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Propriedade e Reconhecimento em Marx e Honneth

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DOI: 10.

1590/s0102-6992-20243901e45852
[Artigo Original]

Propriedade privada e reconhecimento Recebido: 29.11.22


Aprovado: 17.01.24

recíproco: fundamentos da crítica do capitalismo


em Marx e Honneth e algumas consequênciasi.

1. Professor de
Sociologia na
Luiz Gustavo da Cunha de Souza1 Universidade
Federal de Santa
([Link]
Catarina, SC,
Brasil, bolsista
PQ2 CNPq. Orcid:
Resumo: O artigo discute os conceitos de propriedade privada e reconhecimento recíproco em E-mail: gustavo.
cunha.s@[Link].
trabalhos de Karl Marx e Axel Honneth. Partindo de artigos recentes nos quais Honneth retoma
a distinção entre economia e sociologia na obra madura de Marx, procura-se, por meio de uma i. Materiais para
revisão de literatura e de uma tentativa de interpretação teórica sobre o uso que ambos fazem da essa pesquisa
foram adquiridos
ideia de propriedade privada, evidenciar alguns aspectos nos quais a crítica de Honneth aponta
com apoio
para limitações da obra de Marx. Em um segundo momento, pretende-se esboçar uma leitura que da Fundação
aponte para limitações da própria interpretação honnethiana, quando comparada com o modelo Alexander von
Humboldt e
de análise adotado por Marx n’O capital. A despeito disso, por fim, o artigo conclui que não se trata
do Deutscher
de recuperar o trabalho de Marx como tal, mas o modelo subjacente à sua análise do capitalismo Akademischer
de uma economia política do reconhecimento como crítica do modo de produção capitalista. Austausch Dienst
Palavras-chave: Karl Marx, Axel Honneth, propriedade privada, reconhecimento recíproco, (DAAD). Uma
versão prévia
economia política. deste artigo foi
apresentada
no IV Simpósio
Private property and reciprocal recognition: foundations of capitalism Científico da
critique by Marx and Honneth and some consequences Associação Serras
de Minas, na
Universidade
Abstract: This paper discusses the concepts of private property and reciprocal recognition in some Federal de
works by Karl Marx and Axel Honneth. Taking as its point of departure recent articles in which Ouro Preto, em
junho de 2022.
Honneth discusses the underlying distinction between economy and society in Marx’s work, the
Agradeço às e
article intends to discuss both authors’ use of the concept of private property. First, then, it shows aos organizadoras
how some criticism by Honneth is indeed fair, but then, in a second step, it proceeds to show some do evento pela
limits of Honneth’s analysis, when compared to Marx’s exposition in Capital. Yet, in its conclusion, discussão,
em especial
the article does not try to retrieve a Marxist point of view per se; rather, what matters is the implicit à professora
analysis of capitalism through a critique of political economy centered on the concept of recognition. San Romanelli
Keywords: Karl Marx, Axel Honneth, private property, reciprocal recognition, political economy. Assumpção e
ao professor
Denílson
Werle pelos

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comentários ao INTRODUÇÃO
texto, bem como

A
à(o)s duas(dois)
pareceristas peça de teatro A Santa Joana dos Matadouros, de Bertolt Brecht, escrita
anônimos pelos entre 1929 e 1931, trata de um momento muito específico da história do
instigantes desenvolvimento capitalista e de suas crises, resultando na tentativa de seu autor
e precisos
comentários ao de representar as diversas e contraditórias posições envolvidas no conflito social da
artigo. época. Como explica o tradutor da peça para o português, o crítico literário Roberto
Schwarz, em uma apresentação das primeiras cenas da peça,

o assunto é a crise do capitalismo, cujo ciclo de prosperidade,


superprodução, desemprego, quebras e nova concentração do
capital determina as estações do entretrecho. As personagens
são a massa trabalhadora, empregada ou desempregada, os
magnatas da indústria da carne, os especuladores, e – disputando
as consciências – os comunistas e uma variante do Exército da
Salvação (os Boinas Pretas) (Schwarz, 2001: 9).

Inicialmente, uma tenente do grupo dos Boinas Pretas, a personagem central do


enredo, Joana Dark, age como uma espécie de mediadora entre os interesses das
classes, buscando conciliar a necessidade de emprego assalariado da massa popular
e as condições que permitem aos industriais e especuladores oferecem emprego à
massa. É nesse papel de mediadora da compra e da venda da força de trabalho que
Joana se dirige pela primeira vez aos donos das indústrias da carne e saca o seguinte
discurso:
E por que tanta maldade no mundo? Nestas condições não podia
mesmo ser diferente. Se o cristão é obrigado a arrancar ao vizinho
o pão de que necessita, para não falar na manteiga, e se até para
o indispensável o irmão tem de lutar contra o irmão, é natural
que os sentimentos nobres desapareçam do peito humano. Mas
vamos supor que amar ao próximo não fosse nada mais que servir
o freguês. Logo o Novo Testamento fica fácil de entender e é clara a
atualidade dele, mesmo em nossos dias. Servir o freguês!
[…] Mas eu lhes pergunto: como podem os pobres ter moral, se eles
não têm nada? É isto mesmo, como não será roubo qualquer coisa
que eles peguem? Meus senhores, a força moral precisa da força
aquisitiva, e basta aumentar a força aquisitiva para aparecer a força
moral. Vejam que por força aquisitiva eu entendo uma coisa muito
simples e sem mistério, estou pensando em dinheiro, em salário, o
que nos traz de volta às questões práticas: se vocês continuarem
assim, essa carne vai ficar toda para vocês, porque o pessoal lá fora
está sem força aquisitiva (Brecht, 2001: 74)

Embora esse trecho do discurso de Joana termine chamando a atenção para a crise

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de superprodução e os riscos políticos colocados à classe dos capitalistas devido à


prática da superexploração, aqui também se deixa entrever um objeto de reflexão
muito caro à crítica marxista do capitalismo: a subsunção da moral ao capital por
meio da transformação do trabalho humano em mercadoria, objeto de comércio.
Porém, nesse trecho do discurso de Joana Dark, a crise do capitalismo se revelava
em uma dimensão além daquela teorizada por Karl Marx, já que se tratava de
assumir que, após a transformação da força de trabalho em mercadoria, não apenas
o trabalho resulta na produção alienada e alienante de bens, mas também se
objetifica e quantifica sob a forma de um salário que se faz necessário e desejado
pela classe que trabalha – “como não será roubo qualquer coisa que eles peguem?”.
Nesse sentido, como notado no discurso de Joana, a troca de trabalho por “força
aquisitiva”, isto é, “dinheiro, salário”, recoloca o indivíduo que trabalha no circuito
do mercado, reforçando seu compromisso moral com os princípios que regem esse
modo de produção. Essa tensa relação entre a justiça dos acordos e a injustiça das
condições em que estes acordos são estabelecidos é tratada no primeiro volume d’O
capital (Marx, 2013) em pelo menos dois momentos de destaque, inicialmente nos
capítulos 4 (“A transformação do dinheiro em capital”) e 5 (“O processo de trabalho
e o processo de valorização”) e, mais tarde, no capítulo 24 (“A assim chamada
acumulação primitiva”). Esses dois trechos do livro são particularmente relevantes
porque, para Marx, é justamente ali que se disputa a apropriação fundamental para
a constituição do capitalismo enquanto sistema, isto é, a apropriação do trabalho
de outrem. A questão da propriedade privada em Marx, de fato, tem diversas
camadas, iniciadas com a crítica da alienação da força produtiva dos seres humanos
nos Manuscritos econômico-filosóficos (Marx, 2004), mas seu núcleo se constitui
na apropriação privada da força de trabalho e, consequentemente, sua crítica ao
capitalismo depende de como as condições para a apropriação do trabalho livre são
entendidas, incluídas aqui as pré-condições para a libertação do trabalho de suas
formas pré-capitalistas, justamente o efeito da apropriação primitiva.

