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Cinema e Educação contra Estereótipos Raciais

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

LABORATÓRIO PRÁTICA DE ENSINO EM FILOSOFIA

WILLIAM SANTOS RODRIGUES

202010189311

O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA MITIGAÇÃO DE ESTERIÓTIPOS RACISTAS NO


CINEMA
Rio de Janeiro

2023

A relação entre educação e cinema é complexa e pode ser explorada de várias


maneiras, incluindo o uso do cinema como ferramenta pedagógica, o estudo do
cinema como forma de arte e mídia, e a análise crítica de representações
educacionais no cinema. Dentro e fora da sala de aula, o cinema cumpre um papel
fundamental na construção de uma perspectiva sobre os mais variados assuntos
que percorrem a via social, e não poderia ser diferente com a questão do racismo.
Sendo assim, será proposto aqui, uma exposição da forma como o cinema
contribuiu para o advento de um ponto de vista que reforça desigualdades raciais e
preconceitos, por meio do uso de personagens negros carregados de estereótipos e
de que forma o papel da educação se manifesta nessa dinâmica, apresentando uma
proposta de aula que vai encontro a mitigação desse problema ao final.

Primeiro de tudo cabe pontuar que os estereótipos racistas no cinema têm sido
usados historicamente no sentido de reforçar visões distorcidas e prejudiciais sobre
grupos raciais. Esses estereótipos - que inclusive são encarados como inofensivos
por grande parte da sociedade, quando não são desprezados e taxados de
problemas imaginários - não apenas perpetuam preconceitos, mas também
influenciam a percepção pública e a autoimagem das comunidades retratadas de
maneira negativa. Estereótipos racistas reduzem indivíduos a caricaturas
desprezíveis, desumanizando e desvalorizando suas experiências e identidades. A
repetição desses estereótipos no cinema ajuda a naturalizar e perpetuar
preconceitos, tornando-os parte do imaginário coletivo e dificultando a luta contra a
discriminação e o racismo estrutural.

Essa problemática existe por uma combinação de razões históricas, sociais e


econômicas. A história de colonialismo e escravidão deixou profundas marcas
culturais, incluindo a visão desumanizadora de grupos não-brancos. Esses
estereótipos foram perpetuados através de várias formas de mídia, incluindo o
cinema, um esquema que perdura até hoje. Nos EUA, em específico, temos o
exemplo do chamado Minstrel Show, nome pelo qual ficou conhecido o popular
show de teatro onde era muito comum o uso de ‘’black-face’’ e personagens negros
caricatos, sendo sempre ignorantes, preguiçosos, falastrões, supersticiosos e
musicais.
O eurocentrismo, que é a tendência de ver o mundo através de uma perspectiva
europeia e de valorizar a cultura europeia acima de todas as outras, também se
apresenta como um dos motores que movem essa problemática. É comum que
enredos mainstream sigam narrativas centradas em personagens e valores
ocidentais, relegando as culturas não-brancas a papéis de apoio ou de exotismo.
Histórias de exploração, colonização e "civilização" frequentemente são contadas do
ponto de vista dos colonizadores, desumanizando ou marginalizando as
experiências dos colonizados. As culturas não-brancas, são então apresentadas de
forma simplificada, exotizada ou inferiorizada, frequentemente retratadas como
"outras", exóticas e misteriosas, reforçando a ideia de que elas são distantes e
incompreensíveis. Isso perpetua estereótipos negativos e dificulta a representação
autêntica e diversificada. Entretanto essa dinâmica de construção de um ideário de
dominação e superioridade branca não se dá só nesse âmbito ideológico, mas
também logístico. Comercialmente, a busca por lucro no cinema frequentemente se
apoia em pré-conceitos amplamente aceitos para atrair um público maior. Esses
clichês simplificam personagens e tramas, o que facilita uma produção rápida e a
comercialização em larga escala. Historicamente, a indústria cinematográfica foi
dominada por indivíduos de grupos socialmente privilegiados (principalmente
homens brancos), que reproduziam suas próprias perspectivas e preconceitos nas
histórias que contavam. Os estereótipos funcionam como atalhos narrativos,
permitindo a criação rápida de personagens e situações, economizando tempo e
recursos que seriam necessários para desenvolver histórias mais complexas e
autênticas.

