SUS
O marco histórico para o surgimento do SUS foi a 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986.
Marca o momento em que as mudanças ganham contornos claros, ao ampliar os atores envolvidos e explicitar em seu
relatório as diretrizes para a reorganização do sistema de saúde.
As plenárias da 8ª CNS contaram com a participação efetiva de quase todas as instituições que atuavam no setor, assim
como daquelas representativas da sociedade civil, dos grupos profissionais e dos partidos políticos.
Constatou-se que o modelo de organização do setor público de saúde existente era anárquico, pouco eficiente e eficaz, fato
que surgiu devido a um processo de construção de um sistema em que predominavam os interesses dos empresários da
área médico-hospitalar.
As desigualdades sociais e regionais existentes na época atuavam como fatores que limitavam o pleno desenvolvimento de
um nível satisfatório de saúde e de uma organização de serviços socialmente adequada.
Os governos anteriores haviam priorizado outros setores, que não o da saúde.
A política de saúde vigente atendia a interesses não coincidentes com os dos usuários dos serviços, sendo influenciada
pela ação de grupos dedicados à mercantilização da saúde. O modelo assistencial se configurava como excludente,
discriminatório e centralizador.
O setor de medicamentos e equipamentos era controlado pelas multinacionais.
Os temas da conferência eram compostos pelos itens saúde como direito, reformulação do Sistema Nacional de Saúde e
financiamento do setor.
Os principais pontos discutidos foram:
❖ Saúde como direito de todos e dever do Estado, estando inscrita entre os direitos fundamentais do ser humano;
❖ Equidade e integralidade das ações de saúde;
❖ Separação da Saúde da Previdência;
❖ Sistema público com comando único;
❖ Conceito abrangente de saúde, levando em conta condições de
habitação, alimentação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, educação, emprego, lazer, liberdade,
acesso a posse de terra e aos serviços de saúde; ❖ Política de financiamento do setor saúde.
Em 1987 foi realizada uma Assembleia Nacional Constituinte com o objetivo de elaborar a nova constituição brasileira.
Nesse ano, enquanto a estrutura jurídica do Sistema Único de Saúde era elaborada no processo constituinte, o Sistema
Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS) foi implementado, representando certo avanço de modo que possibilitou:
❖ A formação dos conselhos estaduais e municipais de saúde;
❖ A desconcentração de recursos e poder da esfera federal para a estadual;
❖ E o aumento, mesmo que insuficiente, da cobertura de serviços de saúde para a população.
Em outubro 1988, foi promulgada a Constituição Federal, que aprovava a criação do SUS incorporado das propostas das
emendas populares do movimento Reforma Sanitária, acompanhadas da participação dos seguimentos interessados.
A separação da saúde e da previdência é determinada pelo Art. 194:
“A seguridade social compreende um conjunto de ações de iniciativa dos Poderes Públicos
e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à
previdência social e a assistência social”.
O direito da saúde a todos os cidadãos vem expresso no Art. 196:
“A saúde é direito de todos e dever do
Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e
ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
Outros artigos ainda dispõem:
Art. 198 → “As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um
sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes: descentralização, atendimento integral e participação da
comunidade”.
Art. 200 → “Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei:
❖ Executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador;
❖ Ordenar a formação de recursos humanos na área da saúde;
❖ Participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento básico;
❖ Incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e tecnológico;
❖ Fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor nutricional, bem como bebidas e águas
para consumo humano;
❖ Colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho.”
LEI FEDERAL 8080/90
Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos
serviços correspondentes.
Art. 2º → “A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu
pleno exercício.
§1º - O dever do Estado de garantir a saúde consiste na reformulação e execução de políticas econômicas e sociais que
visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso
universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação.”
Art. 4º → “O conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e
municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público, constitui o Sistema Único de
Saúde-SUS.
§2º - A iniciativa privada poderá participar do Sistema Único de Saúde-SUS, em caráter complementar.”
Art. 5º →“Dos objetivos do SUS:
A identificação e divulgação dos fatores condicionantes e determinantes da saúde;
A assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a realização
integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas.”
Art. 6º → “Estão incluídas ainda no campo de atuação do SUS:
A execução de ações de vigilância sanitária, de vigilância epidemiológica, de saúde do trabalhador e de assistência
terapêutica integral.”
