Profecias e Profetas na Antiguidade
Profecias e Profetas na Antiguidade
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Aíôn é o tempo sagrado e eterno, é o tempo cíclico e imensurável, a eternidade, relacionado aos mistérios, à vida após a
morte, tempo que se esparrama para frente e para trás, se fechando num círculo como uma serpente que come o próprio rabo
(o oroboros). É representado por Aion, divindade do tempo, do orbe que contém o universo e do zodíaco, deus das eras e da
eternidade. Sua imagem costuma ser a de um jovem nu ou seminu, retratado dentro de um círculo, o tempo infinito, o tempo
que foi, é e que nunca há de chegar.
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Imagem evocada por Aby Warburg ao se referir aos historiadores da arte que, como ele, seriam “(...) sismógrafos da alma,
situados ao longo das linhas divisórias entre diferentes sistemas e atmosferas culturais” (1927)
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Ou antroposfera, camada terrestre que sucede a geosfera e a biosfera, composta pelo pensamento humano: linguagem,
espiritualidade, produtos culturais. Conceito criado por Pierre Teilhard de Chardin (1922) e Vladimir Vernadsky (1927).
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meio através do qual um deus costuma falar ou faz saber sua vontade” (DAVIDSON, 1981,
p.116). Voltaremos a esse quadro mais adiante, detenhamo-nos por ora na profecia. Esta
seria, num sentido mais amplo, “uma atividade de caráter mágico, que se destina a produzir o
futuro desejado” (MINOIS, 2015, p.17). Desde de que os homens pintavam bisões nas
paredes das cavernas buscando evocar esses animais de cuja caça sua subsistência dependia,
enquanto humanidade, tentamos de alguma forma nos adiantar às necessidades de agora
visando um resultado futuro. Nossa existência sempre foi calcada em tentar prever, de forma
mais ou menos consciente e consistente, o desdobramento dos acontecimentos. Isso fica
patente no fato de que, desde tempos remotos, os mais diversos povos e culturas trazem
consigo profetas e profecias em variados formatos, os quais enumeraremos aqui alguns para
ilustrar o quão pervasiva é esta atividade e a necessidade que sempre experimentamos de
saber o que nos aguardava adiante.
1.1 Profecia como assunto de estado e salvação do espírito
Começando por aquela que costuma ser considerada a grande vanguarda ocidental, a
Grécia foi terreno fértil para a profecia. Cerca de oito séculos antes de Cristo, os mantis eram
os adivinhos que, por meio de conhecimentos da natureza ou inspiração divina proveniente de
Apolo, previam os augúrios através do comportamento de pássaros, da leitura de padrões nas
entranhas de animais, interpretação de sonhos e de sacrifícios ritualísticos (hiereus). Agiam
de forma extraoficial, porém gozavam de prestígio, sendo costumeiramente convidados a
frequentar a casa de autoridades a quem serviam na véspera de grandes empreitadas,
especialmente a de caráter bélico. Contrastando com esses áugures mais populares haviam as
profetizas do templo oraculares de Delfos, dedicado à Apolo, e do ‘leitor’ da folhagem do
carvalho de Dodona, templo consagrado à Zeus. Presentes em obras como a Ilíada e a
Odisseia, de Homero, eram grandes centros de peregrinação a que se destinavam aqueles que
buscavam informações sobre o futuro. Tanto indivíduos quanto cidades (MORRISON, 1981)
se consultavam em Delfos, através da declaração extática de sacerdotisas que, tocadas por
Apolo, falavam pelo deus grego mais comumente associado à adivinhação. Mas a profecia
não se restringia aos grandes templos, haviam aqueles que pregavam comunitariamente. Os
sophos, ou sábios, eram um misto de poetas, filósofos e xamãs. Aconselhavam a população,
interpretavam indícios naturais e sociais, ministravam medicações simples e até mesmo
davam prognósticos políticos. E no esteio de todos esses adivinhos haviam os chresmologues
e os exegetas, que se prestavam a compilar e interpretar os textos oraculares, sempre em
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caráter semioficial; de fato, estas categorias eram as que melhor comportaram amadores,
embora alguns de seus agentes pudessem gozar de prestígio junto às autoridades da pólis. Vê-
se uma relação muito estreita entre a predição do futuro e a política grega, mas este ponto
abordaremos no próximo tópico.
