Filosofia 3º Período - Kant VS Mill
O problema da fundamentação da moral
O que é que faz com que uma ação seja boa ou má?
Será que o que conta é a intenção?
Será que contam mais os resultados da ação?
Quais são os motivos que levam as pessoas a agir?
O que é o bem?
O problema da fundamentação da moral envolve a busca por critérios e
bases racionais para justificar nossas decisões e julgamentos morais.
Ele abrange a escolha entre princípios universais e as consequências das
ações, a resolução de conflitos entre valores morais, e a reconciliação de
nossas intuições morais com teorias éticas sistemáticas. Nenhuma teoria
oferece uma solução completa e sem desafios, mas cada uma contribui
para uma compreensão mais profunda das questões éticas fundamentais.
Inclinação sensível do ser humano
Deixa-se influenciar pela paixão e emoções
O ser humano é um ser marcado por uma dualidade: é, por um lado,
um ser sensível, um ser da Natureza, estando condicionado pelas
suas disposições naturais, que o levam à procura do prazer e à fuga
da dor.
Este aspeto primário define o egoísmo que preside à vertente
animal do ser humano.
A boa vontade, de acordo com a perspetiva de Kant
Na filosofia moral de Immanuel Kant, a "boa vontade" é central e
considerada a única coisa que é boa sem qualificação.
As qualidades humanas os talentos do espírito ou os dons da
fortuna se usados com má intenção podem tornar-se maus
Só a boa vontade torna boas as qualidades humanas
A boa vontade é a intenção moralmente boa que motiva ação
humana
Para Kant, a boa vontade é a intenção ou disposição moral que guia as
ações de uma pessoa. É a vontade que age de acordo com o dever,
motivada pelo respeito à lei moral, e não por inclinações ou desejos
pessoais.
A boa vontade é intrinsecamente boa, independentemente dos resultados
ou consequências das ações que ela promove. Isso significa que sua
bondade não depende de suas realizações práticas, mas sim de sua
intenção pura e desinteressada de cumprir o dever moral.
A ação moralmente correta, segundo Kant, não é determinada pelas
consequências que ela gera, mas pela intenção com que é realizada. A
boa vontade age de acordo com o dever, motivada pelo respeito à lei
moral.
A motivação deve ser o dever em si, e não qualquer outro tipo de
interesse ou benefício pessoal. Portanto, a moralidade de uma ação é
avaliada pela pureza da intenção, ou seja, pela conformidade com a lei
moral por respeito a essa lei.
A boa vontade expressa a autonomia racional, ou seja, a capacidade de
agir segundo leis que a própria razão estabelece, sem influência de
fatores externos.
A intenção é o critério para determinar o valor moral de
uma ação
Para Kant, a intenção é o critério para determinar o valor moral de uma
ação porque a moralidade deve ser universal, incondicional, não podendo
depender de circunstâncias externas ou resultados contingentes, e
enraizada na autonomia e racionalidade humanas.
A intenção de agir de acordo com o dever, motivada pelo respeito à lei
moral, é o que confere valor moral a uma ação, independentemente dos
seus resultados. Isso garante que a moralidade seja consistente, respeite
a dignidade humana e esteja sob o controle do agente moral, refletindo a
verdadeira liberdade e responsabilidade ética.
A moralidade deve ser consistente e aplicável universalmente, o que é
garantido ao focar na intenção em vez das consequências variáveis.
Para Kant, o que é que é uma ação moralmente boa?
Uma ação é moralmente boa quando é realizada com uma intenção
desinteressada, ou seja, sem considerar interesses pessoais. O valor
moral de uma ação vem da obediência às ordens da razão, não dos
interesses particulares. Por exemplo, um juiz que avalia um caso de forma
objetiva e imparcial age moralmente bem, pois sua intenção é
desinteressada.
Conceito de dever
Para Kant, o conceito de dever é a obrigação moral incondicional de agir
conforme a lei moral, motivada pelo respeito a essa lei, que é formulada
pela razão. Dever representa a essência da moralidade, destacando a
importância da intenção e da autonomia racional em determinar o valor
moral das ações.
