Ética Filosófica: Fundamentos e Aplicações
Ética Filosófica: Fundamentos e Aplicações
ÉTICA FILOSÓFICA
BELO HORIZONTE / MG
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ÉTICA FILOSÓFICA
SUMÁRIO
1. FILOSOFIA E ÉTICA APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA ............................................... 3
1.1 Introdução........................................................................................................................ 3
1.2 Ética como virtualidade humana – noções e conceitos ..................................................... 4
1.3 Noções Fundamentais de Ética e Moral ........................................................................... 6
1.4 Noções acerca da aplicação dos conceitos Éticos e Morais ............................................10
1.5 Aspectos históricos da construção e formulação dos conceitos Éticos e Morais ..............13
1.6 A vida social e a postura ética enquanto preceito educacional e filosófico. ......................14
1.7 Educação como fator para humanização e socialização do homem ................................15
1.8 Educação para a cidadania ............................................................................................19
2 A FILOSOFIA COMO PRÁTICA DO PENSAMENTO HUMANO .........................................22
2.1 A oposição Renascimento X Barroco ..............................................................................22
2.2 A Filosofia no contexto da transição do século XVI e XVII ...............................................25
2.3 Francis Bacon e a crítica a esterilidade da tradição filosófica ..........................................26
2.4 A divisão sistemática dos conhecimentos........................................................................26
2.5 A Ética e a prática filosófica - Espinosa e a Filosofia da Existência..................................31
2.6 O desfio das diferenças ..................................................................................................34
2.7 Cultura e Diversidade - Considerações sobre a multiplicidade das manifestações .........36
3 INDÚSTRIA CULTURAL E IDENTIDADE...........................................................................39
3.1 Indústria Cultural e o conflito de gerações - Identidade....................................................39
3.1 Mídia, comportamento e identidade ................................................................................40
3.2 O processo de globalização e a perda das identidades culturais Indústria Cultural e
Identidade .........................................................................................................................................42
3.3 Consumo ........................................................................................................................43
3.4 Globalização e Identidade em Milton Santos ...................................................................45
3.5 Globalização e cultura.....................................................................................................46
3.6 A globalização solidária ..................................................................................................47
3.7 Milton Santos e os níveis de pobreza ..............................................................................49
4 GLOBALIZAÇÃO, MODERNIDADE E CULTURA ..............................................................49
4.1 Globalização e mundialização .........................................................................................51
5 A CIDADANIA MODERNA .................................................................................................53
5.1. Direitos políticos ............................................................................................................53
5.2 Direitos sociais................................................................................................................54
5.3 Direitos Humanos ...........................................................................................................54
5.4 Migração.........................................................................................................................54
5.5 Socialização ...................................................................................................................55
6 SOCIEDADE, POBREZA E EXCLUSÃO ............................................................................56
7 A EXCLUSÃO E AS TEORIAS DA MISÉRIA......................................................................58
8 A EXCLUSÃO E A POBREZA NO MUNDO .......................................................................60
8.1 A pobreza e a estrutura do Estado ..................................................................................61
9 AS TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO: DO EVOLUCIONISMO À GLOBALIZAÇÃO .......63
9.1 O desenvolvimento segundo as etapas de crescimento econômico.................................63
9.2 Entraves ao desenvolvimento: o tradicionalismo e a questão racial .................................64
10 ÉTICA DA DIVERSIDADE – AULA DE CONCLUSÃO ......................................................65
10.1 Ao Poeta, ao Mendigo e à Louca ..................................................................................66
11 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................67
12 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ..................................................................................................69
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................................69
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1.1 Introdução
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ÉTICA FILOSÓFICA
Fonte: [Link]
Que é ética, que é moral? É a mesma coisa ou há distinções a serem feitas? Há muita
confusão acerca disso.
Tentemos um esclarecimento. Na linguagem comum e mesmo culta, Ética e moral são
sinônimos. Assim dizemos: aqui há um problema ético ou um problema moral. Com isso
emitimos um juízo de valor sobre alguma prática pessoal ou social, se boa, se má ou duvidosa.
Mas, aprofundando a questão, percebemos que Ética e moral não são sinônimos. A
Ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo, princípios e valores que orientam
pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções.
Dizemos, então, que tem caráter e boa índole. A Moral é parte da vida concreta. Trata da
prática real das pessoas que se expressam por costumes, hábitos e valores aceitos. Uma
pessoa é moral quando age em conformidade com os costumes e valores estabelecidos que
possam ser eventualmente, questionados pela Ética. Uma pessoa pode ser moral (segue
costumes), mas não necessariamente Ética (obedece a princípios).
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Embora úteis estas definições são abstratas porque não mostram o processo como a
Ética e a Moral, efetivamente, surgem. E aqui os gregos nos podem ajudar.
Eles partem de uma experiência de base, sempre válida, a da morada entendida
existencialmente como o conjunto das relações entre o meio físico e as pessoas. Chamam à
morada de ethos (em grego com a letra e pronunciada de forma longa). Para que a morada
seja morada, precisa-se organizar o espaço físico (quartos, sala, cozinha) e o espaço humano
(relações dos moradores entre si e com seus vizinhos), segundo critérios, valores e princípios
para que tudo flua e esteja a contento.
Isso confere caráter a casa e às pessoas. Os gregos chamam a isso também de ethos.
Nós diríamos Ética e Caráter Ético das pessoas. Ademais, na morada, os moradores têm
costumes, maneiras de organizar as refeições, os encontros, estilos de relacionamento,
tensos e competitivos ou harmoniosos e cooperativos. A isso os gregos chamavam também
de ethos (com a letra e pronunciada de forma curta).
Nós diríamos moral e a postura moral de uma pessoa.
Ocorre que esses costumes (Moral) formam o caráter (Ética) das pessoas. Winnicot
(1896 – 1971), pediatra e psicanalista inglês, estudou a importância das relações familiares
para estabelecer o caráter das pessoas. Elas serão éticas (terão princípios e valores) se
tiverem tido uma boa moral (relações harmoniosas e inclusivas) em casa.
Os medievais não tinham as sutilezas dos gregos. Usavam a palavra Moral (vem de
mos / mores) tanto para os costumes quanto para o caráter. Distinguiam a moral teórica
(filosofia moral) que estuda os princípios e as atitudes que iluminam as práticas, e a moral
prática que analisa os atos à luz das atitudes e estuda a aplicação dos princípios à vida.
Fonte: [Link]
Entre a Idade Média e a Moderna, o italiano Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) rompe
com a Moral cristã, que impõe os valores espirituais como superiores aos políticos. Defende
a adoção de uma Moral própria em relação ao Estado. O que importa são os resultados, e
não a ação política em si. Por isso, considera legítimo o uso da violência contra os que se
opõem aos interesses estatais. Maquiavel influencia o inglês Thomas Hobbes (1588-1679),
que depois disso lançou o seu livro “O Leviatã”, diferente de Maquiavel os meios justificam os
fins e enquanto Maquiavel os fins justificam os meios.
Durante os séculos XVIII e XIX os grandes pensadores discutindo sobre o que é Ética
foram: o francês Jean-Jacques Rousseau (1712 – 17780) e os alemães Immanuel Kant (1724-
1804) e Friedrich Hegel (1770-1831). Segundo Rousseau, o homem é bom por natureza e
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seu espírito pode sofrer aprimoramento quase ilimitado. Para Kant, Ética é a obrigação de agir
segundo regras universais, comuns a todos os seres humanos por ser derivadas da razão. O
fundamento da Moral é dado pela própria razão humana: a noção de dever. O reconhecimento
dos outros homens, como fim em si e não como meio para alcançar algo, é o principal
motivador da conduta individual. Hegel divide a Ética em subjetiva ou pessoal e objetiva ou
social. A primeira é uma consciência de dever; a segunda, formada por costumes, leis e
normas de uma sociedade. O Estado reúne esses dois aspectos em uma “totalidade Ética”.
Qual é ética e a Moral vigentes hoje? É a capitalista. Sua Ética diz: bom é o que permite
acumular mais com menos investimento e em menor tempo possível.
Sua Moral concreta reza: empregar menos gente possível, pagar menos salários e
impostos e explorar melhor a natureza. Imaginemos como seria uma casa e sociedade (ethos)
que tivessem tais costumes (moral / ethos) e produzisse caracteres (ethos / moral) assim
conflitivos? Seria ainda humana e benfazeja à vida?
Eis a razão da grave crise atual.
Os princípios e a prática concreta dos valores éticos, como vimos, sofreram alterações
ao longo da história, os vários pensadores que contribuíram sobre o tema, no entanto, não
nos deixam uma resposta definitiva para a indagação e a sociedade atual apresenta um
profundo distanciamento entre suas teorias e práticas.
Muito já foi trilhado no caminho da razão por respostas mais eficientes que contribuam
para uma vida social mais estável, onde homens se respeitem mutuamente em prol de uma
sociedade saudável, justa, virtuosa e por isso mesmo feliz.