Indo para o mundo bárbaro pré-cristão, haviam muitas semelhanças entre celtas,
germânicos e escandinavos. Cosmologicamente bastante ligados ao destino, esses povos
tinham na previsão do futuro uma ferramenta com a qual ‘negociavam’ com seus deuses e,
dessa forma, poderiam modificar algo negativo a que estivessem destinados. Tratava-se de
algo de caráter comunitário, em que o destino individual, de uma família ou vilarejo era
diagnosticado. Os druidas, oráculos e as vqlva (vidente) descobriam o que passou, o que
estava por vir e o que estava oculto no presente (DAVIDSON, 1981). Muito frequentemente
o já citado comportamento dos pássaros (aqui adaptados à praticas náuticas) e de cavalos
eram utilizados como fonte de informação sobre o futuro, bem como a ato de jogar no mar
pilares de madeira ou pedra, cujos trajeto na água indicaria, por exemplo, onde estabelecer
moradia em terras recém descobertas. Aqui acho importante destacar uma característica
muito recorrente nessa classe, porém especialmente distinta neste caso especifico; ainda que
fizesse parte da comunidade, considerado de vital importância para a sobrevivência do grupo,
nestes povos, era particularmente comum que o ‘mágico’ fosse, ao mesmo tempo, de alguma
forma marcado a viver em isolamento. Além da tradição, que colocava o sujeito numa
condição extraordinária de possuir ferramentas e conhecimento restrito aos outros, ou o
intuito de buscar uma pureza via celibato ou eremitismo, havia muitas vezes uma qualidade
anômala que o diferenciava (MAUSS, 2008, p.69), como estigmas sociais relacionados à
prática da magia (na Escandinávia, ritos mágicos eram associados às mulheres; homens que
tomavam parte dessas atividades eram ridicularizados, vistos como afeminados ou
homossexuais, tabu numa sociedade que valorizava certos ideais de virilidade masculina) e,
de alguma forma, o distanciava do resto do grupo. Por seu caráter pouco organizado, porém
absolutamente embricado nos costumes, em que adivinhos e os ritos por eles ministrados
estavam de fato pulverizados nas relações mais imediatas entre as pessoas dentro de uma
comunidade, até mesmo conflitos entre diferentes povos poderiam ser decididos pelos
augúrios, em combates entre campeões dos estados adversários. Dizia-se que, em iguais
condições de vencer, cada um portando a arma nacional de sua terra, aquele que saísse
vitorioso representaria a graça de um deus sobre seu povo. Dessa forma, evitar-se-ia
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derramamento de sangue desnecessário: troca-se a morte de um combatente pela de um
exército inteiro (DAVIDSON, 1981, p.124).
No Japão, o ascetismo dos druidas também era característica dos sacerdotes que
habitavam os templos xintoístas espalhados pelo arquipélago. A grande diferença aqui é a de
que a relação dos japoneses com as forças capazes de conceder informação acerca do futuro
era muito mais orgânica e facilitada:
Os japoneses tem uma longa tradição de crença em outro mundo, povoado por divindades
superiores e normalmente benevolentes, acessíveis aos homens se eles souberem a maneira
apropriada de contacta-las. Esse outro mundo não é de nenhum modo desesperadamente remoto
ou distante. Dado o momento certo, o lugar certo e o método correto, contato pode ser
estabelecido. (BLACKER, 1981, p.64)
De fato, aquele a quem interessava receber alguma revelação (na língua japonesa,
uranai, ‘aquilo que está oculto’) era necessárias certas posturas purificadoras, que iam desde
a alimentação às vestimentas. O local onde os rituais eram realizados também eram de suma
importância. Normalmente, os processos de incubação de sonhos, um dos processos
divinatórios mais populares, se davam em templos onde os recipientes da dádiva se
estabeleciam por dias e noites, habitado de acordo com classe social. Havia espaço para os
pobres e humildes, decorados e equipados de acordo com sua condição; os mais ricos e
influentes tinham mais conforto, mas eram visitados pelas entidades durante o sono da
mesma forma. Processos naturais também eram observados, dentre eles a leitura de
rachaduras em cascos de tartaruga (Kiboku), possivelmente o método mais popular entre o
século XII até finais de XIX, porém estes ritos eram assistidos por adivinhos especializados,
empregados por um ‘Ministério de questões religiosas’, o Jingikan. A leitura desses cascos
era realizada através de diagramas cuja leitura era bastante rígida, portanto, precisa. Neste
caso, a escolha da pessoa a realizar o procedimento, do local onde ocorreria a leitura e o
momento propício para tal eram absolutamente calculados, via consulta às mesmas
divindades que prestariam as dádivas; erros poderiam “não apenas anular o rito como
provocar calamidades através de uma tatari, maldição vinda da divindade ofendida”
(BLACKER, 1981, p.65-66).
No Egito, os portais para os deuses eram ainda mais largos que no Japão, uma vez que
seu panteão era muito mais presente no plano físico que em outras religiões, a começar pelo
Faraó, Deus encarnado4. Lá, sacerdotes faziam as vezes dos profetas, evocando Imhotep,
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“Entre o mundo dos deuses e dos homens não há um abismo intransponível, mas sim uma gradação de
naturezas” (RAY, 1981, p.178).
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mago alçado ao panteão dos deuses. O principal instrumento oracular egípcio era a
interpretação de sonhos, a oniromancia. Utilizada principalmente em períodos de
instabilidade política, tornava-se uma ferramenta de propaganda extremamente eficaz por seu
caráter apaziguador:
O oráculo toma a forma esquemática, que se tornará clássica, do par catástrofe-restauração. Num
primeiro momento, eles descrevem as desgraças e calamidades que acabaram de acontecer
exprimindo-as no futuro, depois prometem o reerguimento, graças a um novo faraó, que é aquele
a quem eles servem e que encomendou o oráculo. Como é bastante frequente nesse campo, trata-
se, portanto, de uma falsificação com objetivo político, procedimento de que usarão e abusarão os
profetas bíblicos. Mas em povos constantemente imersos no sobrenatural, num contexto que
mistura intimamente profano e sagrado, é difícil fazer um julgamento desses comportamentos. A
falsa profecia tem um valor mágico: sua função, ao predizer uma mistura de passado e futuro, é
determinar este último. Apresentada em forma de predição, a profecia tem valor encantatório e
entende forçar o futuro. Essa intenção está subjacente em todas as formas de predição: controlar o
futuro, associando-o aqui a fatos reais passados; passado determinado e futuro incerto encontram-
se, assim, encadeados um no outro. (MINOIS, 2015, p.30)
Tão importante eram as profecias nos períodos de transição de poder que o primeiro
livro de instruções para faraós, Ensinamentos para Merikarec (publicado cerca de 2100 antes
de Cristo), espécie de testamento do faraó anterior e guia para aquele em vias de assumir e
que passou a ser um costume na passagem entre governantes, continha apologias bastante
explícitas à interpretação de sonhos como instrumento de governo.