Tipos de ações
Ações Contrárias ao Dever
São aquelas que violam diretamente a lei moral. Ou seja, são ações
que não apenas ignoram o dever, mas agem em oposição a ele.
Motivadas por inclinações pessoais ou interesses egoístas, em vez
de respeito à lei moral.
Podem envolver mentira, fraude, violência injustificada, desrespeito
aos direitos dos outros, entre outras transgressões morais.
Exemplo: Um indivíduo rouba dinheiro de outra pessoa para benefício
próprio, sabendo que isso é moralmente errado.
Ações Meramente Conformes ao Dever
São ações que estão em conformidade com a lei moral, mas não são
motivadas por um respeito genuíno ou reconhecimento do dever.
Realizadas apenas por medo de punição, desejo de recompensa,
pressão social ou conveniência.
A pessoa segue o dever, mas não porque reconhece a obrigação
moral inerente à ação.
Exemplo: Uma pessoa devolve um item que encontrou perdido apenas
porque tem medo de ser punida se for pega com ele, não por reconhecer
o dever moral de devolver itens perdidos.
Ações por Dever
São ações realizadas por um reconhecimento genuíno do dever
moral e por um respeito à lei moral, independentemente das
consequências ou interesses pessoais.
Motivadas pelo reconhecimento da obrigação moral e pela vontade
de agir de acordo com essa obrigação.
A pessoa age porque reconhece que é o que deve fazer,
independentemente de sentimentos pessoais ou resultados.
Exemplo: Uma pessoa diz a verdade, mesmo quando isso pode causar
problemas para ela, porque reconhece que a honestidade é um dever
moral e é o que deve ser feito.
Motivo e intenção
O que distingue uma ação por dever de uma ação meramente em
conformidade com o dever é, portanto, o motivo ou a intenção do agente.
Kant defende que a moral não pode basear-se em considerações
empíricas, como os interesses, as inclinações e os desejos de cada um,
pois estas são contingentes e particulares, não podendo, por isso, ser o
fundamento de regras imparciais.
Vontade boa e vontade santa
A vontade santa está centrada na conformidade com a vontade divina e
na realização de propósitos espirituais. Busca uma vida de santidade e
proximidade com o divino. A vontade santa está associada a um contexto
religioso ou espiritual.
A vontade boa está voltada para a realização do dever moral, motivada
pelo respeito à lei moral e à dignidade humana. Busca agir de acordo com
princípios éticos universais, independentemente de considerações
religiosas. A vontade boa baseia-se em princípios éticos e morais
universais.
Imperativos hipotéticos e Imperativos categóricos
Os imperativos são princípios, fórmulas ou leis que expressam a noção de
dever ser. Kant, ao investigar a natureza de tais princípios, concluiu que
os imperativos são de dois tipos distintos: hipotético e categórico.
Uma lei puramente racional que, segundo Kant, está presente na
consciência de todos os seres racionais. A essa lei dá Kant o nome de lei
moral. Essa lei diz-nos de forma muito geral o seguinte: «Deves em
qualquer circunstância cumprir o dever pelo dever». Pensa em normas
morais como «Não deve mentir»; «Não deve matar»; «Não deve roubar».
A lei moral, segundo Kant, diz-nos como cumprir esses deveres, qual a
forma correta de os cumprir.
A lei moral exige um respeito absoluto pelo dever e apresenta – se sob a
forma de imperativo («Deve !»). Que espécie de imperativo é a lei moral?
Pense nos seguintes imperativos:
«Deve ser honesto porque a honestidade compensa»
«Deve ser honesto!»
Em a) apresenta-se uma regra (deve ser honesto) e a razão pela qual ela
deve ser seguida. O cumprimento da regra está associado a uma
condição. «Se quere ser compensado deve ser honesto». Trata-se de um
imperativo hipotético. Diz que só no caso de querermos ser
compensados devemos ser honestos.