Como vimos, a palavra Ética se origina do termo grego ethos, que significa “modo de
ser”, “caráter”, “costume”, “comportamento”. De fato, a Ética é o estudo desses aspectos do
ser humano: por um lado, procurando descobrir o que está por trás do nosso modo de ser e
de agir; por outro, procurando estabelecer as maneiras mais convenientes de sermos e
agirmos. Assim, pode-se dizer que a Ética trata do que é “bom” e do que é “mau” para nós.
Bom e mau, ou melhor, bem e mal, entretanto, são valores que não apresentam, para
o ser humano, um caráter absoluto. Ao longo dos tempos, nas mais diversas civilizações,
várias interpretações serão dadas a essas duas noções. A Ética acompanha esse
desenvolvimento histórico, para que isso sirva de base para uma reflexão sobre como ser
ético no tempo presente.
Considera também como esses valores se aplicam no relacionamento interpessoal,
pois a noção de um modo correto de se comportar e posicionar na vida pressupõe que isso
seja feito para que cada um conviva em harmonia com os outros. A ética, portanto, trata de
convivência entre seres humanos na sociedade. Num sentido mais restrito, ela se restringe
às relações pessoais de cada um. Num sentido mais amplo - já que ninguém vive numa
pequena comunidade isolada -, ela se relaciona com a política - da cidade, do país e do
mundo. Nesse sentido, ela é possivelmente a área mais prática da filosofia.
Mas, antes de mais nada, qual o significado da palavra ética, em termos filosóficos?
O filósofo contemporâneo espanhol Fernando Savater apresenta uma resposta para
essa questão em termos muito simples, num livro intitulado Ética para meu filho, da Editora
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Martins - Capa do livro de Fontes. Como diz o título, ele escreveu com o intuito de explicar a
uma geração em formação. Questão para o seu filho adolescente.
A seguir, você pode ler um breve trecho da resposta de Savater para a questão “o que
é ética? ”. Esse é um excelente ponto de partida para você pensar no assunto:
Fonte: [Link]
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Vimos nesta breve introdução da disciplina uma distinção entre os conceitos e noções
de moral e ética. As exposições baseadas nos pareceres do teólogo Leonardo Boff e nas
considerações éticas de Fernando Salvater irão nos ajudar a aplicar adiante essa distinção e
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promover a compreensão desses valores nas relações sociais. Foi exposto, também que a
noção de ética varia em relação ao contexto histórico-cultural e está associado a uma espécie
de escolha realizada pelos indivíduos ao longo do seu processo de maturação. Portanto sua
aplicação é decorrente da formação integral dos indivíduos.
Procure considerar, no decorrer de seus estudos as conceituações e a aplicabilidade
dos mesmos. As distinções entre os dois conceitos e as formas de desenvolvimento destes
determinam como devemos percebê-los e aplica-los nas relações sociais. Adiante vamos
colocar em prática a análise desses conceitos e suas distinções.
As duas aulas que se seguem se baseiam no texto “A evolução moral e ética e seus
reflexos na sociedade contemporânea” de autoria de Rosângela Menta Mello e buscam
posicionar argumentos práticos para aplicação dos conceitos éticos e morais nas relações
sociais. Os textos e as imagens, assim como as questões instituídas para a reflexão poderão
nos auxiliar a compreender melhor a dimensão dos conceitos de ética e moral.
Antes de iniciarmos nossas atividades, vamos recordar aspectos desenvolvidos nas
duas primeiras aulas para que possamos, adiante, situar nossa posição em relação às práticas
morais e éticas.
Vimos que existe uma distinção entre preceitos morais e éticos e que esta diferença
se estabelece a partir do processo de vivência dos indivíduos em sociedade e que a moral
estaria diretamente vinculada às normas, regras e leis sociais e que, assim, todos os
indivíduos em sociedade estariam submetidos a ela. Por outro lado, a ética se desenvolveria
nos indivíduos a partir de uma escolha destes para uma prática social além das regras e
normas, posicionando argumentações construídas a partir do seu caráter e da sua postura
individual em relação às questões sociais.
Para tornar nosso estudo mais proveitoso estaremos a seguir situando alguns
questionamentos para que possamos refletir sobre aspectos essenciais do nosso conteúdo.
Não será necessário responder às questões, apenas reflita sobre elas a partir da sua vivência
ou mesmo através de uma breve pesquisa.
Além destas questões situadas acima vocês poderão levantar outros aspectos que
gostariam de esclarecer, mas nem sempre podemos abordar toda a dimensão do estudo,
então devemos selecionar os principais problemas a serem discutidos.
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Fonte: [Link]
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angustiar o homem: a moral, ao mesmo tempo em que é um conjunto de regras que determina
como deve ser o comportamento dos indivíduos de um grupo, é também a livre e consciente
aceitação das normas. (ARANHA; MARTINS, 1986, p. 304)
Percebemos que uma atitude somente será moral se estiver de acordo com nossa
opinião, nossas ideias, nossa aceitação pessoal da norma. Somente livres poderemos agir
de acordo com nossa consciência, com responsabilidade nas decisões tomadas. Este é o
caráter pessoal da moral. Quando nos referimos ao caráter social e pessoal da moral,
poderemos agir de acordo com o dogmatismo ou legalismo (ARANHA; MARTINS, 1986, p.
304), fortalecendo a lei, mas ao mesmo tempo, incutindo nas pessoas o medo a não
observância da lei. Se aceitarmos o individualismo, corremos o risco em não haver mais a
moral, uma vez cada ser humano poderá impor seus desejos e vontades, ou seja, na ausência
de princípios.
A partir do momento que o homem passa a viver no mundo moralmente estruturado,
este deve se apropriar de uma consciência moral, orientando suas escolhas e seu
discernimento. O agir humano é caracterizado pela capacidade de antecipar-se ao resultado
a ser alcançado, tornando o ato moral propriamente voluntário. Neste sentido o ser humano
possui o desejo e a vontade. Sendo o desejo algo natural do ser humano, mas deve ser
controlado, para que não seja negada a moral.
A complexidade do ato moral reside no fato que ele provoca efeitos não só na vontade,
mas naqueles que a cercam e na própria sociedade como um todo [...] para que um ato seja
considerado moral, ele deve ser livre, consciente, intencional, mas também é preciso que não
seja um ato solitário. (ARANHA; MARTINS, 1986, p. 307).
O texto do escritor Lima Barreto “O novo Manifesto”, do início do século XX irá nos
ajudar a entender o caráter histórico-social da moral e o caráter pessoal, posicionando
filosoficamente, construindo argumentos para estabelecer relações da moral com a ética,
compreendendo seus conceitos e estabelecendo conexões com a realidade do mundo político
de hoje. Para que possamos posicionar as nossas conclusões acerca do assunto
desenvolvido até este ponto, vamos refletir um pouco mais estas noções:
a) O conceito de moral, de ética, a característica do ato voluntário.
b) A organização das sociedades em função da moral e da ética.
c) A moral no tempo e no espaço.
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O presente texto é de autoria da Pedagoga Regina Aparecida Freitas da Costa Diniz, especialista em Gestão Escolar.
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pé de igualdade de diversas formas de vida exige ao mesmo tempo uma integração dos
cidadãos e o reconhecimento recíproco de sua qualidade de membro subcultural no quadro
de uma cultura política comum. A sociedade pluralista democraticamente constituída garante
as diferenciações culturais sob a condição da integração política.
Os cidadãos da sociedade são autorizados a formar seu modo cultural próprio sob a
pressuposição de eles se entendam juntos com todos os outros, como cidadãos da mesma
coletividade política. As justificações e as autorizações culturais encontram seus limites nas
bases normativas da Constituição, unicamente a partir da qual eles se fundamentam.
Nas sociedades primitivas, por exemplo, tivemos uma educação difusa, havendo uma
distinção entre educação, ensino e doutrinação. A educação desse período tem um conceito
genérico, enquanto que o ensino se refere à transmissão de conhecimentos acumulados e a
doutrinação é vista como uma pseudo-educação que não respeita a liberdade do educando.
A visão de mundo da Idade Média, por sua vez, estava ligada ao processo da natureza
em relações caracterizadas pela interdependência dos fenômenos materiais e espirituais e na
subordinação das necessidades individuais às da comunidade. Nessa visão orgânica
assentava-se o naturalismo aristotélico e sua fundamentação dada por São Tomás de Aquino
(1224-1275). O pensamento do filósofo grego Aristóteles foi adaptado ao contexto cristão por
São Tomás de Aquino no século XIII, dando ao universo cristão uma aproximação ao
conteúdo científico que iria ser uma das razões para o aparecimento das universidades na
Europa Medieval.
