Introdução
O samba é um dos ritmos mais populares do Brasil, especialmente no
Rio de Janeiro. Porém, o conceito dessa cultura foi se modificando ao ganhar
mais visibilidade na mídia. Para entender o mundo do samba, é necessário
conhecer um pouco da história. Por trás disso, há uma construção de redes de
significados, conceitos e costumes.
A palavra “samba” no Brasil serve para designar muitas coisas
diferentes, mas principalmente duas: um tipo de festividade musical-
coreográfica classificada pelos brasileiros como folclórica e um gênero de
música moderna de consumo que no nosso País é dito popular.
Esse projeto de pesquisa tem como objetivo produzir uma grande
reportagem em vídeo apresentando as mudanças sofridas por este gênero
musical a partir dos anos 90, no Rio de Janeiro, com artistas que buscam
reaproximar o samba de suas tradições mais populares que, foram deixadas de
lado com o passar dos anos.
O primeiro capítulo é reservado para a história do samba. Nele, será
detalhado a origem do gênero musical e todo o processo de popularização.
Nesse contexto, o capítulo explica como o samba ganhou grande expressão e
importância para a cultura brasileira.
As mudanças sofridas pelo samba no século XXI são tratadas no
capítulo dois. Com o avanço tecnológico e a inserção de novos instrumentos no
estilo musical, o samba conquistou ainda mais espaço e ganhou diferentes
estilos, obtendo-se assim, novas vertentes.
Para esse trabalho de conclusão de curso foi preciso analisar o mercado
fonográfico do samba no Brasil. Nesse terceiro capítulo, é discutido o
surgimento do pagode e outras vertentes – no final do século XX -
influenciaram o mercado fonográfico.
No quarto e último capítulo é apresentado a parte teórica do trabalho,
como o perfil de uma grande reportagem televisiva. Esse espaço é destinado
para mostrar o formato escolhido para este projeto, no estilo de uma grande
reportagem.
Objetivos
Geral:
O projeto tem como objetivo produzir uma grande reportagem em vídeo que
trata das modificações que o samba sofreu nas últimas décadas por ganhar
grande espaço midiático, tornando-se cada vez mais popular.
Específicos:
- Compreender a história do samba no Brasil
- Analisar as modificações do seu desenvolvimento no Rio de Janeiro
- Identificar os principais personagens da nova geração de músicos e
compositores
- Compreender as especificações do samba carioca
- Entender qual a importância do avanço tecnológico para o ritmo
- Registrar as mais tradicionais rodas de samba do Rio de Janeiro
- Analisar as fases de popularização na grande mídia
- Estudar as influências musicais para os novos compositores
- Avaliar a visão dos antigos compositores sobre o samba da atualidade
- Entender as possíveis variações do samba para o século XXI
- Pesquisar o espaço e a influência do Rio de Janeiro no ritmo musical
Justificativa
A música popular brasileira sempre teve muita influência na sociedade,
definiu valores, costumes e identidade cultural no Brasil. O surgimento do rádio
no século XX foi o principal fator que contribuiu para a expansão da chamada
música urbana. Novos ritmos e gêneros surgiram e definiram os conceitos
musicais que foram incorporados na sociedade.
O primeiro samba gravado “Pelo Telefone” foi fundamental para a
definição da origem e do gênero. O samba é o produto da resistência da cultura
negra e resultado a integração da população negra nos meios urbanos.
O samba além de ritmo musical tem em sua história várias culturas
ligadas como a culinária, a dança, as festas, o vestuário e até as artes plásticas
como pintura, escultura e desenho.
Durante a década de 70 surgiu um novo estilo musical, um ritmo
repetitivo com instrumentos de percussão misturados a sons eletrônicos que
rapidamente tomou conta do rádio do gosto popular graças aos versos simples
e românticos. No final da década de 80 a indústria fonográfica já estava
bastante globalizada e batizou esse novo jeito de fazer samba de pagode,
termo que antes era utilizado pelos sambista para denominar festas em que se
tocava o chamado “samba de partido alto”.
Esse ritmo se tornou um fenômeno comercial, lançando muitos artistas e
grupos em todo o Brasil, e essa massificação no rádio e na televisão aumentou
a arrecadação de direitos autorais no país fazendo com que as músicas do
mercado estrangeiro ficasse em segundo lugar durante essa década
A partir dos anos 2000, apareceram muitos artistas que tentaram
reaproximar o samba do seu estilo mais tradicional, também conhecido como
“samba de raiz”, contribuindo para a revitalização do bairro da Lapa no Rio de
Janeiro que nos dias de hoje é um grande palco do samba apresentando
dezenas de artistas diariamente.
Em 2004 o então Ministro da cultura Gilberto Gil, propôs um pedido de
tombamento do samba como Patrimônio Cultural da Humanidade na categoria
bem imaterial, no ano seguinte o samba de roda baiano recebeu esse título na
categoria “expressões orais e imateriais”. Em 2007 o IPHAN também registrou
outras matrizes do samba carioca – samba de terreiro, partido alto esamba-
enredo. – no Livro de Registro das Formas de Expressão.
Partindo de depoimentos de sambistas e pessoas ligadas ao meio
musical, a reportagem explica como esse samba do inicio do século XX foi se
modificando ao longo das décadas e mostra artistas do século XXI que buscam
resgatar o chamado “samba de raiz”
Metodologia
Para a produção desta grande reportagem o primeiro passo foi a
captação de imagens e entrevistas feitas em rodas de sambas e com
sambistas na cidade do Rio de janeiro
Foram entrevistados sambistas da nova geração como João Martins,
Inácio Rios e o grupo Galocantô, também foram ouvidos músicos mais antigos
como Noca da Portela e Nelson Sargento, cantores e compositores que tiveram
a oportunidade de conviver e compor com grandes nomes do samba tais com
Cartola, Candeia, Monarco e vários outros.
Foram gravadas imagens de rodas de samba tradicionais do Rio de
Janeiro, na zona norte em Madureira, o pagode da Tia Doca muito conhecido
por ser freqüentado por grandes compositores e interpretes, que tem como
organizador Nem que também foi ouvido. E como falar em samba do século
XXI ao menos mostrar a Lapa, principal palco do samba atual onde foi filmada
uma roda de samba no botequim beco do rato, com o grupo DNA do Samba
formado pelos filhos e netos de sambistas renomados.
