Tribunal de Justiça do Estado da Bahia
PODER JUDICIÁRIO
QUINTA TURMA RECURSAL - PROJUDI
PADRE CASIMIRO QUIROGA, LT. RIO DAS PEDRAS, QD 01, SALVADOR - BA
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DECISÃO MONOCRÁTICA
RECURSO INOMINADO. O NOVO REGIMENTO DAS TURMAS RECURSAIS,
RESOLUÇÃO No 02/2021, ESTABELECEU A COMPETÊNCIA DO RELATOR PARA
JULGAR MONOCRATICAMENTE MATÉRIAS COM UNIFORMIZAÇÃO DE
JURISPRUDÊNCIA OU ENTENDIMENTO SEDIMENTADO. DEMANDAS
REPETITIVAS. CONDIÇÕES DE ADMISSIBILIDADE PREENCHIDAS.
CONSUMIDOR. INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS E MATERIAIS. SERVIÇOS
BANCÁRIOS. EMPRÉSTIMO [Link] DE TRATO SUCESSIVO.
DESCONTOS INDEVIDOS NO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO DO AUTOR.
CONSTITUIÇÃO DE EMPRÉSTIMO ATRAVÉS DE CARTÃO DE CRÉDITO. RMC.
ENDIVIDAMENTO PERPÉTUO DO CONSUMIDOR. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA
TRANSPARÊNCIA DOS CONTRATOS E DA BOA FÉ OBJETIVA. MÁ PRESTAÇÃO
DE SERVIÇO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA - ART. 14, DO CDC.
DECLARAÇÃO DE NULIDADE DO CONTRATO OBJETO DA LIDE. RESTITUIÇÃO
SIMPLES DOS VALORES INDEVIDAMENTE DESCONTADOS. AUTORIZAÇÃO À
RÉ PARA COMPENSAÇÃO DO VALOR CREDITADO NA CONTA DA PARTE
AUTORA. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO DA RÉ CONHECIDO E IMPROVIDO.
A Resolução no 02, de 10 de fevereiro de 2021, que instituiu o Regimento
Interno das Turmas Recursais dos Juizados Especiais Cíveis, Criminais e da Fazenda
Pública do Estado da Bahia e da Turma de Uniformização da Jurisprudência,
estabeleceu a competência do relator para julgar monocraticamente matérias com
uniformização de jurisprudência ou entendimento sedimentado. No presente caso, a
matéria narrada na exordial trata de empréstimo através de RMC, matéria que já se
encontra sedimentada no entendimento que se expõe a seguir.
A parte autora ajuizou ação anulatória de contrato de cartão de crédito com
reserva de margem consignável c/c indenização por danos morais em face do réu.
Aduz, em síntese, ter sido surpreendido com o “Empréstimo Reserva de Margem
Cartão de Crédito -RMC”. Alega que a ré o induziu a erro, não tendo sido informado
acerca dos encargos incidentes, sendo indeterminado o termo final da sua dívida.
Pugna pela anulação do contrato liberação da margem consignável, restituição em
dobro dos valores pagos e indenização por dano moral.
O juízo a quo proferiu sentença nos seguintes termos:“ace ao exposto, com
fulcro no art. 487, I, do NCPC, JULGO PROCEDENTES os pedidos e declaro extinto o
processo com apreciação do mérito para:
1) DETERMINAR O CANCELAMENTO do cartão de credito consignado, bem
como os descontos dele decorrentes em nome da autora, emitido pela ré, sob pena de
multa diária de R$100,00 em caso de descumprimento, limitada a R$ 2.000,00 (dois
mil reais);
2) CONDENAR A RÉ A RESTITUIR a quantia paga pela autora, em dobro,
limitado aos descontos comprovados nos autos, tudo devidamente corrigido por juros
e correção contados da citação.
3) CONDENAR A RÉ a pagar à parte autora, a título de indenização por
DANOS MORAIS, a quantia de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) com correção monetária e
juros do arbitramento.
Partes isentas do pagamento de custas processuais e honorários advocatícios
nessa fase procedimental (art. 54 da lei nº 9.099/95)”.
Tempestivamente, a ré interpôs, por meio de advogado habilitado nos autos,
recurso inominado, visando reformar a sentença para total improcedência.
Após conhecer o recurso, passo a examiná-lo.
Trata-se de contrato de trato sucessivo, desta forma, enquanto ocorrer
descontos no benefício da parte autora não estará configurada a decadência do direito.
A demais preliminares já forma devidamente analisadas e rejeitadas pelo
juízo de origem, mantenho a decisão,
Diante da criteriosa análise processual, entendo que a sentença não merece
reforma.
Analisados os autos, observa-se que a matéria de se encontra
sedimentada no âmbito da 5ª Turma Recursal. Precedentes desta turma:
Processos: 0059237-49.2020.8.05.0001; 0159052-19.2020.8.05.0001;
0155795-83.2020.8.05.0001; 0206535-79.2019.8.05.0001; 0180648-
93.2019.8.05.0001.
Do exame dos autos, verifica-se não se tratar de hipótese de empréstimo
contratado de forma fraudulenta.
Destaque-se que este tipo de prática comercial enseja evidente prejuízo ao
consumidor, e endividamento, algumas vezes, perpétuo, pois suscetível de gerar
parcelas infindáveis e pagamentos que ultrapassam facilmente quatro, cinco vezes o
valor inicialmente contratado no empréstimo, causando vantagem excessiva ao Banco
e situação extremamente desvantajosa ao consumidor.
A conduta da acionada, realizada ao arrepio da Lei 10.820/03 que disciplina
a matéria afigura-se ilegal, além de haver ofendido expressamente o CDC, art. 39, III.
A abusividade da conduta da ré mostra-se inequívoca e deve ser duramente
reprimida em face da hipossuficiência acentuada da parte autora. A posição de
extrema vantagem da ré na relação contratual entabulada mostra-se excessiva e
desproporcional.
Em se tratando de contratação tão onerosa para o contratante, a
cientificação do consumidor sobre os encargos, número de prestações, e demais
cláusulas contratuais, constitui obrigação indisponível.
Assim, ante a violação ao dever de informação e transparência dos contratos,
previsto no art. 4º, caput, e 6º, III, do Código de Defesa do Consumidor, bem como a
inobservância das disposições pertinentes, em especial a imposição de condições que
estabelecem prestações desproporcionais ou excessivamente onerosas, entendo
correta a sentença, por reconhecer a nulidade do referido contrato de empréstimo.
No mesmo sentido:
DAS TURMASRECURSAISATUALIZAÇÃO 26/07/2023
“Súmula nº 41 – É lícita a contratação de cartão de crédito
consignável, desde que observado o direito à informação do consumidor e
afastado qualquer vício do seu consentimento na realização do negócio
jurídico”.
Ante o quanto exposto, CONHEÇO E NEGO PROVIMENTO AO RECURSO DA
PARTE ACIONADA, MANTENDO a sentença de origem na íntegra. Decisão integrativa
proferida nos termos do art. 46 da lei 9.099/95. Custas e honorários pela parte
Recorrente em 20% sobre a condenação.
Salvador-BA, em 19 de Dezembro de 2023.
ROSALVO AUGUSTO VIEIRA DA SILVA
Relatoria
Presidência