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Método Cartográfico em Pesquisa de Comunicação

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O método cartográfico de Walter Benjamin:


uma proposta para pesquisas em comunicação

Walter Benjamin's cartographic method: a proposal for communication


research

Resumo
Daniel Melo Ribeiro O objetivo deste estudo é apresentar uma proposta de método
danielmeloribeiro@[Link] cartográfico de pesquisas em comunicação inspirada em
Orcid: [Link] conceitos desenvolvidos por Walter Benjamin. Partimos da
0840-2587. seguinte pergunta: quais fundamentos conceituais orientam
essa abordagem e como a cartografia, entendida em seu viés
Professor adjunto do departamento de
metodológico, poderia ser aplicada em uma pesquisa no campo
Comunicação Social da UFMG. da comunicação? Na primeira parte do estudo, apontamos a
Doutor em Comunicação e Semiótica relevância do método cartográfico para a área. Em seguida,
pela PUC-SP. É membro do grupo de apresentamos os conceitos que fundamentam o pensamento
pesquisa CIEP/PUC-SP (Centro cartográfico de Benjamin e sugerimos um procedimento
Internacional de Estudos Peirceanos), baseado em três etapas: a deambulação, a arqueologia e a
co-lider do grupo MediaAção/UFMG montagem. Por fim, levantamos pontos de convergência e
(Grupo de pesquisas em Mídia, divergência na aplicação desse método, tendo em vista
Semiótica e Pragmatismo). É questões que afetam os estudos contemporâneos em
integrante da Rede SIMM: Rede de comunicação.
Pesquisa em Semiótica, Interações e Palavras-chave: cartografia, Walter Benjamin, comunicação.
Materialidades Midiáticas.
Abstract
The objective of this study is to present a proposal for a
cartographic method of communication research inspired by
concepts developed by Walter Benjamin. We start with the
following question: what conceptual foundations guide this
approach and how could cartography, understood in its
methodological sense, be applied in research in the field of
communication? In the first part of the study, we point out the
relevance of the cartographic method for the area. Next, we
present the concepts that underlie Benjamin's cartographic
thinking and suggest a methodology based on three stages:
deambulation, archeology and montage. Finally, we highligh
points of convergence and divergence about the application of
this method, taking into account issues that affect
contemporary studies in communication.
Keywords: cartography, Walter Benjamin, communication.

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performances e instalações (Harmon, 2009).


1 Introdução Práticas alternativas de mapeamento também são
frequentemente adotadas por povos indígenas, que
A cartografia é a ciência que trata das técnicas utilizam gravetos, folhas, ossos, pedras, conchas,
de construção de mapas, que, por sua vez, são penas e outros materiais nas suas atividades
representações diagramáticas de um espaço cartográficas, associando a criação de mapas com
delimitado (Stjernfelt, 2013). Nesse sentido, a rituais, narrativas orais, cânticos e caminhadas
cartografia lida com o desejo de se atribuir um (Careri, 2002). Além do aspecto performático, a
ordenamento ao mundo através da criação de chamada cartografia indígena debate relevantes
signos que possam, de maneira sintética, organizar questões políticas, evidenciando como os mapas
o pensamento, orientar o deslocamento e costumam ser usados como instrumentos de
(re)conhecer o espaço habitado. Segundo Zumthor imposição do poder colonial sobre o território
(1993), a criação de mapas envolve um esforço de (Ribeiro, 2020). Já os estudos sobre a cartografia
figuração, a fim de estabelecer uma correlação do período medieval revelam uma perspectiva
entre lugares e distâncias. Assim, a cartografia visual fortemente ligada a questões religiosas,
busca conhecer o indefinido, sobrepondo (e narrativas fantásticas ficcionais e lendas,
impondo) a ele uma grade de leitura. adicionando elementos do imaginário ao exercício
Como um dispositivo de afirmação de valores de representação do espaço (Nöth, 2007; Zumthor,
modernos, a cartografia assume um caráter 1993). Atualmente, a ligação dos mapas com
científico a partir da expansão das grandes mundos ficcionais é estudada em suas relações com
navegações (Brotton, 2014) e se consolida com o a literatura e os estudos narrativos (Caquard e
crescente aprimoramento das técnicas de Cartwright, 2014).
mensuração do território, sensoriamento remoto, e, Todas essas vertentes da cartografia indicam
mais recentemente, com os sistemas de informação que suas aplicações extrapolam a ênfase em seus
geográfica (geographic information systems, GIS). aspectos geográficos e técnicos. Neste estudo,
Sob esse ponto de vista, a cartografia é tratada entendemos a cartografia em um sentido mais
como um saber institucionalizado que almeja uma amplo, que não se restringe ao contexto da ciência
representação funcional do espaço, de forma que geográfica ligada à criação de mapas científicos.
seus produtos derivados atendam a um anseio de Interessa-nos compreender as potencialidades da
mensuração e de representação racional do cartografia em suas características metodológicas,
território. Para esse propósito, a cartografia se como um processo de exploração, coleta,
fundamenta em códigos e procedimentos rigorosos, observação, raciocínio e organização espacial de
definidos por especialistas, a fim de elaborar mapas ideias. Dessa maneira, o exercício da cartografia é
que reivindicam uma correspondência lógica com o visto como um método de pesquisa, uma maneira
espaço representado. particular de conduzir uma investigação, para além
Por outro lado, a cartografia também é encarada de seu caráter representacional (Kitchin et al.,
como um conceito norteador de processos ligados à 2012).
construção de representações espaciais em outros Argumentamos que essa perspectiva
domínios, sobretudo para enfatizar expressões cartográfica é potencialmente relevante para a
estéticas e políticas (Harley, 2001). No campo das comunicação, ao sugerir procedimentos capazes de
artes plásticas, por exemplo, a cartografia é lidar com as complexidades que caracterizam os
intensamente explorada em seus aspectos estéticos, objetos empíricos dessa área. Assim, levantamos as
criando mapeamentos a partir da combinação de seguintes perguntas: quais fundamentos conceituais
técnicas de pintura, gravura, escultura, desenho, poderiam orientar uma abordagem cartográfica