Outra fonte ouvida foi o produtor e compositor Rafael Massoto que
atualmente produz Noca da Portela, Rildo Hora e Janaina Reis, que pode
contar bastante sobre a história do samba, das transformações e comparar
músicos antigos com os da nova geração com quem ele teve e tem contato.
Esse memorial descritivo e a reportagem também tomam como base
livros como “Samba, do dono do corpo” de Muniz Sodré que fala sobre as
principais mudanças do gênero durante a década de 70 e “Partido-alto: Samba
de bamba” escrito por Nei Lopes, que fala sobre a história do samba e do seu
surgimento.
Capítulos
Capítulo I
História do Samba
O samba nasceu na Bahia no século XIX, com a mistura de ritmos
africanos, mas foi no Rio de Janeiro que ele se desenvolveu a partir de redutos
negros (os baianos do bairro da Saúde e da Praça Onze). Nos encontros
familiares, tocava-se e dançava-se o samba em seus diversos estilos, para o
divertimento dos presentes. Mas o que era uma cultura negra, se expandiu. De
acordo com o livro de Muniz Sodré, “Samba, o dono do corpo”, o gênero
também passou a fazer parte do cotidiano da sociedade global (branca). Não é
exagero falar de experiências, de táticas, com recuos e avanços, quando se
considera que, desde o final do século XIX, o samba já se infiltrava na
sociedade branca, sob os nomes de tango, polca, marcha, etc.
“Era natural, portanto, que as pessoas de cor no Rio de Janeiro reforçassem
as suas próprias formas de sociabilidade e os padrões culturais transmitidos
principalmente pelas instituições religiosas negras, que atravessaram
incólumes séculos de escravatura. As festas ou reuniões familiares, onde se
entrecruzavam bailes e temas religiosos, institucionalizavam formas novas de
sociabilidade no interior do grupo (diversões, namoros, casamentos) e ritos
de contato interétnico, já que também brancos eram admitidos nas casas.
Estas pertenciam majoritariamente a famílias baianas que, desde as últimas
décadas do século XIX, habitavam o Bairro da Saúde, espalhando-se mais
tarde pela zona chamada Cidade Nova, com ramificações no Mata-Cavalos
(Riachuelo) e Lapa.” (Samba, o dono do corpo / Muniz Sodré. – [Link] – Rio
de Janeiro: Mauad, 1998)
De acordo com a obra “O samba de Irajá e de outros subúrbios”, de Nei
Lopes, o samba , que é oriundo da África, ganhou forma brasileira no Rio de
Janeiro. Para ele, o samba é uma mistura social, política e econômica.
É comum de se ouvir dos próprios sambistas que os sambas de
antigamente são para sempre, são cantados até os dias de hoje. Mas, na
atualidade, o samba tornou-se um produto. Antigamente, o samba era uma
manifestação livre, mas, quando começou a ser enquadrado, passou a seguir
modelos e regras.
“Em conversas informais com um sambista da “velha-guarda”,
percebi claramente seu descontentamento com as escolas de samba,
com os novos tempos da canção popular e com o próprio samba,
ditado pelas regras mercadológicas. Na verdade, relembrando os
“tempos idos” e analisando os “novos rumos”, a voz daquele sambista
não era resultado de uma mera frustação individual, não era o
discurso de um derrotado ou alguém que fracassará diante de seus
próprios sonhos e anseios; era antes um lamento, não de um ser
individual, mas de uma voz que buscava de alguma forma fazer coro
com outras tantas perdidas neste universo da cultura popular
brasileira. Era uma voz singular, que, ao fazer aquele lamento,
representava, na verdade, uma coletividade.” (Samba do Irajá e de
outros subúrbios: um estudo da obra de Nei Lopes / Cosme Elias. Rio de
Janeiro: Pallas, 2005.)
De acordo com Nei Lopes, o samba é muito mais que um gênero
brasileiro com raízes africanas e negras. Quando um sambista antigo,
renomado pela sociedade lamenta os diversos caminhos que o samba está
levando, ele está na verdade discutindo a cultura popular, a identidade do povo
brasileiro.
Com a modernização do Rio de Janeiro, nos primórdios do século
passado, e o surgimento de novos meios de comunicação, o samba sofreu
inúmeras transformações. A consolidação do rádio e o aparecimento de
técnicas de gravação mais avançadas são um bom exemplo de como essas
mudanças "afetaram" este gênero musical, denominado por alguns
especialistas como o “samba moderno”.
“Através do disco e do rádio, o samba fez seu ingresso no sistema de
produção capitalista. O poder econômico e politico emergente de um
modelo escravagista multissecular, que reprimia culturalmente a
população negra, começava a criar papéis sociais (como o de músico
profissional) capazes de acomodar uma certa margem de competição
entre negros e brancos. Ao mesmo tempo, a música negra, que tinha
preservado as suas matrizes rítimicas através de um longo processo
de continuidade e resistência culturais, passou a ser considerada
fonte geradora de significações nacionalistas.” (Samba, o dono do corpo
/ Muniz Sodré. – [Link] – Rio de Janeiro: Mauad, 1998)
Ainda de acordo com a obra de Muniz Sodré, do ponto de vista político,
o fenômeno se ajustava às aspirações nacionalistas que percorriam o país
desde o final da I Grande Guerra. Do ângulo das vanguardas culturais
(modernismo), da classe dirigente, o negro constituía ao lado do índio, um
elemento de “autenticidade” local, algo a ser trabalhado artisticamente. Na
perspectiva ideológica urbana, a valorização da música negra recalcava a
interrogação crucial que a condição humana do negro fazia pairar sobre as
bases sócio-econômicas da vida brasileira.
A transformação é clara. Ele foi se modernizando, e deixando de ser
apenas uma parte da manifestação festiva em casas de mães de santo para
ganhar outros significados: num primeiro momento, o de música identificada
com o Rio de Janeiro e, logo após, um misto de música e dança relacionados
com Brasil. O samba tomava a frente pelo fato do Rio de Janeiro ter sido
pensado, na época, como uma espécie de 'Cartão Postal' do País".
