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Save You: Luto e Superação Familiar

Enviado por

Karoline Nava
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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FICHA TÉCNICA

Título: Save You: Só o perdão te pode salvar — Save Me #2


Título original: Save You
Autora: Mona Kasten

Copyright © 2018 by LYX, in Bastei Lübbe AG Edição


em português publicada através de Ute Körner Literary Agent Tradução ©
Editorial Presença, Lisboa, 2024 Tradução:
Catarina Gândara Revisão:
Florbela Barreto/Editorial Presença Capa:
Sofia Ramos/Editorial Presença
Composição, impressão e acabamento : Multitipo — Artes Gráficas, Lda. 1ª
edição em papel, Lisboa, março, 2024

Reservados todos os direitos

para a língua portuguesa (exceto Brasil) à


EDITORIAL PRESENÇA
Estrada das Palmeiras, 59
Queluz de Baixo
2730-132 Barcarena
info@[Link]
[Link]
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Para a Kim
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Todas as promessas que fizemos,


Não significam nada.
[Todas as promessas que fizemos,
Nada significam.]

Verso da canção «It Means Nothing», dos Gersey


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Lídia

O James está bêbedo. Ou pedrado. Ou as duas coisas.


Está há três dias sem reagir. Ele não faz nada além de estar na sala de estar
comemorando uma espécie de festa permanente, esvaziando uma garrafa de álcool
atrás da outra e fingindo que nada aconteceu. Não entendo como você pode se
comportar assim. Pelo jeito, está-se perfeitamente nas tintas para que nossa família
esteja se dissolvendo definitivamente.
— Acho que é uma forma de luto.
Olho para Cyril de soslaio. Ele é o único que sabe o que aconteceu. Contei na
noite em que James se drogou na festa dele e se enrolou com Elaine na presença
de Ruby. Alguém tinha que me ajudar a levar James para casa sem que Percy ou
nosso pai percebessem o estado em que ele estava. Dado que nossas famílias
mantêm uma forte amizade, Cy e eu nos conhecemos desde pequenos. E, apesar
de nosso pai ter me forçado a prometer a ele que não contaria a ninguém o que
aconteceu com nossa mãe, antes que o comunicado de imprensa oficial seja emitido,
sei que posso confiar em Cyril e sei que ele guardará segredo, mesmo em relação
ao Wren, ao Keshav e ao Alistair.
Eu não teria conseguido superar esses últimos dias sem a ajuda dele. Ele
convenceu nosso pai a deixar James em paz por um tempo e fez os outros meninos
perceberem que não deveriam fazer perguntas. Eles se seguram, apesar de eu ter
a sensação de que todos os dias é mais difícil para eles verem como James se
autodestrói.
Enquanto meu irmão faz de tudo para ofuscar sua mente, tudo que consigo pensar
é em como minha vida será daqui em diante. Minha mãe morreu. A mãe de Graham
morreu há sete anos. O bebê que cresce dentro de mim não terá avós.
Sério, é nisso que penso o tempo todo. Em vez de ficar de luto, matuto no fato de
que meu bebê nunca vai sentir o abraço de uma avó carinhosa. Que é que se passa
comigo?
No entanto, não posso fazer nada para evitar isso. Os pensamentos acumulam-
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se na minha mente de maneira descontrolada, um atrás do outro, até que fico submersa em cenas de terror e sinto um

medo tão terrível do futuro que não consigo me concentrar em mais nada. É como se eu estivesse em estado de

choque há três dias. É provável que, quando nosso pai nos comunicou o que aconteceu, algo em mim e em James

tenha se danificado de forma fatídica.

— Não sei como o ajudar — murmuro enquanto vejo como o James esvazia o copo de um só trago.

Me machuca ver o quanto você sofre. Você não pode continuar assim eternamente. Em algum
momento você terá que enfrentar a realidade. E, na minha opinião, há apenas uma pessoa neste mundo
que pode ajudá-lo.
Pela enésima vez, pego meu celular e disque Ruby, mas ela não atende. Eu gostaria de estar com
raiva dela, mas não posso. Se eu tivesse pego Graham com outra, também não gostaria de saber de
nada, nem dele nem de ninguém do seu círculo.

— Você já está ligando para ele de novo? — Cy me pergunta, me lançando um olhar cético.

Quando eu aceno com um aceno de cabeça, ele franze a testa com desprezo. A reação dele não me
surpreende. Cyril acha que Ruby não passa de uma aproveitadora, que estava de olho na herança de
James. Eu sei que isso não é verdade, mas, quando Cyril forma uma opinião sobre alguém, é difícil
convencê-lo de outra coisa. E, por mais que me entristeça, não lho levo a mal, porque é a sua maneira
de cuidar dos amigos.

— O James não ouve ninguém. Acho que a Ruby podia evitar que ele ficasse completamente doido.
— A minha voz soa estranha aos meus ouvidos. Tão fria e apagada... No entanto, por dentro, sinto-me
completamente diferente.
A dor mal me permite ficar em pé. É como se tivessem me amarrado e eu estivesse há dias sem conseguir desfazer

os nós da corda. Como se meus pensamentos se movessem em um carrossel que gira e gira sem parar, e do qual não

consigo sair. Para mim, nada tem sentido, e quanto mais energia eu gasto lutando contra essa sensação de desamparo

que aumenta em mim, mais ela me envolve.

Perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Não sei como irei superar isto sozinha.
Preciso do meu irmão gémeo, mas o James não faz mais nada que não seja fugir e destruir tudo o que
se atravessa no seu caminho. A última vez em que vi o nosso pai foi na quarta-feira. Ia viajar e reunir-
se com advogados e assessores, para tratar do futuro das empresas Beaufort. Não tem
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nem um minuto livre para cuidar do funeral de nossa mãe. Para isso, ele contratou
uma assistente chamada Julia, que tem passado os últimos dias entrando e saindo
de nossa casa como se pertencesse à família.
Só de pensar no funeral você encolhe minha barriga. Fico sem ar e começo a sentir
picadas nos olhos. Eu me viro a toda velocidade, mas Cyril percebe.
— Lydia... — murmura, pegando-me suavemente na mão.
Solto sua mão e saio da sala sem dizer uma palavra. Os meninos não podem me
ver chorar. Há de chegar uma altura em que não conseguirão continuar a conter-se
e, apesar das advertências do Cyril, começarão a fazer perguntas.
Nenhum deles é parvo. O James nunca se tinha comportado desta maneira.
Apesar de se passar de vez em quando, normalmente sabe quais são os seus limites.
Há muito tempo que os outros repararam que, agora, não é esse o caso.
O Keshav ter-se posto a tirar uma garrafa de licor atrás de outra do móvel do bar e,
«sem querer», o Alistair ter atirado para a sanita os dois gramas de cocaína que
ainda restavam ao James falam por si.
Sinto-me impaciente para que todo esse sigilo acabe de uma vez por todas. Em
poucos minutos, quinze para ser exato, a notícia da morte de nossa mãe será tornada
pública e, nesse ponto, não serão apenas os meninos que saberão, mas todos. Já
consigo imaginar as manchetes dos jornais e os jornalistas diante da porta de casa e
do colégio. Sinto náuseas e ando pelo corredor cambaleando até chegar à biblioteca.

O brilho mortiço das luminárias ilumina as muitas estantes em que repousam


volumes nobres com encadernações de couro. Apoio-me nelas enquanto atravesso o
quarto, com os joelhos fraquejando. Ao fundo, próximo à janela, há uma poltrona
forrada de veludo grená.
Desde pequena é meu lugar favorito dessa casa. Era aí que eu me enroscava
quando queria me afastar dos meninos, do meu pai, das expectativas que o
sobrenome Beaufort acarreta.
A visão deste pequeno canto de leitura faz-me derramar ainda mais lágrimas.
Sento-me no cadeirão, dobro as pernas e rodeio-as com os braços, enterro o rosto
nos joelhos e choro em silêncio.
Tudo ao meu redor me parece irreal. Como se fosse um pesadelo do qual posso
acordar se me esforçar o suficiente. Eu gostaria de voltar ao verão, há um ano e meio,
quando minha mãe ainda estava viva e Graham me abraçava sempre que eu me
sentia mal.
Enquanto enxugo os olhos com uma mão, uso a outra para tirar meu telefone do
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bolso das calças. Quando desbloqueio o ecrã, descubro que sujei as costas da mão com rímel.

Acesso os contatos. Como sempre, Graham está guardado logo depois de James, nos
meus favoritos, apesar de não falar com ele há vários meses. Ele não sabe nada sobre
nosso bebê e menos ainda sobre a morte de minha mãe. Respeitei a vontade dele de não
ligar para ela novamente. Nunca na vida nada tinha sido tão difícil para mim. Por dois anos,
conversamos quase todos os dias e, então, de repente, de um dia para o outro, nunca mais
nos falamos. Foi como me internar em um período de abstinência total.

E agora... tenho uma recaída. Primo o número do Graham de forma automática e oiço o
sinal de chamada ao mesmo tempo que sustenho a respiração. Passados uns segundos, o
toque para. Fecho os olhos e tento, com todas as minhas forças, perceber se desligou a
chamada ou se atendeu. Nesse momento, tenho a sensação de que podia morrer afogada
no solitário desamparo que me envolve desde há dias.

— Tínhamos combinado que não haveria mais chamadas — murmura.


O som da sua voz suave e áspera deixa-me destroçada. Os soluços sacodem-me o corpo
e tapo a boca com a mão que tenho livre, para que o Graham não me oiça.

Mas é demasiado tarde.


— Lídia?
Percebo pelo tom que está assustado, mas não consigo dizer nada, apenas abanar a
cabeça. Estou a respirar demasiado depressa, de maneira descontrolada.
Graham não desliga. Continua do outro lado e faz uns sons suaves e tranquilizadores.
Ouvi-lo me deixa agitada por dentro, mas, ao mesmo tempo, me faz sentir tanta tranquilidade
que aperto mais meu telefone contra o ouvido.
Acho que a voz foi uma das razões pelas quais me apaixonei por ele, muito antes de vê-lo
pela primeira vez. Lembro-me das conversas telefônicas que duravam horas, de minha
orelha quente e dolorida, de acordar e de Graham ainda continuar do outro lado da linha. A
voz dele é suave e tênue, profunda e, no mínimo, tão penetrante quanto seus olhos de um
castanho dourado.
Com o Graham, sentia-me sempre segura. Durante algum tempo, foi o meu apoio. É a
ele que devo ter superado o que aconteceu com o Gregg e ter voltado a olhar para o futuro.

E, apesar de estar de rastos, essa sensação de estabilidade luta por emergir novamente.
De certa maneira, o som da voz dele ajuda-me a ganhar consciência.
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Não sei quanto tempo passa, mas as lágrimas vão-se esgotando paulatinamente.
— Que é que se passa? — murmura.
Não consigo responder. A única coisa que posso fazer é soltar um gemido de
desamparo.
Ele fica quieto por um minuto. Eu o ouço inspirar algumas vezes, como se quisesse
me dizer qualquer coisa, mas no último segundo, se contivesse. Por fim, fala a meia-
voz e em tom pesaroso.
— Nada me agradaria mais do que sair daqui a correr para ir ter contigo.
Fecho os olhos e o imagino em casa, ao lado da velha mesa de madeira que
parece que vai se despedaçar de uma hora para outra. Graham diz que é uma
«antiguidade», mas, na verdade, ele apenas pegou no lixo e pintou.

— Eu sei — murmuro.
— Mas também sabes que não posso, não é?
Algo se quebra na sala de estar. Escuto o tilintar de vidros e, logo depois, alguém
grita. Não sei se de dor ou prazer, mas me endireito imediatamente.
Não posso permitir que o James também se magoe fisicamente.
— Desculpa ter-te ligado — murmuro com a voz quebrada, dando a conversa
para terminar.
Dói-me o coração quando me levanto e saio deste cantinho protegido para ir
ver como está o meu irmão.

Humano

A minha irmã está doente.


Em circunstâncias normais, eu diria que não é nada extraordinário — afinal,
estamos no mês de dezembro e, lá fora, a temperatura está abaixo de zero, e aonde
quer que você vá há pessoas assoando o nariz e tossindo. Mais cedo ou mais tarde,
acabamos sendo contagiadas.
Mas... a minha irmã nunca fica doente. A sério, nunca.
Há três dias, quando ele chegou em casa ao anoitecer e se enfiou na cama sem
dizer uma palavra, não suspeitei de que nada de estranho estivesse acontecendo.
Afinal, ela havia acabado de terminar a maratona para entrar em Oxford, o que, sem
dúvida, a havia esgotado, não apenas física, mas também psicologicamente. Mesmo
assim, no dia seguinte, quando disse que estava resfriada e que não iria ao colégio,
estranhei. Qualquer pessoa que conhece Ruby sabe perfeitamente
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que, mesmo que tivesse febre, se arrastaria para as aulas com medo de perder alguma coisa
importante.
Hoje é sábado e, a essa altura, já estou verdadeiramente preocupada. Ruby mal saiu do
quarto. Ela está estirada na cama, lendo um livro atrás do outro e fingindo que seus olhos
estão vermelhos por causa do resfriado. Mas a mim não me engana. Alguma coisa ruim
aconteceu com você e me irrita que você não me
conte.

Agora, espreito pela ranhura da porta e vejo-a mexer a sopa sem comer nada.
Não me lembro de alguma vez tê-la visto assim. Ela está pálida e tem uns círculos azulados
embaixo dos olhos, que escurecem a cada dia. Ela tem cabelo oleoso e algumas mechas
bagunçadas de cada lado do rosto. Além disso, ele está vestindo a mesma camisa desde
quinta-feira. Normalmente, Ruby é a encarnação da ordem. Não só no que diz respeito à sua
agenda ou ao colégio, mas também à sua aparência. Eu nem sabia que ela tinha esses trapos.

— Já chega de espreitares à porta — diz-me de repente, e sobressalto-me


porque me apanhou em flagrante.
Faço de conta que, de qualquer maneira, tencionava entrar e atravesso o umbral.

Ruby olha para mim com as sobrancelhas levantadas. Depois pousa a sopa
ao lado da cama, na bandeja em que lha levei. Reprimo um suspiro.
— Se não a comeres tu, como-a eu — ameaço, apontando com o queixo para a
sopa, o que, infelizmente, não tem o efeito desejado.
Ruby apenas faz um gesto vago com a mão.
— Não te esforces.
Soltando um gemido de frustração, deixo-me cair na beira da cama.
— Nestes últimos dias, esforcei-me realmente por te deixar em paz, porque já
percebi que você não tem vontade de falar, mas... estou muito preocupada com você.
Ruby puxa a manta até o queixo, de maneira que só se lhe vê a cabeça.
Tem um olhar turvo e triste, como se, agora, o que lhe aconteceu a abatesse com todas as
suas forças. Mas então ele pisca e volta à realidade... ou pelo menos finge voltar. Desde
quarta-feira passada ele tem uma expressão estranha nos olhos. Como se estivesse
fisicamente presente, mas com a mente em outro lugar.
— É só um resfriado. Logo eu fico boa — replica em tom uniforme, como o daquelas vozes
mortas de computador que usam nos alto-falantes do metrô ou que te atendem quando você
liga para um serviço de atendimento ao cliente, como se um robô tivesse tomado seu lugar.
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Ruby vira o rosto para a parede e puxa o cobertor ainda mais para cima, um sinal
inequívoco de que ela encerra a conversa. Suspiro e começo a me levantar novamente,
quando uma luz se acende no celular que está em cima da mesinha de cabeceira, me
despertando a atenção. Eu me inclino um pouco para poder ver a tela.

— Lin está ligando para você — digo a ele em um murmúrio.


— É indiferente a mim. — A resposta soa abafada.
Com o cenho franzido, vejo que a chamada se desliga e, pouco depois,
aparece a notificação de chamadas perdidas. Já chegou aos dois dígitos.
— Ela ligou-te mais de dez vezes, Ruby. O que quer que seja que tenha
acontecido, não podes esconder-te para toda a eternidade.
A minha irmã limita-se a soltar um grunhido.
Nossa mãe me disse para dar um tempo a ela, mas a cada dia fica mais difícil para mim
ver Ruby sofrer. Não é preciso ser um gênio para somar dois e dois e chegar à conclusão
de que, provavelmente, James e seus amiguinhos passados têm alguma coisa a ver com
isso.
No entanto, pensei que Ruby já havia deixado de lado o tema Beaufort. O
que terá acontecido? E quando?
Tentei analisar a situação como a Ruby teria feito no meu lugar e elaborei
uma lista mental:

• Ruby estava em Oxford para a entrevista.

• Quando voltou, tudo estava correndo sobre rodas.

• À tarde, Lydia Beaufort apareceu na nossa porta e Ruby se foi


embora com ela.

• Então, tudo mudou: Ruby se fechou e não me conta nada.

• Porquê???

Está bem. É provável que a lista de Ruby fosse mais estruturada, mas listei os eventos
de uma forma lógica e sei que o que quer que tenha acontecido aconteceu na quarta-feira
à tarde. Mas onde minha irmã e Lydia foram?

Desvio o olhar da Ruby, de quem agora só se vê a raiz do cabelo debaixo da


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manta, para o telemóvel. Suspeito de que não dará pela falta dele... tenho quase
a certeza.

— Se precisar de alguma coisa, estou aqui do lado — digo a ele, embora saiba que ele
não vai aceitar minha oferta.
Então me levanto, lançando um suspiro exagerado, e pego meu celular na velocidade de
um raio. Eu o escondo na manga do meu suéter de malha larga e, na ponta dos pés, vou
para o meu quarto.
Quando fecho silenciosamente a porta atrás de mim, suspiro de alívio e, nesse mesmo
instante, sinto remorsos. Olho nervosamente para a parede, como se a Ruby conseguisse
ver-me da cama dela. É provável que nunca mais volte a falar comigo quando der conta de
que não respeitei a sua privacidade. No entanto, é minha obrigação, como irmã, encontrar
uma forma de a ajudar, certo?
Vou até a mesa e me sento na cadeira, que range. Então eu tiro o celular da manga.
Minha irmã não conta pitada do que acontece com ela no colégio, mas, claro, sei com que
tipo de pessoas ela se relaciona em Maxton Hall: meninos e meninas cujos pais são
aristocratas, atores, políticos e empresários, que têm tanta influência no nosso país que
não é estranho ouvir os nomes deles nas notícias. Já faz algum tempo que acompanho no
Instagram algumas das colegas da Ruby e também fico sabendo dos rumores que rolam
sobre ela. A mera ideia do que essas pessoas podem ter feito com minha irmã me dá a
volta na barriga.

Hesito por instantes e, então, desbloqueio o celular de Ruby e abro a lista de chamadas.
Lin não foi a única que tentou entrar em contato com ela: há um número que não está salvo
nos contatos que aparece várias vezes. Sem pensar muito, ligo para Lin — ela é a única
pessoa do sinistro colégio de Ruby que pelo menos conheço pessoalmente. Hesitantemente,
aproximo o celular do ouvido. Ouve-se o toque de chamada e Lin atende imediatamente.

— Ruby — ouço ela dizer enquanto ofega. — Até que enfim. Como você está?
— Lin... sou eu, a Ember — interrompo-a, antes que continue a falar.
— Ember? Que é?...
— A Ruby não está muito bem.
Lin fica momentaneamente quieta. Então, lentamente, diz: — É
compreensível, depois do que aconteceu.
— Que aconteceu? — pergunto automaticamente. — Que diabos aconteceu, Lin? Ruby
não me conta nada e estou preocupadíssima. Beaufort fez alguma coisa com você? Se for
assim, vou acabar com esse imbecil...
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— Ember. — Agora é a Lin que me interrompe. — De que é que estás a falar?

Franzo o sobrolho.
— De que é que tu estás a falar?
— Estou a falar de, na quarta-feira, a Ruby me ter escrito a contar que tinha feito as pazes
com o James Beaufort, e hoje fiquei a saber que a mãe dele morreu na segunda-feira anterior.
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Rubi

A Ember torna a bater à porta do meu quarto.


Gostava de ter energia para correr com ela. Compreendo que se preocupe, mas agora não estou
em condições de agir nem de falar com ninguém. Nem sequer com a minha irmã.

— Ruby, a Lin está ao telefone.


Com o cenho franzido, afasto o cobertor do rosto e me viro. Ember está na frente da minha
cama e segura um celular na mão estendida. Aperto os olhos. É meu celular. E, na tela, o nome
de Lin brilha.
— Você pegou meu celular? — pergunto a ele, cansada.
Sinto que a indignação se esforça para brotar em mim, mas esse sentimento desaparece na
mesma velocidade em que surgiu. Nestes últimos dias, meu corpo é como um buraco negro
que devora qualquer emoção antes que tenha a oportunidade de chegar até mim.

Não há nada que realmente me afete, nada que eu queira fazer. Levantar da cama me custa tanto como se eu
tivesse corrido uma maratona e há três dias não desço para o andar de baixo. Desde que frequento o Maxton Hall não

faltei às aulas nem uma vez, mas a mera ideia de tomar um banho, me vestir e ficar entre seis e dez horas cercada de
pessoas me mata. Sem mencionar que eu não suportaria ver James. É provável que eu desmoronasse como uma flor

murcha. Ou que começasse a chorar.

— Diga a ele que eu ligo mais tarde — resmungo. Tenho a voz áspera,
porque nestes últimos dias mal falei.
A Ember não sai de onde está.
— Devias falar com ela agora.
— Mas não quero falar com ela agora.
O que quero é um bocado de tempo para conseguir erguer-me novamente.
Três dias não são suficientes para enfrentar a Lin e as perguntas dela. Na quarta-feira, limitei-
me a escrever-lhe uma mensagem breve. Ela não sabe exatamente
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o que aconteceu entre mim e James em Oxford e, neste momento, não tenho forças para contar
a ele. Nem o que aconteceu depois. O que eu mais queria era esquecer toda a semana passada
e fingir que nada mudou. Infelizmente, enquanto eu não conseguir sair da cama, isso é
impossível.
— Vamos, Ruby, por favor — insiste a Ember. — Não sei por que você está tão triste, nem
por que não me explica nada, mas... Lin acabou de me contar uma coisa e eu realmente acho
que vocês precisam conversar.
Dou um olhar sombrio para Ember, mas vejo em sua expressão decidida que perdi. Não sairá
do quarto enquanto eu não falar com Lin. Em certos aspectos, somos parecidas demais, e a
teimosia é, sem dúvida, um deles.
Resignada, estico a mão e pego meu celular.
— Lino?
— Ruby, querida, temos de falar urgentemente.
Pelo tom da voz dela, sabe o que aconteceu.
Sabe o que o James fez.
Sabe que me partiu o coração com as duas mãos, que o atirou ao chão e que o pisou.

E, se Lin sabe, com certeza o resto do colégio também sabe.


— Não quero falar do James — aviso-a, com a voz rouca. — Não quero voltar a falar dele
nunca mais, estás a ouvir?
Lin fica momentaneamente calada e, então, respira fundo.
— Ember me contou que, na quarta-feira à tarde, você saiu com Lydia.
Não digo nada e, em vez disso, bato com a mão livre na bainha da manta.
— Foi aí que soubeste?
Dou uma gargalhada abafada.
— De que é que estás a falar? De ele ser um cabrão?
A Lin suspira.
— A sério que a Lydia não te contou nada?
— Que é que havia de me ter contado? — pergunto a ele, em tom hesitante.
— Ruby... você leu a mensagem que eu te mandei?
O tom de voz dela é tão prudente que sinto um calafrio e engulo em seco.
— Não... desde quarta-feira que não olho para o telemóvel.
A Lin torna a respirar fundo.
— Então, ainda não sabes.
— Que é que ainda não sei?
—Ruby, você está sentado?
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Sento-me na cama.
Não te fazem uma pergunta dessas a não ser que algo verdadeiramente terrível
tenha acontecido. De repente, uma imagem muito mais horrível substitui a de James
com Elaine, drogado e na piscina. O James ferido depois de um acidente. James no
hospital.
— Que se passa? — consigo perguntar.
— A Cordelia Beaufort morreu na segunda-feira passada.
Preciso de alguns segundos para assimilar o que Lin acabou de me dizer.
«A Cordelia Beaufort morreu na segunda-feira passada.»
Um silêncio insuportável instala-se entre nós.
A mãe do James está morta. Desde segunda-feira.
Recordo-me dos nossos beijos ardentes, das mãos dele a deslizar incessantemente pelo meu
corpo e da impressionante sensação de o ter dentro de mim.

É impossível que o James soubesse da morte da mãe nessa tarde, nessa noite.
Nem ele é tão bom ator. Não, ele e a Lydia devem ter sabido nessa quarta-feira.
Eu ouço Lin falar, mas sou incapaz de me concentrar nas palavras dela. Estou muito ocupada
perguntando a mim mesma se, durante dois dias, Mortimer Beaufort escondeu dos filhos que a mãe
deles havia morrido. E, caso isso seja verdade, como James e Lydia teriam se sentido ao chegar
em casa e saber da notícia?

Lembro-me dos olhos inchados e vermelhos de Lydia enquanto ela esperava na


minha porta para me perguntar se James estava aqui. Da expressão vazia e
imperturbável de James ao me olhar. E do momento em que ele pulou na piscina e
destruiu tudo o que havia surgido entre nós na noite anterior.
Uma palpitação dolorosa espalha-se pelo meu corpo.
Afasto o celular da orelha e o coloco no viva-voz. Vejo as mensagens que
recebi e abro as de um número desconhecido. Três mensagens não lidas.

Ruby. Lamento muito.


Posso explicar-te tudo.
Por favor, volta para casa do Cyril ou
diz-me onde estás, para o Percy poder ir buscar-te.
A nossa mãe morreu.
O James está completamente transtornado.
Não sei o que fazer.
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— Lin — murmuro. — É verdade?


— Sim — murmura a Lin. — Hoje fizeram um comunicado de imprensa e,
meia hora depois, a notícia estava em todo o lado.
Ficamos em silêncio novamente. Agora, milhares de pensamentos enchem minha cabeça. Nada
mais parece fazer sentido. Nada exceto esse sentimento que me assalta de forma tão inesperada
e intensa que as palavras que digo a seguir vêm por iniciativa própria: — Tenho que estar com ele.

Pela primeira vez, vejo o muro de pedra cinza que cerca a residência dos Beauforts.
Um enorme portão de ferro impede a entrada. Diante dele, dezenas de pessoas se
acotovelam, com câmeras e microfones na mão.
— Abutres — murmura a Lin, parando o carro a uns metros deles. Os
jornalistas põem-se imediatamente em movimento e atiram-se sobre nós.
Lin se inclina para frente e aperta o botão que tranca as portas do automóvel por
dentro.
— Telefona à Lydia, para ela nos abrir a porta.
Estou tão grata por ter a Lin ao meu lado agora, e por ela manter a mente clara...
não hesitou nem um segundo e perguntou-me se eu queria que me trouxesse aqui e,
em menos de meia hora, estava à porta de minha casa. Neste momento, qualquer
dúvida sobre quão profunda é a minha amizade com a Lin dissipou-se completamente.

Tiro o celular da carteira e ligo para o número que, nesses últimos dias, me
ligou várias vezes.
A Lydia atende poucos segundos depois.
— Estou? — A voz dela mantém o tom anasalado de quarta-feira à tarde,
quando fomos juntas à festa de Cyril.
— Estou na frente de sua casa. Pode me abrir o portão? — pergunto a ele, ao
mesmo tempo em que tento cobrir meu rosto com um braço. Ignoro se isso produz o
efeito desejado. Agora, os jornalistas estão bem ao lado do carro de Lin e nos
bombardeiam com perguntas que eu não entendo.
— Ruby? Que é?...
Alguém começa a bater no vidro da janela e eu e a Lin sobressaltamo-nos.
— Podes abrir o mais depressa possível?
— Espera um segundo — responde-me a Lydia, desligando.
O portão não demora nem meio minuto a abrir, e uma pessoa aproxima-se de
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nós. Quando está a poucos metros de distância, reconheço-a.


É o Percy.

Ao ver o motorista, meu coração pula. Sem aviso prévio, sou assaltada pelas lembranças
daquele dia em Londres, que começou bem, mas terminou mal. E pelas lembranças da noite em
que James cuidou de mim, porque seus amigos tinham sido desagradáveis comigo e me empurrado
para dentro da piscina.

Percy abre caminho entre os jornalistas e indica para Lin abrir a janela.
— Passe o portão e vá até diante da casa, menina. Estas pessoas podem ser penalizadas se
entrarem na propriedade. Não a seguirão.
Lin anui e, depois que Percy consegue que os jornalistas nos deixem passar, dirige o carro pela
extensa propriedade. O acesso é tão largo e longo quanto uma estrada nacional, e é cercado por
uma espécie de parque coberto de geada. Ao longe, distingo uma grande mansão. É retangular e
tem dois andares e vários gabletes. O telhado de xisto cinza, com quatro águas, é tão sombrio
quanto o resto da fachada, construída em tijolo, mas revestida de granito. Apesar da desolação
aparente, nota-se à primeira vista que ali moram pessoas endinheiradas. Tenho a sensação de
que combina com o Mortimer Beaufort, porque é frio e tem uma aparência muito massiva. No
entanto, não consigo imaginar Lydia e James lá dentro.

Lin dirige pelo pátio e para o carro atrás de um carro esportivo preto que está estacionado em
um lado da casa, em frente à entrada de
uma garagem.
— Queres que entre contigo? — pergunta-me, e anuo.
Quando saímos do carro e nos encaminhamos apressadamente para a escada da frente, o ar
está gelado. Pouco antes de chegar ao primeiro degrau, pego o braço de Lin. Minha amiga se vira
para mim e me olha com curiosidade.
— Obrigada por me trazer aqui — digo a ele, nervosa.
Não sei o que me esperará nesta casa. A companhia de Lin afugenta uma parte dos meus
medos e me faz um bem inimaginável. Há três meses e meio, isso teria sido impensável: naquela
época, eu havia separado enfaticamente minha vida privada da vida do colégio e não havia
contado nada pessoal a Lin. Tudo isso mudou. Especialmente por causa de James.

— Pode contar comigo sempre que precisar. — Me dá a mão e me aperta


brevemente.

— Obrigada — murmuro.
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Lin faz um gesto de assentimento e subimos a escada. Lydia abre a porta antes que
tenhamos a chance de bater. Ela parece tão confusa quanto há três dias. E agora eu
sei por quê.
— Lamento muito, Lydia — digo-lhe.
Ela morde o lábio inferior e baixa os olhos para o chão. Neste momento, é-me
indiferente que, na verdade, não nos conheçamos bem ou que não sejamos muito
amigas. Subo rapidamente o último degrau e abraço-a. O corpo dela começa a tremer
assim que a aperto nos braços e é inevitável lembrar-me de quarta-feira. Se tivesse
sabido o que tinha acontecido e quão mal ela se sentia, não a teria deixado sozinha,
de maneira nenhuma.
— Lamento muito — murmuro novamente.
Lydia enterra os dedos nas minhas costas e deixa a cabeça cair sobre meu ombro.
Eu a abraço com força e acaricio suas costas, sentindo as lágrimas dela começarem
a molhar minha camisa. Não consigo imaginar o que você está passando neste
momento. Se minha mãe morresse... não sei como superaria a situação.

Entretanto, a Lin fecha a porta de casa sem fazer barulho. O olhar dela cruza-
se com o meu enquanto se afasta uns metros. Parece tão afetada como eu.
Em algum momento, Lydia se afasta de mim. No rosto, apareceram umas manchas
de um vermelho intenso e ele está com os olhos vidrados e irritados. Levanto a mão
e, com uma carícia, afasto um par de mechas molhadas.
— Posso ajudar-te com alguma coisa? — pergunto-lhe com prudência.
Abana negativamente a cabeça.
— Apenas tente fazer meu irmão voltar a ser ele mesmo. Está descontrolado. Eu...
— Ele tem a voz rouca e áspera de ter chorado tanto e pigarreia para conseguir
continuar falando. — Nunca o tinha visto assim. Está desmoronando e, simplesmente,
não sei como ajudá-lo.
Ao ouvir estas palavras, o meu coração começa a bater descompassadamente.
O desejo que sinto de ver James e abraçá-lo como fiz com Lydia é avassalador,
apesar de temer o encontro.
— Onde é que ele está?
— Eu e o Cyril levámo-lo para o quarto. Antes disso, desmaiou.
Estremeço ao ouvir estas palavras.
— Posso te levar lá, se você quiser — continua, apontando com o queixo para a
escada que leva ao piso de cima.
Viro-me para a Lin, mas a minha amiga abana negativamente a cabeça.
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— Fico aqui à tua espera. Vai.


— Os meninos estão lá no fundo, na sala de estar, caso você queira ir até eles.
Volto agora — diz a Lydia, apontando para o outro lado do vestíbulo, de onde sai um
corredor que se estende até a parte de trás da casa. Agora, ouço a tênue música que
parece vir dali. A Lin hesita momentaneamente, mas, depois, anui.
Lydia e eu subimos juntas a larga escada marrom-escura. Nesse momento, me ocorre
que a casa dos Beauforts é muito mais aconchegante do que parece por fora. O
vestíbulo é luminoso e agradável. Embora não tenham fotos de família penduradas nas
paredes, como temos em nossa casa, pelo menos, eles também não têm pinturas a
óleo em molduras douradas de membros da mesma linhagem falecidos há séculos,
como na casa dos Vegas. Os quadros que estão aqui são coloridos e impressionistas,
e, embora não causem nenhuma emoção pessoal específica, criam um ambiente
sugestivo.
Quando chegamos ao andar de cima, viramos para um corredor mais escuro e tão longo que
não consigo deixar de me perguntar o que está se escondendo atrás de todas essas portas. E
como é possível que aqui só viva uma família.

— Já chegamos — diz Lydia de repente em voz baixa, parando diante de uma grande
porta. Nós duas levantamos o olhar por um instante e então Lydia se vira para mim. —
Eu sei que é pedir muito, mas eu sinto que é agora que ele mais precisa de você.

Mal consigo organizar as minhas ideias e sentimentos. É como se o meu corpo


soubesse que o James está atrás desta porta — atrai-me como um íman. E, apesar de não saber de
que forma é que a Lydia espera que eu o ajude, quero estar ao lado dele para o apoiar.

A Lydia toca-me no braço.


— Ruby... entre o James e a Elaine só aconteceu aquele beijo, mais nada.
Fico tensa.
— Logo a seguir, o James saiu da piscina e ficou espapaçado num cadeirão. Sei
que pode ser cruel, mas...
- Lydia... - interrupção-a.
— Não estava em si.
Abano negativamente a cabeça.
— Não foi por essa razão que vim.
Neste momento, não posso pensar nisso. Se o fizer, se me permitir pensar no James
e na Elaine, a raiva e a deceção ganharão mais peso e não serei capaz de
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atravessar esta porta.


— Agora não posso ouvir falar disso.
Por um instante, dir-se-ia que a Lydia está prestes a responder, mas, no fim,
Ele apenas suspira.
— Só queria que soubesses isso.
Depois, roda sobre os calcanhares e retrocede pelo comprido corredor. Sigo-a com o olhar
até ela chegar à escada, com a luz a projetar-se amplamente sobre um tapete caro. Quando
desaparece por completo do meu campo de visão, torno a virar-me para a porta.

Acho que nunca na vida fiz nada tão difícil como pegar nesta maçaneta.
Quando ponho os dedos nela, sinto que está fria, e o meu corpo estremece quando a rodo
hesitantemente e a porta se abre.
Prendendo a respiração, paro na entrada do quarto de James. É um
quarto de teto alto e, sem dúvida alguma, ocupa o equivalente a toda a superfície do andar
superior de nossa diminuta casa geminada. À minha direita está uma mesa com uma cadeira
de couro marrom. À esquerda, a parede está coberta de estantes cheias de volumes de livros e
de cadernos, entre os quais, de vez em quando, assomam algumas esculturas que me fazem
lembrar das que vi na filial da Beaufort. Além da porta por onde entrei, há mais duas em ambos
os lados do quarto. São de madeira maciça e suponho que uma seja a do banheiro e a outra,
um pouco menor, a do closet do James. No meio do quarto há um sofá, uma mesa baixa em
cima de um tapete persa e uma poltrona de orelha.

Atravesso o quarto silenciosamente. Há uma cama enorme bem na frente da porta, do outro
lado do quarto. De ambos os lados, há umas grandes janelas, mas as cortinas estão quase
totalmente corridas, portanto, só se projetam duas finas linhas de luz no chão.

Vejo imediatamente o James.


Está na cama, com uma manta cinza-escura cobrindo grande parte de sua
corpo. Me aproximo com prudência, até conseguir ver seu rosto.
Fico sem respiração.
Você pensou que estava dormindo, mas... você está de olhos abertos. E o olhar dele me
provoca um calafrio que percorre todas as minhas costas.
Os olhos do James, que, em geral, são tão expressivos, estão sem vida. Tem o rosto
completamente lívido.
Avanço mais um passo para ele. Ele não reage, não dá sinais de ter notado minha presença.
Tem as pupilas dilatadas de forma não natural e o cheiro
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a álcool impregna o ar. Vem-me imediatamente à mente a tarde de quarta-feira, mas afasto essas
memórias. Não vim aqui para analisar os meus sentimentos feridos. Vim porque o James perdeu a mãe.
Ninguém devia suportar isso sozinho. E, menos ainda, alguém que, apesar de tudo, é tão importante
para mim.

Sem perder mais tempo, atravesso o resto da distância que nos separa e sento-
me com cuidado na beira da cama.
— Olá, James — murmuro.
Estremece como se, em sonhos, tivesse dado uma queda dolorosa. Ato contínuo, vira um pouco a cabeça para mim.

Ela tem olheiras escuras e profundas e seu cabelo cai desgrenhado na testa. Tem os lábios secos e rachados em

alguns lugares. É como se, durante esses dias, você tivesse apenas se alimentado de álcool.

Quando o James beijou a Elaine, desejei-lhe o pior, tão simples quanto isso.
Desejei que alguém o magoasse tanto quanto ele me tinha magoado. Queria vingar o
meu coração maltratado. Contudo, ao vê-lo agora tão abatido, não sinto a satisfação
que esperava. Antes pelo contrário. Sinto-me como se a dor dele me tocasse e me
arrastasse para o fundo. Sou tomada pelo desespero, porque não sei o que é que posso
fazer por ele. Todas as palavras que me ocorrem neste momento parecem-me
desprovidas de significado.
Lentamente, levanto a mão e afasto suavemente as mechas loiro-acobreadas de sua
testa. Passo docemente meus dedos sobre suas bochechas e coloco a palma da mão
ao lado de seu rosto frio. Tenho a sensação de estar tocando algo extremamente frágil.

Reúno todas as minhas forças, inclino-me e pouso os lábios na testa dele.


O James deixa de respirar.
Permanecemos um momento nesta posição, como que congelados — nenhum
de nós se atreve a mexer-se.
Depois, torno a endireitar-me e afasto a mão.
Um segundo depois, o James segura-me nas ancas. Enterra os dedos nelas e lança-
se para mim. Este movimento repentino apanha-me tão de surpresa que fico paralisada.
O James rodeia-me com os braços e enterra o rosto na curva do meu pescoço. Todo o
seu corpo é sacudido por soluços profundos.
Abraço-o com força. Nesse momento, não consigo dizer nada. Não consigo
sentir a perda dele e também não quero fingir que sou capaz de o fazer.
O que posso fazer é apoiá-lo. Posso acariciar suas costas e compartilhar seu
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choro. Posso sentir com ele e fazê-lo entender que não vai ter de superar isto sozinho,
independentemente do que tenha acontecido entre nós.
E, enquanto o James chora nos meus braços, dou-me conta de que avaliei a
situação de maneira totalmente errada.
Eu pensava que, depois do que ele fez comigo, eu poderia apagá-lo da minha vida como se
nada fosse. Eu esperava me distanciar dele o mais rápido possível. Mas, agora, ao ver que a
dor dele também me faz sofrer, sei que isso não acontecerá tão facilmente.
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James

As paredes estão girando. Não distingo o chão do teto, só posso sentir que as mãos de
Ruby estão aqui e que elas me devolvem mais ou menos à realidade. Ela está sentada na
minha cama, com as costas apoiadas na cabeceira, enquanto metade do meu corpo
descansa sobre ela. Seu braço me envolve com firmeza e acaricia minha cabeça com a
mão. Eu apenas me concentro no calor do corpo dela, em sua respiração regular e em seu
contato.
Não faço a mínima ideia de quantos dias passaram. Quando tento lembrar-me, tudo se
transforma numa névoa, uma névoa densa e cinzenta, e só surgem dois pensamentos que
me deixam obcecado.
Primeiro: a minha mãe morreu.
Segundo: beijei outra rapariga em frente da Ruby.
Independentemente de quanto álcool beba ou das drogas que tome, nunca poderei
esquecer a expressão da Ruby nesse momento. Não conseguia acreditar e estava tão
magoada... como se eu tivesse destruído todo o seu mundo.
Enterro meu rosto no colo de Ruby. Por um lado, porque tenho medo de que você se
levante e vá embora a qualquer momento. Por outro, porque tenho medo de cair no choro.
Porém, nada disso acontece. Ela fica e eu, aparentemente, não tenho mais lágrimas para
derramar.
Sinto como se, dentro de mim, não houvesse nada. Talvez minha alma tenha morrido
com minha mãe. De outro modo, como poderia ter feito uma coisa daquelas à Ruby?

Como consegui fazer uma coisa dessas à Ruby?


Que é que se passa comigo?
Que diabos se passa comigo?!
— James, tens de respirar — murmura a Ruby subitamente.
Ao ouvi-la, dou-me conta de que é verdade, parei de respirar. E não sei durante quanto
tempo.
Inspiro fundo e expiro lentamente. Não é assim tão difícil.
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— Que é que se passa comigo? — Murmurar estas palavras é tão extenuante


que, depois, fico com a sensação de as ter vociferado.
A mão da Ruby para.
— Você está de luto — também me responde a meia-voz.
— Mas porquê?
Há pouco, esqueci-me de respirar, agora estou com a respiração acelerada.
Levanto bruscamente. Meu peito dói, assim como as extremidades, que estão como se
eu tivesse feito esporte como um louco. Apesar disso, a única coisa que fiz nos últimos
dias foi reprimir tudo o que aconteceu.
— Porquê o quê? — O olhar da Ruby é carinhoso e pergunto-me como
consegue olhar assim para mim.
— Estou a perguntar porque é que estou triste. Não gostava especialmente da minha mãe.

Assim que termino de dizer essas palavras, eu me calo. Sério que eu acabei de dizer isso?

A Ruby dá-me a mão e aperta-ma com força.


— Perdeste a tua mãe. É normal uma pessoa ficar desfeita quando morre
alguém que é tão importante para ela.
Ela não parece tão segura nem tão convencida como de costume. Acho que ela
mesma não sabe como se comportar em uma situação como essa. Mas, apesar de
tudo, estar aqui e tentar me apoiar é como um sonho para mim.
Se calhar, é mesmo.
— Que é que aconteceu aqui? — murmura de repente, levantando com cuidado a minha mão
direita.

Sigo o olhar dela. Ainda tenho os nós dos dedos cheios de sangue no sítio em
que a pele levantou, e o resto da mão está vermelho e cheio de nódoas negras.
Se calhar, não é um sonho. E, se for, é muito realista.
— Eu bati no meu pai. — As palavras surgem dos meus lábios sem nenhum juízo de
valor. Não sinto nada quando as pronuncio. Outra coisa em mim que está errada. Afinal,
qualquer pessoa relativamente normal sabe que nunca deve levantar a mão contra os
próprios pais. Contudo, no momento em que meu pai nos comunicou, a mim e a Lydia,
que nossa mãe havia morrido, naquele seu tom tão indiferente e frio, não consegui
aguentar mais e disse "chega".

A Ruby leva a minha mão aos lábios, apertando-os contra as costas da mão. O meu
coração começa a bater mais depressa e um tremor percorre-me o corpo
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todo. O contato dela me acalma, embora sua ternura me destroce. Tudo me parece
simultaneamente falso e autêntico.
Desde criança, meus pais me incutiram que eu não deveria mostrar meus sentimentos. Quando
você os mostra, seus pares ficam te conhecendo e podem descobrir seus pontos fracos. Assim que
você mostra suas fraquezas, eles podem te atacar, e isso é algo que o diretor de uma grande
empresa não pode se permitir. Mas eles não me prepararam para uma situação como essa. O que
você faz quando perde sua mãe aos dezoito anos? Para isso, só encontrei uma solução: tentar
esconder a verdade com álcool e drogas, e fingir que nada havia acontecido.

Contudo, agora que a Ruby está ao meu lado, já não tenho tanta certeza de dever
continuar a comportar-me assim. Percorro o rosto dela com o olhar, passando pelo cabelo
um pouco despenteado até chegar ao pescoço. Lembro-me perfeitamente da sensação de
pressionar os lábios contra a pele suave do pescoço dela. De quão maravilhoso era abraçá-
la. Estar dentro dela.
Agora parece tão triste como eu. Não sei se está a pensar apenas na minha mãe
ou em toda a mágoa que lhe causei.
De uma coisa eu tenho certeza: Ruby não merecia que eu tivesse me comportado assim.
Sempre me fez sentir que sou capaz de conseguir tudo. E não importa o que aconteceu...
eu nunca deveria ter permitido que Elaine me beijasse para demonstrar a mim mesmo e a
todos os outros que sou um imbecil sem sentimentos que dá a mínima para tudo, inclusive
para a morte da mãe.
Afastar a Ruby dessa maneira foi um ato de cobardia. E foi o pior erro que cometi na vida.

— Desculpe — digo a ele com voz rouca. Sinto minha garganta inchada e me dói muito
falar. — Sinto muito pelo que fiz.
Todo o corpo da Ruby fica tenso. Passam uns segundos e permanece imóvel.
Acho que até deixou de respirar.
— Rubi...
Ela abana negativamente a cabeça.
— Não. Não estou aqui por isso.
— Tenho noção do erro que cometi.
— James, não continues — murmura-me veementemente.
— Sei que não tens motivo nenhum para me perdoar, mas eu...
A mão de Ruby está tremendo quando ela solta a minha. Depois, levanta-se da
cama. Primeiro, ele alisa a camisa e, depois, puxa a franja para baixo. É como se
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quisesse compor o seu asseado aspeto exterior, esse que durante dois anos me passou ao lado. No
entanto, é inútil, porque aconteceram demasiadas coisas entre nós. Nada poderia fazer com que ela
voltasse a ser invisível aos meus olhos.

— Agora não posso, James — murmura. — Lamento.


Depois, atravessa o meu quarto. Não se vira para trás sequer uma vez, nem
olha para mim quando sai e fecha silenciosamente a porta atrás de si.
Cerro os dentes quando as picadas voltam aos meus olhos e meus ombros me
começam a tremer.

Não sei quanto tempo fiquei na cama olhando para a parede, mas em um determinado momento
me levanto com esforço. Lá fora já escureceu há muito tempo e me pergunto se os meninos ainda
estarão aqui em casa. Um pouco antes de entrar na sala de estar, eu os ouço falar em voz baixa. A
porta está entreaberta e paro com a mão na maçaneta.

— Isto não é normal — murmura o Alistair. — Se ele continuar assim, vai


acabar num coma etílico. Não compreendo porque é que não fala connosco.
— Se eu estivesse na situação dele, também não teria ânimo para falar. — É o

Keshav. Surpreende-me que seja precisamente ele a dizer isto.


— Mas você sabe quais são seus limites. No caso de James, não tenho tanta
certeza.

— Provavelmente, não devíamos ter ido tão longe — intervém o Wren. — A verdade é que, até
ontem, pensava que ele só queria comemorar a entrada em Oxford.

Eles ficam em silêncio por alguns segundos e, então, Wren continua: — Se ele não
quer falar, temos que aceitá-lo.
Alistair fãs.

— E ficamos a vê-lo destruir-se? Nem penses nisso.


— Podes tirar-lhe o álcool e as drogas — murmura o Wren —, mas a mãe dele morreu. E, enquanto
ele não aceitar isso, não podemos fazer nada, por muito que isso nos lixe.

Um calafrio percorre minhas costas. Eles já sabem. A ideia de ter que ver as expressões
compadecidas deles me dá a volta na barriga. Detesto isso. Mas se a visita de Ruby me ensinou
alguma coisa, é que chegou a hora de enfrentar o que aconteceu.

Portanto, faço estalar o pescoço, rodo os ombros e entro na sala de estar. O


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Alistair está prestes a responder, mas fecha a boca com determinação assim que me vê. Vou direto para o carrinho de

bebidas e pego uma garrafa de uísque. Não vou aguentar sóbrio o que me preparo para fazer daqui a pouco. Encho um

copo e bebo de um só gole. Então eu o largo e me viro para os meninos. Estão todos lá, menos Cyril. O Alistair gira o

resto de líquido que tem no copo, com o olhar fixo no chão. Kesh me observa esperando com seus olhos escuros, assim

como Wren. Embora vocês já saibam, sinto que é importante dizer em voz alta as palavras seguintes: — Minha mãe

morreu. É a primeira vez que digo isso.

E dói-me mais do que esperava. Nem sequer o álcool pode fazer algo para impedir isso. Foi
precisamente por esse motivo que evitei falar com os rapazes.
Falar provoca-me ainda mais dor. Baixo os olhos para os sapatos para não ter de ver as reações deles.
Nunca me tinha sentido tão vulnerável como neste instante.

De repente, oiço uns passos que se aproximam. Quando levanto os olhos, vejo o Wren
mesmo à minha frente. Rodeia-me com os braços e abraça-me com força.

Cansado, apoio a testa no ombro dele. Os braços me pesam como se fossem de chumbo e
sou incapaz de devolver-lhe o abraço. Mesmo assim, ele não me solta.
Pouco depois, o Kesh e o Alistair também se aproximam e põem-me as mãos nos ombros.

Neste momento, não tenho palavras, mas, de qualquer maneira, o nó que tenho na garganta
ter-me-ia impedido de emitir qualquer som. Demoro algum tempo a recompor-me. A dado
momento, o Wren leva-me para o sofá enquanto o Alistair me oferece um copo de água em
silêncio.
— Que merda — resmunga o Alistair, sentando-se ao meu lado. — Tenho imensa pena,
James.
Não consigo olhar para ele nem dizer nada sobre aquilo e limito-me a anuir.
— Que é que aconteceu? — pergunta-me o Kesh passado um bocado.
Hesitantemente, bebo um gole. A água fria sabe-me surpreendentemente bem.

— Teve... teve um AVC enquanto estávamos em Oxford.


Silêncio. Parece que ficaram sem respiração. Eles já sabiam que minha mãe havia morrido,
mas é evidente que essa informação é nova para eles.
— Meu pai nos contou quando voltamos. Não queria que as entrevistas nos
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dessem errado. — Sempre que lembro da conversa com meu pai, o frio toma conta do meu
corpo. Olho para a minha mão cheia de nódoas negras, fecho-a num punho e torno a abri-la.
Wren coloca a mão no meu ombro.
— Supúnhamos que tinha acontecido qualquer coisa má — murmura. — Nós nunca
tínhamos visto você assim, mas Lydia não nos contou nada e você estava praticamente
inacessível...
Ó porquinho Keshav.
— Hoje à tarde, Beaufort fez um comunicado à imprensa. Foi então que soubemos.

Engulo em seco.
— Simplesmente não queria pensar. Em nada.
— Não faz mal, James — diz-me o Wren a meia-voz.
— E tinha medo de o dizer porque então seria realidade.
Finalmente, levanto os olhos e vejo os rostos comovidos dos meus amigos. Os olhos do
Keshav brilham de forma suspeita, enquanto as maçãs do rosto do Alistair perderam a cor.
Eu nem tinha tido consciência de que os meninos conheciam minha mãe desde pequenos e
que, provavelmente, a notícia da morte dela também os afetaria. De repente, entendo o quão
egoísta foi minha reação. Não apenas ignorei a realidade e machuquei Ruby, mas, além
disso, com meu jeito de agir, afastei meus amigos e Lydia.

— Você vai superar o que aconteceu. Vão os dois — afirma Wren.


Sigo o olhar dele e vejo Cyril e Lydia parados ao lado da porta. As maçãs do rosto e os olhos da
minha irmã estão vermelhos. Tenho certeza que tenho a mesma aparência.

— Independentemente do que estejam a sentir agora, não estão sozinhos.


Têm-nos a nós, está bem? — declara o Wren, apertando-me o ombro. Os seus olhos
castanhos mostram seriedade e determinação.
— Está bem — respondo-lhe, embora não tenha a menor idéia se devo
acreditar nisso.
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Lídia

O Percy aparece no corredor quando estou a pôr o colar de pérolas da minha mãe.

— Está pronta para sair, menina? — pergunta-me, parando a uns passos de distância de
mim. — O senhor Beaufort e o seu irmão já estão à espera no carro.
Não lhe respondo. Em vez disso, aperto o colar e verifico pela última vez se o coque está
reto. Então eu lentamente abaixo as mãos.
Vejo minha imagem no espelho. A assistente responsável por planejar o funeral, que foi
contratada por meu pai, não apenas cuidou de toda a organização, mas também de que
ele, James e eu tivéssemos uma estilista para hoje. «Um rímel à prova d'água vai te ajudar
a superar o dia, meu amor», murmurou-me a jovem.

Considerei brevemente a ideia de passar as mãos sobre os olhos ainda úmidos da


maquiagem para destruir o trabalho dela, mas o olhar severo de meu pai me deteve. É só
por causa dele que, agora, estou com uma aparência apresentável. Até mais do que
apresentável. Estou com o rosto mais maquiado do que nas sessões de fotos que fizemos
para uma coleção Beaufort.
Aplicaram-me com esmero a sombra de olhos e o discreto eyeliner, tenho três camadas de
rímel à prova de água coladas às pestanas e o rosto bem torneado.
Então, minhas maçãs do rosto se destacam um pouco mais do que nesses últimos tempos.

O meu pai franziu o sobrolho, surpreendido, quando a estilista salientou a redondez do


meu rosto. É provável que consiga esconder a gravidez durante mais um ou dois meses,
mas não mais do que isso.
Quando imagino a reação da minha família, sinto-me como se alguém me estivesse a
estrangular. Mas não devo pensar nisso. Hoje não.
— Não — respondo a Percy depois de um grande tempo, mas dou meia-volta e me dirijo
para a saída com passo enérgico.
O motorista me segue em silêncio. Junto ao armário, ele se dispõe a me ajudar a
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vestir o casaco, mas me afasto. Ela me olha com tanta pena que agora não consigo
suportar, portanto, enfio sozinha os braços nas mangas e saio. Todo o pátio de nossa
residência está coberto de geada, que brilha fracamente ao sol.
Desço cuidadosamente os degraus da escada da frente e vou até a limusine preta que está estacionada
logo em frente. Percy abre a porta para mim e eu agradeço, antes de entrar e me sentar ao lado de
James no banco de trás.

No carro, o ambiente é de total abatimento. Nem o James nem o meu pai, que está
no banco da frente, me prestam atenção. Uso um vestido tubo preto, com mangas
compridas e franzidas, e eles, fatos pretos que foram confecionados especialmente para
esta ocasião. A cor escura do tecido acentua ainda mais a palidez do meu irmão.
Embora a estilista se tenha esforçado por dar um pouco de cor ao rosto dele, não teve
grande sucesso. No caso do nosso pai, pelo contrário, a maquilhagem fez milagres: já
não se veem as olheiras.
Abano a cabeça enquanto os observo. A minha família é um autêntico monte
de escombros.
O trajeto para o cemitério decorre como se eu estivesse em estado de embriaguez.
Tento imitar o meu pai e o meu irmão e transportar-me mentalmente para outro sítio,
mas é impossível a partir do momento em que o carro trava e o Percy solta um
impropério em voz baixa.
A entrada do cemitério está cheia de jornalistas.
Olho de soslaio para o James, mas não distingo a menor expressão no rosto dele
enquanto põe os óculos escuros e espera que o Percy abra a porta do carro.
Engulo em seco e aperto meu casaco contra meu corpo. Depois, também coloco os
óculos escuros. A presença dos insistentes jornalistas me provoca um verdadeiro mal-
estar. Esforço-me para inspirar fundo pelo nariz e expirar pela boca.
Dois dos homens do serviço de segurança que Julia contratou os ajudam a sair do
carro. Eles me flanqueiam e sinto meus joelhos tremendo, e, quando nos dirigimos para
a capela, sinto como se estivesse em estado de choque. Jornalistas e paparazzi gritam
para nós lá de trás, mas, com exceção do meu nome e do de James, não entendo nem
uma palavra do que eles dizem. Eu os ignoro e avanço em um ritmo rápido, com as
costas tensas. Quando chegamos à capela, os trabalhadores do cemitério nos abrem
as portas para que possamos entrar sem ter que
espere.
A primeira coisa que vejo é o caixão, colocado diante do altar. É preto e, em cima da
superfície superior, lisa e laqueada, a luz das lâmpadas se reflete
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pendurados do alto teto da capela.


A segunda é a mulher que está mesmo em frente do caixão. Tem o cabelo tão
ruivo como o da minha mãe, mas cai-lhe sobre os ombros em ondas suaves.
Ela também usa um sobretudo preto que vai até os joelhos.
— Tia Ophelia? — digo com voz rouca, avançando um passo para ela.
A mulher se vira. Ophelia é cinco anos mais nova que nossa mãe e, apesar de
suas feições serem mais suaves e a expressão em seu rosto não ser tão séria,
você imediatamente percebe que ela é irmã dela.
— Lydia. — Reconheço nos olhos dela a mesma tristeza profunda que sinto há dias.

Quero me aproximar dela e abraçá-la, mas, antes de dar um passo, meu pai agarra meu braço.
Ela tem um olhar gélido quando olha primeiro para Ophelia e depois para mim. Ele balança
negativamente a cabeça de forma quase imperceptível. Um sentimento doloroso se espalha pelo
meu corpo. Este é o funeral da minha mãe. Talvez elas não tivessem o melhor dos relacionamentos,
mas eram irmãs. E tenho certeza de que, hoje, minha mãe teria querido que estivéssemos com ela.

Sem me dar importância e ignorando minha resistência, meu pai passa o braço
por cima dos meus ombros. Não é um gesto carinhoso, mas um gesto que sinto
mais como um aperto controlador. Enquanto ela me empurra para a fileira de
assentos reservada, eu me viro novamente para Ophelia, que desaparece no mar
de pessoas vestidas de preto.

O cortejo fúnebre é acompanhado por uma dúzia de funcionários da segurança


que avançam conosco e se certificam de que nenhum jornalista se aproxime
demais. Embora a maioria tenha tato suficiente para ficar na beira do caminho,
alguns colocam suas câmeras tão próximas de nossos rostos que eu teria que
estender a mão para tocá-las.
Depois de um tempo, olho para James, que caminha ao meu lado e observa com
resignação as costas de nosso pai. O rosto dele parece talhado em pedra, duro e
impávido, e eu gostaria de poder ver seus olhos. Então, talvez eu percebesse
como está. Eu me pergunto se ele cheirava alguma coisa ou bebia antes de virmos
para cá. Nestes últimos dias, ou, mais precisamente, desde a tarde em que Ruby
esteve em nossa casa, ela se retraiu completamente e não falou comigo ou com
os meninos. Não lhe levo a mal. Em muitos aspectos, somos iguais. Eu também
teria precisado de qualquer coisa que me ajudasse
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enfrentar estes dias eternos e horrorosos.

Distraí-me do discurso fúnebre, que parecia nunca mais acabar. Se tivesse ouvido tudo o que o
padre disse sobre a nossa mãe, é provável que tivesse desmaiado. Em vez disso, levantei um
muro invisível entre as minhas emoções e eu própria, e concentrei-me nele para não desatar a
chorar sonoramente.
Imagino o que o meu pai pensaria, se isso acontecesse.
Quando ficamos em pé diante do túmulo, tento voltar a erguer esse muro.
Contemplo o buraco negro que eles cavaram no chão e diligentemente afasto todas as emoções.
Por um momento, acho que funciona. O pastor recomeça a falar, mas não presto atenção nele e
não penso em nada.
No entanto, quando o caixão desce para a cova, de repente sinto que o ar não chega aos meus
pulmões. Tenho a sensação de que algo imenso e tenebroso toma conta de mim e aperta minha
garganta. Todos os pensamentos que tentei reprimir nesta última hora se esforçam para chegar à
superfície da minha consciência.

O corpo sem vida da nossa mãe jaz neste caixão. Nunca mais voltará. Está morta.
Sinto-me mal. Tusso um bocado, tapo a boca com a mão e afasto-me para o lado.

— Lydia? — Oiço ao longe a voz do James.


Só consigo balançar negativamente a cabeça. Tento lembrar o que nosso pai nos disse antes
do funeral: 'Mantenha as costas retas, tire os óculos escuros, no máximo, por meio minuto e sem
lágrimas'. Ele não queria dar à cerimônia mais drama do que o necessário diante da imprensa.

Aplico as últimas energias em tentar me controlar. Tento não pensar na minha mãe. Em que
nunca mais poderei pedir conselhos a ele. Em que nunca mais me levará um chá no quarto
quando passei tempo demais sentada na escrivaninha estudando para o colégio. Em que nunca
mais voltará a me abraçar.
Em que nunca conhecerá o neto. Em que estou completamente sozinha e tenho medo de também
perder James e nosso pai, porque nossa família se desintegra um pouco mais a cada dia.

Um leve soluço escapa-se-me da garganta. Aperto com força os lábios trémulos, para não emitir
nenhum som.
— Lydia — repete o James, agora com mais intensidade.
Aproxima-se de mim, de maneira que os nossos braços se tocam através do tecido grosso dos
casacos. Levanto os olhos a pouco e pouco. O James tirou os óculos escuros e olha para mim
com uma expressão sombria. Distingo nos olhos
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dele algo que procurei desesperadamente durante a última semana, algo que me recorda
que é meu irmão e que estará sempre ao meu lado.
Hesitantemente, o James levanta a mão para o meu rosto. Está gelada, mas
sabe-me muito bem que me acaricie a bochecha com o polegar.
— O pai que se lixe — murmura-me. — Se quiseres chorar, chora. Está bem?
A familiaridade dos olhos dele e a sinceridade de suas palavras fazem o muro cair de
vez. Deixo os sentimentos se transformarem em um ciclone, porque James está aqui para
me sustentar. Ele coloca um braço em volta do meu ombro e me aperta contra si. Escondo
meu rosto no peito dele. É casa, e o peso que sinto alivia um pouco. como estar em

Enquanto minhas lágrimas caem sem cessar sobre o casaco dele, contemplamos juntos o
caixão descendo cada vez mais, até chegar ao fundo.
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Rubi

Retorno ao colégio na quarta-feira. Faltei mais de sete dias e agora percebo a


consequência da ausência. Embora neste fim de semana Lin tenha me passado as
anotações, tenho dificuldade em acompanhar a aula. Na disciplina de História me
fazem duas perguntas e sou incapaz de dar uma resposta razoável.
No entanto, enquanto olho para a agenda com uma expressão consternada, o professor
Sutton parece nem perceber. Dir-se-ia que ele está fora de si, com a mente em outros
assuntos. Pergunto a mim mesma se pensará em Lydia com tanta frequência quanto
penso em James.
Depois que a manhã terminou, estou um caco. Eu adoraria ir para a biblioteca e ler
novamente as anotações das próximas aulas, mas minha barriga protesta demais e eu
tenho que ir comer.
A caminho do refeitório, a Lin pega-me no braço.
— Está tudo bem? — pergunta, olhando para mim de soslaio.
— Nunca mais tornarei a faltar um dia que seja — resmungo enquanto vamos juntas
para o refeitório. — Não fazer a mínima ideia do que o professor te está a perguntar é
a sensação mais desagradável do mundo.
A Lin dá-me uma palmadinha no braço.
— Mas você fez tudo certo. Para a semana, no máximo, você já terá recuperado tudo.

— Está bem — respondo-lhe quando dobramos a esquina. — Apesar disso...


Não termino a frase.
Estamos na sala principal de Maxton Hall. À minha direita situa-se a escada
que conduz à cave.
A escada em que o James me beijou pela primeira vez.
Subitamente, sou invadida pela recordação de como pôs a mão em volta da minha
nuca e encostou os lábios aos meus. Na minha mente, a memória projeta-se como se
fosse um filme: a boca dele a deslizar sobre a minha, as suas mãos a segurar-me,
aqueles seus gestos tão seguros, que me fazem tremer os
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joelhos. Contudo, de repente, o meu rosto começa a mudar, transforma-se até ser outro
totalmente diferente. O James já não me está a abraçar, abraça a Elaine e beija-a
apaixonadamente.
Sinto uma forte pontada na barriga e tenho de me esforçar muito para não me
contorcer.

Nesse momento, alguém empurra meu ombro e eu volto para Maxton Hall. Em vez do beijo,
vejo a escada que leva ao porão e as pessoas indo para o refeitório. A dor de estômago diminui.

Respiro fundo. Este dia no colégio não passou de uma montanha-russa. Todas as vezes que
tudo corre sobre rodas e que chego ao topo, penso que tudo está normal e que vou superar a
situação; contudo, assim que vejo qualquer coisa que me recorda o James, desço às
profundezas numa voragem de sofrimento.
— Ruby? — chama a Lin ao meu lado, e, a julgar pela sua expressão, está
preocupada, e não é a primeira vez nesses últimos minutos. — Você está bem?
Esboço um sorriso forçado e anuo em silêncio.
A Lin franze o sobrolho, mas não insiste. Em vez disso, continua o trabalho que fez durante
toda a manhã: distrair-me. Enquanto me leva para a entrada do refeitório, fala-me dos últimos
títulos do Tsugumi ÿba e do Takeshi Obata que devorou. Está tão fascinada que pego na minha
agenda e tomo nota dos dois mangas na minha lista de leituras.

Depois que terminamos de comer, levamos as bandejas para o balcão de coleta.


Apoiada na parede ao lado, está uma garota que eu não conheço. Ele está conversando com
um cara, mas se cala assim que me vê. Ele abre muito os olhos e dá uma cotovelada nas
costelas dele, sem muita discrição. Tento ignorar os dois.
— Você não é a garota que jogaram na piscina na festa do Cyril Vega? — ele pergunta,
dando um passo em minha direção.
As palavras dela me fazem estremecer. Para mim, aquela maldita piscina só está ligada a
lembranças ruins que eu gostaria de arrancar do meu cérebro com uma lobotomia.

Não respondo a ele e espero a esteira avance, para pousar a bandeja e sair daqui.