Imperativo Hipotético: Este tipo de imperativo é condicionado por uma
condição ou interesse específico. Ele orienta a ação com base na
obtenção de um resultado desejado. Por exemplo, "Deve ser honesto
porque a honestidade compensa" implica que a honestidade é
recomendada apenas se o interesse pessoal de ser compensado for
buscado. Aqui, o cumprimento do dever está ligado a um interesse ou
condição específica. O cumprimento do dever subordina-se a uma
condição e por isso cumprindo o dever estamos, contudo, a fazê-lo por
interesse.
Em b) apresenta-se uma regra cujo cumprimento não depende de um
interesse que assim queiramos satisfazer. Diz-nos que devemos ser
honestos porque esse é o nosso dever e não porque é do nosso interesse.
A esta regra incondicional que exige o cumprimento do dever sem
qualquer outro motivo a não ser o respeito pelo dever dá Kant o nome de
imperativo categórico. Este imperativo exige que ultrapassemos os nossos
interesses e ajamos de forma desinteressada. Como é isso mesmo que a
lei moral exige, então a lei moral é um imperativo categórico ou
incondicional.
Imperativo Categórico: Por outro lado, o imperativo categórico é
incondicional e não depende de nenhum interesse ou condição para sua
aplicação. Ele exige o cumprimento do dever por si só,
independentemente das consequências ou interesses pessoais. Por
exemplo, "Deve ser honesto!" implica que a honestidade é exigida como
um dever moral absoluto, sem considerações de interesse pessoal. Aqui, o
cumprimento do dever é guiado pelo respeito à lei moral e à dignidade
humana, não por interesses externos.
Em resumo, enquanto o imperativo hipotético condiciona o cumprimento
do dever a um interesse ou condição específica, o imperativo categórico
exige o cumprimento do dever por respeito à moralidade, sem
considerações externas.
O imperativo categórico de Kant
Incondicionalidade e Universalidade: O Imperativo Categórico é uma
ordem incondicionada que não se submete a quaisquer condições
externas ou interesses pessoais para a realização de uma ação moral. Ele
exige o cumprimento do dever moral por si só, em todas as circunstâncias
possíveis, e pode ser aplicado universalmente a todos os seres racionais.
Motivação pelo Dever: O cumprimento do dever pelo próprio dever é o
cerne do Imperativo Categórico. Kant argumenta que a moralidade de
uma ação reside na motivação pelo respeito à lei moral e à obrigação
moral intrínseca, não por interesses externos ou consequências
desejadas.
Rejeição de Condições e Interesses: Ao contrário do imperativo
hipotético, que condiciona o cumprimento do dever a interesses ou
condições específicas, o imperativo categórico rejeita qualquer forma de
instrumentalização do dever como meio para alcançar outros fins. Ele
enfatiza a importância de agir por dever como um fim em si mesmo,
independentemente de consequências ou interesses pessoais.
Absolutismo Moral: Kant defende que as regras morais são absolutas e
universais, sem exceções. Portanto, o Imperativo Categórico exige o
cumprimento do dever em todas as circunstâncias possíveis, sem
considerar possíveis vantagens ou desvantagens pessoais.
Em resumo, o Imperativo Categórico é o princípio moral que orienta a
ação por dever, exigindo o cumprimento incondicional do dever moral por
si só, em todas as circunstâncias possíveis, e rejeitando qualquer forma
de instrumentalização do dever para alcançar outros fins.
As formulações do imperativo categórico kantiano
A ética de Kant não é material, mas formal o imperativo categórico, em
que se expressa a lei moral, terá por isso de conter apenas uma forma,
válida para todas as pessoas e em todas as circunstâncias. Trata-se de
uma única lei, a lei suprema da moralidade, podendo, porém, ser
formulada de maneiras diferentes. Kant apresenta três formulações
possíveis para o imperativo categórico:
Primeira formulação - fórmula da lei universal - «Age apenas
segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se
torne lei universal.»
Segunda formulação - fórmula da lei universal da natureza - «Age
como se a máxima da tua ação se devesse tornar, pela tua vontade, em
lei universal da natureza.»