Profecias são parte fundamental no mundo judaico-cristão, porém o traço mais
marcante nas predições destes povos é o deslocamento do futuro como destino para fora da
dimensão terrena; a verdade profética advém de Deus e de Deus apenas, e tudo é direcionado
para o Reino dos Céus. No máximo, seus oráculos informam quanto às tribulações, as
angústias e sofrimentos que precederão a salvação (ou a danação): “O futuro puramente
terreno é sem importância; o mundo, aliás, sem dúvida não terá futuro por muito tempo”
(MINOIS, 2015 p.147). O destino de reis, impérios, nações e povos então só importa como
pano de fundo para os desígnios divinos. Tudo caminha para um fim. E esse caminhar de fato
define a marcha incessante que caracteriza o judaísmo e a cristandade. Seus profetas guiam,
de apocalipse em apocalipse, seus fieis para novas tribulações enquanto aguardam a vinda do
messias e a salvação prometida.
Durante a escravidão do povo hebreu, cada profeta tentava determinar, sempre de forma
obscura, a duração de seu sofrimento até a salvação anunciada. Essa dinâmica exalta uma
peculiaridade do profetismo judaico, que é a incidência da profecia no presente, a revelação
do futuro que visa mudar o estabelecido, indicando ao povo escolhido quais “decisões devem
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ser tomadas em função das perspectivas anunciadas, da ‘promessa’ messiânica de salvação”
(MINOIS, 2015, p.53-64). Esse viés pragmático da profética hebraica se dá por uma
linearidade histórica da narrativa presente-futuro que rompia com os ciclos de eterno retorno
de boa parte das religiões do oriente, como o xintoísmo, zoroastrismo, hinduísmo, budismo
ou o jainismo; a jornada apontava para uma salvação final, a libertação definitiva do povo de
javé, uma escatologia que indicava de fato um fim da história, que se perpetua na tradição
cristã.
A razão disso é o caráter por vezes terapêutico da profecia, de tranquilizar e docilizar
àqueles a quem a profecia é dirigida. Uma forma de acalmar os corações dos fieis de quem se
espera submissão e paciência. A ideia de que todos os sofrimentos terrenos ocorrem
subordinados à um grande plano divino, como penitência ou provação, em que o grande
projeto, no fim das contas, é a sobrevivência da igreja e dos fiéis, enquanto houver realidade
terrena, visando um objetivo final: a realização da utopia divina.
Não por acaso, a trajetória do cristianismo é repleta de profetas: “a literatura bíblica fala
nomeadamente de 48 desses personagens e de 7 profetisas, entre as quais a irmã de Moisés,
Miriam, e suas intervenções se contam às centenas” (MINOIS, 2015, p.33). Ora, o próprio
Cristo era um profeta, e sua inclusão no rol dos profetas da cristandade nascente atestam um
dos primeiros grandes problemas enfrentados pela Igreja Católica, como instituição, que era
justamente a liberdade dos profetas independentes e o conteúdo potencialmente subversivo de
suas previsões. Seria cômodo, a exemplo de Roma, tomar para si o monopólio da vidência,
mas isso iria de encontro com a filosofia de cristo e o que ele mesmo representava. Durante
séculos foi necessário filtrar quais previsões a igreja endossava e o que seria relegado às
heresias, e o desconhecimento desse filtro acabou por dar um caráter muito mais escatológico
ao Cristianismo do que o bom senso sugere. Sim, os apocalipses ‘oficiais’ abundam, mas
muito mais numerosos são os apócrifos.
Mas, além das premonições de seus videntes, quais as ferramentas de que o
Cristianismo dispunha para imaginar o futuro? A atividade profética cristã tinha como
principal característica o monopólio da ‘fonte’ de visões de futuro. Todas as premonições
vinham de Deus, e cabia à Igreja separar o joio do trigo. Por isso, as sibilas e a astrologia, de
origens pagãs, constituíam meio controversos para adivinhação, ainda que, eventualmente,
tivessem sua eficácia atestada até mesmo por membros da Igreja. Santo Agostinho foi um
grande estudioso dos métodos pagãos de adivinhação, e foi quem melhor forneceu
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‘explicações’ para os acertos desses métodos, atribuindo um caráter positivo aos augúrios da
natureza (sem dúvida um resquício cultural de Roma), como a observação do voo dos
pássaros, que podem ser interpretados a partir do bom senso e da correta aplicação do
conhecimento natural; e um caráter negativo daqueles métodos considerados sobrenaturais,
que empregavam o conhecimento de demônios. Ou seja, se algumas ferramentas eram tão
eficazes, como a astrologia, da qual Agostinho fora entusiasta quando jovem, era justamente
porque se tratava de ferramenta demoníaca.