— Foi o James Beaufort que te tirou da água. Correm rumores de que és a


namorada secreta dele. É verdade? — continua ela.
Tenho a sensação de que as paredes do refeitório se aproximam de mim, lenta, mas
seguramente. Não tenho dúvidas de que, de um segundo para o outro, me vão esmagar.
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— Se ela fosse namorada dele, tinha ido ao funeral — comenta o rapaz, tão alto que
até eu o oiço.
— Sim, por isso é que disse «secreta». Se calhar, é um dos segredinhos dele.
Sabes perfeitamente que ele tem um monte deles.
Ouve-se um estrépito.
Deixei cair a bandeja.
Os cacos de vidro e de cerâmica enchem o chão em volta dos meus pés. Fico olhando
algumas ervilhas que rolam pelo chão, sem conseguir me mexer para pegá-las. Estou
com o corpo petrificado.
— Deixa de dizer imbecilidades — diz uma voz profunda ao meu lado.
Ato contínuo, um braço envolve meus ombros e me leva para fora do refeitório. Atrás
de mim, ouço a voz de Lin ao longe, que está me dizendo algo, mas a voz profunda
continua andando imperturbável e me afasta do refeitório, até chegar à escada. É então
que o braço sai de cima dos meus ombros e a pessoa se planta na minha frente. Levanto
os olhos, passando pela calça bege e pelo blazer azul escuro até... chegar ao rosto de
Keshav Patel.
Tenho que piscar várias vezes até me dar conta de que é realmente ele que está na
minha frente. Ela usa o cabelo preto preso na nuca e afasta para trás uma mecha que se
soltou. Então ele vira os olhos castanho-escuros, quase pretos, para mim.

— Estás bem? — pergunta-me em voz baixa.


Acho que posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes ouvi Keshav falar. Dos
amigos de James, ele é o mais quieto. Embora eu conheça, por pouco que seja, Alistair,
Cyril e Wren, para mim, Kesh é um mistério.
— Sim — respondo a ele, afônica, e depois pigarreio.
Olho em volta e me dou conta de onde estamos. Meu primeiro encontro real com James

aconteceu embaixo da escada, escondido dos olhares dos curiosos. Foi aqui que ele tentou me
subornar e eu joguei na cara dele a porcaria do dinheiro. Pergunto a mim mesma se tudo nesse
maldito colégio vai me lembrar de James.

— Tudo bem — Keshav me diz. Então ele dá meia-volta, enfia as mãos nos
bolsos e vai-se embora.
Fico a observá-lo até desaparecer do meu campo visual. Não passou nem meio minuto quando
a Lin sai do refeitório com uma expressão sombria e me procura com o olhar.

— Estou aqui, Lin — chamo-a, saindo de baixo da escada.


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— Eu disse a eles algumas coisas — ele resmunga enquanto se aproxima de mim. —


Que grandes imbecis! Que é que o Keshav tinha que ver com aquilo?
De sobrolho franzido, olho para o sítio por onde ele desapareceu.
— Não faço a mais pequena ideia.

Nesta tarde, a primeira tarefa da comissão de eventos consiste em embrulhar os presentes


do amigo secreto. Durante as últimas duas semanas, os alunos tiveram a oportunidade de
nos deixar presentes que, depois e como é tradição, serão distribuídos pelas salas de aula
no último dia antes das férias de Natal.
Normalmente, adoro colocar laços e fitas nas cartas e guloseimas, e colocá-los dentro
dos saquinhos de Papai Noel que nossos carteiros das turmas dos anos iniciais levarão de
sala em sala. Contudo, apesar das canções de Natal que se ouvem, tenho o ânimo de
rastos. É provável que isso se deva à grande
quantidade de cartas endereçadas aos Beauforts e a não sabermos o que fazer com elas.
James e Lydia ainda não voltaram ao colégio, portanto, não estão aqui para recebê-las, e
duvido que parecesse bom que as enviássemos para a casa deles. Eu gostaria de poder
perguntar a eles simplesmente se eles as querem ou não. Dado que isso não é uma opção,
toda a equipe vota unanimemente para que as mantenhamos. Afinal, também não sabemos
o que está escrito nelas nem se, por acaso, alguém se permitiu fazer uma piada de mau
gosto.

Durante o resto da reunião, me pego olhando para a cadeira vazia em que James costumava sentar
quando cumpriu o castigo conosco. Pelo visto, a partir de agora, tudo vai me lembrar de James, quando
o que eu queria era esquecê-lo e esquecer o que vivemos juntos. Sempre que penso nele, sinto como
se alguém enfiasse uma mão no meu peito, agarrasse meu coração e o espremesse.

Estou tão incrivelmente zangada com ele...


Como é que pôde fazer-me uma coisa daquelas?
Como?!
Embora sinta mal-estar perante a mera ideia de permitir que alguém chegue ao mesmo
grau de intimidade que ele teve comigo, o James não hesitou nem um segundo em beijar
outra.
E o pior é que, agora, James não me provoca apenas raiva, mas também pena e empatia.
Ele perdeu a mãe e, todas as vezes que uma raiva irresistível toma conta de mim, me sinto
mal. Embora eu tenha consciência de que, na
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verdade, não tenho motivo nenhum para isso. É injusto e

cansativo, e à tarde, quando chego em casa, estou completamente esgotada por causa da guerra que todos

esses sentimentos opostos travam dentro de mim. O dia escolar roubou toda a minha energia e não sou capaz de

me comportar alegremente na frente da minha família. Desde que minha mãe soube da morte de Cordelia Beaufort

ela me trata como se eu fosse de porcelana. Eu não contei a ela o que aconteceu entre mim e James, mas, como

toda mãe, ela tem aquele instinto que revela certas coisas. Por exemplo, que a filha dela sofre de mal de amores.

À noite, fico feliz por poder finalmente me colocar na cama. Porém, apesar de estar exausta, passo
uma hora dando voltas de um lado para o outro.
Não posso fazer mais nada, não há nada que possa interpor-se entre as memórias que tenho de mim
e do James. Ponho um braço em cima da cara e fecho os olhos. Invoco a escuridão, mas a única
coisa que vejo é o rosto do James. O esboço do seu sorriso gozão, o brilho dos olhos, a bonita curva
dos lábios.
Solto uma imprecação, afasto o cobertor para o lado e me levanto. Está tão frio que fico com pele
de galinha quando vou até a mesa e pego meu laptop. Volto para a cama e me cubro até em cima
com o cobertor. Com o travesseiro dobrado nas costas, ligo o laptop e abro o navegador.

Para mim, escrever estas letras no campo de pesquisa é quase como fazer algo proibido.

James Beaufort
Digitar.

Em meio segundo, aparecem 1 930 760 resultados.


Porra!

Mesmo por baixo do campo de pesquisa, aparecem várias imagens. Imagens do James com fatos
da Beaufort feitos à medida e do James a jogar golfe com o pai e os amigos dele. Nelas, aparece
cuidado e bem penteado, como se tivesse o mundo aos seus pés.

No entanto, quando vejo todos os resultados das imagens, também descubro outras facetas menos
que perfeitas de James. Há uma série de fotos borradas, tiradas com um celular, nas quais uma
versão mais jovem de James se inclina sobre uma mesa e uma linha de um pó branco. Fotos dele
entrando e saindo de boates, com mulheres no braço, que, com certeza, são mais velhas que ele, e
nas quais ele parece desorientado e bêbado. A diferença entre esse James e aquele que parece um
manequim, na companhia dos pais e de Lydia
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numa gala, não podia ser maior.


Volto aos resultados normais da pesquisa. Logo abaixo da fila de imagens, há muitos artigos
novos, a maioria sobre a morte repentina de Cordelia Beaufort. Não quero lê-los. Eles não me
dizem respeito e, nas notícias, já deram informações suficientes sobre isso. Eu continuo vendo os
resultados, até que a conta de James no Instagram aparece. Abro a página sem pensar.

O perfil dele é uma mistura colorida de fotos diferentes. Você vê livros, a fachada espelhada de
um arranha-céu, um primeiro plano de uma parede revestida de estuque, bancos, degraus
irregulares, os pés dele calçados com sapatos de pele em cima de um andaime, uma janela através
da qual brilha o sol da manhã... se, de vez em quando, não aparecesse uma foto dele com os
amigos ou Lydia, eu nunca teria pensado que esse era o perfil de James.

Nas imagens com os meninos, James tem no rosto esse sorriso que sempre me deixou louco,
esse sorriso tão incrivelmente arrogante, mas, ao mesmo tempo, tão natural e atraente, que me faz
sentir à força um formigamento na barriga.
Há uma fotografia que me chama a atenção. É de James e Lydia, e os dois estão rindo. É uma
imagem estranha. Não me lembro de alguma vez ter ouvido Lydia rir. No caso de James, ao

contrário, basta eu olhar para a imagem para ouvir o som familiar. O formigamento que sinto na
barriga vai sendo substituído por um nó de nostalgia. Sinto falta da risada dele. Sinto falta do seu
jeito de ser, da sua voz, das nossas conversas... de tudo, na realidade.

Sem pensar mais nisso, salvo a imagem na área de trabalho. Eu sei o quão absurdo é, mas é
indiferente para mim. Em todas as áreas da minha vida, sempre ajo de forma racional e reflexiva. Pela
primeira vez, permito-me deixar guiar pelos meus sentimentos.

As fotos mais recentes do perfil de James estão inundadas de mensagens de condolências. Leio
os comentários por alto e engulo em seco. Para alguns, não falta tato, mas são verdadeiramente
cruéis. Será que James lê tudo? O que você sentirá quando fizer isso? Se para mim parecem
horríveis, não quero nem pensar no impacto que terão sobre ele.

Afeta-me, em especial, um comentário de um mau gosto difícil de superar.

xnzlg: quem quiser fotografias do funeral beaufort dê uma olhada no meu


perfil

Pouso o dedo no touchpad e fico com as maçãs do rosto a arder de raiva. Clico
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no perfil, para o abrir, e fico gelada.


Todo o feed do Instagram do xnzlg é composto de fotos de James e Lydia, ambos
vestidos de preto no cemitério. Eles estão encostados um no outro, apoiando-se
mutuamente. James tem um braço em volta de Lydia e está bem perto dela, com o
queixo apoiado em cima da cabeça da irmã.
Fico com os olhos inundados de lágrimas.
Como é possível que alguém faça uma coisa destas? Como é possível que alguém
fotografe este horrível momento na vida de uma família, que já de si está destruída,
apenas para publicar as imagens na Internet? Ninguém tem o direito de se meter na
esfera privada deles desta maneira.
Limpo os olhos com a mão. Tento orientar-me na página do xnzlg e denuncio o
perfil. Logo a seguir, assinalo os comentários por baixo das fotografias do James
como spam, até que desaparecem.
É a única coisa que posso fazer no momento, mas não é suficiente. As fotografias despertaram os sentimentos que

acumulei durante esta última semana e, agora, mal consigo controlá-los. A pena que sinto por James e Lydia é

esmagadora.

Fecho o laptop e o guardo na bolsa acolchoada. Depois, pego meu celular e abro
as mensagens. Decido escrever para Lydia.
Não sei se, no tempo que já passou, ela informou a família da gravidez, mas, seja
como for, preciso de que saiba que nada mudou e de que, apesar de tudo, estou
disponível caso precise de mim. Escrevo:

Lydia, a minha oferta continua de pé.


Se tiveres vontade de falar, diz-me.

Depois de hesitar por alguns segundos, mando a mensagem. A seguir, fico olhando
para o celular que tenho na mão. Eu sei que a decisão sensata seria pousá-lo, mas
não posso evitar. Automaticamente, abro o bate-papo entre mim e James.
Parece mentira que a primeira mensagem que ele me mandou foi há pouco mais de
três meses. Tenho impressão de que, desde a noite em que James me convidou para
ir a Beaufort, anos se passaram. Lembro-me do momento em que tínhamos acabado
de provar os trajes vitorianos e os pais dele apareceram de surpresa. A primeira coisa
que pensei, assim que vi Cordelia Beaufort, foi: 'Quero ser como ela'.

Fiquei impressionada com a maneira como a sua personalidade, sem


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necessidade de fazer nem dizer nada, se apoderou de toda a sala. Apesar da expressão
dura e da presença do Mortimer Beaufort, não havia dúvida de qual dos dois tinha a
última palavra na empresa. Embora eu não tenha chegado a conhecê-la bem, sofro
com a morte da mãe de James.
E sofro com o James. Quando estive com ele, disse-me que não gostava assim tanto
da mãe, mas sei que não é verdade. Gostava dela, isso ficou bem claro quando estava
a soluçar nos meus braços.
Meu olhar se dirige para o armário. Sem pensar mais, vou até lá e abro a porta. Eu
me agacho e, no fundo, na última gaveta, escondida atrás de uma velha sacola
esportiva, vejo o moletom de James. Aquela que você me cobriu naquele dia, depois
da festa de Cyril. Eu a tiro para fora com cuidado e enterro meu rosto nela. Já mal
cheira ao sabão em pó de James, mas mesmo assim, o tecido macio desperta
memórias dentro de mim. Fecho a porta do armário e volto para a cama. Coloco o
moletom e cubro os dedos com as mangas.
Não compreendo como é possível que a raiva que sinto em relação a ele me esteja
a consumir por dentro e que, ao mesmo tempo, esteja a sofrer tanto por ele que, em
certos momentos, sou invadida pela sensação de não conseguir aguentar isso nem
mais um segundo.
Como agora.
Indecisa, pego o celular novamente e o giro entre as mãos. Quero escrever para
James, mas, ao mesmo tempo, não quero. Quero consolá-lo e, ao mesmo tempo, gritar
com ele, ou abraçá-lo e, ao mesmo tempo, bater nele.
No fim, escrevo uma curta mensagem.

Penso em ti.

Fico olhando as palavras e respiro fundo. Carrego em «enviar» e pouso o celular ao lado. Meus
olhos se detêm no despertador que está em cima da mesinha de cabeceira. Já passa da meia-noite
e ainda estou completamente desperta. Estou convencido de que, mesmo que apague a luz, não
conseguirei dormir.

Levo a mochila para a cama e pego nos apontamentos desta manhã.


Justamente quando me recosto no travesseiro e começo a ler, o celular vibra.
Abro as mensagens, sustendo a respiração.

Tenho saudades tuas.


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Eu fico com pele de galinha. Não sei o que é que esperava. Mas o que quer que
fosse, não era uma resposta como essa. Enquanto continuo olhando para aquelas três
palavras, uma nova mensagem chega.

Quero ver-te.

As palavras ficam nubladas diante dos meus olhos e, embora esteja tapada com a
manta e tenha vestida a grossa sweatshirt do James, sinto frio. Dentro de mim, debatem-
se sentimentos opostos: a nostalgia pelo James, essa raiva incrível que sinto contra ele
e, ao mesmo tempo, essa pena, como se eu também tivesse perdido alguém.

Eu adoraria escrever para você que sinto exatamente o mesmo. Que eu também sinto falta dele
e que nada me agradaria mais do que ir até a casa dele e estar ao seu lado.

Mas não pode ser. Sinto, no mais fundo do meu ser, que não estou preparada para
isso. Não depois do que aconteceu. Não depois do que ele me fez.
Simplesmente, magoou-me demasiado.
Eu tenho que fazer um esforço enorme para escrever a seguinte resposta:

Não posso.
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Rubi

O Natal é a minha festa preferida.


Adoro todas as decorações chamativas que transformam o mundo em um País das
Maravilhas. Adoro a comida deliciosa, a música, sair e comprar presentes para minha
família ou fazê-los sozinho e depois embrulhá-los com carinho. Em geral, o período anterior
ao Natal tem algo sobrenatural, como se o Papai Noel, Jack Frost ou alguém tivesse jogado
um pó mágico na Terra.
Este ano tudo é diferente.
Bem, não. Este ano é tudo como sempre. Eu é que estou diferente.
Os preparativos não me divertem minimamente, porque não faço mais nada que não seja
pensar no James. Tento distrair-me e não me lembrar dele, mas não resulta. Tudo o que
aconteceu no trimestre passado projeta-se uma e outra vez na minha cabeça, como um
filme triste, até que tenho de sair para ir dar um passeio e limpar a mente.

Há dias em que eu não sairia da cama e gostaria de poder viajar no tempo. Quero voltar
a viver em um mundo onde ninguém em Maxton Hall saiba meu nome e, menos ainda,
James. Às vezes, à noite, deito e olho para a foto em que ele está rindo ou para o convite
para a festa de Halloween que fomos juntos. Lembro da sensação dos dedos dele na minha
mão. Dos seus beijos. De sua voz suave sussurrando meu nome.

As férias vêm bem a calhar. Pelo menos, tenho a oportunidade de colocar alguma distância entre
mim e Maxton Hall. Porque, embora James só volte ao colégio no próximo trimestre, a cada
esquina que dobro e em cada sala que entro sou invadida pelo pânico de pensar que poderia
encontrá-lo lá. E você não seria capaz de resistir a isso. Ainda não.

Por sorte, minha família não tem problema em se ocupar de me distrair. Meus pais brigam
na cozinha e precisam de mim pelo menos uma vez por dia para atuar como árbitro e
decidir se os biscoitos que minha mãe fez são melhores com ou sem a especiaria exótica
que meu pai adicionou.
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Nos anos anteriores, eu costumava ficar do lado da minha mãe na maioria dos casos,
mas desta vez, descubro com surpresa que também gosto das criações do meu pai.

Durante o resto do tempo, a Ember encarrega-me de todo o tipo de tarefas.


Tiramos umas duas mil fotos para o blog dela, embora eu tenha certeza de que metade
das imagens não saiu bem, porque meus dedos estavam tremendo demais de frio.
Além disso, este ano foi ela quem decidiu os presentes para a família, algo que
geralmente é minha tarefa favorita. As ideias da Ember foram fantásticas: para meus
avós, fizemos um calendário com fotos da família; para nossa mãe, uma cesta cheia
de produtos de beleza; para nosso pai, Ember encontrou nos anúncios classificados
um novo e lindo suporte para especiarias, dos anos sessenta, cujo proprietário vendeu
por apenas dez libras, depois de pechinchar um pouco.

— Você é uma negociadora muito durona — comenta Ember quando estamos


limpando-o em nossa pequena garagem. Franzindo o nariz, ele afasta uma teia de
aranha da parte de trás das estantes. — Talvez você devesse mudar de orientação
profissional.
Estou colocando folhas de jornal no chão, então podemos começar a pintar, e
esboço um sorriso forçado.
Um sulco pequeno e pensativo forma-se entre as sobrancelhas da minha irmã
enquanto me observa.
— Não te decides a falar comigo, de uma vez por todas?
— Sobre quê? — respondo-lhe quase sem voz.
Dá uma pequena gargalhada.
— Sobre você ficar se comportando como um robô? Sobre tudo que te entristece?
Estremeço ao ouvir essas palavras. Até agora, Ember não havia se referido ao meu
comportamento, limitando-se a fingir que era normal que eu me trancasse no quarto e
que só saísse em caso de extrema necessidade, e que não dissesse uma única palavra
para ninguém. Ela não me pressionou nem me perguntou nada, e sou incrivelmente
grata a ela por isso.
Pelos vistos, o período de carência já acabou.
A Ember não sabe o que aconteceu entre mim e o James em Oxford, e menos ainda
que, depois disso, ele beijou a Elaine. Eu achava que, primeiro, devia assimilar este
assunto, antes de falar dele com alguém. Já me custou muito ultrapassar os dias no
colégio. Mas a Ember não é apenas minha irmã, também é a minha melhor amiga.
Posso confiar nela. Talvez tenha chegado o momento
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de parar de carregar sozinha este peso.


Respiro fundo.
— Dormi com o James.
Na verdade, essa não era a primeira coisa que eu queria dizer, mas já está feito.
A Ember deixa cair o espanador.
— Fizeste o quê?
Sem olhar para ela, começo a tirar as máscaras dos sacos e a prepará-las. Puxo as
fitas elásticas que se põem atrás das orelhas.
— E, um dia depois, ele se enrolou com outra garota — acrescento com a voz
quebrada. Espio por cima das tiras brancas da máscara quando Ember se aproxima
e se ajoelha ao meu lado, em cima do jornal.
— Ruby — diz-me a meia-voz. Cuidadosamente, põe-me uma mão entre as
omoplatas e sinto a minha última barreira ruir.
Ember e eu nem sempre fomos tão próximos um do outro. Nós nos tornamos mais
unidos depois do acidente de nosso pai, ao dar apoio um ao outro quando ele se
sentia mal e estava ressentido com o mundo inteiro. Apesar de entendermos, não foi
um período fácil para nós. Só conseguimos superá-lo juntas.

O que nos une desde então é algo que nunca poderei sentir com outra pessoa, e
quando ela aperta meu ombro, as palavras apenas brotam de dentro de mim. Conto
tudo para ele: o que aconteceu na festa de Halloween, o que aconteceu com o pai de
James e as expectativas que ele deposita no filho e que tanto o fazem sofrer. Falo
para ela sobre aquela tarde em que Lydia veio aqui em casa e fomos juntas para a
festa de Cyril. Conto a ele do James cheirando e se jogando na piscina. E eu te falo
da Elaine Ellington.
Enquanto conto aquilo, todo tipo de emoção vai passando pelo rosto da Ember:
pena, indignação, incredulidade, emoção e, por fim, uma raiva terrível.
Quando acabo de falar, olha para mim com os olhos muito abertos durante um minuto
e depois abraça-me e aperta-me com força entre os braços, sem dizer palavra. Pela
primeira vez desde há dias que não sinto o impulso de chorar. Em vez disso, algo
caloroso espalha-se pelo meu corpo e cobre os meus sentimentos impetuosos, agora
mais calmos.
— A verdade é que eu não sei o que devo fazer — murmuro para o ombro de
Ember. — Por um lado, me parece horrível que isso tenha acontecido com você. Mas,
por outro, nunca mais quero vê-lo novamente. Não depois do que você fez comigo.
Eu adoraria ir até ele e dizer um par de coisas, mas não posso, porque sei o quão mal
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está a passar.
Ember se afasta de mim e respira fundo. Ele tira meu cabelo do rosto e o coloca atrás da
orelha. Então ele acaricia suavemente minha cabeça com a mão quente.
— Lamento muito, Ruby.
Engulo em seco e reúno toda a coragem que me resta para dizer essas palavras: — Eu o
odeio por isso.
Os olhos verdes da Ember estão cheios de pena e de carinho.
— Eu também.
— Ao mesmo tempo, pergunto a mim mesma se devo fazê-lo.
A minha irmã abana negativamente a cabeça e franze o sobrolho.
— Você tem todo o direito de se sentir assim, Ruby. Você age como se houvesse regras
estabelecidas para situações desse tipo, mas não há. Você sente o que sente, neste
momento.

Indecisa, dou um grunhido.


— Ter dias em que você quer socar em cheio na cara dele é totalmente legítimo, sem que
você se importe como ele está se sentindo nesse momento — continua a Ember, insistentemente.
— Seus sentimentos não podem depender dos dele só porque ele está passando por uma
situação ruim.
Ele se comportou como um bastardo e acho que você pode dizer isso a ele com toda a
tranquilidade. Mais ainda, você pode dizer ao mundo inteiro.
Preciso de alguns segundos para digerir as palavras de Ember. — É
que eu tenho a sensação — começo a falar devagar — de que não muda nada, sejam quais
forem meus sentimentos. Ou me machuca o que aconteceu com a mãe dele ou ter me
enganado. É por isso que tento...
— Não sentir absolutamente nada — diz a minha irmã, terminando a frase.
É isso.

— Não me parece muito saudável, Ruby.


Fico olhando para as mãos enquanto nos sumimos em silêncio.
Depois de um grande tempo, Ember suspira.
— Não consigo acreditar que ele o tenha feito. Quer dizer, conheço a fama
que tem, mas... — Abana negativamente a cabeça.
— A sério que pensei que tinha aterrado no filme errado. Ele estava tipo... totalmente mudado. — É horrível.

— E também não entendo por que você não recorreu a mim. Poderia ter falado comigo de
qualquer assunto. Teríamos... — dou de ombros, abatida.
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Não tenho ideia do que teria feito se James tivesse recorrido a mim. Fosse como fosse,
tudo isso não teria acontecido. Tenho certeza.
— Acho que falar não era justamente o que ele queria fazer naquela noite — comenta a
Ember, em tom hesitante. — Para mim, dá mais a sensação de que você estava tentando
destruir sua vida ainda mais, sem levar em conta as perdas.
Fico com a respiração entrecortada.
— Seja como for, compreendo que estejas assim. É completamente normal
que te sintas assim. Eu também o detesto pelo que te fez.
A minha irmã torna a rodear-me com o braço e, desta vez, aperto-a contra
mim com a mesma força.
— Obrigada, Ember — murmuro.
Passado um bom bocado, afasta-se de mim e sorri-me com carinho.
— Vamos começar? — aponta para o suporte de especiarias.
Anuo, contente por não ter que continuar falando dos meus sentimentos. Colocamos as
máscaras e procuramos uma música adequada. Ember decide pelo álbum de Michael
Bublé e começamos a pintar o suporte de especiarias juntas.
— É verdade, já tenho mais de seiscentos seguidores — anuncia a minha irmã
em qualquer momento.

Dou um grito de alegria e simulo uma reverência. — És


uma craque.
— Durante as férias de verão, estou pensando em pedir trabalho para várias empresas de
roupas em Londres. — Ember não olha para mim, mas fica concentradíssima no canto superior
do suporte, que já está pintado. A máscara me impede de ver bem o rosto dela, mas tenho
bastante certeza de que ela ficou corada.

— Quer que eu te ajude com as candidaturas?


A Ember para e olha para mim.
— Achas que é boa ideia?
Assinto, animada.
— Há anos você tem certeza de querer fazer qualquer coisa relacionada a
moda. Eu diria que, quanto mais cedo começares, melhor.
Continua a pintar em silêncio.
Olho para ela, pensativa.
— Que é que se passa? — pergunto-lhe.
Ember hesita mais um bocado.
— Se pudesse escolher, faria o estágio numa empresa socialmente responsável,
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que respeitasse o meio ambiente e que, ao mesmo tempo, fizesse roupas plus size com estilo —
me explica. — Mas é dificílimo encontrar uma empresa que atenda a esses critérios. Então, por
mais que me doa, terei que enviar inscrições para todos que oferecem estágios. Contudo, pergunto
a mim mesma que sentido é que faz trabalhar numa empresa que nem sequer faz roupa do meu
tamanho, percebes o que estou a dizer?

É isso.

— Percebo, mas também é importante adquirires experiência profissional. E,


pelo menos, podes observar tudo e pensar em como o farias de outra maneira.
— Mesmo assim, me dá dor de barriga — ele me diz, com um suspiro. — Não paro de perguntar
a mim mesma se, talvez, meu instinto esteja me desaconselhando.

— Talvez, sejam só nervos. Pensa que tem muita gente que te segue. O teu
blog tem muitos leitores. Todos acreditam em você e na sua visão de futuro. — É muito legal
você dizer isso.
— Não digo para ser legal, estou falando sério. Eu acredito firmemente que em algum momento
você criará seu próprio império da moda e abrirá caminho com ele.

A Ember sorri de orelha a orelha, com uma expressão resplandecente... apesar da máscara,
vejo isso no brilho dos olhos.
— Poderíamos aproveitar as férias para fazer uma lista das empresas inglesas que devemos
considerar, ou você pensa em outra coisa? — insisto enquanto passo o pincel pela parte interna
do suporte de especiarias. — É uma ideia fantástica. Já
comecei, porque queria escrever um guia de moda ética para pessoas com curvas.

Estou prestes a responder a você que nosso acordo continua de pé quando


batem à porta lateral da garagem.
— Rubi?
Eu e Ember ficamos petrificadas. Nossa mãe não pode ver o que estamos fazendo. Ele é incapaz de
guardar um segredo e menos ainda quando se trata de um presente para nosso pai. Infelizmente,
vimos isso mais de uma vez em anos anteriores.

— Nem ouse entrar! — Ember grita para ele, horrorizada, plantando-se a toda velocidade na
frente do suporte de especiarias, para que nossa mãe não o veja se ele espiar pela porta.

— Eu não tinha a menor intenção de fazer isso. — Ouvimos a resposta abafada.


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— Ruby, tens uma visita.


Eu e a Ember trocamos um olhar desconcertado.
— Será a Lin? — pergunta-me ela.
Abano negativamente a cabeça.
— Ela vai passar o Natal na China, com a mãe, vão visitar uns parentes.
Ember fica com os olhos arregalados.
— Achas que é?... — Não diz o nome dele, mas o meu coração dá um salto.
— Quem é, mamã? — pergunto-lhe, levantando a voz.
— Importas-te de sair daí? Não tenho vontade nenhuma de ter uma conversa
contigo através da porta.
Reviro os olhos e tiro um dos elásticos de trás da orelha, para que a máscara caia para o
lado, e me sinto como um médico fazendo uma pausa no meio de uma operação importante.
Abro um pouco a porta e saio. Minha mãe olha para a máscara com as sobrancelhas
arqueadas e eu a vejo ficar na ponta dos pés para espiar pela abertura. Fecho a porta o
mais rápido possível atrás de mim.
— Quem é? — murmuro.
Num abrir e fechar de olhos, a minha mãe fica séria.
— A rapariga Beaufort.
Minha barriga se encolhe. É como se a mesma situação da tarde em que Lydia veio ver
se James estava aqui se repetisse. Não é possível que algo ruim tenha acontecido de novo.

Outra vez não. Por favor, outra vez não.


— Onde é que ela está? — pergunto-lhe.
A minha mãe aponta em direção ao corredor.
— Na sala de estar. Eu e o teu pai estamos na cozinha, caso precises de nós.
Eu balanço e tiro a máscara. Com um passo prudente, atravesso o corredor e vou para a sala
de estar. Desta vez, me armo com as sábias palavras de Ember, que ainda estão frescas em
minha memória.
Lydia está sentada em nosso velho sofá de flores, com as mãos cruzadas em cima do
colo e o olhar fixo na mesa da sala de estar. Ela usa uma blusa larga de chifom e uma saia
plissada preta. Ela usa o rabo de cavalo de sempre e não tem um único cabelo ondulado
fora de lugar — como sempre, Lydia passa a sensação de que tudo nela está em perfeita
ordem.
No entanto, o seu olhar apático indica outra coisa.
— Oi — digo a ela em voz baixa, para não assustá-la.
Lydia levanta a cabeça e me vê na entrada da porta. Esboça um sorriso
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cansado.
— Olá, Ruby.
Por um momento, não tenho certeza do que fazer, mas decido me aproximar dela e me
sentar ao lado dela no sofá. Reprimo o impulso de iniciar uma conversa fiada e perguntar como
ele está ou se está tudo bem. Em vez disso, espero.

Passado um bocado, ela engole em seco.


— Você tinha me dito que, se eu precisasse de alguma coisa, poderia recorrer a você.
Por um momento, olho para ela, perplexa, e depois anuo rapidamente.
— Claro que sim. Qualquer coisa.
Indecisa, Lydia olha para a porta da sala de estar, como se esperasse ver alguém. É provável
que eu tenha medo de que meus pais ou Ember entrem ou nos ouçam. Eu me aproximo um
pouco mais dela.
— De que é que precisas? — pergunto-lhe em voz baixa.
Lydia dá um suspiro sonoro e depois estica as costas, até ficar sentada bem ereta.

— Amanhã tenho uma consulta com a ginecologista e preciso de que alguém


me acompanhe.
Demoro alguns segundos para me dar conta do que acabou de dizer.
— Quer que eu vá com você? — pergunto a ele, atônita.
Inspira tremulamente, aperta os lábios com força e, no fim, assente. — Você é
a única que sabe.
— Passa-se alguma coisa? Estás com dores ou qualquer coisa parecida?
A Lydia abana negativamente a cabeça.
— Não, é só uma consulta de rotina. Mas não quero... ir sozinha.
Penso no esforço que deve ter tido que fazer para vir até aqui e me pedir isso.
Até este momento, não tinha tido consciência de quão sozinha a Lydia deve se sentir realmente.
Sou a única pessoa a quem pode pedir que vá com ela à consulta da médica, o que,
evidentemente, lhe provoca algum medo e a inquieta.

Eu só tenho uma resposta para o pedido dela, e expresso como se fosse a coisa
mais natural do mundo.
— Claro que vou contigo.

Uma coisa é certa: o consultório é estéril. As paredes são brancas e só tem um quadro
pendurado. Atrás da mesa, no lado esquerdo da sala, há uma ampla
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janela com as persianas corridas: do lado direito, um canto onde puseram uma cortina azul-
clara, atrás da qual é possível que Lydia tenha que se despir daqui a pouco.

Sentamos nas duas cadeiras ao lado da mesa e ficamos olhando para a Dra.
Hearst, que digita no teclado do computador em velocidade supersônica.
No começo, vir com Lydia foi meio estranho. Mas então, quando a assistente da médica
pediu que ela urinasse em um recipiente, percebemos que, a essa altura, já tínhamos
superado a vergonha.
Agora Lydia está tocando o xale quadrado sem parar de olhar de soslaio para a porta.
Talvez, você esteja fantasiando com a ideia de se levantar de um salto e fugir. Quando os
olhos dela encontram os meus, eu lhe dou um sorriso otimista. É o que tento fazer. Não sei
exatamente qual é a minha tarefa aqui, portanto, faço o que, se estivesse em uma situação
como essa, gostaria que a pessoa que me acompanha fizesse. Pelo jeito, funciona, porque
Lydia relaxa um pouco.

Quando a Dra. Hearst termina de digitar no computador, entrelaça as mãos em cima da


mesa e se inclina um pouco para frente. Tem um rosto amável, apesar do coque severo que
fez com o cabelo escuro. Tem muitas rugas minúsculas junto aos cantos dos lábios, olhos
castanhos carinhosos e uma voz agradável e serena.

— Como se sente, menina Beaufort? — pergunta.


Olho para a Lydia, que, por sua vez, olha para a médica.
De repente, solta um som histérico que deve entender-se como uma gargalhada, mas controla-
se imediatamente e pigarreia, como se nada tivesse acontecido.

— Diria que muito bem.


A médica anui, com uma expressão compreensiva.
— Na última consulta, reclamou das náuseas. Como você se sente agora?
— Estou melhor. Há uma semana que não vomito. Embora, por vezes, tenha muitas dores
quando me levanto depois de ter estado sentada durante muito tempo. É normal?

A Dra. Hearst lamenta.


— Não é algo com que deva preocupar-se. Os ligamentos dilatam-se muito
para dar espaço ao bebê. Posso te receitar magnésio para as dores.
— Está bem, perfeito — responde-lhe Lydia, aliviada.
Depois da conversa, a médica indica que ela vá para trás da cortina para se
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despir. Fico sentada na cadeira e, enquanto ela examina Lydia, olho para o quadro pendurado
atrás da mesa. Em vão, tento adivinhar o que todas essas formas e cores representam. É um
acúmulo arbitrário de amarelo, vermelho e azul, e, provavelmente, é um dos quadros mais
esquisitos que vi em toda a minha vida. Pergunto a mim mesma se não foi pintado por uma
criança.

— Está tudo em ordem — oiço a Dra. Hearst dizer. — O orifício uterino está bem fechado e,
desde que não tenha cãibras nem perdas de sangue, tudo está bem.

Lydia murmura algo que eu não entendo e se veste. Suspiro de


alívio. Já ultrapassámos esta etapa.
— Pode aproximar-se, menina Bell.
Enquanto isso, Lydia deitou na maca que fica ao lado da poltrona para tratamento e puxou a
blusa para cima. Ele está com os dedos em cima da barriga nua e vejo que já se nota claramente
a redondeza.
Respondo ao sorriso nervoso da Lydia sentando-me numa cadeira ao lado dela.
A médica empurra em nossa direção um aparelho com rodinhas que suspeito que sirva para
fazer ultrassom.
— E então, quer ver seu bebê, senhorita Beaufort?
A Lydia anui, visivelmente nervosa, e aproximo-me um pouco mais dela.
A médica espalha um gel transparente pela barriga de Lydia e pousa a sonda sobre ela.
Enfeitiçada, olho para a tela, embora a princípio não distinga nada naquele caos preto e branco.
Mas a médica desliza com segurança o aparelho pela pele de Lydia e, em um determinado
momento, a imagem muda. É cada vez mais nítida
e...

Fico sem respiração. Ao meu lado, Lydia dá um pequeno grito.


Tenho quase a certeza de que o que está do lado direito do ecrã é uma cabecinha.

— Aqui está — anuncia a médica, apontando para a imagem com o dedo.


Quando você continua movendo o aparelho, o feto fica cada vez mais nítido. Agora até se
veem uns braços e umas pernas diminutos. É tão, tão fantástico... e é de longe a coisa mais
fascinante que já vi em toda a minha vida.
— Uau — murmuro, e a médica lança-me um sorriso.
Olho para Lydia. Ele está de olhos esbugalhados enquanto observa a tela com
uma expressão incrédula.
— Um momento — diz a Dra. Hearst de repente, inclinando-se um pouco
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mais para a tela. Por um instante, aparece novamente o caos preto e branco e depois torna a
aparecer a pequena bolha.
— Está tudo bem? — pergunta a Lydia, insegura.
Ponho a mão no ombro dele. A hesitação da médica também me alarma. O bebê se mexeu, eu
o vi claramente. Você não pode nos dar uma má notícia agora ... não neste momento. Lydia não
resistiria.
— Senhorita Beaufort, posso fazer a apresentação? — Os olhos da Dra. Hearst estão brilhando.
— O bebê número dois! — Aponta para um ponto da tela. — Ele está um pouco escondido atrás
do irmão, por isso não se distingue tão bem.

A Lydia respira fundo. Olha para o monitor com uma expressão consternada quando a Dra.
Hearst usa o zoom para se aproximar da segunda bolhinha e a imagem aumenta de tamanho.
Embora eu não perceba nada, sei que está a dizer a verdade.

Gémeos.

A Lydia não vai ter um filho, vai ter dois.


Não consigo imaginar o que está passando pela sua cabeça. Dou uns tapinhas em seu ombro, um
pouco desajeitados, e tento desesperadamente dizer algo, quando, de repente, Lydia joga a cabeça
para trás e cai na gargalhada.

Eu e a médica trocamos um olhar que indica que não podemos levar a mal essa reação. É
provável que a notícia tenha sido um choque para Lydia. Depois de tudo o que teve que passar
nessas últimas semanas, não se surpreenderia que, em um determinado momento, ele perdesse o
controle.
— Isto é uma loucura — diz-me entre ofegos, passado um bocado, virando a cabeça para mim.
— É que... estou sem palavras.
A médica aperta alguns botões do aparelho e sorri, primeiro para Lydia e
depois para mim.
— São gémeos bivitelinos. Estão bem desenvolvidos e está tudo com excelente aspeto. Há
gémeos na sua família, menina Beaufort?
Lydia balança a cabeça negativamente e, ao mesmo tempo, eu assenti enquanto continua
olhando para a tela.
— Ela tem um irmão gémeo — intervenho em voz baixa, tentando afastar a imagem do irmão
dos meus pensamentos. Neste momento, na minha cabeça, nada está perdido para o James.

— Não deve ficar assustada — comenta a médica, tentando tranquilizar a


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Lydia, mas tenho a impressão de que nenhuma das palavras dela causa o
menor efeito. — Vamos vigiá-la um pouco mais e aconselho que faça um teste
de açúcar para prevenir um diabetes gestacional. Para isso, você só precisa
marcar uma consulta... — Ela continua falando sobre comida e sobre as
próximas consultas, mas, para mim, está claro que Lydia não está ouvindo.
Olho para o seu rosto pálido. Precisa urgentemente de alguma coisa que a
tranquilize um pouco. E tenho uma vaga ideia do que posso fazer para
conseguir isso.
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Rubi

Vista do lado de fora, a padaria Smith's não revela muito. Ela está localizada no
térreo de uma casa geminada, entre minha loja de segunda mão favorita e um
serviço de distribuição que, sempre que passei, estava fechado.
A fachada da padaria é pintada todos os anos, mas por causa desse clima inglês, a
tinta começa a descascar depois de algumas semanas e o prédio parece não ter
sido reformado há anos. O letreiro em letra manuscrita, de um dourado esverdeado,
está pendurado acima da grande vitrine através da qual, quando se passa, se pode
ver as delícias que ali se preparam todos os dias. De pão branco artesanal a scones
e pãezinhos, passando por pudim e bolos Bakewell, aqui há tudo o que você pode
querer.
— Sempre que estou mal, venho aqui — digo a Lydia, que olha para a entrada da
loja com ceticismo.
Subo um degrau na frente dela e seguro a porta aberta para que ela passe. Antes de
entrarmos, chega-nos, a flutuar, o bafo agradável do forno, e o aroma do pão acabado de fazer
e de canela sobe-me pelo nariz. — É meu cheiro favorito
— confesso para Lydia. — Se houvesse um perfume que cheirasse a pão quente e canela,
eu compraria todos os potes e tomaria banho nele, até nunca mais cheirar a outra coisa.

Os cantos dos lábios de Lydia se movem quase imperceptivelmente. Sempre é


uma pequena reação, a primeira desde que saímos da Dra. Hearst.
Phil, o colega da minha mãe, está atendendo um cliente quando chegamos ao
balcão. Na parede atrás das costas dele há uma série de estantes de madeira, nas
quais pães grandes e em forma são empilhados. Em cima do balcão tem umas
cestinhas com pedacinhos de pão com manteiga para os clientes provarem. Ao
passar, pego dois pedaços e, enquanto levo um à boca, estendo o outro para Lydia.

— Prove — digo a ele com a boca cheia. — O pão é verdadeiramente


maravilhoso.
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A Lydia segue as minha indicações.


A padaria é pequena e estreita. Na verdade, não é um espaço adequado para se tomar
um café calmamente, mas, mesmo assim, há duas mesas para as pessoas se sentarem.
Uma fica ao lado da porta da cozinha, onde se prepara a massa, e a outra fica tão próxima
do balcão que os clientes precisam sentar nela bem apertados quando a padaria está
meio cheia.
Aponto para o pequeno banco e a velha mesa de madeira na parte de trás da sala.
Enquanto Lydia desliza para o banco, ela dá uma olhada na padaria. Ele não parece saber
o que pensar da loja. Seu olhar quase cético me lembra da mãe dela e da maneira como
ela me examinou quando nos vimos pela primeira vez.

Afugento essa memória da mente.


— Já sabes o que queres? — pergunto-lhe.
A Lydia afasta os olhos de mim e, com a cabeça de lado, olha para os
diferentes bolos.
— Que é que me recomendas?
— O meu preferido é o Bakewell pudding.
— Nesse caso, vou comer um.
Anuo e dirijo-me para o balcão, precisamente quando a minha mãe sai da cozinha. Fica
contente por me ver e limpa as mãos ao avental que usa por cima da camisa de riscas
com o nome da padaria.
— Oi, mamãe, eu vim com Lydia — digo a ela depressa, apontando com o polegar por
cima do ombro para nossa mesa. — Ela teve um dia duro e eu pensei que um pudim de
Bakewell e um chocolate quente a animariam — murmuro, esperando que Lydia não me
escute.
— Não há nada que resista a um pudim de Bakewell e um chocolate quente — minha
mãe me responde, me lançando um olhar cúmplice.
— Obrigada, mamã.
Volto para Lydia e me sento diante dela, em uma cadeira instável. Tem
o queixo apoiado na mão.
— Há quanto tempo é que a tua mãe trabalha aqui?
— Desde que me entendo por gente. Começou assim que terminou o ensino médio.
A Lydia esboça um pequeno sorriso.
— Quando eras pequena, devia ser ótimo.
— Sempre tínhamos biscoitos — digo a ele, subindo e abaixando as
sobrancelhas.
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O sorriso de Lydia aumenta um pouquinho.


— Já sabes o que queres fazer no futuro? — pergunto-lhe passado um bocado.
Agora, o olhar dela fica mais escuro.
— Que queres que faça?
"Lydia, só porque você vai ter um bebê, isso não significa que todos os seus
planos tenham ido por água abaixo.
Baixa os olhos e percorre as irregularidades da mesa com o dedo.
— Bebês — ele murmura depois de um grande tempo.
— Quê? — digo, desconcertada.
— Meus planos não foram por água abaixo só porque vou ter bebês. No plural. — O sorriso
dela volta a aparecer, embora menor, mas não consigo evitar sorrir também.

Não sei o que é que vai acontecer, mas, por enquanto, caímos as duas na gargalhada, primeiro
timidamente e depois mais alto. Lydia cobre a boca com a mão, como se ela mesma não pudesse
entender o que está fazendo. O gesto transforma o riso dela em um bufar meio abafado e não
conseguimos evitar de continuar rindo ainda mais alto.

Justamente nesse momento, minha mãe chega com a bandeja e nos serve as xícaras
fumegantes e os dois pratos com os bolos.
— Que é que é tão divertido? — pergunta-nos.
Lydia cerra os lábios e fecha os olhos, até recuperar o controle novamente.
Depois, olha para minha mãe e diz, numa voz perfeitamente serena:
— Eu e Ruby estávamos rindo dos caprichos da vida, senhora Bell. — Ele se inclina para frente
e coloca o nariz em cima da xícara fumegante. — Isso tem um cheiro maravilhoso.

Minha mãe pisca, perplexa. Então ela levanta a mão e acaricia o braço de Lydia. Você sabe
que ela perdeu a mãe há pouco tempo e, sendo como é, gostaria de poder fazer mais por ela
do que apenas trazer um chocolate quente e um bolo para ela.

— Bom proveito.
Lydia fica olhando para minha mãe enquanto ela volta para o balcão para atender outros
clientes. A seguir, dá um suspiro, se aproxima um pouco mais da xícara de chocolate quente e
a envolve com as duas mãos.
— Sempre quis ser estilista na Beaufort — diz, respondendo à minha
pergunta.
— Você pode fazer isso... — “Apesar de tudo”, quase digo, mas me basta um
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olhar da Lydia para me fazer emudecer.


Pega na colher e mexe o chocolate quente durante uns segundos.
— Antigamente, eu não conseguia imaginar nada mais bonito do que contribuir para a
Beaufort com minha criatividade, mas meus pais eram da opinião de que minhas ideias
eram muito modernas e não tradicionais o suficiente — continua. — Sempre tive discussões
com eles, porque queria desempenhar uma função mais importante do que a que eles
planejaram para mim. Ao contrário de James, eu gostaria de assumir a responsabilidade
pela empresa, mas meus pais sempre pensaram apenas nele. Foi uma coisa que eles
decidiram desde que nascemos. O que queremos não importa. — Ele tira a colher da xícara
e a coloca na boca, dando um suspiro de prazer.

— Detesto que tenham sido submetidos a essa pressão. E que ainda estejam. Imagino
que seja muito difícil — murmuro, antes de me dedicar ao meu próprio chocolate. Sabe-me
maravilhosamente bem que esteja quente e, aos poucos, meus dedos vão descongelando.

Lydia parece tão triste e desesperada que adoraria abraçá-la.


— Quando se olha de fora para a nossa família, dá a impressão de que os nossos pais
gostam de nós acima de tudo e só desejam o melhor para nós.
Desejavam. Tanto faz. — Pigarreia. — Não posso reclamar por ter crescido assim. Não
seria justo. Não sei o que James te contou, mas ... há certas coisas que deram errado e
que você não pode remediar. É inevitável que eu me pergunte
se ela está se referindo ao pai. E se este apenas bate no James quando algo o desagrada
ou se também o faz com ela. Se for esse o caso, isso me preocupa ainda mais.

— Você só me contou algumas coisas — respondo-lhe com uma evasiva.


Embora eu saiba que Lydia conhece James muito melhor do que qualquer outra pessoa
no mundo, não quero falar sobre o que ele me contou. Nem mesmo depois de tudo o que
aconteceu eu conseguiria traí-lo dessa maneira.
— Por falar nisso, o James está melhor. Depois do funeral, deixou de beber.
Em vez disso, agora treina como um possesso.
Lembro-me do olhar vazio dos olhos dele. Das suas lágrimas. Da maneira
como se agarrou a mim. Dos machucados e dos arranhões na mão.
— E o que aconteceu entre ele e o vosso pai? — pergunto-lhe com cuidado.
— Sabes que andaram à pancada?
Faço um gesto afirmativo.
— O nosso pai faz de conta que nada aconteceu. Podia dizer-se que nunca está
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em casa e, quando está, chama James ao escritório para prepará-lo para as reuniões do
conselho de Beaufort.
Por um lado, fico contente por a relação entre o James e o pai não ter piorado, mas, por
outro, sei o que o James sente em relação à empresa e o peso que deve ser para ele trabalhar
na Beaufort. Estar a acontecer antes do que eu esperava faz-me sentir pena dele.

— Talvez vocês possam ultrapassar o que aconteceu, Ruby.


Olho para os olhos azul-turquesa da Lydia. Uns olhos que são exatamente iguais aos do
James.
Abano negativamente a cabeça, cansada.
— Duvido. Para ser sincero, também não tenho vontade de que isso aconteça. É a primeira
vez que digo isso, mas é verdade. Não acho que o que eu e James passamos possa se
resolver em algum momento. E também não quero.
Principalmente quando penso em tudo que poderia colocar em risco meu futuro. É como se
uma sombra se projetasse sobre meus sonhos, apenas porque eu os confiei a James e, então,
ele me traiu.
— Poderiam tentar — sugere carinhosamente a Lydia, mas volto a fazer um
gesto negativo.
— Entendo que a morte de sua mãe o desestabilizou, mas... — dou de ombros com
impotência. — Isso não muda nada. Eu o odeio pelo que ele fez.

— No entanto, estiveste presente quando ele precisou de ti. Isso significa


alguma coisa, não achas?
Mexo o chocolate quente e respiro fundo.
— Ainda sinto qualquer coisa por ele, sim. Mas, ao mesmo tempo, nunca estive tão furiosa
com alguém. E não acho que esta raiva que sinto vá desaparecer como se nada fosse.

Ficamos em silêncio. Agora, o barulho do forno me parece mais estridente do que há alguns
minutos, assim como a campainha da porta anunciando a entrada e saída dos clientes.

— Acha que eu deveria ter ido ao médico sozinha? — Lydia me pergunta de repente.

Levanto bruscamente a cabeça.


— Não!
As maçãs do rosto da Lydia ficam coradas e, subitamente, parece quase tímida.
Pergunto a mim mesma o que é que lhe estará a passar pela cabeça neste
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momento.
— Se soubesse como estás, não teria aceitado a tua oferta. Eu...
— Lydia — interrompo-a suavemente, pegando sua mão por cima da mesa. Ela
abre muito os olhos e os fixa em nossos dedos entrelaçados. — Falei sério. Quero
te apoiar. Nossa amizade não tem nada a ver com James.
Entender?
Lydia torna a olhar para mim e penso ver um brilho revelador nos olhos dela. Ele
não responde às minhas palavras, mas aperta minha mão brevemente. E isso é
mais do que suficiente.
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James

Por mais de uma hora, os sons ásperos da guitarra do Rage Against The Machine soam
em meus ouvidos e sinto como se estivesse com o corpo inteiro em chamas. Mas isso não
é suficiente.
Estou na frente do aparelho de cargas guiadas e agarro a barra curta que está presa
acima dos mosquetões. Encosto os cotovelos no corpo, levanto os antebraços e os estendo
para baixo, repetindo os movimentos uma e outra vez. O suor escorre da minha testa para
a camiseta e tenho os músculos dos braços tremendo, mas é indiferente para mim.
Continuo. Há de chegar o momento em que vou ficar tão exausto que, na minha cabeça,
só ouvirei um zumbido forte e sem significado, e os pensamentos sobre a Beaufort, a minha
mãe ou a Ruby calar-se-ão. Depois de passar pela máquina para exercitar os braços, sento-
me no banco de outro aparelho. Pego a barra e lentamente a empurro para frente. Quando
a puxo de volta para o lugar, sinto um esticão nos músculos peitorais.

Só agora percebo que a porta da sala de fitness se abriu e que tenho Lydia na minha
frente, de braços cruzados. Minha irmã abaixa os olhos para mim e me diz algo, mas não
consigo ouvi-la acima do estrondo que soa em meus ouvidos. Impávido, continuo o
exercício, mas ela se inclina sobre mim e, conseqüentemente, não tenho escolha a não ser
olhar para ela.
Suavemente, os lábios dela formam uma palavra que não preciso de ouvir para entender.

«Idiota.»
Pergunto a mim mesmo o que é que terei feito desta vez. Desde o enterro, mal saí de
casa e não voltei a beber nem uma gota de álcool. O que foi difícil, principalmente nos
momentos em que eu não conseguia parar de dar voltas em pensamentos negativos, mas
aguentei e também fiz isso por Lydia, cujo corpo trêmulo no funeral de nossa mãe me fez
lembrar que é meu dever como irmão cuidar dela. Então, não consigo entender por que ele
está na minha frente, com as maçãs do rosto vermelhas e uma expressão séria. Embora
tenha que
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admitir que vê-la abrir e fechar a boca, com a música no volume máximo em meus ouvidos,
resulta em uma imagem muito divertida. Quase parece um playback.

De repente, Lydia avança um passo e tira um dos meus fones de ouvido da minha orelha.
- James!
— Que se passa? — pergunto-lhe, tirando o outro.
Este silêncio repentino tem algo ameaçador. Ultimamente, preciso de me
rodear de barulho para não pensar.
— Queria falar contigo sobre a Ruby.
Afasto as mãos das barras e pego na toalha. Uso-a para secar o rosto e passo-a
pelo pescoço, onde o suor se acumulou. Evito olhar para Lydia.
— Não sei, o quê?...
— Vá lá, James.
Sinto-me como se usasse uma gravata demasiado apertada que me estivesse a estrangular.
Pigarreio.
— Não tenho vontade nenhuma de falar desse assunto.
A Lydia observa-me, abanando negativamente a cabeça. Os cantos dos lábios dela curvam-
se para baixo e tem os braços cruzados sobre o peito. Nesse instante, recorda-me tanto a
nossa mãe que tenho de afastar os olhos dela.
Eu os abaixo na toalha e seco as mãos com ela, apesar de já estarem secas.
— Gostava tanto de vos ajudar... aos dois.
Diante disso, só posso dar uma risada amarga.
— Não somos dois, Lydia. E nunca o fomos. Estraguei tudo.
— Se você explicar... — Lydia começa a dizer, mas eu a interrompo.
— Ela não quer ouvir as minhas explicações, e não a posso censurar.
A Lydia suspira.
— Acho que, apesar de tudo, vocês ainda têm uma chance. Gostava que a aproveitasses,
em vez de te entrincheirares aqui a sentir pena de ti
mesmo.
Lembro da mensagem da Ruby.
«Não posso.»
Claro que não pode. Beijei outra garota e isso é imperdoável. Perdi Ruby para sempre. E,
agora, Lydia aparecer e tentar me convencer do contrário me mata. Queria desligar e pensar
em outras coisas, mas não é mais possível.
Pesadamente, mas com firmeza, a raiva torna a invadir o meu corpo. Raiva pela morte da
nossa mãe, raiva pelo meu pai, raiva por mim mesmo e pelo mundo
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inteiro.
— Que é que isso te interessa? — pergunto-lhe. Os meus dedos crispam-se
sobre o tecido turco da toalha.
— Vocês são importantes para mim. Não vos quero ver sofrer, porra. É assim
tão difícil de entender?
— A Ruby não quer voltar para mim e não tenho intenção de a massacrar. E
tu também não deverias fazê-lo.
Eu me levanto e me disponho a ir para as esteiras de corrida que ficam perto da grande
janela panorâmica da qual se vê a parte de trás da nossa propriedade, mas não chego
muito longe — Lydia me para, pegando no meu cotovelo . Dou meia-volta e lhe dou um
olhar furioso.
— Não olhe assim para mim. Já é hora de você voltar a ser você mesmo — resmunga. Depois,
ele crava o indicador no meu peito. — Você não pode afastar tudo e todos de você.

— Não te afasto de mim — resmungo entre dentes.


- James...
Tento invocar a máscara de inacessibilidade que, na faculdade e nas reuniões públicas
com minha família, sempre foi meu segundo rosto. Contudo, quem está na minha frente é
Lydia. Nunca tive que esconder nada dele e, por isso, não consigo fazer isso. Frustrado,
jogo a toalha.
— O que você quer que eu te diga, Lydia? — pergunto a ele, já sem forças.
— Que nós vamos resistir juntos. — Ele engole em seco e acaricia meu braço com carinho. —
Mas se você não for capaz de se abrir comigo e se retrair, não vai dar certo.

Bufo desdenhosamente.
— Como se você me contasse tudo. Como se, dos dois, fosse você a que é aberta.
Sempre tive que tirar suas informações de saca-rolhas. Soube da sua relação com o Sutton
porque te pegaram. — Afasto a mão dela e a olho com frieza. — Só porque mamãe morreu,
não significa que nós devemos conspirar contra o resto do mundo. Não nos transforme em
algo que nunca fomos, Lydia.
A minha irmã estremece e cambaleia para trás. Sem me dignar a olhar para ela nem mais
uma vez, dou meia-volta e ponho novamente os auriculares enquanto caminho. Se a Lydia
me disse alguma coisa, não a ouvi. O estridente rif da guitarra abafa qualquer realidade
desagradável do meu mundo.
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Rubi

A memória de James está tão presente, mesmo depois de uma semana sem ter notícias
dele, que tenho a sensação de que tudo aconteceu ontem. Durmo mal.
Eu apago as fotos dele do laptop, apenas para recuperá-las um dia depois e passar os
dedos pela boca sorridente de James, como se eu fosse uma psicopata. Ao mesmo
tempo, me sinto uma mentirosa, porque disse a Lydia que não quero vê-lo novamente,
embora seja evidente que meu corpo tem outra opinião.
Tenho saudades do James.
É absurdo.
Absurdo e louco.
E tenho vontade de me esbofetear por isso. Ele partiu-me o coração, porra.
Definitivamente, não devia ter saudades de alguém que fez uma coisa destas.
O Natal passa, e, pela primeira vez na vida, não curto as férias. Os filmes que vemos
me parecem carentes de originalidade e as músicas que ouvimos soam todas iguais
para mim. Embora eu saiba que meus pais se esforçam muito na cozinha, a comida não
tem gosto de nada para mim. E, para piorar, meus parentes não param de me perguntar
por que estou tão abatido e se isso tem algo a ver com o cara que me deu aquela linda
carteira no meu aniversário. Chega um momento que não aguento mais e me tranco
sozinha no quarto.

Quando a véspera de Ano Novo já está ao virar da esquina, decido que não posso continuar
assim por mais um minuto. Estou farta de me sentir assim.
Sempre fui uma pessoa positiva, que gosta de novos começos. Recuso-me a deixar
James arrebatar essa atitude de mim.
Portanto, pulo no chuveiro sem mais hesitações, coloco minha roupa favorita — uma
saia quadrada justa e uma blusa larga de cor creme —, pego minha nova agenda e
desço a escada, firmemente decidida a comunicar a Ember e meus pais minhas
resoluções para o novo ano.
No entanto, quando entro na sala de estar, paro, atordoada.
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— Que estão aqui a fazer? — pergunto surpreendida.


Sobressaltada, Ember corre até mim e Lin, que está colocando pequenas sombrinhas
coloridas nos copos, faz o mesmo. Lydia também interrompe imediatamente o que está
fazendo, embora a serpentina em sua mão se solte e se desenrole sozinha. Em silêncio,
ficamos vendo ela acabar no chão, num montículo pequeno e triste.

Nesse momento, a minha irmã planta-se à minha frente.


— Como é possível que, justamente agora, você decida sair da sua casca de caracol? —
ela me pergunta, alterada. — Eu decoro a hora exata em que você sai do quarto e, justamente
hoje, quando estou planejando uma festa-surpresa de garotas, você desce antes. É só que...
porra, Ruby!
Olho para as três, uma a uma. Depois, lentamente, um sorriso aparece nos
meus lábios.
— Vamos comemorar a passagem de ano juntas? — pergunto com cautela.
A Lin devolve-me o sorriso.
— Era esse o plano.
Quando assimilo a informação, abraço Ember com força.
— Obrigada — murmuro contra o ombro dela. — Acho que é precisamente disto que preciso
neste momento. — E a minha irmã saber isso mostra-me, uma vez mais, que me conhece
melhor do que qualquer outra pessoa no mundo.
— Pensava que, com a festa, podia fazer-te um pouco feliz — murmura a
minha irmã, acariciando-me as costas.
Anuo. É a primeira vez, desde o que aconteceu com o James, que sinto verdadeira alegria.

— Obrigada — digo também para Lin e Lydia, e então as aperto


contra mim. — Estou muito contente.
A seguir, eu as ajudo a jogar o resto das serpentinas e espalhar os confetes de cor dourado-avermelhada. A

Ember conecta ao laptop os velhíssimos alto-falantes que compramos em um mercado de rua e, enquanto procura

uma playlist adequada, me conta seu plano para esta noite. É evidente que ela se esforçou e que planejou tudo nos

mínimos detalhes, então sinto vontade de me jogar de volta nos braços dela. Mas me contenho e, em vez disso,

ouço com atenção sentada no sofá.

— Achei que, primeiro, poderíamos escrever em um papel os eventos mais bonitos do ano
e compartilhá-los. Depois, podemos assistir a um filme (já vamos decidir qual) e devorar essa
montanha de pipoca. — Aponta para uma taça
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enorme que está na mesa da sala de estar. Nosso pai costuma usá-la para a salada em camadas
que ele faz para grandes reuniões familiares. Agora está cheia até cima de pipoca, cujo cheiro
doce de manteiga inunda toda a sala e me deixa com água na boca. — Depois, vamos comer o
prato principal — continua Ember. — Papai fez uma quiche. Também há sobremesa e, mais
tarde, chegaremos ao que acho que é a parte favorita de Ruby.

A Lin levanta um saco meio transparente em que consigo ver uns pequenos cadernos e alguns
marcadores.
Nem sequer finjo que estou a pensar.
— Vamos escrever as nossas resoluções para o ano que vem — digo.
A Ember anui, sorrindo. —
À meia-noite, ou estaremos em coma de tanto comer ou sairemos para dançar.

— Uma coisa ou outra, com certeza — diz Lydia, pegando um punhado de pipoca. Ele coloca
uma na boca e um pequeno sorriso aparece em seus lábios. — Parece um bom plano, Ruby?

— Bom? É o melhor que ouvi desde há muito tempo. Obrigada, meninas.


Depois, nos instalamos comodamente no chão, em volta da mesa baixa da sala de estar. Lin
trouxe algumas folhas grandes de papel, daquelas que costumamos usar para nossos
brainstormings do comitê de eventos e que ela tirou do colégio às escondidas. Nós os esticamos
na nossa frente enquanto, ao fundo, toca uma lista de músicas do Keaton Henson.

— Muito bem — começa a Ember. — Um dos meus eventos memoráveis este ano foi o
trabalho no meu blog e ter conseguido tantos seguidores. — Você escreve tudo na sua folha de
papel.
— Para mim, um dos melhores foi quando a galeria da minha mãe finalmente parou de dar
prejuízo. Por enquanto, tudo está indo bem de verdade e espero que, no ano que vem, continue
igual — diz Lin, que não olha para nós, mas para o marcador que tem na mão. Surpreende-me
que você tenha compartilhado algo tão privado conosco.

Ela e a Lydia não se conhecem muito bem e eu entenderia se achassem que esta situação é
incómoda para elas. No entanto, não parece ser o caso, o que me alegra imenso.

— Eu já estive na sua galeria — Lydia comenta de repente. — Com minha mãe.

A Lin olha para ela, surpreendida.


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— A sério?
Lydia assente. —
Você é realmente linda e tem muito estilo. Vou cruzar os dedos para que, no próximo
ano, tudo corra ainda melhor para vocês. Eu sei o quão difícil pode ser começar do
zero.
Trocam as duas um sorriso e, então, Lydia pigarreia.
— Em janeiro, fiz uma pequena excursão aos Alpes com a minha mãe.
Estivemos em um spa e nos divertimos muito... nós dois sozinhos. Era uma coisa que
não fazíamos há séculos. Acho que é minha memória mais bonita disso
de novo.

— Parece maravilhosa, sem dúvida — comento a meia-voz, ao mesmo tempo em que


coloco a mão em seu joelho. Não sei o que dizer, mas quero mostrar que aprecio sua
franqueza.
— E tu, Ruby? — pergunta-me a Lin.
Por momentos, a minha cabeça fica totalmente em branco e não me ocorre nada para
escrever na folha de papel. Passo revista a cada um dos meses do ano e confirmo quão
bonito foi, em geral. Embora a questão do James me tenha deixado triste, desde
setembro aconteceram muitas coisas pelas quais me devo sentir grata.

Sou diretora do comitê de eventos, tirei notas excelentes no colégio e me chamaram


para a entrevista em Oxford. Conheci melhor a Lin, estou mais próxima da Ember e até
ganhei uma nova amiga. E, pela primeira vez na vida, me apaixonei.

Independentemente de quão mal meu relacionamento com James terminou, quando


penso em nossas conversas, no que conversamos ao telefone e nas memórias que
temos em comum, não me arrependo de nada. Pelo contrário, essa experiência também
se conta entre os melhores acontecimentos do meu ano. Mesmo que, agora, tudo tenha
acabado.
Engulo em seco e olho para o papel em branco que está à minha frente em
cima da mesa.
— Não sei por onde começar, mas acho que a visita a Oxford foi o mais bonito. Passei
tanto tempo sonhando em passear na universidade, mesmo que fosse só uma vez, com
minha família... E estar lá... sempre vou lembrar disso — falo, emocionada e dando um
sorriso forçado.
— Foi como estar em um conto de fadas — acrescenta a Ember.
Anuo, desenho um pequeno círculo e escrevo: «Excursão a Oxford.»
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Então o gelo parece ter se quebrado. Contamos umas às outras os acontecimentos


mais insignificantes e mais estranhos que lembramos deste ano.
Por exemplo, Lin ganhou um buquê de flores porque ela era a milésima cliente de
um supermercado, e uma velhinha deu a Lydia uma libra para ela comprar um
deleite.
Em dado momento, me dou conta de que o ambiente deixou de ter o abatimento
inicial. Em vez disso, rimos juntos e parece que nós quatro poderíamos passar uma
eternidade assim. Por volta das oito, meus pais se despedem de nós porque vão
para a casa de alguns amigos. Vejo o quão aliviados vocês se sentem ao ver que,
finalmente, saí do meu quarto para comemorar esta noite e que vou passá-la com
minhas amigas.
Depois, assistimos ao filme Como Ser Solteira. Ember queria que demos a ela
como presente de Natal, porque ela adora Rebel Wilson e, duas horas depois,
quando os créditos começam, entendo por quê. Até Lydia riu de algumas cenas,
apesar de dar a impressão de que nem ela mesma podia acreditar que estava
fazendo aquele som.
Antes de os créditos terminarem, atacamos a quiche do meu pai.
— Você tem imensa sorte, Ruby. — Lin segura um garfo carregado de quiche diante do rosto e o
analisa atentamente. — Sua mãe trabalha em uma padaria e seu pai é cozinheiro. Se eu fosse
você, estaria no sétimo céu. Sinto falta da nossa cozinheira.