“A comercialização do samba e a profissionalização do músico negro
se faziam, evidentemente, no interior de um modo de produção, cujos
imperativos ideológicos fazem do indivíduo um objeto privilegiado,
procurando abolir seus laços com o campo social como um todo
integrado.” (Samba, o dono do corpo / Muniz Sodré. – [Link] – Rio de Janeiro:
Mauad, 1998)
Por outro lado, vem se registrando um fenômeno animador, no que diz
respeito tanto ao samba diretamente quanto as suas “vizinhanças” simbólicas:
a retomada por jovens da classe média, claros e escuros, da música dita “de
raiz”. De uma parte, são compositores, cantores e grupos musicais, que fazem
sucesso com o samba, de outra, são músicas que revitalizam o choro.
Despontam instrumentistas excepcionais (bandolim, cavaquinho, violão de 7
cordas), dando continuidade e, às vezes, ultrapassando os velhos bambas. É
notável a qualidade de informação técnica e história sobre a musicalidade do
passado por parte de alguns dos representantes da nova geração musical.
Em alguns livros, é possível encontrar estudos da mudança e evolução do
samba, como o surgimento do pagode. É como mostra o livro “Partido-alto:
Samba de bamba”, de Nei Lopes. Na obra, o autor explica que o samba que
está hoje na grande mídia é o protótipo do produto industrializado. Então, ele
obedece a um formato que é ditado nas reuniões de marketing das gravadoras.
“Veja você, por exemplo, que “pagode” é um termo que está presente na
linguagem musical brasileira desde, pelo menos, o século XIX. Nos anos 80
tomou corpo, no Rio de Janeiro, uma forma moderna e inovadora de fazer
samba que ganhou o nome de “pagode”. Na década seguinte, a indústria do
lazer usurpou esse termo, batizando com ele uma forma absolutamente
diluída e pasteurizada que guarda poucos elementos do samba inovador dos
anos 80. Os fatores históricos, então, que propiciaram o surgimento e o
boom do que hoje se chama de “pagode” foram fatores puramente
mercadológicos: a indústria do disco resolveu vender um samba que não
fosse negro nem branco; que explorasse a sensualidade; que não fizesse
pensar; e aí injetou muitos milhões no marketing desse tipo de produto.
Então, pode haver lugar para poesia num troço desses? (Partido-alto: Samba
de bamba / Nei Lopes. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.)
De acordo com Nei Lopes, em 1986 foi o primeiro passo para diluir o samba.
Ele assegura que, naquela época, a indústria fonográfica já era orientada para
a globalização pop, batizando o pagode como uma forma diferente de se fazer
samba.
Capítulo II
A influência do mercado fonográfico no samba
De acordo com José Adriano Fenerick o rádio surgiu no Brasil nos anos
20, mas só começou a se popularizar a partir de 1930 chegando ao seu auge
nas décadas de 40 e 50 que acabaram ficando conhecidas como a “época do
rádio”. Um dos fatores que contribuíram para esse crescimento do rádio foi a
autorização para veiculação de anúncios aprovada por Getúlio Vargas por meio
de decreto em 1932 e o Brasil acabou adotando o modelo norte-americano de
radiodifusão. Com a expansão do rádio e da televisão os músicos ganharam
um novo papel em relação ao público, pois os grandes meios de comunicação
levaram para a população tanto a imagem quanto o som.
“Nesse período o Brasil passava a adotar o modelo de radiodifusão
norte-americano e passava a distribuir concessões de canais a
particulares, fato que ajudava a reforçar a exploração comercial do
veículo. As principais emissoras da época – como a Mayrink Veiga e a
Philips, no Rio de Janeiro, ou a Record e a Cruzeiro do Sul, em São
Paulo – introduzem o pagamento regular de cachês pelas apresentações
de artistas (músicos, cantores, humoristas e radiatores) nos seus
programas principais” (Nem do morro nem da cidade: as
transformações do samba e a indústria cultural 1920-1945./José Adriano
Fenerick – São Paulo: Annablume; Fapesp, 2005)
Ainda no livro “Nem do morro nem da cidade”, José Adriano Fenerick diz
que os meios de comunicação de massa em desenvolvimento buscavam as
grande novidades musicais do Rio de Janeiro, uma dessas novidades era o
samba do Estácio que se propagou com muita força na mídia e deu ao samba
um padrão único. O surgimento das escolas de samba reforçou ainda mais
este processo. Dessa forma o estilo antigo que era gravado o samba começa a
perder espaço no mercado fonográfico deixando vários compositores antigos
como Sinhô, Donga e João da Baiana em segundo plano e dando destaques a
novidades como “eu vou pra vila” e “com que roupa eu vou” de Noel Rosa.
“Sinhô talvez tenha sido um dos primeiros sambistas da velha geração a
reclamar e questionar o valor do novo samba. Em uma entrevista ao
Diário Carioca, em 1930, pouco antes de morrer, o Rei do Samba
questionava a rítmica do novo estilo – que para ele era muito parecida
com a marcha - , e os temas abordados por esse tipo de samba.” (Nem
do morro nem da cidade: as transformações do samba e a indústria
cultural 1920-1945./José Adriano Fenerick – São Paulo: Annablume;
Fapesp, 2005)
Segundo Nei Lopes durante a década de 70 surge um novo tipo de
samba, sem muito compromisso com a cultura e mais ligado ao entretenimento
que foi rotulado de pagode, este termo está na linguagem musical brasileira
desde o século XIX, mas nos anos 80 no Rio de Janeiro tomou outra forma,
denominando este o jeito moderno de fazer samba, com instrumentos de
percussão misturados a sons eletrônicos e letras românticas de versos simples.
“Esse pagode, cujo auge mercadológico verificou-se exatamente em
1986, teve como mola mestra estética a ampla exposição e
revalorização do partido-alto,modalidade de samba, até então, de
pouquíssima visibilidade. Então, as rodas de samba de “fundos de
quintal” revelaram u confirmaram o talento de muitos bons versadores,
cultores da velha arte, como a dupla que reunia o exitoso Zeca
Pagodinho e o menos afortunado Deni de Lima, sobrinho de Osório
Lima, Legendário compositor do Império Serrano, parceiro de Mano
Décio da Viola no clássico “Obssessão”.” (Partido-alto: Samba de
bamba / Nei Lopes. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.)