A idade moderna teve no Renascimento um dos fatores marcantes que reposicionou
o homem como centro do significado histórico. É o período do antropocentrismo (o homem
como o centro) e do racionalismo, com o advento da experimentação científica. Segundo a
concepção de um novo homem, no renascimento educar torna-se questão de moda e uma
exigência. A cultura renascentista é caracteristicamente humanista.
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é o sujeito em interação com seus iguais que decide quais as regras e normas obrigatórias e
necessárias para o convívio social.
Fonte: [Link]
A moral autônoma não evoca o medo, o amor e o sagrado. Repele simultaneamente
o egocentrismo e a confiança cega na autoridade. Tende ao reconhecimento de princípios
apoiados na cooperação, reciprocidade e na necessidade de convívio organizado entre os
indivíduos. Neste contexto as regras e normas não são eternas, mas se constituem e se
preservam enquanto coerentes.
É hora de resgatar a indagação: Seriam as relações pedagógicas predominantes
éticas? Se isto fosse verdade, nossas certezas didáticas seriam tão intensas? Exercitamos
de fato a tolerância ou ainda insistimos em classificar e segregar ideias e pessoas?
Suportamos o diálogo argumentativo? Ou somos ainda seduzidos por verdades alienígenas?
A ética na educação significa admitir que hoje é necessário respeitar a regra
combinada, ainda que amanhã, novas circunstâncias exijam novas regras e normas. Isto
implica leveza, leveza de saber respeitar a regra porque compreendida e igualmente saber
transgredi-la quando necessário e em benefício do convívio social. Esta é uma postura ética.
É preciso investigar, como ocorreu a construção da ética nas relações pedagógicas.
Parece predominar ainda muito fortemente a moral x moral heterônoma, tanto na instância do
privado, quanto do público.
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Somos ferrenhos defensores de princípios que não assumimos como nossos, mas nos
submetemos por convivência. Desejar um processo educativo onde a ética tenha lugar
significa não impedir o desenvolvimento do sujeito, que mesmo envolto pela cultura, nunca
está reduzido a simplesmente repeti-la, mas deseja compreendê-la.
A escola deveria preocupar-se menos em repetir e exigir regras, normas e atitudes
padrão e estabelecer um “clima constituinte”, onde alunos e professores reaprendam o
processo de construção das próprias regulações sociais, pedagógicas, afetivas, cognitivas.
Definidas devem ser repetidas de fato. Quando anacrônicas, devem ser revistas e
reinventadas. Seremos nós professores, de fato leves tolerantes, dialógicos, éticos na
interação com nossos alunos? Acreditar nesta possibilidade não significa refugiar-se no
espontaneísmo, no democratismo, mas antes de tudo admitir que o processo de educação
seja indiscutivelmente um processo de reconstrução, que, portanto, tem bases firmes, mas
não imóveis.
A ética não basta como teoria. É preciso que cada cidadão incorpore esses princípios
como uma atitude prática da vida cotidiana, de modo a pautar por eles seu comportamento.
Isso traz uma consequência inevitável: frequentemente o exercício pleno da cidadania (ética)
entra em colisão frontal com a moral vigente. Até porque a moral vigente, sob pressão dos
interesses econômicos e de mercado, está sujeita a frequentes e graves degenerações.
É neste contexto que se deve pensar os rumos da educação que se processa na
escola. Esta, por sua vez, deve exercer uma função democratizadora. Por um lado, deve
preparar o cidadão em formação para o exercício da autonomia, lendo, interpretando e
compreendendo criticamente o mundo a sua volta, observando os fatos e interpelando a
realidade sempre que necessário.
A educação deve inserir processos de ensino que instrumentalizem o trabalhador em
formação a prover sua existência futura, de maneira satisfatória no horizonte da economia
globalizada. Por outro lado, deve ser por excelência um processo de humanização,
desenvolvimento e realização humana, que privilegie valores de liberdade e autonomia, moral
e ética, cooperação e solidariedade.
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Educação para a cidadania: o conhecimento como instrumento político de libertação
Como vimos a formação do ser humano começa na família. Ali, tem início um processo
de humanização e libertação, valores morais e éticos; é um caminho que busca fazer da
criança um ser civilizado, e bem cedo à escola participa desse processo. A educação formal
e informal, movimentos sociais, entidades públicas, abordando aspetos tais como a educação
2
O presente texto é de autoria do professor Roberto Carlos Simões Galvão.
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Texto de autoria de Márcia Regina Cabral. A autora é graduada em Ciências Econômicas, Pedagogia e
especialista em Educação Infantil e Gestão Escolar.
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das crianças, jovens e adultos para uma nova cultura dos direitos humanos e da paz e a
reflexão e sistematização da prática educativa em direitos humanos.
Nessa sociedade em rápida transformação, cidadania depende cada vez mais da
educação moral e ética. No atual contexto tecnológico, de consumo e da mundialização da
economia e da cultura, os indivíduos são seduzidos a viver os valores das grandes elites
econômicas nos mais diversos aspectos da vida social. Por isso a cidadania necessita de um
elevado nível de socialização do saber científico. Do contrário, seremos apenas consumidores
ou não, dependendo da nossa condição socioeconômica e dos nossos valores.
A educação é um meio de construção e reconstrução de valores e normas que
dignificam as pessoas e as tornam mais humanas.
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Educar para a cidadania é adotar uma postura, é fazer escolhas. É despertar para as
consciências dos direitos e deveres, é lutar pela justiça e não servir a interesses seculares. É
uma urgência que grita e que deveria ecoar nos corações humanos e não nos alarmes das
propriedades que tentam proteger a vergonha do que a civilização humana construiu. Para
alcançarmos isso, não podemos ficar somente no ensinar para a cidadania. É preciso construir
o espaço de se educar na cidadania. E nesse sentido, não é somente a preposição que muda.
Muda a postura do professor que de cidadão que somente exige seus direitos passa a lembrar
também dos seus deveres.
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Fonte: [Link]
Características:
Predomínio da emoção, da tensão e do movimento em detrimento da razão e do
equilíbrio.
Princípios que se fazem presentes:
a) Na disposição das formas distribuídas de maneira a gerar a ilusão (ou sensação)
de movimento - reparem que, embora Cristo se encontre no centro da tela, os
apóstolos e demais figurantes não se encontram distribuídos de igual maneira ao
seu redor;
b) No aproveitamento da diagonal que liga o canto inferior esquerdo ao superior direito
para distribuir a maioria dos participantes da ceia - este procedimento também gera
a ilusão de movimento, pois obriga o olhar do espectador a se deslocar no sentido
da diagonal sem se fixar na imagem de Cristo no centro da tela;
c) No aproveitamento, embora menor, da outra diagonal, reparem que a luz da
luminária e os anjos a sua volta, no canto superior esquerdo, encontram um certo
equilíbrio na imagem do homem de azul no canto inferior direito (que se opõe à
mulher embaixo da luz, também azul como ele);
d) No predomínio da escuridão e dos contrastes de luz e sombras;
e) No abuso dos arabescos e linhas tortuosas (especialmente na representação dos
anjos, tanto no canto superior direito quanto esquerdo, ao redor da luz) e na
indefinição dos contornos das formas devido às sombras ou até mesmo ao excesso
de luz;
f) Na "bagunça" da cena que expressa muito mais a realidade da vida do
g) Que o equilíbrio estático da pintura de da Vinci (nela todos se dispõem
artificialmente ao longo da mesa para "tirar o retrato", ou seja, fazem "pose").
Reparem que no quadro de Tintoretto há até um cachorro bebendo água na tina
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que se encontra na parte inferior da pintura, ao centro, bem na linha que divide
verticalmente a obra ao meio (situando-se, portanto, abaixo de cristo).
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Fonte: [Link]
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Além disso, Bacon não deixará de examinar as condições da própria análise, isto é, os
perigos e preconceitos a que a própria investigação está sujeita. "O entendimento deve ser
preparado antes de ser instruído, e as mentes precisam ser tratadas antes de exercitadas."
Daí a necessidade de se deter no reconhecimento desses falsos ídolos e nos cuidados para
evitá-los.
Tudo isso traz dificuldades para avaliação da posição de Bacon frente à tradição, pois
se tem a impressão de ela estar pontuada por ambiguidades e contradições. Seja como for,
nosso interesse aqui é o exame das características centrais da crítica de Bacon, e não resta
dúvida de que o eixo da crítica é a esterilidade de toda a tradição filosófica, pois, para Bacon,
a filosofia como um todo, talvez com exceção de alguns raros momentos como entre os pré-
socráticos, se caracterizava pela futilidade de abstrações sem sentido e inutilidade para a
melhoria da vida dos homens.
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que sua reforma deverá sanar para instaurar o programa que idealiza. Assim, a análise do
que ele considera estéril e fútil lança luz sobre o que ele concebe como a nova ciência
produtiva e fecunda. A nosso ver, a crítica de Bacon à esterilidade da tradição se desenvolve
em três vertentes: os objetivos do conhecimento, as formas de se alcançá-lo e a postura frente
a ele. Embora estas vertentes se entrelacem, vamos procurar tratá-las separadamente e nesta
ordem. Antes, contudo, é conveniente traçar, ainda que em linhas gerais, o contexto no qual
elas se formam.
