Similarmente ao observado em diversas sociedades ao redor do globo, e
especificadamente no Ocidente, no Brasil o futebol consolida-se como uma prática desportiva
de imenso apelo e aceitação populares, a qual tem consagrado um domínio social produtor de
sentidos, valores e costumes, além de identidades edificadas segundo relações de
pertencimento, formadas por e formadoras de afinidades e antagonismos coexistentes. O
chamado “esporte bretão” encontra-se secularmente inserido na vida diária do cidadão
brasileiro comum, enquanto meio e agente de socialização informal, e largamente difundido
por todas as grandes regiões do país.
No mais, tratar da representatividade assumida pelo esporte futebol, o mais popular do
país e até o atual estágio majoritariamente elevado à condição de instituição agregadora de
simbolismos psíquicos, socioculturais, históricos e espaciais (BRUNI, 1994; CAMPOS, 2013),
requer do pesquisador ir além de categorizá-lo como simples desporto de massa, ou mais uma
modalidade de prática corpórea, pois em distintas sociedades (inclusive a brasileira) e épocas
seu significado tem excedido a denotação usual, tornando-se bem mais do que um embate entre
duas equipes de 11 atletas cada, comprometidas com a finalidade (literalmente goal, em inglês)
de fazer adentrar totalmente em um arco retangular - de 2,44 m (metros) de altura por 7,32 m
de largura – um objeto esférico (CAMPOS, 2013; JESUS, 2014).
À luz do conceito de configuração, cunhado pelo sociólogo alemão Norbert Elias para
referir-se à inseparabilidade entre indivíduo e sociedade, em seus distintos matizes (do evento
em rua ou campo improvisado ao espetáculo periódico sediado em arenas modernas) o futebol
e seu principal aspecto, o jogo, arregimentam uma massa de indivíduos heterogêneos em torno
de um objetivo unívoco: vencer o adversário (TOMAZI, 2010). Após o término de uma partida,
a consecução de uma vitória, empate (quando permitido) ou derrota expressa o impetuoso fluxo
de expectativas, emoções e interações ocorrido durante a referida disputa, de sorte que
compreender o significado do êxito ou do insucesso dela resultante somente é alcançável no
contexto desta teia de relações (TOMAZI, 2010), formado apenas pelos jogadores no nível
informal, e ao qual são acrescentadas outras personagens (torcida, treinador, arbitragem,
dirigentes, etc.) na medida em que se dirige o olhar para outras matrizes futebolísticas, dentre
estas a espetacularizada (DAMO, 2007; JESUS, 2014).
Archetti (1999); citado por Guedes (2009) traz um outro raciocínio que auxilia no
entendimento da significância do futebol ante a sociedade: apesar de em geral ser encarado
como um domínio dito residual também na estrutura societária brasileira, e decerto receba
menos atenção por parte dos estudos socioculturais quando comparado a instâncias mais
renomadas – a exemplo da política, economia, cultura, religião, mídia, etc. – este conforma-se,
tanto quanto os esportes em si, os jogos e a dança, como uma “zona livre”, a qual pode propiciar
o religamento de diferenças e especificidades em torno da legitimação de códigos para o
acolhimento de estilos, emoções, valores, comportamentos e afins, que subsidiem a
consumação de uma identidade própria enquanto povo ou nação. Isso porque ao manifestar-se
como fenômeno social, o futebol detém uma existência transcendente à duração de sua prática
ou de uma partida transmitida; ao ser vez por vez debatido, suscita avaliações, posicionamentos,
consensos, dissensos, e por vezes evoca temáticas de ordem filosófica, econômica, moral e ética
(DAMATTA, 1982; citado por GUEDES, 2009). Durante um diálogo sobre futebol travado
entre brasileiros podem surgir, em vez de desentendimentos, alinhamentos e afinidades, mesmo
que os interlocutores pertençam a segmentos sociais diferentes (GUEDES, 2009).
Atendo-se ao futebol na sua versão espetáculo, inscrito ao âmbito das partidas e
competições envolvendo os selecionados nacionais, nota-se que em meados do século XX a
adesão e apropriação deste esporte pelas camadas populares aos poucos vão convertendo-o em
um marcador constante da identidade coletiva nacional. Citando Máximo (1999); Campos
(2013), é um tanto difícil indicar precisamente quando isso passou a ocorrer, mas é provável
que a conquista do primeiro título internacional da Seleção Brasileira de Futebol, o Campeonato
Sul-Americano de 1919 (uma vitória por 1 a 0 sobre a seleção uruguaia depois de três
prorrogações, no estádio das Laranjeiras, com gol anotado por Arthur Friedenreich), ocorrida
ainda na fase do amadorismo mencionada por Rodrigues (2004); Daou (2007) (1905 a 1933),
tenha sido um divisor de águas nessa trajetória histórica.