De acordo com o livro Partido-alto: Samba de bamba de Nei Lopes na
década de 90 com a expansão da internet e de produções fonográficas
independentes e com a invenção da Lapa carioca como grande cenário
musical, que ao contrário do muitos pensam, não teria sido nas décadas
anteriores, o Samba ganhou uma nova importância no mercado nacional. A
descoberta do “Samba de Raiz” fez com que os jovens das grandes cidades
brasileiras buscassem por meio da música a identidade cultural.
Conforme os jovens se politizavam eles eram levados a um consumo
mais seletivo, não buscando mais as facilidades e o imediatismo que a cultura
de massa vendia.
“A imposição do samba diluído, então, gerou reação, partida
principalmente de um segmento de público, em geral mais
politizado, ávido daquele samba que se convencionou como “de
raiz”, no qual a vertente do partido-alto encontrar lugar de
destaque.” (Partido-alto: Samba de bamba / Nei Lopes. Rio de
Janeiro: Pallas, 2005.)
A partir dos anos 2000, apareceram muitos artistas que tentaram
reaproximar o samba do seu estilo mais tradicional, também conhecido como
“samba de raiz”, contribuindo para a revitalização do bairro da Lapa. Em 2004 o
então Ministro da cultura Gilberto Gil, propôs um pedido de tombamento do
samba como Patrimônio Cultural da Humanidade na categoria bem imaterial,
no ano seguinte o samba de roda baiano recebeu esse título na categoria
“expressões orais e imateriais”. Em 2007 o IPHAN também registrou outras
matrizes do samba carioca, samba de terreiro, partido alto e samba-enredo no
Livro de Registro das Formas de Expressão.
Capítulo III - Mudanças no Século XXI
Este trabalho de pesquisa visa estudar as transformações do samba no
samba no Século XXI e captar elementos que contribuíram para a sua
modernização tanto estética quanto cultural que se deu pelos meios de
comunicação de massa no Brasil. O samba feito antigamente seguia
paradigmas diferentes do modelo traçado para este século, quando se tornou
um produto midiático, comercial.
“Em outras palavras, o samba é produto de nossa modernidade mestiça, para
utilizar essa expressão de Ulboa, emergente no contexto da urbanização
acelerada de nossas principais cidades, em especial o Rio de Janeiro, que
aflorava no momento como o cartão postal do Brasil. Guardadas as devidas
proporções de tempo e espaço, as mesmas forças que propiciaram o
surgimento do jazz ou das vanguardas europeias – a metrópole moderna, os
novos meios de transporte e comunicação, a vida agitada etc. -, foram
também as forças que propiciaram o aparecimento do moderno samba
brasileiro. Assim, o samba aqui abordado, é um gênero musical criado pela
modernidade brasileira, que no decorrer do processo se profanou, se
individualizou, se transformou em coisa para poder ser veiculado e vendido
pela moderna indústria de diversões.” (Nem do morro nem da cidade: as
transformações do samba e a indústria cultural (1920 -1945./ José Adriano
Fenerick. – São Paulo: Anablume; Fapesp, 2005.)
Surgido pela globalização pop como uma forma diferente e inovadora de
se fazer samba nos anos 80, o pagode ganhava força nos anos 90, sendo um
grande responsável pela modificação do gênero musical. Com a expansão da
internet e produções fonográficas independentes, o ritmo tomou conta das
prateleiras das grandes lojas de discos do Brasil. De acordo com Nei Lopes, na
obra “Partido alto: samba de bamba”, novas modalidades de samba surgirão
com o passar do tempo, mas a alma dos partideiros – sambistas que
improvisam refrão e versos na hora - ainda há de permanecer.
“Logo na década seguinte, entretanto, a indústria fonográfica, já amplamente
orientada para a globalização pop, usurpou o termo “pagode”, batizando ele
como uma forma diferente de se fazer samba que guardava poucos elementos
do samba inovador dos anos 80, massificando-a de forma enganosa.”
(Partido-alto: Samba de bamba / Nei Lopes. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.)
Em “Partido Alto: samba de bamba”, o escritor Nei Lopes avalia o samba feito
na atualidade. Para ele, o partido alto, por exemplo, é um samba tocado de
forma diferente aos antepassados como a improvisação dos versos.
“Concluímos também que o partido-alto com versos realmente improvisados
vem caindo em desuso, não só pela rarefação das rodas, como pela facilidade
de se repetir versos pré-elaborados, gravados e difundidos via discos, rádios,
televisão, espetáculos, etc.” (Partido-alto: Samba de bamba / Nei Lopes. Rio
de Janeiro: Pallas, 2005.)
A variedade dentro do samba é presente por conta das vivências,
influências e características. Em relação ao mercado, o próprio intérprete
conduz de outra maneira, a forma de se cantar ou até mesmo compor. De
acordo com a obra de Nei Lopes “O samba do Irajá e de outros subúrbios”,
desde 1917, ano marcante para o gênero, o samba sofreu diversas
transformações em sua estrutura musical. O autor acredita que, o partido-alto
em hipótese nenhuma pode ser reproduzido no estúdio, de uma forma
equivalente a forma cantada em um terreiro ou quadra de escola de samba.
Mas, em contrapartida, vivemos hoje em um mundo em que a tecnologia está
presente no cotidiano de cada um. Para o samba, não foi diferente. Com o
passar dos anos, o gênero musical foi se enquadrando aos padrões
convencionais do mercado fonográfico, gravadoras e indústrias de CD.
“Embora as gravações tentem levar esta atmosfera para os discos, o resultado
é apenas uma forma caricatural do ambiente no qual o sambista exerce a sua
criação. Quando a canção popular atinge o disco e, consequentemente, o
mercado, ela sofre, em sua estrutura, transformações que a adequarão às
novas formas tecnológicas. Mesmo que esta música não atinja, em grandes
proporções, os meios de comunicação de massa, as mudanças virão.” (Samba
do Irajá e de outros subúrbios: um estudo da obra de Nei Lopes / Cosme
Elias. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.)
