Método Cartográfico em Pesquisa de Comunicação
Método Cartográfico em Pesquisa de Comunicação
Resumo
Daniel Melo Ribeiro O objetivo deste estudo é apresentar uma proposta de método
danielmeloribeiro@[Link] cartográfico de pesquisas em comunicação inspirada em
Orcid: [Link] conceitos desenvolvidos por Walter Benjamin. Partimos da
0840-2587. seguinte pergunta: quais fundamentos conceituais orientam
essa abordagem e como a cartografia, entendida em seu viés
Professor adjunto do departamento de
metodológico, poderia ser aplicada em uma pesquisa no campo
Comunicação Social da UFMG. da comunicação? Na primeira parte do estudo, apontamos a
Doutor em Comunicação e Semiótica relevância do método cartográfico para a área. Em seguida,
pela PUC-SP. É membro do grupo de apresentamos os conceitos que fundamentam o pensamento
pesquisa CIEP/PUC-SP (Centro cartográfico de Benjamin e sugerimos um procedimento
Internacional de Estudos Peirceanos), baseado em três etapas: a deambulação, a arqueologia e a
co-lider do grupo MediaAção/UFMG montagem. Por fim, levantamos pontos de convergência e
(Grupo de pesquisas em Mídia, divergência na aplicação desse método, tendo em vista
Semiótica e Pragmatismo). É questões que afetam os estudos contemporâneos em
integrante da Rede SIMM: Rede de comunicação.
Pesquisa em Semiótica, Interações e Palavras-chave: cartografia, Walter Benjamin, comunicação.
Materialidades Midiáticas.
Abstract
The objective of this study is to present a proposal for a
cartographic method of communication research inspired by
concepts developed by Walter Benjamin. We start with the
following question: what conceptual foundations guide this
approach and how could cartography, understood in its
methodological sense, be applied in research in the field of
communication? In the first part of the study, we point out the
relevance of the cartographic method for the area. Next, we
present the concepts that underlie Benjamin's cartographic
thinking and suggest a methodology based on three stages:
deambulation, archeology and montage. Finally, we highligh
points of convergence and divergence about the application of
this method, taking into account issues that affect
contemporary studies in communication.
Keywords: cartography, Walter Benjamin, communication.
Neste estudo, apresentamos uma proposta Instituto de Pesquisa Social, dirigido por Adorno e
cartográfica inspirada na obra de Walter Benjamin, Horkheimer.
que também é um dos autores de referência Uma característica marcante de sua obra é a
apontados por Rosário, Coruja e Segabinazzi visão crítica da modernidade, principalmente em
(2021) em seu levantamento bibliográfico. Esse relação à noção burguesa de progresso. Benjamin
esforço é justificado como uma tentativa de foi um árduo contestador da linearidade da história,
colaborar com o amadurecimento das abordagens uma perspectiva que trata o presente como um
cartográficas na comunicação, que, por ser um acúmulo progressivo de acontecimentos passados.
movimento ainda incipiente, requer “debate, Suas críticas mais contundentes a essa noção
experimentação e discussão pelos pares” (Rosário, aparecem em suas teses “Sobre o conceito de
2022, p. 47). Nesse sentido, vamos sintetizar história” (Benjamin, 2012), textos que foram
alguns elementos que caracterizam o pensamento publicados após o trágico falecimento de Benjamin
cartográfico de Walter Benjamin, apresentando na fronteira da França com a Espanha, fugindo da
uma proposta metodológica baseada em sua obra. perseguição nazista, em 1940. As promessas
Dessa maneira, pretendemos sugerir um apontadas pela modernidade de que o
procedimento que possa inspirar futuras pesquisas conhecimento e a razão poderiam conduzir à
na comunicação. sociedade europeia ao progresso se encontravam
diante de graves contradições evidenciadas pelas
3 O pensamento cartográfico de Walter guerras e pelo crescimento do fascismo. Ou seja,
Benjamin por trás da marcha inabalável do progresso,
ocultam-se as ruínas de narrativas que não se
Walter Benjamin (1892-1940) foi um pensador concretizaram, soterradas pela imposição dos
alemão de origem judaica que se interessou por discursos dos vencedores. Nesse sentido, Benjamin
uma variedade de temas ao longo de sua trajetória se interessa pelos vestígios e fragmentos do
intelectual, tais como a literatura, as tradições passado ocultos pelo tempo, na medida em que são
religiosas, as memórias de infância, as artes potencialmente reveladores de outras narrativas.