Todavia, uma certa unilateralidade na concepção marxista de moralidade tem sido


objeto de crítica de Axel Honneth nos últimos anos (cf. Honneth, 2018a, 2018b, 2020),
resultando em um esforço por parte deste autor que se deixa entender como uma
tentativa de corrigir a análise marxista do capitalismo por meio de uma reformulação
da interpretação do conceito de mercado. Embora Honneth não discuta a ideia de
propriedade diretamente, sob a objeção geral de que, ao descrever a nascente
sociedade capitalista como normativamente submetida à lógica do capital, Marx
teria perdido de vista um núcleo de conquistas expressas privilegiadamente nos
direitos individuais, encontra-se uma ideia de que na obra do sociólogo do século
XIX o potencial funcional e normativo dos mercados é ofuscado. Na exposição que
se segue, quero tomar essa crítica como objeto de análise para demonstrar que

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existem consequências diversas, mas ambas frutíferas, a serem tiradas de cada


um desses dois modelos de crítica do capitalismo, o de Marx e o de Honneth. Para
ambos, o papel do direito à propriedade é central para a descrição do capitalismo,
mas, ao mesmo tempo, é o status desse direito no mercado que torna o projeto
de aproximação de Honneth e Marx mais difícil. Apesar disso, e sem abrir mão de
indicar certos pontos pouco desenvolvidos por Honneth, quero tentar aproximá-los
a fim de esboçar as linhas de uma análise do presente sob a ótica de uma economia
política do reconhecimento que se afaste das limitações apontadas na teoria de
Marx. Para isso, o texto começa com uma consideração sobre a análise feita por Marx
a respeito da mercadorização da força de trabalho (I), passa pela crítica de Honneth
a Marx (II) e termina com a tentativa de indicar as linhas da tal economia política do
reconhecimento (III).

1. Marx: A propriedade da força de trabalho e as regras do mercado

Como é sabido, é no primeiro volume d’O capital que Karl Marx expõe de modo
mais aprofundado a conexão entre o assalariamento da força de trabalho e sua
comercialização. Trata-se ali, e esse é um dos argumentos a serem desenvolvidos
neste artigo, de um processo no qual existem não um, mas dois passos: a compra
da força de trabalho disponível, que é a finalização da transformação do trabalho
humano em mercadoria, e a alienação prévia entre trabalho e satisfação, que é
responsável pela situação de mercado, isto é, a separação entre a realização de
atividades laborais e a obtenção imediata de meios de subsistência, sobre a qual
Marx afirma não se tratar de “uma relação histórico-natural” (Marx, 2013: 244). Ou
seja, o mercado de compra e venda da força de trabalho se diferencia do mercado
de outras mercadorias porque se baseia em dois momentos distintos, um prévio ao
mercado, onde se formam condições de comércio de uma mercadoria especial e
outro interno ao mercado, quando essa mercadoria é tratada como outra qualquer,
trocada “sem que tenha ocorrido qualquer violação das leis de troca de mercadorias”
(Marx, 2013: 271). Sendo, porém, a busca por essa mercadoria o objetivo da ida do
capitalista ao mercado, onde ele sabe que se encontra uma mercadoria cujo valor
de uso “não se ama em si mesmo” (Marx, 2013: 263), Marx precisa supor que ali
o trabalho estaria disponível para aquisição e, mais importante, que seu valor de
uso não seria aplicado pelo próprio possuidor ou possuidora. A respeito do primeiro
aspecto, a disposição ao comércio, ele famosamente se refere com a fórmula do
trabalhador “livre em dois sentidos: de ser uma pessoa livre, que dispõe de sua força
de trabalho como sua mercadoria, e de, por outro lado, ser alguém que não tem
outra mercadoria para vender” (Marx, 2013: 244). Já o segundo ponto, n’O capital
e em seus escritos maduros de economia política, Marx trata como a separação de
mercadorias em seu valor de uso e seu valor de troca. Apesar de a distinção nesses

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termos aparecer apenas nos escritos de crítica da economia política, o tema é um


adensamento de intuições anteriores.

nicialmente, Marx parece considerar que a pessoa que vende sua força de trabalho
a trata como mercadoria simples e, por isso, se encontra na situação de vivenciar a
separação entre valor de uso e valor de troca em condições nas quais não é possível
fazer qualquer uso da força de trabalho e, por isso, o melhor a fazer e vendê-la,
alienar a si mesmo de sua capacidade de produzir algo para si mesma. Tal situação,
no entanto, não é natural, mas fruto de um “pecado original” da economia política,
a assim chamada acumulação primitiva:

Essa acumulação primitiva desempenha na economia política


aproximadamente o mesmo papel do pecado original na teologia.
Adão mordeu a maçã e, com isso, o pecado se abateu sobre o
gênero humano. Sua origem nos é explicada com uma anedota do
passado. Numa época muito remota havia, por um lado, uma elite
laboriosa, inteligente e, sobretudo, parcimoniosa, e, por outro, uma
súcia de vadios a dissipar tudo o que tinham e ainda mais. De fato,
a legenda do pecado original teológico nos conta como o homem
foi condenado a comer seu pão com suor do seu rosto; mas é a
história do pecado original econômico que nos revela como pode
haver gente que não tem nenhuma necessidade disso. Seja como
for. Deu-se, assim, que os primeiros acumularam riquezas e os
últimos acabaram sem ter nada para vender, a não ser sua própria
pele. E desse pecado original datam a pobreza da grande massa,
que ainda hoje, apesar de todo seu trabalho, continua a não possuir
nada para vender a não ser a si mesma, e a riqueza dos poucos,
que cresce continuamente, embora há muito tenham deixado de
trabalhar (Marx, 2013: 785)

A fábula da propriedade, para Marx, esconde a história real e sua violência com o
vocabulário idílico da economia política: direito e trabalho ao invés de conquista e
roubo. No capitalismo, porém, esse vocabulário idílico mascara a transformação de
dinheiro e mercadorias em capital, para a qual uma pré-condição deve ser cumprida:
a “polarização do mercado” em possuidores de dinheiro que buscam “valorizar a
quantia de valor de que dispõem por meio da compra da força de trabalho alheia” e
trabalhadores livres que vendem sua força de trabalho. Aqui, então, nesta polarização
estão o que Marx (2013:786) chama de “condições fundamentais da produção
capitalista”, a partir das quais o capitalismo enquanto sistema de valorização se
assenta. Mais do que a tese, por assim dizer, oficial, desenvolvida por Marx no capítulo
sobre a acumulação primitiva – a de que a separação entre a pessoa que trabalha e
as condições de realização do trabalho é o que dá origem ao capitalismo – interessa

