Gestão da Inovação: Desafios e Avanços
Gestão da Inovação: Desafios e Avanços
PENSATA
Submetido em 27-04-2023. Aprovado em 19-09-2023
Avaliado pelo sistema de revisão por pares duplamente anonimizada. Editor Associado: Rudra Pradhan
Os/as avaliadores/as não autorizaram a divulgação de sua identidade e relatório de avaliação
Versão traduzida | DOI: [Link]
*Autor correspondente
¹Fundação Oswaldo Cruz, Vice-presidência de Produção e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
²Laboratório Digital & Smart HealthCare, UNIDEMI, Departamento de Engenharia Mecânica e Industrial, Nova School of Science and Technology, Universidade
Nova de Lisboa, Caparica, Portugal
³LASI, Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes, Guimarães, Portugal
ÿCentro Colaborador da OMS para Política e Planejamento da Força de Trabalho em Saúde, Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de
Lisboa, Lisboa, Portugal
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todos interagindo num contexto nacional e cada vez mais global. A inovação está na sua “quinta
geração” (Rothwell, 1992) como consequência de conexões de rede ricas e proporcionadas,
aceleradas e tornadas possíveis por uma vasta gama de tecnologias de informação e comunicação
(Tidd et al., 2005). Outra percepção mais recente é de que as inovações são o resultado de
investimentos sistêmicos (não necessariamente financeiros) e de esforços direcionados a
objetivos específicos (Salerno et al., 2010). São um processo cumulativo que deve ser realizado
de forma integrada, para além do gerenciamento e desenvolvimento de competências em algumas
áreas (Tidd et al., 2005). As inovações bem-sucedidas em geral, além de um lampejo de
genialidade, advêm de uma busca consciente e intencional (Kruger et al., 2019), ou seja, não ocorrem ao acaso.
De acordo com Kahn (2018), o termo inovação tem sido aplicado para quase tudo e em
qualquer lugar. Organizações e políticos estão incluindo o termo em suas declarações,
organogramas e discursos. Departamentos e centros de inovação já existem ou estão sendo
criados em campi universitários, empresas, centros urbanos e regiões. Ainda assim, a palavra
inovação é considerada a mais importante e superutilizada na América (O'Bryan, 2013), o que
leva a incompreensão e erros (Kahn, 2018). Nesse sentido, é importante ressaltar que uma
discussão séria sobre o tema exige rigor em suas definições.
A termo inovação foi conceituada pela primeira vez por Schumpeter (1934), em sua obra “A
Teoria do Desenvolvimento Econômico”. Para o autor, a inovação era “uma nova combinação de
meios de produção que abrange os cinco casos seguintes: novos bens; novo método de
produção; novos mercados; nova fonte de abastecimento; e nova organização da indústria” (p.
32). O Manual de Oslo marcou o campo da inovação nos últimos 25 anos com um impacto que
se estendeu tanto à pesquisa quanto à indústria. Em sua terceira edição, ele traz a definição
mais utilizada para inovação: a “implementação de um produto (bem ou serviço) ou processo
novo ou significativamente melhorado, um novo método de marketing ou um novo método
organizacional nas práticas empresariais, na organização do local de trabalho ou nas relações
exteriores” (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico [OCDE]/Eurostat, 2005, p.
46). A quarta edição do Manual de Oslo (OCDE/Eurostat, 2018) trouxe uma nova categoria de
inovação, como “inovações no modelo de negócios”, “que podem variar entre inovações parciais
do modelo empresarial, que afetam apenas os produtos ou as funções empresariais de uma
organização, e inovações abrangentes do modelo empresarial, que envolve tanto os produtos
como as funções empresariais” (OCDE/Eurostat, 2018, pp. 76-77).
O conceito de inovação organizacional desenvolveu-se a partir do trabalho inicial de
Schumpeter e tem como significado as mudanças na estrutura organizacional interna e os
procedimentos que facilitam a mudança organizacional e o crescimento em resposta às demandas
do mercado (Damanpour & Aravind, 2012). Este tipo de inovação não foi conceitual, tampouco
empiricamente examinado extensivamente na análise realizada no âmbito da empresa, tal como
foi a inovação tecnológica, que é descrita como um redesenho de bens e serviços da empresa
(ou seja, inovação de produtos), bem como eles são produzidos e fornecidos (ou seja, inovação
de processos) (Diéguez-Soto et al., 2016). A compreensão deste conceito é um tanto controversa.
