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Letramento Racial na Escola de Jaguaribe

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LETRAMENTO RACIAL NO AMBIENTE ESCOLAR:

SENSIBILIZAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO RACIAL NUMA ESCOLA


DE ENSINO FUNDAMENTAL EM JAGUARIBE, CEARÁ.
Autora Maria Luana Viana de Araújo1
Orientadora Ana Claúdia dos Santos Silva2

INTRODUÇÃO

A abordagem das relações étnico-raciais no Brasil frequentemente se destaca por


confrontos e tensões. Com origens profundas, o racismo estrutural permeia praticamente todas
as áreas da vida humana, especialmente no ambiente escolar, representando um desafio
significativo para os educadores, sendo necessário um Letramento Racial e uma Educação
Antirracista (Ferreira, 2014) visto que o Brasil é alvo de racismo desde o seu “descobrimento”.
Conforme Cavalleiro (2001) os princípios da Educação Antirracista englobam
reconhecer a existência do problema racial na sociedade brasileira. Pois, é comum a sociedade
afirmar que existe racismo no Brasil, mas que não são pessoas racistas. Além disso, preconizam
a constante busca por espaços reflexivos sobre o racismo e suas manifestações no contexto
escolar. Outro princípio é que a abordagem repudia e intervém em atitudes preconceituosas e
discriminatórias na sociedade e na escola, promovendo relações respeitosas entre negros e
brancos, tanto entre crianças quanto entre adultos. A promoção da igualdade se dá através do
reconhecimento e valorização da diversidade no ambiente escolar, incentivando a participação
de todos os atores sociais. A Educação Antirracista propõe um ensino crítico da história dos
diversos grupos étnicos e raciais que compõem a história brasileira, implicando em buscar
materiais que rompam com o todo eurocentrismo dos currículos, dos materiais didáticos, das
práticas de ensino, promovendo assim, a diversidade racial e destacando a história e cultura do
povo negro. É também de suma importância desenvolver estratégias que eduquem para o
reconhecimento positivo da diversidade racial (Santos; Santos; El Kadri, 2021).

1
Graduando/a do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Instituto Federal do Ceará – IFCE,
vianalu71@[Link];

2
Mestra em Letras pela Universidade Federal do Piauí – UFPI, professora do IFCE, Campus Jaguaribe, e-mail:
[Link]@[Link];
Nesse contexto, incorpora-se o princípio do reconhecimento e construção da identidade
racial dos estudantes negros/as das escolas públicas, alinhado aos valores da comunidade negra.
Esse processo envolve representações justas e críticas que destacam a importância história e
social dessa população para o desenvolvimento da sociedade brasileira.
O trabalho relata a experiência das ações de Educação Antirracista em uma escola de
ensino público no munícipio de Jaguaribe – Ceará, com alunos do 9º ano. O trabalho aconteceu
vinculado ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) do IFCE campus
Jaguaribe e aconteceu no período de agosto e setembro. Teve como objetivos fomentar o
letramento racial por meio da implementação de atividades educativas que aumentassem a
consciência e a sensibilidade dos alunos acerca da valorização e do respeito à diversidade racial;
estabelecer, simultaneamente, um ambiente seguro e acolhedor para o diálogo sobre racismo,
discriminação e privilégios.
O trabalho justifica-se devido ao aniversário de 20 anos da Lei 10.639 que busca
conquistas e desafios para uma educação antirracista. É de suma importância que os currículos
das escolas se atualizem e implementes ações antirracistas com os seus alunos, para que
cresçam cidadãos conscientes e respeitosos, principalmente que, a escola é o espaço que o
indivíduo passa anos de sua vida dentro dessa instituição.
Neste trabalho, optou-se pela metodologia de caráter descritivo qualitativo e aconteceu
em parceria com IFCE campus Jaguaribe, NEABI e a escola de ensino fundamental público do
município.
Foi observado na ação a potencialidade do letramento racial na vida dos adolescentes,
introduzindo e reforçando conceitos sociais sobre empoderamento, respeito e diversidade,
desmistificando todos os tabus acerca dos estudos étnico-raciais, reconhecendo a importância
de discutir questões raciais desde cedo, a fim de combater o racismo.
Em conclusão, a implementação da Educação Antirracista no ambiente escolar,
especialmente com adolescentes do 9º ano em uma escola pública, representa um passo
significativo na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

