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Atenção Primária e Saúde Mental no SUS

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Parte IX

Settings de
intervenção e reabilitação
47
Unidade básica de saúde
e atenção primária
Cláudio Favaro

Pontos­‑chave

 A Unidade Básica de Saúde (UBS) é um importante ambiente para estabelecer ações de saúde,
devido ao caráter longitudinal de acompanhamento dos indivíduos.

 Como “porta de entrada” do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, a UBS representa o primeiro
contato com o paciente que busca tratamento para problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas.

 Rastreamento, intervenções breves e acompanhamento clínico e psicossocial são estratégias possíveis


da rede de atenção primária.

 A educação continuada, o apoio de equipes especializadas e a existência de serviços de retaguarda adequados são
fatores importantes para que a UBS possa ser inserida integralmente na rede de cuidados ao dependente químico.

E m 2002, foi criado no Brasil o Programa Nacional de que o padrão de uso de substâncias provoque danos à
Atenção Comunitária Integrada aos Usuários de Álcool saúde ou progrida para um padrão de dependência ins­
e outras Drogas. Um ano depois, o Ministério da Saúde talada. Além disso, o ambiente da atenção primária é
(MS) publicou o documento sobre a “A Política do ideal para o monitoramento e a repetição das interven­
Ministério da Saúde para Atenção Integral a Usuários de ções realizadas.1
Álcool e Outras Drogas”, em que considera o alcoolismo Assim, os objetivos deste capítulo são:
um problema de saúde pública de grave importância,
escolhido para compor a lista dos 10 problemas a serem a) descrever em linhas gerais o modelo de atendimento
priorizados pelo Programa de Saúde da Família (PSF).1 em saúde pública no Brasil no que diz respeito à
As intervenções breves que já foram amplamente atenção primária;
estudadas em vários países2 auxiliam na identificação de b) discutir como a atenção à saúde mental pode ser
problemas do uso de substâncias psicoativas ou de riscos inserida nesse contexto;
associados, em geral por meio de um instrumento de ras­ c) propor questões acerca de como, nesse ambiente tão
treamento (como o Alcohol Use Disorder Identification rico em possibilidades de intervenção, a equipe de
Test [AUDIT], por exemplo), do oferecimento de orien­ saúde pode atuar no sentido da prevenção e do trata­
tações, de aconselhamento e, em algumas situações, de mento dos agravos relacionados ao uso de substâncias
monitoramento periódico do sucesso em atingir metas psicoativas.
assumidas de forma voluntária pelo paciente.3
As intervenções breves podem ser usadas em vá­
rios setores. Contudo, a atenção primária é uma das O modelo de atendimento
melhores oportunidades para ações preventivas, po­
dendo complementar atividades assistenciais habituais, A histórica Conferência de Alma Ata, realizada
inseridas com facilidade na consulta a médicos de fa­ pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1978,
mília e a enfermeiros e nas ações de saúde dos técnicos simboliza o início de um processo de redirecionamen­
de enfermagem e dos agentes comunitários de saúde.3 to do modelo assistencial, reafirmando a saúde como
Estimativas do Relatório Mundial de Drogas4 sugerem direito humano fundamental na organização das políti­
a existência de algo entre 18 e 38 milhões de usuários, cas de saúde no mundo.5 Essa conferência proclamou a
entre 15 e 64 anos, de substâncias psicoativas de forma Atenção Primária à Saúde (APS) como estratégia para
problemática, uma estimativa bastante alta e com gran­ atingir a equidade e a universalidade no âmbito dos sis­
de impacto sobre a saúde pública.4 Tais profissionais são temas de saúde,6 pois responde às necessidades de saúde
exatamente o público mais privilegiado para atuação da da população, realizando serviços preventivos, cura­
atenção primária, pois garantem uma intervenção antes tivos, reabilitadores e de promoção da saúde. Integra
4 Diehl, Cordeiro, Laranjeira & cols.

