UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
BACHARELADO INTERDISCIPLINAR EM
ARTES
MARIA CAMILLA DE JESUS PIMENTEL
A AUTOREGULAÇÃO DE PSICOATIVOS NA ATUALIDADE E SUAS
RAMIFICAÇÕES
SALVADOR
2022
MARIA CAMILLA DE JESUS PIMENTEL
A AUTOREGULAÇÃO DE PSICOATIVOS NA ATUALIDADE E SUAS
RAMIFICAÇÕES
Ensaio apresentado a disciplina Sócio
Antropologia do Uso de Substâncias Psicoativas
da Universidade Federal da Bahia, como requisito
para obtenção de conclusão da disciplina
apresentada.
Professora: Roca Alencar
SALVADOR
2022
RESUMO: O seguinte ensaio elucida como a autoregulação de substâncias
psicoativas está presente na nossa vida e como ela pode ser adentrada de formas
cientificas e/ou a partir de experiências pessoais, pois os padrões de uso e abuso de
drogas são atribuídos basicamente aos determinantes sociais aos quais os
indivíduos estão inseridos. Portanto, nesse texto é levantado o conceito do que são
as substâncias psicoativas e como a construção da política de drogas se apoia nas
mazelas sociais e faz com que o indivíduo perceba as estruturas sociais ao seu
redor de forma deturpada.
Palavras-Chave: Autoregulação. Comportamento. Criminalização. Dosagem.
Psicoativos.
INTRODUÇÃO
Começamos definindo o efeito de entorpecentes, que são substâncias
capazes de alterar o estado de consciência da mente ou capazes de modificar a
função do organismo, resultando em alterações fisiológicas ou de comportamento.
Essas substâncias químicas agem no sistema nervoso central, que interferem nas
sensações, estado emocional e comportamento do indivíduo. Podem provocar
hipnose (sono e analgesia), afetar os processos mentais e emocionais, modificando
a atividade psíquica e o comportamento e, a longo ou curto prazo, implica um
potencial de dano, que seria uma disfunção cerebral que afeta os processos
cerebrais normais do senso-percepção, das emoções e da motivação.
O início da transformação do consumo de drogas em problema público se deu
através dos meios de comunicação e da opinião pública, que propagavam a
importância -negativa- que a sociedade dava ao consumo de drogas. Porém, essa
importância atribuída se dava não pelo fator químico da droga, mas sim por
questões simbólicas e religiosas que têm fundamentação historicamente racista. A
institucionalização da psiquiatria transforma as drogas em um problema de saúde
pública, porque a medicina social assume um controle que ocasiona campanhas de
higienização social, com a criação de hospitais e hospícios. A partir disso, os
psiquiatras estabelecem a toxicomania, que era um hábito, assim como o
alcoolismo, originador de doenças mentais ao submeter o sistema nervoso central a
uma intoxicação regular. Posteriormente, é publicado um livro chamado Vícios
Sociais Elegantes que abordava a elegância do consumo de narcóticos nas classes
sociais mais privilegiadas e os diferenciava do consumo da “diamba”, que é
originária da África, e essa diferenciação tinha atribuição reacionária e eugenista,
diferenciando os usuários por conta da sua classe social e consequentemente,
racial.
Com essa contextualização é possível acompanhar o surgimento da
criminalização das drogas no Brasil e como ela tem um papel descritivo na
sociedade. As consequências dessa criminalização são: incremento da violência,
mortes generalizadas, ampliação do uso de substâncias ilícitas, superlotação das
penitenciárias. Ademais, o impacto negativo na saúde pública que é causado pelo
uso inadequado de drogas. Portanto, esse modelo atual não apenas falha no
principio originador da proibição, que seria a melhora da saúde pública, como
também falha na sua proposta de “erradicação das drogas” e, além disso,
proporciona o aumento do tráfico organizado.
Passada essa introdução, entende-se melhor como é tratada a questão das
drogas e como a criminalização se desenvolveu no Brasil, e assim é possível seguir
com informações mais detalhadas sobre cada tipo de substância e sua ação no
organismo, e a partir desses conceitos estabelecidos os determinantes sociais de
autorregulação no uso de drogas psicoativas é apresentado. Na sequência, segundo
a Organização Mundial de Saúde, existe uma classificação no uso de drogas e são
divididos em: na vida (pelo menos uma vez na vida), no ano (pelo menos uma vez
nos últimos doze meses), recente (uma vez nos últimos 30 dias), frequente (seis ou
mais vezes nos últimos 30 dias), pesado (vinte ou mais vezes nos últimos 30 dias),
de risco (que implica alto risco de dano à saúde física ou mental do usuário, mas
que ainda não resultou em nada) e o prejudicial (que já causou dano físico ou mental
no indivíduo). Existem sintomas que anunciam um quadro de dependência e abuso,
são estes: dificuldade de controlar o uso, demonstração de tolerância à substância
(a pessoa precisa de doses cada vez maiores para obter o efeito inicial), esforços
mau sucedidos para reduzir ou controlar o uso da substância, uso recorrente da
substância em situações fisicamente perigosas e desistência ou redução de
atividades sociais, ocupacionais ou recreativas importantes por causa do uso da
substância.
As drogas psicotrópicas são classificadas entre estimulantes, perturbadoras
ou depressoras. As estimulantes são cocaína, nicotina, cafeína e anfetaminas.
