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Ética Filosófica: Fundamentos e Aplicações

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ÉTICA FILOSÓFICA

ÉTICA FILOSÓFICA

BELO HORIZONTE / MG

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ÉTICA FILOSÓFICA

SUMÁRIO
1. FILOSOFIA E ÉTICA APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA ............................................... 3
1.1 Introdução........................................................................................................................ 3
1.2 Ética como virtualidade humana – noções e conceitos ..................................................... 4
1.3 Noções Fundamentais de Ética e Moral ........................................................................... 6
1.4 Noções acerca da aplicação dos conceitos Éticos e Morais ............................................10
1.5 Aspectos históricos da construção e formulação dos conceitos Éticos e Morais ..............13
1.6 A vida social e a postura ética enquanto preceito educacional e filosófico. ......................14
1.7 Educação como fator para humanização e socialização do homem ................................15
1.8 Educação para a cidadania ............................................................................................19
2 A FILOSOFIA COMO PRÁTICA DO PENSAMENTO HUMANO .........................................22
2.1 A oposição Renascimento X Barroco ..............................................................................22
2.2 A Filosofia no contexto da transição do século XVI e XVII ...............................................25
2.3 Francis Bacon e a crítica a esterilidade da tradição filosófica ..........................................26
2.4 A divisão sistemática dos conhecimentos........................................................................26
2.5 A Ética e a prática filosófica - Espinosa e a Filosofia da Existência..................................31
2.6 O desfio das diferenças ..................................................................................................34
2.7 Cultura e Diversidade - Considerações sobre a multiplicidade das manifestações .........36
3 INDÚSTRIA CULTURAL E IDENTIDADE...........................................................................39
3.1 Indústria Cultural e o conflito de gerações - Identidade....................................................39
3.1 Mídia, comportamento e identidade ................................................................................40
3.2 O processo de globalização e a perda das identidades culturais Indústria Cultural e
Identidade .........................................................................................................................................42
3.3 Consumo ........................................................................................................................43
3.4 Globalização e Identidade em Milton Santos ...................................................................45
3.5 Globalização e cultura.....................................................................................................46
3.6 A globalização solidária ..................................................................................................47
3.7 Milton Santos e os níveis de pobreza ..............................................................................49
4 GLOBALIZAÇÃO, MODERNIDADE E CULTURA ..............................................................49
4.1 Globalização e mundialização .........................................................................................51
5 A CIDADANIA MODERNA .................................................................................................53
5.1. Direitos políticos ............................................................................................................53
5.2 Direitos sociais................................................................................................................54
5.3 Direitos Humanos ...........................................................................................................54
5.4 Migração.........................................................................................................................54
5.5 Socialização ...................................................................................................................55
6 SOCIEDADE, POBREZA E EXCLUSÃO ............................................................................56
7 A EXCLUSÃO E AS TEORIAS DA MISÉRIA......................................................................58
8 A EXCLUSÃO E A POBREZA NO MUNDO .......................................................................60
8.1 A pobreza e a estrutura do Estado ..................................................................................61
9 AS TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO: DO EVOLUCIONISMO À GLOBALIZAÇÃO .......63
9.1 O desenvolvimento segundo as etapas de crescimento econômico.................................63
9.2 Entraves ao desenvolvimento: o tradicionalismo e a questão racial .................................64
10 ÉTICA DA DIVERSIDADE – AULA DE CONCLUSÃO ......................................................65
10.1 Ao Poeta, ao Mendigo e à Louca ..................................................................................66
11 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................67
12 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ..................................................................................................69
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................................69

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ÉTICA FILOSÓFICA

1. FILOSOFIA E ÉTICA APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA

O conteúdo que vamos estudar na disciplina Ética Filosófica trata de questões


essenciais à análise das relações sociais e das posturas dos indivíduos frente aos
acontecimentos e eventos em sociedade. Compreender a dinâmica do pensamento filosófico
e estabelecer noções fundamentais éticas em contraposição aos preceitos morais, realizando
uma distinção entre os universos ético e moral, propondo um estudo da aplicabilidade desses
conceitos, seria inicialmente um de nossos objetivos.
O recorte temporal escolhido para as argumentações filosóficas foi a transição do
século XVI para o XVII, período da passagem Renascimento e Barroco e o período de
afirmação da Filosofia Moderna. Ao estudarmos o período em questão, tratando
essencialmente das argumentações filosóficas de Francis Bacon, René Descartes e Bento de
Espinosa, estaremos inevitavelmente estudando algumas referências dos filósofos clássicos
(gregos).
Interessa-nos a princípio, desenvolver uma sustentação argumentativa da
investigação da natureza, objeto maior da filosofia, visando estabelecer um elo para as
discussões mais atuais e que irá prescindir das fundamentações éticas nas análises
contextuais.
Estaremos juntos tentando promover o conhecimento dessas questões para adiante
compreendermos a complexidade das relações sociais e, mais relevante, nos posicionarmos
mais qualitativamente nas noções humanas diante dos dilemas éticos atuais.
Para tanto estaremos disponibilizando algumas fontes, indicações e textos que
compõem o conjunto do material da disciplina. Reserve tempo para seus estudos e o faça
com dedicação. Espero que, ao longo do nosso convívio virtual possamos fazê-lo de maneira
prazerosa e que possamos produzir juntos, um conhecimento bastante relevante. Espero
também, que nosso aprendizado possa ser efetivamente compartilhado, como estabelece a
mais nobre noção de educação.

1.1 Introdução

O texto que se segue e abre os estudos de Ética Filosófica, de autoria do Teólogo


Leonardo Boff, apresenta noções fundamentais dos preceitos morais e éticos, situando uma
distinção e uma noção de aplicabilidade desses conceitos na ação social dos indivíduos,
necessária à transformação fundamental da sua condição sociocultural dos mesmos.
A realidade das populações excluídas do processo histórico, a miséria e a fome são
hoje questões primordiais a serem resolvidas e transformadas socialmente. Portanto a ação
dos indivíduos em comunidade, as práticas éticas se tornam ingredientes essenciais para a
melhoria da qualidade de vida das pessoas e da vida no planeta.

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ÉTICA FILOSÓFICA

Fonte: [Link]

1.2 Ética como virtualidade humana – noções e conceitos

Que é ética, que é moral? É a mesma coisa ou há distinções a serem feitas? Há muita
confusão acerca disso.
Tentemos um esclarecimento. Na linguagem comum e mesmo culta, Ética e moral são
sinônimos. Assim dizemos: aqui há um problema ético ou um problema moral. Com isso
emitimos um juízo de valor sobre alguma prática pessoal ou social, se boa, se má ou duvidosa.
Mas, aprofundando a questão, percebemos que Ética e moral não são sinônimos. A
Ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo, princípios e valores que orientam
pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções.
Dizemos, então, que tem caráter e boa índole. A Moral é parte da vida concreta. Trata da
prática real das pessoas que se expressam por costumes, hábitos e valores aceitos. Uma
pessoa é moral quando age em conformidade com os costumes e valores estabelecidos que
possam ser eventualmente, questionados pela Ética. Uma pessoa pode ser moral (segue
costumes), mas não necessariamente Ética (obedece a princípios).

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ÉTICA FILOSÓFICA

Embora úteis estas definições são abstratas porque não mostram o processo como a
Ética e a Moral, efetivamente, surgem. E aqui os gregos nos podem ajudar.
Eles partem de uma experiência de base, sempre válida, a da morada entendida
existencialmente como o conjunto das relações entre o meio físico e as pessoas. Chamam à
morada de ethos (em grego com a letra e pronunciada de forma longa). Para que a morada
seja morada, precisa-se organizar o espaço físico (quartos, sala, cozinha) e o espaço humano
(relações dos moradores entre si e com seus vizinhos), segundo critérios, valores e princípios
para que tudo flua e esteja a contento.
Isso confere caráter a casa e às pessoas. Os gregos chamam a isso também de ethos.
Nós diríamos Ética e Caráter Ético das pessoas. Ademais, na morada, os moradores têm
costumes, maneiras de organizar as refeições, os encontros, estilos de relacionamento,
tensos e competitivos ou harmoniosos e cooperativos. A isso os gregos chamavam também
de ethos (com a letra e pronunciada de forma curta).
Nós diríamos moral e a postura moral de uma pessoa.
Ocorre que esses costumes (Moral) formam o caráter (Ética) das pessoas. Winnicot
(1896 – 1971), pediatra e psicanalista inglês, estudou a importância das relações familiares
para estabelecer o caráter das pessoas. Elas serão éticas (terão princípios e valores) se
tiverem tido uma boa moral (relações harmoniosas e inclusivas) em casa.
Os medievais não tinham as sutilezas dos gregos. Usavam a palavra Moral (vem de
mos / mores) tanto para os costumes quanto para o caráter. Distinguiam a moral teórica
(filosofia moral) que estuda os princípios e as atitudes que iluminam as práticas, e a moral
prática que analisa os atos à luz das atitudes e estuda a aplicação dos princípios à vida.

Fonte: [Link]

Entre a Idade Média e a Moderna, o italiano Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) rompe
com a Moral cristã, que impõe os valores espirituais como superiores aos políticos. Defende
a adoção de uma Moral própria em relação ao Estado. O que importa são os resultados, e
não a ação política em si. Por isso, considera legítimo o uso da violência contra os que se
opõem aos interesses estatais. Maquiavel influencia o inglês Thomas Hobbes (1588-1679),
que depois disso lançou o seu livro “O Leviatã”, diferente de Maquiavel os meios justificam os
fins e enquanto Maquiavel os fins justificam os meios.
Durante os séculos XVIII e XIX os grandes pensadores discutindo sobre o que é Ética
foram: o francês Jean-Jacques Rousseau (1712 – 17780) e os alemães Immanuel Kant (1724-
1804) e Friedrich Hegel (1770-1831). Segundo Rousseau, o homem é bom por natureza e
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ÉTICA FILOSÓFICA

seu espírito pode sofrer aprimoramento quase ilimitado. Para Kant, Ética é a obrigação de agir
segundo regras universais, comuns a todos os seres humanos por ser derivadas da razão. O
fundamento da Moral é dado pela própria razão humana: a noção de dever. O reconhecimento
dos outros homens, como fim em si e não como meio para alcançar algo, é o principal
motivador da conduta individual. Hegel divide a Ética em subjetiva ou pessoal e objetiva ou
social. A primeira é uma consciência de dever; a segunda, formada por costumes, leis e
normas de uma sociedade. O Estado reúne esses dois aspectos em uma “totalidade Ética”.
Qual é ética e a Moral vigentes hoje? É a capitalista. Sua Ética diz: bom é o que permite
acumular mais com menos investimento e em menor tempo possível.
Sua Moral concreta reza: empregar menos gente possível, pagar menos salários e
impostos e explorar melhor a natureza. Imaginemos como seria uma casa e sociedade (ethos)
que tivessem tais costumes (moral / ethos) e produzisse caracteres (ethos / moral) assim
conflitivos? Seria ainda humana e benfazeja à vida?
Eis a razão da grave crise atual.
Os princípios e a prática concreta dos valores éticos, como vimos, sofreram alterações
ao longo da história, os vários pensadores que contribuíram sobre o tema, no entanto, não
nos deixam uma resposta definitiva para a indagação e a sociedade atual apresenta um
profundo distanciamento entre suas teorias e práticas.
Muito já foi trilhado no caminho da razão por respostas mais eficientes que contribuam
para uma vida social mais estável, onde homens se respeitem mutuamente em prol de uma
sociedade saudável, justa, virtuosa e por isso mesmo feliz.

1.3 Noções Fundamentais de Ética e Moral

Como vimos, a palavra Ética se origina do termo grego ethos, que significa “modo de
ser”, “caráter”, “costume”, “comportamento”. De fato, a Ética é o estudo desses aspectos do
ser humano: por um lado, procurando descobrir o que está por trás do nosso modo de ser e
de agir; por outro, procurando estabelecer as maneiras mais convenientes de sermos e
agirmos. Assim, pode-se dizer que a Ética trata do que é “bom” e do que é “mau” para nós.
Bom e mau, ou melhor, bem e mal, entretanto, são valores que não apresentam, para
o ser humano, um caráter absoluto. Ao longo dos tempos, nas mais diversas civilizações,
várias interpretações serão dadas a essas duas noções. A Ética acompanha esse
desenvolvimento histórico, para que isso sirva de base para uma reflexão sobre como ser
ético no tempo presente.
Considera também como esses valores se aplicam no relacionamento interpessoal,
pois a noção de um modo correto de se comportar e posicionar na vida pressupõe que isso
seja feito para que cada um conviva em harmonia com os outros. A ética, portanto, trata de
convivência entre seres humanos na sociedade. Num sentido mais restrito, ela se restringe
às relações pessoais de cada um. Num sentido mais amplo - já que ninguém vive numa
pequena comunidade isolada -, ela se relaciona com a política - da cidade, do país e do
mundo. Nesse sentido, ela é possivelmente a área mais prática da filosofia.
Mas, antes de mais nada, qual o significado da palavra ética, em termos filosóficos?
O filósofo contemporâneo espanhol Fernando Savater apresenta uma resposta para
essa questão em termos muito simples, num livro intitulado Ética para meu filho, da Editora

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ÉTICA FILOSÓFICA

Martins - Capa do livro de Fontes. Como diz o título, ele escreveu com o intuito de explicar a
uma geração em formação. Questão para o seu filho adolescente.
A seguir, você pode ler um breve trecho da resposta de Savater para a questão “o que
é ética? ”. Esse é um excelente ponto de partida para você pensar no assunto:

Fonte: [Link]

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ÉTICA FILOSÓFICA

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ÉTICA FILOSÓFICA

Vimos nesta breve introdução da disciplina uma distinção entre os conceitos e noções
de moral e ética. As exposições baseadas nos pareceres do teólogo Leonardo Boff e nas
considerações éticas de Fernando Salvater irão nos ajudar a aplicar adiante essa distinção e
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ÉTICA FILOSÓFICA

promover a compreensão desses valores nas relações sociais. Foi exposto, também que a
noção de ética varia em relação ao contexto histórico-cultural e está associado a uma espécie
de escolha realizada pelos indivíduos ao longo do seu processo de maturação. Portanto sua
aplicação é decorrente da formação integral dos indivíduos.
Procure considerar, no decorrer de seus estudos as conceituações e a aplicabilidade
dos mesmos. As distinções entre os dois conceitos e as formas de desenvolvimento destes
determinam como devemos percebê-los e aplica-los nas relações sociais. Adiante vamos
colocar em prática a análise desses conceitos e suas distinções.

1.4 Noções acerca da aplicação dos conceitos Éticos e Morais

As duas aulas que se seguem se baseiam no texto “A evolução moral e ética e seus
reflexos na sociedade contemporânea” de autoria de Rosângela Menta Mello e buscam
posicionar argumentos práticos para aplicação dos conceitos éticos e morais nas relações
sociais. Os textos e as imagens, assim como as questões instituídas para a reflexão poderão
nos auxiliar a compreender melhor a dimensão dos conceitos de ética e moral.
Antes de iniciarmos nossas atividades, vamos recordar aspectos desenvolvidos nas
duas primeiras aulas para que possamos, adiante, situar nossa posição em relação às práticas
morais e éticas.
Vimos que existe uma distinção entre preceitos morais e éticos e que esta diferença
se estabelece a partir do processo de vivência dos indivíduos em sociedade e que a moral
estaria diretamente vinculada às normas, regras e leis sociais e que, assim, todos os
indivíduos em sociedade estariam submetidos a ela. Por outro lado, a ética se desenvolveria
nos indivíduos a partir de uma escolha destes para uma prática social além das regras e
normas, posicionando argumentações construídas a partir do seu caráter e da sua postura
individual em relação às questões sociais.
Para tornar nosso estudo mais proveitoso estaremos a seguir situando alguns
questionamentos para que possamos refletir sobre aspectos essenciais do nosso conteúdo.
Não será necessário responder às questões, apenas reflita sobre elas a partir da sua vivência
ou mesmo através de uma breve pesquisa.

Além destas questões situadas acima vocês poderão levantar outros aspectos que
gostariam de esclarecer, mas nem sempre podemos abordar toda a dimensão do estudo,
então devemos selecionar os principais problemas a serem discutidos.

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ÉTICA FILOSÓFICA

Devemos lembrar que os estudos das dimensões filosóficas e sociais da moral e da


ética são amplos e complexos. Portanto cabe relacionar o conteúdo moral e ético a outros
campos de análise para podermos compreender melhor essa complexidade.
Assim iremos relacionar questões \ reflexões sobre a moral e a ética nas suas diversas
dimensões e abordagens. (Aqui também não será necessário “responder” às questões,
apenas refletir sobre elas, tentando construir uma argumentação que permita esclarecer suas
dúvidas).

Vamos aprofundar a nossa reflexão analisando a seguinte imagem sobre a evolução


do homem.

Fonte: [Link]

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ÉTICA FILOSÓFICA

Analisando a imagem acima, reflita sobre as questões que se seguem, buscando


estabelecer análises sobre o comportamento do homem e sua “evolução”.
a) Quem é o personagem central da imagem?
b) O que ele está fazendo sempre?
c) Como ele se relaciona com a natureza e os produtos da sociedade?
d) Qual a forma de conviver, de comunicar, de se organizar desde a era da pedra à
era do computador?
e) Que mensagem o autor desta imagem quis transmitir?
f) Você concorda com o autor?

A nossa sociedade construiu ao longo de séculos um conjunto de regras e valores que


determinaram o comportamento dos indivíduos, para que haja condições de convivência
comum.
Segundo Aranha; Martins, 1986, p. 303, “exterior e anterior ao indivíduo, há uma moral
constituída, que orienta seu comportamento por meio de normas. Em função da adequação
ou não à norma estabelecida, o ato será considerado moral ou imoral. ” Desta forma, podemos
considerar que a organização social depende deste conjunto de normas para se estabelecer.
Segundo as autoras o ser humano é capaz de produzir interdições, ou seja, alterações que
possam acrescentar ou mudar o conteúdo das normas.
Com a passagem da natureza à cultura, os usos e costumes que são produzidos
passam a ser regulamentados pelas leis, desta forma, surge à moral para garantir a boa
convivência entre os indivíduos. Fazendo um contraponto com a imagem apresentada acima,
sobre a evolução do homem, podemos dizer que sempre existiram relações de poder entre
os homens desde o início da humanidade.
Observando os costumes, percebemos que estamos sempre olhando as pessoas e as
coisas avaliando, emitindo juízos de valor sobre cada situação. Desta forma os indivíduos, em
seus grupos sociais, regulamentam seus comportamentos a partir das normas instituídas.