Na obra “Almanaque do Samba”, de André Diniz, percebemos que a
indústria e o mercado fonográfico foram obrigados a diversificar o investimento
para obter lucro, o que fez não apenas com os estilos de consumo imediato,
mas a música brasileira em suas diferentes categorias permanece um bom
negócio.
“Em outras palavras, o samba alcançou o século XXI com intensa vitalidade
também porque é um bom entretenimento. Mais do que lamentar o fato de
supostamente a mídia não divulgar a música dita de qualidade, deve-se
questionar o porque de o público não optar majoritariamente por ela entre o
leque de opções culturais que lhe é apresentado. É como disse Paulinho da
Viola em “Coisas do mundo, minha nega”: “as coisas estão no mundo, só que
eu preciso aprender”. É aprender, conhecer e optar o que falta aos jovens
urbanos, que cedem cada vez mais aos apelos do consumismo, sem acesso a
bens fundamentais de cidadania como educação de qualidade, saúde e
emprego.” (Almanaque do Samba - A História do Samba, O que Ouvir, O
que Ler, Onde Curtir - André Diniz)
Capítulo IV
A grande reportagem na TV
Este Trabalho de Conclusão de Curso tem por finalidade apresentar uma
grande reportagem em vídeo com o tema “O Samba no Século XXI”. O trabalho
mostra as características do gênero jornalístico escolhido pelos alunos para
abordar as diretrizes e a realidade do samba nos dias de hoje.
A reportagem é a narração informativa dos antecedentes, seguida das
consequências previsíveis de um acontecimento. Sua forma de apresentação
está próxima do documentário cinematográfico, com o objetivo de apresentar a
realidade com perspectivas e depoimentos de pessoas envolvidas no trabalho.
Outras formas jornalísticas podem fazer parte da grande reportagem como a
entrevista, o entretenimento e o testemunho. Outra característica presente
neste trabalho é a quantidade de dados contidos a partir de depoimentos com
especialistas do gênero musical.
É evidente recorrer essencialmente à imagem no caso da reportagem
televisiva. Este trabalho tem por objetivo sensibilizar o público e responder
questões que envolvem as transformações do samba e como será o
desdobramento do gênero musical no século XXI. Dessa forma, especialistas
da música esclarecem e contextualizam as diretrizes do samba.
“Por isso, é a reportagem – onde se contam, se narram as peripécias da
atualidade – um gênero jornalístico privilegiado. Seja no jornal nosso de cada
dia, na imprensa não-cotidiana ou na televisão, ela se afirma como o lugar
por excelência da narração jornalística. E é mesmo, a justo título, uma
narrativa – com personagens, ação dramática e descrição do ambiente –
separada entretanto da literatura por seu compromisso com a objetividade
informativa” (SODRÉ, Muniz e FERRARI, Maria Helena. Técnica de
Reportagem: notas sobre a narrativa jornalística, São Paulo: Summus, 1986.)
Como toda grande reportagem, foi preciso escolher o ângulo. Isso
significa definir o ponto de vista para tratar do assunto, sendo abordado com
profundidade acadêmica. O trabalho retratou a realidade e manteve a
coerência com os acontecimentos que pautaram a produção e o
desenvolvimento.
“Através da complementação de fatos que situem ou interpretem
o fato nuclear, através da pesquisa história de antecedentes, ou
através da busca do humano permanente no acontecimento
imediato, a grande-reportagem é interpretação do fato
jornalístico” (Maus Pensamentos: os mistérios do mundo e a
reportagem jornalística / Dimas Antônio Kunsch. – São Paulo :
Annablume : FAPESP, 2000.)
Ainda nessa obra, é possível perceber que o formato escolhido deve
seguir três etapas: A primeira é a contextualização do tema abordado seguindo
da humanização. Humanizar significa mostrar ao telespectador que o assunto é
relevante para a sociedade. A terceira e última etapa é na pesquisa de campo,
com o auxílio de bibliografia, arquivo e opiniões especializadas por meio das
entrevistas.
No livro “A Prática da Reportagem”, o jornalista Ricardo Kotscho afirma
que a grande reportagem significa um alto investimento tanto em termos
humanos, para o repórter, quanto financeiro, para a Empresa. Esse gênero
jornalístico requer tempo, apuração detalhada e, portanto, dedicação extensa
do repórter para cumpri-la.
“É assim que nas redações, se fala das matérias mais extensas, que procuram
explorar um assunto em profundidade, cercando todos os seus ângulos. Elas
têm esse nome não só porque realmente são grandes, em número de linhas e
de página de jornal – cada uma delas daria um livro à parte” (KOTSCHO,
Ricardo. A prática da reportagem. 4. Ed. São Paulo: Ática, 2002.)
De acordo com o autor Ricardo Kotscho, o perfil caracteriza as
reportagens que contam histórias de vida como nesse trabalho que mostra
histórias e depoimentos de sambistas renomados do samba brasileiro, como
Nelson Sargento e Noca da Portela.
Para fazer esse estilo em uma grande reportagem, o interesse do
repórter é pela atitude do entrevistado diante de sua história e da sua própria
vida. Para isso, o trabalho mostra entrevistas e depoimentos de personagens
que enriquecem e esclarecem os questionamentos do tema abordado, com
informações complementares e suas histórias vividas dentro do samba.
Capítulo V
A indústria cultural
No início do século XX, um grande pensador da Escola de Frankfurt,
Theodor W. Adorno, publicou alguns dos seus textos para refletir sobre a
indústria cultural. De acordo com ele, a cultura chamou o interesse do sistema
capitalista no século [Link] aspecto que torna evidente a industrial cultural é o
lugar ocupado pelos meios tecnológicos de produção, da difusão de
informações audiovisuais.
“Desde os inícios do século XX, sistemas como o rádio, o toca-discos e o
cinematográfico; posteriormente a televisão e o vídeo; mais recentemente, os
recursos de processamento digital de som e imagem têm um papel enorme e
crescente em todos os âmbitos de nossas vidas, tendo se tornado verdadeiros
catalisadores de nossa afetividade e de nosso posicionamento diante do
mundo e das coisas em geral” (Teoria crítica da indústria cultural/Rodrigo
Duarte. – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. (Humanitas)
A citação acima reflete o capitalismo dos vários ramos da comunicação,
como a oferta de serviços e produtos ao público consumidor. Por conta de
todas as transformações tecnológicas, sociais e políticas, surgiu o termo
“indústria cultural”, como explica o autor.