À medida em que a Igreja cerrava o olhar sobre o que era fruto da voz divina e o que
não era, a própria conjuntura social do mundo cristão tratou de impulsionar os arroubos
proféticos. Se num primeiro momento houve uma profusão de santos que, através de
premonições puderam antever seus martírios ou guerras e catástrofes (São Ambrósio, São
Domingos, Santo Adriano, Santo Antônio), por volta dos séculos XIV e XV não havia quem
estivesse a salvo das narrativas escatológicas que impregnavam o imaginário popular:
O Anticristo e o Imperador dos últimos dias são anunciados em quase toda parte, ao mesmo
tempo que o fim da Igreja, ou do clero, ou de certas ordens religiosas, e a vitória ou a derrota de
tal ou tal reino, tal ou tal dinastia, tal ou tal rei. Correm predições as mais extravagantes e mais
contraditórias. Para Norman Cohn e M. Barkun, essa inflação se deve ao acúmulo de catástrofes
que marcou o fim da Idade Média. A época é sombria: a partir dos anos 1315-1320, os períodos
de fome reaparecem; nos anos 1330 começa a guerra dos Cem Anos, que manda para o campo
tropas de mercenários, bandoleiros, “caimans”, “esfoladores”; em 1348 chega a peste negra, que
ceifa mais de um terço da população europeia, e cujas recorrências serão incontáveis durante mais
de um século; nos anos 1380, jacqueries e revoltas urbanas abalam a Europa do Noroeste,
seguidas de guerras civis entre Armagnacs e Bourguignons, York e Lancaster, contra o pano de
fundo do Grande Cisma entre dois e em seguida três papas, e de guerra religiosa, em especial
contra os hussitas, enquanto a maré turca invade o que resta do Império Bizantino e avança
irresistivelmente sobre o Oeste. (MINOIS, 2015, pgs.262-263)
Esse cenário contribuía para um entendimento de que já não havia mais tempo. A
humanidade findava, posto que o “essencial da história humana já passou” (DELUMEAU,
1999, p.342). Adversários políticos dos reinos cristãos, como os invasores turcos ou os
reformadores, eram pintados como anticristos e para muitos o sétimo selo estava em vias de
ser rompido. Esse cenário gerou uma banalização da atividade profética, e foi necessário que
se voltassem para meio ‘científicos’ de antever o futuro, como a astrologia. As elites
paulatinamente tornaram-se insensíveis a uma forma de predição que, considerada histérica,
teria mais apelo às massas combalidas. Além disso, o renascimento cultural que se avizinhava
e a descoberta do novo mundo geraram no mundo cristão um clima propício para novas
formas de profetizar, sem que o jugo da igreja fosse o único motivador para tal, a partir de
elucubrações de mundos possíveis para além da escatologia.
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1. 2 O profeta: mago, médico, poeta
O profeta sempre foi uma figura com características bem particulares. Presentes em
todas as sociedades, sempre houve demanda para aqueles que se pusessem a pensar o futuro.
Nesta seção, gostaria de apresentar brevemente alguns aspectos que julgo importante na
evolução da atividade profética ao logo do tempo.
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Podemos traçar um paralelo com o que ocorria na Grécia com as experiências do
Oriente. Entre assírios, hebreus e persas, por exemplo, era comum os reis terem sua comitiva
de profetas oficiais, sempre dispostos a predizer favoravelmente ao governo. Com o tempo,
isso gerou a tradição de profetas subversivos e marginais, sempre em oposição ao rei e sua
corte, que antecipava de alguma forma o que ocorria mais tarde com a Igreja Católica, que
em seus primeiros séculos teve que lidar com a fartura de profecias que escapavam ao
controle do papado. Em alguns casos, como no Japão e no Egito, o imperador e o faraó eram
os profetas máximos de suas nações. Isso sem dúvida mitigava as dificuldades com a
concorrência oracular. Nesses casos, a ancestralidade permitia um elo com o divino que não
estava disponível para outras pessoas.
Com o enfraquecimento do profetismo clássico em decorrência do cientificismo, coube
aos intelectuais pensar o futuro. Num primeiro momento, a atividade profética então passou a
ser mais uma prospecção filosófica em que se questionavam ética, costumes e formas de
governar de uma determinada época. Com o tempo, essa atividade foi se tornando cada vez
um exercício criativo, de cunho ficcional, mais satírica ou fantasiosa, ao ponto de se
converter, em muitos casos, à mero escapismo. Isso não se dá por acaso; sempre houve uma
proximidade entre a profecia e a poesia, pois, antes de tudo, um profeta precisa conceber com
palavras o futuro5. Por exemplo, a língua irlandesa tem dois termos para profeta que também
designam poeta, como eixe (adivinhação, poesia, ciência) e füidecht (ciência do poeta); no
caso da Grécia, Francis Cornford aponta que o vidente, o poeta e o filósofo eram a mesma
figura, semelhantes à xamãs, e que com o passar do tempo, essas funções foram decompostas
nas de mantis (o profeta grego), poietes (poetas) e sopkistes-pkilosophos (filósofos), agentes
distintos porém conscientes de que partilham da mesma fonte de inspiração (1952). De fato,
a literatura em verso e prosa assume o manto de profetisa na transição ocorrida a partir do
século XV, em que, “Impregnado das necessidades atuais, o poeta deve refugiar-se no futuro,
para indicar a meta às gerações que estão em marcha” (BÉRANGER, 2015, p.579).
5
“(...) dons oratórios ou poéticos também produzem mágicos” (MAUSS, 2008, p.64).