O aumento do grau de consciência e de liberdade, e, portanto, de responsabilidade


pessoal no comportamento moral, introduz um elemento contraditório que irá o tempo todo,

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ÉTICA FILOSÓFICA

angustiar o homem: a moral, ao mesmo tempo em que é um conjunto de regras que determina
como deve ser o comportamento dos indivíduos de um grupo, é também a livre e consciente
aceitação das normas. (ARANHA; MARTINS, 1986, p. 304)

1.5 Aspectos históricos da construção e formulação dos conceitos Éticos e Morais

Percebemos que uma atitude somente será moral se estiver de acordo com nossa
opinião, nossas ideias, nossa aceitação pessoal da norma. Somente livres poderemos agir
de acordo com nossa consciência, com responsabilidade nas decisões tomadas. Este é o
caráter pessoal da moral. Quando nos referimos ao caráter social e pessoal da moral,
poderemos agir de acordo com o dogmatismo ou legalismo (ARANHA; MARTINS, 1986, p.
304), fortalecendo a lei, mas ao mesmo tempo, incutindo nas pessoas o medo a não
observância da lei. Se aceitarmos o individualismo, corremos o risco em não haver mais a
moral, uma vez cada ser humano poderá impor seus desejos e vontades, ou seja, na ausência
de princípios.
A partir do momento que o homem passa a viver no mundo moralmente estruturado,
este deve se apropriar de uma consciência moral, orientando suas escolhas e seu
discernimento. O agir humano é caracterizado pela capacidade de antecipar-se ao resultado
a ser alcançado, tornando o ato moral propriamente voluntário. Neste sentido o ser humano
possui o desejo e a vontade. Sendo o desejo algo natural do ser humano, mas deve ser
controlado, para que não seja negada a moral.
A complexidade do ato moral reside no fato que ele provoca efeitos não só na vontade,
mas naqueles que a cercam e na própria sociedade como um todo [...] para que um ato seja
considerado moral, ele deve ser livre, consciente, intencional, mas também é preciso que não
seja um ato solitário. (ARANHA; MARTINS, 1986, p. 307).
O texto do escritor Lima Barreto “O novo Manifesto”, do início do século XX irá nos
ajudar a entender o caráter histórico-social da moral e o caráter pessoal, posicionando
filosoficamente, construindo argumentos para estabelecer relações da moral com a ética,
compreendendo seus conceitos e estabelecendo conexões com a realidade do mundo político
de hoje. Para que possamos posicionar as nossas conclusões acerca do assunto
desenvolvido até este ponto, vamos refletir um pouco mais estas noções:
a) O conceito de moral, de ética, a característica do ato voluntário.
b) A organização das sociedades em função da moral e da ética.
c) A moral no tempo e no espaço.

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ÉTICA FILOSÓFICA

Na evolução da sociedade humana o homem vem construindo diferentes pontos de


vista sobre a moral e a ética. Reflita: como podemos perceber isto no modo de viver das
pessoas, no conceito de liberdade, nas relações de poder.
A partir das reflexões acima consideramos importante que os alunos passem a
observar a comunidade em que vivem, analisando as concepções de moral e ética. Se
possível, entrevistem, conversem com diferentes pessoas, inclusive da comunidade escolar
para saber o que pensam ser a moral e a ética.
1.6 A vida social e a postura ética enquanto preceito educacional e filosófico.
Reflexões sobre a Ética, multiculturalismo e educação1
Vivemos um momento único na história de toda humanidade. O mundo tornou-se uma
aldeia global que partilha problemas como crises econômicas, ambientais e sociais.

1
O presente texto é de autoria da Pedagoga Regina Aparecida Freitas da Costa Diniz, especialista em Gestão Escolar.

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ÉTICA FILOSÓFICA

Somos testemunhas de uma era de enormes carências de conhecimento, de


afetividade e de espiritualidade. Nossa sociedade é dominada por princípios voltados quase
que exclusivamente ao lucro e a manipulação através do poder – político, social, econômico,
religioso e interpessoal. Como as demais estruturas sociais, também a escola precisa assumir
um novo significado (resinificar-se) em suas antigas práticas, costumes e crenças.
É inegável reconhecer que o modelo institucionalizado de escola que temos, de pouco
ou nada adianta para as sofisticadas exigências de sobrevivência do mundo globalizado, que
requer sujeitos autônomos, críticos, participativos, comunicativos, emocionalmente capazes,
flexíveis a mudanças, adaptáveis a transformações, rápidos nas decisões, eficientes em
julgamentos, enfim sujeitos com qualidades e habilidades, não raras vezes, opostas àquelas
que a escola preconiza hoje, uma vez que a ideia de multiculturalidade parte do princípio da
coexistência das diversas tradições culturais e espirituais; a capacidade humana de assimilar
outras tradições sem rejeitar ou negar sua cultura original.

1.7 Educação como fator para humanização e socialização do homem

A busca de novos ambientes de aprendizagem, mais adequados às necessidades de


nossos alunos e ao mundo como ele hoje se apresenta, abre-nos uma perspectiva para
refletirmos sobre a adoção de novo referencial para a educação, considerando a gravidade
dos problemas vivenciados não somente no setor educacional, mas também nas diferentes
áreas do conhecimento humano. No entanto, não podemos desprezar os paradigmas que
foram construídos ao longo do tempo, pois sabemos que, historicamente, a educação sempre
foi um fator importante para a humanização e socialização do homem.
As mudanças que estão ocorrendo no mundo da ciência tornam necessário rejeitar
visão arcaica em que ela é compreendida como um conjunto de verdades de natureza
acumulativa, substituindo-a por uma concepção em que as teorias científicas vão se
sucedendo ao longo da história, de acordo com modelos explicativos provisórios e parciais, e
realizando sucessivos saltos qualitativos que significam verdadeiras mudanças totais na visão
de mundo.
Nossos sistemas de pensamento não são independentes de nossa história. Este fato
nos leva a um questionamento profundo do que é aprendizagem e dos conhecimentos que
constituem sua matéria prima. Assim, devemos discutir com os educadores que não é apenas
o conteúdo da ciência que muda a cada instante, mas o ponto de vista pelo qual ela é praticada
e contemplada. Implica em uma mudança nas atitudes de quem a pratica, em uma nova
compreensão do que se entende pelo estudo da realidade, em uma abordagem inovadora
das disciplinas curriculares das metodologias de ensino.
Nesse contexto, um multiculturalismo, desde que bem entendido, não constitui uma
rua de mão única para autoafirmação de grupos com identidade própria. A coexistência em

15
ÉTICA FILOSÓFICA

pé de igualdade de diversas formas de vida exige ao mesmo tempo uma integração dos
cidadãos e o reconhecimento recíproco de sua qualidade de membro subcultural no quadro
de uma cultura política comum. A sociedade pluralista democraticamente constituída garante
as diferenciações culturais sob a condição da integração política.
Os cidadãos da sociedade são autorizados a formar seu modo cultural próprio sob a
pressuposição de eles se entendam juntos com todos os outros, como cidadãos da mesma
coletividade política. As justificações e as autorizações culturais encontram seus limites nas
bases normativas da Constituição, unicamente a partir da qual eles se fundamentam.
Nas sociedades primitivas, por exemplo, tivemos uma educação difusa, havendo uma
distinção entre educação, ensino e doutrinação. A educação desse período tem um conceito
genérico, enquanto que o ensino se refere à transmissão de conhecimentos acumulados e a
doutrinação é vista como uma pseudo-educação que não respeita a liberdade do educando.
A visão de mundo da Idade Média, por sua vez, estava ligada ao processo da natureza
em relações caracterizadas pela interdependência dos fenômenos materiais e espirituais e na
subordinação das necessidades individuais às da comunidade. Nessa visão orgânica
assentava-se o naturalismo aristotélico e sua fundamentação dada por São Tomás de Aquino
(1224-1275). O pensamento do filósofo grego Aristóteles foi adaptado ao contexto cristão por
São Tomás de Aquino no século XIII, dando ao universo cristão uma aproximação ao
conteúdo científico que iria ser uma das razões para o aparecimento das universidades na
Europa Medieval.
A idade moderna teve no Renascimento um dos fatores marcantes que reposicionou
o homem como centro do significado histórico. É o período do antropocentrismo (o homem
como o centro) e do racionalismo, com o advento da experimentação científica. Segundo a
concepção de um novo homem, no renascimento educar torna-se questão de moda e uma
exigência. A cultura renascentista é caracteristicamente humanista.

A ética inclui, portanto, o desenvolvimento cognitivo do ser humano, segundo Jean


Piaget, a moral heterônoma, estágio ainda elementar da moralidade, respeita regras e normas
tão somente em função de um sentimento de medo, de amor ou de sagrado. A pessoa se
submete, pois, a regra advém de um "outro" que representa poder. Mas este é ainda um nível
insuficiente, o processo educativo deve e pode gerar a moral autônoma que implica um
sentimento de necessidade – "aquilo que não pode não ser". Neste cenário, as regras não
são seguidas por medo ou por amor, mas antes de tudo são compreendidas pela "Razão" e

16
ÉTICA FILOSÓFICA

é o sujeito em interação com seus iguais que decide quais as regras e normas obrigatórias e
necessárias para o convívio social.

Fonte: [Link]
A moral autônoma não evoca o medo, o amor e o sagrado. Repele simultaneamente
o egocentrismo e a confiança cega na autoridade. Tende ao reconhecimento de princípios
apoiados na cooperação, reciprocidade e na necessidade de convívio organizado entre os
indivíduos. Neste contexto as regras e normas não são eternas, mas se constituem e se
preservam enquanto coerentes.
É hora de resgatar a indagação: Seriam as relações pedagógicas predominantes
éticas? Se isto fosse verdade, nossas certezas didáticas seriam tão intensas? Exercitamos
de fato a tolerância ou ainda insistimos em classificar e segregar ideias e pessoas?
Suportamos o diálogo argumentativo? Ou somos ainda seduzidos por verdades alienígenas?
A ética na educação significa admitir que hoje é necessário respeitar a regra
combinada, ainda que amanhã, novas circunstâncias exijam novas regras e normas. Isto
implica leveza, leveza de saber respeitar a regra porque compreendida e igualmente saber
transgredi-la quando necessário e em benefício do convívio social. Esta é uma postura ética.
É preciso investigar, como ocorreu a construção da ética nas relações pedagógicas.
Parece predominar ainda muito fortemente a moral x moral heterônoma, tanto na instância do
privado, quanto do público.

17
ÉTICA FILOSÓFICA

Somos ferrenhos defensores de princípios que não assumimos como nossos, mas nos
submetemos por convivência. Desejar um processo educativo onde a ética tenha lugar
significa não impedir o desenvolvimento do sujeito, que mesmo envolto pela cultura, nunca
está reduzido a simplesmente repeti-la, mas deseja compreendê-la.
A escola deveria preocupar-se menos em repetir e exigir regras, normas e atitudes
padrão e estabelecer um “clima constituinte”, onde alunos e professores reaprendam o
processo de construção das próprias regulações sociais, pedagógicas, afetivas, cognitivas.
Definidas devem ser repetidas de fato. Quando anacrônicas, devem ser revistas e
reinventadas. Seremos nós professores, de fato leves tolerantes, dialógicos, éticos na
interação com nossos alunos? Acreditar nesta possibilidade não significa refugiar-se no
espontaneísmo, no democratismo, mas antes de tudo admitir que o processo de educação
seja indiscutivelmente um processo de reconstrução, que, portanto, tem bases firmes, mas
não imóveis.
A ética não basta como teoria. É preciso que cada cidadão incorpore esses princípios
como uma atitude prática da vida cotidiana, de modo a pautar por eles seu comportamento.
Isso traz uma consequência inevitável: frequentemente o exercício pleno da cidadania (ética)
entra em colisão frontal com a moral vigente. Até porque a moral vigente, sob pressão dos
interesses econômicos e de mercado, está sujeita a frequentes e graves degenerações.
É neste contexto que se deve pensar os rumos da educação que se processa na
escola. Esta, por sua vez, deve exercer uma função democratizadora. Por um lado, deve
preparar o cidadão em formação para o exercício da autonomia, lendo, interpretando e
compreendendo criticamente o mundo a sua volta, observando os fatos e interpelando a
realidade sempre que necessário.
A educação deve inserir processos de ensino que instrumentalizem o trabalhador em
formação a prover sua existência futura, de maneira satisfatória no horizonte da economia
globalizada. Por outro lado, deve ser por excelência um processo de humanização,
desenvolvimento e realização humana, que privilegie valores de liberdade e autonomia, moral
e ética, cooperação e solidariedade.

18
ÉTICA FILOSÓFICA

2
Educação para a cidadania: o conhecimento como instrumento político de libertação

A formação do ser humano começa na família. Ali, tem início um processo de


humanização e libertação; é um caminho que busca fazer da criança um ser civilizado, e bem
cedo a escola participa desse processo. Com o conhecimento adquirido na escola, o aluno se
prepara para a vida. Passa a ter o poder de se transformar e de modificar o mundo onde vive.
Educar é um ato que visa à convivência social, a cidadania e a tomada de consciência
política. A educação escolar, além de ensinar o conhecimento científico, deve assumir a
incumbência de preparar as pessoas para o exercício da cidadania. A cidadania é entendida
como o acesso aos bens materiais e culturais produzidos pela sociedade, e ainda significa o
exercício pleno dos direitos e deveres previstos pela Constituição da República.
A educação para a cidadania pretende fazer de cada pessoa um agente de
transformação. Isso exige uma reflexão que possibilite compreender as raízes históricas da
situação de miséria e exclusão em que vive boa parte da população. A formação política, que
tem no universo escolar um espaço privilegiado, deve propor caminhos para mudar as
situações de opressão. Muito embora outros segmentos participem dessa formação, como a
família ou os meios de comunicação, não haverá democracia substancial se inexistir essa
responsabilidade propiciada, sobretudo, pelo ambiente escolar.
A ideia de educação deve estar intimamente ligada às de liberdade, democracia e
cidadania. A educação não pode preparar nada para a democracia a não ser que também
seja democrática. Seria contraditório ensinar a democracia no meio de instituições de caráter
autoritário.
A democracia não se refere só à ordem do poder público do Estado, mas deve existir
em todas as relações sociais, econômicas, políticas e culturais. Começa na relação
interpessoal, passa pela família, a escola e culmina no Estado. Uma sociedade democrática
é aquela que vai conseguindo democratizar todas as suas instituições e práticas.

1.8 Educação para a cidadania 3

Como vimos a formação do ser humano começa na família. Ali, tem início um processo
de humanização e libertação, valores morais e éticos; é um caminho que busca fazer da
criança um ser civilizado, e bem cedo à escola participa desse processo. A educação formal
e informal, movimentos sociais, entidades públicas, abordando aspetos tais como a educação

2
O presente texto é de autoria do professor Roberto Carlos Simões Galvão.
3
Texto de autoria de Márcia Regina Cabral. A autora é graduada em Ciências Econômicas, Pedagogia e
especialista em Educação Infantil e Gestão Escolar.
19
ÉTICA FILOSÓFICA

das crianças, jovens e adultos para uma nova cultura dos direitos humanos e da paz e a
reflexão e sistematização da prática educativa em direitos humanos.
Nessa sociedade em rápida transformação, cidadania depende cada vez mais da
educação moral e ética. No atual contexto tecnológico, de consumo e da mundialização da
economia e da cultura, os indivíduos são seduzidos a viver os valores das grandes elites
econômicas nos mais diversos aspectos da vida social. Por isso a cidadania necessita de um
elevado nível de socialização do saber científico. Do contrário, seremos apenas consumidores
ou não, dependendo da nossa condição socioeconômica e dos nossos valores.
A educação é um meio de construção e reconstrução de valores e normas que
dignificam as pessoas e as tornam mais humanas.

Ao invés de só reclamarmos poder agir e transformar as coisas. É verdade que


sozinhos não podemos mudar tudo, mesmo por que cada um de nós tem um ponto de vista
diferente do que e de como mudarmos as coisas. Ter como princípio a valorização do humano,
do ser e não apenas do ter material, já é um bom começo. Em nossas comunidades, escola,
clube, prédio, rua, etc. Sempre há pessoas que se uniram para lutar por algo que acreditam.
Conheça melhor a sua comunidade e experimente participar dela mais ativamente!
Uma ideia é a participação em projetos que visem à melhoria da qualidade da
educação.
A preocupação com a educação para a cidadania no Brasil remonta à Constituição de
1823. Parece curioso que em pleno Império já se fizesse presente entre nós um conjunto de
ideias em torno da universalização dos direitos, influenciada pelo coetâneo movimento da
ilustração francesa.
Embora esse avançado ideário tenha alcançado seu lugar na letra da lei, na realidade
ainda predominava entre nós a configuração de uma sociedade escravocrata e excludente,
na qual apenas os homens livres e proprietários desfrutavam de direitos devido ao sistema
censitário imperial. Esse sistema vigorou durante o Segundo Reinado e tinha sido definido
pela Constituição de 1824, a qual assegurava o direito de votar e ser votado, participar da
Câmara e do Senado, apenas àqueles cidadãos que se enquadrasse em determinados níveis
de renda. “Não obstante, tanto os constituintes de 1823 quanto os de 1824 preconizavam a
disseminação de escolas, ginásios e universidades, bem como a garantia da gratuidade do
ensino público apesar de omissos no que respeita à matéria obrigatoriedade. ” (BOTO 1999,
p. 2).

20
ÉTICA FILOSÓFICA

A questão da defesa da ampliação do acesso à escola referia-se à desigualdade


social, a qual se supunha, poderia ser compreendida a partir dos parâmetros de capacidades
e talentos individuais. A elite econômica essa passando a ser destinada a tornar-se elite
cultural, uma vez que a universalização do acesso à educação formal não se efetivou,
permanecendo privilégio de uns poucos considerados talentosos e mais capazes em relação
aos filhos do povo, destinados à execução de tarefas de somenos importância do ponto de
vista da vida econômica, política e social.
Até o nascimento do partido Republicano, em 1870, não foram verificadas grandes
mudanças na área da educação, embora houvesse a crença de que a escolarização era
indispensável ao progresso do país, o que, por consequência, exigia a transformação dos
súditos em cidadãos.

Assim, os princípios da liberdade, igualdade, democracia e solidariedade humana são


derrotados pelos valores do individualismo, da competição, da busca do lucro e acumulação
de bens os quais configuram a moral. E a educação é chamada, na sociedade para realizar a
mediação entre ética e cidadania, formando os indivíduos de acordo com os valores
requeridos por esse tipo de sociedade. Assim, pela mediação da educação, se buscará
instituir, em cada indivíduo singular, o cidadão ético correspondente ao lugar a ele atribuído
na escala social.
Uma nova cidadania acontece por intermédio dos currículos oficiais e, para isso, é
necessário que os currículos sejam revistos. Acontece também em todos os demais espaços
escolares e tudo necessita de um olhar novo para que saiamos do quadro de fracasso da
instituição escolar no qual, sabemos, o país está imerso. É necessário ensinar às nossas
crianças e jovens não apenas a ler e a escrever, mas a olhar o mundo a partir de novas
perspectivas. Ensinar a ouvir, falar e escutar, a desenvolver atitudes de solidariedade, a
aprender dizer não ao consumismo imposto pela mídia, a dizer não ao individualismo e sim à
paz.