— Eles tinham uma cozinheira? — pergunta-lhe a Ember, de olhos esbugalhados.


— Sim — responde-lhe a Lin, encolhendo os ombros, como se fosse a coisa mais
natural do mundo. — Mas aí tudo mudou lá em casa e eu tive que aprender o básico.
As artes culinárias da minha mãe também estavam um pouco enferrujadas, mas
mesmo assim, ela me ensinou muitas receitas chinesas deliciosas que aprendeu
com a avó. Agora nos divertimos muito cozinhando juntas.
Dou uma pequena dentada na quiche e deixo-a desfazer-se na minha língua.
— A única coisa que sei fazer são ovos mexidos — admite para Lydia, pensativa.
— Deve ter sido uma mudança enorme para vocês.
Por instantes, Lin parece surpresa com as palavras de Lydia, mas depois dá um
pequeno sorriso.
— Aprendi a não continuar olhando para trás, mas apenas para frente. — Ele
pousa o garfo no prato vazio e pega com os dedos as últimas migalhas do prato.
Depois, pega um dos sacos e o levanta. — E é justamente isso que deveríamos
fazer agora. São quase dez horas.
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— Oh, que bonitos — digo, quando a Lin distribui os caderninhos entre nós.
São sóbrios e têm uma capa preta com uns detalhes finos de cor dourada, folhas de um
branco-creme e duas fitas para marcar as páginas. É precisamente do que mais gosto.

— Esta será a minha primeira agenda — comenta a Lydia, olhando primeiro para o caderno
e depois para nós, um pouco desorientada. — Que é que devo fazer?

Ember empilha os pratos vazios e os move para o lado, e então coloca o


notebook no meio da mesa da sala, para todas podermos ver a tela.
— É facílimo — diz. — Todos os anos, na véspera do Ano Novo, escrevemos nossas
resoluções. — Ele abre o caderno e aponta para a primeira página. — Para isso, a primeira
coisa que precisamos fazer é escrever o título.
Procuramos na Internet letras que gostamos e tentamos copiá-las ou nos guiar por elas. Na
maior parte do tempo trabalhamos em silêncio e os únicos sons que você ouve são o roçar de
nossos marcadores no papel e a música de fundo.

Contudo, enquanto me ocupo dos últimos pormenores do meu título e desenho um círculo
a cinzento-claro em volta do número do próximo ano, subitamente fico triste. No ano que vem,
neste horário, tudo será diferente.
Daqui a sete meses (espero), terei o diploma do Maxton Hall College no bolso. E então irei
estudar (espero) em Oxford. Terei novos professores e novos colegas. Um quarto em uma
residência estudantil, um ambiente novo e novos amigos.

Uma vida nova e emocionante.


Uma vida sem o James Beaufort.
A ideia surge de repente e me machuca mais do que eu teria achado possível, mas trato de
afastá-la. Pego um marcador e começo a escrever:

Resoluções:

• Conseguir o diploma do colégio.

• Universidade de Oxford.

• Manter contato estreito com a mãe, o pai e Ember.

• Fazer, pelo menos, uma nova amiga/um novo amigo.


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• Não dar tanta importância ao que as outras pessoas pensarão sobre mim.

No entanto, quando tomo nota de cada ponto, me dou conta de que isto não está bem. Esta
lista não é sincera o suficiente e, se eu pensar nisso com calma, sei por quê.

No ano passado, me apaixonei pela primeira vez e eles partiram meu coração da maneira
mais miserável. Uma coisa dessas não se apaga assim com tanta facilidade. Ainda vou precisar
de muito tempo para assimilar isso. A verdade é que os males de amor não desaparecem só
porque chega um novo ano.
Até agora, eu não queria ver James. Tinha esperança de conseguir esquecê-lo, mas me dou
conta de que não posso escrever minhas resoluções enquanto não tiver esclarecido este assunto
entre nós. Há muitas coisas que quero dizer a você. E acho que, até que eu faça isso, não
poderei começar um novo ano.
Não poderei começar se o James continuar a ocupar um lugar tão grande nos meus
pensamentos, coração e vida.
— Ruby? — A voz da Lin soa-me aos ouvidos como se viesse de longe.
Olho para ela e tomo uma decisão.
Contudo, antes de a pôr em prática, vou comemorar o Ano Novo com as
minhas amigas.

James

Na minha casa, a véspera de Ano Novo costuma ser um sucesso. Nos anos anteriores, alugávamos
uma villa à beira de um lago ou dávamos uma festa em Londres, em um estabelecimento que
tínhamos reservado com meses de antecedência. Bebíamos até de madrugada e esquecíamos
tudo ao nosso redor.

Este ano, vou passar a véspera de Ano Novo sozinho em casa.


Onde está meu pai? Não faço ideia. Nossos funcionários têm folga hoje à tarde e Lydia está
na casa de uma amiga. Não me disse de qual. Desde que discutimos, há alguns dias, ele me
ignora e só me dirige a palavra quando tem que fazê-lo.

Wren tentou falar comigo várias vezes, para sair também este ano com ele e os meninos, mas
não conseguiu me convencer. Só de me imaginar sentado numa boate londrina, tomando
champanhe e com a música martelando nos meus
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ouvidos, fico com os pelos da nuca em pé. Não posso continuar agindo como até agora.
Não desde que minha vida deu uma guinada de cento e oitenta graus nesses últimos três
meses. Não quando, por dentro, estou totalmente diferente do que era.

Passo a noite assistindo documentários no laptop, sobre animais selvagens na savana


do Quênia, e comendo batatas fritas e kebab de uma caixa de papelão do serviço de take-
away. Às vezes, consigo ficar distraído por cinco minutos seguidos, mas passo a maior
parte do tempo pensando em Ruby.
Nas últimas semanas, percebi que é extremamente frustrante que não tenhamos reunido
lembranças suficientes em comum. Não há fotografias dos dois, nem nada que possa
evocar o que vivemos juntos. A única coisa que sobrou foi a bolsa que dei de aniversário
para ela. Ele continua ao lado da minha mesa e zomba de mim todos os dias. Não consigo
contar quantas vezes a peguei e a virei do avesso, para ver se Ruby havia esquecido
alguma coisa lá dentro. Uma nota ou um objeto que me indicasse que você realmente a
usou e que ficou feliz por tê-la.

Tenho a sensação de que minhas memórias começam a desaparecer. O roçar da pele


de Ruby contra a minha, nossas conversas, o riso dela. Essas impressões se tornam cada
vez mais indistintas e inacessíveis, mesmo as do dia em que ela esteve aqui para me
consolar. A única coisa que me lembro claramente, e que não para de dar voltas na minha
cabeça, é a expressão dela quando me viu com Elaine. Nunca a esquecerei. E também
não esquecerei o que isso causou em mim, apesar do álcool e das drogas. O que me
provocou naquele momento e em todos os dias que se seguiram.

Na verdade, meu plano era começar o Ano Novo dormindo, mas já passa da uma da
manhã e, a cada minuto, estou mais acordado. Sem pensar duas vezes, decido ir para a
sala de fitness novamente. Pode ser que uma hora na esteira de corrida não apenas me
canse fisicamente, mas também acalme minha mente de uma vez por todas.

Visto a roupa esportiva e o tênis de corrida e pego o iPhone, que está pousado desde
esta tarde em cima da mesa, sem lhe dar a menor atenção. Os fones de ouvido ainda
estão conectados e, como sempre, antes de usá-los, tenho que desenredá-los. Justamente
quando vou colocá-los, ouço alguém avançar pelo corredor.

Deve ser a Lydia a voltar para casa.


Abro a porta para lhe desejar um feliz Ano Novo e fico estarrecido.
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A minha irmã não está sozinha no corredor.


Esfrego os olhos, porque acho que estou a sonhar... mas não.
Quando torno a baixar a mão, continuo a ver duas pessoas.
A Ruby está no nosso corredor.
Debaixo do braço, há uma trouxa azul-escura. Não preciso pensar muito para entender
do que se trata. É meu moletom. Aquela que eu coloquei nele depois da festa do Cyril.
Aquela que eu não senti falta no meu armário porque me agradava saber que estava
com Ruby.
Ruby fala em voz baixa com minha irmã, que anui. Lydia olha para mim por um instante,
mas depois afasta os olhos e se enfia no quarto dela.
Adoro saber que assustei tanto a minha irmã que nem sequer é capaz de me desejar
feliz Ano Novo.
— Podemos conversar? — pergunta-me a Ruby.
Estou consternado. Faz tanto tempo que não a vejo ou ouço... e agora ela está a apenas três
metros de mim. Meu coração começa a bater descompassado por ela estar tão perto e eu
adoraria cobrir a distância que nos separa e apertá-la entre os braços. Contudo, limito-me a
assentir, dou meia-volta e torno a entrar no quarto. Ruby me segue, hesitante. Acendo a luz e
suspiro. O interior já viu dias melhores. As calças do pijama xadrez que acabei de tirar estão no
meio do chão, há revistas espalhadas por toda parte, a cama está por fazer e é possível que
cheire a pratos gordurosos de comida pronta.

Além disso, a bolsa de Ruby está totalmente à vista, em cima da mesa.


A Ruby olha em volta e parece indecisa. No fim, senta-se no sofá mais
pequeno. Tem a sweatshirt no colo.
Porque é que, de repente, está tanto calor no quarto?
Acho que preciso urgentemente de beber água.
— Queres beber alguma coisa? — pergunto-lhe.
— Não, obrigada.
Sirvo-me de água, mas, quando vou levantar o copo, vejo que tenho a mão a
tremer e pouso-o na secretária, dirigindo os olhos para a Ruby.
Não me diz nada.
— Tiveram uma boa noite? — pergunto-lhe passados uns minutos, tentando
desesperadamente quebrar o silêncio que se instalou entre nós.
Ruby levanta as sobrancelhas.
— Sim — limita-se a responder.
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Mais nada.
Nunca tinha sido tão difícil para mim escolher as palavras adequadas como neste momento.
É como se eu tivesse esquecido como construir frases sensatas. Depois de tanto pensar em
tudo que eu gostaria de contar para Ruby, agora, na minha cabeça, só tem um buraco negro
que vai ficando cada vez maior enquanto nós dois continuamos sentados em frente um do
outro, calados. A única coisa que posso fazer é olhar para Ruby. O desejo de sentar ao lado
dela é avassalador, mas luto contra ele e aproximo do sofá a cadeira da escrivaninha, para
ficar de frente para ela e para que possamos nos ver bem.

— Escrevemos nossas resoluções para este ano — Ruby me diz a dado


momento.

Espero que continue a falar.


— Quando o fizemos, dei-me conta de que há entre nós muitas coisas que não estão
resolvidas. Portanto, não posso começar o Ano Novo com uma boa sensação.

Fico com a pulsação acelerada. Não estava preparado para isto. Tenho de pigarrear.

— Está bem.
Ruby olha para o moletom em seu colo. Ele acaricia o tecido com a mão, com uma
expressão ensimesmada. Depois, pega ela e põe em cima da mesinha redonda que está entre
nós.
Levanta os olhos, e nossos olhares se encontram. Reconheço todas as emoções que
surgem nos olhos dela: tristeza, dor. E uma fagulha de indignação que aumenta sempre que
você me vê.
— Estou tão incrivelmente decepcionada com você, James — murmura de
repente.
O peito encolhe-se-me de dor.
— Eu sei — murmuro.
Ela abana negativamente a cabeça.
— Não, não sabes o que se sente. Partiste-me o maldito coração. E detesto-te
por causa disso.
— Eu sei — repito em voz baixa.
A Ruby respira fundo.
— Mas também gosto de ti, e isso dificulta tudo muito mais.
— Eu... — Depois de alguns segundos, me dou conta do que acabou de dizer.
Fico a olhar para ela, mudo.
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Mas Ruby continua falando, como se não tivesse dito nada importante.
— Não acho que o que tínhamos fosse resultar, nunca. Foi bonito, embora
tenhamos passado muito pouco tempo juntos, mas agora tenho de...
— Gostas de mim? — murmuro.
A Ruby estremece. Depois, endireita as costas.
— Isso não muda nada. A maneira como me trataste... beijaste outra um dia
depois de termos dormido juntos.
— Sinto muito, Ruby — insisto, mas sei que palavras não são suficientes.
— E também não muda o meu propósito de começar o ano sem ti — continua.

A dor que aquela frase me causa me impede de respirar. Conheço Ruby.


Quando estabelece um objetivo, persegue-o e não deixa que ninguém a desvie do
seu caminho. Veio aqui para pôr um ponto final.
— Nunca mais tornará a acontecer... nunca mais voltarei a fazer uma coisa
dessas — digo-lhe, entre soluços.
— Espero que seja assim com a tua próxima namorada.
Sinto que o pânico se apodera de mim.
— Não vai haver outra, porra!
A Ruby abana negativamente a cabeça.
— Seja como for, a nossa relação nunca correu bem, James. Sejamos sinceros.
— Porque é que dizes isso? — Tenho a voz a tremer de desespero. — Claro que
teria corrido bem.
Ruby se levanta e, com as mãos, alisa a saia xadrez várias vezes.
— Tenho de voltar para casa, os meus pais estão à minha espera. — Dirige-se
para a porta, e saber que não posso detê-la quase me mata.
Olho para ela, incapaz de me mexer. Este momento parece uma despedida
definitiva e não estou preparado para isso.
— Preciso de uma rutura clara. Consegues compreender isso? — pergunta-me,
e, com a mão na maçaneta da porta, lança-me um olhar por cima do ombro.
Assinto, apesar de todo o meu corpo gritar o contrário.
— Sim, compreendo.
Ruby já me deu tantas oportunidades... Eu sei que não tenho o direito de lhe
pedir mais uma.
— Desejo-te... desejo-te um feliz Ano Novo, James. — Nos olhos dela
reflete-se a mesma dor que paralisa o meu corpo.
— Ruby, por favor... — consigo dizer.
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Mas ela abre a porta e sai.


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10

Lídia

Na segunda-feira depois das férias de Natal, eu e James temos que voltar para o colégio. Nosso
pai nos conta que, depois de quase um mês, chegou a hora de voltar ao cotidiano. Mas nossa
situação em casa não tem nada de cotidiano. Sem nossa mãe, que antes servia de ponte entre
nós, os jantares com nosso pai são uma verdadeira tortura. Além disso, o clima entre mim e
James continua tenso. Mal falamos e, na maior parte do tempo, tentamos nos evitar, apesar de,
normalmente, ele ser a pessoa em cuja companhia melhor me sinto.

Agora, nós dois estamos olhando pela janela do carro, em silêncio, enquanto Percy nos leva
para o colégio. Voltar às aulas me parece uma perda de tempo monumental. Afinal, agora sei que
não vou continuar estudando, mesmo que consiga passar nas provas finais. Que sentido isso faz?

Depois de o Percy travar em frente à entrada de Maxton Hall, baixa a divisória e vira-se para
nós.
— Está tudo bem?
Anuo sem dizer palavra e tento sorrir. Às vezes me pergunto se ainda tenho a mesma aparência
de antes. Antes de tudo isso acontecer.
— Se precisarem de alguma coisa — Percy me diz com sua voz profunda e tranquila —, estou
à disposição. E, caso apareçam jornalistas, eles vão até o diretor. Ele está ciente e se certificará
de que ninguém os incomode.
Ele fala como se tivesse memorizado esses avisos.

Já faz algum tempo que suspeito de que Percy ainda não assimilou, como ele quer nos fazer
acreditar, o que aconteceu com nossa mãe. No fim das contas, eu a conhecia há mais de vinte
anos. Ele raramente brinca conosco e, às vezes, quando não se sente observado, vejo-o tão triste
e perdido que você até encolhe meu coração.
— Percebido — digo-lhe, batendo continência.
Pelo menos, o Percy lança-me um sorriso cansado, antes de se dirigir ao James.
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— Cuide da sua irmã, senhor Beaufort.


James pisca e olha em volta. Quando se dá conta de que já estamos na frente do
colégio, fica com o rosto imediatamente petrificado. Sem dizer nada, ela pega a bolsa e
abre a porta. Dou um olhar de desculpas para Percy, antes de seguir James e sair do
carro. Ele já atravessou quase metade do estacionamento quando consigo pegá-lo. Cyril,
Alistair, Kesh e Wren estão esperando por nós na escada da entrada principal.

— Beaufort! — Wren estende o punho para ele e dá um grande sorriso. — Já era hora
de você se deixar ver por aqui.
O James levanta ligeiramente um dos cantos dos lábios e bate com o punho
não, Wren.
— Sem você, isso não é a mesma coisa — Kesh acrescenta, pegando o rosto de James
com as duas mãos e dando um tapinha amigável em sua bochecha.
Entretanto, o Cyril aproxima-se de mim e abraça-me.
— Lydia — murmura contra o meu cabelo.
Engulo em seco. O cheiro dele é-me tão familiar que gostava de passar o resto do dia assim, com
ele. Mas como isso não é uma opção, afasto-me cuidadosamente dele.

— Bom dia — digo-lhe, cansada.


Os olhos azul-gelo do Cyril contemplam o meu rosto inquisitivamente.
Depois, rodeia-me os ombros com um braço, subimos a escada com os outros e
atravessamos a porta dupla maciça de Maxton Hall.
Nossos amigos construíram uma formação estranha ao nosso redor, certamente para
nos proteger das perguntas de outros colegas, mas não é necessário. Ninguém vai falar
conosco. James me lança um olhar por cima do ombro e nós dois reagimos da mesma
maneira. Endireitamos nossas costas e avançamos pelos corredores do colégio, como
sempre fizemos.
Como de costume, a multidão se afasta e, em determinado momento, sinto dores na
nuca do esforço de ficar olhando para frente. Estamos sentados na última fileira e não
passa nem um minuto sem que alguém se vire para nós e comece a cochichar com a
próxima pessoa. Ignoro todos eles. Só quando Lexington encerra a reunião e saímos do
Boyd Hall é que consigo respirar aliviado.

— Já sabem? — pergunta Alistair enquanto subimos a escada do prédio


principal. — O George destruiu o carro um dia depois de fazer dezoito anos.
— Qual George? — pergunto-lhe.
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— O Evans — Wren e Alistair me respondem em uníssono. — Você sabe, o capitão do time


de futebol.
— Ah, e ficou ferido?
— Só um arranhão na testa. O grandessíssimo idiota tem mais sorte do que juízo.

— Ah, e Jessalyn se enrolou com Henry na festa de Cyril. Pelo visto, ele adormeceu no meio
— continua nos informando Wren.
— Então o sexo não foi especialmente impressionante — comenta o James
com secura.
Olham todos para ele, surpreendidos. Acabou de falar como é habitual, num
tom aborrecido e com uma pitada de arrogância. Quase como o velho James.
— Bem, para ser sincero — diz o Cyril, interrompendo o silêncio —, uma
vez, eu também estive quase a adormecer.
— Cyril. — Faço uma expressão de desagrado. No passado, fui para a cama com ele mais
do que uma vez, mas prefiro não pensar nisso. — Demasiada informação.

— Espero, por ti, que estivesses bêbedo — diz-lhe o James.


O Cyril sorri.
— Não estava só bêbedo.
— Meninos, estamos no colégio. Importam-se de ter uma conversa um pouco mais adequada
para todos os públicos? — sugiro-lhes.
Alistair se vira para mim com as sobrancelhas levantadas. Afasta com a mão os cachos
loiros da testa e recua alguns passos.
— A Lydia Beaufort, adequada para todos os públicos? Mas se tu és pior do que
nós todos juntos!
— Bem, não diria que ela é pior do que o James — comenta o Kesh.
— Ou do que eu. — Wren mexe as sobrancelhas para cima e para baixo.
— Vocês dividem o segundo lugar na lista. — Alistair dá uma cotovelada nas costelas dele e
Wren cai na gargalhada.

Abano negativamente a cabeça, sorrindo. Adoro que os rapazes se comportem com toda a naturalidade. Isso

quase me dá a sensação de que nada mudou. Além disso, distrai-me dos meus pensamentos, que é precisamente

do que preciso agora. Às segundas-feiras, a minha primeira aula deste trimestre é com o Graham, e fico nervosa

ao pensar em como será o reencontro. Desde a horrível conversa telefónica que tivemos pouco depois da morte da

minha mãe não voltei a falar com ele.


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Tinha esperança de que, com o passar do tempo, eu fosse deixando de sentir tanta falta dele,
mas aconteceu o contrário. Cada dia me dói mais, e o único consolo dessas últimas semanas
foi não ter que vê-lo. Contudo, agora esse alívio acabou.

Antes de nos despedirmos na frente da sala de aula, James me observa atentamente. Para
mim, ainda é complicado avaliar o que ele pensa, mas a centelha de preocupação em seus
olhos não me escapa. Apesar não falarmos há vários dias, ele sabe o quanto temo o momento
de voltar a ver o Graham.
— Vai-te embora — digo-lhe, com a voz a fraquejar.
O James fica a olhar para mim mais um bocado e depois anui.
— Me liga se precisar de alguma coisa — murmura Cyril, tornando a
me abraçar. — Nos vemos na pausa do almoço.
Fecho os olhos e me permito alguns segundos para aproveitar a sensação de me abraçarem e
não estar sozinha. Depois, Cyril me solta e dá passo para o lado.

E é então que vejo o Graham.


Ele está bem atrás dos meninos, que cobrem a entrada da sala. Ele tem cabelo ondulado e
um pouco mais comprido do que eu me lembrava. Ela usa uma camisa xadrez por baixo do
cardigã e tem um monte enorme de papéis nas mãos. Espie pelo espaço entre as cabeças de
Cyril e James, e seus olhos, daquele castanho-dourado que antes me fascinava, pousam
diretamente em mim.
Um calafrio percorre meu corpo todo. O momento parece estar congelado e não me atrevo a
me mover, com medo de perder o controle. Porém, subitamente, Graham afasta os olhos de
mim e os direciona para Cyril. Eu nunca tinha visto uma expressão assim no rosto dele. Um
misto de alívio e de frieza que não compreendo e que não consigo classificar.

— Vamos — diz James, que ficou olhando para mim e Graham, nos observando. Ele aponta
com o queixo para o corredor onde ele e os outros terão aula daqui a pouco. Os meninos
levantam a mão em despedida e vão embora.

Agora, estou sozinha com Graham no corredor. Ele mexe nas folhas que tem nas mãos,
como se quisesse ordená-las, embora o monte não pudesse ser mais organizado. Nossos
olhares tornam a se cruzar.
— Lydia... — ele me diz em tom rouco, e parece tão triste que se encolhe meu coração.

Abano negativamente a cabeça.


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— Não.
A seguir, dou meia-volta, entro na sala e me sento no lugar de sempre. Durante os
noventa minutos seguintes, mantenho os olhos fixos nos veios da mesa de madeira, para
evitar olhar para frente.

James

O dia no colégio parece não querer acabar. Se eu não tivesse que cuidar de Lydia, já teria
ido embora há um bom tempo. A aula avança a passos de tartaruga e eu não dou a mínima
para o que o professor está explicando. Nos intervalos, meus colegas me dão condolências,
uma por uma, o que seguramente tem boas intenções, mas, em dado momento, estou tão
farto que digo ao pobre Roger Cree que cale a boca e me deixe em paz. Depois disso,
corre a notícia de que o melhor é não chegar muito perto de mim.

Contudo, o ponto mais baixo do dia chega no início do primeiro bloco de aulas, quando
me cruzo com a Ruby no corredor. Paramos os dois, ela de um lado e eu do outro, e
olhamos um para o outro.
«Detesto-te por causa disso. Mas também gosto de ti, e isso dificulta tudo
muito mais.» Recordo novamente as palavras dela.
Ruby é a primeira a desviar os olhos. Sem dizer uma palavra, ele passa ao meu lado e
desaparece na sala dela. O encontro não dura mais que dez segundos, mas, para mim,
parece eterno.
A partir desse momento, só consigo pensar na Ruby e no que me disse na
noite de Ano Novo.
Gosta de mim.
Gosta de mim, porra. É
como se uma ferida se abrisse no meu peito e não se fechasse, tão simples quanto isso.
Quero respeitar a decisão dela, mas fico destruído ao vê-la e saber que a perdi.

Quando as aulas acabam, saio do prédio o mais rápido possível. Precipito-me para fora
com as mãos enfiadas nos bolsos e olhando para a frente.
O Percy abre-me a porta do carro e murmuro um «obrigado» ao entrar.
A Lydia já lá está e o aspeto dela é um espelho de como me sinto.
Deixo-me cair para trás, fecho os olhos e encosto a cabeça ao banco.
— Foi esgotante, certo? — oiço a Lydia dizer em voz baixa.
Detesto este tom prudente na voz dela. Como se tivesse medo de falar
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comigo. Sei que a culpa é minha, mas, ao mesmo tempo, me dou conta de quão mau é a
minha própria irmã já não se atrever a me dirigir a palavra. Desvio os olhos para o frigobar.
Fiquei muito tempo sem beber uma gota de álcool, mas justamente agora, depois desse dia
horrível, sinto a necessidade de me embotar, e é indiferente para mim como faço isso.

Sem responder à Lydia, inclino-me para a frente e abro a porta do minibar.


Contudo, antes de conseguir pegar na garrafa de vidro com o líquido ambarino, a Lydia pega-
me no pulso.
— Você não vai ficar bêbada só porque teve um dia de merda — ele me diz com
uma calma forçada.
Tem razão, eu sei. Apesar de tudo, não faço caso e tento desprender-me da mão dela suavemente,
mas com determinação, embora em vão. Agarrou-me com força. Dou um puxão e solto-me. A Lydia
escorrega para a frente e deixa cair a carteira.

— Idiota — ele resmunga, e então começa a pegar as coisas, que se espalharam por toda
parte.
Dando um suspiro, baixo-me e ajudo-a.
— Desculpa. Não foi de propósito.
Enquanto Lydia pega as coisas dela, inquieta e com os lábios cerrados, encontro um par
de marcadores e os estendo para ela. Ele os pega sem olhar para mim.
Depois, apanho a agenda dela, um par de tampões e um frasco de plástico branco e redondo,
que parece um caixa de pastilhas elásticas. A tampa saiu e, quando a vou enroscar, o meu
olhar pousa no rótulo.
«Vitaminas pré-natais: DHA, ômega 3, colina e vitamina D. Com sabor de limão, framboesa
e laranja.»
Ao lado do rótulo está a imagem da silhueta de uma mulher com as mãos na barriga
arredondada.
Sinto como se Percy tivesse passado por cima de um buraco, mas ainda não saímos do
estacionamento. O sangue se acumula em meus ouvidos.

— Que é isto? — digo quase sem voz, olhando para a minha irmã, para o frasco e
novamente para ela.
A cor desaparece de seu rosto, e ele me observa com os olhos esbugalhados.
— Que isso, Lydia?! — insisto, agora em tom mais imperioso.
— Eu... — A Lydia limita-se a abanar a cabeça.
Torno a ler a etiqueta e depois leio-a novamente. Compreendo as palavras,
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mas não o significado. Olho para Lydia novamente e abro a boca para repetir a
mesma pergunta, e então...
— Não são minhas — diz ela.
Expiro bruscamente.
— Então de quem são?
Cerra os lábios até ficarem quase brancos. Abana a cabeça e, pela expressão,
vejo que está em estado de choque. Não quero pressioná-la, de todo, mas tem de
saber que pode confiar em mim.
— Não importa o que aconteceu, você sabe que pode me contar tudo, Lydia.
Estou do teu lado — digo-lhe com veemência.
Fica com os olhos cheios de lágrimas. Tapa o rosto com as mãos e começa a
chorar. Sei a verdade sem que Lydia precise me confessar. No mais fundo do meu
ser, sinto o susto, o medo e o pânico surgirem ao mesmo tempo, mas os contenho
e respiro fundo. Depois, torno a sentar-me ao pé da Lydia.
— São tuas, não é? — murmuro.
Tem os ombros a tremer tanto que mal consigo ouvir o «sim» balbuciante.
Nesse momento, faço o que me parece mais sensato nesta situação: abraço-a e
aperto-a com força contra mim.
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11

James

Lydia está sentada na cama dela, batucando no almofadão em seu colo.


Pela enésima vez, tento olhar de soslaio, o mais discretamente possível, para a barriga dela.
Depois de andar para trás e para frente pelo quarto por meia hora, tentando acalmar a
pulsação, sento-me em uma das poltronas.
Agora, estou a procurar as palavras corretas, mas, na minha cabeça, os
pensamentos amontoam-se e nem sequer consigo pronunciar uma única frase.
«Como é que aconteceu?»
«Pode saber-se como diabos vamos tomar conta de um bebé?»
«Como vamos conseguir que o nosso pai não se dê conta?»
«Pode estudar-se em Oxford quando se tem um bebé?»
— Não queria que soubesses assim.
Levanto os olhos. É evidente que a Lydia está tensa. Tem as maçãs do rosto
vermelhas e as costas retas como uma tábua.
— Eu... não sei o que dizer.
Sinto-me tão estúpido... E, ao mesmo tempo, dou-me conta de quão egoísta fui nestas
últimas semanas. Senti pena do meu próprio destino, da minha perda, da minha má
consciência, do meu coração partido. E, durante todo esse tempo, a minha irmã sabia que
estava grávida e pensava que não podia contar-me.
Claro, há coisas que não compartilhamos, mas não algo assim. Não algo tão
desproporcionalmente importante e que muda sua vida completamente.
— Você não precisa dizer nada — murmura para Lydia.
Abano negativamente a cabeça.
- Mãos...
— Não — interrompe-me. — Não quero compaixão, James. Não de ti.
Cravo os dedos nos braços do cadeirão, para não me levantar de um salto e começar a
deambular novamente pelo quarto. O tecido range por baixo das minhas garras implacáveis.

A lacuna que se abriu entre mim e Lydia, quando eu disse a ela todas aquelas
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coisas imperdoáveis, parece-me impossível de transpor. Sinto-me inseguro e não sei o que
posso ou não perguntar a ele. E acrescenta-se a isso eu ser totalmente ignorante a respeito
de gravidezes.
Fecho os olhos e esfrego o rosto com as mãos. Sinto as extremidades pesadas, como se, nas últimas
horas, tivesse envelhecido e já não tivesse dezoito anos, mas sim oitenta.

Pigarreio.
— Como é que descobriste?
Lydia levanta os olhos, surpresa. Ele hesita momentaneamente e então começa a me
explicar: — Eu não
costumo ter... bem... um período regular, então no começo eu não suspeitei de nada
quando tive algumas faltas. Mas depois de algum tempo, comecei a desconfiar porque me
sentia estranha. Em geral. — Ele dá de ombros. — Então eu comprei um teste de gravidez.
Estávamos em Londres. Fiz isso no banheiro de um restaurante e quase desmaiei quando
vi o resultado positivo.
Olho para ela, abanando a cabeça.
— Quando foi isso?
— Em novembro.
Engulo em seco. Foi há dois meses. Lydia está guardando esse segredo há dois meses,
possivelmente sentindo muito medo e acreditando que está sozinha. Se essa revelação me
transtornou, como ela teria se sentido nas últimas semanas? E, além disso, você tem que
adicionar tudo o que aconteceu.
De repente, a única coisa que quero é ultrapassar a distância que nos separa.
— Não consigo imaginar o que isso deve ter sido para você.
— Nunca... nunca me senti tão sozinha. Nem mesmo depois do que aconteceu com
Gregg. Nunca teria imaginado que, com Graham, seria ainda pior.

— Ele sabe? — pergunto-lhe cautelosamente.


— Não.
É evidente que Lydia está se esforçando para não se ir abaixo, mas noto seu abatimento.
Suponho que, nesses últimos dois meses, ele não tenha feito outra coisa senão se controlar,
se esforçar para guardar seu segredo e não mostrar a ninguém seus verdadeiros
sentimentos. Eu me odeio por tê-la deixado sozinha. Em vez de apoiá-la, só pensei em mim.

Contudo, agora, isso acabou. Não tenho a menor ideia do que vai cair em cima de Lydia
nos próximos meses, mas, no momento, tenho plena
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certeza de que não vai enfrentar isso sozinha.


Respiro fundo e levanto-me.
Quando me sento na cama ao lado dela, afasto tudo para o lado: a pena, a dor,
a raiva que senti. Pego-lhe suavemente na mão.
— Não estás sozinha — asseguro-lhe.
A Lydia engole em seco.
— Você diz isso por dizer. Da próxima vez que você ficar com raiva de mim ou do mundo,
você vai me dizer coisas horríveis de novo. — Lágrimas escorrem por seu rosto e está com o
corpo tremendo quando se esforça para reprimir um soluço. Vê-la assim me mata.

— Estou falando sério, Lydia. Vou estar ao seu lado. — Respiro fundo. — Não sou mais a
pessoa que era depois que papai nos contou o que aconteceu. Não quero ser essa pessoa. Foi
simplesmente... foi demais para mim. Não fui forte o suficiente e lamento isso.

— Estás a esmagar-me a mão — murmura a Lydia.


Por um momento, sinto-me desconcertado. Contudo, quando sigo os olhos da
Lydia, dou-me conta do que estou a fazer e largo-a imediatamente.
— Também lamento isso. — Lanço-lhe um sorriso de desculpa.
— Ai, James. — De repente, a Lydia inclina-se e apoia a cabeça no meu
ombro. Suspiro de alívio. — Magoaste-me muito com as tuas palavras.
Acaricio-lhe a nuca com suavidade.
Antigamente, costumávamos ficar sentados assim. Quando tínhamos cinco anos, Lydia se enfiava
na minha cama quando trovejava, e fez o mesmo quando completamos dez anos e nosso pai nos
deu uma descompostura, gritando, porque não tínhamos tirado boas notas, e até quinze, depois do
que aconteceu com Gregg, houve algumas noites em que ele bateu na porta do meu quarto e se
deitou ao meu lado sem dizer uma palavra. Eu sempre acariciava sua cabeça e garantia que tudo
ficaria bem, apesar de nem eu mesmo estar convencido disso.

Pergunto-me se ela também se lembrará desses momentos ou se é uma parte do nosso passado
que silenciou. Nós, os Beauforts, somos muito bons nisso de silenciar.

— O que eu disse era mentira. És a pessoa mais importante da minha vida.


Lydia fica gelada e, a cada segundo que passa sem que eu reaja, mais despido eu me sinto.
Desesperado, procuro alguma coisa que possa acrescentar para amenizar a tensão, mas não
consigo pensar em nada. Portanto, sem pensar duas vezes,
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decido fazer a ele uma pergunta em que venho pensando há algum tempo.
— Você já foi ao médico? Não sei como isso tudo evolui. Está tudo bem? E para que
essas vitaminas? Quer dizer que você tem alguma carência ou qualquer coisa parecida?

Noto que o corpo da minha irmã vai perdendo paulatinamente a rigidez.


Respira fundo e vira a cabeça para mim, olhando-me de soslaio. Também olho para ela.
No momento em que um ligeiro sorriso começa a desenhar-se no rosto dela, sei que
conseguimos. Transpusemos o fosso.
— Me deram as vitaminas justamente na primeira consulta, acho que dão para todas as
grávidas, no começo. Na última consulta, tudo estava em ordem — balbucia. — Só houve
uma surpresinha.
Levanto uma sobrancelha.
— Mais uma?
— São gémeos.
Fico a olhar para ela, sem acreditar.
— Estás a gozar.
Ele balança a cabeça negativamente e pega o celular. Abre a galeria e me mostra a
imagem em que, sobre um fundo escuro, se distingue a silhueta iluminada de um pequeno
corpo. Depois, procura a próxima imagem. Na verdade, é igual à anterior, exceto que, bem
ao lado da primeira silhueta, uma segunda é claramente distinguida.

A minha barriga dá um salto e, de repente, sinto-me muito estranho. Ao


mesmo tempo, dou uma gargalhada incrédula. — É
demasiado forte para ser verdade.
A Lydia sorri.
— No começo, também caí na gargalhada, porque não entrava na minha cabeça.
Bem, na verdade... desatei a rir e a chorar ao mesmo tempo. A Ruby deve ter pensado que
eu estava a ter um ataque de nervos.
Ao ouvir o nome da Ruby, endireito-me automaticamente.
— Ruby foi com você ao médico?
Lydia evita meu olhar e fica com os olhos fixos no celular que segura na mão.

— Sim. Ela já sabe há bastante tempo.


Esfrego o queixo com a mão. Subitamente, tenho a garganta seca.
— Pedi-lhe que não dissesse a ninguém. Por favor, não te zangues com ela.
Não posso fazer mais do que abanar a cabeça. Depois, deixo-me cair para trás
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e cruzo os braços diante do rosto.


Ruby sabia.
Ruby apoiou minha irmã. Depois de tudo que eu fiz com ela, ela não abandonou Lydia.
Contrariamente a mim.
Não consigo respirar.
— James? — murmura a Lydia.
Tenho os braços a tremer, mas não consigo baixá-los. Sinto tanta vergonha... de tudo.
Todos os erros que cometi, como namorado e como irmão, caem-me em cima como uma
pedra de dez mil toneladas cujo peso não consigo aguentar.
Minha irmã afasta meus braços e me observa preocupada. A expressão que se
desenha no rosto dela é compreensiva. Depois, deita ao meu lado e ficamos olhando
para o lustre do teto de seu quarto.
— Lydia — murmuro, quebrando o silêncio. — Estraguei tudo.

Lídia

Nunca tinha visto o meu irmão assim.


Embora ele soubesse que o que aconteceu com Ruby o havia afetado, ele não tinha
ideia de que ele sofria tanto.
Agora que deixou cair a máscara, reconheço a vergonha nos olhos dele, mas
também a profunda tristeza e a dor que a separação de Ruby lhe provoca. É primeira um

vez que ele me mostra abertamente como está.


Sinto um intenso desejo de poder fazer qualquer coisa por eles. É evidente que ainda
gostam um do outro e que esta situação os faz sofrer.
— Porque é que ainda não fizeste nada para lhe mostrar o quão mal estás? —
pergunto-lhe cautelosamente, passado um bocado.
O James vira a cabeça para mim.
— Tentei pedir-lhe desculpa — responde-me em voz baixa. — Disse-me que
não consegue perdoar-me.
Ficamos em silêncio durante algum tempo.
— Eu a entendo — admito, e James estremece de forma quase imperceptível. — Mas,
ao mesmo tempo... eu não sei. Eu gostaria tanto que eles superassem isso ...

— Ruby não quer e eu tenho que respeitá-la. — Você parece tão resignado quando diz
isso que de repente tenho vontade de bater em você.
— Desde quando é que te rendes tão facilmente?
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James bufou.
— Que foi?
— Não me rendi «tão facilmente». Penso nela sem parar e tenho a certeza de que nunca mais voltarei a
amar alguém, porra. Mas, se ela já não gosta de mim, então...

Pego num dos cadernos de esboços que estão em cima da mesinha de


cabeceira e bato com ele no James.
Senta-se de repente.
— Ai! Porque é que fizeste isso?
Também me sento e ignoro os pontos negros que me aparecem diante dos olhos quando
me endireito.
— Você tem que fazer com que ela perceba isso também, James! Mostre a ele o quão
importante é para você e o quão arrependido você está.
— Tu não viste como ela olhou para mim na noite de Ano Novo. Nem sabes o que me
disse... — Abana negativamente a cabeça. — Está totalmente decidida a começar este ano
sem mim. Daí que não possa voltar a chateá-la com o que sinto por ela. Segundo a Ruby,
não temos nada em comum e a nossa relação nunca teria funcionado.

— Você não precisa ir até ela e assediá-la, confessando seu amor sem parar. No entanto,
enquanto ela não souber o quanto você lamenta o que fez, ela não será capaz de te perdoar.

Vejo que qualquer coisa começa a funcionar na mente dele, e acrescento mais
uma coisa:
— Tens de lho demonstrar. Não com meras palavras, mas com atitudes. Se ela
te diz que eles não têm nada em comum, você tem que convencê-la do contrário.
O James engole em seco e respira pesadamente. Está a lutar consigo mesmo, vejo isso
claramente.
Lembro-me da nossa viagem de volta de Oxford. Na manhã antes de tudo mudar. James
parecia tão feliz... e, além disso, irradiava uma paz interior que eu nunca tinha visto nele.
Como se fosse a primeira vez que ele estava em harmonia consigo mesmo, como se aquele
peso invisível que ele sempre parece carregar nas costas tivesse desaparecido. Desejo que
ele volte a esse estado.
Apesar de tudo, há uma coisa que precisa de saber.
— James — digo, esperando pacientemente que olhe para mim. — Se
voltares a beijar alguém que não seja a Ruby, eu própria te cortarei a língua.
Ele pestaneja, surpreendido. Depois, abana lentamente cabeça.
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— Não sei como é que não me apercebi antes de que passas muito tempo com a Ruby.

Por um instante, sinto a tentação de sorrir, mas contenho-me.


— Estou a falar a sério. Gostava realmente que vocês reatassem.
O James expira sonoramente.
— Eu também gostava. Mais do que qualquer outra coisa.
— Então luta por ela, porra.
James fica quieto e quieto por um bom tempo, curiosamente concentrado no teto do
quarto. Gostaria de ler seus pensamentos, para saber quais são neste momento.

— Vou lutar — diz-me a meia-voz.


Ponho-lhe a mão no ombro e dou um pequeno apertão. —
Ótimo.
Um dos cantos dos lábios dele levanta-se ligeiramente. É pequeno um movimento tão
que é possível que qualquer outra pessoa não o tivesse visto.
— Mas, primeiro, preciso de um plano.
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12

Rubi

— Pergunto a mim mesma se o Beaufort chorou. — É a primeira coisa que oiço na quarta-feira
à tarde, quando entro na sala de trabalho da biblioteca.
A reunião da comissão de eventos começa daqui a meia hora e queria aproveitar o tempo
para pedir emprestado um livro que está há meses na minha lista de leituras de Oxford.
Contudo, arrependo-me de ter tomado essa decisão quando oiço uma forte gargalhada.

— Bem, podia desabafar comigo e chorar no meu ombro sempre que quisesse.
Fico na ponta dos pés para espiar por cima da fileira de livros, por entre o espaço livre da
estante. Vejo duas garotas que estão sentadas em uma das mesas de trabalho, com as
cabeças apoiadas por cima de um livro. É evidente que eles não estão estudando. Eles nem
se esforçam para falar em voz baixa.
— Pelo visto, você está superaberto a quem se oferecer para consolá-lo. — A
primeira rapariga faz uma careta carregada de significado.
— Desde que herdou as ações da empresa é ainda mais atraente. — A
outra suspira. — Pode ser que tente a minha sorte.
Sou invadida pela cólera. Sem contar que estão em uma biblioteca e de me dar nojo a forma
desrespeitosa que falam do James, fico enfurecida por não poder ir a parte nenhuma neste
colégio sem ouvir o nome dele.
Já no caminho para aqui passei por três grupos que falavam dele, e aconteceu-me a mesma
coisa durante toda a semana.

No entanto, há um monte de fofocas com as quais meus colegas poderiam se ocupar com o
mesmo entusiasmo. Surpreenderam Alistair no banheiro masculino enrolado com um cara...
que nem está no nosso colégio. E, efetivamente, Jessalyn está saindo com o cara que
adormeceu em cima dela na primeira noite que passaram juntos. Ainda não sei se devo
acreditar nessa última parte, especialmente quando vejo o sorriso resplandecente que, desde
então, ela exibe constantemente. Também se diz que, depois da morte da mãe, Lydia se jogou
nos braços de Cyril e que há algo mais do que amizade entre
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eles. Sem contar que, agora, Lydia está ocupada com assuntos mais importantes, duvido muito
que isso seja verdade. Não obstante, quando o boato se espalha pela aula de Biologia e eu me
viro para Cyril, ele cruza os braços atrás da cabeça e abre um sorriso de satisfação, portanto, por
alguns instantes, não sei o que pensar.

Contudo, é do James que as pessoas mais falam. Constantemente e em todo o lado.

«Viste as fotografias do James Beaufort?»


«Coitado...»

«Ainda há alguma coisa entre ele e essa tal Ruby?»


Não há altura em que não se me forme um nó na garganta e não sinta uma pontada no coração.
Pergunto a mim mesma como vou conseguir esquecê-lo se o nome dele anda na boca de todos e
nem sequer na biblioteca consigo abstrair-
meu.

Puxo o livro com força e dou a volta na estante, indo para a área de trabalho.

As meninas se assustam ao ver que não estão sozinhas. Enquanto me aproximo delas, penso
se devo dizer algo a elas, mas decido que não vou gastar energia com isso. Lanço-lhes um olhar
de desprezo e passo longe, em direção à nossa sala de grupo.

Assim que chego lá, entro o mais rápido possível e encosto as costas na porta.
Fecho os olhos, deixo cair a cabeça contra a porta e tento inspirar e expirar tranquilamente
durante alguns segundos.
— Olá.
Abro os olhos.
O James está sentado do outro lado da sala. Na cadeira que ocupou sempre durante o trimestre
passado, quando o diretor Lexington o obrigou a participar na comissão de eventos.

Parece mudado. Tem olheiras fundas e distingo uma leve sombra em seu queixo, sinal de que
não se barbeou. Ele tem o cabelo mais bagunçado do que o normal, provavelmente porque está
mais comprido.
Pergunto a mim mesma se também achará que estou diferente.
Os segundos passam e nenhum de nós se move. Não sei como me comportar na presença
dele. Entre as horas de aula, no corredor, eu apenas o ignorei, mas agora somos os únicos nesta
sala.
— Que fazes aqui?
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Estou com a voz rouca. No entanto, não quero dar a você a impressão de que você ainda
tem alguma influência sobre mim. Pelo contrário, devo fazê-lo acreditar que não me afeta em
nada estar com ele na mesma sala.
— Estou lendo. — Levanta um livro... não, um mangá. Leio o título franzido, embora
reconheça a imagem da capa.
O James está a ler o Death Note. O terceiro volume.
Certa vez, eu disse a ele que era minha série favorita.
Olho para ele, desconcertada.
— Vamos ter reunião agora, portanto, é melhor você procurar outro lugar para ler...
— Me afasto da porta e me dirijo ao meu lugar como se não estivesse sentindo as
pulsações do coração nos ouvidos.
Lentamente tiro as coisas da bolsa e as arrumo sobre a mesa, vou até o quadro e
escrevo a data no canto superior direito. Eu gostaria de ter mais alguma coisa para
fazer, mas tanto o laptop quanto as notas da agenda estão dentro da bolsa de Lin.
Portanto, sento e finjo que estou lendo, concentrada em uma anotação da minha
agenda.
Pelo canto do olho, vejo que o James pousou o manga à sua frente. Faz
movimentos pausados. Quase tenho a impressão de que tem medo de me assustar.
Sinto o olhar dele sobre mim e sustenho automaticamente a respiração.
— Neste trimestre, quero voltar a participar das reuniões da comissão.
Fico gelada. Sem afastar os olhos da minha agenda, pergunto-lhe:
— Quê?
— Se você e Lin estiverem de acordo, vou pedir permissão a Lexington — continua.

Levanto os olhos, sem acreditar.


— Não podes estar a falar a sério.
Por sua vez, James olha para mim com um ar tranquilo. Agora eu sei o que me
parece diferente nele. Embora ele esteja com uma aparência cansada, não há mais
nos olhos dele aquela falta de esperança que vi na véspera de Ano Novo. Em vez
disso, nota-se uma serenidade que, neste momento, me destroça. Posso ser forte
quando as coisas dão errado com ele. Contudo, quando está calmo, fico nervosa.
Será isso que todo mundo chama de «complementar-se»? Ou será que
desequilibramos um ao outro?
— Diverti-me na comissão, embora ao início me tenha sentido reticente.
Quero continuar a envolver-me nestas tarefas.
Não consigo deixar de olhar para ele.
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— Não acredito.
— Você mesma disse que eu tenho jeito para organizar e que a equipe sentiria
minha falta. Além disso, o cronograma de treinos foi alterado. O lacrosse e as
reuniões só coincidem uma vez por semana. O treinador Freeman não se importa.

Apanho a mochila do chão e começo a rebuscar no interior, só para afastar os


olhos do James. Não tenho a menor ideia do que tudo isso significa.
Não sou bobo, James não está aqui porque redescobriu o amor pelos eventos de
Maxton Hall. Com certeza é por mim. Mas há uma coisa em que você está certo.
Quando penso no último trimestre e em como ele se envolveu na festa de Halloween,
tenho que admitir que, definitivamente, a presença de James não prejudicou em
nada a equipe. Pelo contrário, a festa foi um enorme sucesso graças às ideias e ao
esforço dele.
Se agora eu rejeitar, vou ter que lidar com minha consciência durante o resto do
ano letivo e, acima de tudo, sempre que nos faltar alguém que nos ajude ou que
contribua com uma mente pensante. Como diretora da equipe, tenho uma tarefa
clara e, além disso, teria que justificar para Lexington por que não aceitei James.

— Tenho que submeter sua entrada a votação — digo, por fim.


— Está bem.
Engulo em seco. Por muito que o James volte a colaborar com o grupo, isso não
significa que o que lhe disse na noite de Ano Novo não tenha sido a sério.
Separar a esfera privada da vida na faculdade sempre foi minha especialidade. E, embora nos
últimos meses algumas fronteiras tenham sido borradas, no futuro isso não acontecerá novamente.

— Vou votar contra! — exclamo, olhando fixamente para ele.


O James apoia os braços em cima da mesa e olha para mim com determinação.

— Eu sei.

Não se passaram nem cinco minutos e os outros já votaram a favor de James,


como ex-membro da equipe, voltar a integrá-la. Enquanto isso, estou sentada na
frente, com as maçãs do rosto muito coradas, tentando fazer com que ninguém
perceba o quanto a ideia de, a partir de agora, ter que passar três dias por semana
na mesma sala que ele afeta.
A Lin distribui os apontamentos e, sem delongas, começa pelo primeiro
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ponto.
— Alguém pode fazer um resumo para Beaufort dos preparativos que já
fizemos para a gala de beneficência? — pergunta ao grupo.
Passo o olhar pela minha equipe. Normalmente, essas reuniões parecem rotineiras para mim,
mas agora isso é história. A mera presença de James é o suficiente para me desconcertar e
causar uma avalancha de memórias que causam um formigamento por todo o meu corpo.
Lembro da sensação das mãos dele nas minhas pernas, na minha barriga, nos meus seios. A
maneira como sussurrava meu nome. Sua boca e o roçar dos lábios sobre os meus e na minha
pele.

Sinto-me corar novamente e tento conter esses pensamentos. Eles não têm nada de estar
aqui. Durante dois anos, dominei a arte de separar a esfera privada da escolar. Já é hora de
fazer isso de novo.
— O gala beneficente é em fevereiro — diz Jessalyn, respondendo à pergunta de Lin. — A
Comissão de Pais decidiu que, este ano, os fundos arrecadados sejam entregues ao Centro
Familiar de Pemwick. Eles querem aumentar a oferta de sessões de psicanálise e, para isso,
precisam de uma quantia importante.

— Como todo ano, a festa tem que ser luxuosa — acrescenta Kieran. — O código de
vestimenta é formal e temos um orçamento alto disponível. Lexington conta que empolguemos
os convidados e os convençamos a fazer doações.

Anoto em meu caderno «festa luxuosa» e «orçamento alto». É absurdo, porque eu já sei
disso há muito tempo, mas não passa de uma desculpa para manter os olhos baixos e não
direcioná-los para James.
— A gala acontecerá no Boyd Hall. Primeiro, serão servidas bebidas e aperitivos, e o catering
será realizado por um chef cinco estrelas, que solicitou pessoalmente os serviços do Centro
Familiar e fará tudo de graça. Isso significa que podemos gastar um pouco mais com decoração
e animação — explica Lin. — Contratamos um pianista de Londres que tornará a noite agradável
e o ponto alto será o show de um grupo de acrobatas que nos foram recomendados pelos pais
de Camille.

— Alguns deles trabalharam no Cirque du Soleil — acrescenta a Camille num tom


autocomplacente.
Estou prestes a escrever «Cirque du Soleil» quando me dou conta de quão idiota é o meu
comportamento. Não posso passar toda essa hora e meia sentada
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olhando para uma folha de papel só porque James está aqui. Sem pensar mais nisso, largo o
marcador e presto atenção em Camille, que continua falando: — Vão criar um clima
místico.
Ao meu lado, a Lin bufa.
— Continuamos tendo o problema de encontrar patrocinadores que queiram vir ao gala e que
estejam dispostos a fazer doações. Não podemos nos limitar a convidar apenas pais de alunos de
Maxton Hall. Além disso, precisamos de palestrantes que falem com os convidados. O melhor
seria pessoas que foram ajudadas pelo Centro Familiar no passado. Isso dá autenticidade ao
evento.
— Na semana passada, combinamos que continuaríamos investigando — comento, falando,
por fim. — Alguém fez um avanço?
— Eles ignoraram meus e-mails e, por telefone, ou me disseram que o melhor era contatá-los
no ano que vem ou me disseram mais ou menos claramente para deixá-los em paz — Kieran me
responde. — Ninguém tem vontade de contar sua história triste. E, menos ainda, em Maxton Hall.

Os outros anuem, dando-lhe razão.


— Talvez, tenhamos que aumentar um pouco nosso raio de ação — propõe Jessalyn — e temos
que entrar em contato com pessoas que não tenham usado esse Centro Familiar, mas outro.

— Boa ideia — digo a ele. — Poderíamos também perguntar nas universidades se há alguém
em cursos desses âmbitos que esteja disposto a fazer um discurso.
— Meu sorriso transmite mais otimismo do que eu realmente sinto. — Havemos de conseguir. E
ainda temos algum tempo.
Ouve-se um murmúrio de aprovação.
— Agora que você voltou a estar na equipe, poderia se encarregar dos trâmites com o estúdio
de decoração e organizar tudo com Jones, o zelador — diz Lin de repente para James. — Ele
sempre fica feliz quando alguém o ajuda a preparar o Boyd Hall.

Olho para o James.


Pestaneja desconcertado, mas depois diz em voz baixa: — Claro.

Tenho de fazer um grande esforço para reprimir o sorriso que luta por aparecer no meu rosto.
Limpar a sala e prepará-la é uma tarefa que nunca ninguém faz voluntariamente. É divertido que
a Lin a tenha atirado para o James, sem mais.
E mostra, uma vez mais, que é uma pessoa encantadora.
O resto da reunião decorre de acordo com o plano, mas, apesar disso, fico
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feliz por já terem terminado os noventa minutos. Lin e eu dividimos as tarefas


enquanto os outros se despedem e saem da sala... todos, exceto James e
Camille, que parecem arrumar as coisas com extrema lentidão. Tento não
prestar atenção neles, mas não consigo. Ouço cada uma das palavras de
condolências murmuradas por Camille. Encolhe-se-me a barriga e repreendo-
me a mim mesma imediatamente. Eu não queria sentir nenhuma dor por causa
de James ou James. Na verdade, eu não queria sentir absolutamente nada em
relação a James Beaufort.
— Vou-me pirar — murmuro para a Lin.
Ela assenti e se despede de mim com um aceno de mão. Ponho a mochila no
ombro e vou até a porta, com o olhar fixo à frente. Justamente quando vou
pegar a maçaneta, uma mão se adianta à minha e pousa nela.
Levanto os olhos e deparo com o rosto do James. Estamos a poucos centímetros
de distância. Consigo sentir o seu cheiro familiar, herbal e um pouco a mel, e
também o calor que irradia.
- Rubi – murmurou.
Retiro a mão como se me tivesse queimado. Depois, olho para ele na
expectativa, para que tire a mão ou então abra a porta. Hesita momentaneamente,
mas, no fim, roda a maçaneta. Suspiro de alívio.
— Até logo, Lin — digo agitada, saindo da sala.
Eu nunca tinha ido para o ônibus tão rápido e, enquanto caminho, o eco da
voz de James ressoa na minha cabeça e por todo o meu corpo.
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13

Lídia

— É incrível — bufa o James, abatido. Afasta bruscamente o portátil e vira-se para mim na
cadeira da secretária. — Mais dois cancelamentos.
Sentada no sofá, olho para o meu irmão. Quando me contou o seu projeto de voltar a
colaborar na comissão de eventos, inicialmente fiquei surpreendida.
Contudo, quanto mais penso nisso, mais acertada me parece a decisão dele.
Ruby adora trabalhar nessa equipe. James mostrando a ela que ele não apenas entende
a paixão dela, mas também a compartilha, é um bom primeiro passo.
Além disso, durante o último trimestre, deu-se conta de que se diverte muito a organizar
essas festas, apesar de que nunca o admitiria em voz alta.
— Você tem que ser mais persistente. Apela para a consciência das pessoas e não para
a carteira delas. Então eles irão para a gala — digo a ele enquanto tomo alguns goles de
chá e rodeio a xícara com os dedos frios. Acho que nossa governanta sabe que estou
grávida. Preparou o chá sem eu ter pedido e me disse, em voz baixa e com um olhar de
cumplicidade, que me faria bem.
O James responde-me com um sim ausente e torna a aproximar-se do portátil.
Nesse preciso momento, um suave ping anuncia a chegada de um novo e-mail.
Enquanto James lê com os olhos semicerrados, pego um biscoito. Quando eu quebro,
algumas migalhas caem no sofá, mas James está muito ocupado escrevendo uma resposta
e não percebe. Ainda bem: detesta encontrar migalhas.
— Você já falou com Ruby? — pergunto a ele depois de um tempo.
Ouve-se o som que confirma o envio da mensagem, e o James vira-se novamente para
mim.
— Não. — Esfrega o rosto com as mãos. — Esta semana nem sequer foi capaz de me olhar
nos olhos.

— É evidente que não podes forçar a situação. Mas, a dada altura, vão ter de falar —
comento suavemente. — Quanto mais tempo passar, maior será o fosso entre vocês.
Acredita no que te digo.
O meu irmão fica a olhar para mim durante um bocado. É evidente que tirou
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as suas próprias conclusões.


— Então você continua sem falar com Sutton.
Encolho os ombros.
— De que é que havemos de falar? Ambos temos consciência de que é melhor assim.

— Sim, mas ele não sabe que estás grávida. Isto muda tudo.
— Não quer saber nada de mim. — Enfio o resto da bolacha na boca e mastigo lentamente. —
Disse-mo mais de uma vez. Primeiro, sou demasiado orgulhosa para falar com ele.

— E segundo?
Olho para o James.
— Segundo, tenho medo de lho dizer. Não quero ver a reação dele. Eu própria ainda não
consegui assimilar isto, e só depois decidirei o que fazer se a resposta dele não for a que eu
desejaria.
— Lydia... — O celular de James toca. Você não faz nenhum gesto de ir
atender e, em vez disso, continua a olhar intensamente para mim.
— Atende! — ordeno a ela em tom insistente. — Você pode ser um dos
patrocinadores.
James hesita momentaneamente. Depois, pega o celular e olha para a tela.

— Owen — diz em voz alta depois de atender. — Que surpresa tão agradável.

Sem fazer barulho, finjo um vômito. Owen Murray é presidente do conselho de uma empresa de
eletrônicos e é amigo íntimo de nosso pai. Nem James nem eu suportamos isso, e tenho bastante
certeza de que o sentimento é mútuo.

— Nessas circunstâncias, sim — diz James. De repente, o tom de voz fica firme e frio. — Não,
eu não entrei em contato com você em nome de Beaufort, mas em nome do Colégio Maxton Hall.
No início de fevereiro, realizaremos uma gala beneficente em prol do Centro Familiar de Pemwick
e estamos procurando patrocinadores.

Oiço um leve murmúrio do outro lado do aparelho.


— Com certeza, vou te mandar os detalhes. Seria fantástico, Owen, muito obrigado.

James termina a conversa e escreve algo no celular. Depois,


vira-se para mim.
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— Enquanto não contares ao Sutton, não podes saber como vai reagir.
— Nesse caso, você me aconselha a contar a ele.
Anui.
— Sim. Além disso, acho que tem o direito de saber.
Fico olhando para a xícara. Através do que sobrou do líquido rosa, tento distinguir algum
desenho nas folhas de chá.
«Tínhamos combinado que não haveria mais chamadas.»
Mesmo que, de agora em diante, ele decida que vai apoiar a mim e aos bebês, o que
isso significa? Apenas que você se sente culpado, nada mais. No entanto, a única coisa
que desejo é estar com Graham porque ele quer. Por vontade própria e não porque se viu
obrigado a isso por causa da minha gravidez.

O celular de James torna a tocar. Faz-me um sinal com o dedo, para me


indicar que a nossa conversa não terminou, e atende a chamada.
Bebo o resto do chá e coloco a xícara vazia na mesa. Depois, pego meu celular e abro
as mensagens. O número de Graham continua guardado. Não consigo excluí-lo. Chega a
mim tê-lo e saber que posso escrever para ele a qualquer momento.

Revejo nosso histórico de bate-papo. Não só tem mensagens e fotos do dia a dia, mas
também algumas em que confiamos um ao outro nossos medos e preocupações mais
profundos. Qualquer pessoa normal teria apagado essas mensagens, em vez de salvá-las
e voltar a elas como quem vira as páginas de um antigo álbum de fotos.

Pelo visto, não sou uma pessoa normal. É a


única coisa que me resta dele. E, muito simplesmente, não estou pronto para me separar
definitivamente de Graham. Para ser sincera, não sei se algum dia estarei. Sinto tanta falta
dele... sinto falta de nossas conversas telefônicas, de sua risada quando assistíamos a comédias
de ação ruins, de nossos dedos entrelaçados debaixo da mesa de um café. Acho que saber
que não terei tudo isso de novo vai me deixar louco.

— Parece excelente. — A voz de James penetra meus ouvidos. Ele parece tão animado
que eu olho para ele com as sobrancelhas arqueadas. — Sim, perfeito. Obrigado, Alice.
Até depois. — Ele respira sonoramente e estica os braços por cima da cabeça.

— Alice? A Alice Campbell? — pergunto-lhe.


Vira-se para mim.
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— Ainda me deve um favor.


— Prefiro não saber qual é.
O James esboça um sorriso insolente.
— Ruby adora Alice.
Não estranho. A Alice Campbell estudou em Oxford e, durante o curso, criou
a sua própria fundação cultural.
— Realmente, empenhas-te a fundo — comento. Contudo, quando vejo o
James ficar sério, arrependo-me.
— Voltando à vaca-fria — diz-me em resposta enquanto abana a cabeça.
— Não lhe posso contar. Como é que, depois, vou conseguir ir às aulas dele?
— Podes mudar para a minha turma de História.
— Isso despertaria as atenções.
O James encolhe os ombros.
— As pessoas estão mudando constantemente por todos os tipos de razões. Não acho
que seja algo que chame especialmente a atenção. Poderíamos dizer que você prefere
estudar comigo.
— Não sei... — murmuro.
— Faça o que fizer — James me diz —, eu vou te ajudar. — Ele me olha com uma
expressão séria por um tempo e depois se vira para o laptop novamente.

Sinto um leve formigamento na barriga e coloco a mão por cima, para ver se é um dos
bebês. Já sinto alguns de seus movimentos leves, quase como se estivesse com frio na
barriga.
Agora que James sabe, me sinto muito melhor do que antes, mas isso não muda o fato de
que estou grávida de dois filhos, que vou ser mãe solteira e que é possível que eu tenha que
desistir dos estudos. Embora ... talvez eu consiga fazer as provas finais antes que tudo isso
seja conhecido.
Eu me esforço para respirar fundo e calmamente três vezes. Agora não posso me
perder em divagações sobre um futuro incerto. Tenho que superar um dia depois de
outro. Passar o tempo preocupada não faz bem a ninguém, e menos ainda aos dois
bebês, que, agora, precisam ser minha prioridade.
— Porra! — exclama James de repente. Ele cruza os braços atrás da cabeça e olha
para a tela com os olhos esbugalhados.
— Que se passa?
O James parece petrificado. Muito inquieta, levanto-me e aproximo-me da secretária.
Ponho-me atrás da cadeira e abraço as costas de pele. Depois, inclino-
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me um pouco para a frente.


A primeira coisa que vejo é a palavra «Oxford».
A segunda é: «Parabéns, James Beaufort.»
— Aceitaram-te! — exclamo.
Como o James continua sem reagir, viro a cadeira para mim. Vejo no rosto
dele que está em estado de choque.
— James, aceitaram-te. É maravilhoso! — Agarro-o pelos ombros e puxo-o para mim,
para o abraçar. Ele cambaleia e demora uns instantes a devolver-me o abraço.

— Porra! — repete.
Não sei se ele está feliz ou se está desmoronando por dentro. Enquanto o aperto entre
os braços, penso se também terei um e-mail esperando por mim. Neste momento, a velha
Lydia correria como uma possessa para o celular, para verificar se foi aceita. A nova, ao
contrário, não quer saber se acabaram de lhe oferecer um futuro que ela simplesmente não
pode seguir.
Abraço James com mais força e fico feliz que um de nós consiga o que havia proposto.

James

— Deixamos para trás um período complicado, não preciso de o dizer.


Contudo, a partir de agora, podemos pôr os olhos no futuro, visto que era isso que a
Cordelia teria querido.
Reprimo o impulso de revirar os olhos ou soltar uma reclamação. Meu pai não tem a
menor ideia do que minha mãe realmente teria querido. Com toda a certeza, não seria o
teatro que ele está fazendo agora.
Este é o primeiro discurso oficial dele como administrador, perante o conselho de
administração da Beaufort e os chefes de departamento, e todos já estão comendo da mão
dele. A totalidade dos doze homens e mulheres bebem as palavras dele com expressões
esperançosas, enquanto eu, que estou sentado de um lado da longa mesa de reuniões,
penso em como poderia olhar para o celular da maneira mais discreta possível.

— Se todos nós nos esforçarmos na mesma direção, conseguiremos tirar Beaufort da


depressão emocional em que se encontra e continuar a impulsioná-la para frente. Nessa
nova etapa, teremos que enfrentar algumas mudanças para as quais precisarei contar com
o apoio de vocês. Nesse contexto, gostaria de vos
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apresentar desde já meu agradecimento. Vocês são nosso capital mais importante.
Consequentemente, nos próximos dias, terei que recorrer à sua experiência com mais
frequência do que antes.
Enfio a mão no bolso e pego meu celular. Nas últimas horas, os caras me mandaram um monte
de mensagens para me convencer a sair com eles hoje à noite. Hoje é meu primeiro dia no novo
papel de membro do conselho da Beaufort e, no mundo deles, isso é algo que precisa ser
comemorado.

Infelizmente, não estou com humor para festas. Sei que, no futuro, terei cada vez
menos oportunidades de me reunir com meus amigos e que deveria aproveitar o tempo
que nos resta. Eles já estão irritados comigo por só ir aos treinos duas vezes por semana.

Apesar de tudo, só há uma pessoa que desejo ver hoje.