Há muitos exemplos de estereótipos raciais no cinema, mas um exemplo em


específico perpassa quase que todas as minorias raciais envolvidas nessa
problemática: o estereótipo do ‘’branco salvador’’. O estereótipo do "Branco
Salvador" é uma narrativa muito corriqueira onde um personagem branco é
retratado como o herói virtuoso principal que salva personagens de minorias raciais
de uma situação difícil ou perigosa. Esse tipo de enredo é problemático porque
promove a ideia de que pessoas não brancas precisam ser salvas por brancos,
reforçando uma dinâmica de poder desigual e de posição inferior do não-branco,
incapaz de vencer seus obstáculos sem a ajuda de um branco altruísta, diminuindo
assim sua capacidade e agência. Geralmente, o "Branco Salvador" ocupa o centro
da narrativa e é visto como essencial para resolver o conflito. Mesmo que a história
ocorra em um contexto cultural ou social de minorias raciais, o foco se desvia para a
perspectiva e as ações do personagem branco. Muitas vezes, a trajetória do
"Branco Salvador" também é uma jornada de redenção pessoal; ao ajudar as
minorias raciais, o personagem branco resolve seus próprios conflitos internos ou se
redime de um passado problemático.

Há diversos exemplos no cinema que ilustram este estereótipo. O filme "Green


Book: O Guia" é muitas vezes apontado como um exemplo do estereótipo do
"Branco Salvador" no cinema. A trama gira em torno de Tony Lip, um segurança
ítalo-americano contratado para ser motorista e guarda-costas do pianista negro
Don Shirley durante uma turnê pelo sul dos Estados Unidos na década de 1960.
Apesar de ter sido elogiado pela crítica e ter ganhado vários prêmios, incluindo o
Oscar de Melhor Filme, o filme também foi criticado por sua abordagem superficial
das questões raciais e por perpetuar o estereótipo do "Branco Salvador". A narrativa
é contada principalmente do ponto de vista de Tony Lip, interpretado por Viggo
Mortensen. Ele é retratado como um homem inicialmente preconceituoso que,
através da convivência com Don Shirley, interpretado por Mahershala Ali, supera
seus próprios racismos e se torna um "herói" que protege e ajuda Shirley. A jornada
de Tony é o foco principal da história, mostrando como a experiência de trabalhar
com Don Shirley o ajuda a crescer como pessoa, superar seus preconceitos e
fortalecer seus valores morais. Enquanto Tony é mostrado como o personagem que
evolui e se redime, Don Shirley, apesar de ser um músico talentoso e complexo, é
frequentemente retratado de forma simplista. O filme não explora profundamente
suas lutas e perspectivas, concentrando-se mais em como ele influencia a
transformação de Tony. Ao focar na transformação do personagem branco, o filme
reforça a ideia de que o racismo pode ser superado através da boa vontade e da
bondade dos brancos, sem abordar as estruturas sistêmicas e institucionais do
racismo. "Green Book" minimiza as experiências e lutas reais de Don Shirley,
relegando-as a um plano de fundo para a narrativa de crescimento pessoal de Tony,
perpetuando a marginalização das vozes e histórias negras. Além disso, o filme
apresenta uma visão simplista das relações raciais, sugerindo que o racismo pode
ser superado por meio de amizade individual, sem tratar das raízes mais profundas
e complexas da discriminação racial.

Um outro filme que exemplifica o complexo de ‘Salvador Branco’’ é o filme "Um


Sonho Possível" (The Blind Side), baseado em uma história real, o filme mostra
como uma mulher branca (Sandra Bullock) ajuda um jovem negro (Quinton Aaron) a
alcançar sucesso no futebol americano, colocando a ênfase na generosidade e
bondade da mulher branca. Já no filme "O Último Samurai" (The Last Samurai),
Tom Cruise interpreta um oficial americano que se junta a uma rebelião samurai no
Japão. Ele acaba se tornando um líder dentro da cultura japonesa, destacando-se
como o herói da narrativa, introjetando a ideia de que o homem branco também se
estabelece como um salvador para pessoas asiáticas.
Outro estereótipo muito presente no cinema é o estereótipo do "servo fiel", o ‘’servo
fiel’’ é uma representação no cinema e em outras mídias, onde personagens de
minorias raciais, frequentemente negros, são retratados como servos leais e
devotados aos personagens brancos. Esses personagens são geralmente
subordinados que dedicam suas vidas a servir, proteger e apoiar seus
empregadores ou amigos brancos, muitas vezes com pouca ou nenhuma
consideração por suas próprias ambições, desejos e complexidades como
indivíduos. Esse estereótipo tem raízes profundas na história e cultura dos Estados
Unidos, especialmente no período da escravidão e da segregação racial, onde ficou
popular a figura do ‘’negro da casa’’, que por ter mais contato com o senhoril e mais
privilégios em comparação ao negro do campo se colocava muitas vezes nesse
papel de servidão cega ao ponto de renunciar à própria identidade negra.