“Tal denominação envoca a idéia intencionalmente polêmica, de que a
cultura deixou de ser uma decorrência espontânea da condição humana, na
qual se expressaram tradicionalmente, em termos estéticos, seus anseios e
projeções mais recônditos, para se tornar mais um campo de exploração
econômica, administrado de cima para baixo e voltado apenas para os
objetivos supramencionados de produzir lucros e de garantir adesão ao
sistema capitalista por parte do público” (Teoria crítica da indústria
cultural/Rodrigo Duarte. – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
(Humanitas)
No livro “Theodor Adorno e a crítica à indústria cultural: comunicação e
teoria crítica da sociedade” de Francisco Rudiger, entende-se que a indústria
cultural é uma expressão que reflete a mudança da vida moderna do século
XIX para o XX.
“O capitalismo passara então do estágio da livre iniciativa para o da
competição corporativa. Paulatinamente, o Estado tornara-se
intervencionista. A categoria reinante na sociedade, por sua vez, não era mais
só o mercado; associara-se a ele um poderoso e crescente sistema técnico-
administrativo. A estrutura de classe surgida com a ascensão da burguesia
estava abalada, em virtude das mudanças políticas e econômicas:
desencadeara-se por toda a parte um processo, ainda não concluído de
massificação. Finalmente, surgira também uma cultura popular industrial de
cujos esquemas, pouco a pouco, passou a depender a formação da
subjetividade da maioria da população”. (Theodor Adorno e a crítica à
indústria cultural: comunicação e teoria crítica da socidade / Francisco
Rudiger. – 3. ed. rev. e atual. – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004)
O autor explica que nesse capitalismo avançado, a economia e a cultura
perderam a autonomia, fazendo parte de um mesmo movimento. Os
pensamentos e os fatos sociais também perdiam força, a medida que a idéias
passaram a ser industrializadas.
“Em virtude disso, a crítica da economia política precisa ser suplementada
por uma crítica da indústria cultural. Somente assim poderemos entender
devidamente a sociedade contemporânea” (Theodor Adorno e a crítica à
indústria cultural: comunicação e teoria crítica da socidade / Francisco
Rudiger. – 3. ed. rev. e atual. – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004)
A obra traz um conjunto de idéia onde explica que Horkheiner e Adorno
usam o termo indústria cultural para se referirem às indústrias que produzem
em massa, bens culturais.
“Em essência, a expressão não se refere às empresas produtoras nem às
técnicas de difusão dos bens culturais; representa, antes de mais nada, um
movimento histórico-universal: a transformação da mercadoria em matriz do
modo de vida e, assim, da cultura em mercadoria, conforme ocorrido na
baixa modernidade” (Theodor Adorno e a crítica à indústria cultural:
comunicação e teoria crítica da socidade / Francisco Rudiger. – 3. ed. rev. e
atual. – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004)
Em outros termos, o conceito da indústria cultural mostra a expansão
mercantil pelo conjunto da vida social, como uma crescente monopolização nas
primeiras décadas do século XX.
“A colonização pela publicidade, pouco a pouco, o tornou veículo da cultura
de consumo: ele assume então um caráter sistêmico. O estágio final chega
com sua conversão em mecanismo de mediação estética do conjunto da
produção mercantil, momento este em que o mundo inteiro é forçado a passar
pelo filtro da indústria cultural” (Theodor Adorno e a crítica à indústria
cultural: comunicação e teoria crítica da socidade / Francisco Rudiger. – 3.
ed. rev. e atual. – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004)
Diário de Bordo
O diário de bordo traz relatos da produção da grande reportagem “O
Samba no Século XXI” e descreve a idéia inicial, dificuldades encontradas e os
passos para a realização do produto.
Tudo começou em junho de 2010, prestes a iniciar o penúltimo semestre
da faculdade. Em um encontro de botequim, conversando sobre o TCC,
decidimos fazer o trabalho relacionado ao samba. Porém, falar de samba é
muito complexo e era preciso definir o formato e o foco do trabalho..
Começou o 7º semestre e optamos pelo tema “O Samba no Século XXI”.
Essa forma de abordagem foi escolhida pelo conhecimento e paixão dos
alunos pela música, especificamente falando do gênero samba. A proposta era
tratar do samba que vem sendo feito na atualidade e as diversas vertentes que
surgiram com o passar dos anos. Como era feito o samba antigamente? Houve
muita mudança para os dias de hoje? Se sim, quais foram as causas para
isso? Como o gênero entrou no século XXI?
Por onde começar? Tínhamos várias idéias para a realização do
trabalho, mas de fato, se não conseguíssemos personagens e especialistas
para falar do assunto, o trabalho seria inviável. No mês de setembro,
conversamos com um grande compositor e músico da cidade, Vinícius de
Oliveira, e apresentamos a proposta para ele. O artista apoiou a idéia, mas as
pessoas gabaritadas e que contribuíram para a história do samba não estão
aqui em Brasília e sim no Rio de Janeiro.
Pensamos na possibilidade de ir para a terra carioca. Vinicinhus, assim
chamado por nós, nos apresentou uma figura influente do samba carioca, o
jovem produtor e compositor, Rafael Massoto. Fizemos o primeiro contato com
ele em dezembro de 2010 e explicamos a proposta de realizar uma grande
reportagem tratando do tema. Massoto, muito receptivo, achou a idéia
fantástica e não guardou as palavras. “Estou nessa com vocês. Contem comigo
no que eu puder ajudar”, adiantou.
Ficamos mais aliviados. Daqui de Brasília, sabíamos que Rafael
Massoto era produtor do sambista Noca da Portela e da cantora revelação do
Rio de Janeiro, Janaína Reis. Ele era então nossa base para indicar quem
seriam as melhores pessoas para tratar do assunto e compartilhar histórias de
vida dentro do samba. Ele de lá, a gente de cá, decidimos que seria
interessante fazer um contraponto. Qual a visão do sambista da nova geração?
Como pensam os que estão na estrada há muito tempo? Ao se fazer samba,
existe diferença do novo para o velho?
