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Correntes da Filosofia Africana

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Índice

1 Introdução...........................................................................................................................2

2 A filosofia profissional e académica...................................................................................3

3 Critica a Etnofilosofia.........................................................................................................3

3.1 Principais críticas à Etnofilosofia................................................................................3

3.2 Principais representantes (Africanos)..........................................................................4

4 Corrente Ideológica ou Filosofia Política Africana............................................................6

4.1 Ideia geral....................................................................................................................6

4.2 Principais representantes.............................................................................................7

4.3 Preocupação fundamental............................................................................................7

5 Pan-africanismo..................................................................................................................8

6 Renascimento Negro (Black Renaissance) e Renascimento Africano (African


Renaissance)...............................................................................................................................9

6.1 Renascimento Negro...................................................................................................9

6.2 Renascimento africano..............................................................................................10

7 Filosofia cultural (Negritude)...........................................................................................11

7.1 Movimentos que originaram a Negritude..................................................................11

7.2 Precursores da Negritude...........................................................................................11

8 Pan-africanismo versus negritude.....................................................................................14

9 Conclusão..........................................................................................................................15

10 Bibliografia...................................................................................................................16

1
1 Introdução
A filosofia africana, uma área rica e diversificada do pensamento humano, abrange um vasto
leque de correntes e movimentos que refletem as experiências, culturas e aspirações dos
povos africanos. Este trabalho pretende explorar as principais correntes da Filosofia Africana,
destacando a filosofia profissional e crítica à etnofilosofia, bem como seus principais
defensores. Além disso, será abordada a filosofia política, focando-se em figuras-chave que
moldaram este campo.

O Pan-africanismo, com sua origem enraizada nas lutas contra a colonização e a opressão
racial, será examinado em termos de seus objetivos e defensores proeminentes. O
Renascimento Negro e o Renascimento Africano, movimentos culturais e intelectuais que
buscaram reavivar e celebrar a identidade africana, também serão discutidos. Por fim, a
filosofia cultural, ou Negritude, será analisada quanto à sua origem, objetivos e seus
principais expoentes.

Através desta investigação, pretende-se fornecer uma visão abrangente das contribuições
significativas da filosofia africana, destacando como essas correntes e movimentos continuam
a influenciar e moldar o pensamento contemporâneo.

2
2 A filosofia profissional e académica
Em África, a filosofia é vista como uma disciplina profissional e académica, e também como
uma ideologia importada. É tida, ainda, como um pensamento crítico e não uma crítica ao
pensamento. Destaca-se, nesta corrente, a preocupação pela busca de um lugar para a
filosofia e para o filósofo em África. As figuras por nós seleccionadas são Christian
Neugebauer, Severino E. Ngoenha, Henry Odera Oruka e Kwai Wiredu, pela sua
contribuição.

Christian Neugebauer, filósofo que escreve sobre África, diz que existem três lugares
possíveis para a filosofia e para o filósofo em África:

 Estar no Governo (a defender a política governamental);


 Estar no estrangeiro (como grande místico);
 Estar no túmulo (como herói morto).

O outro desafio que se coloca é em relação à produtividade, que tem sido o centro das
atenções dos povos africanos.

Em Moçambique, fala-se actualmente do empreendedorismo e da educação técnico-


profissional. Nesta campanha de educação mecânica e num continente pobre como o nosso,
qual pode e deve ser o papel e o contributo do filósofo e da filosofia?

Severino Ngoenha (filósofo e professor moçambicano) é um exemplo, no meio de tantos que


podemos citar, de filósofo interventivo no seu país. Influenciou a actual política centrada no
distrito. Escreveu, numa das suas obras, que, "para se devolver aos homens o direito à
iniciativa, deve começar-se de baixo. Devem ser os distritos a exercerem as funções estatais
primordiais e depois passa-se para as instâncias superiores”.