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para a comunicação? Como a cartografia, desenvolvimento da pesquisa. Ou seja, a


entendida em seu viés metodológico, poderia ser descoberta e o aprendizado proporcionados pela
aplicada em uma pesquisa no campo da experiência do pesquisador em seu percurso
comunicação? retroalimentam a metodologia com novos insights.
Essa proposta sugere, portanto, uma inversão no
2 Comunicação e o método cartográfico sentido tradicional de uma pesquisa: o método não
seria um roteiro pré-determinado que fixa as etapas
Investigações sobre as relações entre o método da realização da pesquisa, mas ganha contornos
cartográfico e as pesquisas em comunicação no mais definidos após a movimentação do
Brasil são conduzidas pela professora e pesquisador em direção ao problema investigado.
pesquisadora Nísia Martins do Rosário e por seu Por outro lado, a adoção do método cartográfico na
grupo na UFRGS (Rosário, 2022; Rosário et al., comunicação não significa o desprezo pelo rigor
2021). Suas reflexões partem de um olhar crítico metodológico ou mesmo um abandono do método.
sobre a ciência moderna de inspiração iluminista, Os próprios pesquisadores reforçam que há uma
questionando os mitos que fundamentam uma diferença entre rigor e rigidez metodológica, que,
pesquisa. Dentre esses mitos, destaca-se a neste último caso, implica uma incapacidade de
imposição do raciocínio lógico-racional como adaptação e absorção de imprevistos ao longo da
único modelo válido de pensamento, a rigidez do pesquisa. Tampouco há uma invalidação dos
método como garantia de obtenção de resultados fundamentos conceituais que orientam as análises
válidos, a certeza de obtenção da verdade críticas empreendidas na pesquisa. Nesse sentido, o
exclusivamente por meio da ciência e a separação método cartográfico também precisa se amparar
entre sujeito pesquisador e objeto pesquisado. em linhas teóricas, cujas origens remetem a certos
Segundo esses pesquisadores, tais mitos autores que já se empenharam em desvendar essas
contribuíram para consolidar um modo de se fazer articulações da cartografia.
pesquisa nas ciências humanas e, por De acordo com o levantamento produzido por
consequência, na própria comunicação. Rosário, Coruja e Segabinazzi (2021), as pesquisas
Assim, a cartografia é apontada por esses em comunicação no Brasil que abordam o método
autores como uma proposta metodológica capaz de cartográfico tendem a se filiar, por exemplo, à
desconstruir alguns desses mitos, a fim de dar abordagem de Deleuze e Guattari (1995),
conta das complexidades que emergem das análises apoiando-se em conceitos como rizoma, platôs e
dos objetos empíricos das atuais pesquisas na área movimentos de desterritorialização e
da comunicação. Desafios contemporâneos - como reterritorialização. Destaca-se também a influência
a perspectiva dos afetos, o problema da de Jesús Martín-Barbero, sobretudo a partir de um
desinformação, o ponto de vista decolonial, o olhar olhar que privilegia as mediações culturais e que se
interseccional, a midiatização, a inteligência interessa pelos “mapas traçados a partir das
artificial e a plataformização dos sistemas margens” (Martín-Barbero, 2004, p. 14). Os
comunicacionais em rede, as questões do corpo, autores também apontam a emergência da
gênero e raça, dentre outros - parecem demandar cartografia das controvérsias (Venturini e Munk,
uma “desconstrução de modos de pensar e colocar 2022), metodologia inspirada na Teoria Ator-Rede,
em prática a ciência e a pesquisa (modernas)” desenvolvida, dentre outros autores, por Bruno
(Rosário et al., 2021, p. 71). Latour. Esse levantamento também ressaltou
Como veremos, uma das características da abordagens que se apoiam nas reflexões sobre
abordagem cartográfica consiste no mapas e mapeamentos desenvolvidas por Lucia
aperfeiçoamento do próprio método ao longo do Leão (2011), pesquisadora da PUC-SP.