plásticas e a urbanização. Na área de comunicação, Benjamin detectou esse movimento de declínio
Benjamin é lembrado por suas valiosas da modernidade ao pesquisar as grandes cidades
considerações sobre a emergência dos mecanismos européias do início do século XX, sobretudo Paris.
de reprodução técnica das imagens no contexto da No contexto de uma intensa urbanização, marcada
popularização do cinema e da fotografia pelo redesenho de ruas e avenidas, pelo
(Benjamin, 2012). Devido à sua proximidade com adensamento da rede de transportes, pela crescente
Adorno, Benjamin é frequentemente associado à industrialização, pela massificação da imprensa, do
chamada Escola de Frankfurt, ainda que sua visão rádio e do cinema, Benjamin se interessou pelas
sobre os meios de comunicação de massa seja contradições entre civilização e barbárie (Bolle,
divergente de seus colegas quanto às suas 2000), detectadas nos vestígios, rastros e
potencialidades políticas e estéticas. Sua tentativa escombros deixados pelo avanço do progresso.
frustrada de se habilitar na carreira de professor Duas obras são emblemáticas desse esforço: o
universitário o conduziu a uma trilha profissional livro Rua de Mão Única (Benjamin, 2013), uma
errática e um tanto marginal, em busca de apoio coletânea de aforismos e fragmentos de textos,
financeiro para seus estudos. Assim, para se reunidos de maneira descontínua em uma espécie
sustentar, Benjamin atuou como crítico literário, de colagem ou montagem de cenas do cotidiano
tradutor e jornalista, paralelamente à sua atividade urbano. No livro, a sucessão dos fragmentos simula
como pesquisador, que foi em parte financiada pelo pensamentos do autor a partir do seu gesto de
O flâneur é um personagem típico da burguesia O que são desvios para os outros, são para mim os
dados que determinam a minha rota. – Construo meus
europeia, o caminhante que se desloca pelas ruas cálculos sobre os diferenciais de tempo – que, para
da cidade, observando as vitrines, as pessoas e o outros, perturbam as ‘grandes linhas’ da pesquisa.
movimento das ruas. Benjamin atentou-se para esse (Benjamin, 2009, p. 499, fragmento [N 1,2]).
personagem no contexto de elaboração de seus A deriva urbana, por sua vez, foi adotada pelo
estudos sobre as passagens parisienses, inspirado, movimento situacionista como um método que
principalmente, pelas obras de Baudelaire, Edgar permite a criação de mapas através da caminhada
Allan Poe e de Franz Hessel. Trata-se de uma
pelos ambientes urbanos, observando as variações
figura ligada à emergência do capitalismo urbano, na percepção da cidade e nos sentimentos afetivos
estimulada pelo fascínio das mercadorias e pelo do pedestre (Careri, 2002). A deriva procura flagrar
consumo. Ao mesmo tempo, o flâneur também é as manifestações imprevistas, singulares e
um personagem anacrônico, pois seu gesto
informais (Ferrara, 2015). Nesse sentido, o
contemplativo e despretensioso contradiz as noções movimento incorporou outro componente relevante
de eficiência, pressa e objetividade. Seu passo para a deambulação, que é a relação afetiva com a
segue em um ritmo lento, “contra o dinamismo cidade, permitindo mapear pontos de interesse que
excessivo” (Benjamin, 2015a, p. 56), uma vez que
extrapolam as articulações esperadas ou uma
seu olhar está voltado para os detalhes. Esse cartografia de espaços estáveis. Nesse sentido, a
anacronismo também diz respeito ao interesse do deriva ressalta a habilidade de percepção sensível
flâneur pelos signos que apontam para um tempo do pesquisador, que, ao se colocar em movimento e
anterior, “um trabalho do olhar e da rememoração em contato físico com a alteridade do mundo
sobre a superfície do mundo” (Barrento, 2013, p. exterior, precisa estar aberto a notar as qualidades
99). dos fenômenos observados, sem julgamentos.