METODOLOGIA

A pesquisa consistiu em três sessões realizadas na escola pública do município,


marcando o primeiro contato entre o NEABI do IFCE e a instituição escolar. O estudo teve um
caráter descritivo qualitativo. Inicialmente, foi conduzida uma reunião para informar a diretora
sobre o conceito de Letramento Racial e como ele seria implementado. Durante essa reunião,
foram estabelecidos os dias, horários e as turmas nas quais as atividades seriam desenvolvidas.
O foco da intervenção foram as turmas do 9º ano, e os encontros foram realizados em
colaboração com os professores em sala de aula. O conteúdo foi abordado por meio de slides e
oficinas interativas. Ao final de cada sessão, os alunos foram encorajados a expressar suas
opiniões sobre a experiência e compartilhar suas expectativas em relação ao projeto.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados foram organizados em diários de campo descritos a seguir.


DIÁRIO DE CAMPO
Data: 24/08/2023
Tempo de duração da atividade: 100 min
Turmas: 9º E
Havia professores ou equipe técnica da escola presentes? Sim, a professora da turma.
A turma se mostrou receptiva desde o início, quando foram feitas apresentações e
explicado o propósito da atividade. O início foi marcado por uma breve introdução à história
do Brasil, destacando a perspectiva dos povos originários que sofreram com a invasão de suas
terras e mudanças em seus modos de vida. Durante esse momento, houve uma troca de ideias
para que os alunos compreendessem a situação dos índios, que antes viviam em harmonia entre
si e com a terra, mas passaram a enfrentar preconceitos dos colonizadores portugueses, muitas
vezes relacionados à falta de vestimentas.
Por meio de perguntas, procurou-se explorar se eles acreditavam que ainda vivemos sob
a influência desse período. Ao longo da oficina, todos os alunos participaram ativamente,
esforçando-se para realizar as atividades propostas. Em alguns momentos, os estudantes
mencionaram receios de levar as bonecas para casa, temendo mal-entendidos como associações
com bonecos de vodu ou práticas de macumba. Após a confecção das bonecas, a oportunidade
foi aproveitada para discutir essas expressões.
Foi possível esclarecer que essas crenças e práticas religiosas têm raízes históricas e
resistem desde aquele período. A abordagem proporcionou um espaço para desmistificar
estereótipos e promover um entendimento mais profundo sobre as influências culturais e
religiosas que persistem na sociedade contemporânea.

DIÁRIO DE CAMPO - Data: 25/08/2023


Duração: 02h00
Turmas: 9º D
Havia professores ou equipe técnica da escola presentes? Sim, a professora da Sala
Ao adentrar a sala, a pesquisadora foi recebida pela professora responsável, que
prontamente apresentou a turma. A cada novo tema abordado, a pesquisadora promovia
questionamentos à turma sobre a possível persistência da influência europeia na sociedade
brasileira e em nosso estilo de vida. Durante esses momentos, a professora em sala de aula
sempre estava disposta a contribuir, compartilhando observações e estimulando discussões
entre os alunos.
Durante a oficina, todos os estudantes participaram ativamente. Notou-se que, ao
perceberem que os pedaços de tiras pretas eram destinados à construção do corpo das bonecas,
alguns alunos manifestaram preocupações de que seus familiares poderiam interpretar
erroneamente, associando as criações a bonecos de vodu. Nesse instante, abordou-se com os
alunos a temática da intolerância religiosa, questionando se já haviam ouvido falar e quais eram
suas percepções. Surpreendentemente, todos afirmaram não ter conhecimento sobre o assunto.
Foi então que se mencionou a morte de Bernadete Pacifico, líder quilombola que
desempenhava o papel de cuidadora espiritual em sua comunidade. Além disso, foram
apresentados outros casos de depredação de templos religiosos e mortes resultantes do
preconceito religioso, visando sensibilizar os alunos para a gravidade dessa questão.
Nesse momento, destacou-se também que o preconceito e a intolerância são fenômenos
sazonais, sendo possível evidenciar durante o período de festas carnavalescas em Salvador,
onde todos os foliões, direta ou indiretamente, celebram e participam de uma festividade
influenciada pelas tradições dos povos africanos.