O servo fiel é sempre leal e devoto ao seu empregador ou amigo branco,


independentemente de como é tratado. Sua lealdade é muitas vezes retratada como
inabalável, independentemente das circunstâncias. Esses personagens
frequentemente sacrificam seus próprios interesses, desejos e bem-estar pelo bem
de seus senhores ou amigos brancos. Sua própria identidade e vida pessoal são
minimizadas ou ignoradas. O servo fiel é geralmente retratado de maneira simplória,
sem uma história de fundo rica ou desenvolvimento de caráter. Eles existem
principalmente para apoiar e servir aos personagens brancos. Ao reduzir esses
personagens a servos leais, o estereótipo desumaniza pessoas de minorias raciais,
negando-lhes a complexidade, a individualidade e a autonomia que são dadas aos
personagens brancos. Tomamos por exemplo o filme "Django Livre" (Django
Unchained), dirigido por Quentin Tarantino. No filme, o personagem Stephen,
interpretado por Samuel L. Jackson, é um exemplo notável do estereótipo do "servo
fiel". Stephen é um escravo negro que trabalha como chefe dos criados na
plantação de Calvin Candie, um cruel proprietário de escravos interpretado por
Leonardo DiCaprio. Embora Stephen seja um escravo, ele desempenha um papel
de poder dentro da casa grande e é retratado como extremamente leal e submisso
ao seu mestre branco, Calvin Candie.

Stephen exibe várias características do estereótipo do "servo fiel". Primeiramente,


sua lealdade a Calvin Candie é inquestionável. Ele protege os interesses de Candie
e age como seus olhos e ouvidos na plantação. Stephen vai até o ponto de informar
Calvin sobre qualquer potencial ameaça ou problema, demonstrando uma devoção
total ao seu mestre. Além disso, Stephen sacrifica os interesses de seus próprios
companheiros escravos, muitas vezes agindo contra eles para proteger e agradar
Candie. Sua própria identidade e bem-estar são secundários à sua missão de servir
e proteger seu mestre branco.

Por fim temos o estereótipo da mulher hiperssexualizada, isto é, mulheres que são
retratadas de maneira exageradamente sexualizada, com foco desproporcional em
sua aparência física e atributos sexuais. Este estereótipo reduz as mulheres a
meros objetos de desejo sexual, desconsiderando suas complexidades, habilidades
e personalidades. Ele não só reforça visões simplistas e desumanizadoras sobre as
mulheres, mas também pontua normas de gênero e raça prejudiciais.

A mulher hiperssexualizada recebe um foco intenso na aparência física. As


personagens hiperssexualizadas são frequentemente representadas com roupas
reveladoras, poses provocantes e atributos físicos destacados. Sua aparência é
priorizada acima de qualquer outra característica ou qualidade, e tudo que é exterior
a isso como características de personalidade são postaS de lado. Além disso, essas
mulheres são frequentemente mostradas como objetos de desejo sexual para os
personagens masculinos, existindo principalmente para satisfazer as fantasias e
desejos dos homens. Essa objetificação desumaniza as mulheres, reduzindo-as a
meros corpos em vez de indivíduos completos e singulares.

Outro aspecto importante é a falta de profundidade dos personagens. Mulheres


hiperssexualizadas raramente têm histórias de fundo ricas ou desenvolvimento de
caráter significativo. De forma geral essas personagens são inteiramente definidas
por seus atributos físicos e tudo que está além disso é desprezado. Esse tratamento
superficial não só desconsidera a diversidade de experiências e personalidades das
mulheres, mas também reforça a ideia prejudicial de que seu valor reside apenas
em sua aparência e sexualidade.

A hiperssexualização também está intimamente ligada a normas de gênero e raça.


Mulheres de minorias raciais, em particular, são frequentemente hiperssexualizadas
de maneiras que reforçam estereótipos raciais negativos. Por exemplo, mulheres
negras são frequentemente retratadas como sexualmente agressivas ou
promíscuas, perpetuando imagens históricas de escravização e exploração sexual.
Da mesma forma, mulheres latinas e asiáticas podem ser fetichizadas como
exóticas e submissas, reforçando estereótipos racistas e sexistas.