Dentre elas, destacam-se a cocaína e o tabaco. A cocaína liga-se mediante ao
bloqueio ou inversão da direção dos transportadores de neurotransmissores
responsáveis pela captura da dopamina e de terminações nervosas potencializando
os efeitos periféricos da atividade nervosa simpática, produzindo acentuado efeito
estimulante psicomotor. Essa droga pode causar delírios e paranoias, efeitos que
podem estar associados à potencialização da neurotransmissão nas projeções
dopaminérgicas para o córtex, o tálamo e a amígdala. O crack é um derivado da
cocaína, porém ele é mistura de cocaína, bicarbonato de sódio e amônia, ou seja,
menos “puro” e consequentemente se torna mais acessível, causando uma maior
facilidade de se ter acesso à ele, por isso a incidência maior entre a população
moradora de rua. O tabaco aumenta sua pressão sanguínea e frequência cardíaca e
também suprime a sua fome, causa liberação de neurotransmissores que diminuem
o estresse, seu corpo se acostuma a ele e por isso é fisiologicamente viciante. As
perturbadoras são a mescalina (do cacto mexicano), a maconha, a psilocibina (de
certos cogumelos) e o “ecstasy”. Mas dentre elas a maconha vai se destacar, pois é
a substância ilícita mais consumida no Brasil é a maconha: 7,7% dos brasileiros de
12 a 65 anos já a usaram ao menos uma vez na vida. Em segundo lugar, fica a
cocaína: 3,1% já consumiram a substância. Maconha é o nome dado aqui no Brasil
a uma planta chamada Cannabis Sativa, pode ser ingerida pelos pulmões ou por
meio de sua ingestão com alimentos via oral. As suas alterações afetam a
percepção e o estado psíquico do usuário. Com as doses baixas, pode haver
euforia, relaxamento, passividade e alteração da percepção. E com doses elevadas,
o usuário pode apresentar paranoia, alucinações e desorientação.
Já as drogas depressoras são o grupo de substâncias que diminuem a
atividade do cérebro, ou seja, deprimem seu funcionamento, fazendo com que a
pessoa fique "desligada", desinteressada pelas coisas. Nesse grupo está inserido o
álcool, que é uma das drogas mais antigas que se tem conhecimento, e isso se dá
pela sua forma de produção. O uso de bebidas alcoólicas vem desde a antiguidade
mesopotâmica, também foi bastante consumido pelos egípcios antigos na forma de
uma vinho caldoso que normalmente era misturado com ópio, era uma bebida densa
pois na época desconhecia-se o potencial de destilação. Muitas vezes o uso de
bebidas alcoólicas era reservado para determinadas classes sociais, faixas e
gêneros. Apesar de ser uma droga lícita, grande parte dos dados considerados mais
alarmantes com relação aos padrões de uso de drogas no Brasil não estão
relacionados às substâncias ilícitas, e sim ao álcool. Dito isso, pode-se dizer que
todas as substâncias provocam efeitos agudos e crônicos, somáticos e psíquicos
sobre o organismo, além dos prejuízos na saúde pessoal. Porém, existem
mecanismos que podem ser explorados e entendidos para que o consumo de
substâncias psicoativas não precise ser demonizado e sim humanizado.
Mecanismos estes que são expostos no livro de Norman Zinberg “Drug, Set, and
Setting: The Basis for Controlled Intoxicant Use”.
Zinberg fala que o que impede os usuários de terem controle sobre o
consumo de drogas são três determinantes: o Drug, que seria a pureza da
substância, sua ação farmacológica e a forma de ingestão; o Set, que seria as
expectativas do usuário em relação à experiência com a droga, o propósito do uso e
a atitude da pessoa, ou seja, sua estrutura de personalidade; e o Setting, que é a
influência do contexto físico e sociocultural no uso. E é justamente nesse ultimo
determinante que se explora os controles sociais informais. Jean Paul Grund,
pesquisador, trás um conceito de controles sociais que abrangem o pensamento de
Zinberg:
“Uma característica proeminente dos rituais e regras é que eles visam
controlar ou regular a experiência de uso da droga. Isto é mais aparente nas
seqüências comportamentais estereotipadas ao redor da auto administração
de drogas pelo usuário indivídual, porém ele também desempenha um papel
distinto em muitas interações observadas (ritualizadas) por exemplo no
constante compartilhar de drogas. Assim, os dados oferecem forte apoio
para a teoria de Zinberg, que o controle de drogas está amplamente
estabelecido por controles sociais (sub)culturais – rituais e regras (como
Zinberg os chamou, sanções sociais) que moldam a maneira como a droga
é utilizada. Ultimamente os próprios usuários regulam seus usos de tóxicos
através de processo de aprendizagem social dos seus pares no qual rituais
específicos e regras são desenvolvidas como adaptações para os efeitos
das interações entre droga, set e setting.”
Os controles sociais informais são subdivididos entre: sanções sociais, que
são os valores e regras de conduta e definem se e como a droga pode ser usada e
podem ser informais e partilhados por um grupo ou podem ser formais, como várias
leis e políticas apontadas na regulação do uso da droga; e os rituais de uso, que são
os padrões de comportamento que servem para sustentar e reforçar sanções
simbólicas.
CONCLUSÃO
É evidente que o uso de psicotrópicos é presente desde o início da humanidade,
porém com níveis de conhecimentos diferentes, feita de forma controlada ou não.
Portanto, percebe-se que a presença das drogas vai continuar sendo indubitável,
afinal, elas nunca vão parar de existir. O importante, de fato, é se libertar desses
paradigmas criados e retroalimentados por estruturas sociais que só beneficiam
quem está no topo da pirâmide social e tem acesso à qualquer tipo de função que
for necessária.
REFERENCIAL TEÓRICO
ADIALA, Julio Cesar. A Criminalização dos Entorpecentes
SOUZA, Jorge Emanuel de. Sonhos de Diamba: controles do cotidiano: uma
história da criminalização da maconha no Brasil republicano
ESCOHOTADO. A História elementar das drogas.
DUARTE, Danilo Freire. A história do ópio e dos opióides.
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BECKER, H.S. Uma teoria da ação coletiva
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