3 Critica a Etnofilosofia
3.1 Principais críticas à Etnofilosofia
 Falta de rigor na terminologia (“Filosofia” a visão do mundo duma dada população);
 Os métodos de pesquisa, de análise e de interpretação desses estudos nem sempre
respondem às exigências da disciplina de Filosofia;
 Os etnofilósofos projectam a sua própria filosofia na linguagem bantu;
 A ligação ao passado nos desvia das tarefas actuais: (transformação da cultura para a
adaptá-la às exigências do mundo contemporâneo).

3
3.2 Principais representantes (Africanos)
 Paulin Houtoundji;
 Odera Oruka;
 Kwasi Wiredu;
 Mercien Towa;
 Serverino Ngoenha;
 Paulino José Castiano.
Os críticos da etnofilosofia defendem que não podemos confundir o emprego do termo
“filosofia”, usando-o no sentido ideológico. “Filosofia” é uma palavra que se utiliza para
designar uma ciência rigorosamente científica. Reivindicar que os africanos tem a sua própria
filosofia seria cair nas mãos dos colonizadores, que querem dar ou manter a ilusão de que os
africanos tem uma filósofa, porque o que nós temos realmente são mitos, crenças e
provérbios.

Paulin Hountondji é um dos grandes críticos e vale-se dos grandes argumentos, expressos na
obra African Philosophy, Mythe and Reality, de 1974.

1. Reivindicando que existe uma filosofia africana, estamos a cair na ratoeira colonialista e
racista que insiste que um africano é diferente de um europeu. Portanto, qualquer referência à
filosofia africana obriga-nos a definir África em relação a Europa. Logo, não podemos aceitar
que haja uma filosofia africana que claramente nega a filosofia em geral.

2. Filosofia, no seu sentido restrito, é disciplina científica, teorética e individual, assim como
a linguística, a álgebra e, portanto, não se pode substituí-la por crenças populares, práticas
tradicionais e comportamento popular de um povo qualquer. A filosofia não se deve
identificar com o mito ou com a religião tradicional.

3. A filosofia, enquanto disciplina científica, teorética e individual, emerge sempre em


oposição ao mito, as religiões tradicionais e ao respectivo dogmatismo e conservadorismo. O
que é dogmático não pode ser filosófico. A relação filosófica para com o mito e as religiões
tradicionais não é uma relação arquivista ou arqueológica com função de sistematização e
perpetuação, nem sequer é uma protectora desse passado popular, muito pelo contrário, a
relação da filosofia com o mito e a religião tradicional é de continuidade, transformação
consciente e de crítica continua da tradição do povo face aos desafios que o povo tem de
enfrentar no presente e no futuro. Portanto, a filosofia deve abrir os horizontes do povo para

4
que este consiga enfrentar os desafios do futuro. Querer que a filosofia africana exista não
tem sentido.

4. Todo o projecto de edificar uma filosofia africana é um projecto europeu de demarcar a


todo custo a civilização africana da europeia. Por isso, dizer que os africanos tem a sua
própria civilização quer dizer que a civilização africana é fixa e está mumificada nas
tradições antigas, que todo o poder africano reside no passado, nas tradições dos seus
antepassados. Os filósofos que encaram a filosofia a partir do ponto de vista do passado
designam-se por etnofilósofos e são europeus. Tentam sufocar a capacidade criativa dos
africanos porque esperam que os filósofos africanos sejam simples activistas das suas
tradições culturais, em vez de pensadores originais.

5. Todos concordamos que a filosofia africana não pode nascer ex nihilo (do nada), mas que
necessariamente parte da herança cultural. Contudo, está herança cultural não consiste apenas
em olhar para trás. A filosofia africana deve ser uma confrontação criativa das suas ideias
com o presente e o futuro.