Terceira formulação - fórmula do fim em si - «Age de tal maneira que
uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer
outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simples mente como
meio.»
Fórmula da Lei Universal
Exemplo 1: Mentir para obter vantagem
Situação: Uma pessoa está considerando mentir para obter um
empréstimo bancário que não pretende pagar de volta.
Aplicação: A máxima aqui seria "É aceitável mentir para obter o
que se quer." Se esta máxima fosse universalizada, significaria que
todos poderiam mentir em qualquer circunstância para obter o que
desejam. Isso levaria a uma quebra geral da confiança e da validade
dos acordos, tornando a mentira contraproducente e inviabilizando
a própria possibilidade de empréstimos. Portanto, a ação de mentir
não pode ser universalizada e, assim, é moralmente errada.
Fórmula do Fim em Si
Exemplo: Explorar trabalhadores
Situação: Um empresário considera pagar salários muito baixos
aos seus trabalhadores para maximizar seus lucros.
Aplicação: Neste caso, os trabalhadores estão sendo tratados como
um meio para alcançar o lucro, e não como fins em si mesmos com
dignidade e direitos próprios. Isso desrespeita a humanidade nas
pessoas afetadas e é, portanto, moralmente errado.
A relação entre a racionalidade e a lei moral.
A lei moral, o imperativo categórico, não depende de cada um de nós
enquanto indivíduos com interesses e desejos. Não é uma lei subjetiva. A
lei moral é uma lei objetiva que é estabelecida pela razão, sem admitir
exceções ou considerações particulares. Se considerarmos apenas o
ponto de vista imparcial da razão, chegaremos todos à mesma conclusão,
a um imperativo universal que todos reconhecemos como válido.
As regras morais devem ordenar de forma incondicional
A ação moral não deriva de um interesse exterior
A ação moral não pode ser praticada para sermos felizes
Praticar o bem pode fazer-nos merecedores da felicidade, mas este
não é o objetivo da moral
Moral da intenção
A moralidade é concebida independentemente da utilidade ou das
consequências que possam advir das ações
Estamos perante uma ética não consequencialista.
Ter saciado a fome a trinta pessoas ou apenas uma é irrelevante
para aferir a moralidade destes atos.
Tudo depende da intenção com que as ações em causa foram realizadas.
A intenção é o que caracteriza a vontade.
A uma boa vontade corresponde uma boa intenção.
A intenção moral só é conhecida pela consciência do indivíduo.
Autonomia
Agir moralmente é agir livremente e agir livremente é, para Kant, agir
autonomamente.
A autonomia é a característica de uma vontade que age racionalmente e
cumpre o dever pelo dever, não sendo condicionada por qualquer outra
coisa ou autoridade exterior.
O seu princípio é, portanto, o princípio da moralidade, o imperativo
categórico.
Não devo atear fogos, porque esse é o meu dever.
Cada indivíduo, enquanto ser racional, é autor das leis que impõe a
si mesmo.
A lei moral, universalmente válida, tem origem na razão.
Sendo assim, cada indivíduo é legislador e responsável por aquilo
que faz
A moralidade pressupõe, portanto, a autonomia da vontade. Numa
palavra, pressupõe a liberdade.
E em que medida é que o indivíduo é autónomo? Autonomia face a quê?
É autónomo na medida em que é capaz de agir independentemente
das leis da natureza.
De facto, na natureza tudo se encontra determinado. As leis físicas
expressam esse determinismo. Em contrapartida, no reino moral existe a
liberdade.
O ser humano é livre sempre que se submete às leis da sua própria razão.
Nesse caso, não somos livres quando fazemos aquilo que nos apetece,
mas sim quando cumprimos o nosso dever, ou seja, quando nos
submetemos à lei moral que existe em nós.
Heteronomia
Agimos de forma heterónoma, quando agimos de acordo com
determinações exteriores.
Para Kant, sempre que agimos em função de um fim exterior, ou quando
escolhemos um meio para atingir um fim, não estamos a agir livremente,
mas a ser escravos dos nossos apetites e aspirações.