No mundo intelectual da Europa do final do século XVI, Platão e Aristóteles serviam
de bases às principais correntes de pensamento. O primeiro se fazia influente através de um
platonismo cristianizado (Thomas Morus, Giordano Bruno e Campanella) ou de um
neoplatonismo que, de maneira sincrética, misturava fontes herméticas1 com outras doutrinas
espiritualistas, como se pode depreender da filosofia de Marsílio Ficino, de Pico della
Mirandola e de outros pensadores renascentistas. Já o aristotelismo imperava nas escolas,
isto é, era a base dos currículos universitários e exercia, por intermédio dos escolásticos, forte
influência na lógica e na filosofia natural.
A resistência ao aristotelismo já era relativamente difundida na época de Bacon.
Paracelso, Erasmo de Roterdan, Lutero, Ramus, Telésio, Giordano Bruno, Campanella,
Galileu e vários outros se opunham às ideias do estagirita (relativo à Estagirita – cidade natal
de Aristóteles na Macedônia) sob diferentes pontos de vista. Ou seja, embora representasse
a filosofia oficial, o aristotelismo era também o alvo preferencial de todos aqueles que, por
diferentes razões, criticavam o ensino acadêmico e o conhecimento oficial.
Entretanto, várias destas críticas e suas alternativas serão também, por sua vez,
criticadas por Bacon. Algumas destas, como a perspectiva dos humanistas, a dos
reformadores da retórica 4, não se diferenciavam muito, aos seus olhos, dos objetivos
equivocados, da linguagem artificialmente complexa e da impostura da tradição.
Os objetivos equivocados
A primeira vertente da crítica à esterilidade da tradição filosófica diz respeito aos
objetivos do conhecimento. Bacon não hesita em condenar a elevação do espírito ou a honra
pública, o prazer ou a tranquilidade da alma como fins inferiores e degenerados. A seus olhos,
a função meramente contemplativa da filosofia e a ausência de uma tentativa de compreensão
que representasse um domínio da natureza são as principais razões da estagnação, dos
"destemperos do conhecimento" e de seus procedimentos dogmáticos.
Uma das causas básicas da confusão de objetivos estava, para Bacon, "na mescla
danosa" com a teologia. Platão é condenado por sua falta de interesse pela filosofia natural e
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por ter corrompido o estudo da natureza com a religião, o que o teria levado a entender e
explicar a natureza em termos do sumo bem. Também Aristóteles e sua doutrina da causa
final acabam segundo Bacon (The advancement of learning. VI, 223), incorrendo numa
perspectiva teleológica equivalente à de Platão. Esta perspectiva impedia, a seu ver, a busca
das causas físicas que possibilitam ter algum domínio sobre os fenômenos naturais.
Explicações finalistas sobre operações da natureza, como a de que as chuvas são feitas para
aguar a terra e as folhas das árvores para proteger os frutos, transformam, segundo Bacon, a
ciência numa teologia. As causas finais são, portanto, vistas como questões acerca da
providência divina, e suas especulações como "uma virgem consagrada a Deus, que não
produz nada".
Assim, é razoável que Bacon colocasse os pré-socráticos naturalistas acima de Platão
e Aristóteles. Especialmente Demócrito, que, a seu ver, removeu Deus e a mente da fábrica
das coisas e tratou das causas das coisas particulares como necessidades da matéria, sem
nenhuma intromissão das causas finais. Também os céticos serão reverenciados por suas
críticas às pretensões do conhecimento filosófico, mas não serão poupados da acusação de
esterilidade, por causa da desesperança e conformação que seus pontos de vista levavam.
Ao tentar compreender as razões da adoção de objetivos equivocados, Bacon se
deterá em alguns momentos na análise dos elementos psicológicos e culturais. Assim, em O
parto masculino do tempo, a incapacidade dos filósofos em procriar (filosofias estéreis em
obras) expressa uma atitude moralmente culpada, advinda da soberba daqueles que não
prestaram atenção aos limites, nem tiveram apreço pela realidade e respeito pela obra do
Criador, colocando acima de tudo “as astúcias do engenho e a obscuridade das palavras”.
Esta postura se revela, por exemplo, na pretensão de encerrar a universalidade do saber e a
totalidade da natureza em princípios e doutrinas.
Já em The advancement of learning, Bacon trata dos erros e da futilidade como
destemperos do conhecimento, que seriam de três tipos: “...o primeiro, conhecimento
fantástico, o segundo, contencioso e o terceiro, delicado. Vãs imaginações, vãs altercações e
vãs afetações”. Estes três destemperos caracterizariam as principais tendências de sua
época: neoplatonismo, escolástica aristotélica e retórica humanista.
Mas a denominação pejorativa de estéril não diz respeito somente a estas correntes,
mas ao conjunto das filosofias antigas e de sua época. Mesmo a obra do italiano Bernardino
Telesius, por quem Bacon nutre reconhecida admiração, não deixa de ser considerada,
pejorativamente, como contemplativa e pastoral.
30
ÉTICA FILOSÓFICA
A esterilidade vale frisar, não é propriamente teórica, mas em termos de frutos (obras)
que aliviem a condição material dos homens. Bacon considera os sistemas dos filósofos como
teias de aranha. Com esta imagem ele exprime, simultaneamente, a percepção de sua
perfeição e de seu deslocamento da realidade. Ou seja, reconhece a beleza e a habilidade
das mentes na construção dos sistemas que, como os fios com que as aranhas tecem suas
teias, são tirados delas mesmas, sem comércio com a natureza, e pairando acima e fora do
mundo real.
O interesse dos gregos pela teorização, que diferenciava seu conhecimento dos de
outros povos e que geralmente é visto como elemento fundador da cultura ocidental é visto
por Bacon como um equivocado excesso, que desvirtuara toda a filosofia. Isto não quer dizer
que o conhecimento operatório, que ele proporá em substituição, deva abrir mão de qualquer
teorização. Bacon defenderá, como veremos, uma verdadeira união da teoria com a prática
e, portanto, criticará também o desinteresse dos técnicos pelas teorias e métodos que
potencializassem o conhecimento-domínio da natureza e o avanço das invenções. Mas a seu
ver a "inclinação grega" fora excessiva, levando a um descaminho que praticamente
esterilizou toda tradição filosófica.
Como se pode ver, a refutação dos objetivos equivocados da tradição filosófica vai
indiretamente revelando as finalidades do programa baconiano. Ou seja, expressos
negativamente como crítica da esterilidade, os objetivos da ciência baconiana se revelarão
positivamente como transformação da ciência (filosofia natural) em tecnologia.
Fonte: [Link]
31
ÉTICA FILOSÓFICA
também vítima da ortodoxia da Igreja Católica: em 1600, foi queimado numa das fogueiras da
Santa Inquisição. Eis algumas das ideias de Espinosa:
a) A realidade é una;
b) Deus e a realidade são uma coisa só;
c) A mente e a realidade também são unas;
d) O propósito da filosofia é perceber a unidade que existe na diversidade.
Espinosa é um filósofo racional e revolucionário. A seu ver, é possível compreender a
totalidade da realidade por meio da razão (do conhecimento). Para ele, a compreensão de
tudo não é somente um simples exercício intelectual: é um exercício de liberdade. Seu ponto
de partida é ousado: se Deus é onipresente, não há como imaginá-lo fora do mundo. O divino
faz parte de tudo o que existe no mundo natural. Não é, pois, transcendente, mas sim
imanente (permanente). Na verdade, Ele é a própria Natureza, o conjunto de todos os seres,
vivos ou não, o que evidentemente inclui os humanos, suas mentes e seus corpos. Daí a
conhecida expressão espinozista: Deus sive Natura ou Natura Naturante (Deus = Natureza).
Para Espinosa Deus é livre para criar todas as coisas, pois não seria “constrangido”
(impedido) por nenhuma força estranha (lei, norma, regra, etc), e expõe a ideia de um Deus
produtor e não transcendente.
Ao contrário de Deus, o homem, segundo a filosofia de Espinosa, não teria a
possibilidade de ser livre – o homem estaria na servidão. O homem não seria capaz de efetuar
a sua própria natureza, pois estaria, ao contrário de Deus, sujeito às forças estranhas (leis,
normas, regras) que impediriam ao homem de criar algo a partir de suas próprias ideias.
32
ÉTICA FILOSÓFICA
Dessa maneira, estão dadas as condições, segundo Espinosa para que o homem
alcance a liberdade por meio do conhecimento e consiga efetuar a sua própria natureza, ou
seja, realizar suas escolhas e produzir o seu conhecimento.
