Universidade de São Paulo | Faculdade de Filosofia Letras e Ciências
Humanas
Departamento de História
Disciplina: Uma história para a cidade de São Paulo: um desafio pedagógico
Professora: Dra. Antonia Terra de Calazans Fernandes
Discente: Heitor de Lima Florêncio (13716750).
Fichamento: Nem tudo era italiano – São Paulo e pobreza (1890 – 1915) de
Carlos José Ferreira dos Santos
Carlos José Ferreira dos Santos é um historiador que se dedica ao
estudo das relações sociais e culturais na cidade de São Paulo durante os
processos de modernização urbana. No capítulo "Em busca da presença dos
nacionais pobres...", ele aborda as transformações ocorridas no espaço urbano
paulistano entre o final do século XIX e início do XX, com destaque para a
marginalização das classes populares no contexto das reformas urbanas. O
autor analisa como a modernização, inspirada em modelos europeus, foi
acompanhada por uma lógica de exclusão e disciplinamento dos pobres,
considerados incompatíveis com a imagem de uma metrópole moderna. Um
exemplo emblemático desse processo foi a remoção das lavadeiras da Várzea
do Carmo, cujo trabalho era essencial para o cotidiano da cidade, mas foi
interpretado como um entrave à higienização e ao progresso.
No texto, Santos destaca que as intervenções urbanas não apenas
modificaram os espaços físicos, mas também tentaram regular os modos de
vida dos marginalizados. A modernização da cidade, sob o pretexto de
melhorias sanitárias e estéticas, desconsiderou o papel social e econômico
dessas práticas, como a lavagem de roupas nos rios. Ele ressalta que, embora
invisibilizadas pelas políticas públicas, essas populações resistiram por meio da
adaptação e da ocupação alternativa do espaço urbano. As lavadeiras, por
exemplo, representavam um modo de vida subalterno que questionava a
tentativa de imposição de valores das elites urbanas. Além disso, Santos utiliza
fontes como fotografias, crônicas e memórias para reconstruir a presença
desses grupos, revelando a tensão entre o desejo das elites de disciplinar os
corpos e os hábitos da população e a resistência cotidiana dessas pessoas em
manter suas práticas.
O autor desenvolve conceitos como "higienização urbana", que descreve
as medidas de exclusão social disfarçadas de iniciativas sanitárias, e "modos
de vida subalternos", que mostram as formas de resistência e sobrevivência de
grupos marginalizados no espaço urbano. Ele também utiliza a ideia de
"memória social" para analisar como as práticas dessas populações foram
registradas em crônicas e imagens, frequentemente romantizadas ou apagadas
pelas narrativas oficiais. As lavadeiras, por exemplo, também simbolizavam
uma economia de subsistência que desafiava a lógica do progresso capitalista.
A análise do autor é fundamental para entender os impactos das
políticas públicas nas populações pobres e as tensões entre modernidade e
exclusão. Sua abordagem nos leva a refletir sobre as continuidades históricas
desses processos, que ainda moldam as relações entre espaço urbano e
desigualdade social. Contudo, seria enriquecedor aprofundar a discussão sobre
as consequências culturais dessas transformações e como as práticas
marginalizadas influenciaram a identidade da cidade, questionando as
promessas de progresso que desconsideram as experiências das classes
populares.