A primeira entrevista era com o grupo de samba Galocantô. Através de
redes sociais, entramos em contato com a produtora do grupo, Lúcia Sá, e
marcamos a entrevista para o dia 19/01/2011. O grupo foi indicado ao Prêmio
da Música Brasileira 2010 na categoria “Melhor grupo de samba” e
representaria bem a “nova geração”.
Com o equipamento de filmagem do IESB em mãos, embarcamos para
o Rio de Janeiro no dia 18/01/2011. A entrevista com o Galocantô estava
marcada para o dia seguinte, às 16h, no Casarão, no bairro da Tijuca.
Acordamos cedo, bem cedo para preparar todo material. Como não sabíamos
qual era o melhor meio de transporte para ir à Tijuca e muito menos quanto
tempo demorava, saímos de Copacabana por volta das 10h. Com a mochila
nas costas, descemos na estação de metrô Afonso Pena, já na Tijuca. Os
termômetros marcavam 40 graus naquela quarta-feira, mas a sensação térmica
foi ainda maior. A caminhada da estação até o local da entrevista demorou
cerca de 20 minutos, para a nossa sorte.
Chegamos ao local por volta de meio dia, 4 horas antes da entrevista. A
parte boa é que nesse tempo observamos as condições físicas do local e
testamos o equipamento. Já estava tudo pronto e faltavam ainda algumas
horas para os integrantes do grupo chegarem. Aprimoramos nosso roteiro e
aguardávamos – ansiosamente naquele calor infernal - a hora do bate-papo.
Deu tudo certo. A entrevista ocorreu do jeito que planejamos e o melhor:
os 6 integrantes do grupo compareceram. A conversa informal esclareceu
várias questões e dúvidas que tínhamos sobre o samba. Missão cumprida para
o primeiro dia.
Na quinta-feira (20), a entrevista era com um sambista da velha guarda
que contribui para a música brasileira até os dias de hoje, o Noca da Portela.
Era de manhã cedo, e lá estávamos nós para a próxima missão. Fomos de
metrô até a Central do Brasil encontrar o produtor do seu Noca, Rafael
Massoto, citado anteriormente neste Diário de Bordo. De lá, fomos nós 3
(Leonardo, André e Rafael Massoto) de trem até o bairro Engenho de Dentro,
na Zona Norte do Rio de Janeiro. Mochila nas costas e água na mão nos
deparamos com uma casa pintada de azul e branco, em homenagem a escola
de samba Portela. Só podia ser a casa dele. A filmagem começou ali, em frente
à casa, que fica perto da bilheteria oeste do estádio “Engenhão”. Muito bem
recebidos, essa segunda entrevista foi um sucesso. Noca compartilhou
experiências vividas no samba, sua trajetória musical, além das mais de 300
composições que fez e foram gravadas. Falou também sobre a convivência
com Cartola, Paulinho da Viola, Zé Keti, Jackson do Pandeiro, Nelson
Sargento, Jamelão, Martinho da Vila, Nelson Gonçalves, Alcione, Maria
Bethânia, entre outros artistas.
“Do velho nasce o novo”. O trabalho entrava no terceiro dia com um
artista da nova geração que vem ganhando cada vez mais espaço no Rio de
Janeiro e conquistando o público de outras regiões. Entrevistamos na tarde de
sexta-feira (21), em Copacabana, o cantor e compositor João Martins, filho do
cavaquinista, músico e produtor, Wanderson Martins. Nascido e criado na
Lapa, João Martins começou sua carreira aos 14 anos. Hoje, aos 26, carrega
uma bagagem musical onde já fez parte de rodas de samba renomadas no Rio
de Janeiro como Cacique de Ramos, Tia Ciça, Samba Luzia, Beco do Rato e
Clube Renascença. O jovem mostrou nesta grande-reportagem sua visão a
respeito do gênero musical e as perspectivas para o século XXI.
No sábado (22), contamos com o apoio novamente do Rafael Massoto e
demos continuidade ao trabalho. O ponto de partida era Copacabana, com
destino a São Gonçalo. Fomos à Praça XV e desembarcamos para pegar a
barca no terminal. Na praça Zé Garoto, montamos o equipamento e
começamos a entrevista com Massoto. Sua visão era diferente dos outros
entrevistados até mesmo pela função dentro da música. O produtor musical,
diga-se de passagem, gonçalense, compartilhou o conhecimento de mercado
e as transformações sofridas pelo samba. Fantástico. Nesse momento
sentimos que o trabalho tinha capacidade e profundidade acadêmica para
responder as questões que buscamos desde o princípio. E, para isso, nada
melhor que um especialista para falar.
Juntamos o útil ao agradável, a fome com a vontade de comer. Como
estávamos em São Gonçalo, aproveitamos a oportunidade geográfica para
entrevistar em seguida um jovem que faz parte da safra dos novos
compositores e intérpretes do Rio de Janeiro, o sambista Inácio Rios. A
entrevista estava marcada para às 16h. Inácio se atrasou, chegou às 18h, pois
estava fora da cidade em um show com Jorge Aragão. Até o atraso teve seu
valor. Enquanto Inácio não chegava, sua produtora Bárbara Rodrigues
mostrava arquivos e entrevistas dele, que começou a carreira aos 9 anos de
idade. Quando Inácio chegou, outras perguntas já tinham sido preparadas a
respeito da sua inserção no mercado musical e curiosidades do jovem cantor.
Chegamos ao nosso ponto de origem, Copacabana, no início da madrugada,
com a sensação de mais um dia de sucesso para a grande-reportagem.