Esse estereótipo tem vários impactos negativos. Ele contribui para a objetificação e
desumanização das mulheres, influenciando a forma como são vistas e tratadas na
sociedade. Também perpetua a desigualdade de gênero, sugerindo que o valor das
mulheres está ligado à sua capacidade de atender às expectativas sexuais dos
homens.

Halle Berry em "Catwoman" (2004) poder ser usada como um exemplo do uso
desse esteriótipo quanto a corpos negros interpreta uma versão do personagem que
é altamente sexualizada. O traje de Berry é ainda mais revelador, consistindo de um
conjunto de couro que expõe grande parte de seu corpo, incluindo seu abdômen e
coxas. As cenas de ação e as interações com outros personagens são
frequentemente filmadas de modo a destacar sua aparência física e apelo sexual. A
performance de Berry é marcada por movimentos felinos e poses sensuais, que
servem para sublinhar sua sexualidade em detrimento de outras características do
personagem. Apesar de ser uma heroína com habilidades e motivações próprias, a
Catwoman de Berry é muitas vezes reduzida a um símbolo sexual através de sua
representação visual e comportamental.

Essas representações de Catwoman reforçam o estereótipo da mulher


hiperssexualizada, onde o valor e a importância da personagem são fortemente
associados à sua aparência e sexualidade. Embora Catwoman seja uma
personagem forte e independente, suas versões cinematográficas frequentemente
enfatizam aspectos de sua sexualidade de maneira a atrair e manter a atenção
masculina. Ao fazer isso, essas interpretações perpetuam uma visão limitada e
objetificante das mulheres, reduzindo sua complexidade e individualidade a atributos
físicos e comportamento sedutor. Isso limita a percepção do público sobre o
potencial das personagens femininas, reforçando a ideia de que seu principal valor
reside em sua capacidade de serem desejadas sexualmente.

Para superar o estereótipo do "Branco Salvador", do ‘’Servo Fiel’’ e da mulher


hiperssexualizada, é essencial promover a diversificação das narrativas, colocando
personagens de minorias raciais no centro da história e destacando suas
capacidades, resistências e complexidades. Infelizmente, essa é uma problemática
que não encontra nenhuma resistência na iniciativa privada, e, dessa forma, a
educação serviria um importante mecanismo de mitigação dela. O papel que o
ensino desempenha na desconstrução desses paradigmas racistas precisa ser
considerado e tomado como ponto de partida na luta contra esses estigmas. A
inclusão de criadores de conteúdo diversos, incentivando e apoiando roteiristas,
diretores e produtores de diferentes origens culturais, é fundamental para garantir
que as histórias contadas sejam autênticas e representativas. Aumentar a
conscientização sobre os danos desses estereótipos e promover a criação de
conteúdos que desafiem essas narrativas, tanto na indústria cinematográfica quanto
no âmbito acadêmico, são passos importantes. Ao abordar e desafiar o estereótipo
do "Branco Salvador", ‘’Servo Fiel’’ e da mulher hiperssexualizada o cinema pode
evoluir, lado a lado em auxílio do uso das ferramentas pedagógicas para
representar de forma mais equitativa e realista a diversidade de experiências
humanas, promovendo narrativas que respeitem e celebrem a autonomia e a
complexidade de todas as culturas e comunidades.

Em minha experiência como estagiário da rede básica de ensino, pude perceber o


quanto os personagens de cinema são impactantes no consciente dos alunos, eles
conseguem transmitir ideais, estéticas, pontos de vista e fatos históricos com uma
facilidade quase milagrosa, e é em ima disso que a minha proposta de aula foi
construída. Se trata então de propor uma série de aulas abordando esses
estereótipos cinematográficos e as consequências que eles trazem ao psicólogo e a
visão de mundo dos alunos. Seria interessante trazer para a discussão a opinião de
alunos pertencentes a grupos minoritários que possam se identificar com o que é
dito. Ao mesmo tempo, seria pertinente expor narrativas não-hegemônicas, que
lidem com a representação de grupos minoritários de formas dignas e respeitáveis,
a fim de mostrar uma nova face para esses personagens e histórias.
REFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

INFO ESCOLA. Relação entre Cinema e Educação. In: VESCE, Gabriella E. Relação entre
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[Link]
Acesso em: 28 jun. 2024.

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CANDIDO, M. R.; FERES JÚNIOR, J.. Representação e estereótipos de mulheres negras no


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DINES, Gail; HUMEZ, Jean M. (Orgs.). Gender, Race, and Class in Media: A Critical
Reader. [Inserir edição se houver]. Thousand Oaks: Sage Publications, [ano de publicação].

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