21
ÉTICA FILOSÓFICA

Educar para a cidadania é adotar uma postura, é fazer escolhas. É despertar para as
consciências dos direitos e deveres, é lutar pela justiça e não servir a interesses seculares. É
uma urgência que grita e que deveria ecoar nos corações humanos e não nos alarmes das
propriedades que tentam proteger a vergonha do que a civilização humana construiu. Para
alcançarmos isso, não podemos ficar somente no ensinar para a cidadania. É preciso construir
o espaço de se educar na cidadania. E nesse sentido, não é somente a preposição que muda.
Muda a postura do professor que de cidadão que somente exige seus direitos passa a lembrar
também dos seus deveres.

2 A FILOSOFIA COMO PRÁTICA DO PENSAMENTO HUMANO

2.1 A oposição Renascimento X Barroco

Renascimento é o termo usado para identificar o período da História da Europa


aproximadamente entre fins do século XIV (c.1450) e meados do século XVI. Os estudiosos,
contudo, não chegaram a um consenso sobre essa cronologia, havendo variações
consideráveis nas datas. Seja como for, o período foi marcado por transformações em muitas
áreas da vida humana, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna.
Apesar destas transformações serem bem evidentes na cultura, sociedade, economia,
política e religião, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo e significando
uma ruptura com as estruturas medievais, o termo é mais comumente empregado para
descrever seus efeitos nas artes, na filosofia e nas ciências.

22
ÉTICA FILOSÓFICA

“A Santa Ceia” de Leonardo da Vinci - Obra do Renascimento

Fonte: Fonte: [Link]


Características: Predomínio da razão, da harmonia e do equilíbrio (simetria), princípios
referentes ao contexto do Renascimento como o antropocentrismo (o homem como o centro
do universo, a principal criatura de Deus, a valorização da ciência (racionalismo) e a inserção
da obra de arte na natureza), sobre a emoção e o movimento gerador de tensão.
Princípios que se fazem presentes:
a) Na disposição das formas, perfeitamente equilibrada (simétrica), reparem
b) Que cristo se encontra no centro e há seis apóstolos de cada lado;
c) No equilíbrio estático (e não dinâmico) - notem que Leonardo da Vinci não explora
as linhas diagonais para distribuir os apóstolos (assim como faz Tintoretto) e sim as
linhas que dividem o quadro na horizontal e na vertical;
d) Na iluminação intensa e geral (que denota a razão) - observem que a luz se espalha
por igual em toda a tela, sem contrastes de claro e escuro
e) (Luz e sombra) como ocorre na pintura de Tintoretto;
f) No equilíbrio na disposição das cores quentes e frias;
g) Na clara delimitação dos contornos das formas/figuras, sem rebuscamento de
linhas.

23
ÉTICA FILOSÓFICA

“A Santa Ceia” de Tintoretto - Obra do Barroco


Barroco é o nome dado ao estilo artístico que floresceu entre o final do século XVI e
meados do século XVIII, inicialmente na Itália, difundindo-se em seguida pelos países
católicos da Europa e da América, inclusive o Brasil, antes de atingir, em uma forma
modificada, as áreas protestantes em prédios públicos e alguns pontos da arte e arquitetura
do Oriente.

Fonte: [Link]
Características:
Predomínio da emoção, da tensão e do movimento em detrimento da razão e do
equilíbrio.
Princípios que se fazem presentes:
a) Na disposição das formas distribuídas de maneira a gerar a ilusão (ou sensação)
de movimento - reparem que, embora Cristo se encontre no centro da tela, os
apóstolos e demais figurantes não se encontram distribuídos de igual maneira ao
seu redor;
b) No aproveitamento da diagonal que liga o canto inferior esquerdo ao superior direito
para distribuir a maioria dos participantes da ceia - este procedimento também gera
a ilusão de movimento, pois obriga o olhar do espectador a se deslocar no sentido
da diagonal sem se fixar na imagem de Cristo no centro da tela;
c) No aproveitamento, embora menor, da outra diagonal, reparem que a luz da
luminária e os anjos a sua volta, no canto superior esquerdo, encontram um certo
equilíbrio na imagem do homem de azul no canto inferior direito (que se opõe à
mulher embaixo da luz, também azul como ele);
d) No predomínio da escuridão e dos contrastes de luz e sombras;
e) No abuso dos arabescos e linhas tortuosas (especialmente na representação dos
anjos, tanto no canto superior direito quanto esquerdo, ao redor da luz) e na
indefinição dos contornos das formas devido às sombras ou até mesmo ao excesso
de luz;
f) Na "bagunça" da cena que expressa muito mais a realidade da vida do
g) Que o equilíbrio estático da pintura de da Vinci (nela todos se dispõem
artificialmente ao longo da mesa para "tirar o retrato", ou seja, fazem "pose").
Reparem que no quadro de Tintoretto há até um cachorro bebendo água na tina

24
ÉTICA FILOSÓFICA

que se encontra na parte inferior da pintura, ao centro, bem na linha que divide
verticalmente a obra ao meio (situando-se, portanto, abaixo de cristo).

2.2 A Filosofia no contexto da transição do século XVI e XVII

As concepções físicas do universo e o comportamento humano


A concepção física de que o universo não tinha centro, nem limites, e que a terra não
girava à volta do Sol, fora já sustentada na antiga Grécia, mas a concepção dominante foi
sempre a contrária. Aristóteles já havia apresentado, em defesa do geocentrismo,
argumentos que foram considerados durante séculos incontestáveis.
Estes argumentos eram validados pelas descrições do universo feitas na Bíblia. A
grande ruptura com esta concepção geocêntrica ocorreu somente no século XVI. Entre os que
contribuíram para esta transformação conceitual que então aconteceu destaca-se Nicolau
Copérnico (1473-1543). Na sua obra “Sobre as Revoluções dos Corpos Celestes” explicou de
forma pormenorizada como era mais belo ou estético que o centro do universo não fosse a
Terra, mas o Sol. Como escreveu: "Neste templo (o cosmos), o mais belo que existe, quem
poderia achar para esta lâmpada (o Sol) um lugar melhor que este (o centro), de onde pode
iluminar ao mesmo tempo todas as coisas?"
Galileu Galilei também acreditava nesta harmonia cósmica, no entanto as suas
observações levaram-no a concluir que a mesma não se encaixava na antiga concepção do
cosmos, finito e hierarquizado segundo graus de perfeição.
As observações com a luneta revelaram-lhe que a lua não era um corpo cristalino e
sem peso, pelo contrário tinha vales e altas montanhas. Acreditou mesmo que possuía rios,
mares e florestas. Esqueceu-se de afirmar era habitada.
O Sol perdeu também a sua perfeição cristalina, quando lhe descobriu manchas. Para
espanto de todos descobriu que um planeta, Saturno, era rodeado de anéis. Esta imagem era
inconcebível na concepção anterior dos astros. Todos deviam naturalmente de ser esféricos,
porque a forma mais perfeita de todas era a esfera.
Observando o movimento pendular do lampadário do Duomo de Pisa mostrou ainda
que o mesmo se devia ao movimento de rotação da Terra. Estes e outros fatos eram mais do
que suficientes para sustentar que foi ele que apresentou provas concludentes a favor da
concepção heliocêntrica do Cosmos, embora não tenha sido o seu criador.

25
ÉTICA FILOSÓFICA

A oposição entre os contextos Renascimento e Barroco pode nos mostrar como as


concepções filosóficas, o universo das ideias, estão sujeitas às transformações culturais
realizadas nos diversos períodos históricos.
Caracterizado pelo antropocentrismo, onde o homem é a principal criatura de
Deus, pelo racionalismo e pela valorização das argumentações científicas esta
concepção renascentista ainda é reforçada pelo fato de este homem ainda acreditar que
está no centro do universo – a concepção física do Geocentrismo.
Ao analisarmos a pintura da Santa Ceia de Leonardo Da Vinci podemos constatar
esta visão cultural em comparação com a Santa ceia de Tintoretto.
O universo Barroco que se situa no final do século XVI na Europa se revela através de
elementos filosóficos opostos aos do Renascimento: a assimetria, a emoção no lugar da
razão, o contraste de claro-escuro sem a inserção da natureza e reforçado agora pela nova
concepção física do universo, o Heliocentrismo onde o homem não é mais o centro do
universo e sim, uma pequena parte. Esta concepção filosofia produz um homem frágil, com
dúvidas e que valoriza o sofrimento e a emoção – elementos próprios do universo Barroco.

2.3 Francis Bacon e a crítica a esterilidade da tradição filosófica

O texto que se segue é de autoria do professor Bernardo Jefferson de Oliveira (UFMG)


estudioso da filosofia de Francis Bacon. Iremos apresentar fragmentos comentados de seu
livro Francis Bacon e a fundamentação da ciência como tecnologia. 2ª edição. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2010, pp. 61-71, buscando orientar o sentido de aprendizagem do curso de
Filosofia e Ética para o entendimento do contexto de transição do século XVI para o XVII
quando se propõe uma nova classificação e aplicabilidade dos conhecimentos. Boa leitura!

2.4 A divisão sistemática dos conhecimentos

Fonte: [Link]

26
ÉTICA FILOSÓFICA

Os amontoados de erros são tantos e tão grandes que é impossível tratá-los


isoladamente. Eles devem ser derrubados e varridos em massa. Francis Bacon
A crítica de Bacon à tradição da filosofia é variada e complexa. Embora ela seja o tema
central dos escritos O parto masculino do tempo (Temporis partus masculus, 1603), Fio do
labirinto (Filium labyrithi, 1606), Pensamentos e conclusões (Cogitata et visa de interpretatione
naturae, 1607), Refutação das filosofias (Redargutio philosophiarum, 1608), ela aparece
disseminada em boa parte de sua obra, especialmente nos livros Do progresso do
conhecimento (The advancement of learning, 1605), do Novo órganon (1620), do livro Da
dignidade e do Desenvolvimento da Ciência (De dignitate et augmentis scientiarum, 1623),
nos quais a tradição filosófica, seja em casos específicos ou em grupos, é examinada sob
diferentes aspectos, como seus objetivos, posturas e métodos.
Por causa destes diferentes aspectos em exame, alguns autores são vigorosamente
criticados em certos escritos e tidos como modelos em outros. Essa variedade se torna
especialmente complexa porque, além de criticar os equívocos do passado, Bacon busca
analisar as origens dos erros e compreender suas "razões históricas".
Ou seja, ainda que o tom de algumas passagens revele uma condenação impiedosa
até mesmo ingênua da tradição, Bacon desenvolve uma crítica mais profunda e ponderada
com um tipo de análise histórica na qual busca compreender as causas culturais e
sociopsicológicas dos pensamentos mais significativos da tradição.

27
ÉTICA FILOSÓFICA

E o que é mais interessante: juntamente com as filosofias e as condições históricas de


sua produção, busca examinar sua recepção, ou seja, a relação que as audiências tiveram
com estes textos e suas ideias.

Além disso, Bacon não deixará de examinar as condições da própria análise, isto é, os
perigos e preconceitos a que a própria investigação está sujeita. "O entendimento deve ser
preparado antes de ser instruído, e as mentes precisam ser tratadas antes de exercitadas."
Daí a necessidade de se deter no reconhecimento desses falsos ídolos e nos cuidados para
evitá-los.
Tudo isso traz dificuldades para avaliação da posição de Bacon frente à tradição, pois
se tem a impressão de ela estar pontuada por ambiguidades e contradições. Seja como for,
nosso interesse aqui é o exame das características centrais da crítica de Bacon, e não resta
dúvida de que o eixo da crítica é a esterilidade de toda a tradição filosófica, pois, para Bacon,
a filosofia como um todo, talvez com exceção de alguns raros momentos como entre os pré-
socráticos, se caracterizava pela futilidade de abstrações sem sentido e inutilidade para a
melhoria da vida dos homens.

Bacon pretende abrir ao entendimento humano uma via completamente distinta da


conhecida no passado, e o exame geral de sua posição frente à tradição nos fornece um
importante elemento para a compreensão de seu projeto, pois indica justamente o tipo de falta

28
ÉTICA FILOSÓFICA

que sua reforma deverá sanar para instaurar o programa que idealiza. Assim, a análise do
que ele considera estéril e fútil lança luz sobre o que ele concebe como a nova ciência
produtiva e fecunda. A nosso ver, a crítica de Bacon à esterilidade da tradição se desenvolve
em três vertentes: os objetivos do conhecimento, as formas de se alcançá-lo e a postura frente
a ele. Embora estas vertentes se entrelacem, vamos procurar tratá-las separadamente e nesta
ordem. Antes, contudo, é conveniente traçar, ainda que em linhas gerais, o contexto no qual
elas se formam.
No mundo intelectual da Europa do final do século XVI, Platão e Aristóteles serviam
de bases às principais correntes de pensamento. O primeiro se fazia influente através de um
platonismo cristianizado (Thomas Morus, Giordano Bruno e Campanella) ou de um
neoplatonismo que, de maneira sincrética, misturava fontes herméticas1 com outras doutrinas
espiritualistas, como se pode depreender da filosofia de Marsílio Ficino, de Pico della
Mirandola e de outros pensadores renascentistas. Já o aristotelismo imperava nas escolas,
isto é, era a base dos currículos universitários e exercia, por intermédio dos escolásticos, forte
influência na lógica e na filosofia natural.
A resistência ao aristotelismo já era relativamente difundida na época de Bacon.
Paracelso, Erasmo de Roterdan, Lutero, Ramus, Telésio, Giordano Bruno, Campanella,
Galileu e vários outros se opunham às ideias do estagirita (relativo à Estagirita – cidade natal
de Aristóteles na Macedônia) sob diferentes pontos de vista. Ou seja, embora representasse
a filosofia oficial, o aristotelismo era também o alvo preferencial de todos aqueles que, por
diferentes razões, criticavam o ensino acadêmico e o conhecimento oficial.
Entretanto, várias destas críticas e suas alternativas serão também, por sua vez,
criticadas por Bacon. Algumas destas, como a perspectiva dos humanistas, a dos
reformadores da retórica 4, não se diferenciavam muito, aos seus olhos, dos objetivos
equivocados, da linguagem artificialmente complexa e da impostura da tradição.

Os objetivos equivocados
A primeira vertente da crítica à esterilidade da tradição filosófica diz respeito aos
objetivos do conhecimento. Bacon não hesita em condenar a elevação do espírito ou a honra
pública, o prazer ou a tranquilidade da alma como fins inferiores e degenerados. A seus olhos,
a função meramente contemplativa da filosofia e a ausência de uma tentativa de compreensão
que representasse um domínio da natureza são as principais razões da estagnação, dos
"destemperos do conhecimento" e de seus procedimentos dogmáticos.
Uma das causas básicas da confusão de objetivos estava, para Bacon, "na mescla
danosa" com a teologia. Platão é condenado por sua falta de interesse pela filosofia natural e
29
ÉTICA FILOSÓFICA

por ter corrompido o estudo da natureza com a religião, o que o teria levado a entender e
explicar a natureza em termos do sumo bem. Também Aristóteles e sua doutrina da causa
final acabam segundo Bacon (The advancement of learning. VI, 223), incorrendo numa
perspectiva teleológica equivalente à de Platão. Esta perspectiva impedia, a seu ver, a busca
das causas físicas que possibilitam ter algum domínio sobre os fenômenos naturais.
Explicações finalistas sobre operações da natureza, como a de que as chuvas são feitas para
aguar a terra e as folhas das árvores para proteger os frutos, transformam, segundo Bacon, a
ciência numa teologia. As causas finais são, portanto, vistas como questões acerca da
providência divina, e suas especulações como "uma virgem consagrada a Deus, que não
produz nada".
Assim, é razoável que Bacon colocasse os pré-socráticos naturalistas acima de Platão
e Aristóteles. Especialmente Demócrito, que, a seu ver, removeu Deus e a mente da fábrica
das coisas e tratou das causas das coisas particulares como necessidades da matéria, sem
nenhuma intromissão das causas finais. Também os céticos serão reverenciados por suas
críticas às pretensões do conhecimento filosófico, mas não serão poupados da acusação de
esterilidade, por causa da desesperança e conformação que seus pontos de vista levavam.
Ao tentar compreender as razões da adoção de objetivos equivocados, Bacon se
deterá em alguns momentos na análise dos elementos psicológicos e culturais. Assim, em O
parto masculino do tempo, a incapacidade dos filósofos em procriar (filosofias estéreis em
obras) expressa uma atitude moralmente culpada, advinda da soberba daqueles que não
prestaram atenção aos limites, nem tiveram apreço pela realidade e respeito pela obra do
Criador, colocando acima de tudo “as astúcias do engenho e a obscuridade das palavras”.
Esta postura se revela, por exemplo, na pretensão de encerrar a universalidade do saber e a
totalidade da natureza em princípios e doutrinas.
Já em The advancement of learning, Bacon trata dos erros e da futilidade como
destemperos do conhecimento, que seriam de três tipos: “...o primeiro, conhecimento
fantástico, o segundo, contencioso e o terceiro, delicado. Vãs imaginações, vãs altercações e
vãs afetações”. Estes três destemperos caracterizariam as principais tendências de sua
época: neoplatonismo, escolástica aristotélica e retórica humanista.

Mas a denominação pejorativa de estéril não diz respeito somente a estas correntes,
mas ao conjunto das filosofias antigas e de sua época. Mesmo a obra do italiano Bernardino
Telesius, por quem Bacon nutre reconhecida admiração, não deixa de ser considerada,
pejorativamente, como contemplativa e pastoral.

30
ÉTICA FILOSÓFICA

A esterilidade vale frisar, não é propriamente teórica, mas em termos de frutos (obras)
que aliviem a condição material dos homens. Bacon considera os sistemas dos filósofos como
teias de aranha. Com esta imagem ele exprime, simultaneamente, a percepção de sua
perfeição e de seu deslocamento da realidade. Ou seja, reconhece a beleza e a habilidade
das mentes na construção dos sistemas que, como os fios com que as aranhas tecem suas
teias, são tirados delas mesmas, sem comércio com a natureza, e pairando acima e fora do
mundo real.
O interesse dos gregos pela teorização, que diferenciava seu conhecimento dos de
outros povos e que geralmente é visto como elemento fundador da cultura ocidental é visto
por Bacon como um equivocado excesso, que desvirtuara toda a filosofia. Isto não quer dizer
que o conhecimento operatório, que ele proporá em substituição, deva abrir mão de qualquer
teorização. Bacon defenderá, como veremos, uma verdadeira união da teoria com a prática
e, portanto, criticará também o desinteresse dos técnicos pelas teorias e métodos que
potencializassem o conhecimento-domínio da natureza e o avanço das invenções. Mas a seu
ver a "inclinação grega" fora excessiva, levando a um descaminho que praticamente
esterilizou toda tradição filosófica.
Como se pode ver, a refutação dos objetivos equivocados da tradição filosófica vai
indiretamente revelando as finalidades do programa baconiano. Ou seja, expressos
negativamente como crítica da esterilidade, os objetivos da ciência baconiana se revelarão
positivamente como transformação da ciência (filosofia natural) em tecnologia.

