Eu acho que pertenço à escuridão.
Lí em um livro que se você passa muito tempo
olhando para o abismo, o abismo olha para você. Eu interpreto que ele se refere a ser
atraído pela escuridão que a solidão desesperadora é capaz de causar. Eu olhei e olho
demaseadamente para esse abismo e estranhamente parece que ele me convida a entrar.
Penso que apenas lá eu saberei quem eu realmente sou e me sentirei em casa, pois é de
lá que acho que vim. Penso que já estou à meio caminho que separa a luz da escuridão
do abismo e pareço não querer olhar pra trás e ver a luz.
Muito provavelmente eu já estou no abismo e ainda não me adaptei. Eu às vezes me
sinto tão confuso e perturbado que com olhos de cegos eu consigo caminhar nesse
caminho sem medo e sem perder o rumo e isso estranhamente conforta meu coração,
pois é na calada da noite que mais consigo me compreender, mas apenas aos
pouquinhos, pois quando a vida me quebrou ela me deixou em mil pedaços. Como juntar
todos eles e me compreender? É quando não há ninguém desperto ao meu redor que
encontro um pouco de paz na solidão. Atualmente me sinto fadado à solidão e por mérito
próprio, pois eu afastei todos. Seria capaz de me ensinar a converter solidão em
solitude? Meus dias são todos ruins, variam apenas em uma leve intensidade. Meu
amanhã é apenas a promessa do que foi ontem.
É... eu realmente acho que estou na escuridão e vivendo em um mundo onde as horas de
luz são demaseadamente longas e aterradoras demais pra quem não tem esperanças.
Esperança pra mim é um inseto verde e de longos membros. A luz, em todos seus
sentidos e significados me incomoda e pra meu descontentamento a noite deve ser
dedicada ao sono. Quando deito para dormir eu permaneço de olhos abertos olhando o
total breu do meu quarto até adormecer e isso me acalma. Mas até adormecer minha
mente abre as portas pro apocalipse e meus pensamentos disfuncionais ganham mais
força.
A luz figurativamente é constante ligada a ideia de busca espiritual para salvação. E é
nos templos que mais se encontra a hipocrisia da felicidade atribuindo ao divino. Missa
no domingo e pecado a semana inteira, mas todos desejam a salvação. Os piores são
aqueles que só agem com bondade e caridade em busca de recompensas terrenas. Esses
não valem nada. Mas eu tenho inveja de suas buscas por salvação, pois eu já venho há
quatorze anos na estrada para o inferno ou qualquer região de sofrimento que outras
religiões denominem.
Eu venho pensando muito em vingança contra todos aqueles que contribuiram para que
eu esteja nesse estado. A bíblia diz que Deus afirma ser o detentor da vingança, se é ele
faz por mãos alheias. De toda forma já afirmei que não sou cristão, apesar de adimirar a
figura de Cristo. No fim acho que não fiz por merecer ser chutado constantemente como
um vira-latas, mas de toda forma eu não sei como me vingar. Não é de minha natureza.
Mas se fosse faris por acreditar que não existe pecado em si. Ele reside na compreensão
do mau e bem ao qual cada individuo acredita, mas há maldades e pessoas demais
dispostas à praticá-la que fogem a essa regra, devo admitir. Mas normalmente o homens
que proclamam andar em retidão fazem isso mais por se sentirem ameaçados a serem
jogados em regiões de infinito sofrimento do que praticando o bem. Sofrimento sinto
acrescido do egoísmo da vontade de ser curado, mas estranhamente os milagres
deixaram de ocorrer há séculos.
Mãe me diz em desdem: como se você fosse o único que sofresse nessa Terra. Bem, eu
não opero milhares, mas se pudesse tomaria pra mim todas as enfermidades do mundo e
logicamente morreria, mas livraria todos que sofrem. Eu não sou cristão e não teria a
mínima vontade de ser um mártir como Jesus, mas ele afirmou que levaria com sua
morte todas as enfermidades da humanidade. O mundo todo está doente. Uma mentira
contada muitas vezes se torna ou verdade ou religião. Mas ao mesmo tempo as religiões
ajudam a manter o mundo um pouco menos caótico.
Eu não sinto o menor contentamento de estar entre pessoas que veneram Deus e que lhe
atribuem a razão de todas suas felicidades e alegrias. Eu não sou um falso-feliz, mas eu
talhei uma máscara a qual se eu usar e sorrir pra você, você vai acreditar que sou feliz
sim. Há tanta hipocrisia escondida atrás da alegria e felicidade. Ninguém realmente
alcança a felicidade, é apenas um ideal platônico. Devo eu buscar essa fraude? Ela me
ajudaria?
Eu prefiro trilhar o caminho da escuridão acompanhado de sofredores como eu à
percorrer o caminho da luz sozinho. O sofrimento tem um poder de unir muito forte.
Muitos são os que vivem em cima de nossa morte diária. Eu não busco redenção. Por
acaso fui julgado e condenado de algo que nunca ocorreu ou atos de supostas vidas
passadas? E por que minha pena está ocorrendo durante vida? Foi ai que compreendi o
que li em um livro que dizia que a estrada para o inferno é muito mais longa do que
acreditam. Claro que é. O inferno começa junto com o inicio da vida. Deve ser por isso
que os bebês choram quando saem dos ventres das mães. O inferno é nosso habitat
natural.