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ÉTICA FILOSÓFICA
34
ÉTICA FILOSÓFICA
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ÉTICA FILOSÓFICA
Milton Moura4
4
Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Professor Associado do Departamento de História na Universidade Federal da
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ÉTICA FILOSÓFICA
inevitável, de “cultura”, na acepção de “uma cultura”, de “cada cultura”. Assim, cada cultura
seria intransferível, singular, a ser admirada e defendida contra as ameaças à sua
continuidade. O desaparecimento de cada cultura seria uma perda irreparável, já que cada
unidade cultural seria intransferível e irrecuperável. Este paralelo, contudo, não deixa de
oferecer dificuldades.
No campo sociológico, a reflexão deve considerar outros elementos. Anthony Giddens
(1991) deixou patente a importância dos mecanismos de transferência de elementos (inclusive
culturais) de uma sociedade a outra. O próprio MiKhail Bakhtin (2001), com o conceito de
dialogismo, já havia tematizado a importância dos trânsitos entre enunciados de sujeitos os
mais distintos. Numa apropriação singular desta Figura 6 - Dialogismo é uma figura de
linguagem, intuição, Ginzburg (1987) criou o conceito de circularidade cultural, que dá conta
de trocas entre sujeitos situados em classes sociais não somente diferentes, como
antagônicas.
Não é raro observar que a visão veiculada pelas mídias acerca da diversidade cultural
supõe o mundo como uma pluralidade de estados-nações com um território definido, um
governo efetivo e uma população estável com ligações culturais comuns (GOLDSMITH,
2005). E não é difícil imaginar que esta tendência seja hegemônica nos ambientes e ocasiões
em que os diferentes estados-nações se fazem participar mediante seus representantes
intelectuais e/ou políticos. A unidade básica quando se fala de cultura, no caso, se pauta sobre
as linhas do estado-nação; como se diz na linguagem comum, o “país”.
A partir, sobretudo do final dos anos ’80, com o desmoronamento da Iugoslávia e da
União Soviética, o que pareciam simplesmente “países” se revelaram somatórios complexos
de unidades sócio-político-culturais que em processos muito violentos foram reunidos sob o
mesmo Estado, configurando, no mapa, uma unidade. Quase de repente, apareceram “outros
países”...
Entretanto, é mais fácil perceber à distância a falácia da unicidade cultural como
contrapartida da unidade político-institucional. De perto, resulta desconfortável reconhecer
que somos múltiplos, diversos, e que a compatibilização de unidades muito diferentes é
viabilizada mediante estratégias complicadas e nem sempre exitosas. Não é raro sentirmos
certo escrúpulo cívico diante da percepção de problemas relacionados à constatação de que
é artificial a “unidade da nação brasileira”.
Onde ficaria, então, aquilo que cultivamos como “a pátria”, o construto sócio histórico
ao qual o senso comum e a maior parte dos agentes midiáticos se referem como “a nação
brasileira”, “nosso Brasil”, “nosso país”, etc.? Não seria mais cômodo cultuar a “nação” amada
a partir de sua compreensão como unidade simplificada? A historiografia não costuma
registrar épocas em que o cultivo do civismo e do ufanismo nacionalista coincide com o
reconhecimento da pluralidade ou do pluralismo.
Em cada unidade nacional politicamente definida, diversos tipos de elite tomam para
si a tarefa de registrar o que é “daqui” e o que é “dos outros”; que maneira de falar seria
simplesmente a maneira de falar, que outras seriam “sotaques”; o que seria risível aqui e ali
e o que, no âmbito do risível, seria ridículo; o que seriam o culto e o brega; o que seria o
oportuno, o conveniente, o que sempre cabe corretamente... e o que seria chulo, medíocre,
impertinente.
Trata-se de administrar a diversidade para que sempre tenda a uma subsunção pela
unicidade da referência principal. As agências hegemônicas no campo da mídia –
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ÉTICA FILOSÓFICA
A lógica capitalista busca igualar a todos. A mesma lógica se perpetua para o resto:
“se você é pobre é porque não trabalha o suficiente”. Com isso a indústria cultural promove,
segundo Adorno e Horkheimer, a “homogeneização das consciências”. Isso faz com que os
sujeitos passem a se esforçar e trabalhar mais, atendendo assim, a necessidade do sistema,
39
ÉTICA FILOSÓFICA
e o sistema se utiliza do homem para circular mercadoria. Não existe nenhuma tecnologia
criada para o benefício do homem, ela existe para atender as necessidades do sistema. E é
este pretenso caráter de neutralidade, que permite e reforça a ideologia.
Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias, casa, alimento,
roupa, a produção irresistível da indústria de diversão e informação, trazem consigo atitudes
e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais, que prendem os consumidores
aos produtos. Os produtos doutrinam, manipulam, promovem uma falsa consciência. Estando
tais produtos à disposição de maior número de indivíduos e classes sociais, a doutrinação
deixa de ser publicidade para tornar-se um estilo de vida (MARCUSE, 1982, p.31 e 32).
O fetiche é criado pela própria mercadoria com seu poder de sedução, na qual ela trará
prazer e satisfação, que gera uma necessidade no indivíduo mesmo que esta não exista. Mas
isso não se dá de forma inconsciente, pois o indivíduo quer fazer parte da massa, ele precisa
ter e consumir aquilo que os outros têm e consomem para tentar se igualar ao outro, e esse
comportamento é captado pelo marketing para manipular o desejo do indivíduo. A indústria
cultural obtém assim, uma homogeneização dos comportamentos, e a massificação do
sujeito.
Poder comprar é o que classifica o sujeito a um determinado grupo social, gerando um
desejo enorme de se ter para poder ter uma identidade parecida com o outro, o qual é motivo
de inveja. Se antes valorizava o SER, hoje valoriza o TER (BAUDRELLARD, 1995).
Para Marcuse, a dominação funciona como administração total das necessidades e
prazeres, escravizando o homem no trabalho e no lazer, preenchendo o tempo livre dos
indivíduos com programações dirigidas, fabricando uma humanidade apta a consumir objetos
inúteis, cuja obsolescência fora desejada. (MARCUSE apud, NAZÁRIO, 1998, p.84).
As pessoas querem CONSUMIR estilos de vida, em busca da satisfação desejada
frente à frustrante realidade. Estilo de vida pode ser definido como mais ou menos uma série
de práticas, da qual os indivíduos abraçam, não apenas por satisfazerem necessidades úteis,
mas porque elas dão forma material para uma narrativa particular de auto identidade. São
práticas rotineiras, as rotinas incorporadas aos hábitos de vestir, comer e modos de agir.
A gama de informações e pressões a que estão submetidas as pessoas inseridas na
faixa dos que são capazes de consumir, é enorme. Isso causa não só uma angústia, por
maquiar um perfil a ser aceito socialmente, mas denuncia o vazio ao qual estão submetidos,
haja vista o processo de anulação dos quais muitos se revestem em prol de uma aceitação
social. A sociedade contemporânea, diluída e efêmera, constrói padrões de aceitabilidade
social que conflitam com o perfil almejado por muitos indivíduos. Comentando sobre a cultura
do consumo, as pessoas gastam um dinheiro que não possuem, para comprar coisas que não
necessitam, para impressionar pessoas que não conhecem.
Vimos que o marketing não “cria” o desejo de consumo, concordando com a posição
de KELLNER (2001) que entende que nem sempre a mídia atinge seu objetivo de
manipulação, e que não se pode atribuir a mídia tamanho poder de determinação, pois “o
público pode resistir aos significados e mensagens dominantes, criar sua própria leitura e seu
próprio modo de apropriar-se” (2001, p.11) dos produtos midiáticos. Segundo este autor a
mesma mídia oferece os instrumentais, para que o sujeito se oponha aos modelos
40
ÉTICA FILOSÓFICA
hegemônicos. O sujeito não obedece a normas rígidas de consumo, pois obedece a impulsos
de ordem “individual e intersubjetiva”. O poder da mídia reside em centralizar informação,
entretenimento e negócios em um único espetáculo, que através do marketing e da
propaganda serve para disseminar tendências, estilo e comportamento.
No que tange a origem do consumo, havíamos partido da leitura marxista de que com
o advento da Revolução Industrial, o aumento da oferta e o barateamento dos produtos,
propiciou um aumento no consumo, ou seja, a mercadoria gerando a necessidade de nova
mercadoria, num ciclo vicioso que alimenta o capital.
No entanto, segundo a pesquisadora TASCHNER (1997) o consumo de bens
supérfluos tem sua origem nas cortes europeias, tendo início na Idade Média e seu apogeu
no Absolutismo (Sec. XIV à XVII). “É o padrão de consumo desenvolvido por esse segmento
- que depois se populariza através de um processo de mudanças promovidas pelas camadas
sociais que se situam mais abaixo dele - que parece estar na base da cultura do consumidor.