E essa pessoa está me ignorando há semanas, porque eu a afastei de mim.
Embora eu veja Ruby regularmente na faculdade, sinto falta dela.
Quero que torne a olhar para mim sem estremecer de dor.
Quero poder falar com ela, a qualquer momento e sobre qualquer assunto.
Quero saber se a aceitaram em Oxford.
— Apesar do falecimento de minha esposa, nada mudará na cultura empresarial da
Beaufort — continua meu pai, em tom imperturbável. — É a base do nosso sucesso.
Quando nos conhecemos, Cordelia me explicou o que significa trabalhar nessa empresa,
e faço tenção de honrar sua memória.
Segue-se uma explosão de aplausos. Bato palmas duas vezes e leio discretamente a
mensagem que Cyril acabou de me enviar.

Estamos em casa do Wren, podes


fazer o favor de aparecer rapidamente?

Enviou-me uma fotografia de todos com os dedos do meio levantados.


Suponho que não tenho outra opção. Depois desta reunião, terei que ir até eles. Nas
últimas semanas, não estive muito presente e, além disso, me fará bem me distrair — da
reunião, mas, acima de tudo, de Ruby. Faça o que fizer, tenho-a sempre na mente. Ele é
a única pessoa que conseguiria entender o quão terrível é ficar sentado aqui ouvindo
como meu pai vai administrar o trabalho da vida da minha mãe. Naquela noite, em Oxford,
contei tudo a ele. Foi a primeira vez que expressei em voz alta os pensamentos que
sempre me proibi de ter.
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A Ruby compreendeu-me. Não apelou ao meu sentido do dever nem ao significado do meu apelido.
Ouviu-me com atenção e deu-me coragem.
Coragem para construir um futuro que seja meu.
Quanto mais tempo passo aqui sentado, mais forte é o desejo de ver a Ruby.
E, quanto mais digo a mim mesmo que isso não é bom, mais intensamente crescem as saudades
dentro de mim.
Tenho de a ver. É tão simples quanto isso, tenho de a ver.

— Esse projeto vem não apenas de mim, mas também de meu filho, James, que, a partir de agora,
se preparará para seu futuro cargo na Beaufort e que, por outro lado, acabou de ser admitido em
Oxford.
Quando oiço o meu nome e os aplausos que se seguem, levanto os olhos.
Alguns dos colegas de trabalho anuem, olhando para mim amigavelmente, e outros percebem
claramente que eu seguro meu telefone embaixo da mesa e abaixam os cantos dos lábios, com
expressões de reprovação. Respondo aos olhares deles com indiferença, sem esconder o celular.

— Também queres dizer umas palavras, James? — pergunta o meu pai.


Olho para ele, tentando esconder a surpresa. Antes da reunião, não me disse nada sobre ter de
fazer um discurso. Os seus olhos gélidos fitam-me insistentemente. Se eu não tomar a palavra agora,
o meu pai vai fazer-me a vida
negra.
Grande sacana. Sabia perfeitamente que eu não teria vindo, se ele me tivesse avisado antes que
ia exibir-me como se eu fosse um cavalo de corrida. Em vez disso, põe-me numa situação incómoda.

Levanto-me lentamente e, quando o faço, coloco meu telefone no bolso. Olho momentaneamente
para o copo de água que não toquei e lamento não ter bebido nada. Quando passo os olhos pelas
pessoas aqui reunidas, sinto um nó na garganta. Conheço algumas delas desde pequeno, enquanto
outras vi pela primeira vez no funeral da minha mãe.

Pigarreio. É como se o meu espírito se tivesse separado do meu corpo, quando me saem da boca
palavras que não significam nada para mim.
— Minha mãe se sentiria orgulhosa de estar aqui e ver o ânimo e o comprometimento com que
vocês investem sua energia na empresa.
Não tenho a menor ideia se minha mãe teria realmente pensado isso. Nem
sequer a conhecia verdadeiramente.
Algo se contrai no meu peito. Por um instante, considero a ideia de sair daqui a correr, sem dizer
palavra, mas não posso. Não tenho outro remédio senão
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suportar a próxima hora. Não interessa como.


— Sinto-me contente por, no futuro, poder fazer o que minha mãe fez e amou
fazer a vida toda. Nunca conseguirei chegar perto dela, mas tentarei seguir o
exemplo dela o melhor que puder.
Meu olhar cruza com o do meu pai. Pergunto a mim mesmo se ele verá a mentira em meus olhos e
perceberá que tudo isso é puro teatro. Porque não passa disso. Um espetáculo em que tudo é estudado
e em que não há nada autêntico.

No meu peito, não parece haver espaço suficiente para oxigênio e, de repente,
ele fica comprimido e é difícil para mim respirar. Torno a pensar em Ruby. Ruby,
que me diz que posso fazer o que quiser. Ruby, que semeou em mim a crença de
que sou capaz de determinar por mim mesmo uma vida cheia de possibilidades.

— Posso afirmar com total certeza que, convosco como colegas, o futuro só
pode ser coroado de sucesso.
Antes de voltar a sentar-me, inclino-me diante dos presentes. Um par de rostos
críticos suavizou-se um pouco enquanto eu falava, e tornam a soar aplausos.

Dirijo meu olhar para meu pai e um calafrio percorre meu corpo. Ele me faz um
gesto de assentimento, evidentemente satisfeito com minhas palavras. Nunca me
senti uma marionete tão grande como hoje.
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14

Rubi

Leio o e-mail uma vez.


Outra.
E uma terceira.
Volto a lê-lo uma e outra vez, até que as letras fiquem indistintas e eu tenha que
piscar.
- Mãe! - exclamo.
A minha mãe emite um som inquisitivo. Está sentada ao meu lado na mesa da
cozinha e folheia uma revista de decoração, ensimesmada.
— Mamã — repito, agora com mais veemência, aproximando dela o portátil
com o e-mail aberto.
Levanta os olhos.
— Que foi?
Prendo a respiração enquanto aponto ansiosamente para o laptop. O olhar de minha
mãe segue a direção indicada pelo meu dedo. Os olhos dela procuram a tela. Ele
para, olha para mim e depois volta a olhar para a tela. Um instante depois, ele cobre
a boca com a mão.
— Não — diz-me com a voz abafada.
É isso.

— Acho que sim.


— Não!
- Tentar!
A minha mãe levanta-se de um salto e atira-me os braços ao pescoço.
— Estou tão orgulhosa de ti...!
Rodeio minha mãe com os braços e fecho os olhos. Tento fazer o que sempre fazia
quando era pequena: me concentro, para guardar esse momento na memória para
sempre. Deixo-me impregnar pelo cheiro de minha mãe, pelo aroma do forno, pelo
perfume das madeleines recém-feitas e pela imensa alegria que percorre meu corpo
quando me dou conta de que o maior dos meus
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sonhos já está ao alcance da minha mão.


— Estou tão contente... — murmuro contra o ombro dela.
A minha mãe acaricia-me as costas.
— Conquistaste-o, Ruby.
— Tenho que procurar bolsas — digo a ela, sem soltá-la.
O abraço dela torna-se ainda mais firme.
— Tens tempo para pensar nisso depois. Agora não. Agora...
A campainha da porta interrompe-a.
— Você vai abrir? — ele me pergunta, se afastando de mim. — Com certeza Ember esqueceu a
chave de novo. Assim, você mesma pode dar a ela esta notícia maravilhosa.

Assinto e dobro a esquina do corredor tão rápido que o tapete escorrega no chão de
madeira e bato o ombro no armário. Mas nem isso o impede de abrir a porta com uma
expressão resplandecente...
Para ficar imediatamente gelada.
O James está à minha porta. Está a passar a mão pelo cabelo e para a meio do gesto. Tem as
maçãs do rosto ligeiramente coradas e a respiração forma pequenas nuvens no gélido ar invernal.
Usa um fato aos quadrados cinzento e uma gravata preta. Pelos vistos, saiu de uma reunião
importante ou vai a caminho dela.

Apetece-me fechar-lhe a porta no nariz.


E, ao mesmo tempo, apetece-me atirar-me para os braços dele.
Talvez seja bom não estar em posição de fazer nada. Limito-me a ficar a olhar
para ele enquanto sinto que o meu coração vai acelerando.
— Eu... — começa a dizer, mas a voz quebra-se-lhe.
Lembro-me do dia em que apareceu aqui, com o pretexto de me trazer um vestido
para a festa de Halloween. Nesse dia, também travou uma batalha semelhante consigo
mesmo à minha frente: os sentimentos querem sair de dentro dele, mas, de alguma
maneira, não pode permitir-se isso.
— Não aguento mais, Ruby! — exclama, sem ser capaz de continuar a conter-se, abanando a
cabeça e levantando os olhos para mim. — Não aguento mais.

Ele diz isso em um tom quebrado e exausto. Triste e quebrado. Como se tivesse
acontecido alguma coisa que já não tem conserto.
É evidente que você não pode estar sozinho, mas, simultaneamente, me irrita que
você esteja aqui. Sou a última pessoa a quem você deve acudir quando tiver problemas.
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Por que você vem me destruir neste momento? Eles acabaram de me admitir para estudar em Oxford,
porra. Eu deveria estar dançando pela casa, em vez de me deixar abater pelo sofrimento dele. Nosso
relacionamento acabou: ele acabou com ela. E não deveríamos retroceder novamente e nos apegar
obstinadamente a algo que não existe mais.

— Não aguentas mais o quê?


— Acabo de vir de uma reunião na Beaufort. Lydia está grávida.
Aceitaram-me em Oxford. Estou... estou a endoidecer.
O peito de James sobe e desce rapidamente, como se ele tivesse corrido uma
maratona. E é possível que você se sinta como se tivesse feito isso. Sei que ele está
sob uma pressão terrível imposta a ele pelo pai e, neste instante, parece que vai cair
de joelhos de uma hora para outra.
Respiro fundo com força.
— Eu entendo o quão difícil deve ser para você, mas... eu não sou a pessoa a quem
você deve recorrer quando as coisas dão errado com você — digo a ela com a maior
suavidade possível.
Sobe rapidamente os degraus da escada da entrada até ficar mesmo à minha frente. Tem os olhos
escuros e um olhar de desespero. Nunca o tinha visto assim.

— Não consigo mais me manter afastado de você. Você é a única pessoa que
realmente me entende. Preciso de você. E quero lutar por nós, porque te pertenço. Eu
sempre serei seu, Ruby.
Agarro-me com força à ombreira da porta e olho para ele, totalmente desconcertada.
O meu corpo é invadido simultaneamente pela esperança, pela dor e pela raiva, uma
mistura caótica que acelera os batimentos do meu coração e que agita todos os meus
pensamentos.
Não posso acreditar no que acaba de me dizer.
Não posso acreditar que tente arruinar a minha vida outra vez.
De repente, fico furiosa. Como você ousa voltar a colaborar com a comissão
de eventos? Como se atreve a destruir-me neste momento?
— Não — respondo, fazendo um grande esforço e, ao mesmo tempo, abanando
negativamente a cabeça. — Não.
— Por favor, Ruby, eu...
— Sabes de que é que eu preciso, James? — interrompo-o. — Preciso de paz.
Preciso de tempo para mim, para te esquecer. Desejo que consigas ser feliz e que
confirmes que não deves deixar que o teu pai determine o que deves fazer
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com a tua vida. Mas não posso ajudar-te.


O James faz um movimento com a cabeça.
— A vida corre-me melhor quando estás ao meu lado. Nessa altura, sou
feliz... sem mais.
— A minha vida não consiste em fazer-te feliz, porra! — grito-lhe.
O James estremece e recua um passo. Escorrega no degrau de cima e parece que vai
perder o equilíbrio, mas recupera-o no último instante. Olha para mim, e os seus olhos refletem
uma comoção tão indescritível que fico sem fôlego.
— James — digo, com a voz quebrada.
Ele abana a cabeça.
— Não, tens razão. Eu... não devia ter vindo.
Sem dizer mais nada, ele dá meia-volta e desce a escada. Atravesse rapidamente o jardim
até chegar à pequena porta de madeira. Abre-a, sai e torna a olhar para mim. Seus olhos estão
vidrados, como se estivessem cheios de lágrimas — não sei se isso se deve às minhas
palavras ou ao vento cortante. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele se vira e vai
embora.

James

As luzes coloridas da discoteca dançam ao ritmo da música sobre os rostos dos meus amigos
enquanto o baixo da canção ressoa nos meus ouvidos e me sacode o corpo todo.

Estou sentado na sala, em um sofá confortável, e observo Alistair, Kesh e Cyril, que dançam com
um grupo de garotas não muito longe de mim. Wren também ficou sentado. Acho que os meninos
viram meu rosto e decidiram que, esta noite, não podem me deixar sozinho. Como se eu fosse uma
maldita criancinha.

— Está tudo bem, meu?! — grita-me de repente o Wren ao ouvido.


Levanto uma sobrancelha. Normalmente, Wren é o último a querer falar sobre sentimentos.
Antes pelo contrário. Há anos nós dois estamos aperfeiçoando a técnica de enterrar os
problemas. É uma das razões pelas quais somos tão bons amigos.

— Não olhes assim para mim. Só estou preocupado contigo.


Só entendo uma ou duas palavras, mas o olhar dele me diz tudo. Antes, quando entrei na
boate, todos se deram conta de que tinha acontecido alguma coisa. Sem me dizer nada, Cyril
me estendeu um copo de gin tônica
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no qual, depois de uma longa hora, ainda não toquei. A vontade de bebê-lo de um só
gole é forte. Talvez assim as palavras de Ruby parassem de soar em meus ouvidos,
se repetindo sem parar em minha mente.
«A minha vida não consiste em fazer-te feliz, porra!»
Compreendo a raiva dela, tem todo o direito de gritar comigo. Ir a casa dela foi uma
espécie de ato irrefletido, que nem eu próprio sou capaz de explicar a posteriori.

Detesto essa situação. Eu odeio não ter ido à casa dela naquela quarta-feira, em
vez de Cyril, e não passa nem um dia em que eu não deseje ter uma máquina do
tempo para dar ré em relação a tudo o que aconteceu.
Com a Ruby, posso falar, mas eu e os meus amigos sempre vivemos segundo um
lema: esquece o mais depressa que conseguires, custe o que custar.
Afasto os olhos de Wren e contemplo o copo. O barulho da música não é suficiente
para silenciar meus pensamentos e, por um tempo, luto comigo mesmo. Olho para
os outros. Cyril e Alistair estão dançando com duas garotas, enquanto Kesh está
apoiado em uma parede, perto deles, tomando pequenos goles de sua bebida. Eu
penso se devo me levantar e ir até eles, mas é como se eu tivesse alguns pesos de
chumbo pendurados no corpo. Tenho que aplicar quase todas as minhas forças para
me inclinar para a frente, para colocar o copo intocado em cima da pequena mesa
de madeira diante de mim.
— Toda a minha maldita vida está indo por água abaixo — respondo-lhe, por fim.
Não sei se Wren me ouviu. Sem contar o barulho da música, já tomou uns drinks.
Mas ele pousa atentamente os olhos castanho-escuros sobre mim enquanto continuo
a falar. — Não posso fazer nada para evitar isso.
Aparentemente, ouviu-me, porque se aproxima um pouco mais de mim, põe-
me a mão no ombro e aperta-mo.
— Meu, fazes o que fizeste toda a tua vida.
— Que é?...
Os cantos dos lábios do Wren se levantam em um sorriso irônico.
— Andar para a frente. Se houve alguma coisa que aprendi sobre ti nestes últimos
anos, foi isso.
Engulo em seco.
— Sempre que estou prestes a jogar a toalha, penso nisso. E isso me ajudou
nesses últimos dias — continua.
Meu olhar se dirige novamente para o copo de gin tônica. Pergunto a mim mesmo
o que, no meu caso, significa andar para frente. Esquecer Ruby
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e fazer de conta que nada aconteceu? Ou lutar por ela?


— Sei que neste momento você está passando muito mal, mas agora deveria ser você a
me perguntar o que aconteceu comigo nesses últimos dias — ele me diz.
As palavras do Wren fazem-me levantar os olhos.
— Quê? — pergunto-lhe, desconcertado.
Olha para mim de cenho franzido. Então ele bufa e esfrega a nuca.
— Não está acontecendo nada. Esquece. — Ele se levanta e aponta com o queixo para
a pista de dança, onde nossos amigos estão banhados por uma luz azul e lilás.
Fazem movimentos relaxados, como se nada no mundo os preocupasse.
Desde que tenho uso da razão essa é a nossa especialidade. Fingir que nada nem
ninguém pode nos afetar. Como se a vida fosse um jogo em que nada tivesse muita
duração ou significado. Nas últimas semanas, aprendi que nos entregamos a uma ilusão.
Todo mundo é vulnerável e todo mundo tem algo a perder.

Faço um gesto negativo, mas Wren não aceita um não. Ele pega minha mão e me puxa,
para me levantar do sofá e me levar para a pista. Os meninos dão gritos de júbilo quando
nos veem e abrem o círculo para que possamos nos juntar a eles.
Durante algum tempo, tento mover-me ao ritmo da música, mas não consigo.
Estou prestes a pedir desculpas a eles e dizer que estou indo embora, quando alguém
fica atrás de mim e passa um braço em volta da minha barriga.
Franzindo o sobrolho, dou meia-volta e vejo o rosto... da Elaine Ellington.
— James! — exclama por cima da música, sorrindo para mim.
Usa o cabelo cor de mel solto e a rodear-lhe o rosto um pouco vermelho por estar a
dançar. Liberto-me do braço dela o mais depressa possível e saio da pista, voltando para
o nosso canto da sala. Quando lá chego, sinto-me estranho e ansioso. Peço uma água e
deixo-me cair no sofá.
Ver Elaine foi como levar um chute na barriga. A lembrança daquela tarde na piscina de
Cyril, que já me persegue vinte e quatro horas por dia, de repente ficou tão presente que
me senti invadido por uma sensação de nojo.
No entanto, não contei com a reação da Elaine. Passado um bocado,
aproxima-se de mim e senta-se ao meu lado com as pernas cruzadas.
— Pode saber-se que tipo de cumprimento foi aquele? — pergunta-me, passando a mão
pelo cabelo.
Tem um brilho divertido nos olhos. Está tão próxima que quase nos tocamos.
Desliza um pouco para mais perto de mim. Todo o meu corpo se imobiliza quando o cheiro
do perfume dela me penetra no nariz.
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— Eu só queria te dizer como eu sinto muito pelo que aconteceu com sua mãe. Se algum dia
você quiser conversar ou qualquer coisa assim, eu sempre estarei pronto para te ouvir.
— Ele coloca a mão em cima da minha perna e sobe devagar pelo tecido da calça.

— Chega, Elaine! — digo-lhe num tom firme, afastando-lhe a mão. Ao


mesmo tempo, chego-me para o lado e olho para ela com uma expressão séria.
— Fiz alguma coisa de mal? — pergunta-me, surpreendida.
Abano negativamente a cabeça.
— Não. Fui eu que fiz tudo mal — respondo-lhe.
A Elaine levanta uma sobrancelha.
— Que se passa contigo?
Encolho os ombros, mas não digo nada.
Ela fica a olhar para mim durante uns segundos e depois abana negativamente a cabeça.

— Já tiveste melhores dias.


— Sinto muito — digo a ele —, mas não posso continuar fazendo isso.
Afasta-se um pouco de mim. — É
uma pena! — exclama, levantando-se. — Sempre passei muitos bons momentos contigo.

Ela fica parada momentaneamente, como se esperasse que eu a retivesse. Como não faço
nenhum gesto e apenas fixo os olhos para frente, ele vai embora para a pista de dança sem
dizer palavra.
Me reclino no sofá e olho para o teto da boate. Pela primeira vez, me dou conta de que tem
umas pequenas luzes que pretendem representar estrelas.
Automaticamente, enfio a mão no bolso das calças para pegar na carteira. Abro-a distraidamente
e tiro a folha que está escondida atrás do bilhete de identidade.

Nas últimas semanas, evitei ler a lista por medo de depois me sentir pior do que antes.
Levanto a folha de maneira que as luzinhas do teto quase se veem através dela. Leio, ponto
por ponto, o que Ruby e eu escrevemos juntos.
Engulo com dificuldade e, subitamente, apercebo-me de quão seca tenho a garganta.

Ninguém na minha vida jamais se interessou tanto por mim quanto Ruby. Eu nunca tinha tido
ninguém em quem pensar assim que acordasse e cujo rosto eu me lembrasse antes de dormir.
E nunca houve ninguém que quisesse que meus sonhos se tornassem realidade.
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Tudo o que aconteceu mudou-me. Já não sou a pessoa que era antes. Contudo,
se há alguma coisa pela qual quero lutar, é pela Ruby.
Com essa ideia em mente, dobro a lista novamente e a seguro firmemente na
mão enquanto saio da boate.
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15

Rubi

— À Ruby! — grita o meu pai.


— E à Lin! — acrescento a seguir, sorrindo para a minha amiga.
— E à Lin! — repetem a minha mãe, o meu pai e a Ember em coro.
Meu pai teve a ideia de fazer uma festinha de comemoração de Oxford em nossa casa, para
brindar meu sucesso e o de Lin. Quando minha mãe e eu contamos, a princípio ela não
acreditou e pediu que mostrássemos o e-mail. Enquanto o lia, ia murmurando «não» uma e
outra vez e, depois, abraçou-me com tanta força que, quatro horas mais tarde, ainda me doíam
um pouco as costelas.

— Eu não posso acreditar que eles nos aceitaram — murmuro para Lin, por cima
do rebordo da flute de champanhe.
— Nem eu.
A ideia de poder passar os próximos três anos com a minha amiga faz-me sentir borboletas
de alegria na barriga. Estou tão contente que me sinto como se isto fosse irreal.

— Agora temos que nos esforçar ainda mais, Lin — digo a ele.
— Vocês não podem passar uma tarde simplesmente curtindo? — pergunta-nos Ember.

Os meus pais riem-se enquanto eu e a Lin trocamos um sorriso cheio de


arrependimento.
— Você tem razão — admito. — Mas ainda há muitas coisas que podem dar errado!

A Lin pousa a flute de champanhe em cima da mesa da sala e pega num nacho,
o único aperitivo que conseguimos arranjar rapidamente.
— Temos que tirar notas excelentes em todas as matérias e só depois disso a entrada é
garantida.
— E, além disso, têm de me dar uma das bolsas — acrescento a meia-voz, tentando reprimir
o pânico que me invade só de pensar nisso. A assessora de
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estudos de Maxton Hall me garantiu, mais de uma vez, que minhas possibilidades de ser
bolsista são muito boas e que ela, se estivesse no meu lugar, não se preocuparia. Mas é
fácil falar.
As maçãs do rosto da Lin empalidecem e pousa o nacho mordido ao lado da flute.

— E se eu tirar nota ruim em alguma matéria? Com certeza minha avó retira a oferta
de me ajudar com o curso.
— Meninas, façam o favor de comemorar a notícia, em vez de estarem a preocupar-se
dessa maneira! — A minha mãe está sentada à nossa frente, no sofá de flores, e observa-
nos enquanto abana a cabeça.
Lin e eu trocamos um olhar de angústia antes de pegar as taças ao mesmo tempo e
tomar um grande gole. — É provável que não
tivessem admitido para vocês se fossem diferentes, não é? —
comenta a Ember com um sorriso.
Não estranhou que nos tivessem aceitado e tentou mostrar-se contente por mim, mas
sei o quanto lhe custa que me vá embora de casa, porque, embora Oxford não seja
longe, é diferente estarmos separadas por meio corredor ou por uma viagem de trem de
duas horas. Minha irmã odeia mudanças e tenho bastante certeza de que, se dependesse
dela, viveríamos nesta casa para sempre, até o fim de nossos dias.

Contudo, embora no decurso do dia o estado de espírito da minha irmã me entristeça


um pouco e me sinta nostálgica perante a ideia de ter de mudar de casa, a alegria de me
terem admitido ultrapassa isso em larga escala. Além disso, desde que James veio aqui,
decidi que nada nem ninguém jamais roubará essa alegria de mim novamente.

Depois que a garrafa de champanhe foi esvaziada, Lin e eu deixamos meus pais
assistindo TV e subimos para o meu quarto.
— Oh, merda — murmura a Lin quando fecho a porta. Fica a olhar para o
celular e, sem levantar os olhos, senta na cadeira da minha mesa.
— Que é que se passa? — pergunto-lhe.
— Nada.
Responde-me tão depressa que fico alerta.
— Que é que se passa?
Encolhe os ombros.
— Pelo jeito, eles também admitiram Cyril.
Hesito momentaneamente e, depois, confesso num murmúrio:
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— E o James.
— Sério? Então metade do grupinho do James já entrou em Oxford. Alistair e Wren
também anunciaram isso no Instagram. — Lin continua escrevendo no celular. Eu espio a
tela e vejo uma imagem de um cara meio nu que tenho bastante certeza de ser Cyril.

Pronto, não aguento nem mais um segundo. Há meses suspeito de que, entre Lin e Cyril,
está acontecendo algo que ninguém sabe. A maneira como vocês se comportam um com o
outro é muito significativa. Por muito tempo, pensei que eles se detestavam, mas a essa
altura, tenho certeza de que isso faz faísca quando eles discutem verbalmente.

— O que você está fazendo? — pergunto a ele com cuidado enquanto me sento na cama
com as pernas cruzadas.
Levanta os olhos, apanhada com as mãos na massa.
— Nada.
— Já é a segunda vez que você me responde "nada" tão rápido que eu não acredito em você.

A Lin mordisca o lábio inferior e torna a olhar para o celular. Tem as maçãs
do rosto vermelhas como um tomate.
— Venha para cá — digo a ele, batendo energicamente no espaço ao meu lado.

Lin lança um olhar cético para o lugar onde minha mão está pousada, mas se levanta
lentamente e, em silêncio, vem até mim. Enquanto ela apoia as costas na cabeceira da
cama, dobra as pernas e as envolve com os braços, eu me viro para ela e olho para ela
com uma expressão expectante. Põe as mechas de cabelo preto atrás da orelha. É como
se você não soubesse por onde começar.
— Eu sei que você não gosta de falar desses assuntos — digo suavemente —, mas
você sempre pode me contar tudo que te preocupa.
A Lin engole em seco.
— Não há muito para contar.
Quase se diria que ela sente timidez, um atributo que desconheço nela. Lin é uma pessoa
muito forte e muito segura de si, que sempre se responsabiliza por seus atos e sua opinião,
sem se preocupar com o que as outras pessoas pensam. Vê-la assim, agora, de repente
me deixa inquieta.
— Desde os treze anos eu gosto imensamente de Cyril.
Fico de olhos esbugalhados.
— A sério?
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Anui lentamente.
— Quando cheguei a Maxton Hall, Cyril e eu tínhamos algumas matérias juntos. Ele... nem
sempre foi como é agora. Naquela época, ele era atencioso e carinhoso.
Fazia-me rir a sério. Não consigo explicar exatamente o que é que me fascinava tanto, mas
gostei dele desde o início.
Por um breve instante, ele fica em silêncio e olha para os joelhos. Eu gostaria de animá-la
de alguma forma, mas me contenho. É a primeira vez que você me conta algo sobre sua vida
sentimental e eu tenho que lhe dar o tempo que você precisa sem interrompê-la.

— Por outro lado, desde que eu conheço Cyril ele está apaixonado por Lydia, portanto, já
naquela época era evidente que nosso relacionamento não daria em nada. Apesar de tudo,
fiquei desfeita quando algo aconteceu entre os dois.
Nunca anunciaram de forma oficial, mas você já sabe o quão rápido uma notícia dessas corre
pelo colégio. Depois que ela o rejeitou, eu o consolei. Uma coisa levou a outra e... — Ele dá
de ombros, impotente, e abraça os joelhos ainda mais forte.

Parece tão triste que pergunto a mim mesma como é possível que não me
tenha dado conta disso.
— Foi só uma vez ou foram mais? — pergunto-lhe timidamente.
Lin balança a cabeça negativamente e dá uma risada.
— Desde há dois anos que dormimos juntos semana sim, semana não.
Fico de boca aberta. Torno a fechá-la. Não posso acreditar que ela tenha guardado isto para
si e que não me tenha contado nada.
— Eu... alguém sabe?
A Lin torna a abanar negativamente a cabeça.
— Não. Para mim, está bem claro que para Cy só existe Lydia. E eu não me importo, mas é
por essa razão que não quero que nada seja conhecido. Eu gostaria de manter alguma
dignidade, e nos esforçamos para não ser vistos juntos nem nada parecido. — Ele hesita
momentaneamente. — Além disso, o assunto já se resolveu sozinho.

— Que queres dizer?


— Desde que Cordelia Beaufort morreu ele não me ligou de novo. É possível que ele esteja
ocupado consolando Lydia. — Faz um gesto de resignação.
— Não responde às minhas mensagens e, no colégio, está sempre com ela.
— Eu... — Interrompo-me e abano a cabeça. — Não foi estranho para ti
comemorares a noite de Ano Novo com a Lydia?
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A Lin esboça um pequeno sorriso.


— Simpatizo com a Lydia. E ela não pode fazer nada quanto a o rapaz de quem eu gosto ser
precisamente aquele que está perdidamente apaixonado por ela.

— Não sei o que dizer.


— Não importa, Ruby, sério. Eu só queria que ele fosse sincero comigo. Acho que não mereço
esse silêncio. Você poderia ter me dito que Lydia lhe deu outra chance ou seja lá o que for.

— Não acho que seja essa a causa.


Torna a encolher os ombros.

— Devia ser-me indiferente. Também não é que eu esteja loucamente


apaixonada por ele.
Embora o tom de voz dela seja despreocupado, percebe-se pela tristeza do
olhar que está a mentir.
— O Cyril é um sacana se não é capaz de te telefonar e se não sabes em que
ponto está a relação de vocês — digo a ele, indignada.
— Sei que dá essa impressão, mas nós dois sabíamos no que estávamos nos metendo. Ele
nunca me prometeu nada, e eu também não prometi nada a ele. E ele pode ser verdadeiramente
fantástico, natural e divertido. E carinhoso... — Lin cora e enterra o rosto nas mãos.

— É evidente que aí há mais qualquer coisa do que apenas atração física, Lin.
— Eu sei! — exclama enquanto olha para mim por entre os dedos levemente abertos. — Acabei
de me dar conta, neste momento, de que há séculos não o vejo fora do colégio. Tenho saudades
dele.
Quando diz estas últimas palavras, parece tão enojada que não consigo evitar sorrir.

— Já falaram disso alguma vez? Quero dizer, a fundo — pergunto-lhe com suavidade.

Abana negativamente a cabeça e cora.


— Eu e o Cyril não falamos muito quando nos encontramos.
Oh, céus!
— Há muito tempo que somos amigas e não sabia de nada. Sinto-me
terrivelmente má amiga.
— Você é uma amiga fantástica. Mas eu não queria contar nada pra ninguém, porque... não sei,
não faço ideia. De certa forma, ser uma coisa secreta tinha sua graça. Mas agora, quando,
aparentemente, tudo acabou, eu me sinto
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pessimamente. — Dá um suspiro profundo. — No fundo, somos iguais, Ruby.


Não queríamos começar nada de sério antes de irmos para Oxford. É
outra das muitas coisas que nos unem.
— E, agora, aceitaram o James e o Cyril em Oxford — murmuro.
- Sim.
Ficamos caladas durante uns minutos, absortas nos nossos pensamentos.
Quando mudei para Maxton Hall, perdi todos os amigos da minha antiga escola. Propus-
me a só ter amizades superficiais e a não me envolver em nada.
Não queria dedicar energia a algo que, depois, me tornariam a tirar.
Contudo, isso mudou quando conheci a Lin. Embora continue a ter medo de que esta
amizade também seja algo fugaz, estou preparada para correr o risco.
Algo que esta conversa confirmou uma vez mais.
Pego na mão da Lin e aperto-lha um pouco.
— Podes falar comigo seja do que for. Quero que saibas isso.
Eu nunca tinha dito isso a ele e é surpreendentemente difícil para mim expressá-lo em
palavras. Não porque não sejam as palavras corretas, mas porque significam muito para
mim.
— Obrigada. Digo-te o mesmo — responde-me com a voz rouca e muito comovida.
Roda a mão, de maneira a entrelaçar os nossos dedos. — Além disso, estou a falar a
sério. Podes falar comigo sobre o James sempre que quiseres. Ou sobre qualquer outra
coisa.
Mordisco o interior da bochecha e penso no que aconteceu hoje ao meio-dia, com o
James parado à minha porta, e em tudo o que me disse.
«Serei sempre teu, Ruby.»
As palavras dele abanam o chão debaixo dos meus pés. Parecia tão decidido... como
se, na vida dele, não houvesse nada mais importante do que voltar a
recupere-me.
— Hoje, ao meio-dia, o James veio cá — confesso passado um bocado.
A Lin aperta-me a mão com mais força e olha para mim com uma expressão inquisitiva.

— Que é que queria?


Encolho os ombros.
— Disse-me que precisa de mim. Que sou a única pessoa que o compreende.
E que podia ser feliz se estivesse comigo.
A Lin respira fundo sonoramente.
— E?...
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Torno a encolher os ombros.


O que eu disse ao James foi a sério: não me compete preocupar-me com que ele seja
feliz, mas arrependo-me de ter gritado com ele. Era evidente que não estava bem e é
provável que, realmente, eu seja a única pessoa capaz de compreender porquê. Em
Oxford, disse-me que nunca tinha falado com ninguém sobre os medos que tem em
relação ao futuro, e posso imaginar o que terá significado para ele ser aceite em Oxford e
a reunião na Beaufort. No entanto... já não estamos juntos. Não pode sobrecarregar-me
com essa responsabilidade. Não posso ser a única pessoa a dar sentido à vida dele. Não
deve ser esse o objetivo da nossa relação.

— Quero apoiá-lo, mas, ao mesmo tempo, não sei se consigo — murmuro.


— Eu compreendo — responde-me a Lin. — Mas... também vejo como ele olha para ti
nas nossas reuniões. Acho que está firmemente decidido a reconquistar-te.

Abano negativamente a cabeça.


— Isso é o que ele quer agora. James é muito inconstante, com certeza, daqui a duas
semanas, acontece alguma coisa que muda a vida dele e ele vai sumir, vai fazer alguma
loucura ou alguma coisa que nos prejudique e... o que você quer que eu te diga... não
estou preparada para isso. Não vou permitir que você me machuque novamente.

Digo as últimas palavras com tanta energia que a Lin olha para mim com uma
expressão surpreendida.
— É precisamente por isso que te admiro.
Pestanejo, perplexo.
— Porquê?
Lança-me um sorriso.
— Vejo com toda clareza o quanto te machucou o que aconteceu com James, o quanto
você sofre por ele e pela família dele. Você ficou ao lado dele depois de se machucar
profundamente e, agora, busca forças na fraqueza e se concentra em si mesma. Acho
que é admirável.
Nos lábios de Lin, tudo isso soa muito mais heroico do que eu me sinto. Solto
uma expiração trémula.
— Hoje disse-lhe umas quantas coisas bastante feias.
— Ainda gostas dele? — pergunta-me de repente a Lin.
Estremeço.
Penso no que disse ao James na noite de Ano Novo. Sou incapaz de deixar de
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o amar. Estes sentimentos não desaparecem, por muito que desejemos que isso aconteça.

— Sim — murmuro.
A Lin lança-me um sorriso triste. — É
absurdo não podermos terminar uma relação e pronto, não achas?
Solto um grunhido de assentimento. — É
indiferente. Acho que chegou o momento de voltarmos ao verdadeiro
objetivo desta tarde: comemorar a nossa admissão.
Ela anui veementemente e aperta-me novamente a mão, antes de a largar.
— Tens razão.

Pego o laptop e abro a página de Oxford. Passamos as próximas horas olhando as residências,
lendo vários fóruns e fazendo uma lista das coisas que podemos fazer juntas quando estivermos
matriculados em Oxford.
No entanto, por muito que tente distrair-me, as palavras do James continuam a soar na minha
cabeça durante toda a tarde.
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16

Rubi

Passei o fim de semana inteiro, por um lado, contente por eles terem me admitido em Oxford e,
por outro, me perguntando como devo me comportar na segunda-feira se James for à reunião
do comitê de eventos. A essa altura, cheguei a um ponto em que tenho que reconhecer que
minha resolução de Ano Novo, de cortar enfaticamente James, falhou. Ele está em toda parte.
Quando ele não está pessoalmente, ele está em meus pensamentos, e não acho que isso vá
mudar em um futuro próximo, menos ainda quando, dois dias depois, a memória das palavras
dele ainda me dá um formigamento em todo o meu corpo. É justamente esse formigamento que
sinto quando entro com Lin na sala, depois do intervalo da hora do almoço, e
James está sentado no lugar de sempre, como costuma fazer ultimamente, com um livro na
mão. Desta vez, é o último romance do John Green, como comprovo com curiosidade antes de
afastar rapidamente os olhos e de pedir à Lin para revermos a ordem do dia juntas, até os outros
chegarem.

Os minutos esticam-se como uma chiclete, mas, por fim, a Camille chega e podemos começar
a reunião.
— Doug — começa a Lin —, as pessoas estão a gostar muito dos cartazes. Já
recebemos vários elogios.
Doug lhe dá um sorriso mínimo, mas, pelo menos, é mais do que ele dirigiu a
qualquer outro nas últimas reuniões.
— Talvez até possamos chamar a atenção de um ou outro patrocinador através deles.

É isso.

— Quanto ao resto, a lista de convidados parece muito boa. No entanto, a única coisa que me
preocupa um pouco é que ainda estamos perdendo palestrantes.
E não nos resta muito tempo — comento. — Kieran, o professor com quem você queria falar
ligou para você?
— Sim — responde-me o Kieran, embora pareça bastante perturbado e eu
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suspeite do que vai dizer. — Infelizmente, você não tem tempo. No entanto, ele se
mostrou disposto a fazer uma doação generosa.
— Tudo bem, não importa. Você sempre conseguiu alguma coisa. — Lanço-lhe um
sorriso animador. — Mais alguém teve sucesso com os contactos?
Ficam todos calados.
— Bem, então...
O James pigarreia.
Por momentos, luto comigo mesma. Não quero olhar para ele, mas também não posso
ignorá-lo. Isso só levaria a que os outros me fizessem perguntas às quais não quero
responder. Ou não posso responder.
— Sim, Beaufort. — intervém a Lin em meu lugar.
— A Alice Campbell ofereceu-se para fazer o discurso final.
Levanto a cabeça.
O aspecto do James me desperta a atenção. Só agora percebo o quão pálido você está.
Além disso, ela tem alguns círculos escuros sob os olhos, como se não dormisse desde sábado.

Ainda estou arrependida por tê-lo tratado de forma tão desagradável. Ele não merecia
e eu gostaria de poder falar com ele de forma serena novamente e explicar por que eu
fiquei tão bravo quando o vi na porta da minha casa.
Devo ter a má consciência refletida no rosto, porque James aperta um
pouco os olhos antes de continuar a falar como se nada se passasse.
— Há alguns anos, o centro ajudou muito a ela e à família a reconstruir a vida.
Você ficará feliz em poder nos apoiar durante a gala. Disse a ele que você ligaria para
ele, para combinarem os detalhes.
Fico a olhar para ele, sem acreditar. Quando um sorriso pequeno, mas satisfeito, se
desenha no rosto dele, sei que isto não é uma simples coincidência.
Ele se lembrou de eu ter contado a ele um pouco do quanto eu admirava Alice Campbell
e o trabalho dela.
Não sei o que fazer com esta informação. Quanto mais penso nisso, mais
aumenta o meu desejo de voltar a falar com ele tranquilamente.
Penso seriamente numa maneira de o reter por momentos depois da reunião.
— Fantástico, Beaufort, sério — Lin o parabeniza, depois do meu longo silêncio. —
Você não sabe o quanto eu te agradeço. Se ainda tiver mais pessoas que possamos
contatar, avise-nos.
O James torna a pigarrear.
— Boyd Hall já está preparado. O zelador Jones já foi informado de que,
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na próxima sexta-feira, às quatro da tarde, a empresa de decoração virá ao colégio.

Por alguns instantes, o silêncio reina na sala.


— Comparado com o pouco que gostavas deste trabalho ao princípio, agora
estás envolvido ao máximo — comenta a Jessalyn.
O James não lhe responde e, em vez disso, olha para mim de uma forma que
faz me faz ficar com pele de galinha.
— É precisamente depois da reunião — diz a Lin. — Sugiro irmos juntos,
parece-vos bem?
Um murmúrio de aprovação percorre a sala.
— O próximo ponto é a cabina fotográfica — anuncia a Lin, arrancando-me
dos meus pensamentos.
De repente, uma ideia surge na minha cabeça. Me parece arriscada, mas também
emocionante. Isso me daria a oportunidade de falar com James e pedir desculpas a ele.
Longe do olhar crítico de Lin e dos ouvidos curiosos de Camille.
— Exatamente. — Pigarreio. — No sábado, os meus pais vão emprestar-me o carro e posso
ir buscá-la. Embora as peças devam ser bastante pesadas. — Recorro a toda a minha coragem
e olho para o James. — James — digo num tom firme —, importas-te de vir comigo buscar a
cabina fotográfica?
Por uma fração de segundo, os olhos dele brilham de surpresa, mas depois
anui e diz-me, como se a minha pergunta não tivesse nada de especial:
— Claro que não.
Não faço caso do pequeno suspiro que Camille dá, nem do olhar expressivo que Lin me
lança. Em contrapartida, passo o resto da reunião olhando minha agenda e me perguntando
o que diabos eu acabei de fazer.

No sábado, quando vou para o estacionamento do Maxton Hall, James já está me


esperando. Ele usa jeans, uma jaqueta preta e um cachecol cinza. No momento, ele está
soprando nas mãos para aquecê-las e, automaticamente, me pergunto há quanto tempo ele
estará lá.
Quando me vê, abaixa as mãos e abre um sorriso inseguro. Não tenho ideia do que isso
significa. É um sorriso novo. Um sorriso que o faz ficar rígido e de olhos tristes. Um sorriso
que apareceu depois da nossa separação, depois da morte da mãe e tudo o que aconteceu
desde então.
Tenho saudades do sorriso antigo.
Reprimo esse pensamento quando paro diante dele. Se quero que este dia
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corra da melhor maneira possível, tenho de me controlar.


— Bom dia — diz-me, sentando-se no banco do passageiro do monovolume.
Nosso carro é velho e bastante estragado, mas funciona, que é o que importa. Foi uma sorte
que Ember e eu o tenhamos limpado ontem à tarde, porque agora me dou conta de que há
algo peculiarmente íntimo na maneira como James olha para o interior do automóvel.

Quando descobre o ambientador Yankee Candle que baloiça no espelho


retrovisor, volto a ligar o motor.
— Minha mãe é louca por essas coisas — explico. — Ela adora perfumes florais, o que sempre
irrita minha irmã. Ember odeia o cheiro de rosas, mas nossa mãe adora.

Devia parar de falar bobagem. Afinal, há um motivo para eu ter pedido a James que me
acompanhasse. Mesmo assim, é difícil para mim abordar sem rodeios o assunto de nosso
relacionamento fracassado. Especialmente quando penso em todo o tempo que ainda temos
que passar juntos neste carro.
— Minha mãe também gostava muito de perfumes de flores.
Tenho muita dificuldade em manter os olhos na estrada, em vez de virar imediatamente a
cabeça para ele. Pelos vistos, o James não tem o menor problema em passar por cima das
conversas banais.
— Sentes a falta dela? — pergunto-lhe a meia-voz.
Precisa de um momento, antes de murmurar um assentimento.
— De certa maneira, sim. Sem ela, as coisas são diferentes.
— Até que ponto?
Pelo canto do olho, vejo-o encolher os ombros.
— Já não há um amortecedor entre mim e o meu pai. Agora é a Lydia que quer assumir essa
posição, mas tenho tentado tudo para que ela não tenha de o fazer. Não deve estar entre dois
fogos, muito menos agora.
— Como é que ela está? Não a vejo há semanas.
— Muito bem. Acho eu. — Hesita momentaneamente. — Gostava que ela contasse ao
Sutton. Embora, ao mesmo tempo, compreenda porque é que não o faz.

— Toda essa situação é muito complicada.


— Sim. — Fica quieto por um tempo e depois pigarreia. — E você, como é que está?

Não compreendo como é possível que uma conversa seja simultaneamente tão normal e tão
estranha.
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— Bem. Eu... — Pigarreio também. — Também me admitiram em Oxford.


— Já sabia. Teriam sido uns idiotas se te tivessem rejeitado — responde-me.
— Muitos parabéns, Ruby.
Lanço-lhe um olhar surpreendido, e ele devolve-me um olhar sério.
Não compreendo como faz. Um dia, ele está destruído e se planta na minha porta
tremendo, e, no dia seguinte, em Maxton Hall, encontra forças para fingir que nada
aconteceu. E agora também está completamente sob controle, embora eu saiba
que o último sábado não passou sem deixar marcas nele.
— Obrigada — murmuro. Durante uns minutos, procuro as palavras adequadas para expressar o que
quero dizer a seguir. Embora tenha tido tempo para pensar nisso desde segunda-feira, neste momento
tenho a mente em branco. — Lamento o que te disse no fim de semana passado — começo. — Foi...

— Rubi.
O James interrompe-me, mas abano negativamente a cabeça.
— Quero esquecer-te — digo em voz baixa. — Mas portar-me mal contigo não tornará isso mais fácil. A sério
que lamento. É importante para mim que o saibas.

Sinto-o olhar para mim.


— Não tens de me pedir desculpa por nada — murmura ele.
Não sei o que te responder. Eu disse as últimas palavras com amargura e
gostava de contradizê-lo, mas, por outro lado, também tenho medo de que a
conversa tome um rumo para o qual ainda não estou pronto. Queria pedir
desculpas a você e já o fiz. Acho que, por enquanto, não tenho energia para mais nada.
Consequentemente, fico quieta e aperto o acelerador. Entre nós, o silêncio fica
cada vez mais insuportável, até que não aguento mais e ligo o rádio. A música pop
alegre da emissora que minha mãe sempre ouve é justamente o oposto do clima
carregado que reina entre mim e James. Apesar de passarmos os quinze minutos
restantes da viagem em silêncio, não passa um segundo sem que eu não tenha
consciência da presença dele. Escuto sua respiração leve e o sinto se mexer ao
meu lado. E, embora o aquecimento não esteja muito alto, quase sufoco ao pensar
que bastaria eu esticar a mão para lhe
tocar.

Fico contentíssima quando chegamos ao antigo polígono industrial e, por fim, posso sair do carro.
O ar fresco a bater-me no rosto acalorado sabe-me lindamente.
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— Temos que entrar lá embaixo — digo a ele, apontando para uma garagem
por cima da qual há um letreiro com o nome da empresa.
O James põe-se ao meu lado e, quando começamos a caminhar, roço com o braço no
dele.
Ambos vestimos casacos pesados.
Apesar disso, este roçar provoca em mim o mesmo efeito de uma descarga elétrica.

O mais discretamente possível, dou um passo para o lado e me apresso para a entrada
lateral da garagem. Passo pela porta e entro em um pequeno pavilhão.

Olho em volta. Na página da Internet, esta loja parecia mais acolhedora. Uma luz
amarela fraca ilumina o essencial e os tetos são baixos e cheios de teias de aranha. Há
todos os tipos de aparelhos eletrônicos espalhados por toda parte, mas as cabines
fotográficas são o que ocupa mais espaço. Há pelo menos vinte. Uns pequenos alto-
falantes emitem uma música tecno, a cujo ritmo um homem que está sentado a uma
secretária, atrás de um estreito balcão, vai abanando a cabeça meio careca.

— Que loja agradável você foi encontrar — murmura James, mas,


antes que lhe possa responder, o homem vê-nos e levanta-se, sorrindo.
— Deves ser a Ruby — diz-me quando se aproxima de nós.
— Exatamente — respondo-lhe, fazendo um aceno de cabeça e apertando a mão que
me estende. — E este é o James.
Cumprimentam-se com um aperto de mão.
— Meu nome é Hank e vou dar algumas instruções sobre a cabine fotográfica. Podem
dar a volta por aqui? — Ele faz um gesto circular com a mão, em volta do balcão, e
aponta para uma das cabines.
— Escolheram esta, não foi? — pergunta-nos quando paramos em frente de uma delas.

Observo o modelo. As paredes são pretas e tem uma cortina vermelha cobrindo a
entrada. De um lado, há uma pequena abertura onde há um letreiro iluminado que diz
«Fotografias». Bem ao lado da entrada, está pendurada uma pequena placa onde estão
anotadas em marcador branco algumas indicações sobre os filtros que podem ser usados
na hora de tirar as fotos. As letras manuscritas que eles usaram são maravilhosamente
floridas.
— Gostava de escrever aqui qualquer coisa relativa à nossa gala. É possível, Hank?
— pergunto-lhe, apontando para a pequena tabuleta.
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Anui.
— Tenho um marcador em qualquer lado, e dar-to-ei com todo o prazer.
Sorrio.
— Perfeito, muito obrigada.
— Bom, e agora vamos à explicação: foi instalada uma câmera reflex aqui dentro, que é
ativada através da tela sensível ao toque. Na verdade, é bem fácil, basta pressionar o
símbolo da máquina para fazê-la funcionar. A partir daí, eles têm três segundos até a foto
ser tirada. Depois disso, podem editá-la com os filtros ou, se ainda não gostarem do
resultado, podem apagá-la e tirar
outra.

Afasto um pouco a cortina vermelha e observo a tela sensível ao


toque. — É verdade que parece muito fácil.
— Não querem experimentar? — pergunta-nos o Hank, com um sorriso quase jovial.

Antes que eu possa recusar, o James responde-lhe: —


Sim, por favor.
Levanto uma sobrancelha, mas ele ignora-me e entra para a cabina. Segura a cortina
aberta e olha para mim, cheio de expectativa.
— De que é que estás à espera? Entra! — diz-me o Hank ao meu lado.
Sem hesitar mais, entro na pequena cabina e olho para o James com ceticismo.
Ele observa atentamente o ecrã táctil.
— Temos de verificar se está tudo a funcionar bem, não achas? — pergunta-
me a meia-voz.
Fico desconcertada por eu própria não ter pensado nisso, em vez de estar
ocupada em manter um braço de distância entre mim e o James.
— Ruby, estás a tapar a máquina fotográfica.
Encosto minhas costas na parede e deslizo para trás de James, que se sentou no
pequeno banco diante da máquina.
— Olha para aqui — diz-me o James de repente, apontando para um
minúsculo buraco preto no ecrã tátil.
Eu me inclino para frente até que eu possa ver a câmera por cima do ombro dele. Agora
também apareço na tela, mas mal consigo me concentrar na imagem borrada de nossos
rostos.
Uma mecha de James faz cócegas no meu rosto e seu cheiro familiar chega ao meu
nariz. De repente, o casaco me faz um calor imenso. Ao meu lado, James parece
petrificado, acho que até parou de respirar. Viro a cabeça lentamente e
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olho para ele. Estou tão próxima dele que, se quisesse, tocava-lhe na pele com a boca.

Nesse momento, o James prime o obturador.


Um clique surdo arranca-me do transe e recuo. É então que me dou conta do
verdadeiro motivo de estarmos aqui e do que eu estava prestes a fazer.
— Tudo parece estar funcionando — James me diz, como se não tivesse percebido
as faíscas que saltaram há alguns segundos.
Por acaso terei imaginado a tensão que houve entre nós?
Saio da cabina o mais depressa possível, e o Hank já está cá fora à nossa espera,
com a tira de fotos na mão.
— Fizeram uma pose bastante estranha, embora tenham conseguido premir o
obturador — comenta, estendendo-me as quatro pequenas imagens.
Não, é evidente que não foi imaginação minha.
Na fotografia, tenho a cabeça virada para o James enquanto ele olha diretamente
para a máquina fotográfica. E o olhar dele...
Engulo em seco.
Conheço esse olhar. E a expressão em volta da boca.
O James também deve ter sentido o mesmo. Agora tenho a certeza absoluta.
— Muito bonitas — digo em tom rouco, tentando devolver as fotos para Hank, mas,
antes que eu consiga fazer isso, James as pega. Sem nem olhar as imagens, ele as
enfia no bolso do casaco.
— Onde temos que assinar? — pergunta, naquele tom de voz de homem de negócios
que já havia usado quando estivemos na Beaufort.
Hank nos conduz novamente ao balcão, no qual assino três formulários e recebo um pequeno
manual a respeito do funcionamento e da edição das fotografias. A seguir, carregamos o porta-
malas com as peças da cabine. Fico contente de estar lá fora, ao ar livre, que refresca minhas
maçãs do rosto, que estão queimando.

Durante a viagem de volta, torno a ligar o rádio, um pouco mais alto do que antes.
Pode-se saber como me ocorreu que era uma boa ideia pedir a James que me
acompanhasse aqui? Eu deveria ter imaginado como seria difícil estar tão perto dele
por tanto tempo.
Pelo canto do olho, vejo que James desabotoa o casaco e dobra o cachecol em
volta do pescoço.
— Se você está com calor, posso baixar um pouco mais a temperatura do
aquecimento — consigo dizer-lhe.
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— Ruby. — A maneira como murmura o meu nome parece-me tão familiar.


Agarro o volante com força, fazendo todos os possíveis por me concentrar na
estrada. O ambiente entre nós está cada vez mais tenso, mas tento com todas as
minhas forças não ligar a isso.
O semáforo à nossa frente fica vermelho e travo lentamente, deixando o carro
deslizar até à linha de paragem. Depois, atrevo-me a olhar para ele. O James está a
observar-me e, nos olhos dele, vejo tantos sentimentos que sinto vontade de o
agarrar, abraçar e apertar contra mim.
— Só queria dizer-te que é...
— Por favor, não — interrompo-o, implorando-lhe e abanando a cabeça.
Aperta os lábios com tanta força que um dos músculos do maxilar começa a tremer.
Olhamos um para o outro durante momentos e há entre nós imensas palavras que
não dizemos.
Mas agora não posso falar com ele. Não posso. Não quando tenho a sensação
de que vou ceder de um momento para o outro.
Logo a seguir, o James afasta os olhos e vira-os para a frente.
— Está verde.
Carrego no acelerador. O caminho para o colégio nunca me tinha parecido tão
longo.
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17

Rubi

— Acho que gostava que fosse um pouco mais menta — diz-me a Ember, pensativa.

Deslizo o cursor pelo campo de cor um pouco para a esquerda e para cima, até
que o verde-musgo fica mais claro e com um tom mais azulado.
— Assim?
Minha irmã emite um som de aprovação. Eu salvo a cor e abro a prévia do WordPress,
para que possamos ver nossa obra.
Bellbird, o blog da Ember, mudou o design com um novo logotipo, um tema WordPress
mais moderno e uma nova paleta de cores. Na parte superior da tela está a última
postagem, um guia de moda ética para pessoas com curvas e, logo abaixo, há três janelas
menores com as miniaturas das postagens mais vistas. À direita, minha irmã adicionou
links para seus perfis em diferentes redes sociais e uma foto que tirei dela no verão
passado. Ela está em um campo cheio de flores e usa um vestido longo de verão com
estampa floral bem decotada.

Ainda me lembro vividamente do momento em que um gafanhoto pulou nela e eu a


fotografei tentando sacudi-lo ... foi hilário. Infelizmente, ela não escolheu como foto de perfil
a imagem em que está gritando, mas sim aquela em que está sorrindo carinhosamente e
afasta uma mecha do rosto.
Mesmo por baixo da imagem, lê-se:

Olá, sou a Ember! Sou blogueira de moda para pessoas com curvas e adoro
palavras e bolos. Tudo que é lindo me inspira. Curta meu blog!

— Parece excelente — comento com admiração. — Superprofissional.


— Você sempre diz a mesma coisa — Ember me responde, examinando a página da
web com os olhos semicerrados. No que diz respeito ao blog, você é tão perfeccionista
quanto eu com minha agenda.
— Eu sei, mas é porque é verdade.
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Leio as últimas postagens que você fez sobre roupas. Embora tenha sido eu quem
tirou as fotos, não me canso de vê-las. A Ember está muito bonita em todas.
Pela enésima vez, gostaria de que nossos pais não fossem tão críticos quanto à
questão das redes sociais. Eles têm medo de que Ember possa expor demais sua
privacidade, no entanto, ela trabalha no Bellbird de maneira muito profissional. A essa
altura, você até tem algumas marcas com as quais colabora regularmente e que
enviam suas peças de roupa.
— É verdade, vi um vestido que é perfeito para ti — comenta de repente. —
Precisas de um para a gala, não é?
É isso.
'Mostre-me!'
Ele puxa o laptop para mais perto dela, e sua mesa minúscula estremece
perigosamente. Pego imediatamente meu copo de laranjada, para não derramar. Já
estamos sentados aqui há duas horas, lado a lado, trabalhando no blog enquanto a
voz melodiosa de Frank Ocean soa nos alto-falantes do computador.

Ember abre uma das abas e, juntas, vemos a página aparecer aos poucos, até
mostrar um vestido que me arranca um pequeno suspiro.
Tem um decote em vê, é preto e é feito de um tecido muito fluido, que se ajusta na
cintura, mas que cai em ondas suaves a partir das ancas.
— Há mais imagens? — pergunto-lhe, mas, nesse momento, o meu olhar detém-se no preço. — Deus
do céu! Custa mais de duzentas libras! — exclamo, levantando um dedo para fechar imediatamente a
janela. — Porque é que me mostras uma coisa tão cara?

A Ember dá-me a mão.


— Para nós, não — diz-me com um sorriso. — A empresa pediu-me para
colaborar com eles.
Hesito momentaneamente. Eu sei que a Ember tem recebido muitos pedidos
para colaborar com lojas, mas isso não significa que tenha de aceitar todos.
— Você está procurando há uma eternidade — minha irmã continua — e esse seria perfeito para um
evento tão elegante, ou não? Podia pedir que mo enviassem.

Imediatamente, abano negativamente a cabeça.


— Não, não posso aceitar.
— Porquê?
Encolho os ombros, hesitante.
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— Não faço ideia. Não é esquisito, receber uma coisa a troco de nada?
— Você acha que os atores pagam pelos vestidos que pegam emprestado dos
estilistas, para estreias e premiações?
— Com toda a sinceridade, nunca pensei nisso — admito.
— Então agora você sabe — minha irmã replica. — Me ofereceram três vestidos
para experimentar e até disseram que me pagariam se eu escrevesse uma crítica
sincera sobre o que penso em relação à maneira como as roupas se ajustam ao
corpo e esse tipo de coisa. Só gostaria de tirar uma foto de nós duas, de como
usamos os vestidos e de como eles ficam. Se estiver de acordo, claro.

Torno a olhar para o vestido. Clico nas imagens a seguir e, a cada foto, me apaixono mais pela
saia ampla, por aquele tecido de aparência tão suave e pelas pequenas aplicações que cercam o
decote. Nunca usei um vestido tão elegante, exceto o que os Beauforts me emprestaram em outubro
passado para a festa de Halloween.

— Não preciso te perguntar, preciso? — Ember me diz de repente, e, quando


viro a cabeça para ela, com uma expressão desconcertada, ela evita meus olhos
e abre um sorriso resignado. — Você com certeza não quer me levar com você,
certo?
— Ember. — Suspiro e respiro fundo, antes de lhe dar uma resposta automática.
Mas, depois, eu paro.
Nessas últimas semanas, a Ember esteve à minha disposição dia e noite.
Ele cuidou de mim e não disse nem uma palavra aos nossos pais sobre o que
aconteceu com James, não importa o quanto eles tenham insistido.
Eu sei o quanto você quer ir a uma de nossas festas, por uma vez que seja. E, pensando bem, o gala beneficente é uma

ocasião melhor do que qualquer outra das outras festas que são comemoradas em Maxton Hall. É a única atividade do ano

em que todos os alunos, sem exceção, estão no seu melhor. A festa conta com a presença de muitos nomes célebres e

pessoas influentes para que alguém se permita dar uma imagem negativa.

Consequentemente, trata-se de um ambiente elegante, e a possibilidade de


acontecer alguma coisa é relativamente escassa.
A Ember observa-me atentamente. Está imóvel, como se não se atrevesse a
mexer nem um músculo, como medo de provocar uma resposta negativa.
— Vou levar-te comigo — respondo-lhe, por fim.
A minha irmã fica de olhos esbugalhados.
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— Estás a falar a sério? — pergunta-me, sem acreditar.


Respiro fundo. Esses são os últimos meses que passaremos juntas e quero que elas ocorram
da melhor maneira possível. Em breve, deixaremos de nos ver todos os dias e, mesmo que eu
esteja muito feliz em ir para Oxford, a mera ideia de fazê-lo me apavora.

— Mas vou te impor algumas condições — aviso em tom firme, porque quero que Ember
saiba que o que vou dizer é sério. Ela balança a mão, para eu continuar. — Você vai passar a
noite toda comigo. E você só vai falar com pessoas que eu conheço e com quem eu te disser
que você pode falar. Sério, não quero que você acabe falando com alguém esquisito. Estamos
entendidas?
Ember se joga no meu pescoço com tanto impulso que quase caio. — Você é a
maior! Não vou me afastar de você nem por um segundo! — exclama.

Devolvo-lhe o abraço e fecho os olhos por um momento. Sinto uma pontada de preocupação
e pergunto a mim mesma se tomei a decisão certa. Afinal, tenho perfeita consciência do que
pode acontecer nessas festas. Por outro lado, a Ember não demora a completar dezessete
anos. Ela é inteligente e segura de si, e sabe o que quer. Talvez eu devesse ter mais confiança
nela.
Quando a Ember se afasta de mim e me olha com os olhos a brilhar e um
enorme sorriso, me convenço de que tomei a decisão certa.
— Isso significa que, oficialmente, já podemos comprar roupas. E que vou ter até a
oportunidade de usá-la! Além disso, vai ser a melhor postagem do blog de todos os tempos.
Estou super feliz!
Devolvo-lhe o sorriso e sinto a sua emoção transbordante e sincera. É primeira vez em um

muito tempo que me sinto tão leve.


— Se estás feliz, eu também estou.
Quando digo estas palavras, o sorriso da minha irmã desaparece subitamente.
— Que é que se passa? — pergunto-lhe.
Ember evita meu olhar. Ele começa a abrir páginas no navegador, mas não parece saber
exatamente o que está fazendo.
— Nada de importante. É só que não posso acreditar que estes sejam mesmo os últimos
meses que vamos passar juntas.
— Só porque vou me mudar para outro lugar não significa que vamos deixar
de nos ver por completo, Ember — digo-lhe suavemente.
Minha irmã torna a olhar para a tela do notebook.
— Sim, e tu também sabes isso.
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Abano a cabeça energicamente.


— As coisas vão mudar um pouco, mas isso não significa que nunca mais nos veremos.
Voltarei para casa todo fim de semana e continuarei te ajudando com o blog. Falaremos ao
telefone e por Skype, vou mandar-te as lastimáveis fotografias dos meus almoços, contar-
te que livros estou a ler e...
Ember me interrompe com uma risada.
— Você vai ter que me prometer, Ruby — ela me diz muito séria, logo depois.
Rodeio o ombro da minha irmã mais nova com o braço e aperto-a contra
mim.
— Prometo.

James

A semana anterior à gala é uma das mais stressantes da minha vida.


Ainda tenho que recuperar todas as aulas que Lydia e eu perdemos antes do Natal e,
além disso, há tantas coisas que precisam ser preparadas para a festa que, em um
determinado momento, não sei mais onde estou com a cabeça. Na segunda-feira, a Ruby
e a Camille decidem substituir as lâmpadas do Boyd Hall por umas com uma luz mais ténue
e que, desse modo, criam um ambiente mais acolhedor, portanto, tenho de encontrar as
lâmpadas. Na terça-feira, o pianista decide que quer cobrar um preço muito mais alto por
uma quantidade irrisória de canções, logo, tenho que ir até ele, acompanhado de Kieran,
para negociar a baixa do valor. Durante a viagem, Kieran me convence a ir assistir aos
ensaios do coral do colégio na quarta-feira e revisar a lista de músicas, porque Ruby não
tem tempo e Lin 'não entende as sutilezas da música clássica' (citação textual). Contudo, o
ponto mais alto é na quinta-feira, quando toda a equipa é convocada para puxar o lustro
aos talheres de prata (o que não faz parte das minhas tarefas preferidas) e dobrar os
guardanapos na forma de mitras de bispo (detestável) . Sempre me considerei uma pessoa
muito habilidosa de mãos, mas, aparentemente, esse não é o caso quando se trata de
seguir instruções para dobrar guardanapos.

Os caras me olham com uma cara feia quando chego ao treino de lacrosse exausto ou
quando nem apareço, mas não me fazem perguntas. Também não saberia explicar para
eles o que está acontecendo comigo.
É como se eu me agarrasse a um ferro em brasa e me recusasse a soltá-lo. No trajeto de
volta ao colégio, Ruby deixou bem claro que ainda não estava pronta para o que eu tinha a
dizer, e eu também respeito isso. No
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entanto, aquele momento na cabina, quando estávamos tão próximos, com os lábios da Ruby a poucos
centímetros do meu queixo e a sentir a sua respiração entrecortada na minha pele... nesse momento percebi
que não estou a lutar em vão.

E, enquanto houver mesmo que seja uma fagulha de esperança para nós, não
cederei. Nunca fui uma pessoa que se destacava pela paciência, mas, em se tratando
de Ruby, tenho todo o tempo do mundo... ou vou tratar de consertar. Ruby vale a pena.

Apesar de tudo, suspiro de alívio quando, na sexta-feira, coloco o equipamento


esportivo e, finalmente, posso voltar ao campo. O circuito de exercícios que o treinador
preparou para nós é difícil, mas o esforço físico tem um gosto bom e me distrai dos
meus pensamentos. Neste momento, temos que carregar uns aos outros nas costas
pelo campo. Embora Alistair seja bastante forte, depois de dez minutos ele não aguenta
mais meu peso e nós dois cairíamos.
— Merda — resmungo, virando-me até ficar de barriga para cima.
Embora já seja fevereiro e o início da primavera se aproxime, ainda está um frio de
morte e o chão está superduro. Tenho bastante certeza de que tenho arranhões nos
dois joelhos.
— Continuem! — vocifera o treinador Freeman, apitando com toda a força.
— Vamos até ali! — diz-me o Alistair, batendo palmas.
Põe-se novamente à minha frente enquanto o par formado pelo Kesh e pelo
Wren passa ao nosso lado.
— Agora é minha vez — respondo a ele, apontando para as costas.
Alistair revira os olhos, mas aceita o que eu digo e pula. Desato a correr a toda
velocidade e ultrapasso meus companheiros de equipe o mais rápido que posso, até
que tenho todos os músculos do corpo queimando e a distância que nos separa de
Kesh e Wren começa a diminuir.
Quando ficamos lado a lado, o Wren bufa sonoramente.
— Outra vez, não! — Dá uma palmada nas costelas do Kesh, para que corra
mais depressa. — Acelera, meu!
Com uma expressão obstinada, o Kesh acelera o passo e eu sigo-o, com o Alistair a
esporear-me. Como perco um treino por semana, estou a ser observado. Não só pelos
meus amigos, mas também pelo treinador Freeman.
Não posso permitir-me desistir agora, embora sinta o peito a arder de todas as vezes
que respiro.
No fim, eu e o Kesh chegamos quase ao mesmo tempo. Estou com tanta falta
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de ar que só com grande esforço consigo não me atirar de quatro no chão. Kesh estende o
punho para mim e eu bato nele com o meu, quando Wren me dá um empurrão. — Você é um
animal.
Como você conseguiu recuperar a posição tão rápido, Beaufort?