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Neste estudo, apresentamos uma proposta Instituto de Pesquisa Social, dirigido por Adorno e
cartográfica inspirada na obra de Walter Benjamin, Horkheimer.
que também é um dos autores de referência Uma característica marcante de sua obra é a
apontados por Rosário, Coruja e Segabinazzi visão crítica da modernidade, principalmente em
(2021) em seu levantamento bibliográfico. Esse relação à noção burguesa de progresso. Benjamin
esforço é justificado como uma tentativa de foi um árduo contestador da linearidade da história,
colaborar com o amadurecimento das abordagens uma perspectiva que trata o presente como um
cartográficas na comunicação, que, por ser um acúmulo progressivo de acontecimentos passados.
movimento ainda incipiente, requer “debate, Suas críticas mais contundentes a essa noção
experimentação e discussão pelos pares” (Rosário, aparecem em suas teses “Sobre o conceito de
2022, p. 47). Nesse sentido, vamos sintetizar história” (Benjamin, 2012), textos que foram
alguns elementos que caracterizam o pensamento publicados após o trágico falecimento de Benjamin
cartográfico de Walter Benjamin, apresentando na fronteira da França com a Espanha, fugindo da
uma proposta metodológica baseada em sua obra. perseguição nazista, em 1940. As promessas
Dessa maneira, pretendemos sugerir um apontadas pela modernidade de que o
procedimento que possa inspirar futuras pesquisas conhecimento e a razão poderiam conduzir à
na comunicação. sociedade europeia ao progresso se encontravam
diante de graves contradições evidenciadas pelas
3 O pensamento cartográfico de Walter guerras e pelo crescimento do fascismo. Ou seja,
Benjamin por trás da marcha inabalável do progresso,
ocultam-se as ruínas de narrativas que não se
Walter Benjamin (1892-1940) foi um pensador concretizaram, soterradas pela imposição dos
alemão de origem judaica que se interessou por discursos dos vencedores. Nesse sentido, Benjamin
uma variedade de temas ao longo de sua trajetória se interessa pelos vestígios e fragmentos do
intelectual, tais como a literatura, as tradições passado ocultos pelo tempo, na medida em que são
religiosas, as memórias de infância, as artes potencialmente reveladores de outras narrativas.
plásticas e a urbanização. Na área de comunicação, Benjamin detectou esse movimento de declínio
Benjamin é lembrado por suas valiosas da modernidade ao pesquisar as grandes cidades
considerações sobre a emergência dos mecanismos européias do início do século XX, sobretudo Paris.
de reprodução técnica das imagens no contexto da No contexto de uma intensa urbanização, marcada
popularização do cinema e da fotografia pelo redesenho de ruas e avenidas, pelo
(Benjamin, 2012). Devido à sua proximidade com adensamento da rede de transportes, pela crescente
Adorno, Benjamin é frequentemente associado à industrialização, pela massificação da imprensa, do
chamada Escola de Frankfurt, ainda que sua visão rádio e do cinema, Benjamin se interessou pelas
sobre os meios de comunicação de massa seja contradições entre civilização e barbárie (Bolle,
divergente de seus colegas quanto às suas 2000), detectadas nos vestígios, rastros e
potencialidades políticas e estéticas. Sua tentativa escombros deixados pelo avanço do progresso.
frustrada de se habilitar na carreira de professor Duas obras são emblemáticas desse esforço: o
universitário o conduziu a uma trilha profissional livro Rua de Mão Única (Benjamin, 2013), uma
errática e um tanto marginal, em busca de apoio coletânea de aforismos e fragmentos de textos,
financeiro para seus estudos. Assim, para se reunidos de maneira descontínua em uma espécie
sustentar, Benjamin atuou como crítico literário, de colagem ou montagem de cenas do cotidiano
tradutor e jornalista, paralelamente à sua atividade urbano. No livro, a sucessão dos fragmentos simula
como pesquisador, que foi em parte financiada pelo pensamentos do autor a partir do seu gesto de

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caminhar por uma rua, característico de um experiência fenomenológica do caminhante urbano,