Não devo atear fogos, se quero continuar a ser respeitado.
Não devo atear fogos, dado que as leis do Estado o proíbem.
Conceito de Liberdade Associado à Dimensão Moral do
Ser Humano
A liberdade, na perspetiva kantiana, é fundamental para a moralidade.
Para Kant, a verdadeira liberdade não é simplesmente a capacidade de
fazer o que se deseja, mas a capacidade de agir de acordo com princípios
morais que a razão determina. Esta forma de liberdade está
intrinsicamente ligada à moralidade porque apenas agentes livres,
capazes de agir segundo a razão, podem ser considerados moralmente
responsáveis por suas ações.
Autonomia da Vontade – A autonomia da vontade é o conceito de que a
vontade é livre quando se auto-legisla, ou seja, quando é guiada por
princípios que ela mesma se dá, através da razão. Em outras palavras,
uma vontade autônoma é aquela que não é influenciada por fatores
externos, inclinações ou desejos, mas sim por princípios racionais que
podem ser universalizados.
Exemplo: Quando uma pessoa decide não mentir, não porque teme a
punição ou espera uma recompensa, mas porque reconhece
racionalmente que mentir é errado e que essa máxima deve ser seguida
por todos, ela está agindo autonomamente.
Liberdade Moral do Agente – A liberdade moral é a capacidade do
agente de agir de acordo com sua vontade autônoma. Isto significa que
um agente moralmente livre é aquele que segue leis morais auto-
impostas, reconhecendo a autoridade da razão sobre suas ações.
Relação entre Autonomia e Liberdade Moral:
Racionalidade: A razão determina as leis morais. A vontade autônoma
segue princípios racionais.
Independência: A verdadeira liberdade é agir conforme a lei moral, não
por desejos ou inclinações.
Responsabilidade: A autonomia permite que o agente seja responsável
por suas ações.
Universalização: As ações devem seguir máximas que podem ser
aplicadas a todos os seres racionais.
Exemplo: Se um agente decide não roubar porque reconhece
racionalmente que o roubo é moralmente errado e que essa máxima deve
ser universalizada (todos devem seguir essa regra), ele está exercendo
sua autonomia da vontade. Esta ação é um exemplo de liberdade moral,
pois o agente age de acordo com um princípio racional e não por medo de
ser pego ou por desejo de enriquecer.
Conclusão
Para Kant, a liberdade moral e a autonomia da vontade estão
intimamente ligadas. A liberdade moral é a capacidade de agir de acordo
com princípios racionais que a própria vontade reconhece como leis
universais. A autonomia da vontade é a condição para essa liberdade,
pois apenas uma vontade que se autolegisla pode ser verdadeiramente
livre e, portanto, moralmente responsável.
Críticas à Ética de Kant
1. As Regras Morais não são Absolutas
Kant defende que devemos seguir regras morais de forma incondicional,
sem exceções. Ele argumenta que essas regras são ditadas pela razão e
devem ser respeitadas em todas as situações, como o dever de não
mentir. No entanto, essa abordagem pode levar a dilemas morais.
Exemplo: Imagine que você vê um rapaz se esconder de um homem
armado e o homem pergunta se você viu o rapaz. Se você disser a
verdade, o rapaz pode ser morto. Kant diria que devemos dizer a verdade,
mas muitos considerariam moralmente mais correto mentir para salvar a
vida do rapaz. Este exemplo mostra que, em algumas situações, a
aplicação rígida de regras morais pode levar a consequências moralmente
inaceitáveis.
Conclusão: As regras morais de Kant são criticadas por sua rigidez e falta
de flexibilidade. A insistência em seguir regras incondicionalmente pode
ser problemática em situações onde uma exceção parece moralmente
necessária.
2. Situação de Conflito
Uma certa pessoa tem de optar entre duas possibilidades de ação (fazer A
ou fazer B). Verifica-se que, fazer A é moralmente incorreto e fazer B é
moralmente incorreto. O que faria o defensor da teoria ética de Kant
perante esta situação?