6. O papel criador da filosofia africana tem de ser desempenhado por filósofos africanos que
são sujeitos da actividade filosófica. A africanidade da filosofia africana só emerge a partir de
uma actividade filosófica de discussão e crítica dos africanos que são filósofos. A
africanidade consiste na pertença dos filósofos no continente africano. A africanidade não
consiste em falar da África ou em tratar de problemas africanos, pelo contrário,
consiste na partilha e na conversa entre africanos que são filósofos qualificados e
profissionais que usam a razão de maneira crítica e criadora.

Houtondji afirma que o problema que se coloca é substancialmente a associação da ideia de


filosofia a palavra “africana”, que a qualifica, deixando em dúvida se a palavra “filosofia”
ainda mantém o seu significado original.

Na opinião deste crítico, a universalidade da filosofia deve ser conservada. No entanto, isto
não significa que a filosofia deva tratar necessariamente os mesmos temas ou fazer as
mesmas perguntas, até porque as diferenças de conteúdos são consideráveis.

Segundo Hountondji, "a não ser que se consiga mostrar certas contribuições distintivamente
africanas para a civilização humana, a mitologia não é filosofia.

5
É consensual que existe filosofia onde há pensadores individuais que procuram livre e
continuamente a verdade. Para estes críticos, o carácter colectivo do pensamento africano faz
com que em África haja filosofia sem filósofos.

Constatou-se também que estes filósofos não reprovam o uso filosófico da etnologia, mas sim
o facto de se ignorarem os sábios tradicionais.

"Os pensadores críticos consideram o esforço dos etnofilósofos ser regressivo, pois fazem
uma filosofia que se ignora a si mesma. O filósofo de tal filosofia transforma-se num
observador, ou, quando muito, sintetiza um pensamento que nunca será seu”. E não só, pois
"o sujeito desta filosofia, aquele que faz esta filosofia, é a etnia anónima e eternizada.
Portanto, na visão dos críticos, o etnofilósofo transforma-se num espectador que observa
passivamente as conclusões dos outros, o que faz é sintetizar um pensamento que nunca vai
ser seu: um pensamento pré-constituído, estático e inconsciente.

Para a existência da filosofia, na concepção dos críticos, é necessária a existência de filósofos


singulares, conscientes da pesquisa filosófica, pois ser filósofo comporta lançar-se na
pesquisa livre e permanente da verdade que é expressa e não contemplada, como acontece na
religião.

O exercício livre e espontâneo da procura da verdade pelo discurso racional exige a ruptura
com os mitos, com as ideias simples e passivamente recebidas e aceites colectivamente. Este
exercício pode-se afigurar nos sábios (oralidade) e na escrita (literalidade), onde se percebe o
modo de pensar ou a construção da vida e do mundo por parte dos africanos.

“Parece-me que uma palavra muda o seu significado se é aplicada à Europa e à América em
vez da África”. Este é um fenômeno comum, como Odera (queniano), comenta: “o que é
superstição é apresentado como religião africana. Do ocidente espera-se que diga que é
mesmo assim, religião africana; o que é mito é apresentando pelos africanos como filosofia
africana, e os africanos estão á espera que os ocidentais confirmem que não é mito, mas
filosofia africana. O que é claramente ditadura é considerando democracia africana e espera-
se que a cultura europeia apoie dizendo que é mesmo assim. “ Nós manipulamos as palavras
em nome da cultura africana. O que é pseudodesenvolvimento (desenvolvimento da elite,
favoritismo) é descrito em África como desenvolvimento cultural e esperamos que o ocidente
aplauda tudo isto como desenvolvimento africano.” Portanto, segundo Houtondji, as palavras
mudam o seu significado quando passam do contexto europeu para o contexto africano.