os cuidados quando há mais de um problema, atua no demanda dos serviços em uma área delimitada, fazendo
contexto no qual existe a enfermidade, influencia as res­ do PSF uma “porta de entrada” para o SUS.9
postas das pessoas a seus problemas de saúde.6,7 A Canadian Medical Association considera ex­
A atenção primária se diferencia da secundária plicitamente a atenção primária como “o ponto de
e da terciária por diversas características, como se entrada para o sistema de atenção à saúde, estando
dedicar aos problemas mais frequentes (simples ou inter­‑relacionada aos outros componentes do sistema.
complexos) que estão em fases iniciais e são portanto Define atenção primária como consistindo na avaliação
menos definidos, atuando geralmente em unidades de de um paciente ao primeiro contato e na oferta de aten­
saúde chamadas de UBS, assim como em consultórios ção continuada para uma ampla variedade de questões
comunitários, escolas e asilos.7 A atenção primária à de saúde, além de incluir a abordagem de problemas
saúde e sua conceituação trazem consigo quatro gran­ da saúde, prevenção e promoção da saúde, apoio
des princípios: ­continuado, com intervenções familiar e comunitária,
quando necessário”.10
1. Primeiro contato: “porta de entrada” para o sistema Em geral, de acordo com as diretrizes operacio­
de saúde, identificada pela população e pela equipe nais, uma equipe de PSF é formada por um médico
como primeiro recurso. generalista ou médico de família, um enfermeiro, 1 ou 2
2. Longitudinalidade: responsabilidade pelos indiví­ auxiliares de enfermagem e 4 a 6 agentes comunitários
duos ao longo do tempo, independentemente da de saúde. Em uma UBS, pode haver várias equipes de
presença de doenças. PSF. A área de abrangência de uma UBS é dividida por
3. Integralidade: capacidade de atender a todos os regiões, e cada equipe de PSF é responsável por uma
tipos de necessidades de saúde, incluindo o encami­ região de aproximadamente 800 a 1.000 famílias cadas­
nhamento para cuidados secundários e terciários e tradas. Cada região é subdividida em microrregiões, o
para serviço de suporte essencial, como internação que facilita a atuação dos agentes comunitários de saú­
domiciliar ou serviços comunitários. de e dos demais membros da equipe.
4. Coordenação: capacidade de coordenar os cuidados Segundo Carneiro Júnior e Silveira,11 para in­
às necessidades dos indivíduos, de suas famílias e clusão de segmentos sociais mais vulneráveis, como
da comunidade.7 população em situação de rua, profissionais do sexo,
pessoas que vivem em instituições, abrigos e albergues,
há necessidade de estrutura diferenciada na composição
A estratégia saúde da família no da equipe. Como exemplo, se requer a contratação de
sistema único de saúde brasileiro agentes comunitários oriundos desses segmentos.11
Entre as atribuições de uma equipe, estão a aten­
Na década de 1990, no contexto de formação do ção integral a todas as fases do ciclo de vida (infância,
Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, ocorreram adolescência, gestação, adulto, idoso), atividades cor­
importantes debates acerca da formulação de políticas respondentes a áreas prioritárias e criação de grupos
públicas de saúde que culminaram com a implantação de diabéticos, hipertensos e psicóticos crônicos, por
do Programa de Saúde da Família (PSF) como peça fun­ exemplo.
damental da reestruturação da atenção básica. O PSF
estruturado pelo MS, em 1995, contribuiu com as pro­
posições da atenção primária definidas na Conferência A saúde mental na atenção primária
de Alma Ata, em 1978, e instituiu a Medicina de Família
– já implantada em alguns países desenvolvidos e em Os princípios normativos que hoje orientam a po­
Cuba. Seus princípios de atuação estavam centrados lítica de saúde mental no Brasil tentam implementar
na pessoa, na interlocução com o indivíduo, sua famí­ ações de saúde mental na atenção primária, instauran­
lia e a comunidade em que está inserido, na prática do um modelo psicossocial de cuidado (em oposição ao
orientada pelo entendimento de que o processo saúde­ antigo modelo asilar), com algumas confluências com os
‑adoecimento é um fenômeno complexo relacionado à princípios que regem o PSF. Dessa forma, o sujeito seria
interação de fatores de ordem biológica, psicológica e participante no tratamento, sendo a família e eventual­
socioambiental.8 mente um grupo mais ampliado incluídos como agentes
Dessa forma, o PSF introduziu uma intervenção fundamentais do cuidado.12
mais pró­‑ativa em saúde, uma vez que não se espera O PSF, por sua vez, serviria como importante ar­
que as pessoas busquem os serviços, mas que os serviços ticulador na rede de saúde mental, com os conceitos
busquem as pessoas, sendo um instrumento de reorga­ de vigilância à saúde e enfoque no risco, desenvolven­
nização da demanda. Demonstra a intenção de não agir do atividades que incluam a prevenção e a promoção
apenas sobre a doença instalada, mas de incentivar a da saúde mental, ações de saúde capazes de lidar com
promoção da saúde, a prevenção e a reorganização da os determinantes sociais do adoecimento, realizar
Dependência química 5