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Eventualmente, o avanço das ciências sociais, juntamente com o avanço tecnocrático
pós revoluções industriais, que tornou imperativo adaptar a adivinhação à prospecção, pois se
fez necessário antever questões demográficas, econômicas, ecológicas, enfim, em mundo em
que o capitalismo “permite lucros enormes, mas comporta riscos consideráveis, ligados às
incertezas do futuro. Daí a ideia de descobrir as leis que governam a economia e a
demografia para controlar o futuro, e até tirar proveito dele” (MINOIS, 2015, p.512). À
medida em que a sociedade se tornou disciplinar, se fez necessário decompor e quantificar
para controlar tudo: o tempo, as atividades, as punições, a vigilância, pois tudo precisa ser
previsível, antecipável:
O prognóstico produz o tempo que o engendra e em direção ao qual ele se projeta, ao passo que a
profecia apocalíptica destrói o tempo, de cujo fim ela se alimenta. Os eventos, vistos da
perspectiva da profecia, são apenas símbolos daquilo que já é conhecido. Se os vaticínios de um
profeta não foram cumpridos, isso não significa que ele tenha se enganado, por seu caráter
variável, as profecias podem ser prolongadas a qualquer momento. Mais ainda: a cada previsão
falhada, aumenta a certeza de sua realização vindoura. Um prognostico falho, por outro lado, não
pode ser repetido nem mesmo como erro, pois permanece preso a seus pressupostos iniciais.
(KOSELLECK, 2006, p.32)
2. Utopias e distopias
Essa já mencionada virada da profecia como assunto de estado ou prerrogativa
espiritual não ocorreu imediatamente. A racionalidade da profecia que visava acalmar os
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ânimos diante da miséria terrena e reafirmar o compromisso da trajetória dos seguidores de
Cristo até a salvação eterna deu lugar ao abastardamento dos profetas e das profecias, e as
tentativas da Igreja Católica de monopolizar os canais divinos deram resultado até certo
ponto. De fato, a própria repressão tornou propícia a proliferação de profetas ‘subversivos’,
que inflamavam as massas. A partir do momento em que os prognósticos passaram a apontar
para caminhos que não seduziam as elites, elas se voltaram para métodos mais sofisticados.
Na verdade, o advento do renascimento já apontava para esta sofisticação, e um maior
intercâmbio cultural com o oriente, que nunca deixou de existir, mas que havia certamente
diminuído diante da atmosfera política da Idade Média que culminou nas cruzadas, aliado a
um renovado interesse às heranças culturais da Grécia e do Império Romano, apontavam para
outras possibilidades de antever o futuro que não a dos profetas, tão raivosos e escatológicos.
Além do mais, o grande cisma (1054) e as reformas (1517) dividiram a Igreja e os fiéis. A
salvação não era mais prerrogativa exclusiva do Papa.
Além do resgate de ferramentas já disponíveis há muito, mas que eram desaconselhadas
pela Igreja, como a já citada astrologia, a futurologia foi-se desligando cada vez mais da
teologia e adquirindo traços mais puramente intelectuais. Pensar no futuro não envolvia mais
necessariamente a intenção de salvação do espírito, mas de apontar possibilidades de como
resolver o que afligia no presente o corpo físico. Foi então um grande momento para os
utopistas.
2.1 Das Utopias
O fatalismo e o determinismo foram dando lugar, gradativamente, à noção de livre
arbítrio e as ciências passaram a nortear aqueles que pensavam no futuro, especialmente a
partir do século XV. Consequentemente, os pensadores que tomaram o lugar dos profetas (em
sentido figurado, pois profetas ainda atuavam prolificamente) embebiam suas visões com um
relativo pragmatismo analítico que denunciava uma “uma insatisfação com o presente, e têm
em mira um estado de coisas supostamente ideal, que se apresenta como a antítese da
situação atual” (LAMARTINE, 2015, p.483).
Assim como as narrativas apocalípticas, as utopias representam em grande medida as
insatisfações de sua época. Cada utopista tentou pensar em cenários que, de alguma forma,
resolviam os problemas sociais, espirituais e culturais que pudessem ser percebidos pelo
autor. As reincidências temáticas, assim como ocorrerá com as distopias alguns séculos mais
tarde, traduzem as inquietações do período em que foram concebidas, porém com um viés
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pragmático de apontar possibilidades de resolução dessas questões. Se as distopias
possivelmente apontam para uma sensação de que nada se resolverá, o futuro não mais
representa evolução e o pessimismo impera, o racionalismo e o humanismo que tomavam
forma apontavam para sociedades ideais, em que os problemas contemporâneos já não mais
existiam. Era a superação do presente pelo futuro, ainda sinônimo de salvação, mas agora
terrena:
A literatura utópica, que frequentemente não tem em vista nenhum objeto social preciso e parece
perder-se em sonhos, pode parecer uma simples fuga da realidade, é uma atividade exercida e,
como tal, faz parte da realidade e transforma-a. Seu desenvolvimento e intensificação põem em
movimento forças latentes e criam novas necessidades. (BACZKO, 2015, p.486)
Importante destacar dois pontos: como dito por Bronislaw Baczko, a consciência acerca
dos problemas e soluções abordados nos textos utópicos eram capazes de mobilização, pois
antever o futuro é em si uma ação que visa sua realização (ou age no sentido de evitá-lo).
Segundo, não se trata de uma ruptura completa com o objetivo da salvação do espírito. Este
tipo de profecia não utilizava mais como fonte de inspiração os desígnios divinos, mas
tinham dentre seus alvos uma organização que abarcasse purificação espiritual e altivez
moral, especialmente no período que marcou a transição entre a profecia sacra e a secular. A
Igreja podia não ser a fiadora dos projetos de futuro, mas a ética cristã ainda era a mola
propulsora que movia os profetas.