Englobando a etapa de apropriação da prática, antecedente à do amadorismo
(RODRIGUES, 2004; DAOU, 2007), pode-se imputar três razões específicas à disseminação
do futebol pelos grandes centros urbanos brasileiros, inicialmente entre a alta sociedade, em
ordem cronológica crescente: 1) a presença de imigrantes britânicos, normalmente funcionários
e operários (nas cidades interioranas, servidas de indústrias, telégrafo e ferrovias, e em cidades
costeiras), que graças à expansão ultramarina imperialista da Grã-Bretanha e o estabelecimento
de relações comerciais com ex-colônias e demais países, dentre estes o Brasil, trouxeram
consigo tal esporte de origem inglesa e o praticavam nas horas livres de serviço (DAOU, 2007;
JESUS, 2014); 2) o retorno de filhos de “privilegiados”, ou de ingleses residentes no Brasil,
encaminhados à Inglaterra para a continuidade ou conclusão de estudos escolares ou
acadêmicos (caso de Charles Miller, tido como introdutor oficial do futebol no país) (VOSER,
GUIMARÃES, RIBEIRO, 2006; DAOU, 2007; JESUS, 2014); 3) a atuação das escolas geridas
por organizações religiosas interessadas em incorporar inovações às suas práticas pedagógicas
– notadamente estabelecimentos da Congregação Marista e da ordem jesuíta, em cidades
distantes do litoral, no sentido de incluir exercícios de futebol nas aulas de Educação Física
(JESUS, 2014).
De outro lado, Brito (2001); Anjos (2007); Daou (2007) informam que, durante o
amadorismo, o futebol praticado ‘nas fábricas’, em campos dos bairros operários, pelos
imigrantes europeus transparecia menos segregatício se comparado àquele exercido por
jogadores das elites locais; destarte, segundo tais autores, foram organizadas paralelamente aos
esforços da elite ligas amadoras que contavam com a participação de operários das classe média
e baixa. Nesse sentido, dois fatores em específico impulsionam de vez o percurso do futebol no
sentido da popularização: 1) o reconhecimento das supracitadas ligas paralelas, que por seu
turno propiciou “[...] o crescimento de equipes e [...] [competições], [...] fazendo com que mais
pessoas fossem se apropriando da prática esportiva e demarcando um modo brasileiro de jogar
futebol [...]” (ANJOS, 2007; citado por DAOU, 2007, p. 28); 2) o surgimento da imprensa
esportiva futebolística, possibilitando ao grosso da população ter contato com informações -
através dos jornais impressos - e narrações de partidas - transmitidas pelo rádio (MÁXIMO,
1999; DAOU, 2007).
Atrelado à tecnologia disponível naquele momento, empregada enquanto instrumento
para divulgação do esporte, cobertura frequente e oferta de serviços associados, o futebol
principiava a adquirir o caráter de espetáculo, mas nem por isso deixou de atrair novos
praticantes profissionais, que nele enxergavam uma perspectiva lúdica e a um só tempo a
oportunidade de exercer um trabalho remunerado, conforme reportado por Daou (2007). À
medida que o futebol tornava-se cada vez menos uma prática esportiva reservada apenas à alta
sociedade, e transformava-se em atração eminentemente popular, tornando-se massificado,
Zainaghi (1998); Daou (2007) verificam uma relevante implicação espacial derivada dessa
metamorfose: com a multiplicação das ligas fabris e interbairros e dos torneios regionais, houve
na mesma proporção o crescimento expressivo no número de campos de futebol.
Munida de maior autonomia, a prática futebolística brasileira passa a enfatizar
habilidades e fundamentos técnicos (melhor controle de bola, improviso e drible como
estratégia de progressão das jogadas, para se citar alguns) que vão tornando-a mais e mais
distinta da europeia, calcada no emprego mais acentuado da força, em termos de proposta de
jogo (DAOU, 2007). Em se tratando do perfil de atleta visto como adequado, as equipes mais
aparelhadas começam a visar os jogadores emergentes, atuantes nos campos de várzea e já
habituados ao estilo de jogo mais leve, imprevisível e hábil (DAOU, 2007; CAMPOS, 2013).