Diferentes termos, como inovações organizacionais, administrativas e de gestão, têm sido usadas
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para conceituar mudanças inovadoras nas práticas e processos de gestão. No entanto, apesar
da sua sobreposição, os conceitos não são idênticos (Volberda et al., 2013). A inovação
administrativa tem um significado mais restrito e está tipicamente associada a inovações em
torno da alocação de recursos, estrutura organizacional e políticas de recursos humanos, e
exclusão de operações e gestão de marketing (Birkinshaw et al., 2008). A inovação organizacional
tem sido utilizada em termos mais amplos, incluindo qualquer atividade inovadora dentro da
empresa. No entanto, tal definição não inclui a função dos administradores ou ajustes na forma
como as tarefas de gestão são realizadas (Birkinshaw et al., 2008).
O termo gestão da inovação é usado para a criação e implementação de uma nova prática
de gestão, estratégia, estrutura, processo, sistemas administrativos, procedimentos e técnicas
de gestão, para preservar ou melhorar o desempenho ou eficácia organizacional (Birkinshaw et
al., 2008 ;Damanpour & Aravind, 2012). Ele consiste em mudar a forma organizacional e as
práticas e os processos de uma empresa de uma maneira nova e sustentável, e alavancar sua
base de conhecimento tecnológico e seu desempenho em termos de inovação, produtividade e
competitividade (Volberda et al., 2013). A gestão da inovação, por ser percebida como mais
abrangente, passou a ser mais aceita em publicações recentes (Ozturk & Ozen, 2020). As
inovações gerenciais são frequentemente geradas pelas seguintes fases: insatisfação com o
status quo da empresa; inspiração externa; invenção; validação; e difusão (Birkinshaw & Mol, 2006).
As inovações gerenciais são chaves para o sucesso das empresas e mantêm o apoio da
gestão de alto nível, especialmente para mudanças radicais (Dereli, 2015). Segundo Diéguez-
Soto et al. (2016), a gestão profissional tem um efeito positivo na inovação da empresa, e a
gestão da inovação atua como antecedente e facilitadora da inovação de produtos e processos.
Volberda et al. (2013) traz algumas evidências de pequenas, médias e grandes empresas, que
mostram que a inovação bem-sucedida é amplamente explicada pelo que tem sido chamada
de “gestão da inovação”, e não apenas pelo resultado da inovação tecnológica. Uma
investigação sobre os efeitos da gestão da inovação em 1.065 empresas da Turquia descobriu
que as mudanças nas práticas de gestão têm um impacto maior na inovação de processos do
que na de produtos, especialmente em pequenas empresas (ou seja, com menos de 50
funcionários) (Ozturk & Ozen, 2020).
A gestão da inovação adequada parece proporcionar uma vantagem competitiva para as
empresas (Dereli, 2015). As mudanças nas práticas e processos de gestão são muitas vezes
intangíveis e difíceis de replicar. De acordo com a visão baseada em recursos, a introdução de
gestão da inovação permite que as empresas tenham “recursos e conhecimentos significativos,
raros, inimitáveis e específicos” (Ozturk & Ozen, 2020, p. 1). Essas inovações são exclusivas
da empresa que se desenvolve e têm caráter abstrato. Apesar do recente aumento do interesse
acadêmico, a gestão da inovação ainda é um tema pouco investigado, sendo objeto de apenas
3% dos artigos sobre inovação, de acordo com a revisão sistemática da literatura realizada por
Crossan e Apaydin (2010).
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emitidos 31.318 certificados no âmbito da norma ISO 9001:2015 – Sistemas de gestão da qualidade, segundo o Censo ISO 2021, disponível em https://
[Link] /[Link]. Mas apesar do número de certificações concedidas para sistemas de gestão da inovação ser tão pequeno em
comparação com o número de certificações de sistemas de gestão da qualidade, este último foi lançado em 1994, há quase 30 anos. Ou seja, existe
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produto ou procedimento (Adams et al., 2006). O sistema deve ser flexível e fluido ao passar por
todos os estágios de inovação e é diferente, até certo ponto, entre as organizações e dentro delas,
variando a cada projeto (Adams et al., 2006).