2.5 A Ética e a prática filosófica - Espinosa e a Filosofia da Existência

Fonte: [Link]

Baruch de Espinosa é, com toda a justiça, considerado um dos grandes da história da


filosofia — “o filósofo dos filósofos” ou, como disse Bertrand Russell, “o mais nobre e o mais
amável dos grandes filósofos”. Ainda assim, suas ideias foram amplamente rejeitadas em sua
época. Mesmo antes de escrever suas obras principais, ele foi excomungado pela
comunidade judaica de Amsterdã em julho de 1656. Tinha então 24 anos de idade. Seus
livros, quase todos publicados postumamente, foram proibidos e postos no Índex do Vaticano.
O filósofo morreu em 1677, aos 44 anos.
Entre os que influenciaram a filosofia de Espinosa, é importante destacar Aristóteles,
os Estóicos, Descartes e Giordano Bruno, este último cosmólogo e poeta além de filósofo, e

31
ÉTICA FILOSÓFICA

também vítima da ortodoxia da Igreja Católica: em 1600, foi queimado numa das fogueiras da
Santa Inquisição. Eis algumas das ideias de Espinosa:
a) A realidade é una;
b) Deus e a realidade são uma coisa só;
c) A mente e a realidade também são unas;
d) O propósito da filosofia é perceber a unidade que existe na diversidade.
Espinosa é um filósofo racional e revolucionário. A seu ver, é possível compreender a
totalidade da realidade por meio da razão (do conhecimento). Para ele, a compreensão de
tudo não é somente um simples exercício intelectual: é um exercício de liberdade. Seu ponto
de partida é ousado: se Deus é onipresente, não há como imaginá-lo fora do mundo. O divino
faz parte de tudo o que existe no mundo natural. Não é, pois, transcendente, mas sim
imanente (permanente). Na verdade, Ele é a própria Natureza, o conjunto de todos os seres,
vivos ou não, o que evidentemente inclui os humanos, suas mentes e seus corpos. Daí a
conhecida expressão espinozista: Deus sive Natura ou Natura Naturante (Deus = Natureza).
Para Espinosa Deus é livre para criar todas as coisas, pois não seria “constrangido”
(impedido) por nenhuma força estranha (lei, norma, regra, etc), e expõe a ideia de um Deus
produtor e não transcendente.
Ao contrário de Deus, o homem, segundo a filosofia de Espinosa, não teria a
possibilidade de ser livre – o homem estaria na servidão. O homem não seria capaz de efetuar
a sua própria natureza, pois estaria, ao contrário de Deus, sujeito às forças estranhas (leis,
normas, regras) que impediriam ao homem de criar algo a partir de suas próprias ideias.

Para Espinosa a Liberdade seria essencial, o elemento primordial para a criação e o


estabelecimento de novas ideias e novas proposições na natureza e o homem para
experimentar a liberdade e conhecer as coisas e o universo ao seu redor teria de ter
necessidade da liberdade para promover o seu conhecimento.

32
ÉTICA FILOSÓFICA

Espinosa e os três níveis do conhecimento humano: a consciência, a razão e a criação

Espinosa estabelece uma relação direta entre a atividade produtiva e a liberdade.


Segundo a obra de Espinosa, principalmente a “Ética”, para se produzir ou “efetuar a sua
natureza” seria imprescindível ter liberdade. Seria dessa forma que Espinosa estruturaria a
atividade divina – Deus seria livre para efetuar a sua natureza, Deus seria livre para criar.
No entanto, para Espinosa essa atividade de criação não estenderia aos homens, ou
seria quase impossível aos homens alcançar este nível do conhecimento. Espinosa estrutura
seu pensamento estabelecendo três níveis do conhecimento aos quais os homens,
eventualmente, poderiam atingir:

Dessa maneira, estão dadas as condições, segundo Espinosa para que o homem
alcance a liberdade por meio do conhecimento e consiga efetuar a sua própria natureza, ou
seja, realizar suas escolhas e produzir o seu conhecimento.

33
ÉTICA FILOSÓFICA

2.6 O desfio das diferenças

Urbana e globalizada, a contemporaneidade defronta-se com permanente interseção


cultural. Grandes debates marcam, hoje, o campo da ciência e, mais particularmente, o das
ciências humanas e sociais. O desenvolvimento tecnológico, as novas tecnologias e seus
significados éticos e sociais; a globalização da economia e da cultura e as interseções global
/ local, como reaparecimento dos grupos étnicos, o fortalecimento de fundamentalismos de
várias ordens, a organização e luta das minorias oprimidas; a diluição das fronteiras e a

34
ÉTICA FILOSÓFICA

reconfiguração dos grupos de pertencimento e os sentimentos identitários; a homogeneização


e a instantaneidade da informação concomitante à proliferação das formas comunicativas; a
individualização da sociedade e a personalização dos interesses, aliadas à busca das
vivências grupais e à reativação dos laços comunitários; a presentificação da temporalidade
contemporânea e o obscurecimento da ideia de futuro são temáticas que, acolhendo
contradições e marcando a diversidade desafiadora do contemporâneo, instigam o trabalho
do conhecimento.
A globalização, os avanços tecnológicos e seus efeitos sobre o trabalho, a constituição
da sociedade informacional, a ocidentalização da cultura e a superexposição da mídia são
processos contemporâneos que produzem mudanças nos modos de estar e sentirem-se
juntos, desarticulam formas tradicionais de coesão e modificam modelos de sociabilidade.
A diversidade marca territorialmente nossos espaços de viver a partir de formas de
vida específicas, que se refletem em padrões de comportamento diversos e, às vezes, em
tensões e conflitos.
A gestão dessas tensões e a construção da convivência com o respeito à diferença
são alguns dos desafios mais importantes que todas as sociedades enfrentaram ou têm
enfrentado. A expressão da diversidade cultural, das tensões daí advindas, da riqueza de
possibilidades contidas nessa diversidade ocorre, preferencialmente, nas cidades.
As cidades crescem e a população mundial se concentra cada vez mais nas zonas
urbanas. As cidades se convertem no principal lugar da diversidade cultural, dos contatos e
da criatividade cultural. Mas essa diversidade implica um desafio: encontrar os meios
institucionais capazes de garantir a interculturalidade, principalmente nos tempos atuais, com
um espírito de paz e democracia.
Nesse contexto, as cidades aparecem como imensos caleidoscópios (mosaicos) de
padrões, valores culturais, línguas e dialetos, religiões e seitas, etnias e raças. Modos distintos
de ser passam a concentrar-se e a conviver em um mesmo lugar.
Os tempos atuais produzem, simultaneamente, o desenvolvimento de uma cultura de
massa por intermédio dos meios de comunicação e o florescimento das chamadas culturas
locais. Esses dois elementos da transformação cultural encontram um lugar privilegiado nas
cidades, onde formam parte de um processo amplo de construção de identidades.
As cidades são o espaço da diversidade, do encontro com o estrangeiro, do
reconhecimento da distinção entre o “eu” e “os outros”. A tendência da globalização – um
mundo “uno”, interconectado e interdependente – supõe, simultaneamente e como parte de
um mesmo processo, a reafirmação da diversidade cultural e das identidades locais e
nacionais.
Hoje, temos uma profunda mudança na compreensão do que entendemos por
diversidade. Até há algum tempo, diversidade cultural era entendida como heterogeneidade
radical entre culturas, cada uma delas enraizada em um território específico, dotada de um
centro e de fronteiras nítidas. Qualquer relação com outra cultura se dava como estranha /
estrangeira e, concomitantemente, perturbação e ameaça em si mesma, para a identidade
própria.
O avanço tecnológico dos transportes e da comunicação “borrou” o tempo e o espaço,
derrubando as barreiras que rodeavam as culturas. O processo de globalização que agora
vivemos, no entanto, é, ao mesmo tempo, um movimento de potencialização da diferença e
de exposição constante de cada cultura às outras, de minha identidade àquela do outro.

35
ÉTICA FILOSÓFICA

Reaparece a noção de fronteira, dentro da cidade, à medida que a multiplicação de


identidades está ligada à multiplicidade de territórios, às desigualdades sociais e à distinta
capacidade de acesso a serviços. Ao mesmo tempo, surge um futuro delineado por forças
econômicas, tecnológicas e ecológicas que exigem integração e uniformização e engendram
comportamentos idênticos em toda parte, moldados por um padrão urbano e cosmopolita (que
é composto por indivíduos de origens culturais distintas).
Isso passa a exigir um permanente exercício de reconhecimento daquilo que constitui
a diferença dos outros como enriquecimento potencial da nossa cultura, e uma exigência de
respeito àquilo que, no outro, em sua diferença, há de intransferível, não transigível e,
inclusive, incomunicável. A cultura se encontra no centro dos debates contemporâneos sobre
a identidade, a coesão social e o desenvolvimento de uma economia fundada no saber, que
tem levantado algumas questões:

2.7 Cultura e Diversidade - Considerações sobre a multiplicidade das manifestações

Milton Moura4

A discussão sobre diversidade cultural ocupa lugar de destaque na ordem política


internacional. A Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (UNESCO, 2001), resultado
da Conferência de Estocolmo, realizada em 1998, sinaliza a relevância da temática. A
diversidade cultural é colocada no mesmo plano dos direitos econômicos e sociais e remete
a uma conceituação de cultura consideravelmente ampla, fortemente ancorada na discussão
antropológica.

4
Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Professor Associado do Departamento de História na Universidade Federal da

Bahia (UFBA) / Brasil.

36
ÉTICA FILOSÓFICA

Afirma-se em diversos momentos a diversidade cultural como compatível com a


unidade do gênero humano e com o intercâmbio entre diferentes culturas. Aspectos
quantitativos e qualitativos são integrados no bojo de sua definição. Diante do impacto das
novas tecnologias, o documento apresenta-se otimista no que se refere às possibilidades de
diálogo. Em alguns trechos, diversidade cultural é identificada com democracia.
São várias as questões que poderiam ser culturais entre os povos e a dobradas a partir
destas observações iniciais. Aos efeitos da forma de interpretação da presente reflexão, cabe
destacar aqueles que dizem respeito à definição daquilo que poderia ser tomado como uma
unidade cultural. Em que sentido, em que medida, de que forma podemos falar em “uma
cultura” ou “cada cultura”? Quando nos referimos aos nossos “campos”, muitas vezes
plataformas de aplicação de nossos conceitos, problemáticas e hipóteses, não são raras
expressões como “na cultura deles”, “são culturas completamente diferentes”, etc.
Um problema que surge à primeira leitura dos documentos e da bibliografia ensaística
dedicada ao tema se relaciona aos contornos do que se chama, na maioria das vezes de
modo simplificado, “cultura latino-americana”, “cultura negra”, “culturas indígenas”, etc. Estas
expressões são frequentes em formulações programáticas e estratégicas de organismos
como a International Network for Cultural Diversity (INCD) e a International Network for
Cultural Policies (INCP). No Brasil, esta temática alcançou uma visibilidade maior por ocasião
da assembleia da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD),
realizada em São Paulo em 2004.
Apesar do esforço de diversas redes de discussão, de produção cultural e de militância
política, restam lacunas a merecer equacionamento e aprofundamento. De Bernard (2005)
coloca a necessidade de considerar cinco dimensões da diversidade cultural para que este
conceito possa ser estabelecido de forma mais consistente:
a) Diversa, pelo qual a própria compreensão da diversidade cultural precisa superar
a suposição de que a simples pluralidade ou multiplicidade já seria, por si,
diversidade;
b) Cultural, repelindo o equívoco de identificar biodiversidade e diversidade cultural,
ou mesmo extrapolar a lógica histórica em busca de homologias ou analogias entre
os dois termos do binômio, porquanto a cultura é invenção humana e fluxo contínuo
de criação e conflitividade;
c) Dinâmica, o que coloca sob suspeita a perspectiva simplificada – às vezes,
simplória – de “preservar” ou “manter”;
d) Questão e resposta – política, social, Pedagógica e econômica – a desafios
percebidos na cena dramática da contemporaneidade; Projeto, utopia, ponto de
tensão, em vez de “ideal”.
Uma formulação assim radical de um projeto de reflexão aponta para bem mais que o
estabelecimento da diversidade cultural – ou multiculturalismo e interculturalíssimo – como
mais um modismo. Isto viria a coincidir com o interesse dos grandes grupos empresariais para
os quais a diversidade bem poderia ser uma configuração pictórica de diferentes, qual um
outdoor da Coca-Cola. O resultado cumulativo da presença de militantes de diversas minorias
sociais na cena midiática não deixa de corresponder inclusive ao apelo consumista diante de
novas categorias de consumidores.
É interessante registrar as interseções genéticas entre os conceitos de diversidade
cultural e de biodiversidade (SEGOVIA, 2005). É daí que se pode partir para compreender o
caráter até certo ponto sagrado de cada unidade chamada, numa simplificação às vezes
37
ÉTICA FILOSÓFICA

inevitável, de “cultura”, na acepção de “uma cultura”, de “cada cultura”. Assim, cada cultura
seria intransferível, singular, a ser admirada e defendida contra as ameaças à sua
continuidade. O desaparecimento de cada cultura seria uma perda irreparável, já que cada
unidade cultural seria intransferível e irrecuperável. Este paralelo, contudo, não deixa de
oferecer dificuldades.
No campo sociológico, a reflexão deve considerar outros elementos. Anthony Giddens
(1991) deixou patente a importância dos mecanismos de transferência de elementos (inclusive
culturais) de uma sociedade a outra. O próprio MiKhail Bakhtin (2001), com o conceito de
dialogismo, já havia tematizado a importância dos trânsitos entre enunciados de sujeitos os
mais distintos. Numa apropriação singular desta Figura 6 - Dialogismo é uma figura de
linguagem, intuição, Ginzburg (1987) criou o conceito de circularidade cultural, que dá conta
de trocas entre sujeitos situados em classes sociais não somente diferentes, como
antagônicas.
Não é raro observar que a visão veiculada pelas mídias acerca da diversidade cultural
supõe o mundo como uma pluralidade de estados-nações com um território definido, um
governo efetivo e uma população estável com ligações culturais comuns (GOLDSMITH,
2005). E não é difícil imaginar que esta tendência seja hegemônica nos ambientes e ocasiões
em que os diferentes estados-nações se fazem participar mediante seus representantes
intelectuais e/ou políticos. A unidade básica quando se fala de cultura, no caso, se pauta sobre
as linhas do estado-nação; como se diz na linguagem comum, o “país”.
A partir, sobretudo do final dos anos ’80, com o desmoronamento da Iugoslávia e da
União Soviética, o que pareciam simplesmente “países” se revelaram somatórios complexos
de unidades sócio-político-culturais que em processos muito violentos foram reunidos sob o
mesmo Estado, configurando, no mapa, uma unidade. Quase de repente, apareceram “outros
países”...
Entretanto, é mais fácil perceber à distância a falácia da unicidade cultural como
contrapartida da unidade político-institucional. De perto, resulta desconfortável reconhecer
que somos múltiplos, diversos, e que a compatibilização de unidades muito diferentes é
viabilizada mediante estratégias complicadas e nem sempre exitosas. Não é raro sentirmos
certo escrúpulo cívico diante da percepção de problemas relacionados à constatação de que
é artificial a “unidade da nação brasileira”.
Onde ficaria, então, aquilo que cultivamos como “a pátria”, o construto sócio histórico
ao qual o senso comum e a maior parte dos agentes midiáticos se referem como “a nação
brasileira”, “nosso Brasil”, “nosso país”, etc.? Não seria mais cômodo cultuar a “nação” amada
a partir de sua compreensão como unidade simplificada? A historiografia não costuma
registrar épocas em que o cultivo do civismo e do ufanismo nacionalista coincide com o
reconhecimento da pluralidade ou do pluralismo.
Em cada unidade nacional politicamente definida, diversos tipos de elite tomam para
si a tarefa de registrar o que é “daqui” e o que é “dos outros”; que maneira de falar seria
simplesmente a maneira de falar, que outras seriam “sotaques”; o que seria risível aqui e ali
e o que, no âmbito do risível, seria ridículo; o que seriam o culto e o brega; o que seria o
oportuno, o conveniente, o que sempre cabe corretamente... e o que seria chulo, medíocre,
impertinente.
Trata-se de administrar a diversidade para que sempre tenda a uma subsunção pela
unicidade da referência principal. As agências hegemônicas no campo da mídia –

38
ÉTICA FILOSÓFICA

principalmente no caso da televisão – integram diversos ícones da diferença em seus


programas humorísticos, mediante o recurso da derrisão.
Esta é provavelmente a visibilidade mais grosseira de uma concepção de diversidade
mesquinha e perversa.

3 INDÚSTRIA CULTURAL E IDENTIDADE

A noção de identidade é um processo contínuo de elaboração de um conceito estável


de si mesmo como indivíduo e adoção de um sistema de valores que promove um senso de
direção. É um processo no qual se forma a autoimagem, a integração das ideias sobre si e
sobre o que os outros pensam de você. Um dos componentes que promove a elaboração da
identidade do indivíduo é o processo de identificação com o outro ou com modelos de
referência.

3.1 Indústria Cultural e o conflito de gerações - Identidade

Seu desenvolvimento envolveria busca por autoafirmação, papéis e inserções nas


estruturas sociais, formando-se princípios e valores orientadores de conduta, resultando, em
geral, numa afirmação pessoal e social, de que se é alguém, e de que se ocupa um lugar no
mundo.
A noção de identidade cultural implica também, na construção de um senso de direção,
de uma estrutura psicológica e emocional que possa promover certa noção de equilíbrio de
atitudes, valores e princípios norteadores para que o indivíduo consiga assumir a vida adulta
e social, que lhe é pedida pelo desenvolvimento físico, psicológico e social a que todos estão
sujeitos, elaborando um quadro psicológico diante de si, do mundo e dos outros.
Para Ciampa a principal motivação do consumidor é a busca de uma identidade
própria, pois consumindo é que adquire uma identidade, a sua forma de interagir com o mundo
está ligada a seu auto identidade, como ele se vê e como os outros o vem, realizando uma
troca de identidades. A busca pela satisfação, não deixa espaço para a reflexão, o que leva a
uma desconstrução, fragmentação do sujeito e uma perda de referências.