Nesse período, denominado de profissionalismo marrom, na acepção de Caldas (1990); Daou
(2007), os futebolistas de várzea eram recrutados por clubes fabris, e mesmo da elite, porém tal
vínculo era quebrado depois de ocorridas as partidas; de outro lado, contudo, isso contribuiu
para que jogadores de classes sociais distintas competissem esportivamente nas mesmas
condições. Se, de um lado, a ambiência do profissionalismo marrom contribuiu para a melhoria
do futebol brasileiro em termos de celeridade e técnica, de outro houve o advento de um
discurso midiático que atribuía aos futebolistas negros o diferencial adquirido até então, sendo,
portanto, relacionada a um dado étnico-racial a melhoria de desenvoltura aplicada à execução
dos fundamentos técnicos do esporte futebol; de qualquer forma, dali em diante o jogo praticado
no Brasil já dispõe de subsídios fundamentais para albergar uma nova identidade futebolística,
popularmente designada “futebol-arte” (DAOU, 2007).
Durante a fase do profissionalismo (1933 a 1950) (RODRIGUES, 2004; DAOU, 2007),
quando o governo de Getúlio Vargas oficializa a profissão de jogador de futebol, diversas
garantias legais são efetivadas, dentre elas “[...] salário fixo, vínculo com agremiações
esportivas e custeio de despesas dos clubes com ajuda do governo”. (DAOU, 2007, p. 32). Com
isso, foram originadas diversas implicações: a) na vertente profissional foi inaugurado o regime
de dedicação exclusiva ao ofício de futebolista; b) na vertente econômica, o profissionalismo
chega às vias de fato e com ele o trânsito de capital: decerto, o atleta do futebol é elevado à
categoria de produto e sua recompensa salarial passa a ser diretamente dependente da
produtividade que demonstrar; c) em termos normativos, surge a institucionalização na figura
dos órgãos reguladores de competições e atletas; d) no tocante aos aspectos técnicos, é notória
a otimização exponencial do desempenho, sendo suplantada de modo geral as abordagens
ríspidas e truculentas de jogo; e) na seara social, cresce disparadamente a procura motivada
pelas inspirações e aspirações dos jovens brasileiros em seguir carreira como jogador de futebol,
evidenciando-se uma organização desse esporte circunscrita às classes populares, de onde
advém, historicamente, a maior quantidade de talentos (DAOU, 2007).
Consoante registram Máximo (1999); Campos (2013), toda essa reestruturação em torno
da legalização do exercício profissional do futebol no país por certo lançou o alicerce para que,
no decorrer da fase de conflagração desse esporte enquanto elemento identitário (1950 a 1970),
os clubes nacionais e especialmente a Seleção Brasileira alcançassem triunfos expressivos. Em
que pese a derrota por 2 a 1 para o Uruguai no jogo final da Copa do Mundo sediada pelo país
em 1950, com o gol da virada do time rival tendo sido marcado por Ghighia, as conquistas
posteriores, em 1958 (na Suécia), 1962 (no Chile) e 1970 (no México), marcadas por atuações
convincentes em todas as finais disputadas, alavancaram em definitivo o “esporte bretão” no
Brasil (CAMPOS, 2013). Embora um jogador negro, o goleiro Barbosa, tenha sido pesadamente
rechaçado pela torcida por ter falhado no segundo gol sofrido pela seleção na final de 1950, o
imaginário fixo do atleta negro como uma representação da excelência futebolística brasileira
subsiste até os dias atuais: é digno de nota que, em dois dos três títulos mundiais brasileiros
nesse período sobressaiu-se um outro futebolista negro, detentor do posto de melhor jogador de
todos os tempos: Edson Arantes do Nascimento, alcunhado Pelé. Nesse ínterim, a reboque da
projeção e reconhecimento internacionais adquiridos após algumas décadas de espera, em pleno
regime ditatorial as gestões militares procuraram tornar aderente à imagem favorável do futebol
nacional no exterior um discurso de efetividade na condução político-administrativa do país,
atrelado ao estereótipo de “[...] nação forte, trabalhadora e bem administrada. Havia a tentativa
de focalizar o olhar da população no futebol como forma de mascarar os problemas do país [...]
(Souza, 1996).” (DAOU, 2007, p. 34).