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2. A esse notar aqui que nessas pré-condições identificadas por ele como uma polarização está
respeito, a em jogo uma concepção de interação entre grupos com interesses opostos dentro
referência
clássica é Edward de uma mesma esfera. O que posteriormente viriam a ser as classes sociais dentro
P. Thompson. do mercado capitalista, na fase de expropriação típica da constituição do capitalismo
Diretamente são agentes históricos de um processo de transformação. Se, de fato, como sugere
sobre esta
temática, ver, Marx, a economia política encobre a realidade histórica da violência, categorias
dele, o ensaio como classe social e interesse de classe também encobrem o fenômeno histórico
“Algumas da polarização por meio da interação. Em outras palavras, se Marx se esforça para
observações
mostrar que as classes sociais do capitalismo não surgem espontaneamente como na
sobre classe
e “falsa fábula do pecado original, ele também indicou, embora de modo indireto, contudo
consciência”, em que, antes de se conformarem em classes com interesses opostos, essas pessoas se
Thompson, 2001. portavam como agentes com expectativas e projetos2. É justamente esse universo
3. Sobre a de pessoas agindo tanto em relação às suas condições de subsistência quanto em
importância dos relação às condições de estabelecimento de relações sociais que é reconstruído no
Manuscritos capítulo sobre a expropriação, com o intuito de expor o “desenvolvimento que deu
para o
desenvolvimento
origem tanto ao trabalhador assalariado como ao capitalista” (Marx, 2013: 787),
da obra posterior mas o argumento subjacente é o de que a transformação de dinheiro em capital
de Marx, ver se desenvolve como um enredo histórico no qual grupos sociais assumem papéis
Quante, 2009, p.
dramáticos.
216-7.

Ocorre que a tese da separação entre trabalho e satisfação individualmente


determinada já estava colocada no universo conceitual de Marx desde, pelo menos,
os Manuscritos Econômico-Filosóficos, redigidos m 18443. Nos Manuscritos, porém,
a relação de alienação é baseada na percepção individual de que o mundo de
mercadorias torna o indivíduo tanto menos importante quanto mais relevante se
tornam as próprias mercadorias: “O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto
mais riqueza produz, quanto mais sua produção aumenta em poder e extensão”
(Marx, 2004: 80). É interessante notar, então, que n’O capital, Marx busca as raízes
da situação de mercado fora do mercado, nos violentos processos de cercamento
e expropriação que representavam a contraparte aos processos indiretos, mas não
menos violentos, de formação de uma classe de sujeitos de direito desprovidos de
qualquer outra coisa que não o direito sobre sua propriedade, que nesse caso, graças
àquela violência direta da expropriação se limitava à força de trabalho. Enquanto
isso, nos Manuscritos, o tema da alienação tem precedência categorial sobre o da
mercadorização, pois, embora no cerne do trecho dedicado ao trabalho nesse texto
esteja a antropologia da alienação, ali também se encontra indicada a relação social
de apropriação privada do trabalho alienado.

Isso porque, após definir que no capitalismo a atividade do trabalho se dá por meio de
três “determinações do trabalho estranhado” (Marx, 2004: 82-84) – estranhamento

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da natureza, de si e da espécie humana4 – Marx discute o resultado formal do 4. Na realidade,


estranhamento do trabalho. Segundo ele, não se trata apenas, como mencionado, o que Marx
descreve como
de que o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais produz, mas sim de fenômenos
que o trabalho que se defronta com quem o produz como poder externo pertence a determinados
alguém e alguém que só pode ser “outro homem fora do trabalhador” (Marx, 2004: pelo
estranhamento
86, itálicos no original). Todavia, disso não decorre, como visto n’O capital ou mesmo do trabalho são
no Manifesto comunista, de que uma classe antagônica se coloca frente ao ser que quatro formas
trabalho abusando das condições em que este se encontra, mas curiosamente, Marx de sociabilidade
degradadas:
conclui nesse texto de juventude que “todo autoestranhamento do humano de si e da
separação
natureza aparece na relação na qual ele dá a si e à natureza a outro humano diferente entre trabalho
de si” e, mais ainda, “Portanto, por meio do trabalho estranhado, exteriorizado o e produtor
trabalhador engendra a relação de um humano estranho ao trabalho e situado fora do trabalho,
incompatibilidade
dele com este trabalho. A relação do trabalhador com o trabalho engendra a relação entre intenção
do capitalista com o trabalho” (Marx, 2009: 94). Mais do que imediatamente indicar e produto,
que aqui as classes são resultado da alienação e não do processo histórico de pré- apagamento
do vínculo de
formação do mercado, Marx parece identificar a impossibilidade de que o trabalho reciprocidade
seja uma forma de autorrealização no capitalismo devido à apropriação privada. com outros
seres humanos e
estranhamento
Com essa distinção analítica entre alienação e processo histórico de pré-formação do
entre humano
mercado não se deve entender que Marx considera que a alienação não é resultado e humanidade,
de um desenvolvimento histórico. Não apenas nos próprios Manuscritos econômico- conforme
filosóficos o processo de alienação é tratado em sua especificidade capitalista, discutido a seguir.
portanto como resultado do processo de consolidação das classes proprietária e
trabalhadora, mas em outros textos da época e até no Manifesto comunista, ainda
que com um vocabulário por vezes diferente, Marx entende as duas dimensões como
conjuntas – para mencionar apenas um exemplo, em sua “Crítica da Filosofia do Direito
de Hegel –Introdução” (Marx, 2010), um dos fundamentos da crítica de Marx a Hegel
é justamente a falta de historicidade das categorias deste último autor. Assim, não
se trata de considerar que alienação, conforme descrita nos Manuscritos seria uma
categoria a-histórica, mas afirmar que a categoria alienação, que ali possui prioridade
categorial frente ao processo de pré-formação do mercado, é utilizada por ele para
justificar a impossibilidade de autorrealização humana sob o modo (histórico) de
produção capitalista, já que nele se estabelece (historicamente) uma oposição entre
interesse humano e interesse privado. Em termos arriscadamente simplificados, se
poderia dizer que, na análise da alienação, Marx está preocupado com problema da
dominação, do qual o mercado capitalista é uma arena potencializadora, enquanto
na apresentação histórica da formação do mercado, através da expropriação e da
mercadorização, da força de trabalho ele está preocupado com as condições formativas
do exercício da dominação, das quais o mercado capitalista é um resultado. Ambas
as problemáticas não são contraditórias, mas indicam, como mencionado, que no