6
4 Corrente Ideológica ou Filosofia Política Africana
4.1 Ideia geral
A corrente ideológica é fundamentalmente uma filosofia sócio-política que inclui dentro de si
a negritude, o pan-africanismo, o socialismo africano, entre outros, e busca, por meio da
libertação mental, um regresso ao verdadeiro humanismo e socialismo africano, uma
verdadeira e significativa liberdade para o africano.
4.2 Principais representantes
 Kwame Nkrumah;
 Léopold Senghor;
 Julius Nyerere;
 W. E. Dubois;
 Eduardo Mondlane;
 Samora Machel;
4.3 Preocupação fundamental
 Criar um futuro sócio-económico e político para a África independente;
 Responder aos problemas referentes ao colonialismo, às independências, ao fim da
escravatura e exploração do homem africano.
Além das teorias das filosofias ocidentais que foram mencionadas na contextualização
histórica, os trabalhos forçados e a escravatura contribuíram sobremaneira para a redução do
homem negro ao estatuto de coisa, de mercadoria susceptível de ser vendida e comprada, um
simples instrumento de trabalho e fonte de rendimento das economias ocidentais.

Assim, é óbvio que a prioridade do negro seja a sua emancipação.

Nas colónias da América do Norte, iniciou-se um movimento de revolta, manifesto pelos


escravos através das chamadas work songs e posteriormente dos gospel spirituals, nas igrejas.

A característica fundamental do africano é ser um guerreiro pela liberdade. As primeiras


formas de luta do homem negro pela liberdade foram teorizadas por duas visões: a primeira
acreditava que o negro só se emanciparia plenamente voltando à sua terra natal (África); a
outra corrente defendia que o homem negro podia viver livre e em pé de igualdade com os
brancos sem precisar de sair da América. A primeira corrente foi defendida pelo jamaicano
Marcus Garvey, discípulo de Booker Washington, e a segunda por William Edward
Burghardt Du Bois.

7
Ora, Du Bois era mulato, por isso Garvey não o considerava negro. Na sua opinião, Du Bois
não passava de um prolongamento da mão do branco, pois não concordava com o regresso
dos negros à África-mãe.

Du Bois, contrariamente ao seu antecessor Booker Washington, que achava que a


emancipação do negro passava por uma formação técnica e por se acomodar à posição
subalterna do negro nos EUA, afirmou que o problema fundamental dos negros não era de
ordem económica, mas antes política.

A maior dificuldade que Du Bois teve de enfrentar foi levantar o moral do negro,
freneticamente rebaixado pelas filosofias ocidentais. Este disse ao homem negro que África
teve impérios: o império de Ghana, o império de Mwenemutapa, Benin, Mali, Shongai, etc.,
os quais deram um grande contributo para a humanidade.

O africano era visto como o povo que nunca fizera nada de significativo. Os ocidentais
desconhecem ou negligenciam a célebre tese que coloca o negro africano num lugar
privilegiado, considerando-o um dos «arquitectos» da Filosofia grega, que contou com a
sabedoria e a inteligência dos egípcios, cuja população não era apenas formada por homens
de raça branca». Ao que tudo indica, o desprezo pelo negro e a sua consequente condenação a
um plano o mais inferior possível foram deliberados, apoiando-se na literatura, o Ocidente
tentou distorcer tudo o que abonava a raça negra.

Este estudo revela tão-somente que a pretensa inferioridade do negro foi a arma psicológica
que o branco inventou para denegrir a sua imagem, com o fim último de o dominar. Sendo
assim, os intelectuais africanos tinham como missão procurar caminhos para a reconquista da
humanidade perdida. Esta tarefa foi levada a cabo por várias correntes de pensamento, como
o pan-africanismo, a negritude e o Black renaissance, entre outras.

5 Pan-africanismo
O aparecimento do pan-africanisno coincide com o final do comércio dos escravos e com o
começo do colonialismo. O seu ponto elevado foi a Primeira Guerra Mundial. Antes do pan-
africanismo explícito, desenvolveu-se, com Edward Blyden (1832-1912), uma ideia de
personalidade africana, com o propósito de encontrar um passado sobre o qual se devia
fundar a dignidade humana dos africanos, querendo mostrar ao Ocidente que o africano era
uma raça e tinha uma história e cultura das quais se podia orgulhar.