flâneur, admirando as fachadas, placas e edifícios. o interesse por fragmentos e rastros como índices
A segunda obra é o projeto das Passagens materiais e temporais da cultura e o exercício da
(Benjamin, 2009), uma imensa coleção de montagem, capaz de gerar imagens iluminadoras
fragmentos e citações sobre a cidade de Paris e pelo contraste de ideias. Tendo como base essas
suas passagens, galerias arquitetônicas de características, argumentamos que o pensamento
circulação dos pedestres que abrigavam pequenos cartográfico de Benjamin pode ser compreendido
comerciantes. Os fragmentos foram organizados em três etapas: a deambulação, a arqueologia e a
em diferentes cadernos que tratam de assuntos montagem (Ribeiro, 2021).
como a moda, o poeta Charles Baudelaire, o Barão
de Haussmann, o flâneur etc. A leitura dos 4 Deambulação: a experiência
incontáveis fragmentos espalhados pelo livro acaba fenomenológica da pesquisa pelo
deslocamento
por estimular um efeito iluminador, produzido pelo
choque e pelo contraste das ideias.
A deambulação é entendida como um
Esse breve percurso por alguns momentos-
procedimento de exploração do ambiente por meio
chave de sua obra são relevantes para apontar
da flânerie e da deriva. Fundamentada na
pistas sobre o método benjaminiano de pesquisa,
experiência fenomenológica do caminhante urbano,
que se configura como uma espécie de
a deambulação não se resume a um “andar sem
mapeamento ou cartografia da modernidade. O
rumo”. O gesto envolve o contato corporal do
interesse de Benjamin pelos espaços urbanos,
pesquisador com o espaço, que, ao aguçar os seus
identificado nos textos que tratam de suas viagens
sentidos, torna-se poroso à absorção de signos que
e de seus percursos errantes pelas cidades
se manifestam em seu entorno. Na medida em que
europeias, pode ser compreendido não somente
se desloca, de maneira um tanto despretensiosa e
como um mapeamento da sua trajetória de vida,
sem se deter a um percurso pré-determinado, o
mas também como um exercício cartográfico de
pesquisador assume uma postura sensível a objetos
significação da história e da cultura (Presner,
potencialmente relevantes para sua investigação,
2009). Outro aspecto notável é a utilização
sobretudo aqueles que, numa coleta apressada,
frequente de conceitos espaciais, tais como
seriam considerados desprezíveis. “Como o flâneur
labirinto, topografia e passagens. Destacamos, em
de Benjamin, o pesquisador em deriva observa,
especial, as noções de fronteiras e limiares
recupera índices e marcas urbanas para analisá-los
(Barrento, 2013; Gagnebin, 2014). Se, por um lado,
sob o impacto da descoberta daquilo que não se
a fronteira representa uma divisão espacial
impõe à observação” (Ferrara, 2015, p. 124). Nesse
arbitrária e abrupta, que separa ambientes de
sentido, o flâneur supera o mero olhar
maneira rigorosa, o limiar sugere as noções de
contemplativo do turista, pois seu gesto se constitui
transição e fluxo, que permite o movimento e se
numa espécie de dispositivo de captura do olhar,
afasta das dicotomias. Por fim, o pensamento
receptivo ao potencial significativo da surpresa e
cartográfico de Benjamin também pode ser
do inesperado.
detectado em sua curiosidade pelos mapas. Embora
não tenham sido um objeto específico de suas Aquela embriaguez anamnésica, na qual o flâneur
pesquisas, é possível encontrar várias referências à vagueia pela cidade, não se nutre apenas daquilo que
lhe passa sensorialmente diante dos olhos, mas
cartografia e aos mapas ao longo de seus apodera-se frequentemente do simples saber, de
fragmentos de textos (Ribeiro, 2019). dados inertes, como de algo experienciado e vivido.
Assim, podemos sintetizar a abordagem (Benjamin, 2009, p. 462, fragmento [M 1, 5]).
cartográfica benjaminiana a partir da ênfase na

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O flâneur é um personagem típico da burguesia O que são desvios para os outros, são para mim os
dados que determinam a minha rota. – Construo meus
europeia, o caminhante que se desloca pelas ruas cálculos sobre os diferenciais de tempo – que, para
da cidade, observando as vitrines, as pessoas e o outros, perturbam as ‘grandes linhas’ da pesquisa.
movimento das ruas. Benjamin atentou-se para esse (Benjamin, 2009, p. 499, fragmento [N 1,2]).
personagem no contexto de elaboração de seus A deriva urbana, por sua vez, foi adotada pelo
estudos sobre as passagens parisienses, inspirado, movimento situacionista como um método que
principalmente, pelas obras de Baudelaire, Edgar permite a criação de mapas através da caminhada
Allan Poe e de Franz Hessel. Trata-se de uma
pelos ambientes urbanos, observando as variações
figura ligada à emergência do capitalismo urbano, na percepção da cidade e nos sentimentos afetivos
estimulada pelo fascínio das mercadorias e pelo do pedestre (Careri, 2002). A deriva procura flagrar
consumo. Ao mesmo tempo, o flâneur também é as manifestações imprevistas, singulares e
um personagem anacrônico, pois seu gesto
informais (Ferrara, 2015). Nesse sentido, o
contemplativo e despretensioso contradiz as noções movimento incorporou outro componente relevante
de eficiência, pressa e objetividade. Seu passo para a deambulação, que é a relação afetiva com a
segue em um ritmo lento, “contra o dinamismo cidade, permitindo mapear pontos de interesse que
excessivo” (Benjamin, 2015a, p. 56), uma vez que
extrapolam as articulações esperadas ou uma
seu olhar está voltado para os detalhes. Esse cartografia de espaços estáveis. Nesse sentido, a
anacronismo também diz respeito ao interesse do deriva ressalta a habilidade de percepção sensível
flâneur pelos signos que apontam para um tempo do pesquisador, que, ao se colocar em movimento e
anterior, “um trabalho do olhar e da rememoração em contato físico com a alteridade do mundo
sobre a superfície do mundo” (Barrento, 2013, p. exterior, precisa estar aberto a notar as qualidades
99). dos fenômenos observados, sem julgamentos.
A deambulação urbana como princípio Esse breve panorama nos indica que a
fenomenológico e exercício de criação também foi deambulação pode constituir a etapa inicial de um
um recurso estético explorado pelas vanguardas
método cartográfico. No entanto, essa etapa, de
artísticas do século XX. Destacamos o Dadaísmo e caráter qualitativo, abraça a errância, a deriva, a
o Surrealismo - que foram temas abordados nos atenção aos detalhes, a valorização do trajeto e a
textos de Benjamin -, como também o importância da presença corporal do próprio
Situacionismo, algumas décadas mais tarde (Careri,
cartógrafo no território a ser mapeado. “O ponto de
2002). Questionando o estatuto da arte como partida da cartografia, portanto, é o deslocamento,
representação, essas vanguardas adotaram a prática requerendo invenção e experimentação” (Rosário
do movimento corporal, a fim de desvendar áreas et al., 2021, p. 72). Assim, esse procedimento
da cidade que fogem ao planejamento determinado,
estimula o deslocamento do pesquisador pelo
explorando zonas intersticiais ou, como diria interior dos percursos labirínticos em torno do seu
Benjamin, espaços limiares. Em comum, essas próprio objeto de pesquisa e o conduz à próxima
vanguardas partilham a ideia da errância, que etapa, que envolve a observação arqueológica e a
também pressupõe adotar o desvio como um
coleta desses registros.
procedimento heurístico necessário para o
aprendizado. A exploração de caminhos 5 Arqueologia: anacronismos e
imprevistos, com a mente aberta ao erro, é uma sobrevivências dos rastros
forma de conhecimento que abraça o medo da
incompletude da razão (Gagnebin, 1997). Segundo A crítica que Benjamin elaborou sobre a visão
Benjamin: linear da história ao longo de sua trajetória
intelectual apresenta afinidades com a metáfora da

