EMBARGOS DE DECLARAÇÃO
Prof. Rogério Varela
Objeto dos embargos declaratórios
Os embargos declaratórios se consubstanciam em um instrumento
jurídico por meio do qual é possível suprir omissão, eliminar
contradição, esclarecer obscuridade e corrigir erros materiais que
possam constar no julgado.
Obs.: a ideia dos embargos de declaração consiste no fato de que
toda e qualquer decisão deve ser coerente e fundamentada. Não
sendo assim, é oponível “ED”.
Características
Fundamentação: Os embargos declaratórios possuem fundamentação
vinculada, ou seja, o recurso deve conter uma das hipóteses elencadas
na lei para que seja conhecido. Havendo qualquer das hipóteses, os
embargos serão conhecidos. Após o conhecimento dos mesmos é que o
mérito será apreciado.
Preparo e Prazo: O art. 1.023 do CPC dispensa expressamente o preparo
para a oposição de embargos de declaração e fixa o prazo de 5 (cinco)
dias para apresentação do recurso.
Art. 1.023. Os embargos serão opostos, no prazo de 5 (cinco) dias, em
petição dirigida ao juiz, com indicação do erro, obscuridade, contradição ou
omissão, e não se sujeitam a preparo.
§ 1º Aplica-se aos embargos de declaração o art. 229.
§ 2º O juiz intimará o embargado para, querendo, manifestar-se, no prazo
de 5 (cinco) dias, sobre os embargos opostos, caso seu eventual
acolhimento implique a modificação da decisão embargada.
Cabimento dos embargos
Os embargos de declaração possuem ampla embargabilidade, ou seja, são
oponíveis em face de qualquer decisão.
Art. 1.022. Cabem embargos de declaração contra qualquer decisão judicial
para:
I - esclarecer obscuridade ou eliminar contradição;
II - suprir omissão de ponto ou questão sobre o qual devia se pronunciar o juiz
de ofício ou a requerimento;
III - corrigir erro material.
Parágrafo único. Considera-se omissa a decisão que:
I - deixe de se manifestar sobre tese firmada em julgamento de casos
repetitivos ou em incidente de assunção de competência aplicável ao caso sob
julgamento;
II - incorra em qualquer das condutas descritas no art. 489, §1°
Hipóteses de cabimento
Obscuridade
Diz-se que uma decisão é obscura quando esta é “ininteligível”, ou seja, a
decisão não está clara. Isso pode ocorrer por diversas razões, tais como:
utilização de língua estrangeira, decisão escrita à mão cuja letra não se
compreende, decisão mal-redigida ou dialeto incompreensível.
Vejamos um julgado:
PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OBSCURIDADE E OMISSÃO.
INOCORRÊNCIA. 1. Os embargos de declaração têm por escopo sanar decisão
judicial eivada de obscuridade, contradição, omissão ou erro material. 2.
Hipótese em que o acórdão embargado é expresso, claro e coerente na
conclusão de que seria necessário o reexame de provas para eventual
revisão da situação fática delineada no acórdão a quo, segundo a qual o
pagamento a oficiais de justiça para o cumprimento de mandados seria ato
de improbidade. 3. A norma do art. 19 do CPC/1973, sem nova análise de
prova, não favorece a pretensão dos réus (embargantes). 4. Embargos de
declaração rejeitados.
(STJ - EDcl no AgRg no REsp: 1192522 RS 2010/0078882-4, Relator: Ministro
GURGEL DE FARIA, Data de Julgamento: 20/02/2018, T1 - PRIMEIRA TURMA,
Data de Publicação: DJe 21/03/2018)
Contradição
Diz-se que uma decisão é contraditória quando falta coerência acerca
de um ou mais aspectos.
Frise-se que a contradição que pode ser alvo de embargos
declaratórios é INTERNA, ou seja, dentro do próprio julgado há trechos
incongruentes.
Vejamos um julgado:
DUPLO EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE
INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. DENUNCIAÇÃO DA LIDE.
PRIMEIROS EMBARGOS. CONTRADIÇÃO VERIFICADA. SEGUNDOS EMBARGOS.
OMISSÃO. VÍCIO INEXISTENTE. 1. Incorre o acórdão em contradição, pois
foram equivocadamente majorados os honorários recursais em favor do
autor, quando são devidos em proveito do causídico do réu/denunciante. 2.
Considera-se omissa a decisão que não se manifestar: a) sobre um pedido de
tutela jurisdicional; b) sobre fundamentos e argumentos relevantes lançados
pelas partes (art. 489, § 1º, IV); c) sobre questões apreciáveis de ofício pelo
magistrado, tenham ou não tenham sido suscitadas pela parte. 3. Não há falar
em omissão quando as questões colocadas à apreciação judicial foram
suficientemente examinadas e resolvidas, de forma clara. EMBARGOS DE
DECLARAÇÃO CONHECIDOS. PRIMEIROS EMBARGOS ACOLHIDOS COM EFEITO
MODIFICATIVO E SEGUNDOS EMBARGOS REJEITADOS.