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Inicialmente, o pan-africanismo foi um movimento que pretendia congregar todos os escravos
negros libertados da América para, em seguida os levar de regresso a África, como pretendia
Marcus Garvey. Ora, esta ideia de Garvey não surtiu o efeito desejado, pois muitos negros
opuseram-se a sair da América, além disso, muitos eram de várias etnias e não seria fácil a
sua convivência em solo africano. Foi só no século XX que o pan-africanismo ganhou cunho
político.

O pan-africanismo surge como manifestação da solidariedade entre os africanos e os povos


de descendência africana. O seu objectivo principal era a unidade política dos Estados
africanos. A sua perspectiva englobava a federação dos países regionais autónomos e o seu
enquadramento num conjunto de Estados Unidos de África. Dito de outra forma, o pan-
africanismo lançou as bases da filosofia política africana.

A primeira conferência pan-africana teve lugar em Londres, em 1900. O seu objectivo era
procurar uma forma de protecção contra os agressores imperialistas brancos e contra a
política colonial que até então submetia os negros. Entendia-se que, por esta via, o africano
conquistaria o direito à sua própria terra, à sua personalidade. Tratava-se, portanto, de uma
luta pelo direito de todos os africanos serem tratados como homens, daí o conceito de pan-
africanismo.

6 Renascimento Negro (Black Renaissance) e Renascimento


Africano (African Renaissance)
6.1 Renascimento Negro
Foi dentro do espírito emergente de revolta contra o colonialismo que surgiu o movimento de
Renascimento Negro (Black Renaissance), cujo fundador foi W. E. B. Du Bois, que resgata
a ideia da supervalorização da raça negra. Proclamou, precisamente em 1903: "Sou negro e
tenho glória deste nome. Sou orgulhoso do sangue que me corre nas veias." Mais tarde, na
mesma perspectiva, Langston Hughes (1902-1967) afirma: “Nós, criadores da nova geração
negra, queremos exprimir a nossa personalidade negra, sem vergonha nem temor. Se isto
agrada aos brancos, ainda bem; se não lhes agrada, não importa." Esta corrente de
pensamento teve repercussões sociais, que consistiam em incutir no homem negro a ideia de
ser igual aos brancos. Este movimento difundia ideologias contra a discriminação do povo
negro. Defendia que os negros não podiam continuar a assistir passivamente à sua própria
discriminação e que deviam reagir perante os tratamentos desumanos. Assim, eles estavam

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apostados na igualdade de raças nos EUA. Porém, Du Bois, sendo muito intelectual, não
conseguiu mobilizar a massa dos “ghetos”. O seu pensamento ficava circunscrito ao mundo
das elites. Nesta linha de ideias de Du Bois, desenvolve-se o Renascimento Negro norte-
americano, como um movimento intelectual de negros empenhados em participar na
crescente valorização do homem negro e na luta pela igualdade de direitos com os brancos.

O renascimento negro ultrapassa o simples aggiornamento. É muito mais do que uma


renovação ou inovação cultural, culturalismo. Desencadeia um movimento muito amplo de
consciência histórica, cultural e política, por sua vez propulsor de uma autêntica revolução
política, que leva o negro a passar de vítima a motor da história, pelo derrube da situação
colonial tornada insustentável.

Du Bois afirmava: “que os brancos saibam que por cada porrada que o branco der a um
negro, nós lhes vamos dar duas; por um negro morto, nós vamos matar dois brancos.”

6.2 Renascimento africano


O debate do renascimento africano surge perante a humilhação que o africano experimentou
durante a colonização. A colonização, ao lado do racismo, significou a negação de igualdade
em direitos entre brancos e negros. Assim, o negro sentia-se inferior em relação ao branco.