DIÁRIO DE CAMPO - Data: 04/09/2023


Tempo de duração da atividade: 1h00
Havia professores ou equipe técnica da escola presentes? Não, ficamos só com a turma, pois a
professora estava de atestado.
Ao chegarem na sala, o coordenador da escola estava acompanhando a turma devido à
ausência da professora, que teve que se ausentar. Ao se dirigirem à sala, o coordenador
prontamente os apresentou e explicou à turma que eles ficariam responsáveis por conduzir uma
aula diferenciada.
Dado que era a semana do desfile em comemoração ao 7 de setembro, oito alunos
estavam ausentes, participando dos ensaios para o evento. Ao final da primeira parte da aula,
esses alunos entraram na sala, gerando um breve momento de agitação. Para mitigar a
interrupção, retomaram a explicação de forma concisa para os recém-chegados.
Subsequentemente, uma pessoa da escola os chamou para a escovação dos dentes, primeiro as
meninas e depois os meninos, resultando novamente em um breve período de tumulto.
Após o retorno de todos à sala, iniciou-se a confecção das bonecas. É importante
destacar que, mesmo nesse momento, alguns alunos não demonstraram atenção ao que estava
sendo apresentado. Após considerável esforço, foi possível concluir a oficina e realizar algumas
perguntas, obtendo respostas de alguns alunos, enquanto outros permaneceram em silêncio.
Essa atividade apresentou desafios consideráveis, uma vez que a maioria dos alunos
demonstrou apatia em relação à explanação e aos conteúdos abordados. Poucos alunos
mostraram interesse e fizeram perguntas relevantes. Uma aluna em particular chamou a atenção,
pois, de forma discreta, frequentemente fazia perguntas sem que os outros percebessem.
Demonstrando atenção ao tema, ela apresentava questionamentos pertinentes, como: "Se os
portugueses trouxeram os negros, por que os indígenas sabiam se esconder na mata?" ou "Os
povos africanos já eram pobres como hoje na Nigéria?"

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As atividades buscaram promover a autoestima e a valorização das identidades culturais


de cada aluno, independente de sua etnia, envolvendo a inclusão de conteúdos que abordaram
a história e a cultura afro-brasileira, indígena e de outras minorias em seu currículo. O
letramento racial pode promover mudanças sociais, combatendo o racismo, promovendo a
inclusão, capacitando os alunos com conhecimento, consciência e sensibilidade sobre questões
raciais, ajudando a construir uma comunidade escolar justa e igualitária, para que as crianças
se sintam respeitadas e valorizadas independente da sua cor e etnia. É de suma importância que
as pesquisas nesse campo continuem para enriquecer o currículo das escolas do Brasil e com
uma abordagem antirracista, conscientizando crianças e adolescentes.

Palavras-chave: Educação antirracista; Sensibilização racial; Ensino Fundamental; Jaguaribe.

AGRADECIMENTOS

Agradecimento especial a minha orientadora Ana Claúdia por me encorajar a realizar


esse trabalho. A minha instituição IFCE pela oportunidade de exercer esse projeto. A escola, as
professoras e a diretora que me receberam muito bem. Aos alunos por terem participado. A
todos que contribuíram para a realização desse projeto.

REFERÊNCIAS

CAVALLEIRO, Eliane. Educação anti-racista: compromisso indispensável para um mundo


melhor. Racismo e anti-racismo na educação: repensando nossa escola. São Paulo: Selo
Negro, p. 141-160, 2001.

FERREIRA, A. de J. TEORIA RACIAL CRÍTICA E LETRAMENTO RACIAL CRÍTICO:


NARRATIVAS E CONTRANARRATIVAS DE IDENTIDADE RACIAL DE
PROFESSORES DE LÍNGUAS. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as
Negros/as (ABPN), [S. l.], v. 6, n. 14, p. 236–263, 2014. Disponível em:
[Link] Acesso em: 14 dez. 2023.

SANTOS, C. G.; SANTOS, J. R. de O.; EL KADRI, M. S. Letramento Racial Crítico na


construção da Educação Antirracista nas aulas de língua inglesa da Educação Básica.
Entretextos, Londrina, v. 21, n. 2, p. 153–172, 2021. DOI: 10.5433/1519-
5392.2021v21n2p153. Disponível em:
[Link] Acesso em: 14 dez.
2023.

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