Encolho os ombros, ainda demasiado esgotado para conseguir dizer uma


palavra que seja.
— Hoje vocês trabalharam bem de verdade, rapazes! — exclama o treinador Freeman
enquanto bate palmas várias vezes. Ele passa o olhar por cada um de nós e um grande
sorriso se desenha em seus lábios. — Para comemorar, convido vocês para uma
rodada.
Soltamos vivas de alegria. Freeman nos massacra nos circuitos de treinamento, mas
só duas vezes por semestre e depois, quase sempre, nos convida para comer
hambúrgueres com batatas fritas em um pub perto do colégio, o que praticamente nos
faz esquecer o quanto ele nos torturou durante as horas anteriores.
— Que estará o Lexington aqui a fazer? — pergunta de repente o Cyril, com
o olhar fixo na entrada do campo.
Todo o time dá meia-volta. Acho que nunca tinha visto o diretor em campo.
— Vocês se meteram em mais uma enrascada, rapazes? — escuto alguém dizer
atrás de mim, quando o treinador se aproxima de Lexington e conversa brevemente
com ele. Como é evidente, a pergunta é dirigida a mim e aos meus amigos, mas
nenhum de nós responde. Em contrapartida, as ideias se amontoam na minha cabeça.
Algo ruim deve ter acontecido, para o diretor vir até nós. Só pergunto a mim mesmo o
que deve ter sido.
Pouco depois, o Freeman aproxima-se a correr e bate palmas.
— Mudança de planos, rapazes! Eles vão para o Boyd Hall. A comissão de eventos
precisa de ajuda para montar a festa da gala de amanhã à noite.
Fico gelado. São seis da tarde. A empresa encarregada da decoração já devia
ter terminado há bastante tempo.
Um murmúrio de indignação se espalha entre os presentes e o olhar do
treinador escurece.
— Não fui suficientemente claro? Para o Boyd Hall, imediatamente!
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18

Rubi

Acho que Lin e eu nunca estivemos tão perto de sofrer um colapso nervoso
como hoje. Como combinamos com James e os outros, às quatro da tarde
fomos para o Boyd Hall para preparar a sala para amanhã à noite, junto com a
empresa encarregada da decoração. Contudo, quando lá chegamos, não
encontramos ninguém a não ser o zelador Jones, que falava ao telefone e
soltava imprecações aos gritos e de forma nada adequada a menores, e que
depois nos comunicou que a empresa tinha aceitado dois trabalhos por engano
e que, no fim, tinha optado pelo mais lucrativo.
Fiquei em estado de choque por alguns minutos, nada mais, e então me virei
para Lin. Bastou eu olhar nos olhos dela para perceber que eu estava revisando
mentalmente todas as opções que nos restavam.
O zelador Jones nos contou que, depois de muita discussão, a empresa se
comprometeu a pelo menos nos trazer em pouco tempo o material de decoração
que havíamos encomendado. No entanto, somos muito poucos para conseguir
preparar tudo de forma aceitável em tão pouco tempo.
Quando o diretor Lexington apareceu de improviso e ficou petrificado no meio
da sala vazia e por decorar, tive vontade de que a terra me engolisse.
Constrangida, expliquei-lhe o que tinha acontecido e fiquei à espera de que
balançasse a cabeça com uma expressão dececionada e que decidisse mudar
a direção da equipe de eventos, mas, para minha surpresa, informou-me num
tom determinado de que ia procurar ajuda .
Um pouco mais tarde, as portas do Boyd Hall se abriram e toda a equipe de
lacrosse entrou por elas. Com uma expressão sombria, James caminhou direto
para o zelador Jones, sem nem mesmo olhar para nós, enquanto eu observava
o diretor Lexington se plantar diante do resto da equipe, apontar para mim e Lin
e dizer aos meninos que, a partir daquele momento, éramos nós que lhes
daríamos as instruções.
Depois, apliquei o piloto automático à situação e tentei transmitir aos
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jogadores, da forma o mais estruturada possível, as diferentes tarefas. Desde aí, passou hora
e meia e, neste momento, eu e a Lin já não estamos à beira de um ataque de nervos.

— Cada vez vai tomando mais forma, não achas? — pergunta ao meu lado, quando desenrolamos
juntas um cabo desde o palco até à mesa de controlo que está do outro lado da sala.

Levanto os olhos e observo o Boyd Hall. Grande parte da decoração já está posta nas
paredes, o palco está quase montado e, entre os dois, o Alistar e o Wren já dispuseram todas
as mesas na superfície livre diante dele.
— Um pouco mais para a direita, Ellington — ouço o treinador dizer de
repente, e observo a distribuição com um pouco mais de atenção.
Oh, não. Entre as mesas, há muito pouca distância. Aproximo-me do Freeman
e lanço-lhe um sorriso diplomático.
— Muito obrigada pela sua ajuda, treinador Freeman, mas se as mesas ficarem
tão próximas umas das outras, ninguém conseguirá passar entre elas.
Pestaneja, perplexo. Depois, pigarreia e puxa o boné mais para baixo.
Retrocede e, com a outra mão, indica-me que dê um passo em frente.
— Alistair — digo. — Espera um segundo. — Me aproximo dele e explico qual deve ser a distância
mínima entre as mesas, para que os convidados tenham espaço suficiente. — A primeira fileira também
não deve ficar muito perto do palco. Não podemos esperar grandes doações dos presentes se eles
estiveram tão perto das colunas que ficaram meio surdos depois da cerimônia.

O Alistair olha para mim com uma expressão consternada enquanto o Wren bufa.

— Você quer dizer que temos que mover as trinta mesas? Você faz ideia de
como foi o treino de hoje? Estou tão arrasado que nem sinto os braços.
Lanço-lhe um sorriso simpático, mas determinado, e fico a olhar para eles com uma
expressão expectante durante tanto tempo que, no fim, o Alistair suspira, abana a cabeça e
exclama:
— Você é muito teimosa, Ruby!
Enquanto Wren e Alistair colocam as mesas no lugar certo, Lin e eu começamos a verificar
as conexões da mesa de controle.
— Se isto continuar assim, de certeza que vamos acabar a tempo — diz-me a
Lin, mas mal a oiço porque, nesse momento, o James entra pela grande porta.
Ele tem uma mesa nas mãos e dá uma olhada no plano que Jessalyn lhe
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mostra. Ele olha em volta e vai direto para o canto mais distante da sala, onde
coloca a mesa no lugar certo. Depois, enxuga a testa com as costas da mão.
O Alistair não exagerou quando disse que já não sente os braços — agora,
todos os jogadores de lacrosse parecem exaustos. Hoje tinham de fazer o
terrível circuito do treinador Freeman. Dado que tenho umas cãibras terríveis
depois dos exercícios da professora de Educação Física, nem quero pensar em
como os rapazes estarão amanhã.
Observo James, que pede uma garrafa de água a Doug e a bebe vorazmente.
Sinto um formigamento estranho na barriga. Com o cabelo molhado, os tênis
esportivos e as maçãs do rosto coradas, James não parece nada mal, pelo
contrário. Engulo em seco. De repente, lembro-me da última vez que o vi sem
fôlego, suando e com o rosto vermelho. Naquela época, ele estava nu,
murmurando coisas íntimas em meu ouvido e me beijando apaixonadamente.

— Aterra, Ruby — diz-me a Lin, arrancando-me do meu transe. — Podes


me dar ou desistir?

— Sim. — Afasto os olhos precipitadamente e tento dirigir os meus


pensamentos para um terreno inofensivo.

Terminamos toda a montagem no final da tarde. Levamos o que pareceu uma


eternidade para colocar as tiras de tecido nas janelas e colocar as colunas de
luz ao lado do palco, algo para o qual precisávamos de várias tentativas. Houve
um incidente quando uma parte do palco caiu e quase matou Doug, mas, por
sorte, ele escapou com apenas um susto e um arranhão no braço, que Camille
imediatamente tratou com um primor surpreendente.
Tivemos que renunciar a algumas coisas (por exemplo, não conseguimos
decorar o teto), mas, em geral, o resultado é bom. Principalmente agora que
escureceu e que os lustres iluminam a sala com seu brilho quente.
Todas as mesas redondas já estão prontas: em cima das toalhas, colocamos
alguns runners prateados e, por cima, alguns lustres altos, guardanapos
dobrados com esmero e louça de porcelana fina. Em cada mesa há um marcador
feito por Jessalyn com o respectivo número. Há duas telas em ambos os lados do palco.
Enquanto no da esquerda se projeta a apresentação que o Doug preparou sobre
o Centro Familiar, o da direita parece ainda não estar a funcionar. Mas tratarei
disso mais tarde, com calma, e, caso seja necessário, posso combinar com o
técnico de Maxton Hall resolvermos isso amanhã de manhã cedo. As lâmpadas
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que o James distribuiu no início da semana banham alguns pontos do salão com um tom lilás-
azulado e um projetor lança pequenos círculos brilhantes nas paredes.

Apesar de tudo ter levado o dobro do tempo que teria levado se os trabalhadores da empresa
instalassem e montassem as coisas, e embora não pareça tão profissional quanto eu teria
gostado, estou orgulhoso do resultado.

Já consigo imaginar como será o ambiente de amanhã à noite: os convidados vestidos com
elegância, o delicioso aroma da comida, a música clássica e o rosto sorridente do nosso
satisfeito diretor.
Olho para os meninos, que bebem avidamente as garrafas de água. Sem eles, nunca
teríamos conseguido. Aproximo-me do grupo com determinação e pigarreio. Vinte cabeças se
voltam para mim. O formigamento que sinto na nuca delata que James também está me
observando.
— Obrigada pela ajuda — digo a eles, olhando nos olhos de cada um deles. Só não olho para
James. Ainda estou assustada com as ideias que a presença dele despertou em mim e não
quero correr o risco de ficar vermelha como um tomate na frente de toda a equipe de lacrosse.

— Que tal convidares-nos para beber um copo amanhã? Aqui, na gala —


sugere Cyril com um sorriso irônico. — Seria... bem... divertido.
— Minha oferta continua de pé — intervém o treinador Freeman. — Queríamos brindar pelo
excelente treino em um pub — ele me informa, virando-se para mim. — É uma proposta
fantástica,
treinador — intervém Alistair, batendo palmas. — E então? Mantemos o plano original? O
Black Fox?
Um murmúrio de aprovação percorre as filas de jogadores de lacrosse.
— Como já vos disse, a primeira rodada é por minha conta — diz o treinador Freeman,
endireitando o boné. — E alargo o convite à comissão de eventos, menina Bell. Vocês também
trabalharam no duro.
— Eu não teria tanta certeza. Sem nós, teriam estado bem tramados... — murmura um tipo
que nunca vi na vida.
— Cale a boca, Kenton — o James ordena em tom ameaçador.
O Kenton cerra os lábios.
— Vamos embora! — grita o treinador Freeman, apontando para a saída com a cabeça.

Os outros começam a avançar e o Doug, a Camille e o resto dos meus


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colaboradores vão atrás deles. Nunca teria imaginado que veria os jogadores de lacrosse e os
membros da comissão de eventos irem tomar um copo juntos voluntariamente.

A Lin dá-me uma pequena cotovelada nas costelas.


— Vou falar com o Cyril de uma vez por todas — murmura com um olhar resoluto. — Assim as
coisas ficarão claras.
É isso.
— Boa ideia.
— Não vens connosco?
Abano negativamente a cabeça, e a determinação desaparece dos olhos da minha amiga.

— Então, também não vou — diz-me, apontando para a prancheta onde


apoio os papéis. — Fico te ajudando.
— Que bobagem! — respondo a ela, apertando a prancheta contra o peito, para que ela não
consiga ver os pontos que ainda não marquei com um visto. — Uma ocasião como essa não
acontecerá novamente sem mais nem menos. Vai e tenta saber o porquê do silêncio de Cyril. E,

se ele for tão estúpido, fala das boas.

A Lin hesita momentaneamente, mas, quando aponto energicamente para a saída, roda sobre
os calcanhares e corre atrás dos outros. O bater das solas dos sapatos dela ressoa na sala,
seguido de um forte estampido quando a porta se fecha atrás dela.

Depois, volto a me dedicar à minha lista. Dou um pequeno suspiro quando percebo que essa
sensação que sinto há algumas semanas, no peito, na barriga e no corpo todo, fica ainda mais
pesada em vez de mais leve. Pergunto a mim mesma quando isso vai acabar. Afasto esses
pensamentos da cabeça e me disponho a revisar os pontos da lista.

Primeiro, vou até o piano de cauda que foi colocado à direita do palco e limpo com cuidado as
manchas dos dedos dos ajudantes, que ficaram marcadas na superfície preta e brilhante. Então eu
coloco uma música baixa no meu telefone e o enfio no bolso de trás da calça. Enquanto ouço a
voz tranquila do cantor da banda Vancouver Sleep Clinic, verifico se os marcadores com os nomes
e o número de assentos em cada mesa estão corretos.

— Não foste com o grupo — diz de repente uma voz nas minhas costas.
Dou meia-volta e vejo James na entrada do Boyd Hall. Ele ainda está vestido com a roupa
esportiva e enfiou as mãos nos bolsos da calça preta de corrida. O
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olhar é imperscrutável.
— Ainda me falta fazer algumas coisas — respondo-lhe, levantando a prancheta.

O James entra na sala e o meu coração dá um salto, apesar de ele ainda estar a
vários metros de distância.
— Posso ajudar-te?
Abano negativamente a cabeça sem pensar.
— Não, não é preciso, obrigada. — Depois, viro-me para a mesa que está ao
meu lado, embora tenha bastante certeza de que acabei de a verificar.
— Não tens por que fazer o resto sozinha. — Sinto a voz dele mais próxima
do que antes. — Seja como for, sinto-me culpado pela falha da empresa.
— A culpa não foi tua — murmuro.
Não sei se sou capaz de ficar sozinha com ele em um quarto. Quando ele está na minha
frente e me observa com seu olhar profundo, de repente até o grande Boyd Hall fica
pequeno. Como se não houvesse cinco metros entre nós, mas apenas alguns milímetros.
Todo o meu corpo se sente atraído por ele, sem que eu possa fazer nada a respeito.

Contenho o impulso de me virar e de ir para junto dele, embora saiba que depois me
sentiria muito melhor. Mesmo depois de todo o tempo e de todas as coisas que aconteceram.
Respiro fundo e revejo a prancheta com as minhas notas. Se o James meteu na cabeça
que me ia ajudar, não se irá embora tão depressa. Já demonstrou isso nestas últimas
semanas. — É preciso verificar novamente o projetor. Não
se vê nenhuma imagem no
tela da direita — digo a ele depois de um tempo, ousando olhar para ele.
Ele continua me observando com aquele olhar que não consigo decifrar e anui.
— Está bem.
Ele se aproxima da mesa de controle no centro da sala e eu o sigo a uma certa distância.
Céus, por que estou tão tensa? Isso não deveria acontecer entre nós. Embora não saiba
exatamente o que é que devia acontecer.
A nossa relação terminou.
Terminou. Terminou. Terminou.
Ainda tenho de convencer o meu coração desta realidade. E o corpo.
James se põe atrás da mesa de controle e verifica as diferentes conexões,
ligadas a várias tomadas.
Ele se concentra nos cabos e começa a segui-los com a mão, um por um, para ver a que
cada um pertence. Em seguida, verifique a parte de trás do projetor à direita.
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Desliga um cabo e volta a ligá-lo, prime o botão para o ligar e desligar e franze o sobrolho
quando nada acontece.
Depois, torna a olhar para mim.
— Ruby, eu tenho que te contar uma coisa — ele confessa em um murmúrio.
O meu coração torna a dar um salto.
— O quê? — respondo-lhe num fio de voz.
O James levanta o cabo e abana-o.
— Está estragado.
Pestanejo várias vezes e consigo ver o cabo que segura. Com efeito, tem uma
parte estragada. Há uns pequenos fios coloridos a sair da parte de borracha.
- Oh.
O James baixa lentamente o cabo.
— Dá-me a sensação de que esperavas que te dissesse outra coisa.
Aquele tom de voz... tão profundo, tão aveludado e com aquela serenidade tão agradável...
fico com pele de galinha, embora abane imediatamente a cabeça.
No entanto, antes de conseguir responder-lhe o que quer que seja, o James continua:

— Se você já está pronta para me ouvir, não tenho problemas em te dizer no final.
Sustenho a respiração. Só consigo olhar para ele, tão simples quanto isso, neste
momento sou incapaz de fazer qualquer outra coisa.
— Lamento — diz-me de repente.
- James... - murmura.
— Há tantas coisas que quero te dizer... — continua, também num murmúrio, ao mesmo
tempo em que encurta um pouco a distância que nos separa.
Acho que não tem consciência de que o seu corpo se dirige para o meu, como se eu fosse
um íman que o atrai.
Eu gostaria de lhe dizer: É exatamente o que se passa comigo. Claramente, James
preenche todos os meus sentidos, quando ele está diante de mim e me olha dessa maneira.
Sinto meus joelhos fraquejarem e o chão sob meus pés parece ficar líquido.

A verdade é que são tantas também as coisas que quero dizer-lhe, tantas palavras... mas
não consigo pronunciar nenhuma quando olha assim para mim.
Fico com a garganta seca e tenho que pigarrear.
— Estamos aqui por causa da gala. Por causa da comissão de eventos. Não para falar.

— Mas preciso de falar contigo. Porra, Ruby, já não aguento nem mais um
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segundo. — As palavras são apaixonadas, mas a voz continua a ser infinitamente suave. Como se
tivesse medo de me afugentar se falar demasiado alto.

Por trás dos seus olhos azul-turquesa, vejo os pensamentos amontoar-se.


Transforma-os imediatamente em palavras. Vejo isso. O ar que nos rodeia está eletrizado.

— Por favor, Ruby. Não precisas de dizer nada. Basta que me oiças, por favor — suplica.

Não consigo mexer-me. Quando se aproxima um pouco mais, limito-me a ficar ali, com as costas
rígidas e as mãos a tremer. Agora, tenho de inclinar a cabeça para trás para conseguir vê-lo.

O seu olhar profundo percorre-me o rosto e é como se me tocasse. A pele dele sobre a minha,
as pontas dos seus dedos a percorrer-me as maçãs do rosto, o nariz e a boca. O meu corpo ainda
se lembra perfeitamente das carícias dele.
— Lamento — murmura.

— Que é que lamentas, exatamente? — pergunto-lhe uns segundos depois


com a voz rouca.

Na noite de Ano Novo, propus-me encerrar o capítulo «James Beaufort», mas


agora... agora me sinto como se estivéssemos prestes a abrir um novo capítulo.
— Tudo. — Oiço a resposta imediatamente. — Tão simples quanto isso: tudo.

Fico com a respiração acelerada. Que é que o James faz para eu me sentir perdida e encontrada
ao mesmo tempo? As palavras dele viram meu mundo de cabeça para baixo. Ao mesmo tempo,
me sinto como se estivesse em um conto de fadas: no meio de uma sala decorada com elegância
e com o cara que eu tanto gosto bem na minha frente.

Mas eu deveria me concentrar na gala. Não nesses sentimentos. Não na sensação de estar em
um conto de fadas porque a sala está linda e porque tenho na minha frente o cara que significa
tanto para mim.
— Sinto muito — repete James. Embora ele tenha um olhar nostálgico e cheio de dor, percebo
que ele está sendo sincero pela primeira vez, desde que tudo aconteceu.
Neste momento, James não guarda nada para si: vejo a esperança e o carinho em seus olhos, e
mais alguma coisa que me tira a respiração.
Este é o meu James.
O meu James. É
indiferente o que aconteceu entre nós: será sempre parte de mim, tal como
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serei sempre parte dele.


Essa ideia comove-me e abala o meu coração hermeticamente fechado.
— Portei-me como um idiota — murmura, aproximando a mão do meu
rosto.

Todas as palavras que tenho na ponta da língua desaparecem quando sinto o calor da sua
mão no rosto. Tenho de fechar os olhos, porque este momento dá cabo de mim.

— Quando o meu pai me contou que a minha mãe tinha morrido, senti-me como se o mundo
me tivesse caído em cima e me tivesse enterrado debaixo dele.
Não estava a pensar com clareza, destruí o que havia entre nós e estou muito arrependido.

Algo se quebra no mais fundo do meu ser: sou inundada por uma vaga de
sentimentos que acreditava realmente já ter superado há muito tempo.
Lentamente, torno a abrir os olhos.
— Magoaste-me muito — murmuro.
O James olha para mim, desesperado.
— Arrependo-me tanto de te ter ferido, Ruby... gostava de poder voltar atrás.
Abano negativamente a cabeça.
— Não sei se algum dia serei capaz de o esquecer.
— Você não tem que fazer isso. E eu também não. O que fiz naquela noite foi o maior erro
da minha vida. — Ele inspira tremulamente. — Entendo que não consiga me perdoar. Mas
preciso de que saibas que o lamento com todo o coração. — Ele cerra os lábios e, por um
momento, olha para o chão. Depois, pisca várias vezes. Eu me dou conta de que você está se
esforçando para conter as lágrimas. Também sinto meus olhos ardendo por causa das palavras
dele.
O James precisa de uns segundos para recuperar.
— Eu tenho consciência de que você não é responsável por me fazer feliz, Ruby. Não estava
me referindo a isso. Não vejo em você nenhum remédio milagroso para meus males. Me
expressei mal. — Ele passa a mão no rosto. — Você não tem por que me perdoar. E não
precisamos voltar a ficar juntos. Eu só quero que você saiba o quanto você significa para mim.
Quero que você faça parte da minha vida, não me importa de que modo.

O peito do James sobe e desce rapidamente e tem os olhos vidrados.


— A pessoa que conheceste em Oxford... é assim que eu sou verdadeiramente.
E quero ter mais dias com você para te demonstrar.
A noite que passamos em Oxford foi a mais linda da minha vida, mas desde
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então que não me permiti pensar nela, com medo de desmoronar. Contudo, agora,
permito-me lembrar. Lembro-me de nossas conversas. A maneira como você me
contou seus medos e seus sonhos. Como apoiamos um ao outro.
Ver o James assim faz-me lembrar de Oxford. Neste momento, volta a ser o
homem que me mostrou ali pela primeira vez. O homem por quem me apaixonei.

Cuidadosamente, dou um passo em frente e rodeio-lhe a cintura com os braços.

O James fica tenso, como se isto fosse a última coisa que esperava. Fico quieta
quando os seus braços trémulos me envolvem com delicadeza, como se tivesse
esquecido como me abraçar corretamente. Fecho os olhos quando me percorre as
costas carinhosamente, tornando a murmurar um pedido de desculpas.
Passados uns segundos, deslizo as mãos para as ancas dele e fecho-as sobre o
tecido da T-shirt. Quando o James pousa a boca na minha têmpora, sinto o toque
do tecido entre os meus dedos.
— Lamento tanto... — murmura novamente.
— Eu sei — murmuro.
Ficamos assim, embaixo do lustre, no meio do Boyd Hall, bem na frente da mesa
de controle. James me segura quase sem fazer força, de modo que eu poderia me
libertar de seu abraço a qualquer momento, se quisesse.
Mas isso não vai acontecer, porque há uma eternidade que eu não me sentia tão
bem, como se, depois de uma longa viagem, eu tivesse, por fim, chegado em casa.
As mãos de James percorrem minhas costas suavemente, sua respiração faz
cócegas em meus cabelos e seu peito sobe e desce no mesmo ritmo que o meu, ao
mesmo tempo em que suas palavras me convidam a acreditar que talvez haja
esperança para nós.
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19

Humano

Maxton Hall é o suprassumo.


Como é evidente, eu tinha visto fotos do colégio na Internet, quando Ruby pediu
a bolsa, mas é completamente diferente ver em pessoa o prédio imponente, com
suas pequenas torres, a fachada gigantesca e os arcos suaves das janelas.

Ruby ainda nem saiu do carro e eu já quase atravessei o estacionamento. Tenho


que me esforçar para levantar a longa bainha do meu vestido verde escuro, para
protegê-lo da lama. Ontem à noite choveu e os vestígios são vistos por toda parte.
Embora já tenhamos tirado as fotos para o blog, eu não gostava de aparecer na
minha primeira festa no Maxton Hall com um vestido sujo.

— Peraí, Ember! — ouço Ruby gritar quando chego ao grande portão de ferro
fundido que dá para o saguão de Maxton Hall. Tem uns sinuosos elementos
decorativos que, no ponto mais alto do arco, formam as iniciais do colégio.
A vista é de cortar a respiração.
Pego meu celular, abro a câmera frontal e o levanto. Tento pegar no
enquadramento o portão grande, o colégio ao fundo e eu mesma, mas não consigo
fazer sair como eu queria.
— Você pode tirar mais uma foto minha? — pergunto a Ruby quando ela se
aproxima de mim. Sem esperar a resposta, tiro o casaco e o estendo para ela, junto
com o celular. — Seria perfeito que o colégio fosse visto ao fundo.
Está tão maravilhosamente bem iluminado...
— Uma foto — Ruby me diz, pondo-se em posição. — E depois
entramos.
Assinto.
— Às suas ordens.

Conta até três e olho para a câmara com um sorriso resplandecente.


Depois, Ruby me devolve o casaco, espera eu vesti-lo e me passa o
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telemóvel.
— Estás muito bonita — diz-me.
— E você mais ainda — replico. Então eu levanto meu telefone, abro a câmera frontal
novamente e puxo Ruby para o meu lado. — Sorri!
Sorrimos juntas para a câmera. Depois de ter pressionado o obturador, pelo menos
menos, dez vezes, Ruby se afasta de mim e eu vejo rapidamente as imagens.
Não consigo deixar de sorrir quando vejo as minhas fotografias em frente do colégio.

Apenas três anos atrás, era uma verdadeira tortura para mim encontrar roupas do meu
tamanho, que não apenas me caíssem bem, mas que também fossem bonitas. As roupas
tamanho XL costumam ter um corte que me cai mal, porque, embora eu seja gorda, tenho
cintura, e a maioria dos designers parece pensar que todas as pessoas obesas têm a mesma
constituição. Mas isso não corresponde à realidade. É por isso que estou tão feliz com o
progresso que faço com meu blog: eles me permitem usar um vestido como este, em uma
noite como a de hoje e me sentir tão glamourosa quanto qualquer pessoa.

Se tivesse de escrever os meus sentimentos com letras, sairia algo assim:


KDJGDHUSGUAOHBES!
O que me faz pensar que, certamente, passo muito tempo no laptop.
– Brasa? Amigo?
Apresso-me para ir até Ruby, que está olhando para o relógio. Chegamos pontualmente, é possível até que cedo

demais, mas minha irmã está nervosíssima. Sempre fica assim antes de um desses eventos que ele organiza para o

Maxton Hall. Pergunto a mim mesma onde ela conseguirá as reservas de energia para os preparativos dessas festas.

Eu já passo o dia inteiro ocupada entre a lição de casa e meu blog, e não preciso me preparar para as provas finais ou

para fazer um curso em Oxford. Às vezes, tenho a impressão de que minha irmã é um robô, um robô que, de tempos

em tempos, aparece com alguns círculos escuros sob os olhos. Nossa mãe frequentemente pergunta se ela não está

exagerando um pouco, mas Ruby diz a ela que o trabalho a diverte. E eu acredito nela.

— Já terminei — digo a ele, mas temo que minha voz não tenha transmitido
o efeito tranquilizador que queria. Estou demasiado desorientada e nervosa.
— Obrigada. — Ruby me olha de canto e inquieta. — Ainda te
lembras do nosso acordo, certo?
— Ficarei ao teu lado e só falarei com pessoas que tenhas aprovado antes —
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Eu ajo.
Ela assenti, satisfeita
Reviro os olhos. Ruby tem pânico de que eu me torne amiga de pessoas de quem ela
não gosta. Não obstante, é do que mais tenho vontade. Este colégio é frequentado por
filhos e filhas de políticos, atores, aristocratas e banqueiros, e é a ocasião perfeita para
fazer contatos. Me faz bem conversar e me tornar amiga de pessoas que estão dispostas a
me ver e que não me deixam de lado logo de cara, por causa do meu peso.

Quando entramos no Boyd Hall, Ruby pega meu braço.


— Uau! — exclamo baixinho, olhando em volta.
A entrada da sala é mais suntuosa do que qualquer outro prédio que eu já visitei. É
inacreditável que você faça parte de uma faculdade. Enquanto as atividades do meu colégio
são celebradas em uma academia, o chão aqui não é de linóleo verde-vômito, mas de
mármore reluzente. De certeza que as paredes brancas medem cinco metros de altura e
são decoradas com estuque branco e com uns delicados detalhes dourados. No meio, há
uma ampla escadaria com corrimãos de madeira sinuosos, que leva ao andar superior,
onde há uma galeria.

Não sei para onde olhar primeiro. O meu campo visual está cheio de fatos caros e de
vestidos de alta-costura em chifom, seda e tule, e o meu coração bate cada vez mais
depressa. No entanto, isto é apenas a entrada.
Deixamos nossos casacos no vestiário e depois sigo Ruby até a sala de eventos em si,
onde fico sem fôlego.
O Boyd Hall parece algo saído de um conto de fadas. No caminho para cá, Ruby me
contou todo o trabalho que eles tiveram que fazer ontem, com a montagem e a decoração,
mas eu não imaginava que seria tão maravilhoso.
Uns empregados com bandejas com taças cheias de champanhe e de sumo de laranja
deslocam-se entre as mesas, e no piano de cauda preto está um músico de fraque a
interpretar uma melodia clássica que soa por toda a sala.
— Não posso acreditar que tenhas organizado tudo isto — murmuro, dando
uma pequena cotovelada nas costelas de Ruby.
— Foi o time todo — ele me responde automaticamente. Ele aperta os olhos e observa
as mesas redondas dispostas no centro da sala, em torno das quais alguns convidados já
se sentaram; depois, olha para as mesas compridas do lado esquerdo, onde se supõe que,
mais tarde, irão colocar o bufete. Conheço perfeitamente esse olhar: Ruby está verificando
se tudo está exatamente como
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ele planejou
— Ruby! — Não conheço a voz que acabei de ouvir.
Viro a cabeça e descubro um garoto pálido, com cabelos escuros um pouco longos e
lindos olhos cor de ônix, cercados por cílios grossos. Tem um maxilar pronunciado e maçãs
do rosto altas que, de certa forma, não correspondem ao seu ar juvenil e ao olhar alegre e
resplandecente.
— Oi, Kieran — Ruby o responde, sorrindo de um jeito que eu nunca tinha visto. Ela é
gentil e profissional, mas, ao mesmo tempo, reservada.
Seja como for, não é o sorriso da minha irmã.
— Os funcionários do bufê chegaram há dez minutos e estão preparando tudo na sala ao
lado — diz Kieran, antes de pousar os olhos em mim. — Olá, sou Kieran. Tu deve ser a
Ember. — Ele estende a mão para mim e, de forma automática, eu a aperto. Perplexa, olho
para Ruby. Na verdade, eu estava convencida de que ninguém nesta faculdade sabia nada
de mim ou de nossa família; afinal, em casa, Ruby nunca disse nem um pio sobre Maxton
Hall. Ele pensava que a separação entre o privado e o escolar era estritamente válida para
ambas as partes. Esse cara saber meu nome me desconcerta um pouco.

— Muito prazer, Kieran — digo-lhe.


Quando me larga a mão, sorri para a Ruby, e as suas maçãs do rosto coram
imediatamente.
Ah-ha!
É evidente que Ruby tem um admirador neste colégio, mas não me surpreende que ela
não tenha me contado nada sobre isso. Ruby quase nunca fala sobre seus sentimentos. Às
vezes, pergunto a mim mesma como ela consegue fazer isso e não estourar. Eu não seria
capaz de conter assim o que sinto, nem os sentimentos bons nem os ruins. Quando algo
acontece comigo, eu expresso em voz alta. Se estou feliz, exteriorizo imediatamente. Ruby
é mais controlada e muito menos impulsiva.

Estou tão imersa em meus pensamentos que não me dou conta de que a Ruby e o Kieran
se dirigem para o palco. Sigo-os rapidamente e passo dez minutos ouvindo o que é preciso
levar em conta no decorrer da noite. Olho em volta dissimuladamente, mas Ruby me
controla de vez em quando, como se estivesse com medo de que, na primeira oportunidade,
eu fosse fugir e me jogar nos braços de algum aluno de Maxton Hall. Imagino que não
demorará para relaxar um pouco ou ficar ocupada demais para, pelo menos, não estar
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presa a cada passo que dou.


Quando a gala começa, sento-me no fundo, em uma mesa meio vazia, de onde mal
consigo ver o que acontece no palco. Consoante o Kieran me explicou, estes são os
lugares da comissão de eventos e, com efeito, uma mão-cheia de alunos vai chegando
a intervalos irregulares, sentando-se por instantes, para beber qualquer coisa. Passados
três minutos, tornam a se levantar e desaparecem.
Neste momento, no palco, um rapaz jovem fala sobre sua depressão e explica que só conseguiu se recuperar

graças à ajuda do Centro Familiar. É uma confissão muito comovente, que deixa toda a sala abalada. Vejo que

alguns convidados enxugam os olhos com um lenço ou anuem, concentrados e franzidos.

Ao meu lado, o Kieran também parece totalmente absorto.


— Ei — chamo-o em voz baixa. — Vou buscar uma bebida num instante.
Queres alguma coisa?
— Vou contigo — diz-me imediatamente, dispondo-se a levantar-se.
— Que bobagem — respondo a ele, fazendo um gesto de recusa.
O Kieran hesita momentaneamente e o seu olhar oscila entre mim e o orador.
— Não, obrigado.
Anuo e dirijo-me para o bar, onde o empregado me sorri amavelmente e me pergunta
o que quero beber.
— Uma taça de champanhe, por favor — respondo-lhe, como se fosse a coisa mais
natural do mundo, mas ou se nota que tenho dezesseis anos (quase dezessete!) ou
então ele tem indicações para não servir álcool aos alunos, porque abana a cabeça
lentamente.
Suspiro. Então, não tenho escolha a não ser provar o ponche que colocaram no bufê
ao lado do bar. Pego um dos lindos copos de cristal, levanto-o contra a luz e vejo, como
em um caleidoscópio, os pontos luminosos coloridos que banham a sala com um brilho
suave.
Assim que começo a deitar ponche da grande taça para o meu copo, estala um
aplauso ensurdecedor na sala. É evidente que o discurso terminou.
Desvio-me uns passos para o lado, para não bloquear o caminho aos outros
convidados que se aproximam do bufete.
— Olá, lindona — diz uma voz ao meu lado.
Fico gelada. Depois, cerro os dentes.
Não é a primeira vez que se dirigem a mim deste modo. Alguns caras do meu colégio
faziam apostas sobre quem ia curtir comigo primeiro, com esses flertes... suponho que
só para se divertir.
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Automaticamente, fico na defensiva e viro-me com o copo na mão.


Um cara está na minha frente. Tem um rosto atraente, a boca bonita e de lábios carnudos, a tez
escura e olhos quase pretos, com cílios que me dão um pouco de inveja, de tão grossos que são.
Ele é um pouco mais alto que eu, tem cabelos curtos e crespos, e uma leve sombra no queixo. Ele
também está de terno, mas não parece tão composto quanto os outros convidados. Ele está com a
gravata um pouco afrouxada e o blazer preto sob medida está aberto. Dá a impressão de que você
se esforçou para apresentar um aspecto o mais negligente possível. Como se você assistisse a
muitos desses eventos e, com o tempo, se cansasse deles.

É provável que tenha vindo falar comigo porque está entediado.


Olho discretamente em volta. Nesta situação, o habitual é haver alguns rapazes posicionados a
poucos metros de distância do amigo e dispostos a divertir-se às minhas custas. Mas não parece
haver ninguém a observar-nos, o que quase aumenta ainda mais a minha incredulidade.

— Oi — respondo a ele. Meu tom de voz é duro e reservado, um puro reflexo das minhas emoções.

O tipo percorre-me o corpo todo com o olhar, parando apenas por um instante demasiado evidente
no grande decote do meu vestido.
— Nunca tinha visto você aqui — ele continua, tornando a me olhar nos olhos. E, quando o rosto
dele adquire uma expressão debochada, dá-se um clique na minha
mente.

Conheço este tipo.


Bem, conhecê-lo, não o conheço, mas o sigo no Instagram. Seu nome de usuário é «kingfitz»,
mas eu sei que na verdade se chama Wren Fitzgerald. O feed dele está cheio de fotos de itens de
luxo, de festas e de garotas, e nas histórias ele sempre anexa vídeos e fotos em que está seminu ou
finge É impossível que alguém esteja meio adormecido. Claro que não engulo essa. esteja tão bonito
quando você acabou de acordar.

— Por que não estudo em Maxton Hall — respondo a ele, tomando um gole de ponche. Sinto
minha boca seca e meu coração está batendo bem rápido. Como é possível que eu esteja tão
chateado só porque esse cara está mexendo comigo?
— Eu já imaginei — Wren murmura, e eu vejo um sorriso incipiente nos cantos dos lábios dele. É
uma expressão desenvolta, como se você fosse preguiçoso demais para se forçar a sorrir de

verdade. Como se isso exigisse energia demais, que ele economiza para outra coisa, mais indecente.
Sinto calor
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só de pensar nisso. — Chamo-me Wren — diz-me, por fim, estendendo-me a mão.

Hesito momentaneamente. Dou mais uma olhada em volta, porque os amigos dele devem
estar em qualquer lugar. Não acredito que isso não seja um gozo. Quer dizer, sou segura de
mim mesma. E a ideia de que alguém se dirija a mim em uma festa não me parece totalmente
boba. Mas não um cara como
isso é.

— Onde é que eles estão? — pergunto-lhe.


Pestaneja, desconcertado, e baixa a mão.
— Onde estão quem?
— Os amigos que te desafiaram a meteres-te comigo.
— Que é que te leva a pensar que preciso de que alguém me pique para falar contigo?

Levanto uma sobrancelha, com uma expressão irônica.


— Vá, diz lá.
Olhamos um para o outro e franzimos a testa. No palco, o pianista recomeçou a tocar, mas a
melodia não consegue me envolver. Estou muito ocupada tentando descobrir quais são as
intenções de Wren.
— Acredita no que te digo, não preciso de ninguém para falar com uma
rapariga bonita — acaba por dizer.
Preparo-me para lhe responder, mas recuo. Depois, observo o Wren com mais atenção. Os
cantos dos lábios dele não se arqueiam como os dos rapazes que falaram comigo nas festas
do liceu e nos seus olhos também não há nenhum brilho malicioso.

Se calhar, quer mesmo flertar comigo. Não porque alguém o tenha convencido a fazer isso,
não porque seja uma piada idiota, mas simplesmente porque ele me acha tão atraente quanto
eu o acho.
Tenho bastante certeza de que é a última pessoa com quem eu devia falar esta noite. Não
sei o que pensar da situação e não sei o que pensar dele, mas é precisamente isso que me
desperta a curiosidade.
— Meu nome é Ember — respondo depois de um tempo.
— Muito prazer em conhecer-te, Ember.
Gosto da maneira como pronuncia o meu nome. Quase um pouco hesitante, como se
estivesse a praticar.
– Da mesma forma, Wren.
Na verdade, tenho jeito para estas conversas banais, mas, neste momento, não
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tenho a menor ideia do que dizer. Conheço a imagem online de Wren e também sei a impressão
que causo entre meus seguidores: sempre alegre, otimista e disposta a brincar. Mas há uma
série de noites em que me sinto deprimido e choro escondido no meu quarto. Ninguém sabe,
nem mesmo minha irmã. É por isso que hesito quando tenho que julgar as pessoas com base
em seu perfil de mídia social. E eu tenho curiosidade de saber como o Wren é na verdade, e se
ele esconde mais alguma coisa atrás dessa fachada.

Talvez devesse fazer um esforço e não ser tão reservada. Conversar um bocadinho com ele
não me vai fazer mal.
— E então, em que liceu andas? — pergunta-me o Wren, ao mesmo tempo que tira um copo
de sumo de laranja da bandeja de um empregado que passa ao nosso lado. — No Eastview,
talvez?
Abano negativamente a cabeça.
—Não Gormsey.
Por uma fração de segundo, o Wren parece ficar petrificado. Para a meio do gole de sumo e
olha para mim com uma expressão perplexa, mas depois pestaneja e recompõe-se.

— Parece exótico.
Pergunto a mim mesma se apenas terei imaginado aquela reação tão estranha da parte dele.

— Ninguém conhece essa vila — digo a ele calmamente. — Você não é o único.
— Portanto, vieste acompanhar alguém? — pergunta-me, observando-me
com interesse.
— Vim com a minha irmã. Há mais de dois anos que estuda em Maxton Hall.

— Fico muito contente por ouvir isso — replica o Wren.


Por uns segundos, penso a que é que se referirá.
— Porquê?
Agora Wren sorri de orelha a orelha: um sorriso que mostra os dentes e faz pequenas rugas
ao redor da boca.
— Bem, se sua irmã não fosse para esse colégio, não teríamos nos conhecido.
O que teria sido uma pena. Não achas?
Ele murmura as duas últimas palavras e fala em um tom tão íntimo que fico com pele de
galinha. Não posso fazer outra coisa senão anuir, como se ele tivesse me hipnotizado, embora
na minha cabeça todos os alarmes estejam soando, avisando-me de que seja prudente.
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— Por que você está olhando assim para mim, Ember? — ele me pergunta em voz baixa, e
o sorriso vai sumindo lentamente, se transformando em algo diferente. Ele avança um passo
para mim e quase nos tocamos. Bastar-me-ia mover a mão um milímetro para pegar a dele.
Pergunto a mim mesma o que sentiria. Se a pele dele será quente.

Pigarreio.
- UE...
Wren se aproxima ainda mais. Tanto que sinto sua respiração nas
têmporas. Sinto novamente o impulso de olhar em volta, mas reprimo-o.
— Que achas de sairmos daqui e irmos para um sítio onde possamos?...
— Wren — interrompe-o uma voz profunda que me arranca do meu
imobilismo.
Afasto-me imediatamente um passo e viro-me. É o
James Beaufort.
O James que partiu o coração à minha irmã mais velha.
O James que beijou outra garota e que foi a causa de, no Natal, Ruby se comportar como
uma zumbi doente de amor.
Um onda de indignação toma conta de mim, mas ele continua falando.
— Estou vendo que você conheceu a irmã da Ruby — ele diz em tom neutro.
Nos olhos do Wren surge uma expressão estranha.
— Com que então és irmã da Ruby, hem?
Anuo lentamente e olho de um para o outro.
— Pelo visto, tenho bom gosto — comenta com uma entonação quase debochada, que não
tem nada a ver com aquele murmúrio íntimo de antes. — Se você ainda estiver com vontade...

— Não acho que isso apeteça a Ember. Seja lá o que for. Pira-te, Wren — volta a intervir o
James. O tom de voz dele é autoritário, não admite resposta.
Pergunto a mim mesma se falará sempre desta maneira com os amigos e, caso seja verdade,
como é possível que tenha tantos, apesar disso.
O sorriso desaparece do rosto do Wren, que, de repente, parece bastante irritado. Abana a
cabeça e solta uma imprecação inadequada para menores de idade. Depois, torna a olhar
para mim.
— Gostava mesmo muito de ter continuado a nossa conversa, Ember.
Ato contínuo, inclina-se para a frente e dá-me um beijo no rosto. Quando se
afasta, não olha para mim, mas sim para o James.
Antes que eu possa dizer o que quer que seja, o Wren dá meia-volta e
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desaparece entre a multidão. Toco no rosto, no sítio onde me beijou, enquanto o olhar duro
do James segue o Wren. Porque é que tenho a sensação de que apenas me beijou para
chatear o James?
— Desculpa, Ember — murmura.
Depois, vai atrás do Wren, e torno a ficar sozinha junto ao bar.

James

Encontro Wren na sala da entrada, com os meninos. Quando entro no pequeno círculo,
Cyril levanta a mão.
— Beaufort! A que devemos esta honra?
Eu o ignoro e fico olhando para Wren.
— Que é que te passou pela cabeça? — pergunto-lhe num tom irritado.
Não responde à minha pergunta e, em vez disso, bebe um grande gole de uma garrafa
de bolso.
— Carriça.
Revira os olhos.
— Só falei com ela. Não faças uma tempestade num copo de água. — É
irmã da Ruby, porra. Não lhe toques.
O Wren bufa com desprezo.
— Estou a perder a vontade de ser tão atencioso contigo.
Arqueio uma sobrancelha, incrédulo.
— Atencioso? Diz-me lá quando é que foste atencioso?
— Quer saber, Beaufort? Vai se ferrar! — ele me responde, esvaziando o resto da garrafa
de bolso em um só gole e limpando a boca com as costas da mão.
— Wren... — diz-lhe o Kesh em tom de aviso.
— Não, Kesh. Estou farto de ter sempre de pensar nos sentimentos do James.
— Wren se vira para mim novamente. — Todos os sermões que você nos deu no verão
não passavam de palavras vazias. Agora, você falta aos treinos porque fica colaborando
com a merda da comissão de eventos, sai das festas para encontrar sua namorada e,
quando quero pegar alguém, você se faz de santo. Tenho a impressão de que você está se
lixando para nós. Você nem nos ouve mais quando tentamos te contar alguma coisa.

— Isso é mentira — respondo-lhe.


Abana a cabeça.
— Quer saber? Te mete na tua vida. Ao fim e ao cabo, ultimamente é a
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única coisa que fazes bem.


Olho para ele, confuso.
— Não faço ideia de a que você está se referindo.
Wren vira as costas e avança dois passos, apenas para então parar e girar
sobre os calcanhares, apontando para mim energicamente.
— É precisamente a isso que me refiro — resmunga. — Há séculos que tento
manter uma conversa normal com você, mas você está perfeitamente nas tintas.
— Vá lá, Wren.
No mais profundo do meu ser, eu sei que o que você me diz é verdade. Da última vez
que saímos juntos, ele falou sobre qualquer coisa que eu não liguei apenas porque só
estava pensando em Ruby. Agora, sinto remorsos.
— "Vamos, Wren" o quê? Tenho razão e você sabe. A única coisa que ocupa sua
cabeça é Ruby. Aparentemente, na sua vida não há espaço para mais nada — ele me
diz, em tom alterado.
— Eu... — Falha-me a voz. Ao mesmo tempo, sou invadido pela cólera. — Neste
momento, tenho muitas coisas na cabeça, mas isso não tem nada que ver com ela. —
Gostava de, de algum modo, conseguir fazê-lo entender isso.
— Você ficou assim desde que a conheceu, portanto, não tente protegê-la. Dá vontade
de vomitar, não te reconheço mais.
— Acalma-te, Wren — intervém o Kesh, pondo-se no meio de nós, mas o
Wren afasta-o para o lado e avança um passo para mim, indignado.
— Você age como se Ruby fosse a solução para sua, ai, vida ruim. Como se ela
fosse uma santa. Mas não é — sibila.
Olho para ele de sobrolho franzido.
— Entendo que estejas zangado. Eu tenho sido um amigo de merda e sinto muito, mas
não coloque Ruby nisso. Não a conheces.
O Wren abana a cabeça com desprezo.
— Pois saiba que conheço Ruby bem o suficiente. Se, ultimamente, você tivesse me
prestado atenção por mais de dois segundos, eu teria te contado o quão «bem» eu a
conheço.
Abro a boca, mas não sou capaz de dizer palavra. Conheço aquele tom. E sei
ao que se refere.
Wren também parece perceber que falou mais do que deveria. Cerra os dentes com
tanta força que destaca os ossos do maxilar.
— De que é que estás a falar?
— Talvez este não seja o sítio adequado para esta conversa — murmura o
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Alistair, mas abano negativamente a cabeça.


— Que é que queres dizer? — insisto.
O Wren hesita, mas o meu olhar é inflexível. Passados uns segundos, pigarreia.

— Eu e Ruby nos enrolamos uma vez, em uma festa de volta ao colégio.


Fico com o coração acelerado e sinto um nó na garganta.
— Nossa, que surpresa! — intervém Cyril, e dir-se-ia que ele parece quase contente. —
Ruby escondeu você esse tempo todo que se enrolou com seu melhor amigo.

— Cala a boca, Cy — resmungo.


— Pelo visto, você não é apenas uma garota normal e simpática — continua,
impávido. — Talvez agora deixes de a idealizar, de uma vez por todas.
— Mais uma palavra, Cy, e juro-te que...
— Ele tem razão — interrompe-me o Wren. — Se tu fosses tão importante
para ela como ela é para ti, já há muito tempo que to teria contado.
Dirijo-me para ele e agarro-o pelas lapelas. Não se defende e, em vez disso, olha para mim
com uma expressão sombria.
— Você sabe que estou dizendo a verdade. Caso contrário, você não ficaria nesse estado.
As palavras dele repetem-se na minha cabeça e respiro entrecortadamente. O
tecido do blazer de Wren se rasga, tamanha a força com que o agarro.
É verdade que só tenho pensado em Ruby. Durante todo esse tempo tentei recuperá-la e
negligenciei outras pessoas. Não apenas Lydia, mas também meus amigos. E para quê?

Para quê, porra?!


— Que é que estão fazendo? — alguém pergunta em um murmúrio enérgico ao nosso lado.

Um rubi.
Viro a cabeça para ela e sinto uma pontada dolorosa no peito. A situação me ultrapassa.
Mal me dou conta de que, atrás de Ruby, há outros convidados da gala que observam
desconcertados o que está acontecendo.
A Ruby para mesmo ao nosso lado.
— Que é que estão fazendo? — ele insiste enquanto olha para mim e Wren.
— O James acabou de descobrir o nosso segredinho, Ruby.
O rosto da Ruby fica lívido.
Por um instante, tenho vontade de dar um soco em Wren. Mas então me lembro do punho
cerrado do meu pai e o largo. Não suporto ficar nem mais
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um segundo nesta sala.


— James... — murmura a Ruby.
Abano a cabeça, dou meia-volta e saio dali.
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20

Humano

Estou um bocadinho dececionada.


Ruby tinha envolvido essas festas em tanto mistério que tinha me preparado para tudo,
menos para passar a maior parte da noite plantada aqui e mais entediada que um peru.
Enquanto Ruby corre de um lado para o outro da sala, falando não se sabe do que e não se
sabe com quem, eu fiz alguém conversar comigo duas vezes. Uma dessas pessoas é a filha
de um empresário, o dono de uma rede de cafés. Gostei tanto do vestido dela que perguntei
de qual estilista ela era e se poderia tirar uma foto dela. A outra pessoa era uma porta-voz do
Maxton Hall College, que fez um excelente discurso inaugural, pelo qual o parabenizei. De
qualquer maneira, a minha opinião parecia lhe interessar francamente pouco, porque, enquanto
conversávamos, esteve sempre a olhar para as pessoas que nos rodeavam como se procurasse
alguém mais importante com quem conversar.

O Kieran mal se afasta de mim durante todo o serão. Tenho a certeza absoluta
de que Ruby pediu que ele me vigiasse. Ele é amigável e atencioso, mas já esgotamos todos
os tópicos de conversa e apenas olhamos em silêncio para o palco ou para nossos copos. Me
faz alguma pena. Tenho certeza que você tem coisas melhores para fazer do que cuidar da
irmã mais nova de sua diretora de equipe.
Enquanto, no palco, a última oradora faz um discurso apaixonado em favor do amor ao
próximo, olho discretamente e pela enésima vez em volta, procurando por Wren. Ele é o único
de todos os presentes que realmente se interessou por mim esta noite. E o interesse é mútuo.
Teve algo nele que me fascinou e eu gostaria de ter a oportunidade de conversar mais um
pouco com ele e saber mais da vida dele.

O aplauso do público me tira dos meus pensamentos. A palestrante agradece e sai do palco.
Ruby já está lá no pé, ao lado da escada, pronta para recebê-la.
Fico surpreendida ao ver o rosto dela: algo mudou. O sorriso não lhe chega aos olhos e parece-
me falso. Pensando bem, não a vi nem uma vez nas últimas
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horas. Terá acontecido alguma coisa? Não deve ter nada a ver com o gala, aqui está tudo
acontecendo de acordo com o roteiro. Pergunto a mim mesma se devo ir até ela, mas ela
desaparece com a oradora em uma sala contígua.
Suspiro.
E, nesse momento, descubro o Wren.
Está encostado na parede, ao lado da grande porta de entrada. E me sorri de longe. Por um
instante, fico tentada a me virar para ter certeza de que é realmente para mim que você está
olhando, mas... sim, você está olhando diretamente para mim. Como antes.

Penso naquilo exatamente durante dois segundos. Depois, peço desculpa ao Kieran, ignorando
os seus protestos, e vou ter com o Wren. O olhar dele não se desvia de mim enquanto me
aproximo lentamente e, de repente, o trajeto parece-me muito mais longo do que é na realidade.

— Voltaste — digo-lhe, parando a uma certa distância dele.


Anui, sorrindo.
— Ainda não tínhamos acabado, pois não?
Não sei se fez uma pergunta tão ambígua propositadamente. Ter-lhe-ei transmitido algum
equívoco ao vir ter com ele? É que, enquanto ele namorisca claramente comigo, eu só quero
conversar com ele, nada mais.
— Não, não tínhamos terminado — respondo a ele, apesar de tudo. A atenção e o interesse
no olhar de Wren são uma mudança bem-vinda, em comparação com os rostos indiferentes do
resto dos convidados. Talvez esta noite não seja um fiasco total.

Seja como for, sê prudente, murmura uma voz na minha cabeça.


Ato contínuo, o Wren dá-me a mão. Surpreendida, olho para os nossos dedos entrelaçados e
depois levanto os olhos para o rosto dele. Levanta uma sobrancelha e, ao mesmo tempo, aperta-
me a mão, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Tenho muita dificuldade em entendê-
lo.
O Wren aponta para a saída com o queixo.
Penso por alguns segundos e olho para trás, por cima do ombro. Ruby ainda não apareceu
novamente e Kieran também desapareceu.
O Wren torna a apertar-me a mão suavemente. Acho que nunca tinha conhecido um rapaz
tão interessante como ele. Parece-me que a conta do Instagram não lhe faz justiça. As fotografias
dele dão a impressão de ser algo demasiado intencional: intencionalmente feliz, intencionalmente
cool, mas a personalidade real é muito mais interessante. E bastante misteriosa. Quero
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saber, a todo custo, o que aconteceu antes. Por que você finge esse sorriso
despreocupado e, ao mesmo tempo, tem um olhar turvo.
Acabo assentindo e saímos juntos para a área da entrada do Boyd Hall. Uma mulher
com um vestido bordô deslumbrante passa ao nosso lado e eu me viro para olhar para
ela. Quando percebo o decote das costas, debruado de renda, dou um pequeno suspiro.

O Wren olha para mim de soslaio.


— Tenho uma queda por moda. E os vestidos que essas pessoas usam... eu adoraria
reunir os modelos de todos, para depois os costurar.
Observo Wren, para tentar ver se isso lhe parece estranho, mas tem os
olhos a brilhar. Aponta para uma escadaria curva que leva ao primeiro piso.
— Tenho uma ideia.
Vou atrás dele, lutando para não pisar na bainha do vestido enquanto subimos os
degraus largos. Quando chegamos ao topo, Wren vira à esquerda e me leva por um
corredor longo e escuro.
Os corredores do meu colégio estão sujos e há muito tempo o branco das paredes
amarela. Há anos, a tinta verde-escura está saltando dos armários, e os alunos
desenharam com marcadores as poucas imagens vistas entre as portas das salas. A
diferença em relação a esse corredor não poderia ser maior.
Aqui, quadros de aparência valiosa e molduras pesadas estão pendurados, além de
fotografias de ex-alunos célebres de Maxton Hall. Há vitrines que contêm joias doadas
ao colégio e também um par de esculturas feitas nas aulas de Arte.
Estou tão ocupado observando o que me rodeia que quase choco com Wren quando ele para
de repente. Ela rapidamente olha em volta e se senta em um banco de madeira, dando tapinhas
no espaço livre ao lado dela, e eu também me sento.

— Olha — ele me diz, fazendo um gesto para a balaustrada que está bem à
nossa frente.
Olho com curiosidade através dos espaços entre as barras de madeira.
Um sorriso se espalha pelo meu rosto. De onde estou sentado, tenho a melhor vista da
entrada do Boyd Hall e posso observar as pessoas sem que ninguém perceba. Duvido
de que pudessem nos ver, se levantassem o olhar para cá. Esta parte da galeria está
muito escura. — Você é um gênio — declaro
alegremente.
O Wren sorri.
— Até agora, nunca me chamaram de "gênio".
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— Nesse caso, concedo-te solenemente esse título. — Faço de conta que o


estou a armar cavaleiro, batendo-lhe nos ombros com uma espada.
Nesse momento, Wren torna a me dar a mão e a segura com força. Seu sorriso dá lugar a
uma expressão completamente diferente. De repente, você tem um olhar sério e expressivo. Na
minha barriga, aparece um formigamento que se estende por todo o corpo.

Nunca ninguém olhou assim para mim. É verdade, nunca.


De onde eu venho não há caras como Wren. Aos olhos dos meus colegas sou «apenas a
Ember». Conheço a maioria deles desde o jardim de infância ou o pré-primário, e nenhum olha
para mim como se eu fosse objeto de desejo e único. Tenho séria dificuldade para respirar
regularmente.
O Wren passa o olhar pela minha boca, volta aos meus olhos e torna a baixá-lo. Continuamos
de mãos dadas. Com a outra mão, afasta-me uma madeixa do rosto e, quando o faz, o seu
polegar acaricia-me a têmpora e sinto um calafrio
percorrer-me o corpo.
Entre nós saltam faíscas que, a cada segundo que passa, se tornam mais intensas. Nunca
tinha sentido nada assim. Cada segundo, cada instante, é aterradoramente bom e emocionante.

— Desculpa ter desaparecido de repente, há bocado — diz-me a meia-voz. —


Pelo visto, tem gente que quer te proteger de mim a todo custo.
— Porquê? — murmuro.
Não afasta os olhos do meu rosto.
— Porque me conhecem. É a
única coisa que diz, antes de se aproximar mais e de colar os lábios aos meus. Faço um som
de surpresa e o Wren rodeia-me as costas com o braço, apertando-me mais contra ele. Os seus
lábios descontraem e abrem-se ligeiramente. É então que sinto aquele sabor.

Álcool.
Afasto-o imediatamente de mim e chego-me um pouco para o lado, abanando
negativamente a cabeça.
— Carriça.

Olha para mim desconcertado.


— Que é que se passa?
O meu coração bate descompassadamente. Embora seja provável que este tenha sido o
beijo mais breve da história da humanidade, ainda consigo sentir os lábios dele sobre os meus.
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— Eu não tinha imaginado que meu primeiro beijo seria assim — respondo a ele. Minhas
mãos estão tremendo e as cruzo sobre o colo, afastando os olhos para não ter que ver a reação
de Wren às minhas palavras. Em vez disso, torno a espreitar lá para baixo pela balaustrada.
Uma mulher jovem acaba de atravessar a porta da frente e seu vestido azul escuro quase
parece um céu noturno. Ela tem pontinhos brilhantes salpicados na cauda do vestido, que
brilham com a luz a cada passo que ela dá.

— Com que então, o teu primeiro beijo? — Subitamente, o tom de voz do


Wren torna-se mais suave.
O homem que está junto da mulher põe a mão nas costas dela e eu os sigo com o olhar
quando entram no salão.
- Sim.
Durante uns segundos, o Wren fica em silêncio.
— Desculpa — diz-me depois.
O casalinho desaparece no meio da multidão e volto a olhar para o Wren.
— Tive uma semana de merda. Pensava que podíamos animar-nos um pouco
mutuamente — continua.
— Se quiseres, podemos falar sobre isso, mas não estou disposta a mais nada.
E menos ainda se estás bêbedo.
— Não estou bêbedo. No máximo, um pouco alegre. Eu sei muito bem o que acabei de fazer.
E eu também gostaria de fazer isso se não tivesse tomado nem um gole de álcool — ele me
responde, com as sobrancelhas levantadas. — Só para você saber.

— Está bem.
O Wren anui e torna a sentar-se no banco. Cruzo os braços e olho para o lustre que ilumina
a área da entrada.
— Por que você teve uma semana tão ruim? — pergunto a ele depois de um tempo.

Prende a respiração. Pela maneira como o corpo fica subitamente tenso, dou-me conta de
que não esperava que lhe fizesse esta pergunta e que se debate entre se quer ou não
responder-me.
O canto suave do coro do colégio chega até nós, mas apenas distingo as
harmonias doces.
Por fim, o Wren respira fundo e fecha os olhos.
— Os meus pais acabaram de abrir falência.
— Que é que aconteceu?
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Wren encolhe os ombros quase imperceptivelmente e fecha os olhos.


— O meu pai cometeu um erro ao especular com ações. Perdeu a fortuna quase
toda.
Céus. Consigo imaginar o que deve ser, para alguém de Maxton Hall, perder
quase tudo de um dia para o outro.
— Lamento.
O Wren cerra os lábios com força e espreita por cima da balaustrada.
— Que repercussão isso tem para a família de vocês? — pergunto a ele com
prudência.
— Vamos mudar de casa. Não sei o que acontecerá depois. Fui admitido em
Oxford, mas não faço ideia de como vou pagar os estudos.
— Há bolsas e coisas assim. Minha irmã se candidatou a várias.
Talvez pudesses fazer o mesmo — sugiro-lhe.
O Wren anui, ensimesmado.
— Sim, talvez.
Por alguns minutos, ficamos ouvindo o coral, que, lá embaixo, canta uma versão de
uma música pop. Esse momento entre nós me parece tranquilo, como se Wren não
tivesse acabado de me contar algo tão trágico.
Subitamente, vira o tronco para mim e observa-me novamente. Não sei o esforço
que isso lhe terá custado, mas, de um segundo para o outro, já não tem um olhar
perdido, mas sim curioso, como no início do serão.
— Agora é a tua vez — diz-me. — Conta-me qualquer coisa sobre ti. Até
agora, só sei que você é irmã da Ruby e que se interessa por moda.
Lanço-lhe um sorriso, insegura quanto ao que lhe vou confiar.
— Há um ano e meio que tenho um blogue de moda para pessoas com curvas.
Chama-se Bellbird. — Começo pelo mais importante e inofensivo. Não tenho problema
nenhum em que as pessoas conheçam o meu blogue. Estou orgulhosa do que faço,
sobretudo agora, depois de ter reformulado o design do blogue.
O sorriso retorna ao rosto de Wren.
— Parece fantástico. Como é que te lembraste disso?
A pergunta surpreende-me, mas de uma forma agradável. Humedeço os lábios.

— A vida toda fui gorda. — Faço uma pequena pausa, atenta para ver se Wren reage
a essa afirmação, mas ele me deixa perplexa pela segunda vez quando continua me
olhando atentamente e espera que eu continue falando. — Não é por comer
descontroladamente, como as pessoas costumam pensar.
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Simplesmente, é assim. E tenho imensa dificuldade em encontrar roupas bonitas para minha
constituição. Então, em algum momento, comecei a costurar minhas próprias roupas e, desde
então, as compartilho no meu blog. Além disso, escrevo artigos em que incentivo as pessoas
a se aceitarem como são.
O sorriso do Wren não diminui nem um milímetro. Pelo contrário, torna-se
ainda mais rasgado.
— Pareces uma super-heroína, Ember.
Sinto um rubor cobrir-me as maçãs do rosto, mas a falsa modéstia não é a
minha onda.
— Sou uma super-heroína — respondo-lhe.
Agora desata a rir. O som é tão áspero e maravilhoso que acho que me lembrarei dele
durante toda a noite. Por momentos, arrependo-me de ter interrompido o beijo, mas, no mais
fundo de mim, sei que foi a decisão correta.
Se não o tivesse feito, ter-me-ia arrependido muito mais, disso tenho a certeza.
— Já sei o que é que vou fazer esta noite — comenta o Wren depois de um tempo.

— O quê?
Um brilho aparece nos seus olhos escuros.
— Vou ler todos os teus artigos. Todos e cada um deles.
Agora é a minha vez de sorrir.
— Você se meteu num belo sarilho... desde um ano e meio eu publico, pelo
menos, dois artigos por semana.
— Está bem... — diz-me, arrastando as sílabas. — Nesse caso, é possível que
precise de um pouco mais de tempo.
Nesse momento, o coro termina a canção, e aplaudo breve, mas calorosamente. Lá em
baixo, um homem estaca subitamente e vira-se para nós.
Eu imediatamente me escondo e espero que você não nos tenha descoberto. Não tenho ideia
se é permitido estar aqui em cima.
O Wren ri-se baixinho.
— Parece que não queres que te apanhem aqui comigo.
— Se minha irmã descobrir que passei esse tempo todo com um cara em um
canto escuro, vai ter uma síncope.
A diversão desaparece completamente dos olhos de Wren. Abre a boca e torna a fechá-la
imediatamente. Seja o que for que você queira dizer, você não pode fazer isso. No fim, dá um
suspiro.
— Nesse caso, eu deveria te levar lá embaixo novamente. Espero que Ruby não
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se tenha dado conta de que desapareceste.


Por momentos, sinto-me dececionada, mas talvez ele tenha razão.
Wren se levanta e estende a mão para mim. Como se fosse a coisa mais natural do
mundo, dou-lha e acompanho-o pelo corredor e pela escada abaixo, até ficarmos frente a
frente diante da entrada da sala.
— Obrigado por salvar minha noite, Ember — Wren me diz, e as palavras soam sinceras.

Quando me sorri uma última vez, sou invadida repentinamente pelo desejo de
não o deixar ir-se embora. Mas já deu meia-volta.
Na minha barriga, nasce uma sensação de saudade. Desejo com todas as minhas forças
que este não tenha sido meu último encontro com Wren Fitzgerald.
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21

Rubi

Não dormi nem um minuto.