práticas intersetoriais e promover o exercício da cida­ profissional da equipe, com competências e limites em
dania. O objetivo dessa diretriz organizacional é criar seu âmbito de atuação. Segundo a National Treatment
um modelo de atendimento no qual cada equipe tenha Agency (NTA), na Inglaterra, os programas de inter­
uma população mais ou menos fixa, permitindo que os venções para uso indevido de substâncias na atenção
profissionais acompanhem melhor, no tempo, o proces­ primária podem ser feitos em quatro níveis:18
so saúde­‑enfermidade­‑intervenção de cada paciente.
Os profissionais de referência na equipe deveriam ser 1. Triagem de usuários e encaminhamento para servi­
como uma espécie de gerentes de caso, elaborando e ços de referência e tratamento, bem como forneci­
aplicando projetos terapêuticos que impliquem práticas mento de atendimento médico clínico. Esse tipo de
individuais, de grupo ou coletivas.13 intervenção é previsto em toda e qualquer equipe
Para melhor manejo da saúde mental na aten­ de atenção primária.
ção primária, foi proposto um trabalho compartilhado 2. Avaliação da triagem e redução de danos, como orien­
de suporte às equipes de saúde da família por meio de tações e intervenções breves, feitas pela equipe.
desenvolvimento do apoio matricial em saúde mental. 3. Prescrição de medicamentos para usuários, no
O apoio matricial é um arranjo técnico­‑assistencial que contexto de um plano de tratamento. Esse tipo de
visa à ampliação da clínica das equipes de saúde da fa­ intervenção pode ser feita por médicos generalis­
mília e que altera a tradicional noção de referência e tas.
contrarreferência: quando utiliza um serviço matricial, 4. Monitoração médica de desintoxicação ambula­
o paciente nunca deixa de ser cliente da equipe de re­ torial. Tal intervenção pode ser feita por alguns
ferência, existindo uma corresponsabilização entre as médicos generalistas, de acordo com protocolos e
equipes de saúde da família e de saúde mental, com contratos específicos para necessidades locais.
construção de vínculos entre profissionais e usuários,
pretendendo uma maior resolutividade na assistência No Brasil, a necessidade de definição de estratégias
em saúde.14 específicas de assistência aos usuários de álcool e outras
Segundo dados de prevalência internacionais drogas, com ênfase na reabilitação e na reinserção so­
adotados pelo Ministério da Saúde, 3% da população cial, levou o Ministério da Saúde a instituir, no âmbito
apresenta transtornos mentais graves e persistentes, do Sistema Único de Saúde, o Programa Nacional de
necessitando de cuidados contínuos, e 9 a 12% apre­ Atenção Comunitária Integrada aos Usuários de Álcool
sentam transtornos mentais leves, que necessitam de e outras Drogas, via Portaria GM/816, de 30 de abril de