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arqueologia (Santaella e Ribeiro, 2017), entendida temporais capazes de conduzir o pesquisador a um


como um procedimento de escavação em busca de aprofundamento histórico relevante para suas
fragmentos soterrados pelo tempo. Esses análises. Dessa maneira, a etapa arqueológica
fragmentos materiais, que se apresentam em forma busca reconhecer a natureza anacrônica desses
de ruínas e rastros, aparentemente desprezíveis, rastros e nos convida a olhar para o passado de
teriam o potencial de ressignificar narrativas já uma outra maneira.
consolidadas, ao introduzir novas peças no quebra- Além de ser um exercício que estimula o
cabeça da história. Segundo Benjamin, “quem choque entre o presente e o passado, a arqueologia
procura aproximar-se do seu próprio passado também apresenta um caráter político, na medida
soterrado tem que se comportar como um homem em que perturba a estabilidade e a visão
que escava” (2015b, p. 101). hegemônica sobre a maneira como uma certa visão
Benjamin foi um colecionador de rastros, um do passado se impõe em nossos discursos. Afinal,
pesquisador que captou o potencial anacrônico as narrativas que prevalecem são aquelas que
contido nos resquícios materiais de uma permanecem sendo contadas pelos dominantes, os
determinada manifestação cultural. Os rastros, que “herdeiros de todos os que venceram antes”
costumam ser tratados como ruídos ou como (Benjamin, 2012, p. 244). Nesse ponto, Benjamin
elementos de descarte pelos procedimentos lembra que os valores culturais que herdamos
científicos tradicionais, são índices que apresentam carregam marcas de dominação e poder, fruto da
um valor significativo para Benjamin. Essa exploração do trabalho de servidores anônimos,
característica pode ser identificada em seu próprio pois “nunca houve um documento da cultura que
método de trabalho, que se manifesta, não fosse simultaneamente um documento da
principalmente, na organização do livro das barbárie” (Benjamin, 2012, p. 245).
Passagens: uma coleção de fragmentos de textos, Contudo, os rastros de uma cultura soterrada
citações e imagens de pensamento. Em um desses nunca desaparecem por completo (Santaella e
fragmentos, Benjamin descreve esse gesto de Ribeiro, 2017). Assim, a abordagem arqueológica
escavação arqueológica: “Não surrupiarei coisas pode trazer à tona outras narrativas, marginalizadas
valiosas, nem me apropriarei de formulações e invisibilizadas pela marcha do progresso. A
espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não proposta benjaminiana de escovar a história a
quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da contrapelo é um convite para empreendermos o
única maneira possível: utilizando-os. (Benjamin, caminho inverso, contra o fluxo linear do tempo, a
2009, p. 502, fragmento [N 1a, 8])”. fim de revelar o que se esconde por baixo das
Ao “fazer justiça” aos farrapos e resíduos, camadas superficiais da cultura.
Benjamin reconhece que há neles um significado A escavação arqueológica numa pesquisa em
latente, capaz de iluminar o presente a partir de comunicação diz respeito ao procedimento de
uma ressignificação do passado. Portanto, os coleta dos dados, índices e materiais que irão
rastros portam uma espécie de sobrevivência (Didi- alimentar as reflexões críticas acerca do objeto de
Huberman, 2011), uma capacidade sutil de carregar pesquisa. Contudo, essa etapa arqueológica requer
traços do passado, ainda que sua manifestação que o pesquisador recupere os fios narrativos
original tenha se perdido nos escombros do tempo. associados a esses registros, capazes de revelar
Nesse sentido, a sobrevivência é um “ponto nesse pistas sobre questões que podem estar ocultas sob
encontro dos tempos”, uma “colisão de um as camadas mais visíveis do presente. A
presente ativo com seu passado reminiscente” arqueologia é também a etapa na qual o
(Didi-Huberman, 2011, p. 62). Mesmo que frágeis, pesquisador é estimulado a colocar à prova seu
esses fragmentos podem representar operadores senso de análise crítica sobre o objeto pesquisado,