Para além de se pretender a independência política e a emancipação cultural por parte do


homem africano, houve necessidade de desenvolver uma ideologia que possibilitasse ao
africano renascer e sentir-se igual aos outros homens, valorizar a sua raça e a sua perso-
nalidade. Renascer significa "tornar a nascer em termos psicológicos, depois do nascimento
biológico que ninguém escolhe ou nega. Portanto, o renascimento africano comporta a
recuperação da auto-estima, da autovalorização, depois da eliminação de qualquer forma de
colonização em África.

Foi no âmbito do renascimento africano que se desenvolveu o conceito de personalidade


africana. A personalidade africana defende que existem características comuns, atributos
essenciais e únicos que fazem parte do ser de todos os africanos. A ideia de «African
Personality» teve as suas raízes em Edward Wilmont Blyden e foi retomada por Kwame
Nkrumah.

Blyden fundou a dignidade do africano na mesma linha do movimento negritude, procurando


provar que a raça negra tinha uma história e uma cultura das quais se podia orgulhar.

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Blyden reflecte não sobre o passado do africano, mas sobre o que se deveria fazer em prol de
um futuro africano mais digno. Para ele, cada um de nós tem um dever especial a cumprir,
um trabalho não só importante, como também necessário, um trabalho a realizar pela raça a
que pertencemos: lutar pela própria individualidade para a manter e desenvolver. «Orai e
amai a vossa raça. Se não fordes vós mesmos, se abdicardes da vossa personalidade, não
havereis deixado nada ao mundo. Não tereis satisfação, utilidade, nada que atraia ou fascine
os homens, porque com a supressão da vossa individualidade havereis perdido o vosso
carácter distintivo. Vereis, então, que ter abdicado da vossa personalidade significará ter
abdicado da missão e da glória particular à qual sois chamados» - aconselha Blyden, notando
que «seria de facto renunciar à vossa divina individualidade, o que seria o pior dos suicídios».

Este pensador demonstra que os costumes e as instituições da África negra estão em


consonância com as necessidades dos africanos. Ademais, África pode dar um contributo ao
mundo nas questões de ordem espiritual. A civilização europeia é dura, individualista,
competitiva, materialista e foi fundada sobre o culto da ciência e da técnica. A civilização
africana é doce e humana. Para Nkrumah, o homem africano é um ser espiritual, dotado de
dignidade, integridade e valor intrínseco.

7 Filosofia cultural (Negritude)


7.1 Movimentos que originaram a Negritude
Os movimentos que deram origem a Negritude foram:
 Black to Movement/regresso à África, de Marcus Garvey;
 Desenvolvimento segregado de Booker T. Washington e Black Renaissance/renascimento
negro de William E. Du Bois;
 O marco inicial do Movimento da Negritude foi a publicação da revista Légitime
Défense, em 1932, por um grupo de estudantes africanos, em Paris.
7.2 Precursores da Negritude
 Léopold Sédar Senghor;
 Aimé Césaire;
 Leon Damas.

A Negritude pode ser definida como afirmação da personalidade africana e rejeição da


assimilação cultural ocidental; é o conjunto de valores culturais do mundo negro.
Senghor define a negritude como "a soma total dos valores culturais do mundo negro".

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Escreve Roger Bastide que "a negritude não é uma afirmação científica, é um protesto, uma
bandeira, o símbolo de um orgulho; eis porque é impossível defini-la de outra forma que não
seja situando-a em seus diversos contextos".

Para abordarmos a negritude como um movimento complementar ao pan-africanismo na


vertente da filosofia política africana, primeiro vamos referir o contexto do seu surgimento,
na diáspora, isto é, como um fenómeno ligado aos negros antigos escravos nos Estados
Unidos da América e nas Caraíbas, para, no fim, esclarecermos o seu significado no contexto
africano. Assim, num caso e no outro, a negritude foi uma forma de responder aos problemas
dos negros.

Para Ngoenha, a negritude surge como um movimento de protesto contra a submissão do


negro, começando a partir de uma viragem particular da história europeia, que se caracterizou
pelo relativismo cultural, isto é, em termos filosóficos coincide com o surgimento da pós-
modernidade, que se centrou no sujeito, pela tomada de consciência subjectiva e
privilegiando o concreto em oposição à tradição abstracta e universal, como foi na
modernidade.