” (p. 08). Este consumo vem em substituição aos troféus e títulos de nobreza, servindo para
diferenciar o seu possuidor dos demais e desta forma, chamar a atenção do rei, o que pode
ser traduzido como símbolo de prestígio.
“Uma vez admitido no círculo encantado da corte, um nobre teria de gastar
ruinosamente para permanecer lá. Ele precisava de roupas bordadas com fios de ouro e prata
e de joias brilhantes para usar nos bailes; um estábulo para cavalos e uma matilha de cães
de caça; carruagens com interior de veludo e painéis pintados para que pudesse acompanhar
o rei em migrações para outros palácios; casas e mobília adequadas para que ele pudesse
oferecer jantares e festas dançantes para a corte; e dúzias de valets e empregados para tornar
todo o resto possível. Com raras exceções os cortesãos contraíam dívidas imensas... [e então]
dirigiam-se ao monarca para obter ajuda financeira” (p. 20/21).
Sendo assim, a cultura do consumo se dá a partir do momento em que não os bens,
mas a imagem desses bens se torna acessível a todos na sociedade.
Temos então, que “os homens se preocupam em manter ou construir certa imagem”.
Formar, nos outros, uma representação de si. (...). Daí a necessidade de uma identidade
mediadora que nos permita comunicar quem somos. Que garanta a ilusão de um ser imutável
e conhecível. (MEUCCI, p. 1), esta identidade mediadora, é feita através do consumo.
Sendo assim, concluímos que a formação da identidade do sujeito, não se dá através
do consumo, mas é através dele que o sujeito constrói a sua identidade virtual, a forma com
que se apresenta e quer ser reconhecido, que segundo Goffman, esconde as marcas de suas
vulnerabilidades.
41
ÉTICA FILOSÓFICA
5
O presente texto é uma publicação da Revista Virtual “Psicologado Artigos de autoria de um grupo de pesquisadores: Adalto
Pedreira, Carolina Ovalle, Caroline Dutcovsky, Juliana Ivantes, LaisMortean, Leonardo Bourroul, MarcelleXanthopoylos, Maria
de Lourdes Palmieri, Sthefanny Ferrari, Thais Peixoto.
42
ÉTICA FILOSÓFICA
Desta forma, o indivíduo identifica-se com a sociedade, porém sem crítica, uma vez
que ele não está apto para isso, pois foi socializado para não identificar as contradições e por
consequência para que não tenha uma consciência crítica. O pai antes o líder da família, é
agora substituído pelos ídolos produzidos pela indústria cultural.
3.3 Consumo
ADORNO). O que a mídia, tenta vender é a felicidade através do consumo. Porém para
Marcuse (1979), a felicidade é incompatível com o modo de vida capitalista, o pensamento
otimista paralisa, porque não nega a realidade, mantêm-se preso a uma ilusão. Mas, esta
ilusão precisa ser mantida, os sujeitos precisam acreditar na realização individual, precisam
acreditar que têm controle sobre a sua vida, que possuem liberdade de escolha, quando na
verdade essa pretensa liberdade é mais uma das categorias ideológicas, pois acreditando que
têm poder de decisão, os indivíduos não resistem ao controle imposto pelo sistema. Isto
implica em que o indivíduo precisa consumir para se constituir como sujeito.
... A crença na independência radical do ser individual em relação ao
todo nada mais é do que uma aparência. A própria forma do indivíduo
é a forma de uma sociedade que se mantém viva em virtude do
mercado livre, no qual se encontram sujeitos econômicos livres e
independentes. (HORKHEIMER & ADORNO, 1973, p. 53)
De Sales e Maldonado, elaboram um estudo sobre o consumo de produtos piratas e
veem que o consumo, principalmente da moda, estabelece uma distinção clara de classes
sociais, e que a pirataria fenômeno do sec. XX permite a discussão sob dois ângulos distintos:
o da exclusão, uma vez que as classes menos favorecidas não têm acesso aos produtos de
luxo, e o da inclusão, feita através dos produtos pirateados.
Para isso, realizam uma pesquisa e dão-se conta que o consumo de produtos piratas
não se dá exclusivamente pelas classes menos favorecidas, mas também por aqueles que
embora tenham condições econômicas para isso, não têm acesso aos produtos originais, por
residirem em cidades onde essas marcas não são comercializadas.
A marca dos produtos, por si só é capaz de estabelecer a distinção entre ricos e
pobres, se antes o consumo do produto se dava pela necessidade e pela qualidade, agora
este consumo se faz através dos logotipos que identificam a classe social de seus
consumidores, com a clara intenção de estabelecer o distanciamento entre as classes sociais,
através do consumo de produtos caros, porque são feitos para poucos. Por outro lado, temos
as classes menos favorecidas economicamente, que com a clara intenção de imitar o estilo
de vida dos mais favorecidos, buscam os produtos piratas, como forma de identificação e
simbolicamente de inclusão.
As grandes marcas investem pesadamente em marketing buscando diferenciar seu
produto, conferindo a seus possuidores status, beleza e poder, mas embora esta publicidade
seja dirigida a um público específico (que detêm poder de compra), introduz nas classes
menos favorecidas o desejo, por estes mesmos produtos que são proibitivos para eles.
Desta forma, estabelece-se o consumo em nível simbólico, onde o consumo tenta
suprir a falta. Por isso, o produto pirateado, pode ser visto como uma forma de inclusão. Para
os países que fabricam os produtos piratas é uma forma de gerar emprego e renda, enquanto
para os consumidores, é uma maneira de atingir pertencimento, se sentir mais próximo da
elite formadora de opinião, o que de outro modo, não seria possível, tendo em conta a enorme
distância entre o poder de compra da elite e os demais membros da sociedade. As autoras
concluem que o absurdo aumento no consumo de produtos pirateados, está longe da
necessidade, e encontrase situado no campo do sonho e da ilusão de alcançar o status da
classe dominante, no desejo do “TER” para “SER”.
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ÉTICA FILOSÓFICA
O que é globalização?
Fonte: [Link]
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ÉTICA FILOSÓFICA
46
ÉTICA FILOSÓFICA
Menos que ser contrário à globalização, Milton Santos estava mais preocupado em
construir um sistema teórico que permitisse elaborar outra maneira de congregar pessoas em
escala internacional. Propunha a solidariedade como medida para a relação, que deveria ser
praticada em prol da cidadania. Já em meados da década de 1980 Santos apontava sua
compreensão da cidadania. Distinguia os consumidores dos cidadãos, escrevendo que:
“O consumidor não é cidadão. Nem o consumidor de bens materiais, ilusões tornadas
realidades como símbolos; a casa própria, o automóvel. Os objetos, as coisas que dão status.
Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais, regalias de um consumo elitizado como o
turismo e as viagens, os clubes, e as diversões pagas; ou de bens conquistados para
participar ainda mais do consumo, como a educação profissional, pseudo educação que não
conduz ao entendimento do mundo” (1987:41)
Em suas palavras encontra-se um posicionamento claro contra o consumismo que
conduz o modelo de reprodução do capital. Ainda que tenha afirmado em mais de uma vez
que não gostava do tema, pode-se identificar também uma inquietação ambientalista em seu
posicionamento claro contra o desperdício de material. E ele atacava ainda os consumidores
de artigos da chamada indústria cultural, aqueles que imaginam estar fora do reino dos mortais
haja visto estarem focados em bens imateriais, em manifestações do espírito por meio das
artes e da informação.
Em sua argumentação não restava lugar entre os cidadãos nem mesmo para o eleitor,
que:
Não é forçosamente cidadão, pois o eleitor pode existir sem que o
indivíduo realize inteiramente suas potencialidades como participante
ativo e dinâmico de uma comunidade. O papel desse eleitor não-
cidadão se esgota.
Não é forçosamente cidadão, pois o eleitor pode existir sem que o
indivíduo realize inteiramente suas potencialidades como participante
ativo e dinâmico de uma comunidade. O papel desse eleitor não-
cidadão se esgota no momento do voto (SANTOS, 1987).
47
ÉTICA FILOSÓFICA
Essa seria sua proposta: alterar o uso da base técnica criada para a circulação de
capital para veicular valores humanos, para permitir uma efetiva integração de laços culturais
distintos que permitam a construção do "acontecer solidário", como definiu (Santos, 2000).
Enfim, Milton Santos queria um mundo diferente. Sua visão otimista do futuro é expressa no
trecho abaixo:
Não cabe, todavia, perder a esperança, porque os progressos técnicos
(...) bastariam para produzir muito mais alimentos do que a população
atual necessita de aplicados à medicina, reduziriam drasticamente as
doenças e a mortalidade. Um mundo solidário produzirá muitos
empregos, ampliando um intercambio pacífico entre os povos e
eliminando a belicosidade (produção de armas) do processo
competitivo, que todos os dias reduz mão de obra. É possível pensar
na realização de um mundo de bem-estar, onde os homens serão mais
felizes, um outro tipo de globalização (SANTOS, 2002).