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desconfiando das narrativas que tragam respostas estimuladas pelo encontro do “ocorrido” com o
imediatas e superficiais para suas questões. Esse “agora”, ou a própria tensão entre presente e
procedimento, por sua vez, é complementado na passado.
etapa seguinte, onde o pesquisador reúne seus Nesse sentido, as imagens dialéticas
achados e elabora um mapa da sua pesquisa. compartilham fortes analogias com os
procedimentos de montagem, uma técnica que foi
explorada em profundidade pelo cinema. Na
6 Montagem: o choque de ideias na criação montagem, “juntam-se duas imagens para sugerir
dos mapas uma nova relação não presente nos elementos
isolados, e assim, através dos processos de
A montagem é um procedimento que também associação, chega-se à ideia abstrata e ‘invisível’”
foi explorado por Benjamin em suas publicações. (Machado, 2001, p. 29-30). Assim, a montagem
Podemos identificar referências à montagem nos não deve ser compreendida somente como uma
seus textos sobre as memórias de infância em simples organização de peças: é um método
Berlim, nos fragmentos do livro Rua de Mão heurístico que, por meio do choque e do contraste
Única, nas análises sobre as vanguardas artísticas de seus elementos, promove a descoberta de novas
(sobretudo nas colagens do Dadaísmo), na propriedades que permaneceriam ocultas se
investigação sobre as técnicas cinematográficas, no tomássemos tais elementos isoladamente (Ribeiro,
teatro épico de Brecht, mas, principalmente, na 2021, p. 286).
construção do livro das Passagens. Em outro Por ser um procedimento que evoca analogias
fragmento, no qual Benjamin descreve seu próprio espaciais e visuais, a montagem pode ser
trabalho, a montagem aparece, de maneira considerada uma etapa na qual o pesquisador se
explícita, como um método organizador visual de engaja na prototipação de ideias, criando mapas.
ideias: “Método deste trabalho: montagem literária. Como apontamos anteriormente, o mapa pode ser
Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar” entendido como um tipo de diagrama que, do ponto
(Benjamin, 2009, p. 502, fragmento [N 1a, 8]). de vista semiótico, é um signo que estimula o
Um conceito central para se compreender a raciocínio por meio da articulação visual de
montagem em Benjamin é a chamada imagem relações lógicas entre suas partes (Stjernfelt, 2013).
dialética, definida como “uma imagem que lampeja Em um mapa tradicional, por exemplo, o leitor
no agora da cognoscibilidade” (Benjamin, 2009, p. pode identificar correspondências entre locais,
515, fragmento [N 9, 7]). Em outro trecho, distâncias, relevos, profundidades ou intensidades,
Benjamin diz que “a imagem é aquilo em que o reconhecendo os recursos gráficos empregados
ocorrido encontra o agora num lampejo, formando pelos cartógrafos, como linhas, pontos, cores e
uma constelação. Em outras palavras: a imagem é a texturas. Ou seja, para se criar mapas, o
dialética na imobilidade” (Benjamin, 2009, p. 505, pesquisador-cartógrafo evidencia ligações
fragmento [N 3, 1]). Para Benjamin, a imagem estruturais entre os dados coletados e as
dialética pressupõe um choque de polaridades, um representações visuais por meio de procedimentos
contraste de elementos que produz uma espécie de diagramáticos.
faísca iluminadora. Benjamin também evoca a Contudo, um mapa de inspiração benjaminiana
ideia de constelação, uma analogia que remete à deveria explorar, justamente, o contraste de
junção diagramática de astros que se articulam em polaridades, a fim de revelar significados que não
certos arranjos espaciais, semelhantes a mapas. se encontram aparentes na superficialidade dos
Além disso, as imagens dialéticas de Benjamin fenômenos. Esse choque pela montagem é,
também lidam com temporalidades distintas, sobretudo, um mecanismo de fricção temporal, que