cuidados eventuais.15 Segundo dados divulgados pe­ 2002,19 com ênfase na criação de CAPS­‑AD (Centro de
las Organizações Pan­‑americanas de Saúde,16 56% das Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas).1 Os CAPS­‑AD
equipes de saúde da família referiram realizar alguma podem oferecer modalidades de tratamento intensivas
ação de saúde mental. e não intensivas, com equipe especializada, e caracte­
Quanto aos transtornos decorrentes do uso pre­ rizam um dos tipos de assistência na rede de atenção.
judicial do álcool e de outras drogas (com exceção do Muitos pacientes necessitam desse modelo de aten­
tabaco), se estima que atinjam cerca de 6% da popu­ dimento; outros, de acordo com a particularidade do
lação, constituindo um problema relevante de saúde caso, requerem tratamento ainda mais intensivo, como
pública. A atenção primária à saúde é um importante internações hospitalares, hospital­‑dia ou internações
ambiente para se estabelecerem ações de saúde relacio­ prolongadas em comunidades terapêuticas, além de
nadas a todas as formas de uso de substâncias capazes moradias assistidas.
de gerar prejuízos à saúde e ao bem­‑estar do paciente, de Porém, a abordagem na atenção primária atinge
sua família e seu meio. Muitas vezes, o primeiro contato uma gama muito grande de indivíduos acompanhados
do paciente para tratamento de problemas relaciona­ no decorrer do tempo, passíveis de intervenções breves,
dos com o uso de substâncias acontece em uma UBS. preventivas, que abordam os usuários com um padrão
Estudos demonstram que a educação continuada para de uso pesado ou nocivo antes que ocorram danos à
equipes de saúde na atenção primária tem um impacto saúde ou que desenvolvam um padrão de uso de de­
positivo na população.17 Da mesma forma, treinamen­ pendência. Os profissionais da equipe do Programa de
tos adequados para detecção precoce e intervenção Saúde da Família podem incorporar, em suas atividades
em casos de uso nocivo e dependência de substâncias de rotina, um momento destinado a triagem e aplicação
capacitam as equipes a ter mais segurança no manejo de intervenções breves aos pacientes com problemas
desses casos, até mesmo para se fazer um diagnóstico relacionados ao uso de substâncias. Nessa triagem, po­
mais preciso e encaminhar para centros secundários ou dem ser utilizados escalas e questionários, que são de
terciários de tratamento de modo mais racional e não aplicação rápida, como AUDIT, CAGE, FAGERSTROM e
indiscriminado. ASSIST (ver Leituras Sugeridas).
Há modelos internacionais muito bem estabeleci­ A UBS é um ambiente no qual o estigma é me­
dos, com protocolos de atuação bem definidos para cada nor, sendo também menor a resistência do indivíduo
6 Diehl, Cordeiro, Laranjeira & cols.

