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Duelo de Honra entre Guerreiros

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Honra

Da ponta da espada, o ronin via claramente seu adversário. Imóveis, a fria brisa
farfalhava as vestimentas já sujas pela lama e umidade, carregando as folhas róseas que na
água tornavam a descansar. O olhar dos guerreiros era afiado, cortavam-se um ao outro
antes mesmo de mover um sequer polegar na frágeis guardas que bastando um
movimento se despedaçariam em sangue.
O vento parou quando o samurai avançou num grito, o ar cortado pelo aço e o
tilintar das espadas em colisão. Em um sobressalto, o ronin armava sua defesa,
sequencialmente defendendo os ataques selvagens da fera a duelar. Pelos arrepiados, o
calor pelo corpo, o choque e o coração na garganta, o ronin sabia que só precisava de
uma brecha para pender a luta para si. Ao mais uma vez as lâminas tocarem-se, com toda
a destreza que encontrou correu, até que mais uma vez estavam distantes.
Sua lâmina arranhada, em defesa, tremia ao encontrar o sorriso zombeteiro do
samurai, que o observava em guarda relaxada. Parecia que a esgrima que tanto cultivou
nada valia no duelo, e lutava para não deixar aquele sentimento crescer. Quando o
adversário se pôs a novamente empunhar a espada para a luta, o ronin se sentia tão
inofensivo a não ser digno de ser defendido. Aquela esquiva custou sua honra, e cada
golpe falhado lhe apagava o orgulho.
Sua vergonha aqueceu ainda mais o sangue em brasa. Ele tentava controlar, mas a
chama crescia incontrolável e logo tornou-se ira. Não havia tempo para hesitar. Com a
espada no alto, avançou furiosamente num golpe vertical, mas o samurai já estava
preparado. Um corte veio por baixo. Desmontou, defendendo num susto as lâminas em
atrito, tangenciando-se perpendicularmente enquanto, novamente, o sarcástico olhar o
apunhalava a alma.
Ao quebrar o impasse num empurrão, mais um corte lateral veio e logo uma
desengonçada defesa. Era claro que ele próprio não era tão páreo para seu adversário
quanto achava, mas se desistisse da luta, não teria outro caminho senão a desonra. Ou
morria ali mesmo, ou matava o inimigo. Tão simples os caminhos quanto o dia e a noite.
A brisa retornou, e o ar ofegante deixou finalmente ambos suarem. Não havia
saída para o duelo entre dois guerreiros. A certeza da morte era cada vez mais próxima,
até seu adversário sabia disso. Para todos os fins, o duelo já estava escrito desde seu
começo, como uma coreografada dança onde seu desfecho é ensaiado. Firmou os pés, as
espadas quase em tangente, e a guarda manteve a mesma. A mesma que o samurai a
encarar ensinou.
O ataque veio mais forte, as vestimentas esvoaçando no vento frio quando o aço
penetrou fundo no braço do ronin. Em instinto, esquivou-se. O sangue rubro tingiu as
pétalas sobre as poças enlameadas. Com apenas uma das mãos, apontava a espada para
seu antigo mestre. O vento bateu mais forte, a natureza chamava, e sem piedade alguma o
samurai estocou.
Mas com a mão livre, o movimento podia ser fraco, mas era fluido e ágil, assim
como a brisa fria do inverno que chegava trazendo as pétalas da cerejeira. O ronin sentia
o longo e gélido aço trazendo a escaldante dor ao seu peito, mas não sem ver o orgulho
inimigo desvanecer-se com a lâmina cravada no pescoço, e o fino sangue dele brotando e
lhe manchando as vestes. Fundidos numa dança de espadas cravadas, o ronin sorriu, e sua
vítima desvencilhou-se com a mão na garganta, inutilmente tentando evitar o próprio
afogamento.
A brisa acalmou-se, e vislumbrando a serenidade da neblina, desabou, permitindo
que a espada que o atingiu lhe levasse para a morte. O céu nublado anunciava a mudança
da estação, e enquanto seu corpo caía, sua alma se erguia. Não havia mais vergonha, e a
honra seria sua para sempre.

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