A deambulação urbana como princípio Esse breve panorama nos indica que a
fenomenológico e exercício de criação também foi deambulação pode constituir a etapa inicial de um
um recurso estético explorado pelas vanguardas
método cartográfico. No entanto, essa etapa, de
artísticas do século XX. Destacamos o Dadaísmo e caráter qualitativo, abraça a errância, a deriva, a
o Surrealismo - que foram temas abordados nos atenção aos detalhes, a valorização do trajeto e a
textos de Benjamin -, como também o importância da presença corporal do próprio
Situacionismo, algumas décadas mais tarde (Careri,
cartógrafo no território a ser mapeado. “O ponto de
2002). Questionando o estatuto da arte como partida da cartografia, portanto, é o deslocamento,
representação, essas vanguardas adotaram a prática requerendo invenção e experimentação” (Rosário
do movimento corporal, a fim de desvendar áreas et al., 2021, p. 72). Assim, esse procedimento
da cidade que fogem ao planejamento determinado,
estimula o deslocamento do pesquisador pelo
explorando zonas intersticiais ou, como diria interior dos percursos labirínticos em torno do seu
Benjamin, espaços limiares. Em comum, essas próprio objeto de pesquisa e o conduz à próxima
vanguardas partilham a ideia da errância, que etapa, que envolve a observação arqueológica e a
também pressupõe adotar o desvio como um
coleta desses registros.
procedimento heurístico necessário para o
aprendizado. A exploração de caminhos 5 Arqueologia: anacronismos e
imprevistos, com a mente aberta ao erro, é uma sobrevivências dos rastros
forma de conhecimento que abraça o medo da
incompletude da razão (Gagnebin, 1997). Segundo A crítica que Benjamin elaborou sobre a visão
Benjamin: linear da história ao longo de sua trajetória
intelectual apresenta afinidades com a metáfora da
desconfiando das narrativas que tragam respostas estimuladas pelo encontro do “ocorrido” com o
imediatas e superficiais para suas questões. Esse “agora”, ou a própria tensão entre presente e
procedimento, por sua vez, é complementado na passado.
etapa seguinte, onde o pesquisador reúne seus Nesse sentido, as imagens dialéticas
achados e elabora um mapa da sua pesquisa. compartilham fortes analogias com os
procedimentos de montagem, uma técnica que foi
explorada em profundidade pelo cinema. Na
6 Montagem: o choque de ideias na criação montagem, “juntam-se duas imagens para sugerir
dos mapas uma nova relação não presente nos elementos
isolados, e assim, através dos processos de
A montagem é um procedimento que também associação, chega-se à ideia abstrata e ‘invisível’”
foi explorado por Benjamin em suas publicações. (Machado, 2001, p. 29-30). Assim, a montagem
Podemos identificar referências à montagem nos não deve ser compreendida somente como uma
seus textos sobre as memórias de infância em simples organização de peças: é um método
Berlim, nos fragmentos do livro Rua de Mão heurístico que, por meio do choque e do contraste
Única, nas análises sobre as vanguardas artísticas de seus elementos, promove a descoberta de novas
(sobretudo nas colagens do Dadaísmo), na propriedades que permaneceriam ocultas se
investigação sobre as técnicas cinematográficas, no tomássemos tais elementos isoladamente (Ribeiro,
teatro épico de Brecht, mas, principalmente, na 2021, p. 286).
construção do livro das Passagens. Em outro Por ser um procedimento que evoca analogias
fragmento, no qual Benjamin descreve seu próprio espaciais e visuais, a montagem pode ser
trabalho, a montagem aparece, de maneira considerada uma etapa na qual o pesquisador se
explícita, como um método organizador visual de engaja na prototipação de ideias, criando mapas.
ideias: “Método deste trabalho: montagem literária. Como apontamos anteriormente, o mapa pode ser
Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar” entendido como um tipo de diagrama que, do ponto
(Benjamin, 2009, p. 502, fragmento [N 1a, 8]). de vista semiótico, é um signo que estimula o
Um conceito central para se compreender a raciocínio por meio da articulação visual de
montagem em Benjamin é a chamada imagem relações lógicas entre suas partes (Stjernfelt, 2013).
dialética, definida como “uma imagem que lampeja Em um mapa tradicional, por exemplo, o leitor
no agora da cognoscibilidade” (Benjamin, 2009, p. pode identificar correspondências entre locais,
515, fragmento [N 9, 7]). Em outro trecho, distâncias, relevos, profundidades ou intensidades,
Benjamin diz que “a imagem é aquilo em que o reconhecendo os recursos gráficos empregados
ocorrido encontra o agora num lampejo, formando pelos cartógrafos, como linhas, pontos, cores e
uma constelação. Em outras palavras: a imagem é a texturas. Ou seja, para se criar mapas, o
dialética na imobilidade” (Benjamin, 2009, p. 505, pesquisador-cartógrafo evidencia ligações
fragmento [N 3, 1]). Para Benjamin, a imagem estruturais entre os dados coletados e as
dialética pressupõe um choque de polaridades, um representações visuais por meio de procedimentos
contraste de elementos que produz uma espécie de diagramáticos.