à mudança. As intervenções breves são bem indicadas no indivíduo e no uso de substâncias. Perguntas aber­
quando direcionadas a usuários de risco ou a pacientes tas e não confrontativas ou preconceituosas promovem
que façam uso nocivo, não apresentando a mesma eficá­ uma diminuição da ansiedade tanto no paciente como
cia para os portadores da síndrome de dependência.3 no acompanhante, e uma maior aproximação.7,23
Papel fundamental nesse sentido é exercido pelo Na primeira abordagem, pode­‑se realizar uma
agente comunitário de saúde (ACS), que mora na co­ avaliação clínica e uma abordagem terapêutica inicial. Os
munidade e integra a equipe de saúde que atende à objetivos da avaliação inicial são:
população que ali reside, representando um elo entre a
equipe e a comunidade. Em geral, é alguém que se des­ • Tratar qualquer emergência relacionada a intoxicação
taca na comunidade, pela capacidade de se comunicar aguda ou a abstinência de substâncias.
com as pessoas, pela liderança natural que exerce. Hoje, • Realizar um diagnóstico precoce sobre o consumo de
esse profissional ocupa no Brasil uma posição singular e, drogas.
ao mesmo tempo, contraditória nas tarefas da atenção • Identificar complicações clínicas e possíveis prejuízos
básica, uma vez que é tanto membro da comunidade­ sociais.
‑alvo quanto usuário dos serviços públicos de saúde e • Investigar comorbidades psiquiátricas.
por conseguinte conhece e enfrenta as mesmas dificul­ • Motivar os indivíduos para a mudança.
dades de acesso e de resolutividade que seus vizinhos. • Estabelecer vínculo com o paciente.
Entretanto, é parte integrante de uma equipe de saúde, • Determinar o nível de atenção especializada de que
mas nem sempre legitimizado por ela. Constitui atual­ o paciente necessitará.
mente uma força de trabalho significativa, com mais de
200 mil profissionais atuando em todo o país.20
O ACS realiza seu trabalho nos domicílios de sua Avaliação clínica
área de abrangência e, entre outras funções, identifi­
ca indivíduos e famílias expostos a situações de risco A avaliação deve incluir uma anamnese clínica
e desenvolve ações de educação e vigilância à saúde.7 geral e uma anamnese específica, direcionada para o
A atividade educativa desenvolvida com o ACS permite consumo de substâncias, em que se avalie quais são usa­
percepções sobre a complexidade do cotidiano da po­ das e qual é o padrão de consumo: dependência ou uso
pulação, também vivenciado pelo próprio agente como nocivo, de acordo com as classificações vigentes.
morador da comunidade, e sobre as limitações de lidar Ainda em relação ao padrão de consumo, investigar
com a problemática das famílias de maneira focaliza­ quais as vias utilizadas, qual o ambiente de consumo e
da.21 São principalmente essas limitações que revelam a qual o intervalo máximo que consegue ficar sem utilizar
existência de importantes vulnerabilidades e sofrimento a substância. Alguns desses dados podem ser indicado­
no trabalho do ACS, geradas também pela escassa pers­ res de maior gravidade, tanto pelo consumo como pela
pectiva de mudança em vários aspectos vivenciados no exposição a fatores de risco.
cotidiano de seu trabalho, uma vez que fatores alheios Deve­‑se investigar sintomas clínicos relacionados
ao seu espectro de alcance, incluindo as limitações do a abstinência ou a complicações do uso crônico, como,
modelo assistencial proposto pelo PSF, também estão por exemplo, tremores matinais e alterações na pressão
em cena.22 arterial associados a abstinência de álcool; irritação das
conjuntivas, sugestivo do uso de maconha; irritação
nasal, sugestivo do uso de cocaína inalada; fígado de
Abordagem inicial do dimensões aumentadas, etc. Avaliar se há algum tipo de
usuário pelo não especialista prejuízo decorrente do consumo de substâncias, como
problemas conjugais e familiares, problemas financeiros,
Muitas vezes, a primeira intervenção em relação perda do emprego ou mudança frequente de emprego,
ao uso de substâncias acontece no contexto da atenção acidentes de trânsito e envolvimento em situações de
primária, quando essa condição é diagnosticada durante violência, é outra abordagem necessária.7,23
o acompanhamento do paciente por algum outro pro­ Também é importante questionar se já houve
blema de saúde, ou quando o ACS identifica indivíduos tentativa previa de interromper o uso ou se já realizou
com problemas com álcool ou drogas na comunidade tratamentos anteriores. É impostante definir como fo­
e os orienta a procurar o serviço de saúde ou, ainda, ram os tratamentos anteriores (grupos de mútua ajuda,
quando o paciente é obrigado por seus familiares a pro­ tratamentos ambulatoriais, hospitalares, comunidades
curar algum tratamento. É comum que o paciente negue terapêuticas, etc.) e como foi o comprometimento nes­
ou minimize o uso de substâncias. Por isso, inicialmente, ses tratamentos.
estabelecer um vínculo adequado com o paciente é mui­ Investigam­‑se, ainda, antecedentes pessoais e fami­
to importante. O foco da entrevista deve estar centrado liares de comorbidades psiquiátricas e se os transtornos
Dependência química 7