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5. Cabe destacar segundo caso a apropriação privada é analisada como um processo em curso antes
que na edição da consolidação do sistema capitalista, ao passo que no primeiro, ela é exposta como
brasileira dos Ma-
uma condição intrínseca ao capitalismo, condição esse que, em sua historicidade,
nuscritos econô-
mico-filosóficos,
fundamenta a crítica desse modo de produção, aliás.
Jesus Ranieiri, o
tradutor do texto, Nos Manuscritos, esta é uma linha de tensão, dado que aqui poderia ser dito, com
defende que os algum cuidado, que Marx não compreendia a alienação nos termos da exploração
conceitos de alie- de classe, e sim como uma perda do sentido de apropriação que existiria entre as
nação e estranha-
atividades de uma pessoa e suas finalidades. Assim, no entendimento de Rahel Jaeggi,
mento “aparecem
com conteúdos
nos Manuscritos de 1844, alienação pode ser entendida como “um distúrbio na relação
distintos, e a que uma pessoa tem – ou deveria ter – consigo mesma e com o mundo (seja este o
vinculação entre mundo social ou natural)” (Jaeggi, 2014: 11). No entanto, como notado por Michael
eles, geralmente Quante, já nesses mesmos Manuscritos é possível antever algumas complicações
sempre presente, devido a dois motivos: primeiro, ao contrário de Hegel, Marx não diferencia os termos
não garante que
“Entäußerung” (alienação) e “Entfremdung” (estranhamento); segundo, o conceito
sejam sinônimos”
(Ranieri, 2004:
de estranhamento era utilizado por Marx de modo não especificamente filosófico,
16). Segundo a de modo que nele se sobrepunham significados múltiplos e originários de variadas
explicação de disciplinas (Quante, 2009: 248). O que decorre dessa sobreposição entre a tentativa
Ranieri, enquan- de descrever a realidade da exploração e a formulação de uma crítica normativa
to a alienação é é, para Quante, uma utilização algo vaga e confusa do mecanismo de crítica social
um movimento
por Marx, já que parte dos fenômenos descritos por ele sob o guarda-chuva da
genérico do
ser humano, o
alienação/estranhamento são claramente deletérios para a sociabilidade humana, ao
estranhamento passo que outros são somente formas de expressividade5. Nos Manuscritos, porém,
carrega em si é possível dizer que ambos os sentidos juntos indicam – ainda que, novamente, de
as condições do modo pouco diferenciado – duas dimensões da pequenez humana no mundo das
sistema socioeco- mercadorias: a primeira e mais diretamente tratada por Marx, remete à perda de
nômico capitalis-
valor do ser humano diante da mercadoria que circula como riqueza; a segunda,
ta, resultando em
um movimento
menos desenvolvida no texto, remete à pequenez do realizador de trabalho frente
carregado de ao apropriador desse trabalho. Colocadas no contexto da obra de juventude de
negatividade. Marx, essas ideias de pequenez e impotência parecem imediatamente conectadas às
Não me parece, reflexões contidas na “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução”, texto no
todavia, que esta qual o autor realiza a descoberta categorial do proletariado como uma classe que sofre
diferenciação
a “injustiça por excelência” (Marx, 2010: 156), a perda de sua humanidade. Tomados
ocorra deste
modo no texto de
em conjunto, a “Crítica”, escrita em 1843, e os Manuscritos de 1844 indicam que o
Marx, pois, como resultado do fenômeno contemporâneo – a Marx – da alienação/estranhamento,
mencionado por de fato, se deixava antever antes como uma forma de sofrimento social das classes
Quante, os dois trabalhadoras. No entanto, a causa desse sofrimento parece decorrer de um complexo
termos têm como de novas relações sociais, cuja organização propicia aos humanos, inicialmente, a
função descrever
percepção da perda de controle sobre os resultados do próprio trabalho, se desdobra
uma posição
na sensação imediata de pequenez ou impotência frente ao mundo e, finalmente, se

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consolida na constatação de que outro ser humano, “mais poderoso” (2004: 86), se de desconforto
apropria do trabalho desse sujeito apequenado6. historicamente
concreto em
conexão com
Já nessa fase da obra de Marx é possível encontrar um modelo de crítica humanista, um horizonte
baseada na atividade criativa o ser humano e em cujo desenvolvimento se (bloqueado) de
encontra, em última instância a ideia de autogestão das forças produtivas e dos autorrealização.
meios de produção. Todavia, as sensações de impotência e pequenez continuarão Por exemplo,
a fazer parte da condição social do proletariado em seus escritos até seus textos em Marx (2009:
84), itálicos do
de maturidade. Aqui basta mencionar que no Manifesto comunista o proletariado
autor: “Esta
aparece historicamente como criação da burguesia, enquanto esta desempenha um realização do
papel revolucionário a partir de sua própria natureza. Ainda mais explicitamente, n’O trabalho aparece,
capital, com postura “tímida e hesitante”, o vendedor da força de trabalho se dirige nas condições
à “esfola” (Marx, 2013: 251). Nessa obra madura, porém, a exposição realizada por de economia
Marx apresenta a recuperação do valor humano não mais como alguma conexão política, como
desrealização do
com a capacidade expressiva ou produtiva, mas com a abolição da propriedade
trabalhador, a ob-
como um todo. Essa generalização do objeto de crítica de Marx está expressa nos jetificação como
dois grandes manifestos programáticos publicados pelo autor: tanto no Manifesto perda do objeto
de 1848 (Marx e Engels, 2010) quanto na Crítica do programa de Gotha (Marx, e como servidão
2012), escrita em 1875 e já sob a tentação de consolidar politicamente os achados frente ao objeto,
d’O capital, Marx estabelece como finalidade de crítica social a implementação de e a apropriação
como estranha-
modos de subverter a ordem capitalista de apropriação privada da força de trabalho.
mento, como
No primeiro caso, com a ideia de uma substituição geral do modo de produção por alienação”. É
uma livre associação de livres produtores; no segundo, com a ideia de que o direito à justamente a
satisfação das necessidades individuais é uma bandeira moral que tem precedência conexão entre
sobre a distribuição igualitária da propriedade, ali chamada por ele de “frutos do descrição dessa
trabalho”. Em ambos os casos, finalmente, com a generalização do objeto da crítica, o realidade de
empobrecimen-
diagnóstico inicial de apequenamento humano frente à propriedade se traduz agora
to e perda de
em uma teoria da imposição de práticas sociais mediadas pelas ilusões7 projetadas controle, por um
pela propriedade privada, seja sob a forma de fantasmagorias seja sob a forma de lado, e distorção
contratos livres. O resultado, porém, é que Marx gradualmente amplia o escopo de do horizonte de
uma crítica do trabalho humano e da economia política que tenta explicá-lo para autorrealização
uma crítica dos obstáculos impostos à autorrealização humana pela lógica do capital humana que
Marx mobiliza
enquanto propriedade privada dos meios de produção; portanto, a centralidade das
aqui de modo
condições para a apropriação privada devem ser objeto de crítica. conjunto a fim
de apresentar
2. Honneth: A moralidade das relações sociais e a crítica do a experiência
unilateralismo econômico do trabalho no
capitalismo como
uma inversão
Segundo Honneth, o modelo de crítica do capitalismo esboçado por Marx nos
que torna o
termos expostos acima possui como grande força exatamente a identificação das