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lampeja em constelações de imagens. Portanto, na descompromissado pela metrópole – descrevendo o


etapa da montagem, o pesquisador mapeia forças, que vê, mas principalmente se fascinando, se
equaciona relações de poder e contrasta ideias, a deixando tocar e sendo levado a caminhos não
fim de iluminar algumas respostas para suas planejados” (Rosário et al., 2021, p. 73). Já a
questões de pesquisa. Trata-se de um procedimento perspectiva arqueológica de Benjamin remete à
que também é adotado pela Cartografia de etapa da busca por rastros, índices e fragmentos.
Controvérsias (Venturini, Munk, 2022), por meio Como um colecionador, a proposta de Benjamin
do qual os pesquisadores são estimulados a criar nos estimula a explorar as possibilidades latentes
visualizações diagramáticas que possam desses fragmentos, que, por sua vez, abrem
materializar as tensões em torno da controvérsia múltiplos fios narrativos para leituras que
escolhida, bem como identificar os trajetos percorrem os subterrâneos da cultura, fugindo de
percorridos pelos rastros na rede. uma visão linear da história. Neste ponto, “o
pesquisador-cartógrafo parte para se perder nos
7 O método cartográfico benjaminiano na fragmentos, já que colecionar é sua tarefa”
comunicação (Rosário et al., 2021, p. 72). Por fim, o choque de
contrastes pela montagem é um convite para que o
De uma maneira geral, a adoção de uma pesquisador crie mapas e articulações
perspectiva cartográfica considera que o trabalho diagramáticas de seus achados, colocando em
de um cartógrafo é análogo ao trabalho de um conflito anacronismos e diferenças, em busca de
pesquisador da comunicação, pois ambos precisam novas iluminações para o problema. “Benjamin
observar o território da pesquisa, explorar seus privilegia idas e vindas, afastar, contemplar, e ver
múltiplos caminhos, notar suas diferenças, as conexões intertextuais. Ao formar as
especificidades, padrões e dissonâncias e elaborar constelações, o observador de estrelas percebe
uma descrição sobre o ambiente (Rosário, Coca; quais elementos se destacam e que ligações
2018, p. 38). Há uma analogia entre a cidade e o poderiam ser estabelecidas entre eles” (Rosário et
objeto de pesquisa, que se apresentam como al., 2021, p. 73).
lugares a serem explorados em seus cruzamentos A cartografia seria capaz de operar um
labirínticos, suas múltiplas entradas e passagens. deslocamento que privilegia uma constante
Outras características também são apontadas por reflexão crítica sobre o método aplicado. Por se
Rosário, Coruja e Segabinazzi (2021, p. 72) como tratar de uma abordagem que se constrói na medida
requisitos para esse método cartográfico, tais como em que o pesquisador vive a experiência da
o “cultivo à atenção concentrada e aberta”, a pesquisa, o caminho de investigação é marcado por
complementaridade entre a coleta dos dados e a desvios e incertezas, cujas arestas contribuem para
“organização cognitiva”, o reconhecimento da não- o aperfeiçoamento do próprio método ao longo do
linearidade da pesquisa, o “olhar constelar do processo. Ao comentar sobre essa característica,
pesquisador” e a montagem do mapa como um Benjamin (2009, p. 517) afirma que seu método
arranjo provisório de possibilidades. “[...] se distingue pelo fato de, ao encontrar novos
Argumentamos que essas características estão objetos, desenvolver novos métodos - exatamente
em conformidade com um método cartográfico de como a forma na arte que, ao conduzir a novos
inspiração benjaminiana. Começamos pela conteúdos, desenvolve novas formas”. Ou seja, o
perspectiva do deambulação e da exploração método cartográfico é dotado de um caráter
fenomenológica, materializada na figura do heurístico, uma maneira de aprender a solucionar o
flâneur, que se apresenta como “um dos princípios problema a partir da observação empírica dos
do pesquisador-cartógrafo”, “[...] que vagueia meio resultados com o avanço da pesquisa. “Mais