Aproveitar a base material da existência é algo coerente com sua maneira de pensar.
Já em 1978, em obra que marcou sua inserção teórica. Escrevia na ocasião que:
“ O espaço é a matéria trabalhada por excelência. Nenhum dos objetos sociais tem
tanto domínio sobre o homem, nem está presente de tal forma no cotidiano dos indivíduos”
(Santos, 1978:137).
Deste modo, a mudança tem de vir pela política. Embora expressando otimismo, não
perde a visão futurista ao indicar que as mudanças não virão dos:
Estados Unidos ou da Europa. Virá dos pobres, dos “primitivos” e “atrasados”, como
nós, do Terceiro Mundo, somos considerados. Estas não podem ver muito. São os pobres os
detentores do futuro. O problema de todas as épocas é saber como se dará a ruptura. E as
rupturas se deram antes que todos soubessem como elas iam se dar...” (Santos et al.,
2000:66).
48
ÉTICA FILOSÓFICA
Renato Ortiz
Unicamp
No debate atual sobre o mundo contemporâneo uma certeza se impõe cada vez mais:
vivemos um momento de mudanças aceleradas e profundas. Na esfera da política, a débâcle
soviética, o fim da Guerra Fria, a constituição da Comunidade Europeia, a emergência do
Japão e dos "tigres" asiáticos, redefinem o desenho geopolítico herdado do pós-guerra.
Dentro deste contexto, a divisão bipolar entre comunismo x liberalismo, União Soviética x
Estados Unidos, é ultrapassada por novas relações de forças determinando outra
configuração da ordem internacional. No domínio econômico, a consolidação de um mercado
global traz ainda aberturas e dilemas para o século XXI. Deslocamento da força de trabalho,
49
ÉTICA FILOSÓFICA
6
Na religião, idiossincrasia é o comportamento estranho ou diferente do usual das pessoas, diferente
do comum. Podemos entender o termo nesse sentido como uma aversão à ideia diferente ou oponente.
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ÉTICA FILOSÓFICA
7
A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento, e também
é conhecida como teoria do conhecimento e relaciona-se com a metafísica, a lógica e a filosofia da
ciência. É uma das principais áreas da filosofia, compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja,
se é possível o ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, e da origem do conhecimento.
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ÉTICA FILOSÓFICA
52
ÉTICA FILOSÓFICA
5 A CIDADANIA MODERNA
A participação de todos os segmentos de um grupo nas decisões de seus governos é
uma característica fundamental das sociedades democráticas contemporâneas e uma
questão essencial para entendermos as noções éticas designadas para as ações e reflexões
políticas. Contudo, o direito de votar e ser votado, de eleger representantes, de constituir
assembleias, formar partidos, tomar decisões, elaborar leis e constituições nem sempre foi
uma prerrogativa de todos os cidadãos.
Para que isso fosse possível, foi preciso que todos tivessem assegurados seus direitos
políticos. A conquista desses direitos caminhou juntamente com a luta por direitos civis e
sociais e é fruto da disputa entre as diferentes classes sociais que detinham o poder e as que
desejavam participar das decisões políticas. Até a Revolução Francesa, a aristocracia,
representada pelas famílias que detinham grandes propriedades de terras e títulos de
nobreza, além dos membros que ocupavam os cargos mais altos da Igreja (alto clero),
concentrava mais poder do que o restante da população. Após a revolução, a burguesia,
representada pelos comerciantes, pequenos proprietários, profissionais liberais, entre outras
categorias profissionais, começaram a participar ativamente das decisões do Estado. Durante
o século XIX, a luta pela ampliação do sufrágio masculino aos não proprietários, juntamente
com o movimento das mulheres pelo direito de votar e se emancipar, marcaram a história da
conquista dos direitos políticos.
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ÉTICA FILOSÓFICA
5.4 Migração
Por que as pessoas migram? Eis uma pergunta tradicional que nunca recebeu uma
resposta completa, mas que deu ensejo a muitas publicações e debates. A questão básica
envolve o peso dos fatores de expulsão ou de atração e a maneira como se equilibram.
Para começar, deve-se dizer que a maioria dos migrantes não deseja abandonar suas
casas nem suas comunidades. Se pudessem escolher, todos - com exceção dos poucos que
anseiam por mudanças e aventuras – permaneceriam em seus locais de origem. A migração,
portanto, não começa até que as pessoas descobrem que não conseguirão sobreviver com
seus meios tradicionais em suas comunidades de origem. Na grande maioria dos casos, não
logram permanecer no local porque não têm como alimentar-se nem a si próprias nem a seus
filhos. Num número menor de casos, dá-se a migração ou porque as pessoas são perseguidas
por sua nacionalidade – como as minorias dentro de uma cultura nacional maior – ou seu
54
ÉTICA FILOSÓFICA
credo religioso minoritário (dos judeus aos menonitas 8 e aos dissidentes da Igreja russa
ortodoxa) é atacado pelo grupo religioso dominante.
Uma vez que as condições econômicas constituem o fator de expulsão mais
importante, é essencial saber por que mudam as condições e quais fatores responsáveis pelo
agravamento da situação crítica que afeta a capacidade potencial dos emigrantes de enfrenta-
la. Nessa fórmula, três fatores são dominantes:
Na primeira categoria estão as questões que envolvem a mudança dos direitos sobre
a terra, suscitada via de regra pela variação da produtividade das colheitas, causada, por sua
vez, pela modernização agrícola em resposta ao crescimento populacional. Nas grandes
migrações dos séculos XIX e XX – época em que chegaram à América mais de dois terços
dos migrantes – o que de fato contava era uma combinação desses três fatores.
A imigração europeia colaborou com a urbanização da sociedade brasileira, e junto
com o assalariamento da mão-de-obra, levou ao aparecimento de um superficial mercado
interno para bens de consumo popular no país que acabou levando ao aparecimento das
primeiras unidades industriais no Brasil. Os grupos de imigrantes que vieram para o Brasil
foram os espanhóis, italianos, japoneses, judeus, portugueses, sírios, libaneses e alemães.
5.5 Socialização
8
Os Menonitas (ou mennonitas) são um grupo de denominações cristãs que descende diretamente do movimento Anabatista
que surgiu na Europa no século XVI, na mesma época da Reforma Protestante. Tem o seu nome derivado do teólogo frísio Menno
Simons (1496 – 1561), que através dos seus escritos articulou e formalizou os ensinos dos anabatistas suíços. Segundo estimativas
de 2009, há mais de 1,6 milhões de menonitas espalhados pelo mundo todo.
55
ÉTICA FILOSÓFICA
Ela faz isso a partir de um saber básico que fornece toda a estrutura a partir da qual
ela percebe o mundo ao redor, incluindo a linguagem que a ajuda a organizar o que apreende
como realidade. A incorporação desse “saber básico” no aprendizado primário depende da
linguagem: falar, depois ler e escrever, e constitui o processo fundamental da socialização
primária. Desse modo, os saberes básicos incorporados pelas crianças dependerão muito das
relações entre sua família e os adultos encarregados de sua socialização.
A essa primeira fase da vida, em que aprendemos a falar, a brincar, e a conviver com
as outras pessoas, muitas vezes imitando o que nossos pais e as outras crianças fazem,
chamamos de socialização primária. Ela termina quando a ideia de sociedade foi
completamente estabelecida na consciência do indivíduo – ou seja, de que há um grupo mais
amplo do que o mundo composto pelas pessoas que o socializaram e do qual ele faz parte.
Muitas das experiências de socialização primária não são possíveis de ser lembradas
sem a ajuda de outras pessoas. Boa parte de nossas lembranças é transmitida pelos nossos
pais ou pelas pessoas que cuidaram de nós quando éramos bebês. Mesmo assim, elas fazem
parte das nossas experiências de socialização e constituem parte do repertório de práticas
que utilizaremos como modelos quando tivermos nossos próprios filhos.
Outro aspecto importante a ser ressaltado em relação à socialização primária é o fato
de que não escolhemos as pessoas responsáveis por esse processo. Em outras palavras,
não escolhemos a família em que nascemos. Para as crianças, essas pessoas se tornam
seus “outros significativos”, pois são os responsáveis por cuidarem delas e lhes apresentarem,
por assim dizer, o mundo ao redor. Ora, nossos pais, avós e irmãos também têm seus modos
próprios de pensar e ver o mundo, de modo que aquilo que nos ensinaram quando éramos
crianças tem relação com a sua maneira de ver as coisas. Por esta razão, tendemos a
reproduzir os hábitos e os costumes dos nossos locais de criação e de nossa origem. Somente
mais tarde, quando entramos em contato com pessoas criadas em outros locais ou de origens
diferentes, percebemos as diferenças entre nosso modo de pensar e agir e o dos outros.