(TJ-GO - Apelação (CPC): 00644271620108090006, Relator:
NELMA BRANCO FERREIRA PERILO, Data de Julgamento: 23/09/2019, 4ª
Câmara Cível, Data de Publicação: DJ de 23/09/2019)
Omissão
Considera-se omissa a decisão que não se manifestar sobre
a) Um pedido de tutela jurisdicional
b) Fundamentos e argumentos relevantes lançados pelas partes
c) Questões apreciáveis de ofício pelo magistrado, tendo ou não sido
suscitadas pelas partes
Cabe ao juiz enfrentar os pontos controvertidos do processo, tanto os de
fato, quanto os de direito.
Obs.: exceção: caso o juiz acolha uma preliminar que venha a obstar a análise
dos demais argumentos, o magistrado não precisará enfrentar os demais
pontos, bastando fundamentar o acolhimento da preliminar.
Obs.: Presunção de omissão: ausência de manifestação sobre o julgamento de
casos repetitivos ou de assunção de competência (uniformização de
jurisprudência – art. 926, CPC)
Art. 489, CPC
Art. 489. São elementos essenciais da sentença:
§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela
interlocutória, sentença ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem
explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;
II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto
de sua incidência no caso;
III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em
tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus
fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se
ajusta àqueles fundamentos;
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado
pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a
superação do entendimento.
Julgado:
PROCESSUAL CIVIL. OFENSA AO ART. 1.022 DO CPC/2015 CONFIGURADA.
OMISSÃO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO ACOLHIDOS SEM EFEITOS
MODIFICATIVOS. 1. Os Embargos de Declaração constituem recurso de
rígidos contornos processuais, exigindo-se, para seu acolhimento, os
pressupostos legais de cabimento. 2. Assim, verifica-se, em análise detida
do decisum embargado, que houve a omissão suscitada. 3. Assim sendo,
onde se lê: "Diante do exposto, dou provimento ao Recurso Especial, nos
termos da fundamentação acima" , leia-se "Diante do exposto, dou
provimento ao Recurso Especial, nos termos da fundamentação acima, para
determinar o restabelecimento do inteiro teor da sentença de primeira
instância que reconheceu o lapso de tempo de serviço rural e concedeu a
aposentadoria pleiteada pela parte recorrente". 4. Embargos de Declaração
acolhidos, sem efeito modificativo.
(STJ - EDcl no REsp: 1690507 SP 2017/0178205-4, Relator: Ministro HERMAN
BENJAMIN, Data de Julgamento: 27/02/2018, T2 - SEGUNDA TURMA, Data
de Publicação: DJe 22/04/2019)
Erro material
Diz-se que há erro material quando o que está escrito não corresponde à intenção
do juiz ou quando há uma análise judicial sob a ótica errada.
Os erros materiais não são alcançados pela coisa julgada, podendo ser sanados a
qualquer momento.
Vejamos um julgado:
EMENTA: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO - OMISSÃO E CONTRADIÇÃO -
INOCORRÊNCIA - REDISCUSSÃO - IMPOSSIBILIDADE - REJEIÇÃO DOS PRIMEIROS
EMBARGOS - ERRO MATERIAL - DISTRIBUIÇÃO DOS ÔNUS SUCUMBENCIAIS -
ACOLHIMENTO. -A oposição de argumentos próprios visando infringir a decisão,
estabelecendo-se uma dissensão entre o que se pensa e a questão disposta no
acórdão, não é comportável na via dos embargos de declaração. Rejeição dos
primeiros embargos de declaração -Reconhecido erro material no acórdão, na
distribuição dos ônus sucumbenciais, os embargos de declaração devem ser
acolhidos para saná-lo. Acolhimento dos segundos embargos de declaração.
(TJ-MG - ED: 10702073881246002 MG, Relator: Tiago Pinto, Data de Julgamento:
29/08/2019, Data de Publicação: 04/09/2019)
Embargos protelatórios
A doutrina e a jurisprudência muito falam sobre os “embargos
protelatórios” que assim são considerados quando a parte, ciente de que
não há qualquer das hipóteses de cabimento dos embargos, opõe o
recurso com o intuito de “postergar” o processo, ou seja, de “ganhar
tempo”.
Tal expressão “ganhar tempo” faz jus ao fato de que, uma vez interpostos
tempestivamente os embargos, fica interrompido o prazo para a
interposição de demais recursos.
Artigo
Art. 1.026. Os embargos de declaração não possuem efeito suspensivo e
interrompem o prazo para a interposição de recurso.
§ 1o A eficácia da decisão monocrática ou colegiada poderá ser suspensa pelo
respectivo juiz ou relator se demonstrada a probabilidade de provimento do recurso
ou, sendo relevante a fundamentação, se houver risco de dano grave ou de difícil
reparação.