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potente do que saber de antemão onde pode chegar crítica latino-americana está diretamente
nossa problematização - por meio da proposta relacionada à postura dissidente de Benjamin,
tradicional do método de predefinir o caminho - é destacando algumas características notáveis de seu
deixar-se guiar pelo que o desenrolar da pesquisa pensamento, como a dissolução do centro como
sugerir, passo-a-passo” (Rosário et al., 2021, p. método, o interesse pelas margens e as
71). Na prática, essa perspectiva metodológica transformações dos modos de percepção na
inverte a ordem habitual dos procedimentos: o experiência social (Martín-Barbero, 2015, p. 80).
método somente se completa e se revela ao final da Ainda segundo Martín-Barbero (2017, p. 87), o
pesquisa (Rosário, 2022, p. 44). deslocamento político e metodológico
Uma possível crítica direcionada à aplicação empreendido por Benjamin ao estudar a cidade
desse método benjaminiano na comunicação diz moderna desbloqueou “a descoberta dessa
respeito às particularidades do contexto experiência outra que a partir do oprimido
contemporâneo, dada a emergência de novas configura alguns modos de resistência e percepção
questões que não eram problematizadas na época do sentido mesmo de suas lutas”.
de Benjamin. A figura do flâneur, por exemplo, Além da necessidade de situar o método
refere-se a um personagem masculino, branco e cartográfico no contexto latino-americano, as
burguês, que habita um certo modelo de cidade pesquisas contemporâneas em comunicação
europeia da segunda metade do século XIX. É fato também se encontram diante do desafio de
que as grandes metrópoles tornaram-se muito mais trabalhar com relações espaciais que se configuram
densas e complexas, alcançando uma escala que em ambientes constituídos de redes digitais,
ultrapassa os limites vislumbrados pelo caminhante plataformas e processos de datificação (Van Dijck
urbano daquele cenário. Além disso, as pesquisas et al., 2018). Nesse cenário caracterizado por
em comunicação no Brasil são atravessadas por operações algorítimicas e atores não-humanos,
questionamentos sobre as heranças coloniais que destacamos as contribuições da teoria Ator-Rede e
estavam distantes do horizonte de Benjamin. da Cartografia de Controvérsias. Em linhas gerais,
Embora Benjamin tenha se posicionado essa proposta procura identificar os atores
abertamente como um crítico à modernidade, a envolvidos em uma determinada controvérsia, para
perspectiva decolonial (Ballestrin, 2013) aponta que seus rastros sejam recuperados e traçados, de
para a urgência de outros modelos conceituais para maneira diagramática, a fim de que sejam
nossas pesquisas. mapeadas as relações de força por trás da questão
Essa crítica sugere que o método cartográfico investigada. Uma de suas premissas considera que
de inspiração benjaminiana pode buscar os atores (ou actantes) podem assumir composições
articulações com perspectivas locais, tais como a híbridas, tendo em vista sua natureza humana ou
proposta de Martín-Barbero (2004). Segundo não-humana. Assim, cabe ao cartógrafo observar
Lopes (2018, p. 42) a obra de Martín-Barbero se como esses atores híbridos agem, recuperando e
apresenta como uma cartografia do conhecimento seguindo seus rastros na rede (Bruno, 2012).
das práticas comunicacionais e culturais latino- Como mencionamos anteriormente, a ênfase na
americanas, reivindicando “a importância do papel recuperação dos rastros e vestígios para alimentar o
das periferias num novo mapa global, onde os mapeamento de controvérsias apresenta sintonias
novos cartógrafos se utilizam do discurso da com as etapas de arqueologia e montagem. Por
diversidade e da resistência”. Embora as obras outro lado, essas etapas precisam se adaptar a
desses dois autores tratem de contextos geográficos novas situações, como a coleta massiva de dados, o
distintos, suas abordagens metodológicas não estão processamento computacional ou mesmo a criação
distantes. Martín-Barbero argumenta que a reflexão de mapas por meio de ferramentas automatizadas

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de visualização. Um desafio mais significativo, no BENJAMIN, Walter. 2015a. Baudelaire e a


modernidade. Trad. João Barrento. Belo Horizonte:
entanto, seria imaginar uma deambulação realizada Autêntica editora.
por uma espécie de flâneur digital. As
deambulações urbanas no contexto das mídias BENJAMIN, Walter. 2015b. Imagens de pensamento.
Sobre o haxixe e outras drogas. Trad. João Barrento.
locativas já foram identificadas por André Lemos Belo Horizonte: Autêntica editora.
(2008). Outra pista para desenvolver essa questão
seria buscar aproximações com os procedimentos BOLLE, Willi. 2000. Fisiognomia da metrópole
moderna: representação da história em Walter
de netnografia (Santos e Gomes, 2013). Benjamin. [Link]. São Paulo: Editora da Universidade de
Assim, a perspectiva cartográfica benjaminiana São Paulo.
apresenta-se como um convite para a exploração
BROTTON, Jerry. 2014. Uma história do mundo em
fenomenológica do ambiente e o mapeamento de doze mapas. Rio de Janeiro: Zahar.
relações de poder a partir dos rastros e vestígios,
BRUNO, Fernanda. 2012. Rastros digitais sob a
sem, no entanto, perder de vista a leitura crítica das perspectiva da teoria ator-rede. Revista FAMECOS:
condições históricas nas quais se inserem nossas mídia, cultura e tecnologia, 19(3):681-704.
pesquisas. A maneira como Benjamin questionou a
CAQUARD, Sébastien; CARTWRIGHT, William.
historicidade dos fenômenos culturais permanece 2014. Narrative cartography: From mapping stories to
como um ponto de vista válido e instigante no the narrative of maps and mapping. The Cartographic
contexto contemporâneo (Presner, 2019), criando Journal, London, 51(2):101-106. DOI: 10.117
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pontes com questões que marcam as atuais
pesquisas da comunicação. Sua contundente crítica CARERI, Francesco. 2002. Walkscapes: Walking as an
aesthetic practice. Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
aos modelos lineares de concepção da história SA.
continuam a estimular atitudes e gestos que, como
vimos, “perturbam as ‘grandes linhas’ da pesquisa” DELEUZE, G.; GUATTARI, F. 1995. Mil platôs:
capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34.
(Benjamin, 2009, p. 499). Tal postura parece ser
indispensável para desvelar a lógica que se DIDI-HUBERMAN, Georges. 2011. Sobrevivência dos
apresenta nos discursos de modernização e vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG.
progresso que, por sua vez, encobrem os FERRARA, Lucrécia. 2015. Comunicação mediação
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Artigo submetido em 08/05/2023
Aceito em 04/10/2023

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