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somada à desproteção das classes subalternas, torna a relação entre pobreza e criminalidade
que já era esperado (profetizado). Acabando por formar um círculo vicioso onde, o indivíduo,
para ter trabalho, precisa ter domicílio, registro, carteira profissional e uma situação civil legal.
Podem, classes subalternas, atender tais exigências? Não podem, ficam impossibilitados de
trabalhar por não cumprir tais exigências, passando a engrossar as fileiras de marginalizados
que vivem sob constante vigilância policial.
As estatísticas demonstram que o desenvolvimento econômico tem aumentado a
pobreza e a desigualdade social, evidenciando a incompetência do Estado, no combate à
pobreza, quando toma só medidas públicas de policiamento, vigilância e violência do que de
resolução do problema. E com a globalização dos meios de comunicação, a pobreza, dos
países em desenvolvimento, são transformadas em manchete internacional.
A pobreza é estigmatizada, seja pelo caráter de denúncia da falência da sociedade e
do Estado em relação às suas funções junto à população, seja pelo contraste com a
abundância de produtos, seja pelo perigo iminente de convulsão social. A violência e a
agressividade criam um clima de guerra civil nas grandes cidades, onde os índices de
criminalidade são alarmantes.
Medo e insegurança associado ao preconceito e discriminação contra as camadas
pobres, generaliza medidas arbitrárias de violência e brutalidade, chacinas, linchamentos e
assassinatos. Medidas arbitrárias que não resolvem o problema.
Estudos procuram caracterizar de maneira científica a pobreza, buscando causas,
denunciando responsáveis, procurando tratá-la como um fenômeno dissociado da sociedade.
Chegou-se a falar em "cultura da pobreza”. Realmente, os excluídos dos benefícios da
civilização tecnológica acabam por criar mecanismos próprios de sociabilidade. Sua estratégia
de defesa e sobrevivência já que a pobreza é constantemente afastada e excluída do convívio
social, eximindo-se de responsabilidade os que com ela se relacionam direta ou
indiretamente. Estudos teóricos refletem essa política de exclusão, ao analisar a pobreza
como um fenômeno em si mesmo. Se essa população não participa dos benefícios dos
“privilegiados” e não consome os bens produzidos, certamente algum segmento o faz por ele.
Análises econômicas preocupadas com o desenvolvimento do mercado, elemento
fundamental e necessário ao desenvolvimento das nações, têm procurado alertar que a
população carente representa uma fragilidade e uma ameaça à estrutura social como um todo.
Esses excluídos representam um desperdício de recursos humanos e uma disfunção do
sistema econômico.
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Havia três pessoas em minha cidade cuja lembrança eu trago até hoje comigo. Eu
cresci observando aquelas pessoas. Não sabia por que, mas sempre que eu cruzava com
uma delas na rua, eu parava e ficava olhando. Eram três pessoas conhecidas por todos da
cidade: Lilita, Cafezinho e o poeta Alberto David.
Lilita era uma velha senhora solteira que morava numa casa simples próxima à zona
do meretrício. Ela nunca sorria e tinha outra característica muito singular: andava sempre com
todo o corpo coberto de panos, um por cima do outro. Tal qual as mulheres muçulmanas, Lilita
se cobria dos pés à cabeça. De Lilita, ninguém da rua jamais viu os cabelos ou as pernas.
Apenas uma parte de seu rosto ficava à mostra. Sobre todas as peças de roupas, Lilita ainda
colocava cobertores de lã. Fazia sol ou chuva, frio ou calor, e lá vinha ela toda coberta de
panos andando pela cidade. Os meninos da rua atiravam-lhe pedras e a chamavam de louca,
louca... Cafezinho era o mendigo mais conhecido da cidade. Vagava sempre sozinho pelas
ruas com um velho caneco na mão pedindo café. De sua boca ouvia-se apenas uma palavra,
um quase murmúrio: café, café, café... sujo, descalço, rasgado, barbado e banguelo, a
imagem de Cafezinho se prestava para que as mães ameaçassem chamá-lo quando uma
criança não queria se alimentar ou tomar algum remédio. Mas quando alguém esquecia a
porta da casa aberta, às vezes se surpreendia mesmo com Cafezinho em um canto da sala,
de caneco na mão, pedindo café.
Era uma figura soturna e silenciosa.
Alberto David era um jovem poeta da cidade. Na minha lembrança a sua figura se
parece com a imagem que nós temos de Jesus Cristo: alto e magro, de face fina, cabelos
longos e barba. Era um rapaz de semblante muito triste e que procurava expressar em
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palavras o que muitos sentiam sem conseguir dizer. Por vezes caçoado, humilhado e
ofendido, andava sempre sozinho e cabisbaixo, recitando poemas pelas ruas da cidade.
A presença de Alberto David, de Lilita ou de Cafezinho me fascinava e atraía a minha
atenção de uma forma que, provavelmente, eles não atingiam outros moradores da cidade.
Afinal, todos já estavam familiarizados com aquelas três figuras. Assim como a igreja da
matriz e os bancos da praça, eles faziam parte do cenário urbano. Um viajante que estivesse
pela primeira vez ali, ao se deparar com aquela mulher toda coberta de panos, talvez se
deixasse admirar. Os moradores da cidade, não. Mas eu, sempre que saía para ir à escola,
à igreja ou ao cinema, quando cruzava com Lilita, com Cafezinho ou com Alberto David, eu
parava e ficava olhando. Era como se os estivesse vendo pela primeira vez ou, quem sabe,
pela última vez. Recordo de minha mãe andando apressada pelas ruas me puxando pela mão,
e eu, de corpo e rosto virados, olhando, olhando... meus olhos infantis captavam alguma coisa
que eu não conseguia compreender.
Até hoje, quando encontro alguém de minha cidade, em algum momento da conversa
eu evoco a lembrança dos três. Quando há alguns anos me contaram que Lilita havia morrido,
eu fiquei imaginando: “Como será agora, andar pelas ruas de minha cidade e não cruzar mais
com Lilita”? Pergunta semelhante eu também me fiz no dia em que me disseram que
Cafezinho já havia desaparecido das ruas.
Alberto David, Cafezinho e Lilita: o poeta, o mendigo e a louca.
Hoje, entendo que havia uma dimensão trágica naquelas três pessoas. Em uma
sociedade patriarcal e machista, Lilita era o símbolo da mulher reprimida. Ao andar sempre
sozinha e coberta de panos pelas ruas da cidade, frustrada em seus sonhos, castrada em
seus desejos, Lilita talvez concentrasse em si a repressão que havia em todas as outras
mulheres.
Cafezinho, o homem sem nome, maltrapilho e esfarrapado, vivendo ao relento pelas
ruas, de caneco na mão pedindo café, era o símbolo de um grande contraste. O contraste de
um país e de uma cidade que se desenvolveram com a riqueza do café, que produziram os
seus barões do café. Mas que se pautavam (e ainda se pautam) pela exclusão social. Na terra
do café, Cafezinho era a imagem do próprio povo e ele sintetizava a miséria de multidões
esquecidas e espalhadas por todo o Brasil.
Alberto David, o moço de aparência sombria e tristonha, andando cabisbaixo pelas
ruas da cidade, era a imagem de sua geração: a geração abandonada do começo da década
de 70. Com sua sensibilidade, o poeta captava a frustração e o desencanto que se abateram
sobre milhares de jovens, que um dia sonharam em mudar o mundo, mas que sentiram
quando o sonho acabou.
Alberto David, Cafezinho e Lilita; o poeta, o mendigo e a louca.
Três figuras únicas, misteriosas e solitárias. Eu nunca a via acompanhada. Andavam
sempre sozinhos pelas ruas da cidade, cada qual no seu caminho.
Dos três, apenas do poeta se sabe o nome; dos três, apenas o poeta ainda vive, mas
os três são eternos para mim. A eles dedico este livro.
11 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conteúdo do texto acima, de autoria de Paulo César de Araújo expõe uma realidade
bastante presente em nosso cotidiano. É provável que todos vocês, ao lerem o texto, tenham
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vislumbrado esses personagens (Lilita, Cafezinho e Alberto David) no cenário das suas
cidades, no ambiente social. Nós passamos por eles diariamente sem nos dar conta desta
“dimensão trágica”, descrita pelo autor. São pessoas excluídas do processo social, sem
referência história e sem nenhum sentimento de cidadania e de valor social. Estão sujeitos à
ação dos demais indivíduos da sociedade para que possam, ou não, sobreviver ao dia
seguinte.
Os valores éticos trabalhados na disciplina seriam os mecanismos necessários para
possibilitar a ampliação da percepção destes problemas e para encaminhar soluções e formas
de reduzir as desigualdades sociais, promover a aquiescência e começarmos a reescrever
uma nova etapa da história no que se refere às relações humanas sociais.
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12 BIBLIOGRAFIA BÁSICA
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
VALLS, Álvaro L. M. O que é ética? São Paulo. Coleção primeiros passos. Ed.
Brasiliense,1996.
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