A negritude insere-se no espírito pan-africanista da união e solidariedade entre os africanos,


com a simples diferença de se revestir de um carácter cultural e literário. Tal como o pan-
africanismo, a negritude nasceu fora do continente africano, como resultado dos esforços
emancipatórios da comunidade negra radicada em França. Os mentores deste projecto eram
membros de profissões liberais, estudantes, eclesiásticos, intelectuais e políticos.

A negritude pretendia a união de todos os negros. Césaire, depois Senghor e, mais tarde, a
revista Présence Africaine e os congressos de escritores e artistas negros, que aquela
organizou em 1956 e 1959, dão expressão à ideia da unidade africana sob a forma cultural.

Assim, a negritude na diáspora, sobretudo dos negros norte-americanos, surge de diversas


formas e tomou vários nomes, onde se destacam dois, a saber:

 O desenvolvimento segregado, de Booker Washington (1856-1915). Este pensador foi


mais tradicionalista, continuando com a ideia da segregação racial. Segundo relatos, ele
chegou a construir escolas e uma faculdade de Direito só para negros. É de salientar que
Booker Washington, usando a metáfora de “uma mão com cinco dedos diferentes, quis
perpetuar a dependência dos negros em relação aos brancos e defender a superioridade
destes, portanto, uma nova forma de colonização na sociedade norte-americana.

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 Regresso a África, de Marcus Garvey. Primeiro, Garvey evidenciou e criticou o fracasso
do integracionismo de Du Bois. Vendo que não era possível uma igualdade entre os
negros e brancos nos EUA, Marcus Garvey fomentou o regresso a "África terra-mãe".
Reza a história que Garvey chegou a recolher contributos em dinheiro, comprou um navio
e fez duas viagens da América a África, trazendo negros e tendo-os deixado na Libéria e
na Serra Leoa, territórios já independentes na altura.

Porém, este projecto de Garvey de deportar todos os negros e integrá-los nos territórios
africanos fracassou, pois muitos negros opuseram-se à ideia do regresso a África, porque
implicava um começo de uma nova vida num território que lhes era totalmente estranho.

O evolucionismo, classificando as sociedades segundo o seu grau de desenvolvimento


técnico, confirmou a visão etnocêntrica da elite ocidental e facilitou o colonialismo. A maior
parte dos evolucionistas, como Tylor e Morgan, e os etnocentristas, como, por exemplo, Levy
Brhul, não admitiam a possibilidade de haver culturas que não fossem europeias. Estes
consideravam a vida cultural das outras sociedades como estádios arcaicos de um único
processo cultural, no qual a Europa representava o estádio mais completo.

O funcionalismo, por sua vez, sugerindo a irredutibilidade das culturas a um denominador


comum, abria as portas ao princípio do relativismo cultural evocado pela etnologia
americana. A corrente relativista punha a tónica na diversidade cultural e social e considerava
que a unidade do género humano se manifestava na sua capacidade de se diferenciar em
múltiplas culturas. A posição relativista pretendia sobretudo lutar contra o imperialismo
americano e defender as minorias colonizadas, os grupos africanos. Esta corrente impós como
normas o respeito pela diferença, a tolerância, a crença na pluralidade de valores e a aceitação
da diversidade. Assim, abriam-se as portas para o pronunciamento da cultura africana, ou
melhor, a negritude surge como resposta imediata ao espaço aberto pelo relativismo cultural.
Entretanto, coube a Aimé Césaire o mérito de ser considerado o grande impulsionador deste
termo. Aliás, a ele cabe a paternidade do termo negritude, pois o seu conceito já se consegue
distinguir no projecto anglófono do pan-africanismo.