§ 2o Quando manifestamente protelatórios os embargos de declaração, o juiz ou o
tribunal, em decisão fundamentada, condenará o embargante a pagar ao
embargado multa não excedente a dois por cento sobre o valor atualizado da
causa.
§ 3o Na reiteração de embargos de declaração manifestamente protelatórios, a
multa será elevada a até dez por cento sobre o valor atualizado da causa, e a
interposição de qualquer recurso ficará condicionada ao depósito prévio do valor da
multa, à exceção da Fazenda Pública e do beneficiário de gratuidade da justiça, que a
recolherão ao final.
§ 4o Não serão admitidos novos embargos de declaração se os 2 (dois) anteriores
houverem sido considerados protelatórios.
Julgado
Atualmente, os tribunais têm aplicado multa quando verificada tal situação, nos moldes do artigo 1.026, §2° do
CPC. Vejamos um julgado:
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS DO
ART. 1.022 E INCISOS DO CPC DE 2015. OMISSÃO NÃO CONSTATADA. EMBARGOS PROTELATÓRIOS.
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS COM APLICAÇÃO DE MULTA. 1. Depreende-se do artigo 1.022, e
seus incisos, do novo Código de Processo Civil que os embargos de declaração são cabíveis quando constar,
na decisão recorrida, obscuridade, contradição, omissão em ponto sobre o qual deveria ter se pronunciado
o julgador, ou até mesmo as condutas descritas no artigo 489, parágrafo 1º, que configurariam a carência
de fundamentação válida. Não se prestam os aclaratórios ao simples reexame de questões já analisadas,
com o intuito de meramente dar efeito modificativo ao recurso. 2. A parte embargante, na verdade,
deseja a rediscussão da matéria, já julgada de maneira inequívoca. Essa pretensão não está em harmonia
com a natureza e a função dos embargos declaratórios prevista no art. 1022 do CPC. 3. Decidida a questão
em sede de decisão monocrática e agravo interno, o segundo recurso manejado com o propósito de
rediscutir a matéria ostenta nítido caráter protelatório, circunstância apta a ensejar a multa de 1% sobre
o valor corrigido da causa (1.026, § 2º, do Código de Processo Civil). 4. Embargos declaratórios rejeitados
com aplicação de multa.
(STJ - EDcl nos EDcl nos EDcl no AgInt no AREsp: 1197459 SP 2017/0260807-8, Relator: Ministro LUIS FELIPE
SALOMÃO, Data de Julgamento: 11/09/2018, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 17/09/2018)
Embargos com efeito de pré-questionamento
Súmula 98 do STJ: Embargos de declaração manifestados com
notório propósito de prequestionamento não têm caráter
protelatório.
Os embargos de declaração com finalidade de obtenção de pré-
questionamento não têm intuito protelatório, a não ser que o juízo
ou tribunal, em decisão devidamente fundamentada, demonstre o
contrário.
Art. 1.025. Consideram-se incluídos no acórdão os elementos que o
embargante suscitou, para fins de pré-questionamento, ainda que
os embargos de declaração sejam inadmitidos ou rejeitados, caso o
tribunal superior considere existentes erro, omissão, contradição ou
obscuridade.
Julgado
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PARA FINS EXCLUSIVOS DE PRÉ-
QUESTIONAMENTO. INEXISTÊNCIA DE VÍCIOS NO ACÓRDÃO (CPC 1.022).
REJEIÇÃO. PRÉ-QUESTIONAMENTO FICTO (CPC 1.025). I - É sabido que os
embargos de declaração prestam-se a esclarecer ou sanar vícios de
fundamentação apostos na decisão judicial e que nomeadamente
comprometam sua clareza (obscuridade, contradição, erro material), ou que
denotem deficiência sobre questão controvertida entre as partes (omissão).
II - Ainda que os embargos declaratórios sejam opostos com a finalidade de
pré-questionamento, deverão adequar-se às hipóteses previstas no artigo
1.022 do novo Código de Processo Civil. III - Contudo, o diploma processual
reconhece a possibilidade de os embargos de declaração viabilizarem o
pré-questionamento ficto, ainda que inadmitidos ou rejeitados (CPC
1.025). EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS.
(TJ-GO - Apelação (CPC): 03868836720158090051, Relator:
LUIZ EDUARDO DE SOUSA, Data de Julgamento: 13/09/2019, 1ª Câmara
Cível, Data de Publicação: DJ de 13/09/2019)
Estrutura
Caso prático
A Sentença da 1ª Vara Cível da Comarca de Novo Hamburgo condenou o
Réu Sr. Fulano de Tal ao pagamento de Indenização por Danos Morais no
valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) em favor do Autor Sr.
Cicrano. Contudo, a Sentença não fixou os honorários advocatícios
sucumbenciais em favor do Procurador do Autor, bem como não analisou o
pedido de danos materiais feito na exordial.
Assim sendo, elabore o devido recurso a fim de que o Magistrado venha a
sanar tais vícios.