faísca iluminadora. Benjamin também evoca a Contudo, um mapa de inspiração benjaminiana
ideia de constelação, uma analogia que remete à deveria explorar, justamente, o contraste de
junção diagramática de astros que se articulam em polaridades, a fim de revelar significados que não
certos arranjos espaciais, semelhantes a mapas. se encontram aparentes na superficialidade dos
Além disso, as imagens dialéticas de Benjamin fenômenos. Esse choque pela montagem é,
também lidam com temporalidades distintas, sobretudo, um mecanismo de fricção temporal, que
potente do que saber de antemão onde pode chegar crítica latino-americana está diretamente
nossa problematização - por meio da proposta relacionada à postura dissidente de Benjamin,
tradicional do método de predefinir o caminho - é destacando algumas características notáveis de seu
deixar-se guiar pelo que o desenrolar da pesquisa pensamento, como a dissolução do centro como
sugerir, passo-a-passo” (Rosário et al., 2021, p. método, o interesse pelas margens e as
71). Na prática, essa perspectiva metodológica transformações dos modos de percepção na
inverte a ordem habitual dos procedimentos: o experiência social (Martín-Barbero, 2015, p. 80).
método somente se completa e se revela ao final da Ainda segundo Martín-Barbero (2017, p. 87), o
pesquisa (Rosário, 2022, p. 44). deslocamento político e metodológico
Uma possível crítica direcionada à aplicação empreendido por Benjamin ao estudar a cidade
desse método benjaminiano na comunicação diz moderna desbloqueou “a descoberta dessa
respeito às particularidades do contexto experiência outra que a partir do oprimido
contemporâneo, dada a emergência de novas configura alguns modos de resistência e percepção
questões que não eram problematizadas na época do sentido mesmo de suas lutas”.
de Benjamin. A figura do flâneur, por exemplo, Além da necessidade de situar o método
refere-se a um personagem masculino, branco e cartográfico no contexto latino-americano, as
burguês, que habita um certo modelo de cidade pesquisas contemporâneas em comunicação
europeia da segunda metade do século XIX. É fato também se encontram diante do desafio de
que as grandes metrópoles tornaram-se muito mais trabalhar com relações espaciais que se configuram
densas e complexas, alcançando uma escala que em ambientes constituídos de redes digitais,
ultrapassa os limites vislumbrados pelo caminhante plataformas e processos de datificação (Van Dijck
urbano daquele cenário. Além disso, as pesquisas et al., 2018). Nesse cenário caracterizado por
em comunicação no Brasil são atravessadas por operações algorítimicas e atores não-humanos,
questionamentos sobre as heranças coloniais que destacamos as contribuições da teoria Ator-Rede e
estavam distantes do horizonte de Benjamin. da Cartografia de Controvérsias. Em linhas gerais,
Embora Benjamin tenha se posicionado essa proposta procura identificar os atores
abertamente como um crítico à modernidade, a envolvidos em uma determinada controvérsia, para
perspectiva decolonial (Ballestrin, 2013) aponta que seus rastros sejam recuperados e traçados, de
para a urgência de outros modelos conceituais para maneira diagramática, a fim de que sejam
nossas pesquisas. mapeadas as relações de força por trás da questão
Essa crítica sugere que o método cartográfico investigada. Uma de suas premissas considera que
de inspiração benjaminiana pode buscar os atores (ou actantes) podem assumir composições
articulações com perspectivas locais, tais como a híbridas, tendo em vista sua natureza humana ou
proposta de Martín-Barbero (2004). Segundo não-humana. Assim, cabe ao cartógrafo observar
Lopes (2018, p. 42) a obra de Martín-Barbero se como esses atores híbridos agem, recuperando e
apresenta como uma cartografia do conhecimento seguindo seus rastros na rede (Bruno, 2012).
das práticas comunicacionais e culturais latino- Como mencionamos anteriormente, a ênfase na
americanas, reivindicando “a importância do papel recuperação dos rastros e vestígios para alimentar o
das periferias num novo mapa global, onde os mapeamento de controvérsias apresenta sintonias
novos cartógrafos se utilizam do discurso da com as etapas de arqueologia e montagem. Por
diversidade e da resistência”. Embora as obras outro lado, essas etapas precisam se adaptar a
desses dois autores tratem de contextos geográficos novas situações, como a coleta massiva de dados, o
distintos, suas abordagens metodológicas não estão processamento computacional ou mesmo a criação
distantes. Martín-Barbero argumenta que a reflexão de mapas por meio de ferramentas automatizadas
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