Os maiores impulsionadores da negritude, Césaire , Senghor e Damas, resumiram o projecto


em três conceitos:

Identidade- consiste em o negro assumir plenamente a sua condição;

Fidelidade- atitude que traduz a ligação do homem negro à terra-mäe;

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Solidariedade- sentimento que liga secretamente todos os irmãos negros.

A negritude era um movimento principalmente cultural e literário, mas com pretensões


também políticas, conquanto protestava contra a atitude colonialista, lutando pela
emancipação do povo. O poema de Noémia de Sousa ”Let my people go/Deixa passar o meu
povo” é disso um exemplo vivo.

No mundo da lusofonia, a negritude lutou pela revogação de todas as leis e regulamentos de


excepção contra os africanos, a Junta de Defesa dos Direitos de África, a Tribuna de África e
A Mensagem, formadas por africanos e europeus favoráveis à promoção da cultura negro-
africana.

Foi neste contexto que, em 1920, nasce, em Lisboa, a Liga Africana com os seguintes
objectivos:

 promover, através de todas as mudanças políticas, o progresso físico, mental e económico


da raça africana nas colónias portuguesas;
 conseguir a revogação de todas as leis e regulamentos de excepção contra os africanos
ainda existentes na legislação colonial portuguesa, especialmente no que respeita ao
direito de propriedade;
 conseguir que se torne realidade o livre acesso de indivíduos de raça africana a todas as
situações sociais e cargos públicos, nas mesmas condições exigidas aos indivíduos de
raça branca.

8 Pan-africanismo versus negritude


O Pan-africanismo e a Negritude permitiram a difusão da mensagem dos mentores dos
movimentos de libertação dos africanos.

O pan-africanismo e a negritude são dois movimentos com o objectivo comum de lutar pela
liberdade, mas sob pontos de vistas diferentes: enquanto o Pan-africanismo lutava pela
emancipação política de todos africanos, a Negritude lutava pela unidade dos negros sob o
ponto de vista cultural

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9 Conclusão
A exploração das principais correntes da Filosofia Africana revela a profundidade e a riqueza
do pensamento filosófico emergente deste continente. A filosofia profissional e crítica, ao
desafiar a etnofilosofia, destaca a importância de uma abordagem mais rigorosa e analítica
para entender as complexidades das culturas africanas. A filosofia política africana, com seus
grandes defensores, ilumina as lutas e as aspirações dos povos africanos em busca de justiça,
liberdade e autodeterminação.

O Pan-africanismo emerge como um movimento poderoso que transcende fronteiras


nacionais, promovendo a unidade e a solidariedade entre os africanos e a diáspora africana.
Este movimento, juntamente com o Renascimento Negro e o Renascimento Africano,
reafirma a identidade africana e celebra a herança cultural do continente. A filosofia cultural
ou Negritude, com seu foco na valorização da cultura africana e na resistência à opressão,
oferece uma visão de orgulho e emancipação.

Ao analisar estas correntes e movimentos, fica evidente que a Filosofia Africana não só
contribui significativamente para o pensamento filosófico global, mas também oferece
perspectivas únicas e valiosas sobre questões universais de identidade, justiça e liberdade.
Estes movimentos continuam a inspirar e guiar novas gerações na construção de um futuro
mais inclusivo e equitativo. Portanto, o estudo da Filosofia Africana é essencial não apenas
para compreender a diversidade do pensamento humano, mas também para promover uma
apreciação mais profunda das contribuições culturais e intelectuais do continente africano.

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10 Bibliografia
BIRIATE, Manuel, & GEQUE, Eduardo. (s.f.). Pré-Universitário- Filosofia 12. Maputo:
Longman Moçambique. P-117-126

BIRIATE, M., & SAMUEL, J. (s.f.). O meu caderno de actividades de Introdução à filosofia.
Maputo: MINEDH. P.27-29

BORGES, J. F., PAIVA, M., & TAVARES, O. (2022). Introdução à filosofia. Maputo: Plural
Editores. P.117-128

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