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trabalhador não linhas fundamentais da mercantilização da sociedade nascente do século 19. Mais
apenas “mais especificamente, Honneth afirma que o grande mérito da teoria do capitalismo
pobre quanto
desenvolvida por Marx é que “em sua análise, ele delineia com impressionante
mais riqueza ele
produz” (Marx,
clareza que a diferença do novo modo de produção capitalista frente a todos
2009: 84), mas os antigos e ultrapassados modos de produção consiste em não mais dever
também cada vez assegurar a subsistência de todos os membros da sociedade, mas se ocupar com
mais submetido a permanentemente crescente criação de valor e, assim, com a maximização do
ao poder do capi- ganho econômico” (Honneth, 2018b: 12). O que decorreria dessa análise, de fato,
tal, isto é, como
é a constatação de que o capitalismo é uma ordem na qual não apenas humanos
um ser cada vez
mais apequenado
são tratados como mercadoria, mas também o capital é a finalidade da sociedade.
frente às suas Observada a partir dessa posição, a crítica do capitalismo formulada por Marx através
condições de da conexão entre a teoria da alienação e a organização de um mercado de compra
vida. e venda da força de trabalho efetivamente se deixa entender como a descrição de
uma sociedade cuja infraestrutura institucional consiste na submissão dos valores
6. Assim como
humanos à intenção de maximização econômica. Os termos dessa descrição, isso é,
Marx mais
tarde notava no
os elementos dessa infraestrutura institucional seriam não outros senão alienação,
romance inglês propriedade privada, classes sociais e mercado capitalista, de modo que aqui se lidaria
de aventura a com o estabelecimento de condições sistemáticas para a exploração econômica da
difusão de uma ação humana. Justamente a extensão desse modelo de análise, porém, é colocado
figura típica da em questão por Honneth.
ordem capitalista,
o engenhoso su-
jeito da produção
As tentativas de reformular o marxismo fazem parte das reflexões do então jovem
e do comércio frankfurtiano Axel Honneth desde o começo da década de 1980, inicialmente em
personificado em um texto sobre os resquícios de utilitarismo na filosofia marxista da ação (Honneth e
Robinson Crusoé, Joas, 1986), algo que logo o levaria a desenvolver uma crítica reconstrutiva – na qual
para essa fase da seguia os passos de Jürgen Habermas – a respeito da centralidade do trabalho para a
crítica da peque-
teoria da sociedade. Nesse movimento, porém, Honneth se afasta de Marx, e também
nez é notável o
valor de espe-
de Habermas, ao caminhar em direção a uma teoria dos elementos conflitivos da
lhamento que ação social, identificados por ele como as demandas por reconhecimento social que
possuem as per- expressavam a tentativa de realizar expectativas normativas por parte dos sujeitos.
sonagens centrais
dos romances de esse momento de sua produção teórica, o conceito de reconhecimento, desenvolvido
Charles Dickens,
de modo ainda incipiente, é uma resposta ao que Honneth percebia como déficit
cujos arcos de
formação tendem
sociológico da teoria comunicativa habermasiana, na qual as condições de
a se assentar comunicação pareceriam pressupor sujeitos cuja identidade já estaria formada no
sobre a desco- momento de lutarem pela expressão pública de suas necessidades em um ambiente
berta de um valor comunicativo. A intenção de Honneth, por outro lado, é, nas palavras de Patrícia
moral soterrado Mattos (2006: 87), “mostrar como os conflitos sociais são essencialmente baseados
pelas hierarquias
numa luta por reconhecimento social e que esta luta é o motor das mudanças sociais
sociais.
e, consequentemente, do processo de evolução da sociedade”. Assim, operando uma

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crítica interna à posição de Habermas, ele postula que a obtenção de reconhecimento 7. Para uma ex-
se deve à realização de expectativas normativas dos indivíduos quanto à sua plicação da cen-
tralidade da ideia
personalidade e ao modo como essa pessoa espera ser tratada – ou, pelo contrário,
de aparências
o desrespeito significa a ruptura ou não cumprimento dessas expectativas.8 Para o ilusórias na ex-
argumento do presente artigo, importa ressaltar que, ao conceitualizar o campo de plicação marxista
conflitos sociais a partir das expectativas normativas, Honneth pretende ampliar o da realidade, cf.
escopo do que seriam os fundamentos do conflito social para além das relações de Mills, 1998
trabalho, vistas por ele como um aspecto relevante, mas não exclusivo do conflito
8. Cf., para uma
social. Nesse movimento, sua interlocução com Marx serviu como ponto de partida
exposição suma-
teórico, mas foi gradualmente deixada em segundo plano. rizada da posição,
Honneth 2018c.
A relação de Honneth com Marx só seria retomada diretamente décadas depois, Adicionalmen-
em um texto no qual ele se perguntava sobre uma possível trilha moral escondida te, Silva, 2008,
em O capital (Honneth, 2018a). Seu artigo parte da constatação de que talvez seja cap. 2, Sobottka,
2015, cap. 1 e
exagerado atribuir a Marx uma leitura a respeito das lutas políticas do século 19,
Simmin, 2018,
segundo a qual os agentes em conflito buscariam interpretar de modo adequado cap. 2.
as normas constitucionais modernas introduzidas pela Revolução Francesa; ao
mesmo tempo, segue Honneth, é incontestável que “tanto no 18 Brumário quanto
no escrito sobre a Comuna de Paris [A luta de classes na França] as partes em conflito
são apresentadas como atores coletivos que estão moralmente convencidos da
legitimidade de suas ações porque elas podem apelar a normas já implicitamente
aceitas dentro da sociedade” (Honneth, 2018a: 672). Embora sua preocupação ali
seja a de destrinchar uma lógica moral de ação que ultrapasse o modelo da luta
entre classes antagônicas, Honneth o faz inicialmente recorrendo à ideia de que as
conclusões apresentadas por Marx em seus estudos sobre a sociedade capitalista
são desigualmente convincentes devido ao fato de que na crítica da economia
política o modelo adotado é a esquematização das posições de classe, ao passo
que nos estudos históricos a incorporação de material empírico e análise histórica é
conduzida com mais sutileza, resultando em uma maior abertura a uma “camada de
conflituosidade normativa” (idem: 677). Enquanto na leitura oficial, a das posições
de classe, o modelo mais bem-acabado é o de classes sociais encarnando posições
estruturais, no segundo caso as arenas de interação entre as classes sociais são palco
de uma permanente disputa a respeito dos limites de imposição do poder de uma
classe sobre a outra ou da resistência de uma classe frente a outra. Este é o caso,
por exemplo, das disputas pela duração da jornada de trabalho (cf. Renault, 2013;
para uma exposição teoricamente informada sobre um caso histórico brasileiro,
Silva, 1996) e também das disputas sobre a definição conceitual e categorial do que
seja o trabalho decente (novamente, para reconstruções teoricamente informadas,
cf. Rosenfield e Pauli, 2012; Rosenfield e Mossi, 2020). O segundo destes modelos
teóricos, que pressupõe uma separação conceitual entre mercado e capitalismo,

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9 A concepção do resulta, ao mesmo tempo, em uma ampliação do escopo da análise das sociedades
capitalismo como capitalistas, pois passa a considerar como pré-condições para a consolidação do
um sistema que
mercado não apenas a pré-história da exploração (a violenta expropriação), mas
amplia liberdades
é, evidente-
também as condições normativas que precedem a ordem capitalista (as expectativas
mente, bastante e vocabulários morais dos envolvidos no estabelecimento de mercados e contratos).
problemática A ideia de que uma teoria crítica da sociedade deva se guiar pelas disputas envolvidas
e tem sido um no estabelecimento de limites precisos para a ação mercadológica é o que vai orientar
dos pontos de toda a interpretação recente que Honneth faz de Marx.
maior polêmica
na recepção da
obra recente de
Em um conjunto de artigos que em alguma medida continua seu livro sobre A
Honneth. Seria ideia do socialismo (2015), Honneth procura tornar mais precisa sua crítica à
impossível, nos unilateralidade da análise marxista da economia ao afirmar que, assim como na
limites desse análise da mercadoria é possível identificar uma dimensão econômica (o valor
artigo, sequer de troca) e uma dimensão social (o valor uso, permeado de aspectos projetivos
esboçar um
e normativos), também em outras categorias da análise do mercado capitalista a
balanço dessa
polêmica, que é
observação desse duplo caráter teria sido frutífera. Assim, embora quase todos os
reconhecida pelo fenômenos da esfera econômica sejam assentados sobre “procedimentos culturais e
próprio autor (Cf. normativos” (Honneth, 2018b: 25), Marx teria restringido sua análise desse processo
Honneth, 2015, ao destrinchamento dos mecanismos de maximização da obtenção de ganho. Isso
especialmente se tornaria tanto mais penoso para sua caracterização sobre a nascente sociedade
a Introdução e
capitalista devido ao fato de que, para ele, a descrição da atividade humana seria
o capítulo 2),
mas é óbvio que
subsumida, como um todo, ao processo de apropriação da natureza descrito como
Honneth não ‘relações de produção’ (Honneth, 2020: 85). Consequentemente, como resultado do
desconsidera que desenvolvimento das forças produtivas, Marx observa antes o desenvolvimento de
a realidade fática meios de produção capitalistas nos quais se espelha “um entendimento da liberdade
do capitalismo meramente assentado sobre o egoísmo privado” (2020: 93), isto é, a organização
comporta uma
burguesa das relações de produção. Desse movimento, então, se desdobram dois
desproporcional-
mente grande
problemas analíticos, segundo Honneth.
dimensão de Ainda de acordo com Honneth, por um lado, Marx perderia de vista o conjunto de
distorções e relações sociais que realizam a liberdade9 em paralelo às ameaças representadas
falsos desen- pelo sistema de livre concorrência e maximização dos ganhos individuais; por outro
volvimentos lado, ele não conseguiria conectar adequadamente sua crítica da economia política à
junto com uma
ideia mesma de que classes sociais lutam entre si e em determinadas circunstâncias
desproporcional-
mente pequena
pela realização de seus interesses econômicos. Quanto ao primeiro aspecto, a
dimensão de rea- grande mácula resultante do afunilamento de sua análise é que Marx não tem mais
lização concreta diante dos olhos “o conjunto da infraestrutura da sociedade, com a separação entre
dos potenciais o estado público, a economia privada e o direito que, de algum modo, realiza uma
normativos de mediação entre ambos” (Honneth, 2018b: 8). Já quanto ao segundo aspecto, as lutas
liberdade. Assim,
de classe deveriam, segundo Honneth, ser observadas tendo em vista o princípio de
para além da
que “a margem de manobra para a persecução do princípio do lucro varia com as