2.2 Obras Utópicas
Gostaria aqui de apresentar brevemente alguns autores e obras que creio representar
bem os três séculos em que esse tipo de literatura se constituiu como uma das principais
atividades proféticas. O primeiro é o livro Utopia, de Thomas More (1478-1535), publicado
originalmente em 1516. Essa obra inaugura prematuramente este gênero literário 6, paradigma
de sociedade utópica absolutamente impregnada tanto pelo impacto da descoberta do novo
mundo, a partir das descrições de sociedades indígenas da América, quanto pelo resgate do
antigo, nas referências de Platão e Santo Agostinho na composição dessa sociedade:
(...) uma ilha imaginária, povoada por uma sociedade aparentemente feliz, regida por princípios
de rigorosa equidade, que deriva tanto da geometria como do Evangelho, verdadeira síntese do
racionalismo e do espírito religioso. (MINOIS, 2015, p.332)
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De fato, a literatura utópica só constituiria um gênero de fato e não meros arroubos episódicos a partir
do século XVII, “quando a verdadeira profecia inspirada tiver recuado definitivamente e o espírito
científico tiver surgido” (MINOIS, 2015, p.333).
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Alguns aspectos de Utopia são recorrentes nas obras utópicas que a sucederam, nos
fornecendo valiosas pistas quanto as aspirações de seus autores e os valores que os
inspiravam. A comunalidade e a equidade em relação a seus cidadãos (ainda que houvesse
em Utopia houvesse escravidão) e uma sociedade regida por valores cristãos também pode
ser vista em A cidade do sol, de Tommaso Campanella (1568 - 1639). Publicado em 1602,
compartilhava as mesmas referências e aspirações de More, embora tivesse um final mais
alinhado com as profecias do medievo, em que anuncia que uma coalisão da Igreja com a
coroa espanhola espalhará a fé verdadeira para todos os povos; inegável o impacto das feitos
náuticos de espanhóis e portugueses no imaginário da época.
Um aspecto divergente entre More e Campanella é o do papel da ciência e da tecnologia
nas sociedades descritas em seus livros. A Nova Atlântida (1622), de Francis Bacon, também
discorre sobre a importância das ciências e da tecnologia numa sociedade idealizada, em que
o governo tecnocrático da Casa de Salomão controla todos os aspectos da vida de sua
população, mais uma vez fazendo referência à república platônica; outro exemplo seria
Cristianópolis (1619), de Johannes Valentinus Andreae, em que mais uma vez o comunismo
cristão era associado a uma aplicação do método cientifico para resolução de problemas e
proposição de estatutos. Todos esses autores eram influenciados pelos valores de suas épocas,
assim como todos os profetas que os antecederam, por mais diferente que seja a natureza de
suas atividades, posto que a predição “revela a mentalidade, a cultura de uma sociedade e
de uma civilização” (MINOIS, 2015, p.18). A insatisfação com o estado das coisas levava
esses pensadores a imaginar, a partir de seus ideais de sociedade, em qual seria o modelo
mais adequado, a que deveria se aspirar. Um desejo de fuga ao absolutismo, à miséria moral e
espiritual, às limitações tecnológicas, e uma absoluta descrença de que esses cenários
pudessem ser alcançados, motivaram esses autores:
(...) trata-se de tapar o buraco deixado pelo fim dos oráculos e das profecias, substituir o
angustiante desconhecimento da incerteza por uma miragem mais ou menos crível, esperada ou
temida, mas que possa servir de guia à ação presente. Quando o futuro não existe, é preciso
inventá-lo. (MINOIS, 2015, pgs.97-98)
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2.3 Distopia
Em 1726, o livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swfit (1667 - 1745) apresenta
diversos reinos fantásticos desbravados pelo personagem titular. Não se trata de uma predição
do futuro no sentido mais convencional; Gulliver não viaja no tempo ou coisa parecida, mas
sua experiência descreve encontros com versões negativas das sociedades da época, como
Lilliput, burocrática e beligerante, ou Balnibarbi e sua relação problemática com
empreendimentos científicos. A fantasia satírica do enredo denuncia um período de profundo
descontentamento no século XVII que viria a se tornar cada vez mais efervescente até
chegarmos em seu ápice, no século XX. Se num primeiro momento as utopias eram tidas
como ideais justamente pela falta de esperança de serem concretizadas, as contrautopias são
marcadas pela possibilidade de, sim, de alguma forma, serem realizáveis. As principais
características da distopia, como viria a ser chamado este tipo de cenário, são a exacerbação
de elementos sócio-político-culturais negativos contemporâneos a quem os imagina. A
distopia não precisa ser necessariamente situada no futuro, mas é comum que o seja pelos
motivos que tentamos descrever neste texto, especialmente a nossa necessidade de agir em
relação ao presente, tentando modificá-lo com as ferramentas à mão.
Essa potência auto-realizável das predições é patente na dinâmica dos temas utópicos e
contrautópicos. Considerável parte dos cenários imaginados por autores utópicos trazem
consigo germes distópicos; por exemplo, o texto Dissertação sobre a reforma da polícia da
França, escrito em 1749 pelo oficial Guillaute, descrevia um estado policial e burocrático, de
extrema vigilância, pois esses eram os ideais de parte da intelligentsia da época. E parte do
que o fazia utópico era justamente a percepção de que tal configuração social seria impossível
de executar:
(...) Se as primeiras são concebidas como paraísos, é porque se acredita que são irrealizáveis, e se
as segundas são infernos, é porque são consideradas verossímeis num futuro mais ou menos
próximo. A primeira característica de um paraíso é que ele não existe; tentar concretizá-lo é fazê-
lo desaparecer. (...) Presenciamos assim uma curiosa relação dialética entre a utopia, a realização
desta e a contrautopia; a primeira prediz um paraíso, que alguns tentam concretizar;
concretizando-se, o sonho adquire aspectos de inferno, o que suscita novos profetas, que
anunciam e advertem numa contrautopia contra o primeiro projeto, sonho que se tornou pesadelo.