A lógica capitalista busca igualar a todos. A mesma lógica se perpetua para o resto:
“se você é pobre é porque não trabalha o suficiente”. Com isso a indústria cultural promove,
segundo Adorno e Horkheimer, a “homogeneização das consciências”. Isso faz com que os
sujeitos passem a se esforçar e trabalhar mais, atendendo assim, a necessidade do sistema,
39
ÉTICA FILOSÓFICA

e o sistema se utiliza do homem para circular mercadoria. Não existe nenhuma tecnologia
criada para o benefício do homem, ela existe para atender as necessidades do sistema. E é
este pretenso caráter de neutralidade, que permite e reforça a ideologia.
Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias, casa, alimento,
roupa, a produção irresistível da indústria de diversão e informação, trazem consigo atitudes
e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais, que prendem os consumidores
aos produtos. Os produtos doutrinam, manipulam, promovem uma falsa consciência. Estando
tais produtos à disposição de maior número de indivíduos e classes sociais, a doutrinação
deixa de ser publicidade para tornar-se um estilo de vida (MARCUSE, 1982, p.31 e 32).
O fetiche é criado pela própria mercadoria com seu poder de sedução, na qual ela trará
prazer e satisfação, que gera uma necessidade no indivíduo mesmo que esta não exista. Mas
isso não se dá de forma inconsciente, pois o indivíduo quer fazer parte da massa, ele precisa
ter e consumir aquilo que os outros têm e consomem para tentar se igualar ao outro, e esse
comportamento é captado pelo marketing para manipular o desejo do indivíduo. A indústria
cultural obtém assim, uma homogeneização dos comportamentos, e a massificação do
sujeito.
Poder comprar é o que classifica o sujeito a um determinado grupo social, gerando um
desejo enorme de se ter para poder ter uma identidade parecida com o outro, o qual é motivo
de inveja. Se antes valorizava o SER, hoje valoriza o TER (BAUDRELLARD, 1995).
Para Marcuse, a dominação funciona como administração total das necessidades e
prazeres, escravizando o homem no trabalho e no lazer, preenchendo o tempo livre dos
indivíduos com programações dirigidas, fabricando uma humanidade apta a consumir objetos
inúteis, cuja obsolescência fora desejada. (MARCUSE apud, NAZÁRIO, 1998, p.84).
As pessoas querem CONSUMIR estilos de vida, em busca da satisfação desejada
frente à frustrante realidade. Estilo de vida pode ser definido como mais ou menos uma série
de práticas, da qual os indivíduos abraçam, não apenas por satisfazerem necessidades úteis,
mas porque elas dão forma material para uma narrativa particular de auto identidade. São
práticas rotineiras, as rotinas incorporadas aos hábitos de vestir, comer e modos de agir.
A gama de informações e pressões a que estão submetidas as pessoas inseridas na
faixa dos que são capazes de consumir, é enorme. Isso causa não só uma angústia, por
maquiar um perfil a ser aceito socialmente, mas denuncia o vazio ao qual estão submetidos,
haja vista o processo de anulação dos quais muitos se revestem em prol de uma aceitação
social. A sociedade contemporânea, diluída e efêmera, constrói padrões de aceitabilidade
social que conflitam com o perfil almejado por muitos indivíduos. Comentando sobre a cultura
do consumo, as pessoas gastam um dinheiro que não possuem, para comprar coisas que não
necessitam, para impressionar pessoas que não conhecem.

3.1 Mídia, comportamento e identidade

Vimos que o marketing não “cria” o desejo de consumo, concordando com a posição
de KELLNER (2001) que entende que nem sempre a mídia atinge seu objetivo de
manipulação, e que não se pode atribuir a mídia tamanho poder de determinação, pois “o
público pode resistir aos significados e mensagens dominantes, criar sua própria leitura e seu
próprio modo de apropriar-se” (2001, p.11) dos produtos midiáticos. Segundo este autor a
mesma mídia oferece os instrumentais, para que o sujeito se oponha aos modelos

40
ÉTICA FILOSÓFICA

hegemônicos. O sujeito não obedece a normas rígidas de consumo, pois obedece a impulsos
de ordem “individual e intersubjetiva”. O poder da mídia reside em centralizar informação,
entretenimento e negócios em um único espetáculo, que através do marketing e da
propaganda serve para disseminar tendências, estilo e comportamento.
No que tange a origem do consumo, havíamos partido da leitura marxista de que com
o advento da Revolução Industrial, o aumento da oferta e o barateamento dos produtos,
propiciou um aumento no consumo, ou seja, a mercadoria gerando a necessidade de nova
mercadoria, num ciclo vicioso que alimenta o capital.
No entanto, segundo a pesquisadora TASCHNER (1997) o consumo de bens
supérfluos tem sua origem nas cortes europeias, tendo início na Idade Média e seu apogeu
no Absolutismo (Sec. XIV à XVII). “É o padrão de consumo desenvolvido por esse segmento
- que depois se populariza através de um processo de mudanças promovidas pelas camadas
sociais que se situam mais abaixo dele - que parece estar na base da cultura do consumidor.
” (p. 08). Este consumo vem em substituição aos troféus e títulos de nobreza, servindo para
diferenciar o seu possuidor dos demais e desta forma, chamar a atenção do rei, o que pode
ser traduzido como símbolo de prestígio.
“Uma vez admitido no círculo encantado da corte, um nobre teria de gastar
ruinosamente para permanecer lá. Ele precisava de roupas bordadas com fios de ouro e prata
e de joias brilhantes para usar nos bailes; um estábulo para cavalos e uma matilha de cães
de caça; carruagens com interior de veludo e painéis pintados para que pudesse acompanhar
o rei em migrações para outros palácios; casas e mobília adequadas para que ele pudesse
oferecer jantares e festas dançantes para a corte; e dúzias de valets e empregados para tornar
todo o resto possível. Com raras exceções os cortesãos contraíam dívidas imensas... [e então]
dirigiam-se ao monarca para obter ajuda financeira” (p. 20/21).
Sendo assim, a cultura do consumo se dá a partir do momento em que não os bens,
mas a imagem desses bens se torna acessível a todos na sociedade.
Temos então, que “os homens se preocupam em manter ou construir certa imagem”.
Formar, nos outros, uma representação de si. (...). Daí a necessidade de uma identidade
mediadora que nos permita comunicar quem somos. Que garanta a ilusão de um ser imutável
e conhecível. (MEUCCI, p. 1), esta identidade mediadora, é feita através do consumo.
Sendo assim, concluímos que a formação da identidade do sujeito, não se dá através
do consumo, mas é através dele que o sujeito constrói a sua identidade virtual, a forma com
que se apresenta e quer ser reconhecido, que segundo Goffman, esconde as marcas de suas
vulnerabilidades.

41
ÉTICA FILOSÓFICA

3.2 O processo de globalização e a perda das identidades culturais Indústria Cultural


e Identidade5

Atualmente grande parcela da população mundial possui acesso a algum tipo de


informação, seja ela por meio de rádio, televisão, internet, ou qualquer outro meio de
comunicação midiático, isto se deve a globalização, que tem como função principal a
facilitação da comunicação global. Com o passar do tempo, essas ferramentas de diálogo tão
prósperas se resumiram a uma indústria de imagens, consolidando assim, a chamada
Sociedade do Espetáculo.
Segundo Maria Rita Kehl (2004), nesta sociedade o que se configura determinante
para a existência do homem, é sua imagem. Passado por um processo sociohistórico, o
homem, com a invenção de tantos recursos visuais se tornou um ser de aparências, no qual
a visibilidade dá ao indivíduo o certificado de que o mesmo existe, sendo este proporcionado
pela mídia. Portanto, ser visto e reconhecido pelo outro, confere ao indivíduo status e
identidade, fazendo com que o mesmo deixe de ser meramente um anônimo, ou até mesmo
um ser invisível. O advento da televisão e do computador, juntamente com as possibilidades
que estes abriram, foi o marco preponderante para permitir ao sujeito existir por meio da
imagem.
Debord (1998) traduz bem a atual situação, segundo ele, a sociedade passou por
duas fases distintas: Na primeira para SER era preciso TER, e na segunda que se trata da
contemporaneidade, é a sociedade do espetáculo, em que é preciso TER para PARECER, e
isso nada mais é do que uma forma de dominação da economia capitalista. Contudo, a
dominação pelo aspecto econômico já está consolidada e por isso, tem-se agora a dominação
pela imagem, onde a mídia nada mais é do que a soma dos poderes políticos e econômicos.
É a mídia ordenando o que se precisa ter e consumir e ao mesmo tempo, organizando o
tempo e lazer das pessoas.
Marcondes Filho diz que aparecer, mostrar-se na televisão tornou-se tão importante,
pois o mundo real está cada vez mais distante. O contato pessoal, a intimidade com o outro
são consideradas coisas do passado, nesta era da internet.
Para Calligaris (2007), “a invisibilidade é mais intolerável do que a prisão”. Segundo o
autor, diferentemente do que o leigo entende por narcisismo, ou seja, o sujeito egoísta que se
ama, e adora se ver no espelho, a personalidade narcísica, tem como fator determinante a
insegurança. E por isso, o narcisista vive se perguntando se os outros gostam dele, se ele é
amado pelos seus familiares, enfim, ele depende do “ olhar do outro”, para se enxergar.
Sendo assim, na visão deste autor, “não estamos vivendo na sociedade do cada um
por si, e sim em uma sociedade em que cada um depende do outro”, onde só nos constituímos
como sujeitos “SE”, o outro nos reconhece como tal.
Marcuse (1998) salienta que com a desestruturação da família burguesa, o indivíduo
antes socializado e formado por ela, também entra em decadência. Agora, o ego do indivíduo
é formado não mais pela família, mas sim pela indústria cultural.

5
O presente texto é uma publicação da Revista Virtual “Psicologado Artigos de autoria de um grupo de pesquisadores: Adalto

Pedreira, Carolina Ovalle, Caroline Dutcovsky, Juliana Ivantes, LaisMortean, Leonardo Bourroul, MarcelleXanthopoylos, Maria
de Lourdes Palmieri, Sthefanny Ferrari, Thais Peixoto.

42
ÉTICA FILOSÓFICA

Desta forma, o indivíduo identifica-se com a sociedade, porém sem crítica, uma vez
que ele não está apto para isso, pois foi socializado para não identificar as contradições e por
consequência para que não tenha uma consciência crítica. O pai antes o líder da família, é
agora substituído pelos ídolos produzidos pela indústria cultural.

A relevância dessa abordagem reside em estudar a sociedade em que o consumo é


cultuado e incentivado, o sujeito desejante de reconhecer-se inserido neste mundo, pode vir
a abdicar de sua verdadeira identidade, em função da identidade de marca, tornando-se
assim, uma espécie de robô programado para consumir. Isto, para uma realidade tão
perversa como a brasileira, em que a distância que separa ricos e pobres é uma das maiores
do planeta, pode ser causa de inúmeras doenças psicopatológicas, tais como, sentimento de
incapacidade, depressão, dentre outras. Outro fator digno de análise é a inadimplência.

3.3 Consumo

Conforme Marcondes (1985), a mídia não é simplesmente uma forma de manipulação


das massas e/ou uma forma de explorar o público por meio da sedução das “modas”
apresentadas nas telas, rádios e internet, mas o que se passa nestes veículos de
comunicação vão ao encontro de necessidades reais do público, por exemplo, o fascínio que
a mídia exerce nas pessoas através da fantasia (que é confundida com o real, como sugere
Augé, 1994: “(...) Não é mais a ficção que imita o real, mas o real que reproduz a ficção”), que
é uma via facilitadora de acesso e desejo do consumo.
Isto se dá, pois a necessidade do “ter” e do “possuir”, é uma das principais
características da sociedade em que nos encontramos atualmente, em que a partir do
momento que o indivíduo se sente seduzido por dado objeto, seja ele qual for, há certa
pressão para que este consuma independentemente da sua real necessidade, formando
assim uma espécie de necessidade aparente, ou seja, o que um indivíduo consome não é
necessariamente o que ele precisaria consumir para sua sobrevivência como ser humano,
mas sim, para sobreviver em dado grupo e/ou sociedade (culturalmente falando).
“A mídia serve ao Senhor do Capital, que tem a função de promover novos desejos e
necessidades. Cada produto anunciado não é apenas uma coisa material, ele é envolvido de
carga emocional, a indústria cultural tem como função promover necessidades constantes,
novas formas de apresentação, porém baseando nos velhos esquemas” (GARÇÃO, apud
43
ÉTICA FILOSÓFICA

ADORNO). O que a mídia, tenta vender é a felicidade através do consumo. Porém para
Marcuse (1979), a felicidade é incompatível com o modo de vida capitalista, o pensamento
otimista paralisa, porque não nega a realidade, mantêm-se preso a uma ilusão. Mas, esta
ilusão precisa ser mantida, os sujeitos precisam acreditar na realização individual, precisam
acreditar que têm controle sobre a sua vida, que possuem liberdade de escolha, quando na
verdade essa pretensa liberdade é mais uma das categorias ideológicas, pois acreditando que
têm poder de decisão, os indivíduos não resistem ao controle imposto pelo sistema. Isto
implica em que o indivíduo precisa consumir para se constituir como sujeito.
... A crença na independência radical do ser individual em relação ao
todo nada mais é do que uma aparência. A própria forma do indivíduo
é a forma de uma sociedade que se mantém viva em virtude do
mercado livre, no qual se encontram sujeitos econômicos livres e
independentes. (HORKHEIMER & ADORNO, 1973, p. 53)
De Sales e Maldonado, elaboram um estudo sobre o consumo de produtos piratas e
veem que o consumo, principalmente da moda, estabelece uma distinção clara de classes
sociais, e que a pirataria fenômeno do sec. XX permite a discussão sob dois ângulos distintos:
o da exclusão, uma vez que as classes menos favorecidas não têm acesso aos produtos de
luxo, e o da inclusão, feita através dos produtos pirateados.
Para isso, realizam uma pesquisa e dão-se conta que o consumo de produtos piratas
não se dá exclusivamente pelas classes menos favorecidas, mas também por aqueles que
embora tenham condições econômicas para isso, não têm acesso aos produtos originais, por
residirem em cidades onde essas marcas não são comercializadas.
A marca dos produtos, por si só é capaz de estabelecer a distinção entre ricos e
pobres, se antes o consumo do produto se dava pela necessidade e pela qualidade, agora
este consumo se faz através dos logotipos que identificam a classe social de seus
consumidores, com a clara intenção de estabelecer o distanciamento entre as classes sociais,
através do consumo de produtos caros, porque são feitos para poucos. Por outro lado, temos
as classes menos favorecidas economicamente, que com a clara intenção de imitar o estilo
de vida dos mais favorecidos, buscam os produtos piratas, como forma de identificação e
simbolicamente de inclusão.
As grandes marcas investem pesadamente em marketing buscando diferenciar seu
produto, conferindo a seus possuidores status, beleza e poder, mas embora esta publicidade
seja dirigida a um público específico (que detêm poder de compra), introduz nas classes
menos favorecidas o desejo, por estes mesmos produtos que são proibitivos para eles.
Desta forma, estabelece-se o consumo em nível simbólico, onde o consumo tenta
suprir a falta. Por isso, o produto pirateado, pode ser visto como uma forma de inclusão. Para
os países que fabricam os produtos piratas é uma forma de gerar emprego e renda, enquanto
para os consumidores, é uma maneira de atingir pertencimento, se sentir mais próximo da
elite formadora de opinião, o que de outro modo, não seria possível, tendo em conta a enorme
distância entre o poder de compra da elite e os demais membros da sociedade. As autoras
concluem que o absurdo aumento no consumo de produtos pirateados, está longe da
necessidade, e encontrase situado no campo do sonho e da ilusão de alcançar o status da
classe dominante, no desejo do “TER” para “SER”.

44
ÉTICA FILOSÓFICA

3.4 Globalização e Identidade em Milton Santos

Wagner Costa Ribeiro


Departamento de Geografia - Universidade de São Paulo

A obra de Milton Santos pertence ao grupo de produções intelectuais que busca o


pensamento crítico a esse estado da vida contemporânea. Em diversas passagens de seus
livros e artigos ele afirmou pretender construir um mundo diferente daquele em que vivemos.
Este artigo aborda a interpretação do geógrafo brasileiro sobre a globalização, tratada em sua
dimensão cultural, econômica e por fim, solidária, promovendo um diálogo com outros autores
que trataram do tema.

O que é globalização?

Fonte: [Link]

A difusão do termo globalização ocorreu por meio da imprensa financeira internacional,


em meados da década de 1980. Depois disso, muitos intelectuais dedicaram-se ao tema,
associando-a à difusão de novas tecnologias na área de comunicação, como satélites
artificiais, redes de fibra ótica que interligam pessoas por meio de computadores, entre outras,
que permitiram acelerar a circulação de informações e de fluxos financeiros. Globalização
passou a ser sinônimo de aplicações financeiras e de investimentos pelo mundo afora. Além
disso, ela foi definida como um sistema cultural que homogeneíza, que afirma o mesmo a
partir da introdução de identidades culturais diversas que se sobrepõem aos indivíduos. Por
fim, houve quem afirmasse estarmos diante de um cidadão global, definido apenas como o
que está inserido no universo do consumo, o que destoa completamente da ideia de cidadania
(Ribeiro, 1995). Porém

45
ÉTICA FILOSÓFICA

A globalização é discutida, segundo as categorias tempo/espaço, no âmbito do


sistema-mundo, na pós-modernidade e à luz dos conceitos de nação, mercado mundial e
lugar. Tornada paradigma para a ação, a globalização reflete nos Estados-nação exigindo um
protecionismo que em tese se contradiz com a demanda "livre e global" apregoada pelos
liberais de plantão. Porém, ao olhar para o lugar, para onde as pessoas vivem seu cotidiano,
identifica-se o lado perverso e excludente da globalização, em especial quando os lugares
ficam nas áreas pobres do mundo. Ao reafirmar o mesmo, a globalização econômica não
consegue impedir que aflorem os outros, resultando em conflitos que muitos tentam dissimular
como competitividade entre os Estados-nação e / ou corporações internacionais, sejam
financeiras ou voltadas à produção. A globalização é fragmentação ao expressar no lugar os
particularismos étnicos, nacionais, religiosos e os excluídos dos processos econômicos com
objetivo de acumulação de riqueza ou de fomentar o conflito (Ribeiro, 2001).
A obra de Milton Santos contribuiu para precisar o fenômeno da globalização. Mas o
autor queria mais. Ela chegou a propor uma outra globalização, baseada na solidariedade,
embora reconhecesse que ela afetou a cultura atual.
A obra de Milton Santos caracterizou-se por apresentar um posicionamento crítico ao
sistema capitalista e aos pressupostos teóricos predominantes na ciência geográfica de seu
tempo. Diante desse pensamento, propôs – fazendo eco a outros pensadores de seu tempo
– a concretização de uma “outra Globalização”, marcada pela crítica ao poder e pela
predominância do pensamento marxista. Nessa obra, defendia também o caráter social do
espaço, que deveria ser o principal enfoque do geógrafo.
Sobre a globalização, Milton Santos era um de seus críticos mais ferrenhos.
Em uma de suas mais célebres frases, ele afirmava que “Essa globalização não vai
durar. Primeiro, ela não é a única possível. Segundo, não vai durar como está porque como
está é monstruosa, perversa. Não vai durar porque não tem finalidade”.
Em uma das suas obras mais difundidas pelo mundo – “Por uma outra globalização” –
, muito lida por “não geógrafos”, Milton Santos dividiu o mundo em “globalização como fábula”
(como ela nos é contada), “globalização como perversidade” (como ela realmente acontece)
e “globalização como possibilidade”, explorando a ideia de uma outra globalização.