Em contrapartida, passei a noite toda pensando no que aconteceu na festa.
Justamente agora que eu e James estávamos começando a nos reaproximar com
toda cautela, sofremos esse revés. O que mais me entristece é que não tive a
oportunidade de contar a ele, com minhas próprias palavras, o que aconteceu entre
mim e Wren. Quando ainda estávamos no gala, escrevi para ele dizendo que gostava
de explicar tudo, mas ele ainda não me respondeu. Posso entender que o decepcionei.
Por outro lado, o silêncio dele me faz sentir mal.
Enquanto estou na cama, olho para a nota de admissão em Oxford, que imprimi e
afixei no quadro acima da mesa. Como já é hábito, minha barriga dá um pequeno
salto de alegria, mas também me lembro do que James me disse há dois dias: 'A
pessoa que você conheceu em Oxford ... é
assim que eu realmente sou. E
quero ter mais dias contigo para to demonstrar.»
Só de pensar que agora é demasiado tarde, fico com o coração encolhido.
Dando um suspiro de frustração, levanto-me e visto-me. Preciso urgentemente de sair
deste quarto e de me distrair, caso contrário vou enlouquecer.
Dirijo-me para o quarto da Ember e, quando vejo a luz que sai por baixo da
porta, suspiro de alívio.
— Ember? — chamo-a.
— Entre — ouço ela dizer, e abro a porta.
Minha irmã está estirada na cama de bruços e sorri para a tela do celular. Quando
ele percebe meu olhar curioso, ele cora e rapidamente o esconde debaixo da colcha.

— Que é que estás a fazer?


— Lendo os comentários do meu novo artigo — ele me responde imediatamente.
Se não fosse por estar tão corada, acreditaria nela sem o menor reparo.
— Pelo teu ar, parece que te apanhei a fazer qualquer coisa indecente —
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Eu digo a ele brincando, quando me sento na beira da cama.


— Bem, estou de pijama. Não podia ser nada de muito indecente — responde-me,
levantando e baixando as sobrancelhas.
Devolvo-lhe a expressão e, então, aponto para o corredor com o queixo.
— Quer descer para tomarmos café da manhã juntas? Não quero enfrentar sozinha o
interrogatório intrometido de mamãe e papai. Tenho certeza que eles vão me bombardear
com milhares de perguntas sobre ontem.
Ember suspira, mas sai da cama e calça os chinelos. Não se dá ao trabalho de trocar de
roupa. Ela desce com o pijama que tem uma linda estampa com desenhos de esquilos e
nozes. Ele segura firmemente o telefone na mão e vejo a tela se iluminar de vez em quando.
Pergunto a mim mesma se Kieran está escrevendo para ela. Ontem à noite, eles pareciam
estar se dando bem.
— Bom dia — nosso pai nos diz quando nos vê aparecer na porta da cozinha, empurrando
os óculos de leitura mais para cima no nariz. Você está lendo um livro no Kindle que todos
nós compartilhamos e que, portanto, tem todos os tipos de títulos. Uma mistura de romances
contemporâneos, thrillers, livros de fantasia e clássicos ingleses.

— Bom dia — respondemos eu e a Ember, sentando-nos à mesa com ele.


— Oi — nossa mãe nos cumprimenta quando chega à cozinha. — Todos já estão acordados. —
Quando me vê, aperta os olhos. — Ruby, você não pregou o olho essa noite?

O meu pai e a Ember observam-me com curiosidade.


Afasto o olhar e pego numa torrada.
— Claro que sim.
— Bem, compreendo que estejas exausta — diz-me a Ember de repente.
Levanto os olhos surpresa. — Eu nunca teria imaginado todo o trabalho que dá uma festa assim, nem a quantidade de

assuntos que você tem que tratar. É verdadeira loucura. uma

Lanço-lhe um sorriso agradecido.


— Podes continuar com os elogios.
Minha mãe me passa a manteiga e, logo depois, a compota de maçã.
— Contem-me como foi.
— Correu tudo de acordo com o planeado — respondo-lhe enquanto começo
a pôr manteiga na torrada. — Estou satisfeita.
Minha mãe está acostumada com minhas respostas sucintas com relação ao assunto de
Maxton Hall e imediatamente dirige os olhos para Ember. Mas ela
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ela está ocupada digitando uma mensagem no celular, embaixo da mesa, e não percebe que
nossa mãe falou com ela.
— Porque é que estás a sorrir dessa maneira, Ember? — pergunta
subitamente o nosso pai, um segundo antes de eu lhe fazer a mesma pergunta.
Ao sentir-se apanhada, a minha irmã levanta os olhos.
— Não estou a sorrir.
Nosso pai levanta uma sobrancelha, já nossa mãe insiste de maneira mais enérgica: —
Conte-nos
o que você fez ontem.
Dou uma dentada na torrada e olho para a Ember com tanta expectativa quanto os nossos
pais.
— Foi realmente bonito — diz ela, por fim, e o seu fascínio parece sincero. — Que colégio
tão maravilhoso... a Internet não lhe faz justiça. E a roupa que as pessoas usavam! Cada
vestido era mais bonito do que o anterior.
Dando um suspiro, ela se serve de uma xícara de chá.
— Só isso? Não me contas mais nada? — insiste a nossa mãe.
Pergunto a mim mesma por que você insiste tanto. Será porque, finalmente, ele tem a
oportunidade de arrancar informações de alguém sobre as festas de Maxton Hall? Ou estará
preocupada com a Ember? Esta semana, tivemos alguma dificuldade em convencê-la a deixar
minha irmã vir comigo. Se calhar, está escondendo outro motivo.

A Ember não perde a calma. Com toda a tranqüilidade, põe manteiga numa
torrada, antes de levantar a cabeça.
— Conheci um rapaz. Era isso que querias ouvir, mamã?
Viro-me bruscamente e fico a olhar para ela.
— Estás a falar do Kieran? Por favor, diz-me que é o Kieran.
— Quem diabos é Kieran? — nosso pai pergunta, se intrometendo na conversa e colocando
o Kindle para o lado. Ele olha alternadamente para mim e Ember. — Ele é um cara muito legal
que
pertence à comissão de eventos.
A nossa mãe suspira de alívio.
— Graças a Deus! Já pensei que a gente ia ter a próxima doente de mal de
amores estendida no sofá.
— Ei, eu não fui uma doente de mal de amores!
Os nosso pais trocam um longo olhar, que vale mais do que mil palavras.
— Se é isso que pensas, meu amor... — diz-me a nossa mãe, embora sem o
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sorriso habitual. — Vai, Ember, nos conte sobre esse rapaz.


— Calma! — exclama Ember, e olha com indignação primeiro para nossa mãe e depois para
mim. — Primeiro, não diz respeito a vocês. Segundo, não devo nenhuma explicação a vocês.
E terceiro, «conhecer» não significa que você tem um namorado. Além disso, dei uma tampa
e, primeiro, quero ver como ele reage.
Portanto, não façam uma tempestade num copo de água.
Olho fixamente para a minha irmã.
— Quem é, Ember?
Ember responde minha pergunta arqueando as sobrancelhas.
— Não te vou dizer.
— Ember, eu...
— Esqueça, Ruby. Podemos continuar a tomar café da manhã
calmamente? — Morde ostensivamente a torrada.
O resto do café da manhã passa com uma lentidão atormentadora. Nosso pai tenta animar um pouco
o ambiente depois de alguns minutos, mas não vai nada bem para ele. Pensamentos se amontoam na
minha cabeça. Revejo a noite anterior e penso em quando Ember teve a oportunidade de falar com um
cara que não fosse Kieran por mais de cinco minutos. Na verdade, só pode ter sido ele. Mas, nesse caso,
ela não faria disso um mistério, certo?

Depois do café da manhã, Ember e eu colocamos a louça na máquina de lavar em silêncio e


depois vamos para o andar de cima juntas. Antes de se meter no quarto, ele me lança um
pequeno sorriso que eu lhe devolvo fugazmente. Na verdade, não costumamos nos zangar
assim uma com a outra, mas não consigo afastar a sensação de que ontem aconteceu alguma
coisa da qual eu devia ter protegido a Ember.

Suspiro e abro a porta do meu quarto, justamente quando escuto o celular apitar. Eu
imediatamente o levanto da mesinha de cabeceira. Abro a mensagem com os dedos tremendo.

Podemos falar?

Escrevo a resposta tão rápido que a tela sensível ao toque do celular não consegue
acompanhar a velocidade e as palavras saem todas mal escritas, então tenho que começar de
novo.

Claro. Quando e onde?


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Conto os segundos e prendo a respiração, até que o celular indica novamente que uma nova
mensagem de James entrou.

Vou sair imediatamente.


Posso ir a tua casa?

Hesito momentaneamente. Até agora, nunca pedi a James que viesse para
minha casa. Apresentá-lo aos meus pais seria dar um passo enorme.
Contudo, no mais fundo do meu ser, sinto que estou preparada para isso.
Consigo voltar a estar com ele sem me desmoronar. E ele querer falar comigo demonstra que,
apesar de tudo o que aconteceu ontem, sente o mesmo que eu.
Portanto, respondo-lhe:

Está bem.

Depois, desço a escada correndo, com o celular na mão. Enquanto isso, meus pais se
instalaram na sala de estar. Meu pai está concentrado no Kindle novamente enquanto minha
mãe começou a organizar a correspondência da semana. Aproximo-me deles cautelosamente
e pigarreio.
— Vocês se importam que James venha aqui em casa? — pergunto a eles.
A minha mãe para com o abre-cartas na mão e troca um olhar surpreendido com o meu pai.
As palavras que disse sobre o mal de amores ainda soam na minha cabeça e tenho de fazer
um esforço para resistir ao seu olhar crítico.
— Meu amor, nós só queremos o melhor para você — meu pai começa a dizer devagar. —
Não nos passou despercebido o quão mal você esteve durante todo o mês de dezembro.

— Essa não era a minha Ruby — apoia-o a minha mãe em voz baixa. — A verdade é que
não quero que voltes a sair com esse rapaz.
Abro a boca e torno a fechá-la.
Meus pais nunca me proibiram nada. É provável que eles nunca tenham tido muito que proibir
ajude. Minha vida sempre girou em torno da minha família e de Oxford. Algo explode dentro de
mim. Acho que é uma mistura de desconcerto e raiva pelo que disseram.

— James é... — procuro as palavras adequadas. Não sei como explicar para os
meus pais o que aconteceu entre mim e o James.
Talvez consiga fazer-lhes entender o quanto ele significa para mim, e que o meu coração
estará sempre com ele. Mas preciso de mais tempo para chegar a
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esse ponto. Nem eu própria sei o que vai acontecer daqui a nada.
— Por favor, confiem em mim — suplico-lhes.
Tornam a olhar um para o outro.
A minha mãe dá um suspiro.
— Tens dezoito anos, Ruby. Não te podemos proibir. Se esse rapaz vem cá a
casa, queremos ter oportunidade de o conhecer.
Anuo. Ao mesmo tempo, pergunto a mim mesma se a minha mãe terá procurado na
Internet informações sobre o James e os Beauforts. Nunca me tinha ocorrido, mas não
estranharia que o ceticismo dela se baseasse nisso — afinal de contas, eu própria sei o que
se pode encontrar sobre o James.
— É vegetariano? — pergunta subitamente o meu pai, levantando os olhos
com uma expressão inquisitiva.
Eu penso momentaneamente.

— Acho que não.


— Ótimo. Queria fazer espaguete à bolonhesa. James está convidado. — É tudo o que
meu pai tem a dizer e, depois, torna a se concentrar no Kindle.
— Excelente ideia — minha mãe concorda, me lançando um sorriso largo. Faz um grande
esforço por não se mostrar tão severa quanto antes, mas vejo uma centelha de incredulidade
em seu olhar. Ele faz uma pequena carícia no braço do meu pai e, então, pega a próxima
carta e a abre.
Parece-me que esta conversa já terminou, portanto, torno a sair da sala de estar. Vou até
a cozinha, porque de lá posso ver os carros que entram na nossa rua. Quando éramos
pequenas, Ember e eu sempre sentávamos na arquibancada, para ver nossos parentes
chegarem quando vinham nos visitar.
Depois de dez minutos, o Rolls-Royce dobra a esquina. Corro imediatamente para a
porta. Não quero, de jeito nenhum, que meu pai, que olharia James da cabeça aos pés,
seja o primeiro a recebê-lo.
Abro a porta antes mesmo de ele ter saído do automóvel. O ar ainda está fresco e eu
mudo o peso de uma perna para outra, para manter o calor, mas não me serve de nada. Eu
estaco quando ele aparece no meu campo visual. Ele abre facilmente a pequena porta de
madeira e levanta os olhos. Quando me vê, estaca de forma quase imperceptível. Seus
passos diminuem momentaneamente e então ele avança pelo jardim e sobe a escada da
casa até ficar na minha frente.
— Oi — diz-me com voz rouca.
Aquela minúscula palavra dá-me vontade de me atirar para os braços dele.
Houve uma altura em que ficava irritada por ele cumprimentar toda a gente
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assim, mas agora esse cumprimento que sai de seus lábios me parece familiar. É quase
normal.
— Bom dia — respondo-lhe, abrindo a porta e indicando que entre com
um gesto.
O momento em que você atravessa a porta com um leve pigarreio me parece extremamente
importante. Não sei se você saberá que é o primeiro cara que trago para casa. O primeiro
que é tão importante para mim e em quem, mesmo agora, confio tanto que vou apresentá-lo
aos meus pais.
É muito estranho ver James em nosso pequeno corredor, mas, ao mesmo tempo, me
pergunto como é possível que eu tivesse tanto medo desse instante. Tudo parece estar indo
bem.
James usa um casaco xadrez cinza discreto, calças pretas de um tecido macio e um suéter de lã
simples da mesma cor. Os sapatos de couro também são pretos. Como sempre, ele está com o
cabelo acobreado bagunçado e um pouco ondulado, como se tivesse acabado de tomar banho e
deixado secar ao ar. Adoraria tocá-lo.

— Queres dar-me o casaco? — pergunto-lhe em vez disso.


James anui, ensimesmado, enquanto dá uma olhada em volta. Seus olhos pousam
justamente nas deploráveis fotografias que estão penduradas nas paredes, que me mostram
e a Ember quando éramos pequenas.
Em uma estamos dançando no jardim, em outra estamos colhendo maçãs e em outra
estamos loucas de alegria, sorrindo desdentadas na pequena piscina de nossa tia.
O James olha para todas elas, deixando cair elegantemente o casaco pelos ombros e
estendendo-mo depois.
Sério que eu tenho que fazer um esforço para não ficar olhando para ele por muito tempo.
Como, nessas últimas semanas, eu havia proibido terminantemente a mim mesma fazer
isso, agora é mais tentador.
Concentro-me em pendurar bem o casaco no armário e, depois, encaminho-me para a
sala de estar. O James vem atrás de mim, mas, antes de abrir a porta, viro-me por um
segundo e levanto os olhos para ele.
"E vegetariano?"
O James pestaneja várias vezes.
Levanta um dos cantos dos lábios enquanto abana lentamente a cabeça.
— Não, não sou.
Suspiro de alívio.
— Ótimo.
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Quando rodo a maçaneta e entro na sala de estar com o James logo atrás de mim, tenho
um nó de nervos na barriga.
— Mamã, papá, apresento-vos o James — digo, apontando para ele.
James respira fundo, antes de se aproximar de minha mãe e estender a mão para ela.

— Muito prazer em conhecê-la, senhora Bell.


— Oi, James — minha mãe responde, dando um sorriso carinhoso.
— Mas me trate por Helen.
Não vejo o menor vestígio do ceticismo que você mostrou antes e me pergunto se ela é
uma atriz fabulosa ou se está sendo indulgente com James porque sabe o quanto a morte
de sua mãe o afetou.
— Certo — responde-lhe o James. — Helen.
O meu pai não tem tanto jeito para dissimular os receios que sente. O olhar dele é frio e
avaliador, e dá a impressão de esmagar a mão do James quando lha aperta. Contudo, o
James não faz nenhum esgar.
Por sorte, a minha mãe põe fim ao momento desagradável.
— Gostávamos de te convidar para jantar esta noite, James — anuncia. —
Para que todos possamos conhecer-nos um bocado melhor.
Fecho os olhos e reprimo o impulso de fazer um gesto de desespero. Espero
que James não esteja já se sentindo avassalado por minha família.
— Seria um prazer — responde-lhe, sem hesitar nem um segundo. — Não
tinha nenhum plano para hoje.
— Fantástico — meu pai diz sem entusiasmo.
Então, um silêncio desconfortável se instala e eu rapidamente pego o braço de James,
para levá-lo para o andar de cima e libertá-lo dessa situação. Quando chego à escada, dou-
me conta do que acabei de fazer: toquei no James sem nenhum constrangimento, como se
não fosse nada de especial. Como se fizéssemos isso constantemente porque temos
confiança um com o outro.
Apresso-me a largá-lo.
— Não arrumei nem limpei nada — explico-lhe quando paramos em frente
do meu quarto.
O James abana a cabeça.
— Não faz mal. A minha vinda foi uma surpresa.
Anuo e abro a porta. Deixo James entrar primeiro e o sigo. É estranho estar com ele
neste quarto que é tão íntimo para mim e onde me sinto tão protegida.
Automaticamente, sinto-me bem, mas, ao mesmo tempo, sinto um formigueiro
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de incerteza sobre o que esta conversa irá acarretar, sobre o que me espera neste dia.

Um som leve interrompe-me os pensamentos.


Para ser mais precisa, um riso áspero.
Viro-me para o James. O riso dele soa um pouco enferrujado, como se há muito tempo
nada o divertisse. Quando vê a minha expressão de surpresa, faz um gesto com a mão que
abarca todo o quarto.
— Por favor, se você diz que isso é "bagunçado", como será seu quarto
quando está arrumado, Ruby Bell?
Uma sensação de calor enche-me a barriga e espalha-se por todo o meu corpo,
até que não posso deixar de sorrir.
Adoro ver o James aqui Vê-
lo rir faz-me feliz.
Sou invadida por uma vaga de saudades. Quero aproximar-me dele, mas não me mexo de
onde estou e fecho lentamente a porta atrás de mim. O sorriso dele desaparece ao ouvir o
leve clique.
Ficamos frente a frente durante uns minutos, a olhar um para o outro.
— Lamento o que aconteceu ontem — começo a dizer.
O James abana lentamente a cabeça.
— Eu tinha que ter te contado antes. Isso...
— Ruby — interrompe-me a meia-voz. — Não me deves nenhuma explicação.

Tem razão. Eu sei. Mas, apesar disso, adoraria poder voltar atrás e evitar a situação que
ocorreu ontem.
— Por que você foi embora tão rápido? — pergunto a ele com cautela.
Engole em seco.
— Simplesmente, fiquei avassalado por toda a situação. Há muito tempo que
eu e o Wren não discutíamos daquela maneira.
— Eu sei que sua amizade com Wren é muito importante para você — digo a ele
em voz baixa. — Lamento.
James vai até minha mesa e percorre com o dedo as lombadas
dos livros que estão empilhados lá desde a semana passada.
— Não tens de pedir desculpa. Na verdade, não vim aqui para falar do Wren.
— Então, por que você veio? — replico de forma quase imperceptível. Não
percebo para onde foi a minha voz.
O James lança-me um breve olhar e torna a observar concentradamente o caos
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da minha secretária.
— Sabes porque é que o Wren ficou tão furioso? — pergunta-me.
Faço um gesto negativo e avanço os dois passos necessários para ficar ao lado dele.

— Não.
— Eu estava com raiva porque tem a sensação de que, para mim, você se tornou
mais importante do que qualquer outra coisa. — James faz uma breve pausa antes de
continuar a falar. — E você não está enganado.
Continua parado diante da minha secretária. Não olha para mim quando diz estas
palavras tão importantes.
— James — murmuro, para que se vire para mim.
Satisfaz o meu desejo e fico impressionada com o seu olhar. Reconheço nele
todas as emoções que também me inundam o corpo.
Nesse momento, sou invadida por uma onda tão grande de carinho por ele que quase
tenho que desviar os olhos. Cuidadosamente, levanto a mão e, com uma carícia, afasto
a mecha de cabelo rebelde que cai sobre sua testa. Depois, levo a mão ao rosto dele.
Sinto a calidez da pele e, quando lha percorro suavemente com os dedos, o James põe
a mão dele sobre a minha.
Não passou muito tempo desde que estivemos nesta mesma posição.
Acariciei-lhe o rosto, ganhei coragem e confessei-lhe que não queria perdê-lo.
Nesse dia, afastou a minha mão do rosto e virou-me as costas.
Agora, faz o contrário.
Pega-me na mão com determinação e fecha os olhos. Quando lhe acaricio a pele com
o polegar, um tremor percorre-lhe o corpo todo. Torna a abrir os olhos e sustém a
respiração.
— Eu não quero que nada volte a se intrometer entre nós, nunca mais, Ruby —
sussurrou.
Mal consigo respirar, de tão próximo que está de mim. As palavras dele, carregadas
de significado, flutuam no ar e, neste preciso segundo, tenho claro que sinto o mesmo.

Não quero continuar separada dele.


Não quero continuar zangada nem triste.
Quero voltar a sentir aquele êxtase em que eu e o James nos perdemos mutuamente.
Quero voltar, de uma vez por todas, a conversar com ele, a escrever com ele e partilhar
com ele os meus medos e preocupações.
Quero amá-lo.
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Mesmo passados dois meses, esta nostalgia dele que abarca tudo não desapareceu.
Pelo contrário, é cada vez mais forte, de dia para dia. E não há nada que eu possa fazer
para lutar contra ela.
— Sinto exatamente o mesmo — murmuro.
Faz um som leve e dilacerado e, depois, me puxa para si. Ele me envolve firmemente
com os braços enquanto começo a sentir picadas nos olhos e lágrimas caem pelo meu
rosto. James murmura algo contra meu cabelo. E, embora não ouça o que você diz,
conheço no fundo do meu ser o significado de suas palavras.

James

Não sei quanto tempo permanecemos assim. A dado momento, fico meio sentado em cima
da secretária, e a Ruby encosta-se a mim. No meu peito, o coração bate com tanta força
que não tenho a certeza se ela o ouve. Tem os braços em volta da minha cintura e o rosto
encostado à minha clavícula. As lágrimas foram secando lentamente, mas ainda sinto a
humidade que deixaram à sua passagem.

Respiro fundo, e o cheiro doce e familiar de Ruby sobe pelo meu nariz. Não posso
acreditar que isso está acontecendo. Neste segundo, minha vida deixou de ser um monte
de escombros. Tudo parece correr bem. Poderia ficar assim para sempre.

— Senti tanto a tua falta — murmuro passado um bocado, acariciando com os lábios o início do
cabelo dela. Gostava de os passar por outros sítios, mas proibi-me de o fazer. Não vou beijá-la. Agora
não, hoje não. Não vim aqui para isso.

— E eu a tua — responde-me, também muito baixinho, e sinto o coração dar um salto.

Acaricio as costas da Ruby. Um grande círculo, depois outro mais pequeno. O tecido ligeiro da
blusa dela tem um toque delicadíssimo. E tão parecido com ela...

— O que te disse da outra vez, quando aqui estive... lamento. Não queria sobrecarregar-
te com nada, de maneira nenhuma. — Tenho a sensação de que tenho de repetir isto a
todo o custo.
— Eu também lamento. Não devia ter sido tão cruel.
Imediatamente, abano negativamente a cabeça.
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— Não foste cruel. Tinhas razão ao dizer o que disseste. Eu não devia ser um
peso. Uma relação não funciona assim.
Ao ouvir a palavra 'relacionamento', Ruby levanta a cabeça e se afasta um pouco de mim.
Seu olhar vivo pousa em mim e as palavras seguintes surgem por si
mesmas:
— É só que... quando te vejo, parece-me que tudo na minha vida corre bem.
Eu me sinto como se estivesse em casa... estar em casa realmente de verdade. Nunca senti nada

assim, Ruby. Com ninguém. Você me faz sentir que não estou sozinho. E foi disso que mais senti
falta. Dessa sensação de... estar completo.
Ruby respira entrecortada.
— Não sei se isso faz sentido — acrescento.
— Faz sentido — Ruby me responde. — Claro que faz sentido.
— Não quero que te sintas pressionada.
Ruby passa o olhar por toda a minha cara. Tenho certeza de que tenho maçãs do rosto
tão coradas quanto as dela. Sinto calor e também tive que me esforçar para conter as
lágrimas. Mas Ruby não olha para mim como se pensasse que sou louco ou um pobre
desgraçado.
Em vez disso, há nos seus olhos verdes uma calidez que me chega à alma.
Olha diretamente para o meu interior e sei que compreende tudo.
Ruby é assim: ela encontra soluções para as coisas mais difíceis. Encontra sentido onde,
na realidade, não deveria haver. E, agora, encontra algo em mim que a leva a me cercar
com os braços.
— Não me sinto pressionada — murmura. — Já não.
Ato contínuo, fica na ponta dos pés. Ele me olha nos olhos por um segundo. E, depois, me
beija.
Solto uma exclamação de surpresa. Por instantes, não sei o que acontece comigo, me agarro
à mesa com uma das mãos enquanto meus dedos se enterram com mais firmeza nas costas
dela.
A Ruby aproxima-se ainda mais, até não haver nenhum espaço livre entre nós.
Não era este o meu objetivo quando aqui cheguei. Mas, agora, beija-me e tem
as mãos sobre o meu corpo, e a sua proximidade faz-me perder a cabeça...
— James? — a Ruby inclina a cabeça para trás e olha para mim com uma
expressão insegura.
Precisamente nesse momento, dou-me conta de que estava demasiado
atordoado para lhe devolver o beijo.
- UE...
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De repente, Ruby fica com os olhos esbugalhados e se afasta um pouco de mim.


Engole em seco e abana a cabeça.
— Desculpa. Pensava... não queria...
— Ruby — posso dizer. Desperto do meu imobilismo e a puxo novamente para mim com as
duas mãos. Então eu me aproximo dela, afasto todos os pensamentos da minha mente e, pela
primeira vez em dois meses, beijo a garota que amo.

Ponho uma mão em sua nuca e passo o outro braço em volta de sua cintura, para apertá-la
determinadamente contra mim. Ruby suspira contra minha boca.

Céus.

As saudades que eu tinha disso.


A maneira como Ruby se move. Sua boca tão linda. O leve som que emite
quando as nossas línguas se tocam...
Acaricio sua nuca, o início do cabelo, e desço até o pescoço. A pele dela é tão quente e suave...
Eu gostaria de passar a boca por todo o seu corpo. Ruby ofega, como se desejasse exatamente o
mesmo que eu.
O som arranca-me daquele transe. Afasto-me dela, respirando com dificuldade.

Embora tenha passado muito tempo desde que estivemos tão próximos um do outro, não nos
sentimos preparados para mais. Ainda há uma barreira que não pode ser superada neste momento,
e quando Ruby enterra o rosto no meu pescoço e apenas me abraça, eu sei que ela pensa o
mesmo que eu.
Acaricio suas costas e a aperto entre os braços: segundos, minutos, horas. É como se, neste momento, só existíssemos

eu e ela. Só nós dois no mundo inteiro.

Não sei quanto tempo ficamos assim, mas, quando nos afastamos, parece que
passaram séculos.
Olhamos um para o outro e sorrimos. Ruby alisa a franja e eu, a camisa. É evidente que nenhum
de nós sabe o que vai acontecer depois.
Pigarreio.
— Devia...

— Que tal... — Começamos a falar ao mesmo tempo e caímos na gargalhada.


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— Tu primeiro — digo-lhe.
A Ruby sorri.
— Eu só queria perguntar como Lydia está. Ontem à noite eu não a vi.
— Está bem. De vez em quando, ainda sente náuseas, por isso é que não foi à gala.

A Ruby franze o sobrolho, preocupada.


— Mas, de resto, está tudo bem, não está?
É isso.
— Sim, está tudo em ordem.
Me conforta saber que, com Ruby, não preciso tomar cuidado com o que digo ou deixo
de dizer. Ela conhece todos os nossos segredos e não há nada que você não possa falar
com ela. Não sei se algum dia conseguirei demonstrar verdadeiramente a você o quanto
isso significa para mim.
De repente, Ruby pega minha mão e me leva para a cama dela. Minha barriga encolhe
imediatamente, porque não tenho a menor ideia do que isso significa.
Contudo, Ruby se senta no colchão com as pernas cruzadas e me indica que eu me sente
ao seu lado. Dentro de mim, espalha-se uma estranha mistura de decepção e de alívio, e
sento-me junto dela.
— Como você está lidando com a admissão em Oxford? — ele me pergunta.
O calor que havia dentro do meu corpo dá lugar a um frio gélido. Olho para a Ruby com
uma expressão surpreendida.
— Bem, consigo imaginar qual é a resposta — diz-me, lançando-me um sorriso
compreensivo.
— Sabes o que sinto em relação a Oxford.
— Falas como se tivesses uma relação sentimental com a universidade.
Levanto uma sobrancelha.
— Olha quem fala. Não pense que eu não vi os coraçõezinhos que você desenhou na folha de
admissão — digo a ele, apontando para o quadro pendurado em cima da mesa.

A Ruby sorri, sabendo que a apanhei em flagrante.


— OK, tudo bem. Você me pegou. Mas, de qualquer maneira, não respondeste à
pergunta.
Penso durante uns minutos.
— Sinto-me contente por tu estares contente com a admissão. Você fica feliz pelos dois,
simples assim — digo a ele, com toda a diplomacia possível.
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Ruby revira os olhos. Antes que eu possa reagir, ele pega um dos travesseiros e me bate
com ele. Primeiro, fico perplexo, mas reajo imediatamente.
— Isso é o que Lydia sempre faz. Com ela, não posso me defender por ter medo de aborrecê-
la. Mas com você... — Num piscar de olhos, pego um travesseiro e jogo nele. — Com você é
diferente.
Você reage mais rápido do que teria pensado. Ele pega o travesseiro que eu joguei nele e
me bate com ele duas vezes. Quando ela tenta fazer isso pela terceira vez, eu agarro seu
pulso e a paro.
A Ruby tem as maçãs do rosto coradas, a respiração ofegante e está
despenteada. Tudo em mim deseja inclinar-se para ela e beijá-la novamente.
Pouco depois, largo-a. Pigarreio e afasto-me um pouco.
— Então, você vai aceitar a admissão? — Ruby me pergunta depois de um tempo.

Faço um aceno de cabeça.


— Sim. No teu caso, nem é preciso perguntar, certo?
Atrevo-me a olhar para ela, agora que o calor que me subiu pelo pescoço voltou a diminuir
um pouco. A Ruby olha para mim carinhosamente e, embora seja evidente que se está a
conter, o brilho dos seus olhos reflete quão contente fica por ouvir isto.

— Claro que aceito. — Hesita. — Mas estou preocupada com a possibilidade de não conseguir
nenhuma bolsa. Reuni todas as informações disponíveis sobre as possibilidades de receber um
subsídio, mas todos os anos um número incrível de estudantes concorre e não tenho ideia de
até que ponto tenho possibilidades de recebê-lo. Sem bolsa, não poderei fazer o curso. — A
maneira como a alegria desaparece aos poucos dos olhos dela, para ser substituída pelo medo,
é quase dolorosa de ver. — E também não sei o que devo fazer.

— Tenho certeza de que você tem muitas possibilidades — digo a ele com
otimismo.
— Seja como for, vou continuar lutando até o fim — comenta em tom decidido e, nesse
momento, não tenho a menor dúvida de que ele pode fazer qualquer coisa que se proponha.

— Minha mãe sempre se comprometeu a que Beaufort apoiasse diferentes projetos todos
os anos. Com certeza, entre eles, há bolsas. Se quiser, posso me informar — proponho-lhe
com prudência. Não tenho certeza se, ao fazer isso, estou ultrapassando algum limite. Espero
que não.
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Ruby hesita momentaneamente, mas confirmo com alívio que ela parece estar
mais considerando a oferta do que pensando que minha sugestão é insolente.
— Isso seria muito simpático da tua parte — diz-me, por fim. — Como é que
estão as coisas em tua casa?
O olhar dela ficou mais terno quando mencionei a minha mãe, portanto, a pergunta não
me surpreende.
Penso por momentos.
— Está tudo bem com Lydia e meu pai... é meu pai. Não o vejo muito e, desde
dezembro, mal nos falamos.
— Isso não soa lá muito bem — murmura a Ruby.
Encolho os ombros.
— É melhor assim. Continuo zangado com ele. Nunca na vida eu e a Lydia
iremos esquecer que ele não nos contou o que aconteceu à minha mãe.
— Nunca briguei com ninguém, mas acho que também teria me
atirado a ele.
Ao imaginar a cena, quase sorrio. Infelizmente, esse impulso desaparece
imediatamente.
— Irrita-me a maneira como ele trata a Lydia — digo num tom sério —,
sobretudo agora, que ela tem de enfrentar tantas coisas.
— Que é que ele faz? — pergunta-me a Ruby, franzindo o sobrolho.
— Ele sempre a trata como se achasse que ela é tonta, e isso me irrita profundamente. É como se você não
desse importância a ela também ter sido admitida em Oxford.

Ruby faz uma expressão depreciativa com a boca.


— Tudo o que me contas sobre ele me indigna. Não é de estranhar que fiques
contente quando ele não está em casa.
Em geral, detesto estas conversas. Costumo mudar de assunto ou evitá-las, mas, com
a Ruby, é como se fosse normal estar sentado na cama dela a falar sobre os meus
problemas familiares.
Acho que poderia até me acostumar a fazer isso.
— Em que você está pensando? — Ruby me pergunta de repente.
Eu apenas balanço a cabeça. Tenho um nó na garganta que não consigo desfazer, não
importa o quanto tente pigarrear.
— James? — A Ruby parece insegura.
— Só estou contente de estar aqui — respondo-lhe com a voz rouca.
Um segundo depois, a Ruby encosta-se a mim. Põe a mão em cima da minha
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e entrelaço os meus dedos nos dela.


— Também estou contente por estares aqui — murmura, e todo o meu corpo é invadido por
uma sensação de carinho.
— E não me vou embora tão depressa — afirmo, olhando para as nossas mãos.
— Pode ir se acostumando com a ideia.

Rubi

James e eu passamos mais uns dez minutos sem que ninguém nos incomode, até que Ember
dá umas batidas exageradamente fortes na porta e, por ordem de nossa mãe, nos traz alguns
biscoitos da cozinha. James pula da cama como se tivesse sido picado por uma tarântula.
Quando minha irmã vai embora, ela deixa a porta aberta de par em par e me lança um olhar
carregado de significado, ao qual eu respondo com um revirar de olhos. Eu e James só
ficamos conversando, não nos jogamos nus nos braços um do outro.

Se isso é realmente o que nossa mãe pensa ... não sei o que pensar.
O James, que ficou indeciso no meio do quarto quando a Ember se foi embora, aponta para
os livros pousados na minha secretária.
— Para quando tens de os estudar? — pergunta-me.
Suspiro.
— Na verdade, eu já deveria ter lido quase todos, mas me atrasei muito por causa da gala
beneficente.
— Está bem — murmura o James, levantando a obra O Utilitarismo, do John Stuart Mill. —
Esse tem pouco mais de cem páginas e eu já li. Se você quiser, podemos revê-lo juntos.

Pestanejo.
— Queres que estudemos juntos?
— Claro — responde-me, apontando para a secretária. — Tens outra cadeira?
Estou tão surpreendida que fico sem palavras.
No fim, anuo e levanto-me da cama.
— Volto já. Não saias daqui.
Corro para o quarto de Ember, que está sentada no chão em frente à cama, com as costas
apoiadas contra a armação e o laptop no colo. Quando me vê, dá um sorriso expressivo e tira
os fones.
— E então? — pergunta-me, prolongando as sílabas. Pelos vistos, decidiu pôr fim à nossa
discussão desta manhã... ou talvez esteja apenas demasiado curiosa e
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não consiga ignorar-me.


— Me empresta sua cadeira? — peço a ele.
O sorriso da minha irmã torna-se ainda maior.
— Claro que sim.
Ignoro o tom insolente e arrasto a cadeira para o meu quarto. Entretanto, o James já se instalou
em frente da secretária e tem O Utilitarismo aberto diante dele.

— Tens a certeza de que queres rever as leituras comigo? — pergunto-lhe quando me


sento ao seu lado.
Levanta os olhos, e os lábios desenham um pequeno sorriso.
— Eu quero fazer com você tudo o que você me deixar fazer, Ruby. — Quase no mesmo
momento em que acaba de dizer essas palavras, faz uma careta. — Não... Eu não me
expressei direito.
O rubor se espalha pelo rosto dele e também pelo meu. Afasto os olhos, viro as primeiras
páginas do livro e pigarreio.
— Precisas de um caderno?
O James assente imediatamente.
— Sim. Obrigado.
E, com efeito, durante as duas horas seguintes, revemos juntos O Utilitarismo.
Apesar de, ao princípio, me custar concentrar-me (por um lado, porque o James está ao
meu lado, e, por outro, porque as ideias se amontoam desordenadamente na minha
cabeça), depois de um tempo compreendo a teoria e começo a formar minha própria
opinião sobre o tema. Eu e James discutimos as teses de cada um e torno a me dar conta
de quão inteligente ele é. Embora agora você não tenha vontade de estudar em Oxford,
acho que você vai acabar demonstrando isso para todos quando começar o curso.

Depois de terminarmos e de eu ter realçado a última palavra-chave a cores no


meu novo caderno, recosto-me e dou um suspiro.
— E agora? — pergunta-me o James.
Franzo o sobrolho.
— Do que é que estás a falar?
— Bem, quando encho a cabeça de ideias, depois preciso de me distrair com
qualquer coisa antes de continuar — explica-me.
— E o que você costuma fazer? — pergunto a ele com curiosidade. É esquisito conhecer
até os segredos mais sombrios de James, mas não saber nada sobre sua vida cotidiana.
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— Quase sempre, esporte. — James dá de ombros. — Às vezes também vejo vídeos de


blogs de viajantes.
Quando não lhe respondo nada, ele me olha com as sobrancelhas arqueadas.
— De certeza que também fazes alguma coisa para descontrair a mente.
Hesito momentaneamente
— Sim, é verdade, mas é uma coisa mesmo muito estranha. Não quero que
penses que sou esquisita.
Os cantos dos lábios do James levantam-se.
— Estou impaciente por saber o que aí vem.
— Promete-me, James.
Levanta os dedos para me dar a sua palavra e anui.
Pego no portátil e abro a lista de favoritos do navegador. Abro a pasta de
relaxamento e clico no primeiro vídeo guardado.
Na tela, aparece uma garota loira que diz um cumprimento em voz baixa.
O vídeo começa quando você abre um pacote e, lentamente, passa as mãos pelo papel que
envolve diferentes objetos. Atrevo-me a olhar de soslaio para James, porque, de qualquer
maneira, já sei o vídeo de cor. Ele olha para a tela e depois para mim.

— Que demônios é isso? Por que ela fala tão baixo? — Torna a virar os olhos para a tela. No vídeo, a moça arranha

uma esponja com as unhas compridas. — Por que ela está fazendo isso? — É um vídeo de ASMR.

O rosto de James é um imenso ponto de interrogação. — É um


fenômeno da Internet — explico a ele. — Não tenho ideia de como descrevê-lo. São vídeos
em que as pessoas falam em voz baixa e fazem certos sons, como estalos ou pequenos toques.

— Mas porquê? — Quase sinto ternura ao ver quão confuso está. Nunca o
tinha visto assim.
— O objetivo é tranquilizar — respondo-lhe. — No caso do meu cérebro, funciona na
perfeição.
— Você está me dizendo que vê isso para descontrair? — ele me pergunta, incrédulo.
Anuo. —

É como se ficasse com pele de galinha na cabeça. Às vezes, também ponho os vídeos para adormecer.

O James sorri.
— Acho que é preciso envolver a consciência para isso resultar. Neste
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momento, estou demasiado flipado para ficar com pele de galinha. É verdade que é um
bocado... esquisito.
— São centenas de vídeos — digo a ele, clicando no próximo vídeo dos favoritos da minha
lista. Agora, aparece na tela um médico que, falando em um murmúrio, indica a um paciente
que levante o braço e feche os olhos.
Não demora muito e um formigamento se espalha pelo meu couro cabeludo.
O James abana a cabeça.
— É fascinante. De uma forma totalmente doida.
— Veja um hoje à noite, antes de dormir. E depois logo você me conta se deu certo
com você — digo a ele, dando um sorriso de especialista na matéria.
— Eu adoraria que desse certo. Há semanas venho dormindo mal.
O sorriso desaparece imediatamente do meu rosto. Na verdade, não quero estragar o bom
ambiente, mas quando me diz uma coisa destas, não posso ignorá-la. Tenho de fazer a
pergunta, embora seja dolorosa.
— É por causa da sua mãe? — pergunto a ele cautelosamente.
O James sustém a respiração. Por um momento, fica imóvel e, depois, expira
com força e assente.
— Sim. Às vezes... às vezes sonho com ela.
— Apetece-te falar sobre isso?
No vídeo, o médico continua o exame. Primo a barra de espaço para colocá-lo em
quebrar.
James continua em silêncio por mais algum tempo, como se estivesse procurando as palavras
certas. Cuidadosamente, seguro minha mão novamente, como fiz antes de Ember nos interromper.
James vira a palma para cima, para que nossos dedos se entrelacem.

— Eu não tinha imaginado que fosse ser assim — ele me explica.


— Como assim? — pergunto-lhe em voz baixa.
Engole em seco.
— Sem a minha mãe.
Aperto sua mão, para incentivá-lo a continuar falando. E é o que faz.
James começa a me contar o que aconteceu nos últimos dois meses.
Primeiro, entrecortadamente, depois, de forma mais fluida, até encontrar o ritmo narrativo
certo. Ela me conta sobre os sentimentos de culpa que tem em relação à mãe, porque tem a
sensação de não ter chorado sua morte direito. Ela me conta sobre os temores em relação a
Lydia, que ela acompanha todos os dias ao acordar e antes de ir para a cama. Ele me conta
sobre as reuniões da Beaufort, nas quais se sente como
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se sua alma se separasse do corpo e estivesse observando tudo de fora. Ele me conta que seu
pai proibiu que ele e Lydia fossem ver tia Ophelia. Que Lydia precisa urgentemente encontrar uma
parteira, mas que tem medo de que seu segredo seja descoberto. E que ele se sente mal por ter
ignorado os amigos todo esse tempo.

Passamos o dia inteiro sentados no quarto a conversar. Não só sobre a família


do James, mas também sobre todos os assuntos possíveis e imaginários. O
colégio, o blogue da Ember e até a minha conversa com a Alice Campbell na
noite anterior, que eu ainda não tinha analisado de todo.
Pouco depois das cinco horas, meu pai me liga no celular. Ele prefere fazer
isso a dar um grito que soe pela casa toda, como minha mãe faz, ou mandar
Ember me chamar no quarto.
— O jantar está pronto — anuncio.
Vamos de mão dada até à porta. Precisamente quando vou abri-la, o James
retém-me. Abraça-me e aperta-me com força durante uns momentos.
— Obrigado — murmura junto do meu ouvido.
Não preciso de lhe perguntar porquê.
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22

James

O esparguete cozinhado pelo Sr. Bell está fantástico.


A massa está al dente e a mistura das diferentes especiarias, o tomate, o alho e o toque
de vinho tinto no molho a tornam tão saborosa que não consigo reprimir os gemidos de
prazer que saem da minha boca.
Quando engulo a primeira garfada, quatro pares de olhos pousam-se em mim.
Toda a família de Ruby está me observando. O olhar do Sr. Bell me deixa particularmente
inquieto. Desde que coloquei os talheres errados quando coloquei a mesa ele me olha com
os olhos semicerrados, como se estivesse esperando o próximo erro que lhe confirme que
não sou bom para a filha. No entanto, eu sei exatamente como colocar bem os talheres. Às
vezes, em casa, fazemos jantares de negócios em que há três conjuntos diferentes de
talheres na mesa. Tê-los mal colocado não tem a ver com ser bobo, mas com os nervos
que sinto.
Pigarreio, endireito as costas e digo, com toda a convicção: — É o
melhor espaguete à bolonhesa que já comi.
A mãe de Ruby me dá um sorriso. Ember tapa a boca e murmura qualquer coisa que soa
como «lata». Mas pelo menos a expressão do Sr. Bell se torna um pouco mais afável.
Agora também vejo que Ruby e Ember herdaram os olhos dele — não apenas a cor, mas
também a intensidade do olhar.
— James — diz-me a Sra. Bell, ou Helen, como me corrijo mentalmente, depois de
colocar um pouco mais de massa na boca. — Já sabe o que quer fazer depois do colégio?

Eu imediatamente fico tenso. Contudo, depois, vejo a expectativa no rosto da Ruby e


recordo a mim mesmo que estas pessoas são a família dela e que não tenho de fingir nada.

— Fui admitido em Oxford — respondo-lhe hesitantemente, sem a dureza habitual na


voz. — E, no momento, sou sócio da Beaufort.
— Foi isso que sempre quiseste fazer? — continua a perguntar-me a Helen.
Muito bem. Não tenho de fingir diante deles, mas também não posso pôr a
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descoberto toda minha vida particular na frente de uns quase desconhecidos. As coisas
não funcionam assim. Mastigo lentamente a massa e, para não ter que responder
imediatamente, finjo que estou pensando.
— Ruby soube imediatamente que queria ir para Oxford. Às vezes, pergunto a mim
mesma se todos os alunos de Maxton Hall querem o mesmo — acrescenta, sorrindo para a
filha, que está sentada à minha esquerda e que muda irrequietamente de posição na cadeira.

Engulo a comida e bebo um gole de água.


— Não são todos como a Ruby, isso posso garantir-lhe.
— Que é que isso quer dizer? — pergunta-me a Ruby, ofendida.
— Não conheço ninguém que quisesse entrar para Oxford tanto quanto tu.
Eu e meus amigos também aspiramos a isso, mas estou convencido de que ninguém lutou
tanto por isso quanto você. — Paro por alguns segundos, pensando se minhas palavras
não soarão como se eu estivesse tentando conquistar a família elogiando Ruby na frente
de todos. — Mas talvez eu não seja totalmente imparcial.

Imediatamente, todos caem na gargalhada. Pelo jeito, pareceu muito divertido para eles.
Franzo o cenho. Tudo o que disse foi com franqueza. Não imaginava que eles fossem rir.
Um sentimento estranho se espalha pela minha barriga e, para contê-lo, engulo outra
mordida de massa.
Depois do jantar, ajudo a tirar a mesa. Em casa, eu jamais faria uma coisa dessas, é para isso
que temos empregados, mas, aqui, todo mundo arruma com toda a naturalidade.

Compreendo que me encarem com um certo ceticismo. Se estivesse no lugar deles, faria
o mesmo.
— Vocês vêm um pouquinho conosco para a sala de estar? — pergunta-me a
Helen, depois que terminarmos. — Ou você já tem que voltar para casa, James?
Abano negativamente a cabeça.
— Não. Não, não tenho de ir para casa.
— Se ela te fizer perguntas que você não quer responder, apenas não diga nada e pronto
— Ruby murmura em meu ouvido quando saímos da cozinha, um pouco atrás da mãe dela.
— Sinto muito que tenha sido tão desagradável.

— Está tudo bem — respondo-lhe também bem baixinho. — Não pense mais nisso. Gosto
dos seus pais. E da Ember, evidentemente.
Isso arranca um sorriso dos lábios de Ruby. Teria preferido dar-lhe a mão ou
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tocá-lo de outro modo, mas, nesse momento, entramos na sala de estar, onde o resto da
família já está instalado.
Me chama a atenção o quão arrumada está a divisão e a decoração tão minimalista. Ao contrário
do quarto de Ruby, ela não está abarrotada de coisas, mas é aberta e tem muitos espaços vazios.
Eu entendo por que quando o Sr. Bell manobra a cadeira de rodas até ficar paralelo ao sofá. Depois,
usa uma espécie de controle remoto até que o sofá se eleve e fique na mesma altura do assento
da cadeira de rodas, e desliza de uma para o outro. Quando ele percebe que estou o observando,
sinto o impulso de afastar os olhos, mas resisto. Não pode pensar que é desagradável para mim vê-
lo assim — afinal, para ele é algo normal. Consequentemente, prendo o olhar dele e aponto para o
sofá, que volta a descer.

— Eu nunca tinha visto nada parecido antes — admito com toda a sinceridade. — Está
instalado no sofá ou?...
O Sr. Bell anui. Se a minha pergunta o surpreendeu, não o demonstra.
— Por baixo do sofá, para ser mais preciso.
Ember senta ao lado do pai e se encosta no ombro dele, que imediatamente fica com uma
expressão carinhosa no rosto, que suaviza toda sua fisionomia. É assim que se comporta um
pai que não trata o filho como se fosse apenas um sócio de negócios que quer manipular para
seu próprio interesse.
— Sentem-se — diz-nos a Helen.
Hesitante, me viro para Ruby, que decide por mim e aponta para a poltrona na frente do
sofá. E, depois, senta ao lado da irmã.
— James, você já jogou Jenga? — Ember me pergunta de repente, quando a mãe põe no
meio da mesa da sala de estar um jogo que parece feito apenas de blocos de madeira.

Olho para aquilo com uma expressão incrédula e abano negativamente a cabeça.

— Não.
A Ember abre a boca por um segundo.
— Está bem. É... — Pigarreia. — Não sei o que dizer sobre isso.
Encolho os ombros.
— Lamento.
— Não importa — Ruby intervém, lançando à Ember um olhar que indica com toda a clareza
que é melhor se calar.
— Exatamente — concorda a Helen. — É facílimo.
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Senhor. Bell esbofeteou.

— Isso é o que tu dizes, porque ganhas sempre.


— Que bobagem! — ela exclama, me lançando um sorriso alentador enquanto
aponta para a torre que construiu com os blocos de madeira. — Temos que tirar
uma peça dessa torre e colocá-la de volta por cima. Você só pode usar uma mão
para retirá-la e, em cada fileira, deve ficar pelo menos uma peça.
É isso.
- Entendido.
— E o genial — continua ela, olhando para o marido — é que há sempre vários
vencedores e apenas um perdedor.
— Não é verdade — Ruby intervém. — Se contarmos os últimos dezoito
anos, somos todos perdedores, porque a nossa mãe nunca derruba a torre.
A Helen limita-se a esboçar um sorriso em resposta e, nesse momento, dou-me
conta de que não me devo deixar enganar pelo seu comportamento carinhoso e, em
vez disso, devo ter cuidado com ela.
O jogo começa. Sou logo depois de Helen e tiro um pequeno bloco de madeira de
um lado. O próximo a mim é o Sr. Bell, depois Ember e, por último, Ruby. Justamente
quando chega a minha vez novamente, a torre cai. Eu me afasto para trás,
assustado, quando os blocos de madeira caem em todas as direções.

— Porra — resmungo.
— Não fique com raiva, James, mas olha que você é ruim nisso — diz Ember.
— Você só precisa praticar um bocado. — Ruby parece muito mais otimista
do que me sinto.
Na partida seguinte, me saio um pouco melhor, mas dessa vez também sou eu
quem derruba a torre. E o mesmo acontece na terceira partida. Pelo menos Ember
e o Sr. Bell parecem se divertir às minhas custas, e isso é o suficiente para mim. A
quarta partida vai melhor. Tentei imitar a técnica de Helen e, com efeito, o truque
parece consistir em usar apenas as pontas dos dedos e não a mão inteira.
Nesse momento, tomo o meu tempo, apesar de sentir todos os olhos postos em
mim. Esforço-me por tirar os blocos o mais lentamente que consigo e, desta vez,
tenho sucesso.
No fim, a torre está a balouçar tanto que a Ruby abana a cabeça, abatida, quando
chega a vez dela. Com as maçãs do rosto ligeiramente coradas e o olhar
concentrado, inclina-se para a frente e puxa uma peça de madeira. A torre abana
quando retira o bloco e todos olhamos para o espetáculo, fascinados. Quando a
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torre começa a balançar menos e se equilibra, suspiro de alívio. Ruby me ouve e procura meus
olhos por cima da torre. Nunca esquecerei o sorriso que se desenha em seu rosto. Sério, nunca.
Ela enche todo o meu corpo e, por alguns segundos, fico tão cativado pelo olhar dela que não me
dou conta de que Helen estica a mão e...

Com um estalido, a torre cai. A Ember levanta-se de um salto, dando um


grito triunfal e apontando para a mãe.
- Pegar!

— O James conseguiu fazer a mamã perder! — grita a Ruby, batendo palmas.


O Sr. Bell também esboça um pequeno sorriso e olha para a mulher com uma
expressão divertida.
— Acho que temos de voltar a tentar — diz a Helen, olhando para mim.
Então ele aponta com o queixo para os blocos de madeira caídos. — James, me ajude a levantar
a torre.

Esta família fascina-me. O entusiasmo deles é contagioso e faz-me sentir uma


despreocupação que não sentia há muito tempo.
— Com certeza, Helen — respondo-lhe com algum atraso, levantando-me para voltar a construir
a torre. Bloco a bloco, peça a peça. Exatamente como acontece comigo e com a Ruby. E com
tudo o resto.
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23

Rubi

Nunca me senti tão emocionada com a chegada de uma segunda-feira como hoje. O trajeto no
ônibus do colégio me parece levar o dobro do tempo do habitual e, embora eu normalmente
goste de fazê-lo, esta manhã estou excitadíssima. Enquanto percorremos os últimos metros para
chegar ao colégio e o ônibus para, por fim, digo a mim mesma que tenho de me controlar. É um
dia de faculdade normal e habitual. Tudo corre como sempre. Faz o favor de

diminuir o ritmo, a pulsação.


Sou a última a sair do autocarro e, quando desço a escada, vejo-o.
James está encostado na cerca do campo de jogos, bem em frente ao ponto de
ônibus. Ele me olha sorrindo quase com timidez, embora sua atitude não transmita
essa impressão. Lembro-me da manhã em que, há mais de três meses, você me
surpreendeu da mesma forma. Naquele dia, tínhamos estado em uma festa na casa
de Cyril e ele tinha tentado me proteger das perguntas bobas de nossos curiosos
colegas de colégio.
Desta vez, ele não espera que eu chegue até ele e, em vez disso, vem até mim. Seu
sorriso não se desvanece, pelo contrário. Já percebi ontem a frequência com que sorria
enquanto jogava com minha família. Mal posso acreditar que este é o mesmo cara que,
em dezembro, estava chorando em meus braços. Que bem me sinto por vê-lo assim.

— Oi — o cumprimento, alisando a franja. Está ventando e temo que meu cabelo


bagunce em todas as direções. Apesar disso, James olha para mim como se eu fosse
a melhor coisa que já aconteceu com ele em toda a sua vida.
— Bom dia. — Ele levanta a mão e coloca uma mecha rebelde atrás da minha orelha.
Está tão perto que até sinto o cheiro. Tão familiar. Cálido. Com um toque de mel. Um
dia, tenho que perguntar a ela que perfume ela usa.
— Vamos? — pergunta-me, fazendo um gesto em direção à porta de entrada.
O meu coração dá um salto. Tudo me parece emocionante e novo, apesar de
não ser a primeira vez que me vem buscar e me acompanha às aulas.
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— Sim — respondo a ele, me perguntando brevemente se posso segurar sua mão.


Não sei se chegamos tão longe, se posso fazer isso ou que impacto isso causará nos
outros. James decide por mim e coloca a mão na minha. Um formigamento se estende
dos meus dedos até o resto do corpo.
— Não te importas que faça isto? — pergunta-me.
— Não me importo nada — respondo, apertando-lhe a mão.
Depois, seguimos para o Boyd Hall. Ao longo do caminho, não nos deparamos com
quase ninguém que eu conheço, mas todo mundo conhece James. E cada um deles
parece se interessar por estarmos de mãos dadas. Eu ouço algumas pessoas
cochicharem e vejo algumas cabeças se virarem para nós enquanto passam longe.
Por uns minutos, sinto-me insegura e um pouco agoniada. Olho para o James de
soslaio e essa sensação atenua-se um pouco, porque ele age como se irmos para o
Boyd Hall de mãos dadas fosse a coisa mais normal do mundo.
— É verdade, quero sair contigo um dia destes — murmura, pouco antes de
entrarmos no Boyd Hall.
Reprimo o sorriso que se quer espalhar pelo meu rosto. Com desinteresse
fingido, levanto uma sobrancelha.
— Ah, sim?
O James anui.
— Sim. No próximo sábado, se tiveres tempo.
Faço de conta que estou a pensar e o James sorri.
— Você está me deixando louca, Ruby Bell.
Já não reprimo o sorriso.
— Tenho imensa vontade de sair contigo, James Beaufort — respondo, olhando-o
nos olhos para que saiba que estou a falar a sério.
Enquanto entramos na sala, murmura:
— Esperava que me dissesses isso.
Depois da assembleia, James me acompanha até a sala de aula. Chegamos à porta
no momento em que Alistair, Cyril e Wren aparecem no corredor atrás de nós. Wren
lança um olhar para nossas mãos entrelaçadas, dá meia-volta e desaparece em uma
das salas de aula. Sinto que James fica rígido e, automaticamente, tenho o impulso
de soltar sua mão, mas ele continua apertando a minha com determinação.

— Bom dia, casalinho — diz-nos o Alistair, lançando-nos um pequeno sorriso.

Cyril apenas dá um curto aceno de cabeça. Devolvo-lhe o


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cumprimento da mesma maneira. Não me esqueço do que ele me disse em dezembro


e do quanto as suas palavras me magoaram. A amizade dele com o James é assunto
deles, mas isso não significa que tenhamos de simpatizar um
com o outro.

— Bom dia — responde James, em tom calmo e sem nenhuma emoção.


— Isso significa que você vai parar de ser tão insuportável? — pergunta-lhe o
Alistair, olhando para as nossas mãos entrelaçadas.
O James levanta a mão livre e mostra-lhe o dedo do meio. Depois, vira-se para mim.

— Vemo-nos mais tarde.


Não é uma pergunta, mas sim uma afirmação, e anuo.
— Até logo — murmura, acariciando-me as costas da mão com o polegar.
Todo o meu corpo vibra com aquele leve toque.
— Até logo.
Ele solta minha mão e começa a se dirigir para a sala onde ele e seus amigos vão
ter aula agora. Cyril e Alistair vão atrás dele e eu os sigo com os olhos, até que James
olha por cima do ombro e me lança um sorriso. Eu deveria ir para minha própria aula,
mas parece que estou congelado.
Quando penso em como começamos, parece incrível que, com o tempo, chegamos até aqui:
entrando na faculdade de mãos dadas na frente de todos os alunos de Maxton Hall.

Mas isso agrada-me.


E não é só isso: é assim que deve ser.

— Não importa aonde eu fosse hoje — diz-me a Lin à tarde, sentando-se numa das
cadeiras que dispusemos num pequeno círculo neste último quarto de hora. — O único
assunto de conversa era você e James.
Lanço um olhar para a porta, mas continua fechada. Exceto nós, não há mais
ninguém na sala de grupos.
— A sério?
E Lin.
— Sim. No intervalo, quando fui buscar um café, quase toda a gente estava a
falar disso no refeitório.
Ao ouvi-la, sinto uma pontada de mal-estar, mas decido que não vou me inquietar.
Eu achava que era evidente que já podia esquecer definitivamente minha camuflagem,
quando ando pelo colégio de mãos dadas com James
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Beaufort. No final das contas, desde o início do ano letivo, houve tantas coisas que mudaram
que é perfeitamente indiferente para mim que as pessoas me conheçam ou falem de mim. Bem,
é bastante indiferente para mim. — É verdade, estou
explodindo de curiosidade — acrescenta a Lin.
— Desculpe não ter te contado nada — digo a ele. — Mas, na verdade, nem eu mesma sei o
que é que aconteceu exatamente. Ontem, ele foi na minha casa e...
— Esboço um sorriso. — Foi fantástico.
— Conversaram? Sobre tudo?
É isso.

— Sim. Foi muito complicado. E não acho que possamos comportar-nos como se não tivesse
acontecido nada. Mas... — Inspiro lentamente e expiro. — Apesar de tudo, tenho alguma
esperança de que iremos ultrapassar isso.
Entre mim e James ainda não está tudo composto. Aconteceram demasiadas coisas e ainda
tenho muito medo da possibilidade de que torne a magoar-me.
Contudo, ontem senti-me feliz e quero agarrar-me a esse sentimento enquanto for possível.

A Lin suspira.
— Parece que vai dar certo. Sinceramente, estou muito feliz por você, Ruby.
Fico surpreso com o tom nostálgico com que ele fala. E então me lembro que, na sexta-feira, Lin
foi ao pub com os outros para falar sério com Cyril. Eu imediatamente fico com a consciência
pesada. Como tantas coisas aconteceram comigo, no sábado esqueci completamente de perguntar
a ele como foi a conversa.

— Tem novidades? — pergunto a ele cautelosamente.


Lin cerra os lábios. Por um momento, dir-se-ia que ele não quer falar sobre o assunto, mas
depois exala com força.
— Sim, há novidades: a partir de agora, só tenho que me concentrar em Oxford.

Olho para ela carinhosamente.


— Que é que aconteceu?
Encolhe os ombros.
— O Cyril mandou-me às urtigas.
Respiro fundo.
— Merda.
— É precisamente o que eu achava. Está apaixonado pela Lydia — continua.
— E, agora, está novamente a criar ilusões em relação a ela.
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— Foi isso que te disse? — pergunto-lhe, perplexa.


Ausente lentamente.
— Deixou-o bastante claro, sim.
— Lamento muito, Lin. Se puder fazer alguma coisa por ti...
— Não, mas obrigada. Acho que é bom que mo tenha dito de uma vez por todas. Caso
contrário, de certeza que teria ido atrás dele em Oxford e que teria arruinado o começo do
curso na universidade. Simplesmente, dei demasiada importância a este assunto.

Ponho a mão nas costas dele.


— Está tudo bem. A sério. Apenas me sinto aliviada por me ter livrado desta
incerteza, de uma vez por todas.
Fico olhando para ela por mais um tempo, insegura, depois faço carinho em suas costas e
me afasto.
— Na sexta-feira, devíamos fazer uma noitada de raparigas, que é que achas?
A Lin parece indecisa, mas obriga-se a sorrir.
— Confirmo-te mais tarde, pode ser?
Por um tempo, ficamos sentadas em silêncio ao lado uma da outra, olhando para as mesas
que encostamos na parede de trás da sala, para ganhar espaço para nosso círculo de cadeiras.

— Achas que os outros vão ficar contentes? — pergunta-me finalmente a Lin,


num tom de entusiasmo forçado.
— De certeza que sim — respondo-lhe. — Depois da trabalheira de sexta-feira, acho que
todos precisamos de um dia de descanso.
Precisamente quando ela se prepara para me responder, a porta abre-se e a
Jessalyn e o Kieran entram na sala.
— Que é que se passa aqui? — pergunta a Jessalyn desconcertada, olhando em volta.

Kieran, ao contrário, apenas murmura um «olá» e imediatamente se senta em uma das


cadeiras. Pergunto a mim mesma se estou imaginando coisas ou se é verdade que, hoje, você
está mais pálido do que o normal.
Evita olhar para mim e remexe na mala com uma expressão concentrada.
Sinto que a Lin olha primeiro para mim, depois para ele e, seguidamente, novamente para mim,
mas não sei o que fazer para não haver um ambiente tão estranho entre nós.

Por sorte, nesse momento, Camille e Doug também aparecem na porta e, por sua vez, ficam
igualmente espantados por termos mudado a disposição das
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cadeiras. O último a entrar é o James. Levanta uma sobrancelha e olha em volta, atravessa o círculo
de cadeiras e senta-se na que está à minha frente, com um meio-sorriso.

Ao meu lado, a Lin pigarreia.


— Hoje, eu e Ruby pensamos em fazer uma surpresa para vocês — diz. — Tenho
certeza que vocês já sabem que, todos os anos letivos, sentimos uma grande queda em
que, de repente, tudo parece mais pesado. — Um murmúrio de aprovação se espalha
pelo pequeno grupo. — Tenho a impressão de que, neste momento, estamos um pouco
antes desse ponto, especialmente depois do caos da semana passada.
Infelizmente, não podemos fazer nenhuma pausa porque o baile de primavera está quase
ao virar da esquina.
— Ainda assim, achamos que poderíamos fazer a reunião de hoje de outro modo —
acrescento. — Todos trabalharam duro e o gala beneficente foi um enorme sucesso.
Acho que, hoje, podemos fazer as coisas com mais calma.
A Lin agacha-se e tira um saco de baixo da cadeira. Abre-o e mostra dois grandes
termos e vários copos.
— Hoje decidimos celebrar com café, chá e bolos.
— Ooooh! — exclamam alegremente a Camille e a Jessalyn, ao lado dela. —
São muito simpáticas...
Enquanto a Lin distribui as bebidas, levanto-me para ir buscar os sacos de
papel que escondi a um canto da sala, por baixo do meu casaco e do da Lin.
— Trouxe madalenas da padaria da minha mãe — anuncio.
Quando me ponho no meio do nosso pequeno círculo de cadeiras e levanto a
tampa da caixa, a Jessa inclina-se imediatamente para ela.
— Hummm. Cheiram maravilhosamente!
— Sirvam-se.
Enquanto os outros se servem, o James aproxima-se um pouco de mim.
— Hoje de manhã, não tinhas isto contigo.
— Minha mãe as trouxe para mim no intervalo do meio-dia — digo a ela com um
sorriso. — São acabadas de fazer.
— São as madeleines mais deliciosas que provei em muito tempo — comenta Camille,
e Doug anui ao lado dela. — Onde fica a padaria? — pergunta. — Há semanas minha
mãe está procurando alguém que faça seu bolo de aniversário. Talvez você pudesse ir
lá e dar uma olhada.
— Em Gormsey — respondo-lhe. — É bastante pequena, mas tudo o que têm é muito
bom e é feito com amor. Posso dar-te um cartão, com todo o gosto.
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— Isso seria ótimo — comenta a Camille, e fico surpreendida com quão sinceras
parecem as suas palavras. Durante as últimas reuniões, verifiquei que algo mudou nela.
Envolveu-se mais do que é habitual e já não dá a impressão de achar que tudo e todos
são insuportáveis. Pergunto a mim mesma o que terá provocado essa mudança.

— Foi uma ideia genial da vossa parte — assegura-nos a Jessa. — A semana passada
foi realmente stressante. Além de toda a trabalheira de organizar a gala, também tive de
fazer uma apresentação para a aula de Inglês.
— E como te correu? — pergunta-lhe a Lin.
— Um fiasco total. Perdi o fio da meada e não havia mais como dar sentido a nada.

— Isso já me aconteceu — intervém o Kieran. — Há pouco tempo, tive uma


branca completa. De repente, fiquei sem palavras.
— A apresentação era sobre o quê?
— Sobre a Guerra Fria. — O Kieran contorce a boca, com uma expressão mal-humorada. — E
a tua?