“Os sistemas de gestão da inovação respeitam as políticas, procedimentos e mecanismos
de informação estabelecidos que facilitam o processo de inovação dentro e entre as organizações.
Eles determinam a forma das interações e decisões diárias da equipe, a ordem em que o trabalho
acontece, como é priorizado e avaliado diariamente e como diferentes partes da empresa usam a
estrutura organizacional para se comunicar” (Davila et al., 2006, p. 8).
A literatura sobre gestão da inovação traz algumas propostas de sistemas sob a perspectiva
da inovação como processo, mas raramente adotam as normas oficiais internacionais (ISO, CEN,
ABNT ou outras) para sistemas de gestão da inovação ou suas lições. Vilha (2010) propõe o
Modelo de Gestão da Inovação Tecnológica (TIM), que considera três dimensões: estratégica,
tática e operacional. Outro modelo bem conhecido foi desenvolvido por Tidd et al. (2005), que é
simples, genérico e direcionado aos aspectos-chave da gestão da inovação. Este modelo está
dividido em quatro fases: pesquisa; seleção de oportunidades tecnológicas e de mercado;
implementação (aquisição de conhecimento e tecnologia, execução de projetos, lançamento de
inovação e sustentabilidade); e aprendizado e renovação. Adams et al. (2006) desenvolveu uma
estrutura resumida para o processo de gestão da inovação, com sete partes: gestão de insumos,
gestão do conhecimento, estratégia de inovação, cultura e estrutura organizacional, gestão de
portfólio, gestão de projetos e marketing.
Os modelos de gestão da inovação mais difundidos são as abordagens “Funil de Inovação”
(Funil de Inovação) e “Stage Gates” (ou “portões” entre os estágios) (Vilha, 2010). Eles foram
desenvolvidos entre as décadas de 1980 e 1990 e, embora tenham sido incorporados com foco
em novos produtos, ambos também foram utilizados para novos serviços (Kitsuta & Quadros, 2019).
A abordagem Funil de Inovação, desenvolvida por Clark e Wheelwright (1993), é amplamente utilizada nas
indústrias de bens de consumo, onde o volume de ideias para novos produtos tende a ser grande e as
equipes de inovação, através de fases e avaliações, buscam reduzir o número de ideias e priorizar esforços
com maior probabilidade de sucesso no mercado. O funil fornece uma estrutura para gerar e revisar
alternativas, a sequência de decisões críticas e a natureza da tomada de decisão.
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O tipo de inovação, incremental ou radical (ou mesmo disruptiva), também define o modelo de
gestão da inovação e as técnicas a serem empregadas (Ocampo et al., 2019).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma organização que foi desenvolvida para atender um mercado específico não evolui e nem
gera inovações de forma natural. É preciso ousadia e disposição; conhecimento científico e
experiência em sua área de atuação; acesso a tecnologias modernas para pesquisa; conexões
e parcerias em diferentes fases da inovação; agir de forma mais dinâmica; e estar em sintonia
com os desafios setoriais, políticos e de mercado. Além de tudo isto, as organizações executivas
dos meios de planejamento e gestão são mais adequadas. As organizações precisam encarar
a inovação de maneira mais séria, compreendendo sua natureza estratégica e construindo
capacidade para a gestão.
Nas últimas décadas, tem havido um interesse crescente em acelerar a capacidade de
inovação dos ambientes organizacionais, dos ecossistemas empresariais, no incentivo aos
sistemas de inovação nacionais e subnacionais, além da expansão de fundos, e na reforma dos
marcos legais de P,D&I. Mas, enquanto os governos planejam, regulam e financiam, o
desempenho das organizações, que são os verdadeiros fornecedores de bens e serviços à
sociedade, é o que, em última análise, determina o sucesso das políticas (Howlett et al., 2015).
As iniciativas de nível macro precisam considerar a dimensão organizacional e as suas possíveis fontes de fraca
Torna-se cada vez mais evidente que as empresas que consideram seriamente a inovação
prosperarão nesta nova era, criando e introduzindo novos produtos de uma forma mais eficaz,
eficiente e sustentável. Além disso, fica óbvio que a gestão eficaz do processo de inovação é a
única forma de atingir esse objetivo. Portanto, os gestores devem desenvolver e fornecer
infraestrutura e sistemas de apoio necessários. As organizações podem melhorar suas
possibilidades de contratar os melhores talentos e criar um ambiente propício à inovação,
conhecendo os procedimentos e elementos que promovam a inovação de produtos (Cormican
& O'Sullivan, 2004).