Kant não oferece uma solução clara para situações em que duas regras
morais entram em conflito, deixando o agente moral sem orientação
prática.
Exemplo: Durante a Segunda Guerra Mundial, pescadores holandeses
transportavam refugiados judeus para a Inglaterra e mentiam para oficiais
nazistas para protegê-los. Segundo Kant, mentir é errado, mas também é
errado permitir que pessoas inocentes sejam capturadas e mortas. Aqui,
os pescadores enfrentam um dilema: mentir ou permitir o assassinato de
inocentes. Ambos os atos são moralmente errados segundo Kant, mas
uma escolha deve ser feita.
Conclusão: A ética de Kant é criticada por sua incapacidade de lidar com
conflitos morais práticos. Quando duas regras absolutas entram em
conflito, a teoria não fornece uma orientação clara, levando a uma
incoerência prática. Na realidade, os agentes morais muitas vezes
precisam escolher entre duas ações moralmente imperfeitas, algo que a
teoria kantiana não acomoda bem.
Princípio da Utilidade
Para Stuart Mill, o critério para verificar a moralidade das ações está nas
suas consequências. A teoria de Mill, conhecida como utilitarismo, é uma
forma de consequencialismo que determina se uma ação é boa ou má
com base em sua utilidade para o maior número de pessoas. Mill enuncia
o princípio utilitarista da seguinte forma: "A máxima felicidade possível
para o maior número possível de pessoas é a medida do bem e do
mal." Assim, a moralidade de um ato é determinada pelo princípio da
utilidade, que é o teste das ações.
O Princípio de Utilidade, também chamado de princípio da maior
felicidade, estabelece que uma ação deve ser realizada se, e somente se,
resultar na máxima felicidade possível para as pessoas afetadas por ela. A
ideia central é que devemos agir de modo a produzir a maior felicidade
global ou, dadas as circunstâncias, a menor infelicidade. Esse princípio é
frequentemente resumido na fórmula "A maior felicidade para o maior
número."
A ação moralmente certa é aquela que maximiza a felicidade para o
maior número.
Devemos fazer aquilo que previsivelmente maximize
imparcialmente o bem-estar de humanos e não humanos
Utilitarismo não é egoísmo porque cada indivíduo deve dar primazia
à felicidade do maior número de pessoas.
O agente moral deve ser maximamente imparcial, deve agir como
espectador desinteressado e benevolente.
Felicidade segundo Mill
A felicidade consiste no prazer e na ausência de dor.
Prazer pode ser mais ou menos intenso e mais ou menos duradouro
Infelicidade é dor e privação do prazer
Para Mill, a felicidade geral é a única coisa desejável por si mesma,
enquanto todas as outras coisas são apenas meios para alcançar esse fim.
Ele argumenta que:
Cada pessoa deseja a sua própria felicidade.
A felicidade de cada pessoa é um bem para essa pessoa.
Portanto, a felicidade geral é um bem para o conjunto de todas as
pessoas.
Com base nesse argumento, Mill defende que ao agirmos, devemos
procurar promover a felicidade geral, que é o bem para o conjunto de
todas as pessoas. Portanto, cada pessoa deve agir de modo a promover a
felicidade geral.
A felicidade geral é um bem para todas as pessoas, portanto, cada um
deve agir para promovê-la. Para Mill, o fim (felicidade geral) justifica os
meios, desde que a ação produza mais felicidade que sofrimento. A ação
é boa se a felicidade gerada for maior que a dor causada.
Duas ideias principais:
a) Ao contrário de Kant, Mill avalia a moralidade de uma ação pelos
resultados, não pela intenção. A boa intenção não justifica uma ação se os
resultados forem maus. Para Mill, a motivação é irrelevante; salvar
alguém é sempre bom, independente do motivo.
b) A ação correta é a que gera mais felicidade global. Para Mill, devemos
considerar o bem-estar de todos afetados pela ação, não apenas o nosso.