3.5 Globalização e cultura

Diferente do que afirmam alguns pesquisadores, que acreditam no estabelecimento


de uma homogeneização da cultura, do sistema de valores, a partir da globalização, Milton
Santos concebe que "cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma
razão local, convivendo dialeticamente" (Santos, 1996:273). Para ele, a importância de
estudar os lugares reside na possibilidade de captar seus elementos centrais, suas virtudes

46
ÉTICA FILOSÓFICA

locacionais de modo a compreender suas possibilidades de interação com as ações solidárias


hierárquicas.
O sociólogo brasileiro Renato Ortiz (1994) afirma que existe uma cultura mundialização
que se expressa na emersão de uma identidade cultural popular, cujos significados estariam
dispersos pelo mundo. Como exemplo cita redes de alimentos e marcas de produtos de
consumo que seriam facilmente identificáveis de um estilo de vida global. Para Santos,
"O homem vai impondo à natureza suas próprias formas, a que podemos chamar de
formas ou objetos culturais, artificiais, históricos" (Santos, 1988:89).

3.6 A globalização solidária

Menos que ser contrário à globalização, Milton Santos estava mais preocupado em
construir um sistema teórico que permitisse elaborar outra maneira de congregar pessoas em
escala internacional. Propunha a solidariedade como medida para a relação, que deveria ser
praticada em prol da cidadania. Já em meados da década de 1980 Santos apontava sua
compreensão da cidadania. Distinguia os consumidores dos cidadãos, escrevendo que:
“O consumidor não é cidadão. Nem o consumidor de bens materiais, ilusões tornadas
realidades como símbolos; a casa própria, o automóvel. Os objetos, as coisas que dão status.
Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais, regalias de um consumo elitizado como o
turismo e as viagens, os clubes, e as diversões pagas; ou de bens conquistados para
participar ainda mais do consumo, como a educação profissional, pseudo educação que não
conduz ao entendimento do mundo” (1987:41)
Em suas palavras encontra-se um posicionamento claro contra o consumismo que
conduz o modelo de reprodução do capital. Ainda que tenha afirmado em mais de uma vez
que não gostava do tema, pode-se identificar também uma inquietação ambientalista em seu
posicionamento claro contra o desperdício de material. E ele atacava ainda os consumidores
de artigos da chamada indústria cultural, aqueles que imaginam estar fora do reino dos mortais
haja visto estarem focados em bens imateriais, em manifestações do espírito por meio das
artes e da informação.
Em sua argumentação não restava lugar entre os cidadãos nem mesmo para o eleitor,
que:
Não é forçosamente cidadão, pois o eleitor pode existir sem que o
indivíduo realize inteiramente suas potencialidades como participante
ativo e dinâmico de uma comunidade. O papel desse eleitor não-
cidadão se esgota.
Não é forçosamente cidadão, pois o eleitor pode existir sem que o
indivíduo realize inteiramente suas potencialidades como participante
ativo e dinâmico de uma comunidade. O papel desse eleitor não-
cidadão se esgota no momento do voto (SANTOS, 1987).

Quem seria, então, o cidadão para Milton Santos?

O cidadão é multidimensional. Cada dimensão se articula com as


demais na procura de um sentido para a vida. Isso é o que dele faz o

47
ÉTICA FILOSÓFICA

indivíduo em busca do futuro, a partir de uma concepção de mundo”


(SANTOS, 1987).

Poder projetar o futuro, vislumbrar perspectivas dignas da existência, poder expressar


sua maneira de entender o mundo, por meio de crenças, manifestações culturais e práticas
sócio-políticas, com qualidade de vida, isto é, habitando um ambiente agradável e sustentável,
provido de água, calor e energia na medida adequada, com assistência médica e alimento de
qualidade são características que sintetizariam o cidadão do mundo contemporâneo, em meu
entendimento. Neste sentido, não há cidadão no mundo entre os que pregam os valores da
sociedade ocidental, para a criação da cidadania.
Construir relações humanas baseadas na solidariedade era um desejo de Milton
Santos. Ele propunha uma revisão da globalização, que deveria ser "mais humana" (2000:20),
sem descartar a base técnica que sustenta a globalização econômica e financeira:

A materialidade que o mundo da globalização está recriando, permite


um uso radicalmente diferente daquele que era o da base material da
industrialização e do imperialismo (SANTOS, 2000)

Essa seria sua proposta: alterar o uso da base técnica criada para a circulação de
capital para veicular valores humanos, para permitir uma efetiva integração de laços culturais
distintos que permitam a construção do "acontecer solidário", como definiu (Santos, 2000).
Enfim, Milton Santos queria um mundo diferente. Sua visão otimista do futuro é expressa no
trecho abaixo:
Não cabe, todavia, perder a esperança, porque os progressos técnicos
(...) bastariam para produzir muito mais alimentos do que a população
atual necessita de aplicados à medicina, reduziriam drasticamente as
doenças e a mortalidade. Um mundo solidário produzirá muitos
empregos, ampliando um intercambio pacífico entre os povos e
eliminando a belicosidade (produção de armas) do processo
competitivo, que todos os dias reduz mão de obra. É possível pensar
na realização de um mundo de bem-estar, onde os homens serão mais
felizes, um outro tipo de globalização (SANTOS, 2002).

Aproveitar a base material da existência é algo coerente com sua maneira de pensar.
Já em 1978, em obra que marcou sua inserção teórica. Escrevia na ocasião que:
“ O espaço é a matéria trabalhada por excelência. Nenhum dos objetos sociais tem
tanto domínio sobre o homem, nem está presente de tal forma no cotidiano dos indivíduos”
(Santos, 1978:137).
Deste modo, a mudança tem de vir pela política. Embora expressando otimismo, não
perde a visão futurista ao indicar que as mudanças não virão dos:
Estados Unidos ou da Europa. Virá dos pobres, dos “primitivos” e “atrasados”, como
nós, do Terceiro Mundo, somos considerados. Estas não podem ver muito. São os pobres os
detentores do futuro. O problema de todas as épocas é saber como se dará a ruptura. E as
rupturas se deram antes que todos soubessem como elas iam se dar...” (Santos et al.,
2000:66).

48
ÉTICA FILOSÓFICA

3.7 Milton Santos e os níveis de pobreza

Milton Santos propõe uma outra globalização. Expõe a necessidade de se globalizar


a solidariedade. Vê nas classes menos favorecidas o papel de transformar a sociedade e a
sua condição. E vê na tecnologia de hoje a ferramenta necessária para atingir o aspecto
sensível dos indivíduos para processar as transformações políticas para a promoção dos
valores essenciais aos indivíduos e para garantir, também, a continuidade destes no ambiente
onde vivem, ou seja, projeta uma grande preocupação ambiental.
Milton Santos denuncia a globalização do consumismo como a globalização perversa,
ou seja, que considera somente a valorização do capital e não se preocupa com a real
condição dos indivíduos e esconde uma grande realidade: a grande miséria de grande parte
dos indivíduos em comunidades do mundo inteiro, excluídas do processo social.
A obra mais expressiva de Milton Santos “Por uma outra Globalização” analisa a
questão da pobreza no mundo e sua classificação. O autor define a pobreza ou a condição
dos indivíduos em três tipos:
a) Sobrevivência: condição em que os indivíduos realizam esforços extremos para
continuarem vivos (sobreviver). Suas ações resultam da condição mínima de
permanência, de se sobrepor à fome. Milton Santos considera que a maior parte
dos indivíduos espalhada pelo planeta se encontra nessa condição.
b) Transcendência: condição em que os indivíduos, assistidos por algum programa
ou tendo acesso a algum benefício (emprego, bolsa família, vale transporte, etc.)
teriam condições mínimas de transformar sua condição de miséria e se estabelecer
num determinado estágio social, ainda sem condições de alterações significativas.
c) Aquiescência: estágio em que os indivíduos por iniciativa própria, movidos pelos
valores éticos e por terem acesso às noções fundamentais como a solidariedade, a
cooperação e a espiritualidade, construiriam novas formas de convivência social e,
desta forma estariam produzindo um novo modelo de globalização onde os
indivíduos teriam condições de transformar significativamente suas realidades
através do acesso à educação, à saúde, ao lazer, às expressões culturais, etc., por
sua ação efetiva.

4 GLOBALIZAÇÃO, MODERNIDADE E CULTURA

Renato Ortiz
Unicamp

No debate atual sobre o mundo contemporâneo uma certeza se impõe cada vez mais:
vivemos um momento de mudanças aceleradas e profundas. Na esfera da política, a débâcle
soviética, o fim da Guerra Fria, a constituição da Comunidade Europeia, a emergência do
Japão e dos "tigres" asiáticos, redefinem o desenho geopolítico herdado do pós-guerra.
Dentro deste contexto, a divisão bipolar entre comunismo x liberalismo, União Soviética x
Estados Unidos, é ultrapassada por novas relações de forças determinando outra
configuração da ordem internacional. No domínio econômico, a consolidação de um mercado
global traz ainda aberturas e dilemas para o século XXI. Deslocamento da força de trabalho,

49
ÉTICA FILOSÓFICA

controle administrativo transnacional, capitalismo flexível, avanços tecnológicos, fazem com


que a lógica da produção tenha cada vez mais uma abrangência planetária.
De alguma maneira esse processo de mudanças se traduz pelo acúmulo de termos
que surgem para compreendê-lo: pós-modernidade, globalização, sociedade pós-industrial,
sociedade de redes, pós-colonialismo, etc. Por isso as Ciências Sociais, neste início do século
XXI, buscam por novos conceitos que consigam apreender este movimento de redefinição
das coisas. No fundo, a discussão sobre a "crise paradigmática" exprime a inadequação do
estoque de conceitos do qual dispomos e a realidade que os desafia a todo o momento. A
dimensão da cultura não escapa a essas transformações.
A "revolução" tecnológica (computadores, internet, satélites, fibras óticas,
miniaturização dos aparelhos eletrônicos etc.) permite uma circulação planetária dos bens
culturais numa escala inteiramente nova. Eles já não mais se circunscrevem a esse ou aquele
país, transbordando as fronteiras nacionais. A cultura tornou-se ainda uma esfera da
expressão de conflitos diversos, disputas étnicas, fundamentalismo religioso, afirmação de
gêneros, trazendo a discussão das identidades para um primeiro plano. Nesse sentido, o
debate sobre a ordem internacional tornou-se mais complexo, pois, ao lado das contradições
anteriores, interesses econômicos, divisão entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos,
acrescenta-se outra: a afirmação de identidades culturais diferenciadas e algumas vezes
antagônicas.
Se as mudanças no panorama mundial são claras resta, no entanto, um problema:
como qualificá-las? Neste ponto os diagnósticos muitas vezes caminham em direções
opostas. O debate se faz hoje sob o signo de uma contradição aparente. Afirmam-se
simultaneamente conceitos que muitas vezes parecem ser excludentes: integração,
globalização.
Alguns analistas de marketing não hesitam em preconizar a existência de um planeta
homogêneo, unidimensional, unificado apenas pelos vínculos de uma sociedade de consumo.
Em todos os sítios os indivíduos teriam em princípio as mesmas necessidades básicas.
Caberia ao mercado e aos bens materiais padronizados satisfazê-las. Uma visão antagônica
encontra-se entre aqueles que sobrevalorizam os movimentos étnicos (seja para afirmá-los
como elementos de construção de identidades locais, seja para rejeitá-los como uma ameaça
a qualquer movimento de unificação).
O declínio do Estado-nação teria inaugurado uma era de fragmentação social, salutar
ou perigosa, de acordo com as inclinações mais ou menos otimistas. Longe de ser unilinear,
o mundo contemporâneo seria constituído por espaços desconexos, por fragmentos (alguns
dizem "fractais") diversos, independentes uns dos outros.
No contexto da formação dos blocos econômicos, por exemplo, a Comunidade
Europeia, a mesma polaridade analítica se reproduz. No início a ênfase é colocada no primeiro
termo, a integração. Privilegia-se assim a dimensão da expansão das fronteiras - moeda única
europeia, mercado comum, livre circulação das pessoas, intercâmbio entre os países etc.
Porém, uma vez considerado este aspecto integrador, como se por receio, retorna-se
imediatamente a uma premissa anterior: a diferença cultural - a idiossincrasia6 das regiões, a
riqueza das culturas locais, a variedade dos povos e das culturas nacionais.

6
Na religião, idiossincrasia é o comportamento estranho ou diferente do usual das pessoas, diferente
do comum. Podemos entender o termo nesse sentido como uma aversão à ideia diferente ou oponente.

50
ÉTICA FILOSÓFICA

O debate oscila desta forma da "totalidade" à "parte", da "integração" à "diferença", da


"homogeneização" à "pluralidade". Tem-se a impressão de estar diante de um mundo
esquizofrênico. Por um lado pós-moderno, multifacetado ao infinito, por outro uniforme,
idêntico em todos os lugares.
Esta bipolarização ilusória se agrava quando é rebatida no plano ideológico. Totalidade
e parte deixam de ser momentos da análise intelectual para se transformarem em pares
antagônicos de disposições políticas. De um lado teríamos o "todo", apressadamente
assimilado a totalitarismo, de outro as "diferenças", ingenuamente celebradas como
expressão genuína do espírito democrático.
Modernidade x pós-modernidade, escolher uma dessas trincheiras torna-se um
imperativo de sobrevivência epistemológica. 7 Tudo se passa como se vivêssemos uma
Guerra Fria no plano dos conceitos. Esta seria a única forma de superarmos a contradição
aparente entre "integração" e "diferenciação", encolhendo-se cada um em seu universo
seguro e compartimentado. Mas seriam as sociedades passíveis de serem compreendidas
desta forma?
Creio que não. É inteiramente falso imaginar o processo de globalização como sendo
equivalente ao de homogeneização do planeta. Por isso propus uma diferenciação entre os
conceitos de globalização e de mundialização. Quando falamos de uma economia global, nos
referimos a uma estrutura única, subjacente a toda e qualquer economia. Os economistas
podem inclusive mensurar a dinâmica desta ordem globalizada por meio de indicadores
variados: as trocas e os investimentos financeiros. Pode-se dizer o mesmo da tecnologia na
medida em que ela é a mesma em todo o planeta. Podemos assim falar em economia e em
tecnologia global.
No entanto, a esfera da cultura não pode ser considerada da mesma maneira. O
processo de mundialização da cultura não implica necessariamente o aniquilamento das
outras manifestações culturais: ele coabita com elas e delas se alimenta. Nesse sentido, não
existe nem existirá uma cultura global única, idêntica em todos os lugares. O que se tem é a
consolidação de uma matriz civilizatória, a modernidade-mundo, que em cada país se atualiza
e se diversifica em função de sua história particular.

4.1 Globalização e mundialização

A modernidade-mundo carrega um elemento diferenciador: eis sua natureza. Isso


significa que a mundialização é simultaneamente uma e diversa. Uma enquanto matriz
civilizatória cujo alcance é planetário. Nesse sentido, parece-me impróprio falar em
"modernidade japonesa", "modernidade europeia", "modernidade latino-americana", como se
fossem estruturas distintas. Uma matriz não é um modelo econômico no qual as variações se
fazem em função dos interesses em jogo ou das oportunidades de mercado. Capitalismo,
desterritorialização, formação nacional, racionalização do saber e das condutas,
industrialização, urbanização, avanços tecnológicos, são elementos partilhados por todas

7
A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento, e também
é conhecida como teoria do conhecimento e relaciona-se com a metafísica, a lógica e a filosofia da
ciência. É uma das principais áreas da filosofia, compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja,
se é possível o ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, e da origem do conhecimento.
51
ÉTICA FILOSÓFICA

essas "modernidades". Os sociólogos podem considerá-las parte de um tronco comum


revelando seus nexos constitutivos.
Mas, a modernidade é simultaneamente diversa. Ela atravessa de forma diferenciada
cada país ou formação social específica. Sua realização ocorre segundo as histórias dos
lugares. As nações são diversas porque cada uma atualiza de maneira diferenciada os
elementos de uma mesma matriz. A modernidade varia, portanto, de acordo com as situações
históricas (possui uma especificidade na América Latina, outra no Japão ou nos Estados
Unidos). Talvez pudéssemos qualificar o processo de globalização como uma "situação" que
reordena os elementos que a constituem. Não se trata, pois de um "novo" paradigma que
torna o "velho" obsoleto, mas de um contexto histórico no qual o todo e as partes adquirem
outro significado.
Mas quais seriam as implicações dessas mudanças recentes? A primeira delas diz
respeito ao Estado-nação. Desde a Revolução Industrial a nação afirmou-se como um
elemento de aglutinação social. Sua totalidade integrava a economia, a vida social e política
dos povos. Cada nação definia assim uma territorialidade e uma centralidade próprias, no seu
bojo, pelo menos em princípio, se realizariam os sonhos de emancipação, de democracia e
de liberdade. Cada território, cada país, envolvia seus cidadãos dentro de uma identidade
particular, distinta da de outros países.
A nação se apresentava assim como um espaço dotado de autonomia capaz de
ordenar a sociedade nacional de acordo com sua historicidade, suas forças econômico-
sociais, enfim, suas contradições internas. O processo de globalização redefine este quadro
de equilíbrio. A modernidade-mundo é uma tendência que extrapola as fronteiras nacionais.
Isso não significa que o Estado-nação esteja prestes a desaparecer. Apenas uma visão
ideológica pode alimentar este tipo de ilusão. Entretanto, a globalização retira muito de sua
autonomia anterior.
Primeiro a autonomia política (o que é um dilema crucial do século XXI). Parte
substantiva do poder já não mais se encontra circunscrita ao território do Estadonação. Ele se
situa no interstício das forças transnacionais (corporações, bancos, G7, FMI etc.). Neste
sentido, a ideia de "projeto nacional", que durante todo o século XX prevaleceu
particularmente na América Latina (desenvolvimentismo, varguismo - de Getúlio Vargas, no
Brasil, peronismo - de Peron, na Argentina), torna-se cada vez mais uma proposta política
irrealizável. Isso significa que o destino da nação já não pode mais ser equacionado em
termos preponderantemente endógenos.
Segundo, autonomia cultural. Sabemos que durante os séculos XIX e XX o destino
das nações é diferenciado. No entanto, pode-se dizer que cada uma delas se configura em
um núcleo de irradiação cultural. A nação define um espaço geográfico no interior do qual se
realizam as aspirações políticas e os projetos pessoais. O Estado-nação não é apenas uma
entidade político-administrativa, ele é uma instância de produção de sentido. A identidade
nacional galvaniza as inquietações que se exprimem em sua territorialidade. Certamente, sua
afirmação não se faz sem problemas, afinal a sociedade moderna é clivada pelo antagonismo
de classes. Por outro lado, para se constituir enquanto tal, a nação deve acomodar os
interesses dos grupos diversificados - as nacionalidades, os povos indígenas, as populações
de origem negra. Até mesmo a língua, um de seus elementos unificadores, tem de conquistar
sua legitimidade, isto é, demarcar sua autoridade diante da diversidade linguística e dos
dialetos locais.