(MINOIS, 2015, pgs.685)
Hoje, a realização de boa parte dos textos utópicos dos séculos XVII e XVIII, sem a
menor dúvida, seria vista como um cenário distópico, especialmente pelas experiências de
quem viveu o século XX.
14
3. O Futuro
3.1 regimes temporais, diferentes futuros e o presenteísmo: como a ideia de futuro
mudou com o passar do tempo, bem como a nossa relação com passado presente e
futuro;
3.2 Conclusão: O Futuro do nosso presente
O pessimismo que incorrera nos autores de ficção científica (que se estabeleceu como
tal através do germe das utopias, a partir da ideia quase unanime de que “ciência será a rainha
da sociedade futura”7) praticamente extirpou utopias do imaginário coletivo ficcional. O
clima de instabilidade política que perdurou todo o século XIX e culminou nas duas guerras
mundiais ainda na primeira metade do século XX produziu obras distópicas que
transcenderam meios e hoje estão firmemente condicionadas na cultura popular global, como
Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Fahrenheit 451 (Ray
Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), Planeta dos Macacos (Pierre Boulle) e
Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick). Por que esses autores imaginaram
o futuro sob um viés tão pessimista? Nas palavras de Gottfried Wilhelm Leibniz, "o mundo
que está por vir já se encontra embutido no presente, completamente modelado" (2006, p34).
Apesar do início do século XX sugerir um certo otimismo, já ao final da primeira
década as tensões que culminariam na Grande Guerra minaram os ânimos Ocidentais. Talvez
o paroxismo da futurologia nas artes, o manifesto futurista de 1909, “que transforma em
valores estéticos e políticos [...] a máquina, a velocidade, a violência e a guerra”
(BERARDI, 2019, p.13) é a tradução precisa das transformações que ocorreram no
paradigma da utopia. Essas elucubrações transcendem as predições folclóricas e exercícios
das ciências econômicas pós revoluções industriais, permeando todas as revoluções sociais,
técnicas e econômicas até chegar na criação e o desenvolvimento do cinema.
Desde sua gênese o cinema se ocupa em elucubrar o futuro, tendo em Georges Méliès
(Viagem à Lua, 1902), pioneiro revolucionário particularmente na arte dos efeitos especiais
(tão cara à ficção científica), um de seus primeiros autores no gênero, então ainda conhecido
por ‘scientifiction’. No cinema sci-fi do início do século XX, os enredos giravam em torno de
viagens fantásticas e alienígenas exóticos (Viagem à Lua, 1902, e Himmelskibet, 1918) e,
assim como sua contraparte literária, possuía um caráter predominantemente otimista e
fantástico. Durante o período entre guerras, a mecanização da sociedade, cientistas loucos e
7
MINOIS, 2015, p.559.
15
cenários futuristas eram o foco das produções cinematográficas (Metrópolis, 1927, e O
Homem Invisível, 1933). No período pós Segunda Guerra, especialmente nos anos 50, a
‘atomic age’ e a Guerra Fria ditaram a tônica dos filmes através de invasões alienígenas,
exploração espacial e acidentes evolvendo a ainda novidade da energia nuclear (O Dia em
que a Terra Parou, 1951, e Godzilla, 1954), bem como suas implicações na vida cotidiana do
futuro, evidenciando a dicotomia da relação da sociedade da época com a ciência e a
tecnologia e seus rápidos avanços no período. Dicotomia que também se faz presente no
caráter ideológico dessas produções, que ora promulgavam os ideais particulares de seus
países de origem (especialmente os EUA), ora questionavam o estado das coisas; essa postura
era possível devido ao distanciamento da realidade típico do gênero, que permitia a seus
autores uma espécie de “discórdia permissível” em seus comentários sociais (BISKIND,
1983, p.97), ainda rara em Hollywood e nos demais polos de produção cinematográfica. Nas
décadas de 60 e 70, a relação beligerante entre homem e meio ambiente tornou-se grande
protagonista, tendo vital importância em filmes seminais como Corrida Silenciosa (1972), No
Mundo de 2020 (1973), Fuga no Século 23 (1976) e as primeiras incursões cinematográficas
da franquia Star Trek (especialmente a segunda e a terceira partes, lançadas respectivamente
em 1982 e 1984).
O fato de cada período ter apresentado reincidências temáticas facilmente discerníveis
não se dá por acaso, pois o cinema de gênero opera por ciclos, formados “ao redor do sucesso
financeiro ou de crítica de um ou dois filmes que abordam aspectos pontuais e que possuem
uma iconografia ou estruturas narrativas que possam ser facilmente duplicadas” (KLEIN,
2011, p.97). Ciclos particularmente bem-sucedidos frequentemente tornam-se subgêneros,
como os filmes de monstros gigantes (ou Kaiju, em japonês), num processo semelhante ao
descrito por Rick Altman, em que, antes de configurar um substantivo, um gênero (ou
subgênero) funciona como um adjetivo, uma interface possível dentre várias para algum
gênero já existente (1999, p.53).