Eu apenas busco o verdadeiro livre-arbitrio. Que nada mais é senão uma cadeia de
causas e consequencias de nossos próprios atos. E assim a vida segue tortuosa devido a
nossas próprias escolhas. E eu tenho um forte karma resultante de más escolhas. Se
existe um plano divino para cada um de nós nessa vida, não somos nós que estamos no
comando delas e assim a vida nada mais é do que a regência do determinismo.
Eu busco a quebra de todas as pontes espirituais que me aprisionam à Deus para que
assim eu seja verdadeiramente livre e com uma fontade de ser vontade de ser. Mas não
me refiro ao Deus de nenhuma religião, existem mais de 4.300 religiões no mundo,
quantos Deuses devem haver para que todos entendam que sempre só existiu um? Uma
entidade nunca antes vista e silenciosa que age segundo suas vontades e elas não podem
ser compreendidas por uma mente humana. Nossa natureza de compreenção
tridimencional é incapaz de entender Deus, um ser de infinitas dimenções.
Eu apenas acredito em um Deus justo e para isso ele deve imparcial. Um juiz permite o
mesmo direito tanto ao acusado quanto ao acusador. A balança não pode pender pra
nenhum dos lados do bem ou mau, ela tem de permanecer equilibrada. Ele é a raiz de
todo mau e o fruto de todo bem ao mesmo tempo. E o que é bem ou mau? E se existe
lívre-arbítrio eu desejo Deus fora de minha vida.
Eu sou desiludido e revoltado contra a figura divina. Eu me sinto rejeitado, esquecido,
em sofrimento e sempre questionando minha própria fé. A autoridade divina pra mim é
indiferente, falha, sem substância e não benevolente ou misericordioso. A verdade é que
estou na santíssima trindade do desespero: Crise espiritual, existencial e de identidade. E
nessas três feridas não há anticépticos. Há sal grosso.
Eu sou um buraco negro. O abismo supremo de tamanha magnitude que suga tudo que
está por perto e é capaz de distorcer a própria luz. É assim que a luz se distorce ao meu
redor. A luz me parece incapaz de me penetrar e não acho que é ela que vai me salvar.
Minha salvação talvez resida no ato de “salvem-se quem puder”. Só eu sou capaz de me
salvar, eu sei disso, mas um homem sem propósito é fadado a ser sugado por um buraco
negro. Ele não é ninguém. As coisas são complicadas porque não tenho propósito ou
desejo mais nada dessa vida que me faça seguir na busca. Como posso lutar assim?
Devo lutar contra a não vontade de lutar e assim lutar por minha vida? E nessa luta não
há desistência senão o suicídio.
Eu sinto que minha vida desvanecerá, pois a cada dia ela se esvazia. Eu tento, mas eu
não consigo me encontrar dentro de mim mesmo. Atualmente nada importa, ninguém
importa, com exceção de meu pai. O que fazer quando eu não quero mais viver e
simplesmente eu não tenho mais nada a oferecer a ninguém? Não tenho nada para
oferecer nem a mim mesmo. Eu dentre muitos sabemos que esse mundo não oferece, ele
cobra.
Esse mundo não é pra todos. Senti na pele que foi pra mim e por isso às vezes eu culpo
meus pais por ser tão fraco. Eles me criaram em uma bolha. Entenda que sou grato por
eles. Eles me deram tudo, principalmente educação. Mas há diversos tipos de educação e
o que poderia ter me salvado foi o de me educar pra entender que o mundo e a vida não
são nada fáceis. Eu quebrei no primeiro choque da dureza da vida. Minha família já não
me parece mais tão familiar pra mim. Eu sinto que todos me odeiam, principalmente
minha mãe. Provavelmente porque toda família sabe que praticamente roubei dinheiro
do cartão da minha mãe como uma forma de vingança por aprisionarem minha poupança
de mim. Mas eu prefiro ser odiado pelo que sou do que amado pelo que não sou.
As coisas não são mais como costumavam ser e talvez por isso eu sinto que não estou
presente dentro de mim e por isso me sinto vazio. Sentir sentimentos não implica que
não estou vazio e esse meu vazio provavelmente vem do espaço onde deveria estar
minha alma. Eu não estou conseguindo mais suportar este inferno de sofrimento que me
leva ao ponto da agonia. Tirar a própria vida pra mim é mais uma libertação que uma
condenação.
Quanto mais me conheço e ajo eu vejo que eu era eu mesmo, mas agora ele já se foi.
Entendo que ninguém além de mim pode me salvar, mas estou tão perto do caminho que
não tem mais volta, pois eu já não penso com clareza, mas penso: Por que eu devo
sequer tentar? Sim... Existem centenas de eus dentro de mim em disputa pelo meu
controle e até agora eu sou o pior deles.
Falando francamente e com desdem blasfêmico eu imagino um Reino Celestial, mas
simplesmente acho que o único Reino que veremos após nossa morte possui uns quatro
palmos de largura e sete palmos de profundidade.
Dá pra ver no meu olhar? Ele lhe mostra que acredito que não estou indo há lugar
nenhum? Será que um dia atingirei a paz? Será que vou ver o fim desse ciclo
amaldiçoado? Dizem que não há descanso para os amaldiçoados.