A felicidade de todas as pessoas tem igual valor. O utilitarismo foca na
quantidade total de felicidade gerada, não importando quem a recebe, e é
criticado por sua imparcialidade.
Princípios do utilitarismo
Princípio da agregação: O que importa é o saldo líquido de bem-estar
total gerado pela ação, não como ele é distribuído. Sacrificar o bem-estar
de uma minoria é válido se aumentar o bem-estar geral, baseando-se na
ideia de compensação.
Princípio de otimização: O utilitarismo exige maximizar o bem-estar
geral como um dever, não uma opção.
Imparcialidade e universalismo: Prazeres e sofrimentos têm igual
importância, independentemente de quem os experimenta. O bem-estar
de cada pessoa tem o mesmo peso no cálculo total. A desgraça de alguns
é compensada pelo bem-estar de outros; se o saldo for positivo, a ação é
moralmente boa.
Ética consequencialista
O utilitarismo é considerado uma ética consequencialista porque a
correção ou incorreção da ação depende das consequências, ou seja,
dos resultados da ação. Neste caso, a intenção do agente é
irrelevante para avaliar o valor moral de uma ação.
Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar
(Princípio do bem-estar máximo).
Não existem valores absolutos e incondicionais
Nenhum ato é correto ou incorreto em si mesmo, é-o apenas
considerando só resultados e os efeitos e não as intenções ou os
motivos
Inexistência de regras morais absolutas para Mill
Para Mill, não existem regras morais absolutas. A moralidade de uma ação
depende de suas consequências e não de princípios imutáveis. Se uma
ação maximiza a felicidade geral, ela é considerada moralmente correta,
mesmo que envolva violar uma regra moral tradicional. A flexibilidade no
julgamento moral é essencial para promover o maior bem-estar possível.
Ética hedonista
O utilitarismo defende uma perspetiva hedonista do valor moral da ação
humana: o valor da ação moral reside na capacidade para causar maior
prazer e menor dor.
Trata-se então de uma moral hedonista, mas que, ao contrário do
egoísmo insiste no facto de que devemos considerar o bem-estar de todos
e não o de uma única pessoa.
Hedonismo altruísta
Defende um hedonismo altruísta porque acredita que todo o ser humano
tem um sentido social que o leva a cooperar com os outros
O progresso do espírito humano é a chave da felicidade
Reconhecer que o utilitarismo não é um hedonismo significa entender
que, embora o utilitarismo de Mill valorize a felicidade, ele não se limita à
busca do prazer individual. O utilitarismo visa o bem-estar coletivo,
considerando a felicidade de todos os afetados pelas ações, e não apenas
o prazer imediato. Assim, o utilitarismo abrange uma visão mais ampla e
inclusiva de felicidade, que pode envolver sacrifícios pessoais para o bem
maior, ao contrário do hedonismo, que foca exclusivamente no prazer
individual.
Hedonismo – própria felicidade
Utilitarismo – felicidade geral
Hedonismo qualitativo de Mill
Stuart Mill defende uma versão mais sofisticada de utilitarismo, que se
baseia no hedonismo qualitativo: durante a avaliação de uma ação, além
da intensidade e duração dos prazeres, devemos levar em conta a
qualidade dos prazeres gerados por ela.
Um prazer é tanto melhor se for um prazer superior, mesmo que a sua
duração e intensidade sejam menores.
Segundo John Stuart Mill, os prazeres podem ser classificados em
inferiores e superiores. Os prazeres inferiores são os prazeres físicos e
sensoriais, como comer, beber e satisfações corporais, que todos podem
experimentar. Em contraste, os prazeres superiores são os prazeres
intelectuais, emocionais e espirituais, como apreciar arte, filosofia e
literatura, que requerem habilidades e desenvolvimentos mentais mais
elevados.
Mill argumenta que os prazeres superiores são mais valiosos e dignos que
os inferiores. Ele acredita que uma vida dedicada a prazeres superiores é
qualitativamente melhor. Para Mill, a preferência por prazeres superiores
é um indicador de maior desenvolvimento moral e intelectual. Aqueles
que experimentaram ambos tipos de prazer geralmente preferem os
superiores, reconhecendo sua maior profundidade e durabilidade.