— O Sonho de Uma Noite de Verão, do Shakespeare.


— Ai, coitadinha — diz a Camille. — Detesto Shakespeare.
Jessa dá de ombros.
— A obra não me pareceu muito má. Além disso, vi o filme e pensei que seria um tema
fantástico para o baile de primavera.
Estaco, com a madalena em frente da boca. — É
um tema maravilhoso — comento lentamente, virando a cabeça para a
LINHA.

— Sim... — Ela parece disposta a refletir. — Para a festa de Halloween, pegamos


várias propostas de empresas de decoração. Uma tinha uma espécie de bosque
encantado. Com árvores artificiais e holofotes, uma máquina de neblina e esse tipo de
coisa.
— Não são daquelas com balanços de madeira, onde te tiram fotos?
— Sim, exatamente.
— Consigo imaginar perfeitamente — diz a Jessa enquanto a Camille suspira.
— Parece fantástico. Qual seria o código de vestuário?
— Podíamos ir todos vestidos de elfos — propõe o Doug imediatamente.
Por um segundo, paramos todos e ficamos a olhar para ele. Quem diria que o silencioso
Doug tinha uma predileção pelo mundo das fadas?
— Sim — digo, mas acrescento imediatamente: — Que tal vestidos com
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estampados de flores para as mulheres e gravata preta com camisa de cor pastel para os
homens?
E Jessa.
— Perfeito.
Eu e Lin trocamos um olhar. Será que acabamos de encontrar, por acaso, o
tema para nosso próximo evento?
— Como estamos no quesito orçamento? — pergunta Kieran, de cenho levemente franzido. Pela
primeira vez esta tarde, olhe para mim. — Parece ser caro.

— Certo, mas não tivemos que pagar a empresa de decoração na gala de


beneficência.
O James bufa com desprezo. É evidente que este tema é delicado para ele.
Não sei porquê, mas, de certa maneira, isso desperta-me ternura.
— Com o dinheiro que Lexington nos garantiu, temos um orçamento generoso. Na
verdade, deveria ser o suficiente.
— Bem, eu faria isso — diz a Camille. — Que é que acham?
— Votamos outra vez, para tirar dúvidas? — sugere a Lin. — Levantem os copos, todos os que
estiverem de acordo com o tema do Sonho de Uma Noite de Verão.

Nem um copo fica pousado.


Quando vejo as expressões descontraídas dos meus companheiros de equipe, um
sentimento de afeto toma conta de mim. Não sei qual é o motivo, mas me parece que essa
última meia hora que passamos juntos nos uniu imensamente.

James

A semana voa e esses são os melhores cinco dias que já passei em Maxton Hall. Eu e
Ruby ficamos juntos o tempo todo possível, o que não é fácil, considerando nossos horários,
mesmo que no final tudo saia melhor do que tínhamos pensado.

Todas as manhãs vou buscá-la à paragem de autocarro e levo-a à sala de aula.


Portanto, na quarta-feira, ela insiste em ser ela a me acompanhar até minha sala, que,
justamente nesse dia, fica na ala leste, o que faz com que Ruby tenha que atravessar todo
o colégio correndo, para ocupar pontualmente seu lugar na primeira aula do dia. Nossas
horas livres coincidem duas vezes e as passamos na biblioteca, onde tento me concentrar
na matéria que temos que estudar,
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apesar de ter a mão de Ruby na minha. Na quinta-feira, conseguimos nos encontrar


no refeitório para almoçar, embora eu tenha a sensação de que Lin não acha a
menor graça na minha presença. De vez em quando, tenho medo de que você
enfie a colher no meu olho, mas parece capaz de se controlar bem.
É a primeira vez, desde a morte da minha mãe, que não sinto que não há esperança. É como
se eu tivesse tirado um peso enorme das costas, embora pudesse dispensar sem problemas os
cochichos e olhares curiosos dos meus colegas de colégio.

Porém, meus amigos desconfiam de Ruby e, depois do que aconteceu com


Wren, o clima está tenso. Alistair nos convida para ir à casa dele na sexta à noite,
em uma clara tentativa de suavizar as arestas entre todos. Embora eu tivesse
gostado de repassar a noite com Ruby, sei que preciso conversar com Wren. Sem
contar que, sábado passado, não trocamos palavra e eu quero dar um fim na nossa
briga, também gostaria de saber o que está acontecendo na casa dele. E como
posso te ajudar.
Infelizmente, Frederick, irmão de Alistair, convidou a si mesmo para nossa
festinha e está há meia hora moendo meu juízo. Aos vinte e dois anos, ele é o
orgulho dos Ellingtons: está noivo, estuda em Oxford e, ao contrário de Elaine e
Alistair, está disposto a manter as tradições familiares. Não o suportamos, o que
se deve principalmente aos pais terem endeusado enquanto agem como se Alistair
não existisse.
— É verdade que você já está trabalhando na Beaufort? — pergunta-me o
Frederick, agitando o copo meio cheio de uísque na mão.
— Sim — respondo-lhe, sem olhar para ele. Pego no telemóvel e verifico se
recebi alguma mensagem da Ruby.

JAMES! A Alice Campbell convidou-me a ir


ao escritório dela, em Londres!

Sinto o olhar curioso do Frederick pousado em mim e, por isso, reprimo o


sorriso que teima em desenhar-se no meu rosto.
E então?

— E que tal? — pergunta-me Frederick, que, aparentemente, ignorou minha


indicação inequívoca de que não penso em me submeter ao seu interrogatório.
— Emocionante. — Resmungo a minha resposta habitual enquanto espero
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que a Ruby me responda. — Uma grande honra.


Escuto Cyril bufar, apesar de tentar abafar o som com a mão. Ele, sim, compreendeu
o verdadeiro significado da minha resposta ("Cala o bico de uma vez por todas, por
favor"), contrariamente ao Frederick, que torna a insistir: — Conta-me alguma
coisa, Beaufort!
Nesse momento, o meu iPhone ilumina-se. A Ruby enviou-me um print screen do
mail da Alice. Mesmo por cima, escreveu:

Aaah!

Cara Ruby,
A nossa conversa, na gala de sábado passado, deixou-me muito inspirada. Da
próxima vez que vier a Londres, gostaria muito de a receber no meu escritório.
Atenciosamente, Alice

A minha resposta escreve-se quase sozinha.

Quando vamos?

De repente, Frederick me dá um tapinha no ombro. Viro a cabeça e olho para ele


com as sobrancelhas arqueadas. Ele imediatamente percebe que cometeu um erro e
se afasta um pouco. Depois, pigarreia.
— Estou falando de, nessa sala, sermos as duas únicas pessoas que demonstraram alguma
coisa e que fizeram alguma coisa de suas vidas. Temos que nos manter unidos. — Ele dá uma
risada, como se tivesse dito uma coisa divertida.

Nenhum de nós concorda com ele.


— Da tua boca só sai porcaria, Frederick — comenta o Kesh a meia-voz.
O Frederick bufa de indignação.
— Deixa-o estar, Kesh. — O tom do Alistair é monótono. Fica sempre assim quando
o irmão está por perto. Torna-se frio e distante, totalmente o oposto do Alistair com
quem passamos o tempo. Se ele soubesse que o Frederick ia estar em casa no fim
de semana, nunca lhe teria passado pela cabeça convidar-nos e, em vez disso, teria
tentando que um de nós o convidasse para sua casa.
— Que é que tu conseguiste, se é que se pode saber? — Kesh pergunta a ela, e
fala em um tom tão profundo e tão calmo que sinto um calafrio percorrer minhas
costas. — Você foi aceito em Oxford: parabéns. E você está noivo: desejo que seja
muito feliz. Contudo, isso não te transforma num superdotado, mas sim numa
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marioneta que não tem tomates. — O Kesh bebe lentamente um gole do copo, sem afastar os
olhos castanho-escuros dos do Frederick por um instante que seja.
— Se você tivesse o mínimo de educação, nunca diria uma coisa dessas — replica o Frederick
em tom cortante. Ele tenta parecer chato, mas vejo que ele tem um tique nervoso nas pálpebras.

— Você não tem nada para me ensinar sobre educação. Ao contrário de você, sei que uma
pessoa não trata a família como se fosse escória. Não ficar do lado do seu irmão me diz tudo que
eu preciso saber sobre você, infeliz...
— Keshav, porra, cala-te de uma vez! — O Alistair levanta-se, de punhos cerrados. Está
vermelho como um tomate.

— Você tem uns belos amigos, Alistair. Não faltam motivos para nossos pais estarem orgulhosos de você — diz

Frederick, tirando o celular do bolso da calça. Depois, levanta. — Se não se importam... É minha noiva.

Nós o ouvimos atender a ligação e cumprimentar a noiva com um termo


meloso, antes de sair da sala de estar e nos deixar.
— Pode-se saber que diabos foi isso? — resmunga Alistair, ainda tenso
como um pau e cerrando os punhos.
— Ele comportou-se como um imbecil — responde-lhe o Kesh.
— E então? Se a tua família te disser alguma idiotice, eu meto-me no meio?
Não!
— Isso é porque a minha família nunca me trataria como a tua te trata.
Devias ficar contente por eu estar presente para te defender.
O Alistair bufa desdenhosamente.
— Só me defendes quando te convém. Passo bem sem isso, hipócrita de merda.

Kesh estremece, como se Alistair tivesse dado um soco nele. Ele olha rapidamente para o
Wren, para o Cyril e para mim, e depois torna a virar-se para o Alistair. Franzindo o cenho, olho
alternadamente para um e para o outro, mas, antes que eu consiga esclarecer a situação ou que
tenha a oportunidade de fazê-lo, Alistair gira sobre os calcanhares e sai pela mesma porta por
que Frederick saiu.

— Que... — Wren começa a dizer, mas, nesse momento, Keshav reage e corre atrás de Alistair.
A porta se fecha nas costas dele com um estrondo. — Que diabos foi isso?

Eu, o Wren e o Cyril trocamos um olhar perplexo.


Depois, Cyril suspira e encosta a cabeça nas costas da poltrona.
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— Não tinha imaginado que este encontro fosse ser assim. — Escreve
qualquer coisa no celular e aumenta o volume da música na sala de estar.
— Espero que não se matem — digo passado um bocado.
O Cyril abana negativamente a cabeça, a sorrir.
— Não me parece. E, se o fizessem, apostaria no Alistair.
Mal ouço e continuo olhando para a porta pela qual os dois acabaram de sair.
Nunca tinha visto o Alistair e o Kesh discutirem desta maneira.
Quando Alistair revelou que era homossexual e seus pais começaram a tratá-lo como se fosse
um leproso, ele passou muito tempo com cada um de nós porque não suportava ficar em casa.
Isso uniu mais a todos nós, mas, em especial, Alistair e Kesh. Os pais de Kesh são abertos e
afáveis e acolheram Alistair como se fosse outro filho.

— Tem alguma coisa que não está bem entre esses dois — comenta o Wren.
— Também reparei nisso.
O Wren levanta uma sobrancelha e, por um instante, parece que vai dizer alguma coisa, mas,
depois, pensa melhor e opta por tomar um grande gole de uísque com Coca-Cola.

Suspiro.
— Wren — começo a dizer.
Ele olha para mim com cautela. — É

verdade que, nas últimas semanas, não me comportei como um bom amigo — confesso. — Sério que eu sinto muito

por ter me preocupado apenas com meus assuntos e não ter estado ao seu lado.

— Você tinha motivos para se ocupar de si mesmo — Wren me responde em


voz baixa. — A tua mãe morreu. Meti a pata na poça. Desculpa.
— Eu deveria ter me dado conta de que você não estava bem.
O Wren encolhe os ombros.
— Parece-me que esta seria uma boa hora para me contar o que está acontecendo com você —
digo a ele. — Na verdade, foi para isso que vim até vocês esta noite.

Wren parece hesitar. Ele me olha por cima da armação dos óculos.
Depois, fecha momentaneamente os olhos, como se precisasse de ganhar
coragem.
— Vamos... vamos mudar de casa.
Inclino-me um pouco para ele. Terei ouvido mal?
— Como?
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— Meus pais perderam toda a fortuna. Na semana passada, encontramos


um comprador para a casa. Em março, vamos mudar para uma casa geminada.
Fico a olhar para o Wren. As palavras dele repetem-se na minha mente, mas
não consigo que façam sentido.
— Por que diabos você não nos contou nada? — Cyril pergunta a ele. Ele se levanta
da poltrona, se aproxima de nós e se senta no sofá ao lado de Wren. — Poderíamos ter
ajudado vocês.
Aquilo tira-me do meu estado de choque.
— O Cy tem razão — concordo. — De certeza que teria havido maneira de
conservarem a casa.
Prezado Cirilo.
— Os meus pais não teriam hesitado em comprá-la e vocês poderiam
continuar a viver lá.
O Wren levanta a mão para nos acalmar.
— Sabem bem quão orgulhosos são os meus pais. Nunca aceitariam esmolas.
Sem contar que teria sido esquisito que seus pais fossem nossos senhorios — diz Wren,
virando-se para Cyril, que apenas faz um gesto de indiferença.

— Como é que aconteceu? — pergunto-lhe.


O Wren suspira e esfrega o queixo.
— O meu pai especulou em ações. Apostou tudo no mesmo cesto e... perdeu.
—Porra! - exclamo.
Não sei exatamente qual é o tamanho da fortuna dos Fitzgeralds, mas conheço a casa onde vivem e todas as suas

casas de férias. Sei em que empresas investiram. É inimaginável que tenham realmente perdido tudo e em tão pouco

tempo.

— Podemos fazer alguma coisa? — pergunto-lhe passado um bocado.


O Wren encolhe os ombros.
— Neste momento, está tudo uma grande confusão. E o meu pai... está
bastante lixado.
— Diga-nos, se houver novidades — digo a ele, e Cyril resmunga que
concorda comigo.
— Tantas coisas estão acontecendo que não consigo mais dar conta dos assuntos do
colégio. E agora, além disso, tenho que pensar em bolsas para cursar Oxford. Não...
não tenho ideia de como consegui-las.
O Wren enterra o rosto nas mãos e eu e o Cyril trocamos um olhar. Tenho a
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certeza de que estamos pensando o mesmo. Se a situação ficasse difícil, todos


nós nos uniríamos para emprestar-lhe dinheiro. Tenho certeza que qualquer um de
nós estaria disposto a lhe oferecer o dinheiro, mas o conhecemos bem o suficiente
para saber que você nunca o aceitaria.
— Você vai conseguir. E nós vamos te ajudar — asseguro-lhe, batendo com o
ombro no de Wren, que afasta lentamente as mãos do rosto.
— James, a história da Ruby...
— Isso foi há muito tempo — interrompo-o.
No momento, não se trata de Ruby e eu, mas sim de Wren ter aguentado essa
preocupação todo esse tempo sem que seu melhor amigo se desse conta disso.
Isso não deveria ser assim, não entre nós.
A nossa zanga já não tem a mínima importância. Agora, tudo o que me
importa é que eu quero ajudar Wren, apesar de não ter ideia de como.
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24

Rubi

Estou excitadíssima quando abro a porta. Percy está na minha frente e inclina
levemente a cabeça, com um sorriso nos lábios.
— Menina Bell, que alegria voltar a vê-la.
— Igualmente, Percy — respondo-lhe, seguindo-o até ao carro e apertando contra
o corpo a carteira de mão prateada.
Durante toda a semana, James se recusou a me dar uma pista que fosse sobre
onde vamos nos encontrar, portanto, tive que decidir um pouco às cegas a respeito
da roupa. Contudo, com a ajuda da Ember, vesti um conjunto que se adequa a
qualquer ocasião: um vestido preto simples, sapatos com um pouco de salto e a
carteira de mão prateada. Apanhei o cabelo e coloquei bastante spray de cabelo na
franja, para o caso de passarmos algum tempo ao ar livre e de
estar vento.

— Vamos encontrar-nos com o senhor Beaufort no lugar escolhido — indica-


me o Percy quando me abre a porta e me ajuda a entrar para o Rolls-Royce.
Sorrindo, levanto os olhos para ele para agradecer, mas paro. Percy tem olheiras e
a tez pálida e macilenta. Além disso, dir-se-ia que sua mente não está aqui, mas em
outro lugar.
— Como está, Percy? — pergunto-lhe.
— Estou bem, menina, obrigado pelo seu interesse — responde-me
mecanicamente.
Com um sorriso cortês, fecha a porta atrás de mim e dá a volta ao carro. A divisória
de separação não está levantada e observo-o, pensativa, enquanto se senta ao
volante. Será impressão minha ou as madeixas brancas que tem no cabelo
aumentaram depois da morte da Cordelia Beaufort?
— Há quanto tempo trabalha para os Beauforts? — pergunto-lhe,
aproximando-me um pouco do banco da frente.
— Há mais de vinte e cinco anos, menina.
Anuo com simpatia.
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— Realmente, é muito tempo.


— Já era motorista da senhora Beaufort aos vinte e poucos anos.
— Como era ela?
O Percy parece procurar as palavras adequadas.
— Intrépida e corajosa. Quando ainda fazia o curso, para desgosto dos pais, deu a
volta por cima na empresa. Mas valeu a pena. — Vejo no retrovisor que os olhos dele
ficam menores, como se ele estivesse rindo. — Sempre teve um sexto sentido para
tendências. Mesmo quando a gravidez já estava bem avançada, ela continuava indo
trabalhar e cuidava de tudo. Nada recebia o carimbo da empresa se ela não o tivesse
aprovado pessoalmente. Era... — Ele faz uma pausa.
— Era uma mulher fabulosa — conclui num tom rouco.
Sou invadida por uma vaga de empatia. Dá a impressão de que a Sra. Beaufort foi
muito importante para o Percy. Vendo bem a expressão dos olhos dele, diria até que
foi mais do que isso.
— Está realmente bem, Percy? — murmuro.
O motorista não tem outro remédio senão pigarrear.
— Hei de acabar por recuperar, menina. Só preciso de um pouco de tempo.
— Claro. Se eu puder fazer algo por você... — Não sei como ajudar Percy, mas
tenho a sensação de que é a hora certa de oferecer meu apoio a ele.

— Na verdade, sim, há uma coisa que pode fazer por mim. — Os nossos
olhares cruzam-se no espelho retrovisor. — Por favor, cuide do James.
Fico sem ar, comovida.
— Eu o farei — digo a ele depois de um instante. — Prometo.

Vinte minutos depois, chegamos ao sítio. Enquanto Percy estaciona, olho pela
janela e, através do vidro escurecido do carro, observo a fachada do restaurante em
frente ao qual paramos. Seja como for, o caminho que percorremos ia em direção a
Pemwick. No entanto, não reconheço o site.
Percy abre a porta e me ajuda a sair do carro. O sol está se pondo e tinge o prédio
cinza que está à minha frente de uma luz vermelho-alaranjada. O sinuoso letreiro da
Cozinha de Ouro já está iluminado, e quando Percy aponta para a entrada, de repente
meu coração começa a bater um pouco mais rápido.

— O senhor Beaufort está à sua espera lá dentro. Divirta-se, menina Bell.


Agradeço a Percy e vou nervosa para a porta. James já está à
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minha espera na entrada. Sem eu fazer nada por isso, um sorriso desenha-se no
meu rosto. Sinto-me tão aliviada por voltar a estar bem com ele...
O James veste uma camisa preta e um fato azul com quadrados grandes, da
Beaufort, que lhe assenta como uma luva. Do lado direito, no bolso do blazer, vê-
se um minúsculo monograma com as suas iniciais.
O James sorri para mim e observa-me com a mesma atenção com que o
observei. Fico com a garganta seca quando o olhar dele percorre o meu corpo.
— Estás muito bonita — murmura.
Fico com pele de galinha.
— Obrigada. Tu também.
Ele me oferece o braço e me conduz para dentro do restaurante. Está cheio e só vejo uma mesa
livre. Deduzo imediatamente que será a nossa, mas James entra por uma porta lateral que leva a uma
escada que leva ao andar de cima.

Quando chegamos ao andar superior, fico sem respiração. Estamos em um


jardim de inverno envidraçado. No meio da sala, há uma árvore em cujos galhos
balançam umas luzinhas de várias cores. No teto e ao longo da janela estão
penduradas guirlandas de luzes que emitem um brilho quente e que dão ao sítio
um clima mágico. Há apenas uma pequena mesa redonda.
James me acompanha até nossa mesa. Ele se comporta como um cavalheiro,
puxando a cadeira para eu sentar e depois empurrando-a contra meus joelhos.

Enquanto se senta à minha frente, olho pela janela. A vista é arrebatadora.


Você ainda pode ver os extensos campos que cercam Pemwick, mas tenho certeza de que dentro
de meia hora essa paisagem de colinas verdes ficará envolta em escuridão.

Do nada, surge um empregado, que pousa um jarro de água na mesa, antes de


nos entregar o menu. Folheio-o e vou levantando os olhos para o James.
Pergunto a mim mesma se estarei tão chateado por ser meu primeiro encontro
oficial com um cara ou porque é James que está sentado na minha frente e sorri
para mim por cima do copo.
Devolvo-lhe o sorriso.
— Isto é realmente bonito.
— Também acho. Às vezes, a minha mãe vinha aqui jantar comigo e com a
Lydia. Tenho muito boas memórias neste jardim de inverno — responde-me.
Ao ouvir essas palavras, sou invadida por uma onda de ternura e sinto um
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carinho enorme por James. Me comove que ele queira compartilhar esse sítio comigo,
justamente porque sei o quanto é difícil para ele a relação com a família.
— Obrigada por me teres convidado para vir aqui.
Dou-lhe a mão por cima da mesa e a acaricio. O olhar dele fica mais escuro.
— Quero mostrar-te que passar tempo comigo não é apenas uma obrigação, mas que pode
ser algo mais.
— James... — começo a responder, mas o garçom volta para a mesa e anota o pedido.

Escolho um nhoque com queijo de cabra; já James escolhe coxa de frango recheada. Depois,
tornamos a ficar sozinhos e penso em como retomar o assunto. Às vezes, eu gostava de ser
um gênio das conversas, como Ember. Ele sempre sabe o que dizer para quebrar o gelo em
qualquer situação complicada.
— É verdade, acabei de criar uma conta no Goodreads — diz-me de repente o James.

Presto atenção em você.


— A sério?
Anui.
— Quero retomar a lista. A que... a que fizemos em Oxford. — Pigarreia, e penso ver brilhar
em seus olhos a lembrança daquela noite. — Os livros me pareceram uma boa maneira de dar
o primeiro passo. — É uma ideia fantástica! — exclamo. — Que
livros você colocou na lista?
Os cantos dos lábios de James se movem sugestivamente. Pega o celular e
abre a app. Escreve durante uns segundos e torna a levantar os olhos.
— Muito bem: li o Death Note — anuncia.
— Estou a ver que sim — respondo-lhe. — E que é que achaste?
— Gostei muito. Só houve uma coisa que me incomodou imenso — comenta,
muito sério.
— Acho que já sei o que é — respondo-lhe.
— Foi simplesmente... fiquei desconcertado. Estive quase a deixar de ler o
livro. — James dá de ombros. — Mas você tinha razão no que disse.
Olho para ele com uma expressão interrogativa.
— Em relação a faltar-nos uma peça importante da nossa educação, se não tivermos lido o livro.

Fico surpreendida.
— Ainda te lembras disso?
Inclina a cabeça.
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— Claro que ainda me lembro disso. Lembro-me de tudo, Ruby.


Engulo em seco.
— Eu também — murmuro.
Há algo nos olhos azul-turquesa de James que eu não via há uma eternidade e que me
desperta um desejo tão repentino e tão intenso que eu pigarreio e tenho que beber um pouco
de água.
— Mostra-me a tua lista de leituras — peço-lhe com voz rouca.
James pisca um pouco, como se precisasse de um momento para se recompor. Depois, me
passa o celular por cima da mesa. Vejo a lista de livros «lidos» e fico boquiaberta com tudo
que encontro lá: alguns mangás, mas também toda uma série de livros clássicos, infantis e
para jovens, como Harry Potter, Percy Jackson e as obras de John Green e do Stephen
Chbosky.
— Quando é que leste isto tudo? — pergunto-lhe, assombrada.
Encolhe os ombros.
— Principalmente à noite, quando não consigo dormir. E nos intervalos do colégio. Procurei
qualquer coisa que me distraísse e os livros deram bons resultados. E, agora, me acostumei a
ler antes de dormir. — É um novo hábito fantástico. — Continuo
lendo o perfil dele. — Posso adicionar alguns títulos à lista de livros que você quer ler?

— Não te acanhes. Enquanto isso, vou ler alguns blogues que comecei a
seguir há pouco tempo, para ver o que contam.
Abano a cabeça, rindo-me. O James e os seus blogues. Um dia destes, tem de falar com a Ember,
penso, ao mesmo tempo que vou enchendo cada vez mais a lista dele.

— Ainda não acabaste? — pergunta-me o James, divertido.


— Disseste para não me acanhar.
James dá uma risada. Quando a comida chega, descubro que estamos sentados aqui há
uma hora, conversando, sem ter tido nenhum momento incômodo e sem precisar procurar
desesperadamente por um novo tópico de conversa. Pelo contrário, há muito tempo não
conversávamos tão despreocupadamente. Ou talvez nunca tivéssemos feito isso.

O jantar no jardim de inverno é maravilhoso e passa rápido demais. James me diz que quer
que meus pais tenham uma boa impressão dele e que, por isso, vai me levar para casa antes
da meia-noite, fato que aceito a contragosto.
Se tivesse dependido de mim, teríamos ficado sentados debaixo das luzinhas, a
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conversar para sempre.


Antes de vestir o casaco, aproximo-me novamente da janela lateral da sala.
Embora já esteja escuro como breu, a vista continua a ser lindíssima. O céu está limpo e vejo
as estrelas no firmamento.
Nunca tinha vivido uma noite tão mágica, e quero a todo custo guardar na memória.
Portanto, pego meu celular e tiro uma foto. Quando vejo o resultado, tenho que admitir que
não é muito fiel.
James se põe atrás de mim, tão perto que fico com os pelos dos braços arrepiados. Mas
não é o suficiente. Me inclino para trás, até ficar encostada nele. James me cerca com um
braço. Ele me aperta com força e eu inclino a cabeça para trás. É um momento tão lindo, tão
íntimo, que tenho que fechar os olhos por alguns segundos. Eu ouço a respiração dele e a
música que soa suavemente no jardim de inverno. De repente, tenho uma ideia.

— Posso tirar uma fotografia? — pergunto-lhe em voz baixa.


Sinto-o abanar afirmativamente a cabeça quando as madeixas do seu cabelo
me fazem cócegas no rosto. Levanto o telefone e ligo a câmera frontal.
— Sorri — peço-lhe.
Sorrimos os dois para a câmara, ele com os braços em volta do meu corpo, e vendo-se atrás de
nós a árvore com as luzinhas penduradas, neste mágico jardim de inverno.

Decido que, a partir de agora, essa imagem vai substituir todas que eu roubei do Instagram
e que salvei escondido no notebook. Contudo, essa ideia desaparece quando James enterra
o rosto no meu ombro. Ele respira fundo e pressiona os lábios contra a curva do meu pescoço.
Fico sem ar e, ao mesmo tempo, sinto um intenso formigamento percorrer meu corpo todo.
Coloco minha mão por cima da dele e a aperto com força enquanto sou inundada pelo desejo
insaciável de estar ainda mais perto dele. Deixo-me cair ainda mais para trás, quase apertando
meu corpo contra o dele, até que o ouço inspirar com força.

De repente, James não se move nem um centímetro. Minha própria respiração fica acelerada
demais. Quando aperto sua mão por um segundo, não precisamos mais de palavras. James
me vira com um movimento impetuoso e, um instante depois, nossos lábios se unem.

O James rodeia-me com os braços e levanta-me. As minhas mãos ficam pousadas no peito
dele e vou-as baixando até lhe tocar na barriga, arrancando-lhe um gemido. Parece tão
impaciente quanto eu. Nesse momento, tenho a impressão de que já não há mais barreiras
entre nós. Somos nós, tal e qual.
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Como antes, mas diferentes. Tudo parece ter adquirido mais sentido. Sentir os lábios de James
sobre os meus ainda é tão excitante quanto quando nos beijamos pela primeira vez, mas, ao
mesmo tempo, agora eu o conheço. Conheço o movimento que ele faz com a língua, o toque
dos dentes no meu lábio inferior.
Quando a mão dele desliza para o meu rabo e me aproximo ainda mais dele, sinto a sua
ereção na anca.
Os joelhos fraquejam-me. Aperto-me contra ele até que quase tropeça para trás e beijo-o
com mais intensidade, deixando-me levar totalmente pelos meus sentimentos e por esse desejo
ardente que sinto dentro de mim.
Porém, nesse momento, James afasta os lábios dos meus. Ainda estou tão arrebatada que
sinto uma tontura. Ofegante, James encosta a testa na minha. Sua mão se afasta da minha
bunda e a coloca atrás da minha cabeça, me acariciando
suavemente.

— Temos de parar.
Preciso de uns minutos para compreender o que acabou de me dizer.
— Porquê? — murmuro.
Limita-se a abanar a cabeça.
— Senhor Beaufort? — Ouve-se de repente a voz do empregado.
O James não me larga e resmunga qualquer coisa em voz baixa.
— Queria apenas comunicar-lhe que o motorista está à vossa espera — continua o
empregado, manifestamente incomodado.
James se afasta de mim e nossas mãos se encontram sem que eu faça nada. Como se fosse
a coisa mais natural do mundo, saímos do restaurante de mãos dadas, nós dois com as maçãs
do rosto coradas e murmurando um cumprimento de despedida para o garçom, que não está
mais olhando para nós.
Lá fora, sou assaltada por uma onda de ar frio. Percy está nos esperando na frente da
limusine e segura a porta aberta. Agradeço e entro no carro, com James logo atrás de mim.
Sento no mesmo lugar em que sentei no trajeto para o restaurante, com James ao lado.

Ele está com um olhar escuro e tem os lábios tão vermelhos e inchados quanto os meus.
Ainda sinto um leve formigamento no lábio inferior... e não só lá. Sinto como se estivesse
eletrizada, como se uma corrente elétrica percorresse todo o meu corpo. Mal sou capaz de
ficar quieta, de tão intenso que é o impulso de continuar o que estávamos fazendo.

As lâmpadas das ruas de Pemwick passam ao largo enquanto Percy dirige o carro em
direção à rodovia nacional. A partição de separação está levantada e
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olho para cima para verificar se a luzinha vermelha do interfone está acesa.
Não está.
Viro a cabeça para o James, que seguiu o meu olhar. Tem os lábios entreabertos e o
peito sobe e desce rapidamente. É evidente que o beijo o arrebatou tanto quanto a mim.

- James – murmura.
Sustém a respiração.
Movo-me sem ter consciência do que faço. A atração que sinto por ele é tão
grande que me é impossível ficar ali vinte minutos quieta, sem fazer nada.
Quando me aproximo mais dele, olha para mim surpreendido.
— Beija-me, James — murmuro.
Ele balança a cabeça negativamente, mas imediatamente pega meu rosto nas mãos e
aperta os lábios contra os meus. Nós dois suspiramos ao mesmo tempo, e os sons se
misturam e vibram em meu corpo. O mundo à minha volta se desvanece. Só existe eu e
James, não há passado, não há futuro. Só nós e as luzes que passam ao largo na noite.

— Senti a tua falta — murmuro.


Faz um som quase desesperado e beija-me com mais paixão.
Não estou pronta para o que você faz comigo. Nunca pensei que poderia me sentir
assim. Pouco importa quantas vezes estamos juntos, é sempre grandioso. O anseio vai
aumentando em mim a cada beijo que damos, um desejo insaciável dele e de sua
proximidade, que acho que nunca vai desaparecer.
Enterro-lhe as mãos no cabelo e puxo-o para mim. Está tudo a acontecer demasiado
depressa, mas não consigo evitar. O corpo do James pressiona o meu com solidez e
preciso dele. Neste instante, preciso dele como nunca precisei de ninguém.

Estou prestes a falar quando o James se afasta um pouco de mim. Olha para mim com
os olhos velados e acaricia-me o rosto com uma mão, antes de baixar a boca para o meu
pescoço.
— Eu também senti sua falta — ele murmura perto da minha garganta. Ele lambe minha pele e fico
sem respiração. — Sempre que eu te via no colégio, eu queria fazer isso.

Suspiro e fecho os olhos.


— Da próxima vez, podes fazê-lo sem recriminações. Dou-te autorização —
digo-lhe, entre suspiros.
Dá uma gargalhada rouca.
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— É bom saber isso.


James continua descendo, mas quero sentir sua boca sobre a minha, portanto, o puxo para cima e o
seguro. A língua dele brinca com a minha e, com a outra mão, exploro seu corpo. Há muita roupa entre
nós, não importa o quão bem o maldito terno lhe pareça. Desabotoo o primeiro botão da camisa dele.

— Ruby — interrompe-me em voz baixa.


Continuo. Quando chego ao terceiro botão, segura-me no pulso e detém-me.
Levanto a vista e deparo com os seus olhos escuros. Olha para mim, ofegante.
Vejo-o engolir em seco.
— Em geral, você pode me despir sempre que quiser. A sério. Por mim, é onde você
quiser. Mas... — Ele para de falar e passa os olhos pelo carro. Depois, torna a olhar para
mim. — Eu gostaria que nossa próxima vez fosse em algum lugar muito especial. E, se não
pararmos agora, então... eu não sei...
Sinto o rubor espalhar-se pelo meu rosto. Tem razão.
— Agi sem pensar.
Continuo com as maçãs do rosto quentes quando começo a abotoar sua camisa lentamente.
No entanto, mesmo depois de apertar o último botão, sou incapaz de encará-lo.

— Ruby — murmura o James então.


Faço de conta que estou endireitando a gola da camisa dele, apesar de estar perfeitamente
reta.
- Tentando?

— Ruby — repete em voz baixa. — Por favor, olha para mim.


Inspiro e levanto os olhos. A primeira coisa que me chama a atenção é que o rosto do James está tão vermelho

como o meu. A segunda é o olhar dele. É incrivelmente terno.

— Ainda não estou preparado... acho que devíamos avançar lentamente.


— Porque temos tempo — digo quase sem voz.
— Todo o tempo do mundo — concorda o James.
Anuo e expiro o ar entrecortadamente. Depois, reclino-me contra o encosto do banco,
dando um suspiro e fechando os olhos. Ficamos calados durante um bocado.

A dado momento, o James dá-me a mão.


— Obrigado por teres aceitado o convite. Por passares esta noite comigo —
sussurrou.
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Aperto-lhe a mão.
— Foi um serão maravilhoso.
— Também acho.
Há algo em seu tom de voz que me leva a olhar para ele. Seus olhos brilham de ousadia
e o sorriso é tão insolente que, por um instante, me sinto desarmada.
Apenas duas semanas atrás, eu não teria achado possível que ele me olhasse assim
novamente, e menos ainda que eu pudesse experimentar um momento como esse com ele
novamente. Eu gostaria de lhe dizer muito mais coisas... mas não posso. Ainda não passou
tempo suficiente para que você possa fazê-lo, as feridas continuam muito recentes. James
parece estar encarando isso com seriedade, mas o medo de que ele possa se afastar de
mim novamente ainda está presente.
Tento imaginá-lo daqui a alguns anos. Mais velho, mais maduro. Mais seguro de suas
decisões, sem esse caráter tão imprevisível que conheci no último meio ano. O que
acontecerá comigo se eu permitir que ele ocupe um lugar na minha vida?
Continuarei a ter a certeza de que somos feitos um para o outro?
No entanto... quem é que estou a tentar enganar? Para mim, será sempre apenas o
James. Nunca poderia amar outra pessoa como o amo a ele, desta forma apaixonada,
arrebatadora, desenfreada.
— Em que é que estás a pensar? — murmura de repente, deslizando os dedos
pela minha pele.
Em que estou apaixonada por ti. Em que és o único para mim. Em que isso me assusta.
— Eu estava pensando que, no futuro, temos que conversar mais um com o outro.
Sobre nossos problemas. Para que não torne a acontecer... qualquer coisa má — respondo
num tom hesitante.
O James olha para mim intensamente. Distingo nos seus olhos uma
determinação que nunca tinha visto.
— Vamos conseguir, Ruby.
Engulo em seco.
— Tens a certeza?
Anui. Apenas uma vez.
— Sim, tenho.
Sou invadida por uma sensação de alívio. Ouvir o James falar com tanta
segurança dissipa um pouco as minhas dúvidas.
Ficamos assim, sentados ao lado um do outro e a olhar para os nossos dedos
entrelaçados. Então James se recosta e sorri para mim.
— Foi a melhor noite do mundo — murmura, levantando as nossas mãos e
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beijando-me os dedos.
Assinto.
— Sou da mesma opinião.
De repente, os olhos dele brilham.
— Venha até nós amanhã à tarde — propõe. — Comigo e Lydia.
Vamos encomendar sushi.
James parece tão feliz e, ao mesmo tempo, tão nervoso que sua emoção me
contagia imediatamente. Já estive na casa dele e só guardo lembranças tristes dessa
visita. Estou disposta a substituí-las por outras mais bonitas.
— Está bem. Amanhã à tarde. Vou levar gelado Ben & Jerry’s.
— Perfeito. O Percy vai-te buscar. — Subitamente, franze o sobrolho. — A propósito...
— inclina-se para a frente para premir o botão do interfone. — Percy, não devíamos já
ter chegado a Gormsey há algum tempo?
Por uns segundos, só ouvimos um leve murmúrio. E depois...
— Pensei que precisavam de um pouco mais de... intimidade, senhor.
Olho para James com os olhos esbugalhados e ele me devolve um olhar igualmente
perplexo. E, depois, caio na gargalhada.
O James junta-se a mim e enterra o rosto no meu pescoço.
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25

Rubi

Vejo as mensagens de Lydia no momento em que Percy entra na propriedade dos Beauforts.

Mudança de planos!
Nosso pai acabou de chegar em casa.
O melhor é dizeres ao Percy para dar meia-volta.
Rubi?

Ele me mandou a primeira mensagem há quinze minutos e a última há três, além de eu também
ter três ligações perdidas de James. Sou invadida pelo pânico, quando olho para o celular e penso
no que fazer. Contudo, antes de ter tempo para aclarar as ideias, o Percy para o Rolls-Royce em
frente da residência dos Beauforts.

Com crescente inquietação, vejo-o sair e dar a volta no carro, para abrir a porta para mim.
Engolindo em seco, pego a pequena sacola em que coloquei três pacotes de Ben & Jerry's, seguro
a mão que Percy me estende e deixo que ele me ajude a sair do carro. Lá fora, respiro fundo para
inspirar o ar fresco da tarde e olho em volta com prudência.

Lá em cima, diante da porta imponente, vejo James e Lydia, parados na entrada, me esperando.
James está de braços cruzados enquanto Lydia me cumprimenta brevemente com a mão. Eu me
viro para Percy.
— Não sei quanto tempo vou ficar aqui. O Percy ainda vai ficar mais um bocado?

Um pequeno sorriso desenha-se nos lábios do motorista.


— Estou sempre aqui, senhorita Bell. Basta que o senhor Beaufort me avise e eu a levarei para
casa novamente. — Levanta ligeiramente o boné e torna a entrar no automóvel, suponho que para
o levar para a grande garagem situada ao lado da casa.

Apresso-me a subir os degraus da escada da entrada.


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— Olá — murmuro para os dois quando ficam ao alcance da minha voz. —


Acabei de ler as mensagens, há um minuto. O vosso pai está em casa?
Ambos anuem. Embora nenhum dos dois pareça muito feliz, o James dá-me
um breve abraço.
— Olá — murmura contra a curva do meu pescoço, e todo o meu corpo fica com pele de
galinha.
Depois que nos afastamos, Lydia suspira.
— Ele veio para casa porque aparentemente quer passar a tarde conosco.
— Então mais vale eu ir-me embora, não achas? — pergunto-lhe indecisa.
Não quero dar a eles a impressão de querer fugir assim que a coisa se complicar. No fim
das contas, James também aguentou uma tarde inteira na companhia da minha família. No
entanto, ambos parecem tão infelizes por ter que passar tempo com o pai que não quero
piorar ainda mais a situação com minha presença.

O James esboça um meio-sorriso.


— Eu gostaria de te poupar dessa tortura.
Precisamente nesse momento, o Mortimer Beaufort aparece à entrada.
Quando me vê, os seus olhos dilatam-se por uma fração de segundo.
Fico rígida.
— Diga a sua convidada que entre e feche a porta, c'os diabos, onde estamos morando?
— diz em tom trovejante.
A Lydia e o James abrem muito os olhos e dão meia-volta.
Ficamos nos olhando por um segundo. Lydia é a primeira a reagir e puxa meu braço com
suavidade, para eu entrar. Ele fecha a porta atrás de mim e então eu fico a poucos metros
de distância do Mortimer Beaufort, que me olha da cabeça aos pés.

Faço o mesmo. Usa um fato azul-escuro feito à medida e o cabelo cor de areia está
primorosamente penteado com risca ao lado e fixado com gel. Desde o nosso último
encontro, o cabelo está um pouco mais claro, mas o olhar é o mesmo de sempre: frio como
gelo, sem a mais pequena emoção. Engulo em seco. Sinto a garganta como se tivesse
comido terra.
Ato contínuo, pergunto a mim mesma por que permito que esse homem me altere tanto.
É indiferente para mim o que você pensa de mim — afinal, só sinto raiva, desprezo e rejeição
por ele, e nem uma pitada de respeito.
Portanto, endireito as costas e olho-o nos olhos.
— Boa tarde, senhor Beaufort — cumprimento-o.
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— Pai, com certeza você se lembra de Ruby — acrescenta James.


O Sr. Beaufort inclina brevemente a cabeça. Depois, vira-se para o James.
— O almoço está pronto. A vossa... amiga está convidada.
Não se digna a olhar para mim ou para Lydia novamente, antes de dar meia-volta e entrar
em uma sala na outra ponta do vestíbulo.
Ao meu lado, oiço a Lydia expirar bruscamente.
— Céus, Ruby — ele me diz. — Lamento muito. Queríamos passar uma tarde agradável
e agora temos que aturar meu pai. Em vez de sushi, é provável que o almoço seja coq au
vin. — Ele contrai o rosto numa careta.
O James olha para mim com insistência.
— Ainda estás a tempo de te ir embora.
— O teu pai viu-me.
— Não importa.
— Prefere que eu vá embora?
O James não hesita nem um segundo.
— Não, claro que não. Quanto mais depressa ele se habituar à ideia de que
fazes parte do nosso círculo, melhor.
Ao ouvir essas palavras, meu corpo se enche de ternura. Pego o braço do
James e dou-lhe um pequeno apertão.
— Não me vou embora. Além disso, gosto de coq au vin. — Levanto o saco.
— E trouxe gelado.
— Vou já levá-lo para a cozinha — diz-me a Lydia. — Vão andando.
A mão de James está no fundo das minhas costas quando entramos na sala de jantar. É
uma sala enorme, de teto alto e janelas largas, que dão para os fundos da propriedade
Beauforts. O verde escuro com que as paredes são pintadas combina com o tecido que
forra as cadeiras e, em cima da longa mesa de madeira escura e brilhante, está pendurado
um lustre imponente, que poderia competir facilmente com o do salão de baile de Maxton
Hall . A mesa foi arrumada por um dos garçons, com vários conjuntos de talheres, porcelana
fina e taças de vinho com adornos dourados.

Mas não são apenas os móveis e a decoração que diferenciam essa sala de jantar — se
é que podemos chamar assim — da minha casa, é, sobretudo, o ambiente que reina aqui.
É tenso e gelado, não tem nada a ver com o ambiente caloroso e descontraído em que
cresci.
Assim como naquele dia, na alfaiataria de Londres, o Mortimer Beaufort enche a sala com
sua presença. Seu comportamento reservado e a frieza do olhar
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fazem com que ninguém tenha a mais pequena possibilidade de se sentir confortável. É
surpreendente.
Não consigo me imaginar vivendo sob o mesmo teto que este homem,
nunca.

Todos nós nos sentamos: Sr. Beaufort na cabeceira da mesa, James à esquerda, eu ao lado de
James e Lydia na nossa frente. Dois ajudantes de cozinha entram na sala e pousam na mesa
alguns pratos fundos com uma sopa que solta um perfume apetitoso. Imito James e Lydia e coloco
o guardanapo de pano dobrado sobre o colo.

— A uma refeição agradável — diz o Sr. Beaufort, levantando o copo.


Ainda nem começou e já é uma das refeições mais desagradáveis da minha
existência.

Passamos os primeiros dez minutos quietos. Um silêncio tão pesado prevalece na sala que tenho
a impressão de que, ao engolir ou colocar o copo na mesa, faço um barulho tremendo e não natural.
Não consigo parar de pensar em se há algo que eu possa ou deva dizer. Contudo, por mais boa
vontade que eu tenha, não consigo pensar em nada.

Olho para o James, que me lança um pequeno sorriso.


No fim, é a Lydia quem fala.
— A gala de beneficência correu muito bem, não foi, Ruby? Só ouvi coisas
boas sobre o serão.

Sinto-me tranquilizada por ela ter escolhido um assunto que conheço bem e
sobre o qual sou capaz de conversar.
— É verdade. Angariámos mais de duzentas mil libras, o que superou em muito as nossas
expectativas.
— Uau! — exclama a Lydia. — O Lexington ficou satisfeito?
É isso.

— Sim, por sorte, costuma ficar satisfeito connosco.


— Com algumas exceções — James murmura.
Quando viro a cabeça para ele, esconde o sorriso com o copo.
Sei no que você está pensando. O dia em que ficamos sentados um ao lado do outro, diante da
mesa de Lexington, e quando James recebeu o castigo de trabalhar no comitê de eventos, ainda
está tão presente em minha memória como se fosse ontem. Devolvo-lhe o sorriso.

— Bem, talvez com uma exceção, mas não teve nada a ver comigo ou com minha equipe.
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— Ruby — diz o Sr. Beaufort, interrompendo a nossa conversa e fazendo o sorriso


desaparecer-me imediatamente do rosto. — Ao que parece, é muito ativa no colégio.

— Sim. Há dois anos que faço parte da comissão de eventos.


Assente brevemente. Mal revela qualquer emoção.
- Ena, ena...
— Na verdade, Ruby dirige o comitê de eventos — comenta James, sem
afastar os olhos do prato de sopa.
O pai não lhe liga nenhuma.
— E tenciona seguir os estudos?
— No outono, irei para Oxford.
O Sr. Beaufort levanta os olhos, interessado, e, pela primeira vez neste almoço,
tenho a sensação de que repara realmente em mim.
Sustenho a respiração. Tudo em mim resiste a falar com este homem sobre Oxford. Para mim, é
um assunto sagrado, não quero que seja destruído por alguém que não faz a mínima ideia do que
significa para mim estudar nessa universidade.

— Ah, sim? Que curso decidiu fazer?


— Filosofia, Política e Economia — respondo-lhe. — É um
curso sólido. Em que faculdade é ministrado?
— Em St. Hilda, senhor Beaufort.
Anui.
— A mesma faculdade em que James também foi admitido. Que prático.
Ignoro o comentário. — É
uma faculdade excelente. As entrevistas... — Estaco. Sra. Beaufort

morreu quando estávamos fazendo as entrevistas. Vejo que Lydia parou a colher a meio
caminho da boca e agora olha para o prato com uma expressão ensimesmada. — Gostei
muito de tudo e estou impaciente para começar — concluo precipitadamente. Não consigo
nem imaginar o quão doloroso deve ser para James e Lydia relembrar aqueles dias. Olho de
soslaio para James, mas ele está imutável e apenas continua comendo a sopa.

As entradas se estendem por uma hora. Durante o prato principal, Lydia e eu fazemos o
possível para melhorar o clima e conversamos sobre todos os assuntos e mais alguns, de
filmes e músicas a livros e blogs. Quando Lydia me conta que, antigamente, ela fazia balé, até
o Sr. Beaufort se permite dar um pequeno sorriso. Mas desaparece tão rápido quanto apareceu
e,
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depois, não tenho a certeza se talvez apenas o tenha imaginado.


— Em Quebra-Nozes eu fiz o papel mais secundário do mundo, mas estava orgulhosíssima
— lembra Lydia. Ele está cortando o frango elegantemente guarnecido com legumes assados.
O cozinheiro teve tanto trabalho para decorar os pratos que mal me atrevo a destruir sua obra
de arte.
— Gostava muito de ver fotografias, por favor.
— Não, não gostavas — murmura o James ao meu lado. — Era uma das ratinhas. As
fotografias são horripilantes.
— Por que você não conta para Ruby que você também teve aulas de balé? —
responde-lhe Lydia por cima da mesa.
Quando James lhe lança um olhar assassino, Lydia pega o garfo e coloca um grande pedaço
de frango na boca, encolhendo os ombros.
— A sério? — pergunto-lhe, surpreendida.
Vejo um músculo tremer no maxilar do James.
— Lydia vivia dizendo que era megadifícil. Todos os dias ele reclamava. Eu só queria
demonstrar a ele que eu não precisava encarar a coisa assim... afinal, todo mundo consegue
dar um ou dois pulos no ar.
— Então você foi a três aulas para experimentar — me diz Lydia, rindo. —
Você deveria tê-lo visto. Era péssimo.
— Quanto tempo aguentaste? — pergunto-lhe com um sorriso.
— Até Lydia me prometer que não iria reclamar das aulas em casa novamente.
— Eras verdadeiramente um bom irmão — comento.
— Faz-se o que se pode — responde-me o James.
— Por sorte, só foi a essas três aulas. Caso contrário, eu também teria desistido antes e não
teria continuado durante mais dois anos — comenta a Lydia.

— Por que você não continuou? — pergunto a ele.


— Por falta de disciplina — responde-me o Sr. Beaufort, como se eu tivesse feito a pergunta
a ele e não a Lydia. — Em geral, minha filha só faz coisas que considera fáceis. Assim que
enfrenta um desafio, ele joga a toalha.
Um silêncio desagradável e pesado instala-se entre nós, como uma nuvem
escura que pode começar a trovejar a qualquer momento.
Os lábios de Lydia se transformaram em uma linha pálida. Ao meu lado, James pega os
talheres com tanta força que fica com os nós dos dedos brancos.
A única pessoa que continua comendo tranquilamente é o Sr. Nem parece dar-se conta de que,
com aquele comentário repugnante, deu cabo
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do bom ambiente que reinava na mesa.


Como é que pode ter tão pouca sensibilidade em relação ao que acontece à sua
volta? Como é que pode saber tão pouco acerca dos seus próprios filhos?
A Lydia com quem travei amizade enfrenta qualquer desafio. Tenho a sensação
de que o Sr. Beaufort não conhece a filha, para falar assim dela.
— Apesar de tudo, eu gostaria de ver as fotos — digo, quebrando o silêncio opressor com
um tom de voz forçadamente alegre. — Tenho certeza de que você estava encantadora,
mesmo como uma ratinha.
Nunca tive que bancar a mediadora entre várias pessoas, pelo menos, não como agora,
e não tenho ideia se isso vai funcionar ou se vai piorar ainda mais as coisas. Só sei que
quero acalmar os ânimos de James e Lydia.
— Eu te mostro depois do almoço — Lydia me responde, com um sorriso forçado.

Levanta a cabeça e, por um instante, dir-se-ia que vai olhar para o pai.
Contudo, depois, vejo-a desviar o olhar e pousá-lo no enorme retrato de família que está
pendurado na parede, sobre a lareira antiga. A pintura a óleo retrata todos os Beauforts,
incluindo a mãe deles, com seus cabelos acobreados. Quando foi pintado, James e Lydia
deviam ter seis ou sete anos, no máximo.
— Bem — diz de repente o Sr. Beaufort, limpando a boca no guardanapo de pano e se
levantando. — Ainda tenho que fazer uma conferência por telefone. Boa tarde. — Ela se
despe com um aceno de cabeça e sai da sala de jantar.
Desconcertada, olho para James e depois para Lydia, mas nenhum parece surpreso com
a saída repentina de seu pai.
— Foi-se embora, sem mais nem menos — murmuro, olhando para a porta
atrás de mim, pela qual o Sr. Beaufort acaba de sair.
— É normal, não pense mais nisso — Lydia me explica, recostando-se na cadeira.
Acaricia a barriga com um sorriso. Ela poder fazer esse gesto na nossa presença, sem
precisar pensar, me enche de um carinho realmente bem-vindo, depois da atitude gelada
do Sr. Beaufort.
— Arranja sempre uma desculpa para escapar de situações incómodas — comenta o
James, bebendo um grande gole de água. — Apesar de ser ele que nos obriga a criá-las.
Não me lembro de alguma vez ter estado com ele mais de duas horas seguidas. — Bufa.
— E não é que isso me entristeça.
— Duvido de que tenha uma conferência. A nossa mãe nunca o teria
“Permitido”, ele murmura para Lydia.
O James sustém a respiração. Passados uns minutos, expira sonoramente.
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— Se quiseres, estás liberada — diz-me, olhando para mim de soslaio.


Franzo o sobrolho.

— Que é que queres dizer?


— Já podemos dar por concluída essa refeição deprimente e continuar na
próxima semana.
Uma ótima Lídia.
— Sim, não vamos levar a mal se preferires ir-te embora.
Olho para um e para o outro, indignada.
— Não vou desperdiçar esta comida deliciosa. — Aponto com o garfo para o frango meio comido
e depois para a Lydia. — Além disso, não me vou embora sem antes ver as tuas fotografias de balé.

A Lydia dá uma gargalhada e o James abana a cabeça, a sorrir.


Me dedico novamente ao prato e me esforço para não deixar transparecer o quanto o encontro
com o Mortimer Beaufort me afetou.

O resto do almoço acontece de maneira muito mais descontraída, embora eu fique feliz por poder
ir para o quarto de Lydia depois da sobremesa, fechando a porta atrás de nós. Agora, estamos
sentadas no enorme e confortável sofá, olhando o velho álbum de fotos.

— Eram encantadores. — Suspiro e aponto para uma foto em que James e Lydia estão abraçados,
com as bochechas encostadas.
— Nesta foto, tínhamos três anos. Olhe para esses cachos — Lydia me diz, apontando para os
pequenos cachos apertados.
— Já não são assim?
Abana negativamente a cabeça e leva a mão ao rabo de cavalo.
— Não. E ainda bem. Daria em doida se tivesse de os domar todas as manhãs.

— Mas eram tão engraçados... o James não tinha caracóis.


Olho para James, que está sentado em uma das duas poltronas que estão em
frente do sofá, a folhear uma revista de viagens.
— Ele sempre teve o cabelo como agora — diz-me a Lydia, arrancando-me
dos meus pensamentos.
Inclino-me para a frente, para ver a fotografia com mais atenção.
— Mas já tinha aquele olhar sério — comento.
Lydia suspira e vira a página. Vejo uma foto de um mini-James parecendo zangado, com uma
casquinha de sorvete vazia na mão.
— Deixou cair o gelado — explica-me a Lydia, sorrindo.
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— Pobre bebé James — murmuro, sorrindo também.


Quando olho para ele, tem uma sobrancelha levantada.
— Lydia, não precisas de fingir compaixão. Ainda consigo ouvir as tuas gargalhadas
maliciosas — diz-lhe secamente.
— Isso não é verdade, de todo!
— Ah, não? Não te riste? — replica ele num tom gozão.
— Sim, mas pouco depois me ofereci para dividir meu sorvete com você.
— Tinhas gelado de banana. Quem é que gosta de gelado de banana, por
amor da santa?!
— Eu não, de certeza — intervenho.
O James aponta para mim.
—Você vai ver?
— Falta um parafuso para vocês, vocês dois — diz Lydia, balançando a cabeça e
virando mais uma página.
Nas fotografias a seguir, os gêmeos já têm seis ou sete anos, e agora também aparecem
ao lado deles, cada vez com mais frequência, Alistair, Wren, Cyril ou Keshav.

— É impressionante que se conheçam há tanto tempo — digo com admiração. — É, não


é? Às vezes
tenho a impressão de que somos todos irmãos.
Anuo e olho para a fotografia de um Alistair bochechudo, cujos cachos, de um louro dourado, flutuam
em todas as direções. Então meus olhos deslizam para uma versão do James em miniatura, fazendo
uma chave para um mini-Wren.

— Tu e o Wren chegaram a conversar? — pergunto em voz baixa, virando-me


para o James.
— Conversamos um bocado. — Hesita. — Neste momento, você está passando por
algumas coisas.
— Coisas más? — pergunta imediatamente a Lydia.
O James encolhe os ombros.
— Prometi-lhe que não dizia nada.
Lydia franze o cenho, preocupada. Percebo que, por alguns segundos, você luta consigo
mesma porque, na verdade, quer continuar fazendo perguntas, mas depois apenas concorda.

— Compreendo. Mas achas que é alguma coisa que tenha solução?


O James assente, mostrando-se otimista.
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— Vai ultrapassar a situação. Afinal, tem-nos do lado dele.


Eu e a Lydia trocamos um olhar cético.
Ao mesmo tempo, me sinto aliviada por, aparentemente, a briga entre eles ter chegado ao
fim. Na noite do meu aniversário, quando eu e James estávamos conversando ao telefone,
ele me confessou o quão importante é para ele aproveitar esse último ano no colégio com os
amigos. Queria passá-lo sem preocupações e sem pensar no que o esperava depois. A morte
da mãe roubou essa despreocupação, mas é por isso mesmo que é ainda mais importante
que ela possa contar com os amigos. E vice-versa.

Um pouco mais tarde, eu me despeço de Lydia, e James me leva para casa. O que significa
que Percy dirige até minha casa, mas James vem comigo no Rolls-Royce. Permanecemos
em silêncio enquanto saíamos da propriedade em direção a Gormsey.

Embora eu não queira, é como se o encontro com Mortimer Beaufort tivesse projetado uma
sombra sobre nós. Eu vi aquele homem três vezes na minha vida e, em todas elas, ele acabou
tentando me afastar de James. Tenho muita esperança de que James não permita que ele
faça isso de novo... que o que existe entre nós desta vez seja mais forte do que a influência
de seu pai...
— Em que é que estás a pensar? — pergunta-me de repente o James. A voz é profunda e
carinhosa.
Levanto a vista e vejo seus olhos azul-turquesa. Um formigueiro se espalha-
me pela barriga.
Respiro fundo.
— Estou a pensar que gostava de passar mais fins de semana contigo.
O James levanta novamente o olhar para os meus olhos e depois baixa-o, como se não
soubesse como resistir.
— Mas, ao mesmo tempo, pergunto a mim mesma... — Paro de falar.
James fica esperando e continua me olhando.
— Que é que perguntas a ti mesma? — insiste depois de um tempo.
— Pergunto a mim mesma como isso vai continuar. Para você — murmuro. — Estou falando
da relação entre você e seu pai. É ele que vai determinar como você deve viver sua vida? Vai
permitir que ele te encurrale num lugar em que, na verdade, você não quer estar?

James abaixa os olhos e os fixa no chão do automóvel, como se lá houvesse alguma coisa
muito emocionante para descobrir. Então, respira fundo.
Passado um bocado, abana lentamente a cabeça.
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— Não se trata apenas dele — responde-me com a voz rouca. — Tudo depende da Beaufort,
Ruby. O que vou assumir não é a obra da vida do meu pai. — Engulo em seco quando ele
levanta os olhos e os fixa nos meus. — Eu... eu não quero desiludir a minha mãe.

Inspiro com força.


Não tinha pensado nisto. Como é natural, tudo mudou com a morte da mãe.
Sempre acreditei que as coisas dariam certo enquanto James seguisse seus sonhos e não os
de seu pai. Mas, agora, me dou conta de que não se trata mais disso. James não está ligado a
Beaufort apenas por causa de seu pai. Na verdade, é a mãe quem o retém.

— Você não vai decepcioná-la — murmuro.


— E se você fizer isso? E se eu não conseguir evitá-lo? — Vejo nos olhos dele uma emoção que
nunca tinha visto antes: medo. Ele brilha em seu olhar e, de repente, parece encher todo o carro.

— Estou do teu lado — digo-lhe. São apenas quatro pequenas palavras, mas,
nesse momento, ponho toda a minha força nessas poucas sílabas.
James fica me olhando por um grande tempo. Você parece entender tudo o que quero lhe
dizer com essas palavras. Pouco a pouco, o medo profundo vai sumindo de seus olhos e dá
lugar à confiança e a essa ternura com que me olhou durante toda a tarde.

Ato contínuo, dá-me a mão. Entrelaça os dedos nos meus e aperta-mos


suavemente.

— E eu estou do teu. Aconteça o que acontecer.


Recosto-me e apoio a cabeça no ombro dele.
Respiro mais facilmente. Vamos conseguir.

James

Já passa da uma e meia quando acordo sobressaltado por um forte estampido.


Levanto tão rápido que o livro eletrônico escorrega de cima da cama e pousa no chão, mas
não me importo. Precipito-me como um louco para o corredor, em direção ao quarto de Lydia,
mas, quando abro a porta, ela está sentada na cama, esfregando os olhos sonolentos.

— Está tudo bem? — pergunto-lhe.


Anui.
— Que foi aquilo?
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— Suponho que tenha sido o papá — respondo-lhe, sentindo a pulsação acelerar.

Não quero ir ao piso de baixo.


Não quero saber o que é que ele partiu desta vez.
Não quero preocupar-me com ele, porra.
Mesmo que tudo em mim clame para voltar para o quarto, eu me encaminho para baixo. Torno a
ouvir outro barulho. Seja o que for que meu pai esteja fazendo, ele está fazendo na sala de jantar.

Percorro o corredor sem fazer barulho. À medida que me vou aproximando, oiço-o mais
claramente. Está a murmurar qualquer coisa, zangado, como se repreendesse alguém. Talvez a
Mary ou o Percy?
Pouco antes de chegar à sala de jantar, viro-me um pouco e ponho-me do lado
esquerda, encostando-me na parede ao lado da porta.
— Desgraçada! — balbucia o meu pai. — Não devias tê-lo feito.
Franzo o sobrolho e aproximo-me um pouco mais. Com quem diabos estará a falar?

— Nunca te perdoarei. Agora estou sozinho com os dois e faço tudo mal, e,
porra, é novamente por culpa tua! — grita as duas últimas palavras.
Espio do meu esconderijo, bem a tempo de vê-lo jogar uma garrafa cheia de uísque sobre a
mesa, contra o retrato de família. Fico sem respiração quando a garrafa se espatifa com força e o
tilintar soa como um eco em meus ouvidos. O líquido dourado escorre por cima da imagem de mim,
minha mãe e Lydia. As cores parecem desbotar. O rosto de minha mãe derrete-se como o de uma
figura de cera que se fundisse e se transformasse paulatinamente num monstro. Uma cara grotesca
que olha para meu pai do alto e ri dele.

Nesse momento, a ira que sinto sempre em relação a ele e que está dormente no meu interior
torna a despertar, e circula-me nas veias um calor que só ele consegue desencadear. Cerro os
punhos e me preparo para entrar na sala para pedir contas a ele, quando, de repente, há outro
barulho que me impede.
Lá de trás, vejo que os ombros do meu pai se agitam. Ele tenta respirar várias vezes, mas seus
joelhos falham e ele cai no chão, em meio aos cacos de vidro. Leva as mãos ao rosto e torno a ouvi-
lo.

O meu pai está a soluçar.


Não consigo me mover, fico petrificado ao vê-lo chorar. Penso em todas as vezes que ele me fez
chorar. Penso nas surras que me deu e nos seus gritos, nas
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humilhações e na frieza com que sempre olha para mim. Lembro-me do dia do funeral, quando
você nos disse como deveríamos nos comportar. No seu silêncio depois da morte de nossa mãe.

E percebo que, na verdade, não sinto a satisfação que gostava de sentir. Pelo
contrário: o meu pai está a sofrer. Que tipo de pessoa é que eu seria se, agora,
desse meia-volta e voltasse para o meu quarto?
Não é fácil para mim dar o primeiro passo, mas eu faço. Entro na sala de jantar,
tomando cuidado para não pisar nos cacos de vidro que sobraram do ataque de
fúria de meu pai, e paro atrás dele. Instintivamente, coloco uma mão em seu
ombro e o aperto momentaneamente. O pranto para abruptamente e ele prende
a respiração.
Justamente quando vou afastar a mão, meu pai me agarra. Ele me segura de
uma forma quase desesperada e eu o deixo. Sou invadido por um sentimento
estranho, um sentimento que não sentia pelo meu pai há séculos.
Levanto os olhos para o nosso retrato. Nele, meu pai tem as mãos sobre os
ombros de Lydia, enquanto eu estou na frente de nossa mãe, que me cerca com
os braços. Embora grande parte das cores tenha sumido, ainda lembro
perfeitamente como era. Ainda me lembro vividamente de como é se sentir parte
de uma família.
O sentimento que germina agora em mim não passa de uma sombra disso,
mas agarro-me a ele.
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26

Lídia

Pela primeira vez na vida, tenho que comprar um vestido na Internet. Em vez de passear pela
Bond Street de Londres e no mínimo dar uma olhada em cada loja, estou sentado na cama de
Ruby clicando site após site. É divertido, principalmente porque não estou fazendo isso sozinha,
mas só preciso pensar em quando puder voltar às minhas lojas favoritas, tocar nas roupas e vê-
las de perto para ficar feliz.

Porém, nos próximos meses não terei essa opção. A maioria dos donos de lojas me conhece
e acho que as possibilidades de eles tirarem suas próprias conclusões, ao ver minha barriga,
são consideravelmente altas.
Depois disso, seria apenas uma questão de tempo até que o meu pai soubesse o que se passa.

Perante essa mera ideia, sinto um calafrio percorrer-me o corpo todo.


Não, primeiro terei de me dedicar a fazer compras on-line.
— Que é que você acha desse? — Ruby me pergunta, virando o laptop para mim.

Franzo o nariz.
— Parece que alguém se descontrolou com a tesoura — digo a ela, percorrendo com o dedo
a barra do vestido, que é muito mais comprida atrás do que na frente. — Minha mãe teria tido
uma fúria se visse esse corte. E a cor. E o adorno da renda do decote, que não se justifica.

— Tudo bem, tudo bem — Ruby me diz rindo enquanto fecha a aba. — Vamos continuar
vendo esse lugar. Estamos apenas na página doze de vinte e sete.
Ela começa a se deslocar pela página abaixo e, juntas, vemos os vestidos das mais
diversas cores e cortes que vão aparecendo no ecrã.
— Se calhar, devia baldar-me e não ir ao baile — proponho passado um bocado.