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condições institucionais e culturais que vigoram em cada determinado momento” volumosa biblio-
(Honneth, 2020: 98-9). Decisiva para essas reflexões é a ideia de que existem grafia já canônica
(incluindo aqui
condições institucionais que ampliam ou delimitam a ação econômica e, logo, as
contribuições
condições sob as quais o imperativo da transformação do capital em mais capital decoloniais
podem ser limitadas. e feministas)
crítica à tese que
Não por acaso, nos artigos em que defende que as categorias da análise econômica o capitalismo
utilizadas por Marx poderiam ser separadas em suas dimensões de comércio e de possui pressu-
postos morais,
utilidade, Honneth afirma que, se este procedimento fosse aplicado à categoria da
existe uma tam-
exploração, a consequência de um tal modo de apresentação da crítica do capitalismo bém relevante
seria a constatação de que bibliografia que
discute os limites
faz notável diferença para a experiências das pessoas envolvidas, dessa concepção
mas também para a produtividade das empresas se a apropriação em diálogo mais
do trabalho excedente se dá por meio da ameaça física, se é direto com a
forçada pelo fingimento de sedutora generosidade patriarcal ou se tese de Honneth,
é formatada pela utilização de um certo grau de co-determinação, questionando,
em alguma medida cooperativa (Honneth, 2018b: 25). entre numerosos
outros aspectos,
No âmbito da sociologia do trabalho e da economia política, tal afirmação já se mercados po-
dem ser conside-
indica que o modelo de crítica do capitalismo seguido por Honneth se apoia na
rados esferas de
identificação de que as tensões internas ao mercado se situam na dimensão liberdade (Jütten,
comunicativa que possibilita ou limita a expansão desenfreada da extração de valor 2015) ou quais
e a imposição de imperativos de maximização de ganhos pessoais. Essa posição, critérios éticos
cabe notar, é resultado de uma alteração da concepção honnethiana sobre o lugar seriam adequa-
do reconhecimento na arquitetura de sua teoria. Se, como exposto no início dessa dos a uma forma
de vida capitalista
sessão, em seus primeiros escritos, o conceito de reconhecimento ocupava o lugar de
(Jaeggi, 2018).
uma expectativa normativa, desde o início dos anos 2000, em alguma medida devido Nesse âmbito,
a seu debate com Nancy Fraser, mas em maior parte devido à própria mudança de embora em
escopo de sua teoria, conforme expressa no longo estudo O direito da liberdade diálogo indireto
(2011) o autor passou a considerar a ideia de reconhecimento como princípio com Honneth,
implícito de organização das relações sociais modernas, isto é, como objeto de uma as reflexões de
Nancy Fraser (cf.
condição de legitimidade de sociedades modernas. Nesse sentido, o reconhecimento
Fraser e Jaeggi,
passa a ser objeto de uma “reconstrução normativa” (Honneth, 2011: 23), um 2020, especial-
procedimento que visa identificar o potencial do reconhecimento implícito nas mente cap. 1 e
esferas de interação de sociedades modernas, ao mesmo tempo em que o reconstrói 2) são particular-
em sua corporificação institucional, que são as formas de exercício da liberdade mente relevan-
enquanto autonomia nessas sociedades. Conforme Emil Sobottka (2015: 99), nesse tes, na medida
em que mobili-
estudo Honneth opera “deslocando o foco de sua análise do efeito positivo da luta
zam a bibliografia
sobre a formação de autorrelações práticas sadias para a questão da liberdade e decolonial e
de suas expressões institucionais”. Com isso, sua teoria do reconhecimento – agora

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feminista men- entendido como um princípio implícito à pretensão de realização da “liberdade


cionada acima a social” (Honneth, 2011: 81) – permite que da posição original por meio da qual
fim de historicizar
Honneth pretendia continuar criticamente o modelo teórico de Habermas em vista
as condições de
possibilidade
da crise da sociedade do trabalho e da consolidação de novos modelos de conflito
de formação social (Neves e Souza, 2018; Neves, 2018) ele agora possa, como mostra Thor Veras
do capitalismo, (Veras, 2020: 260) “constatar no desenvolvimento das sociedades ocidentais uma
ressaltando suas série de redes estáveis de práticas sociais nas quais o comportamento exercido nas
características de relações pessoais era reciprocamente previsível”. Com isso, afinal, o deslocamento
gênero, coloniali-
de perspectiva em sua teoria do reconhecimento torna explícita a tensão com a obra
dade e racializa-
ção..
de Marx (cf. Sobottka, 1015: 107-8), uma vez que os agentes do mercado são vistos
não mais como representantes de classes, mas como membros de uma comunidade
cooperativa – embora, evidentemente, Honneth jamais ignore que esses membros
ocupam posições desiguais nessa esfera. É no primeiro artigo aqui tratado, aquele
sobre “A moral em O capital”, que a crítica de Honneth a Marx se deixa formular
como um modelo explicitamente assentado na interpretação do conteúdo normativo
de normas de orientação da ação política.

Ali, Honneth afirma que o afunilamento da visão marxista sobre a luta de classes
resulta da vinculação, na crítica da economia política, entre classes sociais e
uma “posição fundamental de posse ou despossessão dos meios de produção”
(2018a: 674). Justamente isso teria impedido Marx de perceber que ao lutar pela
determinação da forma concreta como deveriam ser realizados fenômenos como
a liberdade contratual ou a propriedade privada, as classes sociais mobilizariam o
“conteúdo semântico de princípios já institucionalizados” (Honneth, 2018a: 674).
Como consequência, ele não seria capaz de perceber algo que estava presente em
seus textos históricos, a saber,

[a]s frações da classe trabalhadora reclamam, nas palavras de


Marx, a “verdade” ou, como nós poderíamos dizer, o excedente
de validade normativo da ideia já institucionalmente estabelecida
da “propriedade privada” (p. ex.: Marx, 1971, p. 342), quando
demandam a transformação da democracia meramente “política”
em democracia “social”. Os agrupamentos da burguesia a ela
contrapunham uma outra interpretação normativa da mesma
instituição da “propriedade privada” ao eventualmente apoiar a
representação parlamentar, mas não permitindo que esta fosse
válida também para a esfera de produção (Honneth, 2018a: 672).