psiquiátricos existentes são secundários ao uso de subs­ • Atendimento de casos mais complexos de acordo com
tâncias. Averigua­‑se se existem problemas sociais ou a formação, o treinamento e a supervisão do profis­
familiares que reforcem o uso da substância. sional que atua na UBS.
Soma­‑se a isso a avaliação do estágio motiva­ • Encaminhamento de pacientes e familiares para
cional do indivíduo. Tal avaliação define qual tipo de participar de grupos de mútua ajuda próximos ao
orientação ele pode receber. Os dados coletados na ava­ seu bairro, tais como Narcóticos Anônimos (NA),
liação inicial auxiliam a orientar todo o planejamento Alcoólicos Anônimos (AA), Amor­‑Exigente e Nar­
terapêutico.23 ‑Anon.

Alguns modelos sugerem o atendimento comparti­


Intervenções breves e aconselhamento lhado entre profissionais ou entre serviços, tais como:

Segundo Ritscher e colaboradores,24 para pacien­ • Acompanhamento mais intensivo de paciente que saiu
tes menos graves e que não tenham recebido tratamento recentemente de internação.
anterior, em geral são utilizadas intervenções breves, • Atendimento multidisciplinar no contexto da atenção
com bons resultados. Conforme descrito anteriormente, primária.
a atenção primária é um local propício para esse tipo de • Encaminhamento para serviços de referência, de
intervenção, devido à longitudinalidade com que acom­ acordo com as necessidades clínicas do paciente.
panha os indivíduos ao longo da vida. • Supervisão da equipe por profissional ou serviço
Os componentes de uma intervenção breve típica especializado (matriciamento).
abrangem:25 • Atenção para grupos de maior vulnerabilidade (pes­
soas em situação de rua, trabalhadores do sexo, imi­
• Triagem para identificar uso nocivo ou pesado de grantes, etc.).
substância.
• Demonstração de empatia. As intervenções possíveis feitas pela equipe mul­
• Aplicação breve de técnicas motivacionais e cogniti­ tiprofissional na atenção primária, baseadas nesses
vo­‑comportamentais. modelos, incluem:
• Aconselhamento para interromper ou diminuir o
uso. 1. Informações e orientações:
• Fornecimento de material educativo. • Informações sobre o uso e os efeitos do álcool
• Realização de cerca de três sessões de acompanha­ e das diferentes drogas.
mento. • Complicações clínicas, psiquiátricas e gestacio­
nais.
Se o rastreamento indicar uso nocivo ou possível de­
• Orientação para parar o uso indevido de subs­
pendência de substâncias, o profissional deve falar sobre tâncias.
sua impressão e aconselhar o paciente a diminuir ou in­ • Informações sobre como reduzir o potencial de
terromper o uso, com base nos riscos para a saúde. Além risco.
disso, o profissional também pode auxiliá­‑lo a estabelecer • Informações sobre como e onde procurar ajuda
metas e oferecer material educativo. Para indivíduos com para o problema relacionado com o uso de
dependência, o profissional deve envolver o paciente na substâncias.
decisão de buscar tratamento, discutir serviços de refe­ • Informações sobre como e onde procurar ajuda
rência disponíveis, oferecer apoio continuado e verificar para outros problemas, como saúde sexual.
se há sintomas de depressão e ansiedade. Se o paciente • Informações para parceiros e familiares sobre
não estiver motivado à ação, é preciso orientá­‑lo a bus­ uso indevido de substâncias e tratamento.
car uma segunda opinião, envolver membros da família • Aconselhamento sobre comportamento sexual
e realizar uma entrevista motivacional, questionando as de risco.
vantagens e as desvantagens do uso.26 • Informações sobre grupos de apoio, como os
Além das intervenções breves e do aconselhamen­ grupos com base nos 12 passos.
to, na atenção primária, a atuação médica pode ser:
2. Intervenções relacionadas a redução de danos:
• Atendimento clínico para usuários, com enfoque em • Tratamento de complicações clínicas, como
complicações do uso de substâncias e de seus fatores abscessos relacionados às vias de acesso.
de risco. • Orientações sobre risco de overdose.
• Atendimento clínico e intervenção no uso de subs­ • Aconselhamento e testagem para HIV e hepatites
tâncias de acordo com diretrizes específicas (p. ex., virais.
tratamento do tabagismo). • Vacinação para hepatite B.
8 Diehl, Cordeiro, Laranjeira & cols.