A Ruby abana imediatamente a cabeça. — É


o teu último baile de primavera. Tens de ir.
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— Aos poucos, começo a me dar conta de que é impossível encontrar um vestido


que esconda essa barriga. Que é que vai acontecer se alguém perceber? —
pergunto a ele, apontando para a pequena colina que se esconde sob meu suéter
oversize.
— Havemos de encontrar um vestido. Não se preocupe. — Ruby parece
mais otimista do que eu.
Embora a Dra. Hearst tenha me dito que, em comparação com outras mulheres
que também estão grávidas de gêmeos, minha barriga está crescendo bem
devagar, eu já acho que está enorme. Nas últimas semanas, me acostumei a usar
a bolsa do colégio na frente do corpo e, além disso, todas as blusas que uso são
dois tamanhos maiores que o normal. James as trouxe para mim do departamento
de roupas, sem que ninguém percebesse, depois de uma de suas reuniões na
Beaufort. Pela primeira vez, estou feliz que minha mãe desenhou nossos uniformes
e que eles foram feitos em nossa alfaiataria.
Eu gostaria de poder fazer o mesmo com o vestido para o baile de primavera. Já
estou ficando arrependida de ter deixado Ruby e James me convencerem a ir. E
isso apesar de, na verdade, o vestido não ser o maior problema. O que eu mais
quero é evitar ter que ver Graham fora das aulas também.
Mas não posso contar isso a Ruby e, muito menos, a James. Eu não suportaria
que meu irmão olhasse para mim com pena. Não depois da última quarta-feira,
quando um nervo das minhas costas se prendeu e eu fiquei deitada na cama,
impotente como uma barata virada de cabeça para baixo. Eu estava com tanta dor
que não conseguia me mover e tive que esperar até que James ouvisse meus
gritos pedindo ajuda. E, então, ele teve que me ajudar a me vestir.
Foi humilhante e gostava de apagar da mente toda essa manhã. Para sempre.
Se, agora, eu lhe disser que não suportaria me encontrar com Graham em uma
festa, com certeza você vai achar que sou uma pessoa supervulnerável, e não
quero que isso aconteça.
— Que é que achas deste? — pergunta-me a Ruby.
Também não gosto. É demasiado jovial, pouco glamoroso e faz-me lembrar
um uniforme.
— Na verdade, gostava de encontrar um vestido que não fosse muito chamativo.

— Nunca tinha pensado que fosse tão difícil encontrar um vestido para O Sonho
de Uma Noite de Verão. Já estou arrependida de ter sugerido esse tema para
o evento.
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— É um tema bonito. E um vestido da Elie Saab seria perfeito — comento, dando um suspiro.

A Ruby escreve o nome da estilista no campo de pesquisa do navegador e dá um gritinho de


admiração.
— Tens toda a razão, seria perfeito. As aplicações florais são lindas e... céus!
Custam uma fortuna!
— Sim, é verdade. Mas o problema não é esse: um vestido deste tipo tem de
ser provado antes e eu não posso, tão simples quanto isso.
Sem contar que seria um exagero aparecer assim vestida no baile do colégio.
Vou guardar o sonho da Elie Saab para o meu casamento. Ou para o casamento de quem quer
que seja, porque é bem provável que todos os meus amigos se casem antes de mim. Minha
vida amorosa consiste, sobretudo, em ler mensagens antigas do Graham e começar a chorar,
se possível sem que ninguém perceba. É uma tragédia total.

— Podemos pedir ajuda a Ember — sugere Ruby hesitantemente. — Você sempre encontra roupas
lindas na Internet. — Ele olha para mim cautelosamente. — Não precisamos lhe contar mais do que o
estritamente necessário.

— Não achas que vai perceber? — pergunto-lhe com prudência.


— Talvez. Ember tem um sexto sentido para segredos — murmura Ruby.
— Mas, mesmo que descubra, espero que saibas que a minha irmã nunca diria nada.

Respiro fundo. Durante as últimas semanas e meses, Ruby provou ser uma boa amiga. Talvez
até a melhor amiga que eu já tive. Não consigo imaginar que você vá me enganar. E, se ela
confia na irmã, farei o mesmo.
— Se você acha que Ember pode resolver o problema do vestido, eu adoraria poder
contar com ela.
O rosto de Ruby fica resplandecente. Depois, levanta.
— A que horas é que o Percy e o James te vêm buscar? Ainda temos algum tempo?

— O treino termina em meia hora — digo a ele, consultando o relógio. — Com certeza não
chegam antes das sete e quinze.
— Perfeito. — A Ruby abre a porta e faz-me sinal para ir com ela.
Sigo-a até o corredor. O quarto de Ember fica logo ao lado do de Ruby e a
porta está entreaberta. A Ruby bate duas vezes.
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— Ember, você está livre? Temos uma pequena emergência de vestimenta.


— Claro que sim, entrem — responde-nos.
Entramos juntas no quarto da Ember. É tão grande quanto Ruby e está mobiliado de
maneira semelhante. Uma cama, uma escrivaninha e outra mesa um pouco menor, em
cima da qual há uma máquina de costura e, bem ao lado, um manequim de vestido. Fico
de olhos esbugalhados.
— Esse vestido é seu? — pergunto a ele, perplexa. Eu teria corrido para vê-lo de perto,
mas me lembro a tempo de que tenho que manter as boas maneiras. — Oi, Ember — a
cumprimento, levantando a mão.
A irmã de Ruby está sentada no chão, em frente à cama, e diante dela há dois rolos de
amostras de tecido. Ele fez um coque grande e desgrenhado, do qual algumas mechas
escuras se soltaram, e ele tem um marcador entre os lábios.
— Olá — responde entre dentes, deixando as amostras de lado para poder
pegar no marcador. — Que emergência é essa?
— Lydia precisa de um vestido para o baile de primavera. Adoraria que fosse um dos da
Elie Saab, mas, infelizmente, dessa vez não vai dar.
Sabe onde ela pode conseguir um que seja adequado ao tema da festa? Já vimos todas as
lojas online que você me indicou.
— Um vestido da Elie Saab seria realmente perfeito. Os vestidos dela são tão bonitos... — a
Ember suspira. — Tenho um monte deles guardados no meu board de vestidos do Pinterest.

— Ou então... — digo, aproximando-me do manequim. Lanço um olhar inquisitivo por


cima do ombro para a Ember. — Posso?
Anui.
— Claro.
Observo o vestido com atenção. É de um tom rosado suave, composto por uma saia de
tule e uma parte de cima com flores bordadas. Ao vê-lo mais de perto, percebo que é
formado por duas peças, que a Ember vai unir com uma larga faixa de seda, que agora
está presa por uns alfinetes finos.
— Foste, o que você costurou?
E ano Ember.
— É lindo — digo a ele com toda a sinceridade.
Ela cora um pouco.
— Foi uma sorte, na verdade, comprei o tule apenas por diversão. A qualidade não é
especialmente boa, mas quem não for especialista de certeza que não vai notar quando
estiver tudo acabado.
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De repente, a voz da minha mãe ecoa nos meus ouvidos.


"Talento. Talento puro. »
Ultimamente, costumam surgir coisas que me fazem pensar nela. Vejo seu rosto e ouço sua
voz nas situações e lugares mais estranhos, e, embora ainda me machuque muito, também me
parecem momentos bonitos e apaziguadores. Como se uma parte da minha mãe ainda estivesse
comigo.
— Tens verdadeiro talento, Ember. Gostava de saber costurar tão bem como
que.

— Não se aprende, quando se cresce em uma família como a sua? — pergunta-


me com prudência.
Encolho os ombros.
Ainda me lembro de que, aos treze anos, pedi a meus pais que contratassem uma modista
para me ensinar a costurar. Eu queria fazer os esboços que havia desenhado, mas não tinha o
conhecimento básico. Meu pai queria ver meus esboços primeiro, para saber se valia a pena
me pagar pelas aulas. Contudo, quando viu que eu tinha desenhado roupas para mulheres
jovens, dispensou-me imediatamente, bufando de desprezo.

Depois disso, fui aprendendo a costurar mais ou menos por minha conta.
Contudo, nem as saias e blusas já prontas conseguiram convencer meus pais de que uma coleção para
mulheres representaria um avanço positivo e importante para a Beaufort. E chegou um momento em
que era muito deprimente para mim passar horas e horas sentada diante da máquina de costura,
investindo sangue, suor e lágrimas em um vestido que ninguém jamais usaria.

— Já soube costurar. Mas... eu não sei mais — respondo depois de um tempo.


— Porquê?
A Ember insistir, de forma tão natural, é bonito, de certa forma. A maioria das pessoas se
sente coibida em falar assim comigo, como se não soubesse o que pode e não pode me
perguntar. Daí que só falamos de assuntos fúteis. Ember é uma das exceções: com ela, tenho
a sensação de que ela realmente se interessa pelo que vou contar.

— Sempre quis ter a minha própria coleção na Beaufort, mas os meus pais descartaram
categoricamente a possibilidade de incluir roupa feminina.
Portanto, a dado momento, deixei de costurar.
A Ember olha para mim com uma expressão pensativa.
— Então, deixaste de desenhar roupa?
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— Não, mas... — Esboço uma expressão de indiferença. — Faço-o só para


mim, não para a Beaufort.
— Sinto muito — Ruby me diz em voz baixa, ao meu lado, e Ember assenti em
concordância. — Neste momento, eu poderia te dizer o típico “Nunca se renda!”, mas
posso imaginar o quão frustrante deve ser sempre recusar suas ofertas. Eu também
acabaria perdendo a vontade.
— Sim. — Sinto cair sobre mim aquelas nuvens escuras que me arrastam para um
torvelinho de pensamentos sombrios do qual levo horas para sair. Tento me concentrar
em outro assunto o mais rápido possível. — Não importa, vamos mudar de assunto!
Onde você acha que eu poderia encontrar um vestido bonito para o baile de primavera?
Ruby me disse que, como blogueiro, você conhece todos os truques. — Até eu posso
ver o quão artificial minha voz soa.
A Ember olha para o manequim, antes de se virar para mim.
— Ainda me sobra muito tecido. Se você quiser, posso fazer um vestido para você.
Por um instante, permaneço muda.
Depois, dou-me conta de que não posso pedir-lhe que me faça um favor
desses. Abano lentamente a cabeça.
— É demasiado trabalho. Além disso, a festa é no sábado da próxima semana.
A Ember faz um gesto de rejeição com a mão.
— Que disparate. Não me teria oferecido se não tivesse tempo para o fazer.
Tenho certeza que você pode me trazer um ou dois de seus vestidos velhos, certo? — Ember me
pergunta. — Vamos fazer um vestido lindo, você vai ver, vai ser incrível!

— Aceite a oferta, Lydia — Ruby me pede, colocando um braço por cima dos
meus ombros.
Estou tão atordoada com a franqueza de ambas, com o seu carinho e a sua boa
disposição, que fico com um nó na garganta e começo a sentir picadas nos olhos.
Pestanejo e respiro fundo. Deve ser por causa das hormonas, mas, neste momento, é-
me dificílimo manter a calma.
— Obrigada — consigo dizer, por fim.
— Oh, não me agradeças já. O meu trabalho tem um preço. Embora seja
muito baixo... — avisa-me a Ember, com um sorriso quase diabólico.
Consternada, olho para Ruby, que não parece estar se sentindo muito satisfeita.

— Ember... — diz-lhe num tom sério.


— Vamos, Ruby. — Virando-se para mim, acrescenta: — Eu gostaria de ir
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convosco à festa. — É
uma ideia fantástica! Não acha? — pergunto, me dirigindo a Ruby, que está olhando para a irmã com uma

expressão ainda mais séria.

— A Lydia acha bem que eu vá convosco.


— Você ainda não me contou quem é o garoto misterioso que conheceu na
última festa — comenta a Ruby.
— Que é que ele tem que ver com eu querer passar uma excelente noite de raparigas convosco?
— replica a Ember.
Ruby levanta uma sobrancelha.
— Vi o que pediram para a empresa de decoração. Quero a todo custo ir nesse baile de
fadas. Quando você tem a oportunidade de ir a um evento como esse? — insiste Ember.

Ruby respira fundo, prende a respiração por alguns segundos e depois


expira lentamente.
— Da última vez, combinamos algumas regras e você não as cumpriu. Sabes
que eu me preocupo com você.
— Não bebi álcool nem dancei nua em cima das mesas. Portanto, não me
parece que te tenha dado razão absolutamente nenhuma para te preocupares.
Ruby suspira. Por um grande tempo não diz nada. Você parece estar revisando mentalmente uma
lista de prós e contras.
— As regras da outra festa continuam valendo — anuncia, por fim. — E,
Desta vez você vai cumpri-los, entendemos?
O sorriso da Ember aumenta.

— Estamos compreendidos? —ele insiste para Ruby.


— Vou adorar ir com você ao baile de primavera, Ruby. Muito obrigada pelo gentil convite! —
responde-lhe a Ember, em tom triunfal. Ao ver que a irmã não diz nada, ela bufa. — Tudo bem, vou
seguir as regras.
— Muito bem — Ruby diz, assentindo. — Nesse caso, já temos um encontro a três para o baile
de primavera.
Ember dá um grito de alegria e me dá uma cotovelada nas costelas.
— Vai ser fantástico!

Espero que tenha razão.


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27

Lídia

O vestido que Ember costurou é um sonho. A parte de cima é de um tecido sutil cor de
champanhe e manga curta. Logo abaixo do peito, ela juntou uma saia de tule igual à do
vestido de Ruby, por cima da qual espalhou pequenas flores de tecido. Ele cai suavemente
e tem um corte que disfarça minha barriga o máximo possível. Tenho bastante certeza de
que Ember sabe, mas embora pareça estranho para mim, não me causa nenhuma
sensação desagradável.
— Acho que temos que começar a pensar em ir andando — Ruby me diz, olhando para
o relógio da minha mesa. É de madeira escura e tem alguns adornos dourados decorando
a esfera brilhante. Foi meu pai que me deu quando eu fiz dez anos. Não sei por que ainda
está lá. Não é especialmente bonito, mas não consigo me separar dele.

— Lydia? — Escuto a voz de Ember colada em mim, me arrancando dos meus


pensamentos.
- Tentando?

— Estás bem? — pergunta-me com prudência.


Ember tem olhos parecidos com os de Ruby: verdes e penetrantes. Às vezes, tenho a sensação de que essas duas irmãs

podem ver o interior de uma pessoa.

— Sim, está tudo ótimo. — olho para ela com um sorriso resplandecente. — Acho que
James e Percy já estão há vinte minutos nos esperando lá embaixo, portanto, temos que
ir embora.
A Ember anui, embora fique com uma expressão pensativa.
— Tenho que agradecer de novo pela sessão de beleza, Lydia — Ruby me diz.
— Soube-me muito bem, depois do stresse dos preparativos. — Aproxima-se de mim e
dá-me um pequeno abraço.
— Vocês as duas encarregaram-se de que eu vá bem vestida. Era o mínimo
que podia fazer — respondo-lhe.
Contratei uns estilistas que se ocuparam de nos maquiar e nos pentear, a
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mim, Ruby e Ember. No momento, estamos prontos para pisar no tapete vermelho. Um no qual
circulem, sobretudo, fadas. Ou o próprio Shakespeare
em pessoa.
Nos encaminhamos para o vestíbulo, no andar de baixo, onde James e Percy já estão nos
esperando. Estão os dois conversando e eu ouço Percy rir. O som É a primeira vez, em muito
comove-me. tempo, que os vejo conversar despreocupadamente.

O James dá meia-volta e, como se tivesse vontade própria, o olhar dele pousa na Ruby. Os
olhos do meu irmão iluminam-se, como acontece quase sempre que olha para ela ou fala com
ela.
— Estão lindas — declara enquanto o Percy me segura o casaco para que o vista.

— Dizes sempre a mesma coisa — comento.


Ele dá de ombros, com o olhar ainda apoiado em Ruby. Ela dá uma pirueta e lhe dá um
grande sorriso.
— Eu me sinto como uma princesa. —
É precisamente o que você parece — admite o James, pegando-lhe o rosto antes de se
inclinar para lhe dar um beijo.
— Ainda não decidi se isso me parece bonito ou asqueroso — murmura a
Ember ao meu lado.
— É bonito — replico com toda a naturalidade. — É muito melhor do que
ver os dois tristes.

Rubi

Ontem à tarde, quando vimos a empresa colocar as quinze árvores artificiais no Boyd Hall,
pensei que tínhamos cometido um erro enorme. À luz do dia, a distribuição parecia estranha,
muito massiva e sem ambiente. Contudo, agora que olho em volta, suspiro de alívio.

O brilho suave das pequenas luzes e velas, as pétalas azuis e lilás que espalhamos pela sala
e a agradável música clássica da orquestra conseguem criar um clima de conto de fadas, no
qual é evidente que os convidados, com seus vestidos élficos e os seus ternos claros, se
sentem confortáveis.
— Ruby, isso tudo está lindo — diz Lydia ao meu lado, suspirando.
— Está realmente bonito — concorda a Ember.
Ele aponta para o balanço de madeira que está pendurado em uma das árvores. O
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nosso fotógrafo está na frente, esperando para tirar uma foto do casalzinho que está se
colocando em posição neste momento. A garota pega a corda decorada com flores e o
namorado, que está atrás dela, coloca a mão por cima da dela. É super-romântico!

— Depois temos que tirar uma foto todos juntos, sem falta — propõe a Lydia.

— Eu bem te disse que valia a pena vires — respondo-lhe.


Começo a procurar Lin com os olhos. Tenho que perguntar se você falou com o
pessoal do catering e se já verificou o bufê. Contudo, antes que eu consiga encontrá-la,
James pousa suavemente a mão em minhas costas.
Olho para ele com uma expressão interrogativa.
— Sei exatamente o que queres fazer neste momento. Mas o teu turno
começa... — olha de relance para o relógio — daqui a uma hora.
— Lembras-te disso? — pergunto-lhe, divertida.
Anui.
— Agora você ainda me pertence, e não aos canapés, Ruby Bell.
Ato contínuo, me afasta de Lydia e Ember. Posso dar a eles um olhar por cima do
ombro, antes de virar os olhos para a frente, para não pisar no vestido. Primeiro, acho
que James quer me levar para o bar, mas depois vira para o lado, em direção ao
balanço. Neste momento, já tem outro casal posando, e ficamos alguns passos atrás
do fotógrafo.
Olho para o James a sorrir.
— Sério? Lembro-me dos tempos em que nossas festas te aborreciam —
comento. — E agora você quer até uma foto de casal como lembrança?
— Sabes bem porque é que me aborreciam — oiço-o dizer junto do meu
ouvido, e fico com pele de galinha.
— Na verdade, eu as adorava — acrescento. — Admite-o. Era tudo uma fachada e a
verdade é que você achou o DJ da festa de volta às aulas incrível e que ficou com
inveja de não poder contratá-lo para as festas que você dava na sua casa.
James bufou.
— Exatamente.
De repente, ele se inclina e me acaricia com a boca, primeiro, a maçã do rosto e,
depois, o queixo. Estremeço quando me beija naquele ponto atrás da orelha.
— Sério, você está linda — ele murmura, e eu sinto seu hálito quente.
Todo o meu corpo estremece e estou prestes a abrir a boca para devolver sua
saudação quando a voz do fotógrafo me assusta.
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— Próximos — ele nos chama, em tom entediado. Quando ele vê que é minha vez, ele levanta
uma sobrancelha. — Ah, é a senhorita Ruby.
O Sr. Foster e eu nos conhecemos desde que organizo eventos em Maxton Hall.
Também é ele quem tira e edita as fotos oficiais dos eventos para nosso blog, a página inicial
do colégio e a newsletter que Lexington distribui uma vez por mês. Ele é um profissional e, esta
noite, ter se disposto a tirar as polaroides no balanço me faz respeitá-lo ainda mais.

— Boa noite, senhor Foster — respondo-lhe.


— Acho que nunca lhe tirei uma fotografia — diz, como se pensasse em voz
alta, e depois aponta para o baloiço. — Sente-se.
— Obrigada — murmuro, sentando-me, enquanto o James se põe atrás de
mim e coloca uma mão na corda do balanço e a outra nas minhas costas.
Mesmo através do tecido do vestido, consigo sentir o calor que emana dele.
Um formigamento percorre todo o meu corpo e me pergunto se essa excitação que sinto quando
estou ao lado dele algum dia desaparecerá. Espero que não.

— Sorriam! — diz o Sr. Foster, embora não precisasse de mo pedir, pois o


meu sorriso aparece por si mesmo.
Depois de o Sr. Foster tirar a polaroide, o James abana-a durante uns segundos antes de
olhar para ela.
— Kitsch total — comento.
Eu sentada no balanço, com James atrás — com certeza todos os casais vão fazer a mesma
pose. Contudo, sei que, no futuro, sempre que olhar para esta imagem, vou sorrir.

— Eu gosto — diz-me o James.


Contente, ela guarda a foto no bolso do blazer. Então ele levanta a mão e acaricia meu rosto
com os nós dos dedos. Parece não o fazer de maneira consciente, antes sem pensar. Quando
torna a afastar a mão, sinto vontade de lha agarrar e de esfregar o rosto contra a palma.

— Vamos dançar? — pergunto-lhe. Tenho de fazer qualquer coisa para


controlar o ardor que a sua carícia terna e natural provocou no meu corpo.
Surpreendido, o James levanta as sobrancelhas.
— Queres dançar?
Assinto e lhe dou a mão. Antes de pensar duas vezes, eu o puxo para a pista de dança, para o
meio dos outros casais que já estão dançando lentamente no ritmo da música.
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Ponho a mão sobre o ombro de James e começo a dançar com ele. Desta vez,
estudei alguns vídeos com Ember e pratiquei, mas imediatamente me dou conta de
que não preciso me preocupar com a série de etapas que aprendemos. James e eu
apenas balançamos de um lado para o outro.
— No início do ano, nunca teria pensado que estaria aqui hoje, contigo — murmura
o James no meu ouvido. — Estou tão grato...
As palavras dele provocam-me um formigueiro cálido.
— Eu também estou grata por te ter, James.
Continuamos a nos mover ao ritmo da melodia lenta executada pela orquestra. Em
um determinado momento, deslizo a mão para cima, até acariciar sua nuca.
O James aperta-me com tanta força que nem uma folha caberia entre nós. Sinto a respiração dele no meu corpo. É

tão irregular como a minha. Quando solto a outra mão da dele e lhe rodeio o pescoço, o James respira fundo. As

mãos dele deslocam-se pela minha cintura e acariciam-me as costelas. Engulo em seco e fecho os olhos.

Nesse momento, sinto os lábios dele no início do meu cabelo.


— James... — murmuro, tornando a abrir os olhos lentamente.
Olha para mim com as pálpebras semicerradas. Paro de respirar e assimilo o
olhar dele. Os seus olhos bonitos, a suave pressão dos seus lábios.
— Ruby... — diz-me com voz rouca.
E, nesse momento, não aguento nem mais um segundo. Ponho-me em bicos
dos pés e ele inclina-se para mim.
Quando nossos lábios se encontram, é como se uma corrente elétrica circulasse
pelo meu corpo. Isso sempre acontece comigo com James. Não consigo descrever
a sensação, mas um simples beijo dele é o suficiente para virar meu mundo de
cabeça para baixo e me fazer esquecer tudo ao meu redor.
O James acaricia-me suavemente o lábio inferior com a língua e faço o
mesmo. Enterro as mãos no cabelo dele e sinto-o gemer nos meus lábios.
— Bolas, arranjem um quartinho! — exclama uma voz cortante ao nosso lado.

James se afasta de mim e pisca várias vezes. Então, por cima do ombro dele, vejo Camille, que
está dançando com um cara do nosso ano e que revira os olhos.

— Somos realmente maus — murmuro, enterrando o rosto no ombro do James.

De repente, sinto-o ficar tenso.


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— Que é...
Levanto a cabeça. O James tem os olhos fixos num ponto atrás de mim e viro-me para seguir o
seu olhar.
O professor Sutton acabou de entrar na pista de dança com uma mulher.
— Aquela não é nossa tutora do cursinho para Oxford? — pergunto a ele.

— A Philippa Winfield — murmura James. Ele sempre se lembra do nome de todo mundo, até
mesmo das pessoas que ele só viu uma vez. Acho que é um presente que você adquire
automaticamente quando nasce em uma grande empresa.
— Eles parecem ter muita confiança um com o outro — comento, depois que o professor Sutton
cerca Pippa com o braço.
Ela sorri para ele e, como está de salto alto, os olhos dos dois estão mais ou menos na mesma
altura. Depois, Pippa se inclina e murmura no ouvido dele alguma coisa que o faz rir. É uma risada
meio tímida, claramente diferente daquela que ele dá durante as aulas.

— Porra! — exclama o James, no preciso momento em que o professor Sutton


ele olha por cima do ombro de Pippa e sua expressão alegre desaparece.
Não demoro muito a perceber o motivo.
Uma Lídia.
Está perto da pista de dança e viu tudo. Roda sobre os calcanhares e deixa a
sala por uma porta das traseiras.
Quero ir até ela, mas James segura minha mão com firmeza. Antes que ela tenha tempo de
perguntar por que ela faz isso, ela aponta com o queixo na direção que sua irmã acabou de sair.

O professor Sutton corre atrás de Lydia.


— Acha que é uma boa ideia? — pergunto a ela, dubitativa.
A expressão do James é impenetrável.
— Em algum momento teriam de falar. Além disso, acho que, nesta altura,
ambos preferem que os deixemos sozinhos.
Visto que o James conhece a Lydia melhor do que ninguém, confio nele.
— Não quero que ela se sinta mal — murmuro.
Ao ouvir estas palavras, o James olha para mim com carinho.
— Vai correr bem. Estou convencido disso.

A certeza com que diz aquilo e a maneira como olha para mim fazem-me
suspeitar de que não está pensando apenas em Lydia.
Pela primeira vez desde que o conheço, parece acreditar na sua própria
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felicidade. E isto deixa-me extremamente contente.


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28

Lídia

Estou arrependida de ter vindo. Eu deveria ter confiado no meu instinto e não me deixado
convencer. Eu sabia que não ia ser fácil ver Graham. No entanto, eu nunca teria contado com
uma coisa dessas.

Ao vê-lo dançar com Pippa, ao ver como ele passava o braço pela cintura dela com
toda a naturalidade, ao ver como ela sorria para ele e ele lhe respondia, ao ver que a
distância entre os rostos deles ia diminuindo... não aguentei mais. Era demais,
simples assim.
E mesmo agora, no corredor vazio, sem música ou pessoas ao meu redor, meu
coração não para de bater desenfreadamente. Sinto-me mal e estou com as mãos
suadas. Vejo alguns pontinhos flutuando diante dos olhos. Acho que tive uma alta de
tensão. Imediatamente coloco a mão em cima da barriga, como se, com esse
pequeno gesto, eu pudesse dizer se meus bebês estão bem.
— Lídia?
Baixo a mão e viro-me.
Graham está a um par de metros de mim, com o blazer aberto, a testa
franzido e uma expressão pensativa.
— Que é que queres? — pergunto-lhe de forma agressiva.
Céus, estou mais do que farta de fingir diante de todos que está tudo bem na minha
vida. Nada está bem. E agora que ele está à minha frente, também não.
Agora que você veio atrás de mim, quando eu pensei que você nem percebeu minha
presença. Agora que você olha para mim como se soubesse como me sinto,
exatamente como costumava ser.
Não consigo afastar os olhos. As coisas que se acumularam dentro de mim vão
aumentando, até já não conseguir travá-las.
— Estavas a divertir-te?
O olhar dele escurece e franze ainda mais o sobrolho.
— Só estávamos a dançar, Lydia.
Suspiro com desdém.
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— O que aconteceu ali foi, sem dúvida, mais do que «apenas dançar».
Nunca tínhamos tido uma discussão e, agora, compreendo porquê. É horrível
e não me acalma absolutamente nada repreendê-lo desta maneira.
— Teria sido estranho recusar o convite dela para dançarmos. Seja como for, as
pessoas põem-se a bisbilhotar nas minhas costas.
Desato a rir.
— Portanto, quase te enrolas com a minha tutora na pista de dança, para
evitares que as pessoas falem das tuas relações?
Digo essas palavras mais alto do que queria, e Graham vira a cabeça para
trás, inquieto.
— Eu odeio isso, Graham — digo a ele. Minha voz é fria e trêmula ao mesmo tempo.
Nunca tinha me ouvido falar assim. — Eu odeio que você seja incapaz de trocar três
palavras comigo sem que seja imediatamente tomado de pânico e comece a olhar em
volta. — Cerro os punhos e faço um esforço enorme para conter as picadas que sinto nos
olhos.
— Achas que a mim me diverte? — replica ele de repente.
Não consigo emitir mais do que um queixume amargo.
Ele também cerra os punhos.
— Estou a tentar fazer o mais certo para os dois!
— O mais certo? — É incrível que eu termine de dizer isso. — Parece certo você estar
dançando com outras mulheres... debaixo do meu nariz?
— Por acaso você acha que isso me dá gozo? Ficar longe de você, fingindo que nunca
nos conhecemos? — ele me pergunta, desconcertado. Ele passa a mão no cabelo e
balança a cabeça. — Dói mais a cada maldito dia que passa.
— Garanto que a culpada disso não sou eu! — Quase berro essas palavras e, então,
mordo o lábio. Respiro fundo e me lembro do que minha mãe me inculcou por anos
quanto à temperança. — Não te ligo — acrescento em voz baixa. — Não falo nas suas
aulas. Porra, eu nem olho pra você. Em tua opinião, como é que devia comportar-me para
evitar magoar-te?
Ele torna a abanar a cabeça. Depois, dá um passo e aproxima-se de mim,
pegando-me no rosto com as mãos.
Fico petrificada por uns segundos. Depois, afasto suas mãos. Você não precisa me
tocar, porque, se tocar, é como se tudo voltasse a ser como antes, e eu não suporto mais
isso nem por um segundo.
— Não podemos continuar assim, Lydia — ele me diz com voz rouca. — Já te
tinha dito que vou cumprir o que combinámos.
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— Eu também. Mas, apesar disso, estamos os dois destroçados.


Sinto que minha raiva vai se dissipando e que só resta a dor. Uma dor que
me destroça por dentro e que me impede de respirar bem.
Gostava de não ter afastado as mãos dele. Ao mesmo tempo, gostava de o ter feito com
mais força.
— Foi só uma dança — murmura o Graham.
Limito-me a anuir. Eu gostaria de olhar para outro lugar, mas não consigo. Fazia muito
tempo que não estávamos juntos. Tenho a sensação de que quero aproveitar cada
segundo, antes que esse momento passe e eu fique sozinha novamente.
— Para mim, não mudou nada, Lydia.
Fico sem respiração.
— Que... que é que queres dizer com isso?
O Graham aproxima-se um pouco, mas não me toca.
— Quero dizer que tu és a primeira pessoa em quem penso quando acordo.
Passo o dia inteiro pensando em você. Quando alguma coisa divertida acontece comigo,
você é a primeira pessoa a quem quero contar. Escuto sua voz à noite, quando me deito.
Céus, Lydia, eu te amo. Eu já te amava da primeira vez que conversamos ao telefone.
Nunca deixarei de te amar, mesmo sabendo que não temos hipóteses de ficar juntos.

O meu coração bate descompassadamente, como se acabasse de correr uma


maratona. Não posso acreditar no que você acabou de me dizer.
— Vou mudar de colégio.
Aquilo me tira do meu imobilismo. Balanço a cabeça.
— Não. Você mesmo disse que Maxton Hall é a melhor coisa que poderia ter acontecido com
você. Que você nunca conseguiria um emprego melhor.

— É indiferente a mim. Quero me dedicar a você de uma vez por todas. Quero poder ir
tomar um café com você, segurar sua mão. E eu quero minha melhor amiga de volta. Se,
para conseguir isso, eu tiver que aceitar um emprego pior, farei isso com prazer.

Abano a cabeça, totalmente consternada com esta reviravolta nos


acontecimentos.
— Eu... não pode ser. Porquê agora, de repente?
— Não é uma ideia que surgiu do nada. Desde o primeiro dia aqui eu penso nisso. Todas
as manhãs, pergunto a mim mesmo se Maxton Hall vale tanto, a ponto de nos separarmos.
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"Mas estamos com medo..." interrompo, incapaz de clarear minha mente.


— Foi a decisão que tomamos juntos, então eu também não te contei nada.
Tinha medo de te pressionar. Mas agora...
As lágrimas brotam dos meus olhos antes que consiga contê-las. Fecho-os e toda eu sou
sacudida por um soluço mudo. Desta vez, quando o Graham me toca, não me protejo e, em
vez disso, limito-me a encostar a cabeça ao peito dele e deixo que me acaricie o rosto.

— Sinto tanto não ter conseguido te apoiar... — ele murmura.


Neste momento, mal posso suportar o desejo que sinto por ele. E também minha má
consciência por ainda não ter contado a ela que estou grávida e por não contar a ela sobre
a tristeza que sinto pela perda não só do nosso relacionamento, mas também da nossa
amizade. Eu me agarro à camisa dele.
— Tenho saudades da minha mãe. E tenho saudades tuas. Constantemente —
jóia
— Eu sei. Lamento tanto... — torna a acariciar-me.
Aquela carícia suave me lembra nosso primeiro encontro. Nessa época, não éramos mais
que uns amigos que se conheceram na Internet, mas me agarrou desta mesma maneira
quando, no café, uma moça me faltou com o respeito, falando dos artigos que tinham sido
publicados sobre mim no jornal.
Tentei fazer com que não fosse notado o quanto as palavras dela me afetaram, mas Graham
percebeu imediatamente e agarrou meu braço, sussurrando em meu ouvido que tudo ficaria
bem. Exatamente como você faz agora.
Sua voz calmante mitiga minha dor e, quando ele desliza os polegares pelas minhas
maçãs do rosto úmidas e me garante que vamos superar isso, que vamos compor as coisas,
mergulho por instantes nesse sonho e na ilusão de que talvez eu esteja certo.

Contudo, subitamente, sinto-o crispar-se.


– Lídia – murmurou.
Afasto-me uns centímetros dele e sigo-lhe o olhar.
No fim do corredor, a apenas cinco metros de nós, está o Cyril.
Nunca o tinha visto tão pálido. Olhe para mim e Graham com uma
expressão incrédula, uma e outra vez, e abre a boca.
Contudo, depois, a expressão do rosto dele muda. Você junta as sobrancelhas, os olhos se
transformam em duas linhas finas e você cerra os dentes com tanta força que fica com os ossos
do maxilar marcados.
Ato contínuo, roda sobre os calcanhares e desaparece em direção ao Boyd
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Salão.

— Merda — murmuro entre dentes, afastando-me completamente do Graham.

— Lídia...
Abano negativamente a cabeça e volto a passar os dedos pelas maçãs do rosto húmidas.

— Tenho de ir tratar dele. Falamos depois por... telefone?


Embora todo o corpo de Graham esteja em tensão, quando ele ouve minhas palavras surge em
seus olhos castanho-dourados uma ternura pela qual anseio há meses. É-me familiar, como uma
lembrança tênue que, aos poucos, vai adquirindo cor e se transformando em realidade.

— Eu ligo-te — diz-me. — Depois da festa.


— Está bem — murmuro.

Por um instante, sinto-me tentada a abraçá-lo novamente, mas lembro-me da


expressão consternada do Cyril e dou meia-volta, para correr atrás dele.

Corro atrás de Cyril o mais rápido que posso e o vejo um pouco antes de chegar à saída do Boyd
Hall.
— Cy... — digo ofegante, pegando-lhe no cotovelo.
Vira-se e afasta o braço.
— Não me toques.
Surpresa com a frieza de sua reação, levanto as mãos para acalmá-lo. Cyril nunca tinha falado
assim comigo. A maneira como você olha para mim também é totalmente desconhecida para mim:
com desprezo, cheio de desdém. Ele balança negativamente a cabeça.

— Não posso acreditar que tenhas feito isto, Lydia.


Franzo o sobrolho e olho-o nos olhos.

— Não tenho a certeza de que possas permitir-te julgar-me, Cy. Ou precisas de que te recorde o
tipo de pessoas a quem te juntaste?
O Cyril estremece.
— Achas mesmo que me zangaria por dormires com o teu professor?
Agora sou eu que estremeço. Muito perto do Cyril, formou-se um grupinho
de gente que acaba de sair da sala.
— Porquê, então? — replico a meia-voz.
Cyril emite um som abatido e inclina a cabeça para trás, para olhar para cima, como se o céu
fosse revelar o que dizer. Depois, volta a olhar para
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mim e engole em seco.


— Estou com raiva de você porque você está há uma eternidade me dando
esperanças.
Fico boquiaberta.
— O quê?!
— Para mim, só existes tu, Lydia. Há anos que estou apaixonado por ti.
— Mas... — digo com voz rouca. — Mas nossa cena... não era de verdade. É como
se você tivesse dado um tapa nele. Ele abre a boca, mas nenhuma palavra sai.

— Não sabia que te sentias assim — murmuro.


Pela segunda vez, estendo com cuidado a mão para ele e acaricio-lhe o braço. É meu amigo, conhecemo-nos desde

que éramos pequenos. Se tivesse sabido que os sentimentos que tem por mim eram sérios, nunca me teria envolvido

com ele.

— Vai me dizer que não percebeu nada? — ele me pergunta, incrédulo.


Abano negativamente a cabeça, sem me atrever a responder em voz alta.
— Com que então não notaste que, desde que nos envolvemos, nunca mais tornei a sair com
ninguém? Você não percebeu que, depois da morte de sua mãe, eu estava todos os dias à sua
disposição, de manhã à noite, consolando-a? — É o que os amigos fazem —
murmuro entre lágrimas.
— Eu não faço isso por ninguém — replica com amargura. — Só o faço por ti.

Fico a olhar para ele, incapaz de me mexer. Tenho vontade de vomitar e, ao


mesmo tempo, as lágrimas caem-me pelo rosto.
— Lamento. Não... não queria magoar-te.
Cyril levanta a mão hesitantemente e seca uma lágrima para mim. Depois, sua
expressão endurece.
— Mas magoaste.
Depois, começa a encaminhar-se para o parque de estacionamento.
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29

James

Definitivamente, a noite não decorreu como eu tinha imaginado.


Na verdade, o plano era passar o máximo de tempo possível com a Ruby: cada um de
nós só tinha um turno de uma hora e, no resto do tempo, tínhamos total liberdade. Queria
dançar e divertir-me com ela, e beijá-la diante dos olhares alheios tantas vezes quantas ela
me deixasse.
Contudo, de repente, a Lydia retornou ao Boyd Hall desfeita. No começo, pensamos que
a conversa dela com Sutton tinha dado errado ou que ele lhe disse qualquer coisa que a
ofendeu. Quando, por fim, ele nos contou o que realmente havia acontecido, saí para
procurar Cyril.
Alistair e Keshav não tinham a menor ideia de onde ele poderia estar e levei séculos até
encontrar Wren, que, pelo menos, conseguiu me dizer que Cyril já tinha ido buscar o carro
há algum tempo e que tinha ido embora embora para casa. Ato contínuo, chamei um táxi e
disse a Percy para cuidar de Lydia, Ember e Ruby.

Agora, estou na frente da porta da casa de Cyril, tocando a campainha pela enésima vez.
Do lado de fora, ouço o toque soar por toda a casa. O carro dele está atravessado na
entrada de acesso e, quando entramos no imóvel, vi luz no andar do quarto dele.

Torno a tocar à campainha. E mais uma vez. Precisamente quando torno a


levantar o dedo, a porta abre-se.
Sou imediatamente atingido por um forte cheiro de álcool. Desde que Cyril falou com
Lydia, não se passou mais de uma hora, mas ele está cambaleando. O cabelo escuro está
completamente bagunçado e ele tem os botões de cima da camisa afrouxados.

— Era evidente que Lydia ia mandar o cão de guarda — balbucia.


— Posso entrar? — pergunto-lhe.
Cyril abre completamente a porta, dá meia-volta e sobe a escada para o andar superior
sem se virar para mim. Em toda a casa, não há uma única luz acesa.
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Pelos vistos, os pais dele estão novamente fora.


Sigo-o até ao primeiro piso e diretamente para o quarto dele. A janela está
aberta, mas o cheiro de fumaça e álcool flutua pesadamente no ar.
Cyril senta no parapeito. No cinzeiro, vejo uma bituca de cigarro a
brilhar. Pega nela, inspira com força e pousa-a novamente no cinzeiro.
— E então? — Começa por dizer, sem olhar para mim. — Vieste para me fazer calar?

— Vim porque estou preocupado contigo — respondo-lhe, aproximando-me


dele e da janela.
Cyril se vira para mim com as sobrancelhas levantadas.
— E porque Lydia está preocupada — acrescento.
Dá uma risada entrecortada e outra mais abafada. Ao lado do cinzeiro há uma garrafa
de uísque que não está nem meio cheia. Pergunto a mim mesmo se, durante a última
hora, ele bebeu todo o líquido que falta.
Eu nunca teria imaginado que veria Cyril neste estado.
— Lamento, meu.
Cyril apaga o cigarro. Depois, pega a garrafa, leva-a aos lábios e deita a
cabeça para trás.
— Não entendo — consegue dizer entre dentes. Passa as costas da mão pela boca e
torna a pousar a garrafa onde estava, fazendo-a tilintar. — Eu simplesmente não entendo
por quê.
Não sei o que te dizer. Há anos Cyril tem esperança de vir a namorar
com a Lydia. Descobrir que essa esperança foi vã deve tê-lo destroçado.
— Eu teria feito qualquer coisa por ela. Qualquer coisa — continua enquanto abana
negativamente a cabeça. Pelos vistos, esse movimento agonia-o, porque cambaleia um
pouco para o lado. Seguro-lhe no braço e afasto-o do parapeito.
— Eu sei — digo-lhe.
De repente, Cyril me agarra com as duas mãos.
— Não fazes a mais pequena ideia do que se sente, James. Esperar algo
durante anos e ver que tudo se desmorona diante dos teus olhos.
Tem o rosto contraído pela dor. Cambaleia e não consegue manter-se em pé.
Sem pensar duas vezes, o pego nos braços e o levo para a cama. Dou-lhe um pequeno empurrão para
forçá-lo a se sentar. Quando tenho certeza de que não vai mais cair para o lado, eu o largo e vou fechar
a janela. Então eu corro as pesadas cortinas cinzentas.

Viro-me para o meu amigo. Dobrou o corpo para a frente e enterrou o rosto
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nas mãos. Quando o vejo, me sinto péssimo. Toda essa situação é estranha demais e eu sinto
pena de Cy, mas apesar de tudo, eu tenho que cuidar de Lydia. É ela quem pode perder tudo
se seu relacionamento com Sutton for revelado.
Sento-me na cama, ao lado dele.
— Não conte a ninguém, Cy — peço em tom insistente.
Ele abana negativamente a cabeça. Depois, baixa as mãos e olha para mim.
— Achas mesmo que eu faria algo que pudesse prejudicá-la?
Devolvo-lhe o olhar.
— Não, acho que não.
Anui.
Depois, em silêncio, pousa os olhos nas mãos.
— Sempre pensei que o nosso caso tinha sido tão importante para ela como foi para mim.

— Isso também não depende de ti, é mais do que evidente.


Ele resmunga qualquer coisa e, com um gemido, deixa-se cair para trás em
cima da cama.
— Vou buscar-te um copo de água — ofereço-me passado um bocado.
O Cyril não me responde, portanto, levanto-me e desço para a cozinha.
Quando volto, ele está outra vez sentado. Trouxe-lhe um balde, para o caso de se sentir mal
durante a noite, e olha para ele com uma expressão gozona.
— Toma — digo, estendendo-lhe o copo.
Pega e se obriga a beber uns goles. Então ele o coloca na mesinha de cabeceira.

— Posso fazer mais alguma coisa por ti? — pergunto-lhe.


— Não, meu. Acho que agora preciso de ficar sozinho.
— Está bem. Então, vou-me embora. — Aponto com o polegar por cima do ombro.

Cyril anui concisamente. E, depois, faz uma coisa que não fazia há, pelo menos, dez anos:
levanta-se e rodeia-me com os braços. Primeiro, isso me pega de surpresa, mas depois eu
reajo e dou um tapinha nas costas dele. Ele apoia metade do peso contra mim e eu o seguro o
melhor que posso.
— Tudo se vai resolver — digo-lhe em voz baixa.
O Cyril larga-me e evita o meu olhar. É evidente que não acredita
minimamente nas minhas palavras.
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Rubi

É uma e meia da manhã quando, finalmente, James chega em casa. Ele bate suavemente na
porta do quarto de Lydia e a abre um pouco. Quando me vê sentada na cama, ao lado da irmã,
que está dormindo, um sorriso se desenha em seus lábios e sinto um formigamento na barriga.
Me levanto com cuidado e tento me mexer sem fazer barulho. O sorriso de James aumenta
ainda mais quando ele vê que troquei o vestido por uma de suas camisetas e uma legging da
Lydia.

Só me atrevo a falar depois de fechar silenciosamente a porta atrás de mim.


Quando chegamos, Lydia estava tão esgotada que não quero acordá-la de jeito nenhum.

— Estás aqui — diz-me em voz baixa.


Assinto.
— Na verdade, era para eu ter ido embora com Ember, mas Lydia parecia tão abatida...
não quis deixá-la sozinha, portanto, disse a minha mãe que ficava dormindo na casa de
vocês. Você encontrou Cyril?
O sorriso desaparece.
— Estava bastante bêbedo. Não sei se, amanhã, se lembrará de alguma coisa.
Aquilo não me tranquiliza muito.
— Confio no Cy — acrescenta o James. — Nestas coisas, pode confiar-se nele.
Olho para o James com ceticismo, mas acabo por anuir.
— Está bem.
James olha de relance para o corredor e depois para mim novamente. Dou minha mão,
puxo e vamos juntos para o quarto dele.
Sento-me na sua enorme cama.
— A Lydia está melhor? — pergunta-me o James, despindo o blazer e
alargando a gravata. Depois, senta ao meu lado.
— Sim — respondo-lhe, pensativa. — Acho que sim. O professor Sutton
telefonou-lhe e estiveram a falar durante um bocado.
James não parece saber o que pensar de tudo isso. Expira com força e
esfrega a testa.
— Que é que se passa?
Dá um grunhido.
— Não quero que Lydia venha a ter problemas. Não sei como evitar que essa torre de
cartas, construída à base de segredos, desmorone de um
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momento para o outro.


— Isso não vai acontecer — digo-lhe suavemente, aproximando-me dele para o acariciar.
Quando o vejo assim, sinto necessidade de o consolar e gostava de poder fazer algo mais
do que apenas limitar-me a acariciar-lhe o rosto.
O James dirige os olhos escuros para mim.
— Faria qualquer coisa pelas pessoas que amo.
Deslizo meus dedos para o pescoço dele e envolvo sua nuca com a mão,
acariciando-lhe a base do cabelo com o polegar.
— Eu sei.
— Tu fazes parte dessas pessoas, Ruby.
Paro a meio do movimento e engulo em seco. De repente, fico com um nó na
garganta.
— Amo-te — murmura.
A voz dele tem tanto sentimento e, simultaneamente, tanta dor que, por alguns instantes,
não sou capaz de respirar.
Contudo, ato contínuo, meu corpo reage a esta declaração como se tivesse iniciativa
própria. Mudo de posição até ficar de joelhos em cima da cama e na mesma altura que
James. Cuidadosamente, aproximo a boca da dele e lhe dou um beijo breve.

— Eu também te amo, James — murmuro, encostando a testa à dele.


O James respira fundo.
— A sério?
Faço um gesto afirmativo e torno a beijá-lo.
Era para ser outro beijo fugaz, mas, nesse momento, o James segura-me a cabeça e o
que começou como algo suave transforma-se imediatamente em algo mais. Perco o
equilíbrio e caio para o lado em cima do edredão de penas. O James não interrompe o
beijo nem por um segundo. Todas as palavras que ainda me restam dizer desvanecem-se
quando ele me abre os lábios com os dele.
Suspiro suavemente.
Desta vez, quando nos afastamos, estamos os dois sem fôlego.
— Obrigado por teres estado ao nosso lado hoje — murmura.
Estamos deitados de lado, frente a frente. O James acaricia-me com doçura, desde a
cintura até cima, com a mão na curva das minhas costelas, traçando pequenos desenhos
na minha pele.
Lembro-me perfeitamente do que senti quando me tocou pela primeira vez: como se a
minha pele ardesse através da roupa quando me tocava. Agora que
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desliza a mão e a pousa na minha coxa, sinto o mesmo.


— Obrigada por me deixar estar ao seu lado — murmuro, afastando uma mecha loiro-acobreada
de sua testa. Eu poderia passar séculos aproveitando o contato dos meus dedos no cabelo dele ...
adoro essa sensação.
Ficamos deitados em silêncio. O único som que se ouve é o de nossas respirações regulares.
Não conseguimos nos largar. Preciso tocar James constantemente, para confirmar que isso é
realmente a realidade.
Que é verdade que nos reencontrámos e que esta confiança mútua, nova e constante, existe.

Apesar dos meus esforços, chega um momento em que as pálpebras me pesam tanto que não
consigo mantê-las abertas. O James está ali quando adormeço, com uma mão em cima da minha e
a outra suavemente enterrada no meu cabelo.
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30

Rubi

— Que é que achas? — pergunta-me a Lin na segunda-feira seguinte, aproximando de mim a


sua agenda, por cima da mesa.
Eu li as coisas que você apontou com um marcador lilás. Entre os ideogramas chineses, lê-se em
sua caligrafia fina e elaborada 'Mudança para Oxford' e, no campo do dia seguinte, ele anotou
'Comemorando a admissão com Ruby'. Esboço um sorriso enorme. E, apesar de ainda faltarem
alguns meses, tiro o marcador dourado de dentro do estojo, pego minha agenda, viro as páginas do
resumo mensal do ano e escrevo o mesmo.

— Fantástico! — murmuro, precisamente quando dá o toque do intervalo do meio-dia.

Eu e a Lin começamos a arrumar as nossas coisas, mas, antes de pôr a mochila


às costas, o toque soa pela segunda vez, embora durante menos tempo.
'Ruby Bell, apresente-se imediatamente no escritório do diretor Lexington', anuncia nos alto-
falantes a voz da secretária do diretor. Todos os alunos na sala se voltam imediatamente para
mim.
Franzo o cenho e olho para o relógio acima da porta da sala de aula. Na verdade, temos uma reunião
com o diretor Lexington pouco antes do fim do intervalo do meio-dia. Se você quer me ver agora, é
porque algo aconteceu.

Fico com pele de galinha quando penso no que deve ter acontecido.
— Queres que vá contigo? — pergunta-me a Lin enquanto saímos da sala.
— Não, vai andando e trata da comida — respondo-lhe, agarrando
firmemente as alças da mochila.
— Está bem. Já sabe o que é que você quer? Então, peço para você e escusas de ficar na fila.

— Ótimo. Pode ser o mesmo que tu.


A Lin dá-me um breve apertão no braço, antes de seguirmos em direções diferentes. Hoje, o
trajeto até ao gabinete do diretor Lexington parece-me mais
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comprido do que é habitual. Quanto mais me aproximo, piores são as coisas que
imagino. E, quando a secretária me cumprimenta com um olhar severo, o meu coração
dá um salto no peito, de tão nervosa que estou.
Respiro fundo antes de bater na pesada porta de madeira e entrar.
O cumprimento que vou dizer fica preso na minha garganta.
A minha mãe está sentada diante da secretária do diretor.
Imagino imediatamente que algo ruim aconteceu com meu pai, que está
no hospital porque teve outro acidente.
— O pai está bem? — pergunto-lhe imediatamente, correndo para ela.
— O teu pai está ótimo, Ruby — responde-me a minha mãe, embora não
levante os olhos da secretária maciça do diretor.
Confusa, alterno o olhar entre o Lexington e a minha mãe.
— Sente-se, menina Bell — diz-me o diretor, apontando para a cadeira vazia
que está ao lado da da minha mãe.
Sento-me hesitantemente.
O diretor entrelaça as mãos em cima da mesa e, depois, olha para mim por cima da
armação dos óculos.
— Não há nada mais importante para mim do que o bom-nome do colégio.
Há séculos defendemos a inteligência e a excelência nessa instituição. Se alguém fizer
alguma coisa que prejudique a faculdade, terá que me enfrentar. A essa altura, você já
deveria saber disso, senhorita Bell.
Engulo em seco.
— Diretor, eu achava que o baile de primavera tinha sido um sucesso. Se houve algo
que deu errado, sinto muito, mas... — Antes que eu consiga concluir a frase, o diretor
abre uma pequena gaveta da escrivaninha e pega quatro imagens impressas, colocando-
as em cima do tampo.
— Neste fim de semana, um dos membros da associação de pais me confiou, muito
preocupado, essas fotos — continua, inalterado.
Escuto minha mãe suspirar e me inclino para a mesa. As imagens são escuras e, no
começo, não distingo nada... até me ver.
São fotografias minhas.
Preciso de um momento para situar a foto, mas tem que ser da festa de volta ao
colégio. Só então usei aquele vestido verde.
Mas não estou sozinha. Há um homem muito próximo de mim.
Ó professor Sutton.
E parece que nos estamos a beijar.
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Lembro-me de conversarmos, mas nunca estivemos tão próximos um do outro. Não tenho a
menor ideia de quem tirou essas fotos, mas é evidente que teve o objetivo de prejudicar a mim ou
a Sutton.
— Foi uma situação totalmente inofensiva. Eu...
— Senhorita Bell, acho que você não está me ouvindo direito — Lexington me interrompe. — Um
membro da associação de pais me enviou as fotos e também houve um aluno que confirmou ter visto
você e o professor Sutton juntos.

— Só estivemos a falar! — protesto, indignada.


— Ruby, atenção ao tom de voz — repreende-me a minha mãe.
Quando olho para ela de soslaio, sinto um calafrio percorrer-me as costas.
A minha mãe nunca tinha olhado assim para mim, como se eu a tivesse dececionado imenso.
No entanto, antes de conseguir alegar alguma coisa em minha defesa, o diretor Lexington continua
a falar e a minha mãe afasta os olhos de mim.

— Nos vinte anos em que trabalho aqui, nunca presenciei uma coisa dessas, senhorita Bell. Não
vou permitir que o colégio perca sua boa fama por causa de uma aventura sentimental!

— Eu não tenho nenhuma aventura! — exclamo.

Não posso acreditar que isso está acontecendo comigo. Só pode ser um pesadelo.
— Tenho namorado — continuo a dizer a toda a pressa. — Não... não tenho
nenhuma relação com um professor. Juro que nunca teria.
Não posso dizer que era Lydia quem tinha um relacionamento com o professor Sutton. De jeito
nenhum. Não depois de tudo que passou e tudo que ainda a espera. Nunca abusarei de sua
confiança assim.
— Acho que a senhorita não tem consciência da gravidade dessa situação — continua o diretor
Lexington, levantando as imagens. — Sou da opinião de que o melhor é a senhorita abandonar o
colégio. Ruby e o professor Sutton serão expulsos de Maxton Hall com efeito imediato.

Silêncio. É

como se alguém tivesse cortado a conexão. Nos meus ouvidos, só soa um apito. Os segundos passam em câmera

lenta. A boca do diretor continua se movendo, mas não ouço mais nada.

— Não pode fazer isso — protesto, ofegante. — Fui admitida na


Universidade de Oxford.

O diretor Lexington não me responde enquanto pega as fotografias e torna a


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metê-las dentro de um envelope. É marrom e, em um dos cantos do verso, reconheço o


remetente. Aperto os olhos e vejo um bê preto e ondulado.
O meu coração dá um salto.
Não pode ser.
Eles os dois nunca teriam feito uma coisa destas.
— Que aluno é que falou contra mim? — pergunto-lhe, sufocada.
Agora, o diretor Lexington olha para mim quase com pena.
— Essa informação é confidencial, senhorita Bell. Se você não se importa, peço que saia do meu
escritório... no que diz respeito à sua expulsão, enviaremos uma carta. Bom dia.

Folheia uma pilha de papéis que tem em cima da escrivaninha e fixa o olhar no
computador, um sinal indubitável de que a conversa terminou.
— O senhor sabe até que ponto eu dei tudo por esse colégio?! — expludo.
Lentamente, o diretor vira os olhos para mim.
— Não me obrigue a chamar o pessoal da segurança, menina Bell.
— Só porque sou bolsista e não tenho pais ricos que possam suborná-lo quando corre
um boato sobre mim, você não tem o direito de me expulsar do colégio como se nada
estivesse acontecendo!
— Peço que se comporte! — exclama o diretor Lexington, indignado.
— O senhor é um desgraçado de...
— Ruby! — intervém a minha mãe firmemente, pegando-me no braço e
levantando-me da cadeira.
Sem dizer uma única palavra, ele me arrasta pelo escritório em direção à sala de
espera. Estou enraivecida e não afasto os olhos de Lexington, nos três metros que me
separam da porta, até que minha mãe a fecha.
Isto não aconteceu. Não pode ser verdade.
Viro-me para a minha mãe, abanando a cabeça.
— Consegues acreditar nisto? Quão doente tem de estar alguém para imaginar uma
coisa destas? — pergunto-lhe.
A minha mãe limita-se a abanar a cabeça e evita olhar para mim. Em vez
disso, fixa-se num ponto por cima do meu ombro.
— Eu sabia perfeitamente que ia acontecer uma coisa assim quando deixamos você
vir para esse colégio horroroso.
Estremeço e fico de olhos esbugalhados.
— Qu... cidade natal?

A minha mãe arvora uma expressão incrédula.


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— Ruby, como você pôde fazer isso?


— Estou a dizer-te que não fiz nada! — protesto.
Se nem minha própria mãe acredita em mim, não sei o que é que hei de fazer. Sou
invadida pelo desespero, que corre pelas minhas veias e me impede de respirar.

— Mamã, tens de acreditar em mim... nunca beijaria um professor.


— Também não teria imaginado que fosses enganar-nos para poderes dormir
com o teu namorado, mas, pelos vistos, as coisas mudaram nos últimos meses.
Olho para ela, boquiaberta.
A minha mãe respira fundo e dá um suspiro.
— Neste momento, não tenho mais nada para te dizer, Ruby. Estou
totalmente dececionada.
Meus olhos se enchem de lágrimas. Tento falar, mas sou incapaz de encontrar as
palavras. Sinto como se estivesse com o corpo anestesiado. A única coisa que passa
pela minha cabeça é a pergunta de quem diabos tirou essas fotos.

— Mamã...
— Por favor, volta para casa de autocarro — interrompe-me ela, engolindo
em seco. — Agora tenho de falar com o teu pai.
— Eu não fiz nada, mamã.
Sem responder ao que eu disse a ela, minha mãe ajusta a alça da carteira no
ombro, dá meia-volta e desaparece pelo corredor.
Fico sozinha.
As palavras do diretor repetem-se incessantemente na minha cabeça.
«Serão expulsos de Maxton Hall com efeitos imediatos.»
Expulsos. Pouco antes do fim do segundo trimestre. Antes de eu ter oportunidade de
fazer o exame final. Apesar de, em casa, ter o email da admissão em Oxford impresso
e afixado no meu quadro.
Sem o diploma, posso esquecer Oxford.
E tudo pelo que trabalhei nos últimos onze anos.
A consciência do que acabou de acontecer me atinge com força total. Perco o equilíbrio e
tenho que me segurar na mesa da escrivaninha, porque vejo tudo girando. Só recorrendo a
todas as minhas forças consigo sair do gabinete sem me ir abaixo.

Grupos de alunos vêm em minha direção pelo corredor, todos felizes com o intervalo
do meio-dia, e meus pés querem me levar com toda a naturalidade
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para o refeitório.
Mas já não posso ir para o refeitório.
Já não posso reunir-me com a comissão de eventos.
«Serão expulsos de Maxton Hall com efeitos imediatos.»
Na verdade, eu nem deveria mais estar neste corredor.
«Serão expulsos de Maxton Hall com efeitos imediatos.»
Ao meu lado, oiço uma voz familiar: —
Ruby?
Olho para o James com os olhos cheios de lágrimas. Está à minha frente.
Quando se dá conta de quão consternada estou, agarra-me suavemente os braços.

— Ouvi chamarem-te ao gabinete do diretor. Que é que aconteceu? —


pergunta-me num tom veemente.
Não posso fazer mais nada, exceto balançar a cabeça. É muito difícil me expressar em
palavras e, além disso, se eu fizer isso, esse pesadelo se tornará realidade. Só sou capaz
de me deixar cair contra James e cercá-lo com os braços. Enterro meu rosto no casaco
dele e deixo as lágrimas fluírem brevemente. Até que sinto a terra firme sob meus pés
novamente.
— O diretor Lexington... me expulsou do colégio — posso dizer depois de um tempo. Eu
me afasto de James e levanto os olhos para ele. Ele seca minhas lágrimas com a mão e
está desconcertado. — Pelo visto, alguém tirou algumas fotos de mim com o professor
Sutton, onde parece que estamos nos beijando.

A mão do James para na minha maçã do rosto.


- Interior?
Apenas consigo abanar a cabeça.
O James afasta-se e olha para mim com os olhos esbugalhados.
— Que é que disseste?
— Alguém mandou umas fotos para o diretor, nas quais parece que estou enrolada com Sutton
— insisto em um murmúrio. Seco os olhos com as mãos tremendo. Algumas pessoas olham para

mim enquanto passam, e eu reconheço um par de olhos azul-gelo.

— Não pode ser — comenta o James.


— Por quê? — se intromete Cyril. — Foi você quem tirou essas fotos, Beaufort.

Aturdida, viro o olhar de um para o outro.


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— Quê? — murmuro.
James não reage. Ele está olhando para Cyril, que está na nossa frente com a
cabeça inclinada e as mãos nos bolsos.
— Vá. Admite — diz para o James.
— Que besteira você está dizendo, Cyril? — pergunto a ele, cravando os dedos
no braço do James.
Cyril levanta uma sobrancelha, com uma expressão desafiadora.
— Pergunta-lhe, Ruby. Pergunta-lhe quem tirou essas fotografias.
Torno a olhar para o James, que está imóvel.
- James? – um murmúrio.
Quando pronuncio o nome dele, parece despertar do imobilismo e vira-se para
mim, engolindo em seco.
Olho-o nos olhos.
O pânico apodera-se de mim.
Não pode ser.
— Quem tirou aquelas fotografias?
A respiração do James também se acelera. Levanta lentamente a mão, como se
quisesse tocar-me, mas não se atrevesse.
— Não é...
— Quem, James?
O James abre a boca novamente, mas não diz nada. Fecha os olhos e engole
em seco. Uma vez. Duas vezes.
Quando torna a abrir os olhos, é como se alguém me tivesse dado um soco no peito. — É

verdade, Ruby.
O chão debaixo dos meus pés parte-se em mil pedaços.
— Fui eu quem tirou as fotografias.
E caio ao chão.
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EPÍLOGO

Humano

Sinto-me como se fosse uma delinquente.


O meu olhar dirige-se para o relógio, para o balcão e para o empregado que está atrás, para
o meu capuccino e de volta à porta do café. E o círculo recomeça.
Cada novo minuto parece passar mais devagar. Eu nunca tinha me sentido como uma
criminosa, nem quando minha mãe me pegou na padaria Smith's, tirando uma madeleine de
trás do balcão sem que ela tivesse me dado permissão.
A má consciência que sinto agora não se compara a isso. Desta vez, estou a fazer algo
realmente proibido.
A inquietude não me deixa ficar quieta. Não paro de me mexer na cadeira e me pergunto se
o cappuccino foi realmente uma boa pedida. A verdade é que não costumo tomar café, mas
ontem à noite dormi tão pouco que achei que a cafeína me faria bem. É provável que tivesse
sido melhor não ter pedido
isto.
Ainda faltam dez minutos.
Pergunto a mim mesma como vou aguentar. Por um instante, penso em pegar nas minhas
coisas, levantar-me e desaparecer, para regressar passados treze minutos e fazer de conta
que acabei de chegar. Mas parece-me um pouco exagerado.

Estou a ficar doida com tanta emoção.


Normalmente, não há nada que me faça perder a calma tão depressa.
Normalmente, também não costumo me baldar às aulas escondido dos meus pais, nem
combino de me encontrar com um rapaz que, na verdade, não conheço muito bem.

Abstraída, folheio o monte de folhetos informativos e inscrições de programas promocionais


e bolsas. Muitos deles ainda têm post-its colados como os que Ruby usou para marcar coisas
importantes, com um sistema de cores que sem dúvida tem algum tipo de sentido.

A campainha do café toca. Levanto os olhos e, de repente, tudo parece


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acontecer em câmara lenta à minha volta. Efetivamente, ele veio.


Passa o olhar pelas pessoas que estão no café. Por alguns segundos, ele franze
o cenho e, então, me encontra na mesa ao lado da parede. Indecisa, levanto a
mão para cumprimentá-lo. As rugas em sua testa desaparecem imediatamente e
um sorriso aparece em seus lábios.
Ele se aproxima de mim lentamente. Ela usa uma jaqueta de couro preta com
uma gola larga, por cima de uma camiseta cinza com um bolso no peito, jeans
escuros e botas pesadas. Uma roupa fantástica, informal, mas, ao mesmo tempo,
cheia de estilo. Até agora, eu só o tinha visto de terno e estava impaciente para
saber como ele se vestia nas horas vagas.
O meio-sorriso não desaparece de seu rosto quando ela se senta na cadeira à
minha frente.
O meu coração dispara. Vejo no olhar dele toda a escuridão que quero conhecer,
que vou conhecer...
— Bom dia, Ember — Wren Fitzgerald me diz.
Lentamente, os meus lábios esboçam um sorriso.
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AGRADECIMENTOS

Quero agradecer à minha editora, Stephanie Bubley, que colaborou na escrita


deste romance, sempre tentando aproveitar ao máximo minhas histórias.
Também devo um agradecimento às minhas agentes, Gesa Weiß e Kristina
Langenbuch Gerez, bem como à editora LYX, que tornou possível esta série de
romances e que se esforçou por os fazer chegar às mãos dos leitores.
Agradeço à minha revisora de provas, Laura Janßen, pelos comentários sobre
os capítulos da Ember, em cuja revisão ela me deu uma ajuda valiosa. Agradeço
igualmente a Kim Nina Ocker, que está sempre disposta a me ouvir e a quem
dedico este livro. Obrigada a Sara Saxx e Bianca Iosivoni, pelas horas de escrita
compartilhadas e pela motivação que me deram durante elas.
O meu marido, Christian, merece todo o meu agradecimento, pois sempre me
defendeu para que seguisse o caminho certo em relação à Ruby e ao James, e
ajudou-me, no carro, a construir a trama quando eu estava perdida.
Por último, quero agradecer a todos os leitores que me acompanharam até
Maxton Hall. Fico sempre feliz em ver o entusiasmo que eles sentem por Ruby,
James e os outros. Nos encontramos no próximo livro!

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