A propriedade privada, junto com todos os direitos individuais, aparece aqui como
objeto de luta, mas também como projeto normativo. Mais especificamente, como
um projeto alternativo à crítica da economia política que a toma coma a causa

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primordial do capitalismo, dado que, na interpretação proposta por Honneth,


a ela se associa uma forma de realização da liberdade, mediada pelos conteúdos
normativos de uma época. É por isso que, nesse modelo, a entrada no circuito do
mercado não é a mesma coisa que a participação na lógica de ampliação do capital,
aliás: com a primeira estão associadas as lutas pela realização de valores normativos
de sociabilidade, com a segunda a realização de valores de eficiência.

Todavia, é essa distinção que leva ao último ponto. Seguida a crítica de Honneth a
Marx até aqui, concluiu-se que há um ganho analítico em separar os conceitos de
capitalismo e mercado. Disso se desdobra que a objeção de fundo às discussões sobre
propriedade – e, consequentemente, também sobre trabalho e renda – não pode ser
formulada nos termos de uma recusa radical à tese de que há justiça nas instituições
do capitalismo. Finalmente, a conclusão deve se fechar com a ideia de que a renda
individual decorrente da propriedade e da venda da própria força de trabalho é
um termo de disputa, não apenas de dominação. Justamente, porém, onde Marx
parece aceitar de modo implícito todo esse movimento, no capítulo 8 d’O capital,
aquele sobre a duração da jornada de trabalho, há uma curiosa indicação de que as
coisas não são tão simples assim. Ali ele fala sobre o “impulso vital” do capital (Marx,
2013: 307), que é o que está por trás das ambições burguesas. Com essa imagem, no
entanto, não está associada meramente uma ideia de que o capital é incontrolável,
como, por exemplo, no Manifesto comunista (p. e. Marx e Engels, 2010: 43-45).
Antes, trata-se de notar que a classe burguesa carrega projetos normativos para os
quais, além da maximização do lucro também desempenham papéis importantes
outros aspectos, como a consolidação de leis e a aplicação de formas de organização
do trabalho – nesse caso, a aplicação de leis frouxas o bastante para a realização
do máximo dispêndio de força de trabalho com a menor resistência (Marx, 2013:
338). Mas, se voltarmos aos termos e aceitarmos a sugestão de Honneth de que “a
margem de manobra” dos agentes da economia política e da justiça social variam
com condições institucionais e sociais, talvez seja o caso de notar adicionalmente
que a produção dessas condições – da infraestrutura social de uma época, para usar
seu vocabulário – também é objeto de ação e disputa entre os grupos sociais e se
perguntar se ali também as classes sociais não possuem agência.

3. Uma economia política do reconhecimento

Uma característica distintiva do capitalismo, segundo Marx, é que o capitalista sabe o


que procurar no mercado. Isso significa que o mercado já contém realizadas suas pré-
condições. Para Marx, os proprietários de mercadorias se encontram em um mercado
onde têm “de se reconhecer como proprietários privados” (Marx, 2013: 159) que
agem como portadores de mercadorias, mas também que, enquanto possuidor de

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dinheiro “encontre no mercado a força de trabalho como mercadoria” (idem: 243).


Nesse sentido, o mercado é onde se realiza sob uma aparência de reciprocidade a
relação jurídica historicamente não natural entre dois sujeitos igualmente privados,
igualmente proprietários e desigualmente capazes de executar suas vontades.
Assim, enquanto Honneth interpreta o surgimento do mercado como resultado de
“diferenciações funcionais” que, posteriormente, se deixam penetrar e conduzir
pelo desenvolvimento desenfreado de uma das esferas, é possível considerar que
a análise histórica da pré-formação do mercado apresentada por Marx n’O capital
contém um movimento que ecoa a descrição do papel iminentemente revolucionário
da burguesia, isto é, a consolidação de um espaço ampliado de extração do capital,
o mercado de compra e venda da força de trabalho, é resultado de agência social.
Nesse sentido, utilizando o método honnethiano da reconstrução normativa para
criticar o próprio Honneth, a pressão burguesa sobre o processo histórico poderia
ser lida como o exercício da capacidade de formar e consolidar um mercado no qual
a força de trabalho vira mercadoria não apenas para o burguês que sempre desejou
possuí-la, mas também para a classe trabalhadora, que finalmente se vê compelida
a agir como vendedora, forçando finalmente os grupos sociais a assumirem seus
papéis dramáticos e “se reconhecerem como proprietários privados”, conforme
citado acima. Ou seja, o desenvolvimento desenfreado do princípio de maximização
do interesse econômico no mercado seria, sim, o reflexo daquele impulso vital do
capital realizado dentro das circunstâncias históricas de ascensão das relações sociais
capitalistas, mas não porque de alguma forma um modo de produção econômica
baseado na transformação do trabalho em mais valor fora projetado pela nascente
burguesia enquanto ação histórica; antes, o mercado se consolida historicamente
como uma esfera de exploração – e de aparência ilusória de igualdade formal –
porque as negociações e disputas políticas entre os grupos sociais possibilitaram
o estabelecimento de relações de exploração no mercado. Nesses termos é
possível entender porque Marx define que “O que caracteriza a época capitalista
é, portanto, que a força de trabalho assume para o próprio trabalhador a forma de
uma mercadoria que lhe pertence, razão pela qual seu trabalho assume a forma do
trabalho assalariado” (Marx, 2013: 245, nota 41, itálico adicionado). É curioso notar
que o vocabulário utilizado por Marx para descrever essas transações no mercado
trata as classes sociais não como meros pólos de uma confrontação social, como
era o caso no Manifesto, mas como atores de uma peça dramática, como dramatis
personae.

Na própria estrutura do livro, no entanto, Marx separa os dois processos históricos


que transformam a capacidade produtiva humana – o trabalho – em mercadoria,
pois, se a reconstrução da acumulação primitiva se encontra no final do volume, na
seção destinada à acumulação do capital, o uso do trabalho como mercadoria é tema