Esses ciclos são compostos por um páthos relacionado ao período de seu surgimento,
pois “cada sistema de ficção é, em si, um produto determinado histórica e socialmente”
(MORIN, 2005, p.168). Na década de 50, por exemplo, invasões alienígenas eram
recorrentes; entre outras coisas, correspondem ao princípio da Guerra Fria e à um temor
ocidental de uma possível invasão soviética: “diferentes ciclos utilizaram suas imagens
horríveis para expressar certas angústias relacionadas com as dificuldades de seus períodos”
16
(CARROLL, 1990, p.208). Os ciclos são, portanto, reflexos da psique coletiva de uma
determinada época, pois “o que, para cada sociedade forma problema em geral (ou surge
como tal a um nível dado de especificação e de concretização) é inseparável de sua maneira
de ser em geral, do sentido precisamente problemático com que ela investe o mundo e seu
lugar nele” (CASTORIADIS, 2000, p.162). Além da camada mais superficial do texto desses
filmes, podemos filtrar significações mais ou menos ocultas, pois dizem respeito à
“construções arquetipais concernentes ao inconsciente coletivo de uma sociedade, compostas
por alegorias e símbolos, isto é, é a própria ideia tornada sensível, encarnada” (JUNG apud
DURAND, 1993, p.10); ou ainda, dentro do contexto da cultura de massa, alude ao “corpo de
símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária, um sistema de
projeções e de identificações específicas” (MORIN, 2002, p.15). Portanto, ciclos aparecem e
reaparecem; assim como algumas inquietações sociais específicas acompanham crises que
teimam em reincidir (como a questão dos refugiados, consequência inevitável das guerras), os
ciclos podem retomar sua relevância e pertinência. Por exemplo, ainda que não possua a
premência de outrora, a questão da bomba atômica nunca deixou de habitar o imaginário
coletivo; paralelamente, filmes de monstros gigantes ou desastres nucleares nunca deixaram
absolutamente de ser produzidos.
Levando a questão dos ciclos em consideração, distopias sempre estiveram presentes no
cinema sci-fi, tendo em Metrópolis seu grande exemplo na primeira metade do século XX.
Mas é a partir da década de 70, especialmente a partir de 2001 – Uma odisseia no Espaço
(1968)8, que essas obras parecem ter se tornado a principal interface através da qual
refletimos no que consistiria a humanidade do futuro (e do presente); após a obra de Kubrick,
filmes de ficção científica aparentam sugerir um crescente e inexorável estado de alienação
que parece insistir em permear as sociedades do futuro. O etos otimista iniciado no pós-
guerra, que perdurou as décadas de 50 e 60, durante a década de 1970 dá lugar a um clima de
incertezas, seguido por um pessimismo generalizado que impregnou a psique coletiva de
parte do globo: “O fim da onda expansionista pós Segunda Guerra, as revelações a respeito
dos Gulags Soviéticos, o horror do Camboja, então a Revolução Iraniana e o início da reação
neoliberal” (BENSAID, 2011, p.16) influenciaram boa parte das produções do período. A
8
“De fato, até pelo menos 1968, o futuro era imaginado de forma eufórica. Apesar das tragédias, das guerras e
dos inúmeros massacres, o sentimento que imperava no Novecento era de fé na realização final da razão.
Tomando muitas formas – justiça social, afirmação nacional, democracia liberal, perfeição tecnológica –, o
horizonte parecia brilhante, mesmo que o caminho até o futuro fosse pavimentado com sofrimento, miséria,
dificuldades e luto inimagináveis” (BERARDI, 2019, p.6).
17
recessão e a militarização de vários países (na América Latina, foi o pior momento das
ditaduras militares), acrescidas ao reaquecimento de uma Guerra Fria que parecia estar em
seus estágios finais (e de fato estava, porém não sem antes reavivar os temores de uma
Guerra Nuclear), tornaram propícios a propagação e a implementação da doutrina neoliberal
na porção ocidental do globo.
O cinema evidentemente foi capturado por esses humores, e a produção a partir da
década de 70 dedicou-se com afinco a explorar “a relação demasiadamente problemática que
temos com o nosso próprio mundo” (TELOTTE, 2004, p.141). Num período marcado pelo
consumismo, exuberância visual e, em alguns casos, entretenimento revestido de
nacionalismo, o final da década de 70 e a década de 80 como um todo viram surgir as grandes
franquias9 do sci-fi, impulsionadas pelos avanços tecnológicos na área dos efeitos especiais,
bilheterias expressivas e uma agenda democrática/capitalista livre como nunca para se
propagar pelo mundo. Enquanto a União Soviética agonizava, as duas principais doutrinas
político-sócio-econômicas do ocidente, a Reaganomics e o Thatcherismo10 influenciaram
senão a ideologia de alguns filmes, mas o páthos dos futuros imaginados nos filmes sci-fi:
(...) o etos dos anos Reagan/Thatcher então conferiu um realismo específico para as distopias
imaginadas por escritores cyberpunk, cineastas e teóricos culturais, para os quais as piores
tendências dos sistemas econômicos vigentes não davam sinais de que se abrandariam, mas
podiam apenas serem extrapoladas a algo muito pior – um mundo de pesadelo onde questões
sentimentais a respeito da identidade humana não seriam mais relevantes na batalha para
simplesmente sobreviver. (SHORT, 2005, p.164)
18
Linguagem e gírias das ruas. Eu poderia continuar essa lista e ainda assim não encerraria a
discussão sobre os efeitos teórico-conceituais, sociológicos, antropológicos e filosóficos que
Neuromancer catalisou e constituiu a partir de seu lançamento na década de 1980. (AMARAL,
2016, p.316)
O Ocidente não parece mais ser capaz de se imaginar no futuro numa continuidade
saudável, positiva. Como diz Geoges Minois, “Quando o sonho e o pesadelo devem conviver,
constrói-se o futuro que se pode” (2015, p.660).
3.3 epílogo: futuros possíveis: o afrofuturismo
Referências
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