Para o utilitarismo milliano, o critério passa pelo veredito ou sentença dos
únicos juízes competentes, os seres que, tendo sido educados para a
fruição de um vasto leque de prazeres, estão familiarizados com ambos.
Estão assim qualificados para afirmar e decidir qual de dois prazeres é o
mais desejável os agentes que, conhecendo e sendo capazes de apreciar
ambos, preferem claramente um deles.
Caso haja divergência, deverá prevalecer a opinião da maioria.
Imparcialidade no utilitarismo
O utilitarismo, conforme formulado por John Stuart Mill, enfatiza a
imparcialidade como uma condição necessária da moralidade. Isso
significa que todas as pessoas devem ser consideradas igualmente ao
avaliar as consequências de uma ação. O bem-estar de cada indivíduo
tem o mesmo peso dentro do cálculo do bem-estar geral.
Mill argumenta que a moralidade exige que as decisões sejam tomadas
com base no maior benefício para o maior número possível de pessoas,
sem favorecer nenhum grupo específico. Isso implica que a felicidade ou o
bem-estar de todos os afetados pela ação devem ser levados em
consideração de maneira imparcial, sem preconceitos ou preferências
pessoais.
Portanto, no utilitarismo, a imparcialidade é fundamental para garantir
que as decisões éticas sejam baseadas em princípios universais e
objetivos, visando maximizar a felicidade ou o bem-estar global.
Críticas ao utilitarismo
O utilitarismo permite justificar a realização de ações moralmente
reprováveis.
Ex. Um ditador pode legitimar o extermínio de uma minoria
argumentando que está a contribuir para o benefício da maioria.
Moralmente reprovável, pois a vida de cada ser humano deve ser
considerada um valor inalienável e independente de condicionantes
externas.
Por ser uma ética consequencialista, o utilitarismo não faz a avaliação das
intenções, mas apenas do resultado da ação, pois só as consequências de
um ato podem determinar se este é certo ou errado.
Quando fazemos a avaliação moral de qualquer ação não
consideramos apenas as suas consequências, mas também a
intenção da pessoa que a realizou.
Possíveis Injustiças: O utilitarismo pode justificar a violação dos direitos
individuais ou a exploração de minorias em nome do bem-estar da
maioria. Isso levanta preocupações éticas sobre a justiça e a proteção dos
direitos individuais.
Felicidade versus Justiça: Alguns críticos argumentam que o
utilitarismo pode levar a decisões que sacrificam a justiça em nome da
maximização da felicidade. Isso pode levar a situações em que os direitos
individuais são comprometidos em favor do bem-estar coletivo.
O Utilitarismo e a teoria kantiana.
Em Mill, assim como em Kant, há um princípio fundamental para
determinar a moralidade das ações. Enquanto Kant defendia o
cumprimento do dever pelo próprio dever, Mill defende a maximização da
felicidade para o maior número de pessoas possível.
O utilitarismo de Mill oferece respostas mais satisfatórias para vários
problemas éticos em comparação com a ética kantiana: o dilema das
regras morais absolutas, os casos de conflito moral e a motivação das
ações.
Em situações como a de mentir para salvar uma vida, o utilitarismo de Mill
permite mentir se isso resultar em mais felicidade para o maior número
de pessoas, enquanto Kant não permite exceções às regras morais
absolutas.
Em casos de conflito moral, como o dilema dos pescadores holandeses
durante a Segunda Guerra Mundial, o utilitarismo de Mill favorece a ação
que produz mais felicidade geral, mesmo que isso envolva mentir.
Quanto à motivação das ações, o utilitarismo de Mill valoriza os resultados
objetivos em vez das intenções, ao contrário da ética kantiana, que
enfatiza a intenção do agente. Para Mill, o que importa é promover a
felicidade das pessoas afetadas pela ação, independentemente da
motivação do agente.