etapa 1 consiste no uso intermitente
Ao considerar a suspensão ou a diminuição do
de CI em baixas doses sempre que SABA for
administrado. Na etapa 2, o paciente necessita tratamento, é aconselhável fazê-lo quando os sintomas
de doses baixas de CI diariamente. Na etapa da asma e a função pulmonar permanecerem estáveis
3, o tratamento preferido é CI em dose baixa por pelo menos três meses.(1) Além disso, a educação
+ long-acting β2 agonist (LABA, β2-agonista de dos pacientes é um dos pilares do tratamento da
longa duração), com CI em doses médias como asma, envolvendo o uso correto de medicamentos
terapia alternativa. Na etapa 4, doses médias inalatórios, adesão ao tratamento, reconhecimento
de CI + LABA é a escolha preferida, seguida de de sinais de alerta e modificações no estilo de vida.
encaminhamento para um especialista. Além É fundamental fornecer treinamento sobre a técnica
disso, um long-acting muscarinic antagonist inalatória ao paciente e a seus familiares, e a técnica
(LAMA, antagonista muscarínico de longa duração)
deve ser revisada em todas as consultas médicas.(3)
pode ser usado como terapia complementar para
pacientes na etapa 4. Na etapa 5, o paciente
necessita de doses mais altas de CI + LABA ou APOIO FINANCEIRO
de um terceiro medicamento complementar, Leonardo A. Pinto recebe Bolsa de Produtividade em
exigindo a avaliação de um especialista. Produtos Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento
biológicos como anti-IgE (omalizumabe), anti-IL4R
Científico e Tecnológico (CNPq; Bolsa n. 309074/2022-3).
(dupilumabe) e anti-IL-5 (mepolizumabe) podem
ser usados em pacientes com asma grave.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
• Para pacientes com 12 anos ou mais, o tra-
tamento preferido nas etapas 1 e 2 consiste LHF, LG, MPP e MAC contribuíram na revisão
no uso intermitente de CI em doses baixas + da literatura e redação do manuscrito. PMP e LAP

2/3 J Bras Pneumol. 2024;50(1):e20240051


Furukawa LH, Garcia LC, Pieta MP, Castro MÂ, Pinto LA, Pitrez PM

contribuíram na redação, revisão e edição do manuscrito. CONFLITOS DE INTERESSE


Todos os autores leram e aprovaram a versão final do
Nenhum declarado.
manuscrito.

REFERÊNCIAS
1. Global Initiative for Asthma (GINA) [homepage on the Internet]. diagnosis, monitoring and chronic asthma management (2023
Bethesda: GINA; c2023 [cited 2024 Feb 01]. 2023 GINA Report update).
Global Strategy for Asthma Management and Prevention. Available 5. Ullmann N, Mirra V, Di Marco A, Pavone M, Porcaro F, Negro V, et
from: [Link] al. Asthma: Differential Diagnosis and Comorbidities. Front Pediatr.
2. Levy ML, Fletcher M, Price DB, Hausen T, Halbert RJ, Yawn BP. 2018;6:276. [Link]
International Primary Care Respiratory Group (IPCRG) Guidelines: 6. Zar HJ, Ferkol TW. The global burden of respiratory disease-impact
diagnosis of respiratory diseases in primary care. Prim Care Respir J. on child health. Pediatr Pulmonol. 2014;49(5):430-434. [Link]
2006;15(1):20-34. [Link] org/10.1002/ppul.23030
3. Martin J, Townshend J, Brodlie M. Diagnosis and management of 7. Carvalho-Pinto RM, Cançado JED, Pizzichini MMM, Fiterman J,
asthma in children. BMJ Paediatr Open. 2022;6(1):e001277. https:// Rubin AS, Cerci Neto A, et al. 2021 Brazilian Thoracic Association
[Link]/10.1136/bmjpo-2021-001277 recommendations for the management of severe asthma. J Bras
4. National Institute for Health and Care Excellence [homepage on the Pneumol. 2021;47(6):e20210273. [Link]
Internet]. London: the Institute; c2023 [cited 2024 Feb 01]. Asthma: 3756/e202102732021

J Bras Pneumol. 2024;50(1):e20240051 3/3

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