52
ÉTICA FILOSÓFICA

Entretanto, mesmo assim, o Estado-nação consegue equacionar minimamente o


conjunto dessas contradições. Diante de outras orientações alternativas, a identidade nacional
se afirmar como hegemônica, ou para utilizar uma expressão weberiana, a referente nação
detém o monopólio da definição do sentido do que seria a "autêntica" identidade nacional. Ele
é o princípio dominante de orientação das práticas sociais. As outras identidades possíveis
estão a ele subsumidas. Isso ocorre desde que as contradições existentes sejam contidas no
interior das fronteiras do Estado-nação. No entanto, no momento em que a modernidade-
mundo se radicaliza, acelerando as forças de descentramento e de individuação, os limites
anteriores tornam-se exíguos.
A "unidade moral, mental e cultural" nacional (para falarmos como Marcel Mauss) é
implodida. Se até então a nação era a fonte privilegiada da produção de sentido coletivo,
temos agora ao seu lado outras instâncias identitárias (etnias, culturas populares,
civilizações). Cada uma delas é produtora de sentido afirmando suas idiossincrasias de
maneira concorrente ou complementar.
Dentre as implicações da globalização um último aspecto merece ainda ser apontado,
trata-se de uma dimensão que afeta diretamente o universo da cultura. O processo de
mundialização incide sobre a própria noção de espaço. Na história das sociedades humanas
a cultura sempre esteve, de alguma maneira, enraizada no meio físico que a envolvia. A tribo,
a cidade-estado, a civilização, a nação, são áreas geográficas com fronteiras bem delimitadas.
Dentro delas se exprimem as identidades culturais de cada povo.

5 A CIDADANIA MODERNA
A participação de todos os segmentos de um grupo nas decisões de seus governos é
uma característica fundamental das sociedades democráticas contemporâneas e uma
questão essencial para entendermos as noções éticas designadas para as ações e reflexões
políticas. Contudo, o direito de votar e ser votado, de eleger representantes, de constituir
assembleias, formar partidos, tomar decisões, elaborar leis e constituições nem sempre foi
uma prerrogativa de todos os cidadãos.

5.1. Direitos políticos

Para que isso fosse possível, foi preciso que todos tivessem assegurados seus direitos
políticos. A conquista desses direitos caminhou juntamente com a luta por direitos civis e
sociais e é fruto da disputa entre as diferentes classes sociais que detinham o poder e as que
desejavam participar das decisões políticas. Até a Revolução Francesa, a aristocracia,
representada pelas famílias que detinham grandes propriedades de terras e títulos de
nobreza, além dos membros que ocupavam os cargos mais altos da Igreja (alto clero),
concentrava mais poder do que o restante da população. Após a revolução, a burguesia,
representada pelos comerciantes, pequenos proprietários, profissionais liberais, entre outras
categorias profissionais, começaram a participar ativamente das decisões do Estado. Durante
o século XIX, a luta pela ampliação do sufrágio masculino aos não proprietários, juntamente
com o movimento das mulheres pelo direito de votar e se emancipar, marcaram a história da
conquista dos direitos políticos.

53
ÉTICA FILOSÓFICA

5.2 Direitos sociais

A necessidade de garantir melhores condições de vida para a população tornou-se


uma bandeira dos revolucionários franceses no final do século XVIII, quando as tensões
sociais de séculos de Absolutismo, acirradas nos reinos de Luís XIV e Luís XV, irromperam
de forma violenta contra o Estado.
Com a advento da Revolução Industrial e a formação da classe operária nos centros
urbanos, a luta pela regulamentação das condições de trabalho teve início no século XIX e se
perpetuou durante todo o século XX. Nesse período, é importante destacar dois movimentos
chave para o entendimento da ampliação dos direitos de cidadania: a Primeira Revolução
Industrial e a organização da classe operária na luta pelo direito de greve, de se reunir em
sindicatos e de regulamentar a jornada de trabalho (direitos sociais).

5.3 Direitos Humanos

Após a Segunda Guerra Mundial, quando a realidade dos campos de extermínio do


regime nazista se tornou pública e o mundo se defrontava com os chocantes resultados das
bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, a Organização das
Nações Unidas (ONU) promulgou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948.
Inspirada na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão da França, ela se tornou um marco na defesa dos direitos humanos,
abarcando em um único conjunto de princípios todos os direitos civis, sociais e políticos pelos
quais as sociedades ocidentais vinham lutando desde o século XVIII.
Posteriormente, as ações em prol dos direitos humanos se desdobraram na criação
da Anistia Internacional, em 1961, e se disseminaram nas décadas de 1980 e 1990, na
atuação de milhares de ONGs e grupos comunitários que buscam defender as condições
mínimas de sobrevivência dos povos nos mais diversos países.

5.4 Migração

Por que as pessoas migram? Eis uma pergunta tradicional que nunca recebeu uma
resposta completa, mas que deu ensejo a muitas publicações e debates. A questão básica
envolve o peso dos fatores de expulsão ou de atração e a maneira como se equilibram.
Para começar, deve-se dizer que a maioria dos migrantes não deseja abandonar suas
casas nem suas comunidades. Se pudessem escolher, todos - com exceção dos poucos que
anseiam por mudanças e aventuras – permaneceriam em seus locais de origem. A migração,
portanto, não começa até que as pessoas descobrem que não conseguirão sobreviver com
seus meios tradicionais em suas comunidades de origem. Na grande maioria dos casos, não
logram permanecer no local porque não têm como alimentar-se nem a si próprias nem a seus
filhos. Num número menor de casos, dá-se a migração ou porque as pessoas são perseguidas
por sua nacionalidade – como as minorias dentro de uma cultura nacional maior – ou seu

54
ÉTICA FILOSÓFICA

credo religioso minoritário (dos judeus aos menonitas 8 e aos dissidentes da Igreja russa
ortodoxa) é atacado pelo grupo religioso dominante.
Uma vez que as condições econômicas constituem o fator de expulsão mais
importante, é essencial saber por que mudam as condições e quais fatores responsáveis pelo
agravamento da situação crítica que afeta a capacidade potencial dos emigrantes de enfrenta-
la. Nessa fórmula, três fatores são dominantes:

Na primeira categoria estão as questões que envolvem a mudança dos direitos sobre
a terra, suscitada via de regra pela variação da produtividade das colheitas, causada, por sua
vez, pela modernização agrícola em resposta ao crescimento populacional. Nas grandes
migrações dos séculos XIX e XX – época em que chegaram à América mais de dois terços
dos migrantes – o que de fato contava era uma combinação desses três fatores.
A imigração europeia colaborou com a urbanização da sociedade brasileira, e junto
com o assalariamento da mão-de-obra, levou ao aparecimento de um superficial mercado
interno para bens de consumo popular no país que acabou levando ao aparecimento das
primeiras unidades industriais no Brasil. Os grupos de imigrantes que vieram para o Brasil
foram os espanhóis, italianos, japoneses, judeus, portugueses, sírios, libaneses e alemães.

5.5 Socialização

O aprendizado da linguagem, das formas de convivência, das regras, constitui o que


denominamos sociologicamente por socialização. Do ponto de vista da Sociologia, a
socialização constitui um processo, ou seja, um desenvolvimento pelo qual todos nós
passamos no decorrer da vida e que possui diversas fases. A socialização pode ser definida,
em linhas gerais, como a imersão dos indivíduos no “mundo vivido”, que é ao mesmo tempo
“um universo simbólico e cultural” e “um saber sobre esse mundo”. Em outras palavras:
O bebê, ao nascer, ainda não detém esse conhecimento. À medida que cresce e se
desenvolve, a criança absorve o mundo em que vive como o único mundo que existe, pois é
a única realidade que ele conhece.

8
Os Menonitas (ou mennonitas) são um grupo de denominações cristãs que descende diretamente do movimento Anabatista

que surgiu na Europa no século XVI, na mesma época da Reforma Protestante. Tem o seu nome derivado do teólogo frísio Menno
Simons (1496 – 1561), que através dos seus escritos articulou e formalizou os ensinos dos anabatistas suíços. Segundo estimativas
de 2009, há mais de 1,6 milhões de menonitas espalhados pelo mundo todo.

55
ÉTICA FILOSÓFICA

Ela faz isso a partir de um saber básico que fornece toda a estrutura a partir da qual
ela percebe o mundo ao redor, incluindo a linguagem que a ajuda a organizar o que apreende
como realidade. A incorporação desse “saber básico” no aprendizado primário depende da
linguagem: falar, depois ler e escrever, e constitui o processo fundamental da socialização
primária. Desse modo, os saberes básicos incorporados pelas crianças dependerão muito das
relações entre sua família e os adultos encarregados de sua socialização.
A essa primeira fase da vida, em que aprendemos a falar, a brincar, e a conviver com
as outras pessoas, muitas vezes imitando o que nossos pais e as outras crianças fazem,
chamamos de socialização primária. Ela termina quando a ideia de sociedade foi
completamente estabelecida na consciência do indivíduo – ou seja, de que há um grupo mais
amplo do que o mundo composto pelas pessoas que o socializaram e do qual ele faz parte.
Muitas das experiências de socialização primária não são possíveis de ser lembradas
sem a ajuda de outras pessoas. Boa parte de nossas lembranças é transmitida pelos nossos
pais ou pelas pessoas que cuidaram de nós quando éramos bebês. Mesmo assim, elas fazem
parte das nossas experiências de socialização e constituem parte do repertório de práticas
que utilizaremos como modelos quando tivermos nossos próprios filhos.
Outro aspecto importante a ser ressaltado em relação à socialização primária é o fato
de que não escolhemos as pessoas responsáveis por esse processo. Em outras palavras,
não escolhemos a família em que nascemos. Para as crianças, essas pessoas se tornam
seus “outros significativos”, pois são os responsáveis por cuidarem delas e lhes apresentarem,
por assim dizer, o mundo ao redor. Ora, nossos pais, avós e irmãos também têm seus modos
próprios de pensar e ver o mundo, de modo que aquilo que nos ensinaram quando éramos
crianças tem relação com a sua maneira de ver as coisas. Por esta razão, tendemos a
reproduzir os hábitos e os costumes dos nossos locais de criação e de nossa origem. Somente
mais tarde, quando entramos em contato com pessoas criadas em outros locais ou de origens
diferentes, percebemos as diferenças entre nosso modo de pensar e agir e o dos outros.

6 SOCIEDADE, POBREZA E EXCLUSÃO


Elyn Bastos de Sousa

56
ÉTICA FILOSÓFICA

Não há evidências, na história, de que houve alguma sociedade igualitária. Havia


ideias de distinção e de discriminação entre grupos sociais. Diferenças de sexo e idade onde
grupos discriminados exerciam funções diferentes, tendo certa parcela de poder e
determinados direitos e deveres. Na sua “evolução”, as sociedades foram se tornando mais
complexas, onde membros não tinham iguais acesso a algumas vantagens como poder de
decisão e a liberdade. Durante todo esse processo, tendência marcante foi a “diferença”
crescente tornando complexa a sociedade, onde diferentes grupos formados passaram a se
distinguir por etnia, nacionalidade, religião, profissão e, de forma mais acentuada, por classe
social. Como sociedades plurais, formadas por inúmeros grupos, cada uma delas teria uma
função, um conjunto de direitos, deveres, obrigações e possibilidades de ação social.
Tem-se assistido ao resultado desse longo processo histórico, na formação de uma
civilização complexa e diferenciada, onde todos procuram conquistar direitos na luta pela
igualdade social. O que se vê é que boa parte da população vive à margem dos benefícios do
desenvolvimento industrial e sem terem acesso a uma quantidade mínima não só de bens,
mas de educação, saúde e segurança. Esta questão se aproxima da nossa investigação ética.
A modernidade levou a humanidade a acreditar no progresso, na evolução de
indivíduos e nações, enfim, onde acreditaram que tudo daria certo. No entanto, a realidade
comprovou o contrário. Nessa forma de organização social há contradição quando a
desigualdade assume o caráter de privilégio de alguns e de injustiça para com outros. E é
essa nova consciência ética que torna a pobreza tão incômoda.
Muitos defendem que todos os homens têm os mesmos direitos e são iguais perante
a lei. Mas como justificar tamanha diferença social e ausência de ética?
Em pleno desenvolvimento da indústria de massa, se produz e se coloca em circulação
uma quantidade imensa de produtos. Com a concorrência entre os grupos sociais acabam
por criar mecanismos de apropriação e monopólio dos bens econômicos e sociais, acabando
por gerar crescente concentração de renda. No meio dessa sociedade da abundância, a
pobreza adquire um caráter contraditório e, até, paradoxal. E tem como agravante, o apelo ao
consumo das campanhas publicitárias veiculadas pelos meios de comunicação de massa
criando uma distância social maior entre ricos e pobres. É trágico e inaceitável, já que,
consumismo e abundância fazem parte do desejo de bem-estar social no interior de cada
pessoa carente.
Com uma economia organizada e globalizada, podemos medir os índices de
analfabetismo, dívida externa, renda per capita, produto interno bruto, que são análise
frequente para a classificação das regiões e nações onde adquirem grande importância já que
medem características presumidamente presentes em diferentes agrupamentos sociais e
populações. É no cálculo estatístico que a pobreza deixa de ser uma característica abstrata
ou um conceito para se tornar uma grandeza. Pessoas, grupos sociais e países passam a ser
considerados pobres não só em relação a si mesmos, como também em relação aos outros
grupos ou países, com os quais são permanentemente comparados.
Carência de bens materiais e carência de recursos de sobrevivência são formas
clássicas de pobreza. John Friedmann e Leonie Sandercock, especialistas em planificação
urbana, em artigo intitulado “Os desvalidos”, na publicação de maio de 1995, pelo O Correio
da UNESCO, revelaram três diferentes formas de pobreza:

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ÉTICA FILOSÓFICA

Atualmente, com a informática e a integração das diversas atividades de mídias


digitais, aparece um novo tipo de pobreza, a tecnológica. A pobreza tecnológica se dá quando
pessoas, que não possuem “alfabetização digital”, estando excluídas dos mais diferentes
espaços e da comunicação globalizada e, o mais importante, do mercado de trabalho também.
A pobreza tecnológica aflige, envergonha e exclui.

7 A EXCLUSÃO E AS TEORIAS DA MISÉRIA

Muitos economistas e sociólogos tentam descobrir tendências para o futuro das


populações carentes. As teorias políticas tentam explicar sua natureza, estudos econômicos
e sociais reservam suas análises à compreensão desse problema e o Estado preocupa-se
com a questão da pobreza. Mas qualquer que seja a medida a serem adotados os
prognósticos é sempre pessimista.
As teorias possuíam um caráter de alerta e denúncia, assumiam uma função quase
profética, espalhando pessimismo e desconfiança, por se fundamentarem nas leis que
regulam o desenvolvimento dos sistemas sociais.
Ao longo dos anos, estas teorias mostraram-se falhas em seus prognósticos, pois
vivemos numa sociedade de abundância e não de escassez. E dispomos de meios para uma
distribuição mais igualitária de bens. Mas, para que isso ocorra, tem de haver vontade política.
Mas o que vemos são homens que participam de maneira consciente dos sistemas
econômicos e sociais e que podiam interferir nessa dinâmica problemática, mas nada fazem.
Procurar no perfil da população as justificativas para sua condição subalterna seria
uma atitude preconceituosa. Muitas teorias encontram explicações "naturais" e biológicas
para a condição social das populações carentes. A título de exemplos temos:

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ÉTICA FILOSÓFICA

Apesar dos avanços tecnológicos e conquistas inimagináveis da sociedade do século


XXI, nada tem impedido que a pobreza continue resistente às análises e aos esforços que os
Estados dizem estar desenvolvendo. Enquanto isso, as favelas se multiplicam, caracterizando
a paisagem urbana; o desemprego aumenta juntamente com a criminalidade e a mendicância.
Os excluídos, grande parte da população, permanece à margem do desenvolvimento
e não usufrui dos benefícios alcançados pela sociedade, onde trabalham desde criança,
desenvolvendo atividades sem qualificação, não tendo instrução nem acesso a eventos
culturais, não desfrutando de saneamento básico e, às vezes, nem de um teto. Às crianças
abandonadas nas ruas, durante décadas, sucedendo uma geração de crianças de rua,
geradas sem família e sem moradia, alimentando-se de forma irregular e precariamente,
vivem na indigência e são vítimas de violência policial.
Todas estas questões nos remetem a uma reflexão sobre as ações éticas em
sociedade e a sua validade para s transformações sociais.

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ÉTICA FILOSÓFICA

8 A EXCLUSÃO E A POBREZA NO MUNDO


Vimos que a questão da pobreza é hoje uma das principais mutilações sociais no
mundo. Um aspecto que constrange e envergonha cada cidadão e seus dirigentes. Sob o foco
da ética é um problema que deve abarcar toda nossa atenção e empenho para minimizá-lo.
A presença constante, próxima e crescente dessa massa de pobres, que chegam a
dois terços da população do terceiro Mundo, incomoda e constrange por vários motivos:

Cria se, em relação a essa população, um maps econômico e político, se somam ao


desconforto de saber que, nos grandes centros, milhares de pessoas não se encontram sob
a vigilância das instituições sociais, vivem como podem, à deriva e à revelia dos
planejamentos oficiais. Cria sentimento de desconfiança e de insegurança, já que há uma
relação entre o crescimento dessa população e o aumento da criminalidade nos grandes
centros urbanos. Evidenciado tanto na mídia como nos estudos de caráter científico, os perfis
sociais, dos criminosos, ajudam a reforçar essa associação entre pobreza e criminalidade.
Os autores dos crimes, oficialmente denunciados, são geralmente analfabetos,
trabalhadores braçais e predominantemente de cor negra. Entretanto, sociólogos mais
cuidadosos têm estabelecido outras relações, como o cientista social brasileiro Paulo Sérgio
Pinheiro, diz que contra a população pobre e estigmatizada, a prática policial preconceituosa,

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ÉTICA FILOSÓFICA

somada à desproteção das classes subalternas, torna a relação entre pobreza e criminalidade
que já era esperado (profetizado). Acabando por formar um círculo vicioso onde, o indivíduo,
para ter trabalho, precisa ter domicílio, registro, carteira profissional e uma situação civil legal.
Podem, classes subalternas, atender tais exigências? Não podem, ficam impossibilitados de
trabalhar por não cumprir tais exigências, passando a engrossar as fileiras de marginalizados
que vivem sob constante vigilância policial.
As estatísticas demonstram que o desenvolvimento econômico tem aumentado a
pobreza e a desigualdade social, evidenciando a incompetência do Estado, no combate à
pobreza, quando toma só medidas públicas de policiamento, vigilância e violência do que de
resolução do problema. E com a globalização dos meios de comunicação, a pobreza, dos
países em desenvolvimento, são transformadas em manchete internacional.
A pobreza é estigmatizada, seja pelo caráter de denúncia da falência da sociedade e
do Estado em relação às suas funções junto à população, seja pelo contraste com a
abundância de produtos, seja pelo perigo iminente de convulsão social. A violência e a
agressividade criam um clima de guerra civil nas grandes cidades, onde os índices de
criminalidade são alarmantes.
Medo e insegurança associado ao preconceito e discriminação contra as camadas
pobres, generaliza medidas arbitrárias de violência e brutalidade, chacinas, linchamentos e
assassinatos. Medidas arbitrárias que não resolvem o problema.
Estudos procuram caracterizar de maneira científica a pobreza, buscando causas,
denunciando responsáveis, procurando tratá-la como um fenômeno dissociado da sociedade.
Chegou-se a falar em "cultura da pobreza”. Realmente, os excluídos dos benefícios da
civilização tecnológica acabam por criar mecanismos próprios de sociabilidade. Sua estratégia
de defesa e sobrevivência já que a pobreza é constantemente afastada e excluída do convívio
social, eximindo-se de responsabilidade os que com ela se relacionam direta ou
indiretamente. Estudos teóricos refletem essa política de exclusão, ao analisar a pobreza
como um fenômeno em si mesmo. Se essa população não participa dos benefícios dos
“privilegiados” e não consome os bens produzidos, certamente algum segmento o faz por ele.
Análises econômicas preocupadas com o desenvolvimento do mercado, elemento
fundamental e necessário ao desenvolvimento das nações, têm procurado alertar que a
população carente representa uma fragilidade e uma ameaça à estrutura social como um todo.
Esses excluídos representam um desperdício de recursos humanos e uma disfunção do
sistema econômico.