Ainda segundo Rodrigues (2004); Daou (2007), ante a fase de modernização iniciada
em 1970 e em curso na atualidade, em se tratando de disputas o futebol brasileiro venceu mais
duas Copas do Mundo (1994 e 2002), alternando campanhas malsucedidas e desempenhos
aquém do esperado por sua exigente torcida, porém seguindo como o único a participar de todas
as edições do torneio mais importante em todo o futebol profissional. Hodiernamente, em linhas
gerais, a prática futebolística nacional na sua matriz de espetáculo:
[...] se tornou um negócio milionário e global, e o futebol brasileiro com uma
grande quantidade de jogadores de alta técnica se inseriu nesse mercado,
lançando jogadores para diferentes países do mundo, alguns deles possuindo
valores de mercado que superam a casa da dezena de milhões de reais, o que
situa o esporte como um dos elementos de identidade nacional. Cada vez mais
o futebol está associado não somente a uma prática desportiva quer seja ela
profissional ou amadora, mas, também, a um nível global e local de relações
sociais e espaciais. (LIMA, 2002; citado por CAMPOS, 2013, p. 226, 227).
Para além de sua significância enquanto elemento sociocultural representativo e
identitário do povo brasileiro e de sua maneira de ser e portar-se ante o mundo (GUEDES,
2009), um patrimônio nacional imaterial, o desporto futebol também carrega consigo uma série
de geograficidades. Não apenas dispõe, mas também efetiva e legitima iniciativas de controle
social, apropriação e organização territorial, exercidos pelos atores que o gerenciam, ou ainda
pelos que dele se beneficiam (BRUNI, 1994; CAMPOS, 2013). Citando Jesus (2020, s. p.),
“[...] há alguns elementos que merecem atenção minuciosa da investigação geográfica, como a
configuração territorial, isto é, [significa afirmar que] o esporte [, inclusive o futebol,] provoca
mudanças nas dinâmicas territoriais.” De acordo com este mesmo autor, na abordagem
geográfica da temática futebolística, aspectos como aprimoramento técnico e tático dos atletas
e do jogo em si, desempenho atlético, rendimento técnico, preparo físico e padronização
mediante regras ocupam um papel secundário frente à investigação (JESUS, 2020).
Considerando-se as especificidades da instalação e posterior difusão espacial do
fenômeno futebol pelos países sul-americanos, porém destacadamente no Brasil, verificam-se
padrões e tendências peculiares. Consoante Jesus (2014), o advento e a disseminação do futebol
pelo território brasileiro difere do ocorrido em outros países sul-americanos, destacadamente
Argentina e Uruguai: nestes últimos, é possível situar uma ubiquidade territorial precisa,
exercida pelas capitais Buenos Aires e Montevidéu, respectivamente, onde existiam intensa
movimentação portuária e concentração massiva de imigrantes ingleses, e a partir das quais o
futebol foi insertado e posteriormente irradiou-se para núcleos urbanos menores,
acompanhando uma rede ferroviária radiocêntrica e densamente capilarizada.
Em se tratando do Brasil, todavia, parece haver uma circunstância peculiar, a despeito
de a cidade de São Paulo ter sido o primeiro centro urbano a oficialmente receber o desporto,
trazido da Inglaterra pelo estudante Charles Miller, brasileiro filho de pais ingleses (CAMPOS,
2013; JESUS, 2014). Em regra “[...] o futebol penetra no território nacional quase [que]
simultaneamente por vários pontos desconectados entre si (mas conectados com o exterior),
como incursões independentes no movimento conjunto da difusão.” (JESUS, 2014, p. 49).
Sendo assim, o surgimento do futebol no Brasil acontece em um período no qual a evolução na
prática desse desporto adquire mais desenvoltura no âmbito das cidades com vivência mais
cosmopolita, nas quais seus habitantes manifestam maior disposição em aprender as regras do
jogo e inserir inovações, condicionantes necessários à perpetuação dessa prática no cotidiano
local, a despeito da maior ou menor presença de ingleses (JESUS, 1999; CAMPOS, 2013).
Outro aspecto pertinente do futebol brasileiro a ser notado pela pesquisa geográfica diz
respeito à averiguação das consequências de tal espraiamento territorial irregular, sucedido por
uma integração tardia dos centros urbanos nacionais em torno da notoriedade do esporte futebol.
Apesar de ter havido um empenho despendido por agentes tais quais os colégios e educandários
católicos e os filhos de aristocratas que traziam consigo a prática futebolística ao regressarem
de seus estudos na Inglaterra, nos municípios pouco ou nada atrativos aos investimentos
ingleses, havia total desconhecimento, ou em outros casos, desinteresse por aquela novidade
(JESUS, 2014).