Art. 7º → “As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contratados ou conveniados que integram o Sistema
Único de Saúde – SUS são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no artigo 198 da Constituição Federal,
obedecendo ainda aos seguintes princípios:
I - universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência;
II - integralidade de assistência, entendida como um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços
preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema;
III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral;
IV - igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie;
V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde;
VI - divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e sua utilização pelo usuário;
VII - utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades, a alocação de recursos e a orientação
programática;
VIII - participação da comunidade;
IX - descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera de governo: a) ênfase na
descentralização dos serviços para os municípios;
b) regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde;”
ALGUNS CONCEITOS
UNIVERSALIDADE
Reconhecimento da saúde como um direito fundamental do ser humano, cabendo ao Estado garantir as condições
indispensáveis ao seu pleno exercício e o acesso a atenção e assistência à saúde em todos os níveis de complexidade.
Para isso, é preciso eliminar barreiras jurídicas, econômicas, culturais e sociais que se interpõem entre a população e os
serviços.
EQUIDADE
Diz respeito à necessidade de se “tratar desigualmente os desiguais” igualando as oportunidades de sobrevivência, de
desenvolvimento pessoal e social entre os membros de uma dada sociedade. Apesar de todas as pessoas possuírem
direito aos serviços, as pessoas não são iguais e, por isso, têm necessidades distintas.
Em saúde, especificamente, as desigualdades sociais se apresentam como desigualdades diante do adoecer e do morrer,
reconhecendo-se a possibilidade de redução dessas desigualdades, de modo a garantir condições de vida e saúde mais
iguais para todos.
INTEGRALIDADE
Considera as pessoas como um todo, atendendo a todas as suas necessidades. Para isso, é importante a integração de
ações de:
❖ Promoção da saúde;
❖ Prevenção/Proteção de riscos e agravos; ❖ Recuperação/Tratamento a doentes.
DESCENTRALIZAÇÃO
Implica na transferência de poder de decisão sobre a política de saúde do nível federal (MS) para os estados (SES) e
municípios (SMS). Esta transferência ocorre a partir da redefinição das funções e responsabilidades de cada nível de
governo com relação à condução político-administrativa do sistema de saúde em seu respectivo território (nacional,
estadual, municipal), com a transferência, concomitante, de recursos financeiros, humanos e materiais para o controle das
instâncias governamentais correspondentes.
Nova proposta de organização do sistema, de uma gestão compartilhada e solidária considerando as diferenças regionais,
a organização de regiões sanitárias, de modo a garantir um atendimento integral de qualidade ao indivíduo. Ele promove
também mecanismos de cogestão e planejamento regional, fortalece o controle social, e vem com uma proposta de
cooperação técnica entre os gestores.
Possui três dimensões:
❖ Pacto pela vida diz respeito ao compromisso da prioridade do pacto com a saúde da população;
❖ Pacto em defesa do SUS com o seu fortalecimento, principalmente pelo controle social e a garantia de recursos
financeiros.
❖ Pacto de gestão do SUS define responsabilidades sanitárias para os gestores criando novos espaços de
cogestão.
PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE
É a garantia constitucional de que a população, através de suas entidades representativas, participará do processo de
formulação das políticas de saúde e do controle da sua execução, em todos os níveis, desde o federal até o local.
Essa participação deve se dar nos Conselhos de Saúde e Conferências de Saúde. Além do dever das instituições
oferecerem as informações e conhecimentos necessários para que a população se posicione sobre as questões que dizem
respeito à sua saúde.
POR QUE SISTEMA ÚNICO?
Porque ele segue a mesma doutrina e os mesmos princípios organizativos em todo o território nacional, sob a
responsabilidade das três esferas autônomas de governo federal, estadual e municipal. Assim, o SUS não é um serviço ou
uma instituição, mas um sistema que significa um conjunto de unidades, de serviços e ações que interagem para um fim
comum. Esses elementos integrantes do sistema, referem-se ao mesmo tempo, às atividades de promoção, proteção e
recuperação da saúde.
Referências
AGUIAR, Zenaide Neto. SUS: Sistema Único de Saúde: antecedentes, percurso, perspectivas e desafios. São Paulo:
Martinari, 2011.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. 8ª Conferência Nacional de Saúde: relatório final. 1986.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. ABC do SUS: doutrinas e princípios. Brasília. 1990.
PAIM, J. et al. O sistema de saúde brasileiro: historia avanços e desafios. 2011. Série Saúde no Brasil, v. 1, 2012.
PAIVA, Carlos Henrique Assunção; TEIXEIRA, Luiz Antonio. Reforma sanitária e a criação do Sistema Único de Saúde: notas
sobre contextos e autores. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 21, n. 1, p. 15-36, 2014.
TEIXEIRA, Carmen. Os princípios do sistema único de saúde. Texto de apoio elaborado para subsidiar o debate nas
Conferências Municipal e Estadual de Saúde. Salvador, Bahia, 2011.