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de um arco que se estende do capítulo 2 ao capítulo 8 deste mesmo primeiro volume, 10. Cabe aqui
justamente o arco das figuras dramáticas. Novamente, é notável que a transformação uma nova men-
ção a Roberto
do trabalho em mercadoria ocorre exclusivamente dentro do mercado – e devido à
Schwartz, que,
ação dos atores do mercado, as classes sociais e, ainda mais gritante, por meio de ao republicar
uma negociação encenada pelos agentes da sociedade – enquanto que a alienação seu ensaio sobre
e a consequente apropriação dos frutos da alienação ou da produção de mais valor A Santa Joana
ocorre fora do mercado (cf., a esse respeito, Roberts, 2017, cap. 4, especialmente dos Matadou-
p. 106-108, onde o autor discute a antecedência da relação de negociação frente ros como nota
introdutória
a exploração violenta da força de trabalho no mercado). Como bem sabia a Joana
à tradução da
Dark de Brecht, no mercado a força moral que impele à manutenção da sociedade peça, adicio-
é expressa em um contrato justo; como bem sabia o velho Marx, porém, a justiça nou o título “O
do mercado é justa porque apaga a injustiça que o cria; finalmente, como bem bate- oca das
sabia o jovem Marx, a injustiça que cria o mercado se abate sobre as produtoras e classes”, com o
os produtores exatamente porque essas pessoas devem almejar, como discursava que se explica
que, em suas
Joana, à conquista da força aquisitiva. O ciclo parece se fechar, mas o que Marx não
palavras, Aa]
parecia conseguir explicar é como indivíduos, particularmente indivíduos levados linguagem [da
a comercializar sua força de trabalho, seriam capazes de se expressar no mercado peça], agressiva-
capitalista se não pela aquisição de força aquisitiva10. Nesse sentido, o ciclo não se mente artificial
fecha de verdade porque ao participar do ciclo do mercado, as pessoas efetivamente e heterogênea,
almejam o salário que podem obter vendendo a força de trabalho como um direito força a pro-
miscuidade de
– historicamente esse direito recebeu várias formas: direito ao salário regular, ao
estilos verbais
salário justo, direito ao trabalho, direito ao lazer; sempre foi, no entanto, o direito a com repugnân-
vender sua força de trabalho. cia recíproca”
(Schwarz, 1987:
Para Honneth, isso se deve precisamente ao olhar afunilado de Marx para as relações 90; cf. também
sociais, a respeito das quais ele perde de vista o fato de que a separação funcional “Apresentação”
in Brecht, 2001).
entre economia e Estado, cada qual com suas tensões internas, demandava também
Embora irônica,
a função mediadora do direito às liberdades individuais, dentre as quais a liberdade a representação
de propriedade (2018b: 8). Consequentemente, se ele acertadamente sugere que o que Marx faz da
escopo do conflito social deva ser tratado com cuidado para não transformar toda a relação entre
sociedade em relações de produção, Honneth poderia ter dado um passo adicional patrão e empre-
e sugerido também que nas atuais condições da economia política, a luta de classes gado no momen-
to da compra e
parece ter se movido para fora do trabalho, e se realiza hoje em âmbitos como como
venda da força
a prática do direito e a definição de políticas sociais pelo Estado. Isso, finalmente, de trabalho
não equivale a repetir a velha fórmula de que o direito é um campo de forças e não deixa de
tampouco a ainda mais antiga ideia de que o Estado age como comitê da classe repousar sobre
dominante, embora rica literatura já tenha tirado consequências muito frutíferas a confluência
dessas constatações (basta pensar Claus Offe (1984, cap. 4) e na ideia de que o de interesses,
como, por
Estado possui uma “seletividade estrutural” que favorece a burguesia). O que parece
exemplo, aqui:
sumamente atual no texto de Brecht, descontada a ironia com que o autor observa a

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“O possuidor do coisa toda, é que no discurso da Joana Dark está colocada uma demanda por justiça
dinheiro pagou como renda em um momento de crise aguda. Autores como Jürgen Habermas e
o valor de um
Seyla Benhabib (p. e., Habermas, 2015, cap. 4; Benhabib, 1986, cap. 4) já mostraram
dia de força de
trabalho; a ele
que a melhor maneira de entender Marx é tomar sua caracterização do capitalismo
pertence, portan- como a de um sistema em crise permanente e, em vista disso, a crise enfrentada pela
to, o valor de uso Joana e pelos trabalhadores sem renda do trabalho se repete sob outras formas. Em
dessa força de um momento em que a financeirização do capital e a organização da economia de
trabalho durante plataformas cavalgam o processo de expansão mundial do capital conduzido pelas
um dia, isto é,
grandes corporações criando uma visível e, ao mesmo tempo, impalpável rede de
o trabalho de
uma jornada. A
desresponsabilizações no mercado, nos deparamos com problemas básicos para a
circunstância na conformação de políticas de seguridade de renda associadas ao trabalho e à venda
qual a manu- da força de trabalho. Esses últimos continuam a existir e a gerar capital, mas, por
tenção diária da exemplo, quem é o patrão a quem apelamos quando a jornada de trabalho como
força de trabalho motorista de aplicativos se torna excessiva? A quem reclamamos a garantia de um
custa apenas
tempo de recuperação física e emocional quando somos representantes comerciais
meia jornada de
trabalho, embora
autônomas? Para onde se dirige a reclamação de que é necessário um contrato com
a força de traba- renda mínima quando somos forçados a entrar no circuito do mercado via esquemas
lho possa atuar de pirâmide disfarçados de comércio e serviços? Essas são questões básicas e iniciais
por uma jornada para uma teoria da justiça que se preocupe com os conceitos de propriedade e renda
inteira, e, con- quando observadas do ponto de uma economia política do neoliberalismo. São
sequentemente,
também questões que indicam que a ironia brechtiana ganha tons mais sombrios
o valor que ela
cria seja o dobro
justamente porque a margem de manobra na qual classes sociais agem ainda parece
de seu próprio abrir espaço para que a economia seja reorganizada sob a forma de uma cadeia de
valor diário – tal desresponsabilização, direitos sejam depenados e políticas sociais de distribuição de
circunstância é, renda ou de tributação sejam utilizadas em favor da realimentação do poder vigente.
certamente, uma
grande vantagem
Frente às questões colocadas acima, a ideia, recuperada nos trabalhos recentes de
para o compra-
dor, mas de modo
Honneth, do reconhecimento como um princípio implícito das formas da liberdade
algum uma injus- moderna poderia ser tomada como ponto de partida para uma crítica político-
tiça para com o econômica precisamente porque aquelas situações mencionadas, que creio serem
vendedor” (Marx, identificáveis na paisagem social do capitalismo em seu regime neoliberal, expressam
2013: 270). a destruição de vínculos nos quais agentes coletivamente recorrem umas às outras e
outros, seja por meio de conflitos, disputas ou formas de competição, seja por meio
da reivindicação de direitos, políticas de seguridade ou expressões de solidariedade.
Com isso quero dizer, para concluir este artigo, que o que foi apresentado como uma
interlocução normativa entre Marx e Honneth a respeito do estatuto conceitual e
político da ideia de propriedade não deixa de ter implicações para a compreensão da
organização do regime neoliberal do capitalismo, uma vez assumido o pressuposto
de que tanto a formação histórica de mercados (e do mercado capitalista de compra
e venda da força de trabalho em particular) quanto a entrada de agentes no ciclo

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do mercado expressam disputas e lutas entre grupos e classes sociais a respeito da 11. A melhor
forma assumida por essa relação de mercado. Mais do que recusar uma compreensão formulação
dessa posição,
do capitalismo neoliberal como um projeto político de desmonte da sociedade
a meu juízo,
pregressa1, creio que os desdobramentos da economia política do reconhecimento é a de Wendy
pleiteada no presente artigo fazem jus a e conectam um complexo de problemas Brown (2015),
referentes às disputas, às práticas de expropriação e às condições de apequenamento em Undoing the
humano presentes na conformação histórica de relações de mercado, por um lado, e demos.
um complexo de problemas referentes às formas de ação coletivamente orientadas
(cooperativas ou competitivas), às práticas de exploração e às condições de
desresponsabilização e submissão de um princípio de reciprocidade típico da divisão
do trabalho moderna pelo ‘impulso vital’ de maximização individualizada do capital,
por outro. Todavia, e essa é a nota positiva com a qual quero terminar, os espaços
da economia, dos direitos sociais e das políticas de justiça igualitária são justamente
aqueles onde histórica e repetidamente provou-se que a disputa pela realização de
critérios de justiça foi mais produtiva do que a negação de sua importância, isto é,
espaços onde lutas por reconhecimento e disputas pela conquista de dignidade e
segurança têm se provado formas de interação que abrem horizontes de crítica do
presente.

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