Certamente, nos estudos sobre futebol também são encontrados fenômenos atrelados ao
desenvolvimento geográfico desigual, agravante e reflexo da distinção entre áreas estimulada
por fatores já não mais estranhos aos geógrafos: “[...] concentração de atividades industriais,
renda e diversos indicadores associados à qualidade de vida”. (JESUS, 2014, p. 11). A
quantidade, assim como a distribuição espacial das equipes de futebol que tradicionalmente
frequentam a primeira divisão do campeonato brasileiro, aponta para uma nítida dominância da
chamada Região Concentrada (Centro-Sul), pois “[...] cidades como Campinas e Florianópolis
são mais expressivas em termos de futebol que as metrópoles regionais de Fortaleza, Belém e
Manaus.” (JESUS, 2014). De tal integração territorial tardia, na qual o futebol trilhou por
caminhos contrastantes nos aglomerados metropolitanos brasileiros distantes do eixo Sul-
Sudeste e mais conectados com as localidades do exterior do que com o interior do país, resulta
também uma postura de frequente rechaço e diminuição, por parte dos ‘sulistas’, às equipes de
futebol sediadas no Norte-Nordeste. Nas palavras de Santos; Silveira (2008, p. 41):
Os albores da industrialização no Sul são contemporâneos de uma ausência de
relações mais estreitas entre as diversas áreas importantes do país.
Reforçavam-se, paralelamente, as relações intra-regionais, dentro de uma
verdadeira “bacia urbana”, na expressão usada por Bernard Kayser (1966)
para indicar, na França, as relações privilegiadas entre uma cidade e sua área
de influência.
Outra linha investigativa que também estabelece interfaces entre ciência geográfica e
futebol refere-se ao crescimento exponencial da matriz futebolística espetacularizada em
tempos contemporâneos, ao sabor do processo globalitário e dos interesses neoliberais. No olhar
de Damo (2007); citado por Jesus (2014, p. 33), essa configuração de futebol dispõe de “[...]
formidável apelo midiático, amplamente globalizada, intensamente mercantilizada e
inteiramente controlada pelo sistema FIFA/IB ([Federação Internacional de Futebol Associado
e] International Board).” Comungando com a assertiva de Guedes (2009), segundo a qual as
fronteiras nacionais vêm sendo crescentemente trespassadas pelos movimentos fluidos de
entrada e saída do mercado e dos capitais empresarial e especulativo, mediados por tecnologias
avançadas da informação e comunicação, na ambiência do capitalismo financeiro, são
conformadas novas espacialidades e temporalidades. Segundo Campos (2013, p. 222):
Em tempos atuais, o futebol se globalizou, é comum vermos o
desenvolvimento do desporto em quase todas as cidades do planeta, seja numa
prática amadora ou profissional. Os times de futebol se tornaram grandes
transnacionais, que importam e exportam jogadores. Novas culturas se
misturam e ao mesmo tempo, pensamentos nacionalistas são reforçados, como
no caso dos negros que jogam futebol nos Cárpatos, ou das antigas batalhas
travadas entre o protestantismo (Rangers) e o catolicismo na Escócia (Celtic),
onde a globalização une povos distintos através de clubes de futebol, e ao
mesmo tempo cria rivalidades étnicas improváveis em outros períodos da
história (FOER, 2005). O futebol transcendeu as barreiras esportivas e atingiu
as mais diversas estruturas socioeconômicas e culturais transformando-se,
portanto num mecanismo de reprodução social.
Por último, em se tratando do surgimento de diversas espacialidades atreladas à
solidificação do futebol enquanto componente da vida comunitária, é cabível tratar das funções
exercidas e rebatimentos que as feições espaciais relacionadas à consecução da prática do
“esporte bretão” trazem sobre a paisagem geográfica, a depender do contexto vinculado à sua
inserção: no meio urbano, principalmente em se tratando do futebol na sua versão voltada à
espetacularização e consumo, o campo de jogo figura como o item principal da infraestrutura
maior de um estádio, o qual recorrentemente ocupa uma posição privilegiada no tecido citadino,
“[...] em áreas que facilitam o grande fluxo de pessoas, [e] com isso [...] [demandam] melhorias
na acessibilidade [...]” (JESUS, 2020, s. p.), mas a um só tempo não raro tributam para o
encarecimento do preço do solo urbanizado nos arrabaldes, terminando por “[...] despertar [o]
interesse de agentes ligados a especulação imobiliária [...]”. (JESUS, 2020, s. p.). Já no âmbito
dos povoados e cidades de pequeno porte, onde por vezes inexiste a variante espetacularizada,
o campo de jogo segue uma configuração diametralmente distinta: muitas vezes, junto de uma
pequena igreja ou capela, consiste no indício de um local ecúmeno, mas nem por isso recebe
menos importância, dado que recorrentemente desempenha a função de equipamento de uso
coletivo, no qual além do tradicional jogo de fim de semana são realizadas cerimônias
religiosas, encontros sociais, festividades e congêneres (JESUS, 2014).
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