No domingo (23), nossa entrevista estava marcada para às 17h, em
Madureira, na Zona Norte da Cidade. Como era a tarde nosso compromisso,
aproveitamos o sol pela manhã para pegar uma praia em Ipanema. De volta a
realidade, saímos de Copacabana, fomos até a Central do Brasil pegar um
trem para Madureira. Nosso destino era o Pagode da Tia Doca, que há 34 anos
traz o samba de qualidade. Atualmente é uma das rodas de samba mais
tradicionais no coração de Madureira. O local é ponto de encontro de
sambistas consagrados, já passaram por lá nomes como Zeca Pagodinho,
Arlindo Cruz, Beth Carvalho, Sombrinha, entre tantos outros. Após falecer a
pastora da velha-guarda da Portela que criou o Pagode, seu filho, o “Nem”,
tomou frente da roda de samba e o local continua sendo referência do samba
carioca e ponto de encontro de sambistas do Rio de Janeiro. Conduzimos a
entrevista da melhor forma possível. “Nem”, compartilhou nas filmagens a
história e tradição daquele pagode, além da importância daquela manifestação
para o reduto do samba. Registramos a roda de samba e aproveitamos para
tomar uma cerveja gelada e apreciar o som de qualidade e o alto astral de
quem estava presente. A vontade era entrar na madrugada de segunda-feira
no Pagode da Tia Doca, mas ainda tinha trabalho. Já era tarde da noite,
voltamos para Copacabana, pois cedo, tínhamos talvez a mais importante
entrevista de todas.
Acordamos cedo na segunda-feira. Por volta das 8h, encontramos
Rafael Massoto que nos dirigiu até a casa de uma lenda viva do samba, Nelson
Sargento. Custamos acreditar que em poucos minutos estaríamos na casa
daquele compositor, cantor, pesquisador da música popular brasileira, artista
plástico, ator e escritor brasileiro. Naquele momento, os segundos duravam
minutos e os minutos, horas. Por fim, chegamos. Já em sua casa, observamos
e registramos inúmeras homenagens e prêmios recebidos por Nelson
Sargento, além do arsenal de violões. Mangueirense, com cerca de 400
músicas em seu repertório, suas músicas são conhecidas pelo menos nas
Américas e no Japão. A entrevista durou cerca de 1 hora. Tempo suficiente
para admirar ainda mais aquele senhor de 87 anos. Nelson contou sua
trajetória e sua vivência no mundo do samba. Conviveu com Cartola – que o
ensinou a tocar violão - no morro da Mangueira, Carlos Cachaça, Darcy da
Mangueira, entre outros artistas consagrados do samba carioca. Não podíamos
acabar a entrevista sem gravar Nelson Sargento cantando seu samba mais
conhecido, “Agoniza mas não morre”, que melhor retrata o tema deste Trabalho
de Conclusão de Curso.
Agoniza mas não morre
Composição : Nelson Sargento
Samba,
Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.
Samba,
Negro, forte, destemido,
Foi duramente perseguido,
Na esquina, no botequim, no terreiro.
Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você nem percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você nem percebeu.
Conclusão
A proposta deste Trabalho de Conclusão de curso foi apresentar as mudanças
sofridas no gênero musical do samba ao ganhar mais visibilidade na mídia. O
formato escolhido foi a grande reportagem para responder as questões que
envolvem as transformações do samba e o desdobramento para o século XXI.
Foram entrevistados seis músicos e compositores do Rio de Janeiro
(Galocantô, Noca da Portela, João Martins, Inácio Rios, Nem e Nelson
Sargento) e um produtor musical (Rafael Massoto).
A idéia do trabalho foi fazer um contraponto com a safra de jovens músicos do
Rio de Janeiro, que buscam reaproximar o samba das suas antigas tradições
com compositores e cantores da velha-guarda, que acompanharam toda a
mudança descrita nesse memorial descritivo. Essa forma de abordagem
mostrou alguns pontos importantes para entender a mudança.
As entrevistas mostram – por parte da safra dos jovens músicos – que a
modificação é necessária e agrega valor ao estilo musical. Por exemplo,
antigamente, chamava-se de “cabrocha” uma mulher bonita, simpática, em
forma de elogio. Hoje, em pleno século XXI, a forma de se conversar, a
ideologia e elogios são outros. No samba da atualidade não caberia o termo
“cabrocha”, mas talvez “meu grande amor”. Percebe-se também o respeito da
nova geração aos compositores que entraram para a história da música
popular brasileira. É notável, nas músicas desses jovens, a influência de
Cartola, Nelson Sargento, Noel Rosa e Adoniran Barbosa. Eles alegam que, o
sambista de hoje carrega uma bagagem musical de pelo menos 100 anos que
antecede o dia de hoje afirmam ainda que isso é fundamental para o artista
traçar uma identidade.
Já os sambistas da velha-guarda mostraram pontos diferentes do samba atual.
Nelson Sargento, por exemplo, sente saudade do samba que nascia nas vielas
das favelas e botequins. Ele acredita que o avalanche da tecnologia fez com
que o samba sofresse consideráveis mudanças. É uma comparação no que diz
a respeito ao sentimento. Naquela época – década de 30 e 40 - as letras de
samba refletiam o cotidiano, o sofrimento e a alegria da sociedade, o que na
sua visão, não é assim nos dias de hoje. Em contrapartida, é de suma
importância a nova geração se preocupar e se interessar nas raízes do gênero
musical, rebuscando a qualidade que do passado. Mesmo que sofra inúmeras
mudanças em seu conteúdo, o samba deve acima de tudo ser feito e tocado
com respeito aos seus antecessores.
Bibliografia
Samba, o dono do corpo / Muniz Sodré. – [Link] – Rio de Janeiro: Mauad, 1998
Samba do Irajá e de outros subúrbios: um estudo da obra de Nei Lopes /
Cosme Elias. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.
Partido-alto: Samba de bamba / Nei Lopes. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.
Nem do morro nem da cidade: as transformações do samba e a indústria
cultural 1920-1945./José Adriano Fenerick – São Paulo: Annablume; Fapesp,
2005
Almanaque do Samba - A História do Samba, O que Ouvir, O que Ler, Onde
Curtir - André Diniz
SODRÉ, Muniz e FERRARI, Maria Helena. Técnica de Reportagem: notas
sobre a narrativa jornalística, São Paulo: Summus, 1986.
Maus Pensamentos: os mistérios do mundo e a reportagem jornalística /
Dimas Antônio Kunsch. – São Paulo : Annablume : FAPESP, 2000.
KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. 4. Ed. São Paulo: Ática, 2002.
Theodor Adorno e a crítica à indústria cultural: comunicação e teoria crítica da
socidade / Francisco Rudiger. – 3. ed. rev. e atual. – Porto Alegre: EDIPUCRS,
2004
Teoria crítica da indústria cultural/Rodrigo Duarte. – Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2003. (Humanitas)