8.1 A pobreza e a estrutura do Estado

O distanciamento, social e ideológico, a alienação, a discriminação e a estigmatização,


que recaem sobre a pobreza, não ajudam a encontrar soluções para o problema nem evitam
que as desigualdades sociais aumentem.
Precisamos entender que o desemprego não é condição de quem não quer ou não
está apto ao trabalho, mas resultado de uma não elasticidade na oferta de emprego. Os sem
qualificação, sem emprego, sem assistência são operários virtuais, recrutáveis a qualquer
momento, um reduto de mão-de-obra barata que anseia por uma situação regular. O que Karl
Marx conceituou de "exército industrial de reserva". Só que com a robotização da indústria,
que coloca em disponibilidade massas de trabalhadores, e com a exigência cada vez maior

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ÉTICA FILOSÓFICA

de trabalhadores qualificados, o conceito de exército de reserva precisa ser reavaliado. Por


quê?

Não podemos esquecer o dumping social, um dos principais problemas da competição


internacional onde alguns buscam preços competitivos no mercado à custa de exploração de
crianças e adolescentes, onde propicia uma competição internacional injusta e cria uma crise
no sistema produtivo aumentando a quantidade de produtos e diminuindo, perversamente, a
capacidade de consumo de um número cada vez mais crescente de pessoas.
A pobreza é complexa, difícil, pública, patente, estigmatizada e incômoda, ela aflige,
envergonha e exclui. É um fenômeno constante e assustador, que exige medidas conscientes
e responsáveis. Os esforços serão conjuntos, envolvendo políticas estatais (os Bancos do
Povo e a criação de Organizações Não
Governamentais), onde deverão desenvolver projetos de assistência social,
alfabetização e capacitação para o trabalho, programas comunitaristas, na tentativa de
envolver a sociedade em atividades de ajuda à população carente.
A economia tende a crescer e a se desenvolver, a jornada de trabalho e o número de
empregados tende a diminuir, restando no futuro, pessoas e tempo, que poderão se envolver
em atividades de ajuda à população carente, onde o sistema político vai favorecer uma
integração maior da população em geral à sociedade como forma mais eficiente de combate
à pobreza.
É inconcebível que, depois de séculos de individualismo onde o homem buscou
entender, criticar e participar da vida social e do desenvolvimento de instituições
democráticas, como cidadão, sendo-lhe permitida a atuação política, que ele ainda seja
considerado vítima da história e dos sistemas sociais.

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ÉTICA FILOSÓFICA

9 AS TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO: DO EVOLUCIONISMO À


GLOBALIZAÇÃO
Quando se estabelecem as relações capitalistas internacionais envolvendo as antigas
colônias, agora independentes e vistas como sócias ou parceiras nos acordos econômicos,
as antigas comparações científicas entre as sociedades se tornaram ultrapassadas. Afinal,
em cada uma das novas nações aparecia uma burguesia comercial cujo objetivo era o lucro;
havia um estado reconhecido pelas nações ocidentais, com leis e burocracia criadas à
imagem dos países industrializados. Em tais condições, não se podia mais chamar as recém-
criadas nações de “primitivas” ou “selvagens”. Elas não se enquadravam mais nos padrões
comparativos criados pelo evolucionismo que estudamos anteriormente.
Entretanto, por trás dessa semelhança nas instituições políticas e econômicas, as
sociedades industrializadas e as de produção agrícola mostravam diferenças significativas.
Para explicá-las, surgiu, na sociologia, um novo tipo de evolucionismo, a que daremos o nome
de desenvolvimentista. De acordo com essa nova postura teórica, as diferenças entre as
sociedades não eram de natureza, mas de grau de desenvolvimento.
As comparações desenvolvimentistas implicavam o desejo de incentivar a
racionalidade e os comportamentos direcionados ao desenvolvimento capitalista. Trata-se de
um novo evolucionismo, que não busca mais as diferenças entre a sociedade europeia e as
sociedades arcaicas “condenadas” ao desaparecimento, mas tenta encontrar, nas novas
nações, as instituições básicas capazes de garantir a continuidade e a reprodução das
relações capitalistas.
A abordagem desenvolvimentista estabeleceu uma série de critérios, pelos quais as
sociedades eram postas em continuum que as identificava como “desenvolvidas”,
“semidesenvolvidas” e “pré-capitalistas”. As nações que se afirmaram como centro de
dominação política e econômica passaram a constituir modelos ou estágios superiores aos
quais deveriam chegar todo e qualquer povo. Essa ideia também está presente nos atuais
estudos do desenvolvimento capitalista.

9.1 O desenvolvimento segundo as etapas de crescimento econômico

William Wilber Rostow em suas reflexões baseadas nos princípios


desenvolvimentistas “Estágios de desenvolvimento econômico” identifica etapas de
desenvolvimento que caracterizam cinco tipos de sociedade.
a) O primeiro – sociedade tradicional – elevado grau de subordinação do homem ao
ambiente e inadequado aproveitamento dos recursos naturais.

63
ÉTICA FILOSÓFICA

b) O segundo – sociedade em processo de transição – caracteriza-se pelo


aparecimento das pré-condições do desenvolvimento econômico. Representa um
estágio de gestação de atitudes racionais adequados ao controle e a exploração da
natureza.

c) O terceiro – sociedade em início de desenvolvimento – nesse período, já se


percebe investimentos de capital na área produtiva, crescimento da manufatura e
aparecimento de um sistema político, social e institucional em expansão.

d) O quarto – sociedade em maturação – corresponde ao estágio em que as forças


de expansão econômicas passam a predominar na sociedade.

e) O quinto – sociedade de produção em massa – corresponde ao estágio de


desenvolvimento efetivo da produção em bases industriais e científicas e de um
aumento significativo do investimento produtivo de capital.

Analisemos essa teoria


Em primeiro lugar, vemos que o autor nega os diferentes caminhos históricos de cada
sociedade. Pressupõe que todos os povos tiveram a mesma forma original – a "sociedade
tradicional" – e atravessaram as mesmas etapas para chegar ao desenvolvimento. No
entanto, a história prova que não foi o caminho de várias sociedades. A Índia, por exemplo,
tinha uma manufatura de seda extremamente desenvolveria” da organizada em padrões
familiares e domésticos, que o colonialismo inglês levou à falência. Não houve possibilidade
de as manufaturas indianas concorrerem em quantidade e preço com a indústria têxtil inglesa.
Assim, a Índia passou de exportadora de seda a importadora de tecidos ingleses. Vemos que,
nesse caso, o percurso da manufatura reverte o esquema imaginado por Rostow; a história
de cada nação mostra fases prósperas alternando com períodos de declínio, provando que
não há um movimento lento e contínuo em direção ao desenvolvimento.

9.2 Entraves ao desenvolvimento: o tradicionalismo e a questão racial

Na base dos estudos desenvolvimentistas acha-se a ideia de que o desenvolvimento


do capitalismo e da produção em massa é uma meta histórica, tal como tinham sido a
civilização europeia e a mecanização para o evolucionismo do século XIX. Essa meta seria
alcançada por meio de um lento, mas inevitável movimento de mudança social. Cada estágio

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ÉTICA FILOSÓFICA

de desenvolvimento econômico representaria o grau de avanço de uma sociedade em relação


à meta alcançada.
Outro princípio seguido pelas teorias desenvolvimentistas é considerar, como causa
do subdesenvolvimento, os entraves ao desenvolvimento normal das forças produtivas.
Muitos teóricos desenvolvimentistas identificavam, como causa do
subdesenvolvimento, o apego ao tradicionalismo. Nas sociedades tradicionais, os indivíduos
não se comportariam de maneira eficiente no sentido de obter lucros, desenvolver suas
ambições e agir racionalmente. Afirmava-se que, nos países subdesenvolvidos, haveria
extremo apego às relações tradicionais, prevalecendo trocas de favores motivadas por
relações familiares e pessoais que recebiam o nome de clientelismo. Assim, conservando
valores tradicionais, os indivíduos agiriam, por vezes, “irracionalmente”.
Para perceber a fragilidade desse tipo de argumentação basta considerar o caso do
Japão, pais que se industrializou rapidamente, onde a força da tradição se preservou, aliando-
se com a motivação para o progresso.
O preconceito racial também guiou algumas análises desenvolvimentistas. Alguns
teóricos chegaram a identificar como causa do atraso das sociedades sul-americanas as
características étnicas e culturais dos povos nativos. Como podiam esses grupos,
reinstituições das quais nunca participaram?
Os negros também foram responsabilizados pelo atraso nacional, muito embora toda
a riqueza da colônia e do Império repousasse no trabalho dos escravos negros. Afirmava-se
que os africanos, como de resto todos os povos tropicais, eram pouco afeitos às atividades
realmente produtivas e incapazes de atingir a “civilização”.
As teorias desenvolvimentistas voltadas a explicar as razões do subdesenvolvimento,
na verdade, tomavam por causa aquilo que, de fato, era efeito da exploração colonial
capitalista. Desse modo, contribuíram para a difusão de preconceitos raciais muito em voga
na Europa, desde o final do século XIX até a atualidade.
Buscando justificativas nas condições internas dos países “subdesenvolvidos”,
capazes de explicar o seu atraso, lançou-se mão de argumentos preconceituosos e racistas.
Raça, tradição e até mesmo a nacionalidade do povo colonizador foram explicações aceitas.
A origem ibérica do colonizador da América Latina – menos “desenvolvido” que o colonizador
anglo-saxão, também foi aceita como causa do atraso e do “subdesenvolvimento”.

10 ÉTICA DA DIVERSIDADE – AULA DE CONCLUSÃO

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ÉTICA FILOSÓFICA

Apresentaremos a seguir um pequeno texto que se caracteriza como uma dedicatória


de autoria de Paulo César de Araújo que expõe um universo muito presente em nosso
ambiente de convivência, do qual temos contato constantemente, mas que, no entanto, não
percebemos o seu real significado. O texto que se segue é apresentado como conclusão do
curso Semipresencial de Ética Filosófica busca sintetizar o conteúdo trabalhado e possibilitar
uma reflexão e uma aplicabilidade da disciplina nas ações dos indivíduos dentro dos
ambientes sociais contribuindo, assim para uma melhoria nas relações humanas.

10.1 Ao Poeta, ao Mendigo e à Louca

Paulo César de Araújo

Havia três pessoas em minha cidade cuja lembrança eu trago até hoje comigo. Eu
cresci observando aquelas pessoas. Não sabia por que, mas sempre que eu cruzava com
uma delas na rua, eu parava e ficava olhando. Eram três pessoas conhecidas por todos da
cidade: Lilita, Cafezinho e o poeta Alberto David.
Lilita era uma velha senhora solteira que morava numa casa simples próxima à zona
do meretrício. Ela nunca sorria e tinha outra característica muito singular: andava sempre com
todo o corpo coberto de panos, um por cima do outro. Tal qual as mulheres muçulmanas, Lilita
se cobria dos pés à cabeça. De Lilita, ninguém da rua jamais viu os cabelos ou as pernas.
Apenas uma parte de seu rosto ficava à mostra. Sobre todas as peças de roupas, Lilita ainda
colocava cobertores de lã. Fazia sol ou chuva, frio ou calor, e lá vinha ela toda coberta de
panos andando pela cidade. Os meninos da rua atiravam-lhe pedras e a chamavam de louca,
louca... Cafezinho era o mendigo mais conhecido da cidade. Vagava sempre sozinho pelas
ruas com um velho caneco na mão pedindo café. De sua boca ouvia-se apenas uma palavra,
um quase murmúrio: café, café, café... sujo, descalço, rasgado, barbado e banguelo, a
imagem de Cafezinho se prestava para que as mães ameaçassem chamá-lo quando uma
criança não queria se alimentar ou tomar algum remédio. Mas quando alguém esquecia a
porta da casa aberta, às vezes se surpreendia mesmo com Cafezinho em um canto da sala,
de caneco na mão, pedindo café.
Era uma figura soturna e silenciosa.
Alberto David era um jovem poeta da cidade. Na minha lembrança a sua figura se
parece com a imagem que nós temos de Jesus Cristo: alto e magro, de face fina, cabelos
longos e barba. Era um rapaz de semblante muito triste e que procurava expressar em

66
ÉTICA FILOSÓFICA

palavras o que muitos sentiam sem conseguir dizer. Por vezes caçoado, humilhado e
ofendido, andava sempre sozinho e cabisbaixo, recitando poemas pelas ruas da cidade.
A presença de Alberto David, de Lilita ou de Cafezinho me fascinava e atraía a minha
atenção de uma forma que, provavelmente, eles não atingiam outros moradores da cidade.
Afinal, todos já estavam familiarizados com aquelas três figuras. Assim como a igreja da
matriz e os bancos da praça, eles faziam parte do cenário urbano. Um viajante que estivesse
pela primeira vez ali, ao se deparar com aquela mulher toda coberta de panos, talvez se
deixasse admirar. Os moradores da cidade, não. Mas eu, sempre que saía para ir à escola,
à igreja ou ao cinema, quando cruzava com Lilita, com Cafezinho ou com Alberto David, eu
parava e ficava olhando. Era como se os estivesse vendo pela primeira vez ou, quem sabe,
pela última vez. Recordo de minha mãe andando apressada pelas ruas me puxando pela mão,
e eu, de corpo e rosto virados, olhando, olhando... meus olhos infantis captavam alguma coisa
que eu não conseguia compreender.
Até hoje, quando encontro alguém de minha cidade, em algum momento da conversa
eu evoco a lembrança dos três. Quando há alguns anos me contaram que Lilita havia morrido,
eu fiquei imaginando: “Como será agora, andar pelas ruas de minha cidade e não cruzar mais
com Lilita”? Pergunta semelhante eu também me fiz no dia em que me disseram que
Cafezinho já havia desaparecido das ruas.
Alberto David, Cafezinho e Lilita: o poeta, o mendigo e a louca.
Hoje, entendo que havia uma dimensão trágica naquelas três pessoas. Em uma
sociedade patriarcal e machista, Lilita era o símbolo da mulher reprimida. Ao andar sempre
sozinha e coberta de panos pelas ruas da cidade, frustrada em seus sonhos, castrada em
seus desejos, Lilita talvez concentrasse em si a repressão que havia em todas as outras
mulheres.
Cafezinho, o homem sem nome, maltrapilho e esfarrapado, vivendo ao relento pelas
ruas, de caneco na mão pedindo café, era o símbolo de um grande contraste. O contraste de
um país e de uma cidade que se desenvolveram com a riqueza do café, que produziram os
seus barões do café. Mas que se pautavam (e ainda se pautam) pela exclusão social. Na terra
do café, Cafezinho era a imagem do próprio povo e ele sintetizava a miséria de multidões
esquecidas e espalhadas por todo o Brasil.
Alberto David, o moço de aparência sombria e tristonha, andando cabisbaixo pelas
ruas da cidade, era a imagem de sua geração: a geração abandonada do começo da década
de 70. Com sua sensibilidade, o poeta captava a frustração e o desencanto que se abateram
sobre milhares de jovens, que um dia sonharam em mudar o mundo, mas que sentiram
quando o sonho acabou.
Alberto David, Cafezinho e Lilita; o poeta, o mendigo e a louca.
Três figuras únicas, misteriosas e solitárias. Eu nunca a via acompanhada. Andavam
sempre sozinhos pelas ruas da cidade, cada qual no seu caminho.
Dos três, apenas do poeta se sabe o nome; dos três, apenas o poeta ainda vive, mas
os três são eternos para mim. A eles dedico este livro.

11 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conteúdo do texto acima, de autoria de Paulo César de Araújo expõe uma realidade
bastante presente em nosso cotidiano. É provável que todos vocês, ao lerem o texto, tenham

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ÉTICA FILOSÓFICA

vislumbrado esses personagens (Lilita, Cafezinho e Alberto David) no cenário das suas
cidades, no ambiente social. Nós passamos por eles diariamente sem nos dar conta desta
“dimensão trágica”, descrita pelo autor. São pessoas excluídas do processo social, sem
referência história e sem nenhum sentimento de cidadania e de valor social. Estão sujeitos à
ação dos demais indivíduos da sociedade para que possam, ou não, sobreviver ao dia
seguinte.
Os valores éticos trabalhados na disciplina seriam os mecanismos necessários para
possibilitar a ampliação da percepção destes problemas e para encaminhar soluções e formas
de reduzir as desigualdades sociais, promover a aquiescência e começarmos a reescrever
uma nova etapa da história no que se refere às relações humanas sociais.

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ÉTICA FILOSÓFICA

12 BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ARISTÓTELES–Ética à Nicômaco –Tradução: Pietro Nassetti – EditoraMartinClaret.2002.

SÁNCHEZVÁZOUEZ, Adolfo.Ética.20. ed. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira,2000

NIETZSCHE, Genealogia da [Link]. Cultrix1983.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ELLING.A essência da liberdade humana. Petrópolis, Vozes,1991.

KANT, E. Fundamentos da metafísica dos costumes. Abril Cultural, 1974. (Col. Os


pensadores).

REALE, M. Introdução à Filosofia. [Link]. São Paulo, Saraiva, 1988.

SCHOPENHAUER. A arte de ter razão. São Paulo, MartinsFontes,2001.

VALLS, Álvaro L. M. O que é ética? São Paulo. Coleção primeiros passos. Ed.
Brasiliense,1996.

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