• Aconselhamento e testagem para infecções Indicações de internação


se­xualmente transmissíveis, bem como forneci­
mento de preservativos. Os aspectos referidos a seguir são indicativos de
3. Prescrições médicas, sob supervisão de equipe espe- internação.
cializada ou em atendimento compartilhado (matri-
ciamento): • O paciente não consegue se manter abstinente apesar
de realizar acompanhamento ambulatorial.
• Prescrição para síndrome de abstinência de
• Falta continência familiar ou psicossocial, presença
álcool leve ou moderada;
de situações de risco.
• Prescrição para síndrome de abstinência de
• Condições graves, clínicas ou psiquiátricas, que ne­
benzodiazepínicos leve;
cessitem de cuidados constantes: síndromes de absti­
• Prescrição de sintomáticos para usuários de
nência graves, complicações clínicas do uso, ideação
estimulantes;
suicida, sintomas psicóticos graves.7
• Prescrição de medicamentos do tratamento
supervisionado feito na UBS;
• Investigação e acompanhamento de complica­
ções clínicas relacionadas ao uso indevido de Considerações finais
substâncias;
• Investigação de comorbidades psiquiátricas e Diversas ações que as equipes de saúde da família
encaminhamento para serviços de referência. já realizam diariamente podem ser ofertadas às pessoas
4. Outras intervenções psicossociais: com problemas relacionados ao uso indevido de subs­
Estas intervenções podem ser feitas individualmente tâncias e a seus familiares, atendendo ao princípio de
ou em grupos – de preferência por profissionais com universalidade e integralidade preconizado pelo SUS.
treinamento no assunto. Além disso, as equipes têm um papel fundamental no
sentido da inclusão de segmentos mais vulneráveis da
• Grupos de famílias de usuários população.
• Grupos de acolhimento As estratégias de prevenção, rastreamento e inter­
• Grupos de motivação venção breve são muito usadas em diversos países na
• Grupos de prevenção de recaída atenção primária à saúde, sendo que os instrumentos de
• Grupos educacionais triagem são importantes para detecção do uso e determi­
• Grupos para atividade física nação do padrão de consumo de substâncias. Apesar de
• Grupos de terapia comunitária haver dificuldades na implantação desse tipo de inter­
venção nas rotinas dos serviços27 porque os profissionais
se consideram pouco preparados para resolver tais pro­
blemas, as evidências apontam para esse caminho, pois
Quando encaminhar
os estudos têm mostrado que muitos indivíduos que
para o especialista?
buscam assistência não estão preparados para realizar
esse processo sozinhos, por se encontrarem em fase de
Pacientes que não melhoraram com os recursos da pré­‑contemplação ou contemplação de seu problema.3
comunidade (incluindo UBS e grupos de apoio), aqueles Importante salientar que é fundamental a capa­
que já tiveram várias tentativas de se manter abstinentes citação de profissionais da saúde na atenção primária
e não obtiveram sucesso e pacientes com comorbidades e o estabelecimento de uma rede eficiente de serviços
psiquiátricas devem ser encaminhados para serviço de integrados que ofereçam retaguarda para a demanda de
referência na rede ou para especialista.7 atendimento secundário e terciário.

Q Questões para discussão

1. Que tipo de intervenções está ao alcance do agente comunitário de saúde no contexto de tratamento
de uso/abuso e dependência de substâncias psicoativas em sua unidade básica de saúde?
2. Você acredita que a desintoxicação alcoólica possa ser realizada somente em ambientes nos quais o paciente
possa ser hospitalizado, visto que sempre existe o risco de crises convulsivas ou delirium tremens (DT)
em dependentes de álcool? Como avaliar as indicações para desintoxicação alcoólica possíveis de ser
conduzidas em UBS?
Dependência química 9

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Common questions

Com tecnologia de IA

A Conferência de Alma Ata em 1978 proclamou a Atenção Primária à Saúde (APS) como a estratégia central para atingir equidade e universalidade nos sistemas de saúde globalmente. No Brasil, essa conferência influenciou diretamente a formulação do Sistema Único de Saúde (SUS), reafirmando o direito à saúde como um direito humano fundamental e estabelecendo diretrizes para a atenção primária que são refletidas nas práticas do SUS, como o foco em serviços preventivos, curativos e reabilitadores .