As organizações que pretendem inovar devem construir um processo formal para isso e
fazer uso das ferramentas e técnicas de gestão da inovação recomendadas (Adams et al., 2006).
De acordo com a afirmação fundamental da inovação, que diz: “Como você inova determina o
que você inova” (Davila et al., 2006, p. 2), as empresas devem observar sobre como estão
gerenciando sua inovação. Os sistemas sociotécnicos utilizados também devem ser adaptados
à empresa para que o processo de inovação seja gerenciado de forma eficaz (Cormican &
O'Sullivan, 2004). A implementação de um sistema de gestão da inovação é uma inovação, e
não uma fórmula secreta (Davila et al., 2006). Devemos estar conscientes das limitações dos
sistemas de gestão da inovação e perceber que eles melhoram a boa gestão, mas não a substituem.
Nos últimos quinze anos, muitas iniciativas surgiram com o objetivo de melhorar a
gestão da inovação, como a proposição de novos modelos de sistemas de gestão e, por vezes,
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A adoção de um SGI é uma decisão organizacional de alto nível e deve estar alinhada com
seus objetivos estratégicos. Os sistemas de gestão da inovação faseada têm, no entanto, limitações.
Eles se concentram no monitoramento e controle do risco técnico dos projetos, porém, por vezes, o objetivo
principal pode exigir ação rápida. Os sistemas de gestão da inovação em fases, pelo seu formalismo, podem
restringir a capacidade de encurtar os ciclos de desenvolvimento.
Eles também estrangularam o acesso parcial à informação. O risco técnico precisa ser equilibrado com o
risco de mercado, e isso requer adaptação e equilíbrio ao sistema de gestão de projetos (por exemplo, uma
parceria específica), que passa para a capacitação dos gestores e para uma menor ênfase no controle
formal. O grau de complexidade de um projeto determina o esforço necessário e, portanto, a duração do
ciclo de desenvolvimento. A mentalidade de tamanho único, muitas vezes cria um sistema inadequado
para projetos mais complexos. Especialmente para a inovação disruptiva, que é uma atividade notoriamente
imprevisível e necessita de maior flexibilidade.
A gestão da inovação também deve aproveitar as oportunidades decorrentes das parcerias e dos
ecossistemas nos quais as organizações estão inseridas. Nem todos os processos de inovação e nem toda
gestão da inovação são necessariamente realizados pela mesma organização.
Ainda existe um conhecimento limitado sobre a gestão da inovação, a utilização de sistemas e rotinas
para esse fim, e o que funciona melhor e em que condições. A evidência disponível sobre os sistemas de
gestão da inovação e os seus resultados ainda é escassa, difícil de generalizar e, por vezes, contraditória.
O que existem são estudos de caso, estudos de caso múltiplos e algumas pesquisas baseadas em
aspectos do sistema de inovação, com informações gerais autorrelatadas por gestores ou representantes
designados, que podem ter diversos significados e interpretações em diversas dimensões. Não se sabe
realmente o que funciona em termos de gestão da inovação, para que tipos de inovação e em que situações.
Trata-se ainda de um processo novo e em expansão que necessita de pesquisas científicas mais
sistemáticas e principalmente empíricas. O interesse crescente e a necessidade de acelerar a capacidade
de inovação dos ambientes organizacionais, dos ecossistemas empresariais e dos sistemas e subsistemas
de inovação exige conhecimento empírico urgente para gestores, pesquisadores e políticos específicos em
melhorar o desempenho das TICs, universidades, centros de pesquisa, parques empresas tecnológicas,
grandes e médias, startups, empresas de base tecnológica e outros intervenientes no ecossistema de
inovação.
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NOTA
Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT - MCTES), Projeto UIDB/00667/2020
(UNIDEMI).
CONFLITOS DE INTERESSE
Os autores não têm conflitos de interesse a declarar.
15 FGV EAESP | RAE | São Paulo | V. 64 | n. 1 | 2024 | 1-15 | e2023-0160 eISSN 2178-938X