O treinamento e a educação continuada das equipes de saúde na atenção primária estão associados a uma melhoria significativa no manejo do uso prejudicial de substâncias. Estas iniciativas conferem às equipes maior segurança para detecção precoce e intervenção em casos de uso nocivo e dependência de substâncias. Treinamentos adequados permitem um diagnóstico mais preciso e melhoram o processo de encaminhamento para centros de tratamento secundários ou terciários, aumentando a eficiência e a eficácia das intervenções .

O conceito de vigilância à saúde e o enfoque no risco são incorporados nas práticas do Programa de Saúde da Família (PSF) através de atividades voltadas para a prevenção e promoção da saúde mental. Estas práticas buscam lidar com os determinantes sociais do adoecimento e realizam práticas intersetoriais que promovem o exercício da cidadania. A abordagem integral do PSF compreende uma intervenção pro-ativa, não apenas focando no tratamento, mas também na compreensão e intervenção sobre os fatores de risco .

A atenção primária no Brasil segue as recomendações internacionais ao integrar a saúde mental dentro de suas práticas cotidianas. Isso inclui a corresponsabilização entre as equipes de saúde da família e de saúde mental, com uma abordagem contínua que permite o manejo de transtornos mentais em diferentes níveis de gravidade. As equipes de saúde da família são treinadas para identificar transtornos precocemente e fornecer cuidado apropriado, promovendo a ligação com serviços especializados quando necessário .

As intervenções breves são eficazes na atenção primária porque auxiliam na identificação precoce de problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Elas empregam instrumentos de rastreamento, oferecem orientações e aconselhamento, e fazem monitoramento periódico das metas definidas pelo paciente. Elas são facilmente integráveis nas consultas de rotina, permitindo que as intervenções sejam feitas antes que o uso problemático evolua para dependência, potencializando os esforços preventivos .

Os principais obstáculos enfrentados pelas equipes de saúde primária incluem a falta de capacitação adequada, o que leva os profissionais a se considerarem pouco preparados para lidar com problemas de uso de substâncias, e a falta de uma rede eficiente de serviços integrados para suporte na demanda de atendimento secundário e terciário. Muitas vezes, existe resistência à mudança das rotinas dos serviços, com profissionais sentindo que não estão preparados para conduzir essas intervenções .

O Programa de Saúde da Família (PSF) foi implantado como parte da reestruturação da atenção básica no Brasil, influenciando diretamente a atenção primária à saúde mental. Ele promove uma abordagem pró-ativa de saúde, integrando práticas de vigilância à saúde e enfoque no risco. As equipes do PSF, ao atuarem como gestores de caso, facilitam o acompanhamento contínuo dos pacientes, incluindo o manejo de saúde mental, e promovem práticas intersetoriais que contemplam a cidadania .

O apoio matricial em saúde mental é um arranjo técnico-assistencial destinado a ampliar a clínica das equipes de saúde da família na atenção primária. Este modelo altera a tradicional noção de referência e contrarreferência, criando uma corresponsabilização entre as equipes de saúde da família e de saúde mental. Ele facilita a construção de vínculos entre profissionais e usuários, contribuindo para uma maior resolutividade no atendimento em saúde mental .

A Unidade Básica de Saúde (UBS) atua como a "porta de entrada" do Sistema Único de Saúde (SUS) e representa o primeiro contato para pacientes que buscam tratamento para problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Ela é crucial para o rastreamento, intervenções breves e acompanhamento clínico e psicossocial. As UBSs estão bem posicionadas para ações preventivas, garantindo que as intervenções ocorram antes do avanço para um padrão de uso problemático ou dependente e possibilitam o monitoramento contínuo das intervenções .

A coordenação entre diferentes níveis de atenção à saúde é fundamental no modelo de atenção primária descrito na Conferência de Alma Ata, pois garante que todas as necessidades de saúde do indivíduo sejam atendidas de forma integrada. Este modelo busca coordenar cuidados por meio de diferentes níveis de assistência (primária, secundária e terciária), assegurando que os pacientes recebam serviços adequados à medida que necessitam de cuidados mais especializados, e promovem a continuidade e a integralidade do cuidado .

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