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Despertar de Amberly: Ansiedade e Superação

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Despertar de Amberly: Ansiedade e Superação

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Capítulo um: República e hospedagem.

Acordo com o coração acelerado. Meus olhos


abrem com dificuldade e o olfato pouco a
pouco retorna à intensidade natural. Os
músculos, voltam a exercer suas funções
apenas alguns segundos depois. O
despertador informa que são sete da manhã.
Segunda feira, a primeira do quarto período
do curso de Psicologia, e o dia de
inauguração da atlética.
Confiro se tudo está em seu devido lugar.
Meu cabelo louro médio, ainda cobre meus
seios, chegando quase na cintura. As dez
unhas compridas, ainda estão esmaltadas
com glitter, e provavelmente ninguém tentou
arranca-las enquanto eu dormia. Minha pele
não possui novas marcas de violência, nada
além das linhas finas e horizontais nos pulsos.
A noite não me destruiu.
Pelas roupas, consigo detectar quem esteve
aqui ontem, mas meu cérebro permanece em
branco. Estou vestindo um moletom
exageradamente grande, e calça jeans
folgada de quinta categoria, com rasgos nos
joelhos. Caminho para o banheiro, removendo
as roupas e as fitas que prendem
dolorosamente meus seios. Ligo o chuveiro, a
água fria cai, criando atrito contra o corpo. O
plástico da touca de banho emite um barulho
que, graças à minha enxaqueca, parece alto e
irritante demais, porém silencia as vozes da
minha cabeça. Posso notar a pele de minhas
costas exageradamente oleosas. Renan não
deve ter usado o chuveiro adequadamente,
porque meu órgão sexual também não parece
limpo. Mas, não o culpo por isso. Minha
genitália às vezes é um grande obstáculo.
Saio da suíte, envolta pelo roupão de banho,
e atiro sob a cama a roupa que estava
separada á semanas para essa ocasião.
Capricho na maquiagem. Os cílios postiços e
o gloss labial são meus instrumentos de
guerra, o restante, apenas complementos.
Ainda tenho dificuldade de manusear a
ventosa para colocar minhas lentes de
contato, mas faço isso antes de selar o rosto
com o pó compacto. Coloco as presilhas de
strass no cabelo, e finalmente estou pronta.
Sorrio ao olhar no espelho, examinando os
arranhões nas bochechas que já começaram
a cicatrizar.
- Amberly, já está pronta?
Ouço as batidas na porta e grito um ‘’ bom
dia.’’ O timbre da minha voz faz mamãe
acreditar que sou eu mesma, e posso
imaginar seus ombros tensos relaxando aos
poucos.
- Está tudo bem? – ela pergunta de novo.
- Está. Só estou um pouco enjoada.
Nunca sugiro que estou completamente bem,
mesmo sabendo que meus sintomas
psicossomáticos a deixam preocupada. Estar
sem nenhum deles poderia ser um sinal de
que não preciso de ajuda. E quero que ela
saiba que preciso.
- Quer um comprimido? – oferece.
- Não precisa. Já estou descendo.
Acredito na possibilidade de ela estar ansiosa
para me ver, com medo de que algo tenha
mudado em mim fisicamente. Uma mudança
irremediável. Não falamos muito sobre isso,
mas, sempre existe aquele medo em sua voz,
todas as manhãs. E às vezes também em
horários intermediários.
- Te espero para o café da manhã. – Ouço
seus passos seguirem até a escadaria.
Visto a camisa com mangas compridas, minha
saia jeans favorita, e Mule’s cor-de-rosa. A
falha feita propositalmente na minha
sobrancelha esquerda, felizmente está oculta
por sombra marrom e pequenas mechas que
caem propositalmente da franja.
Desço as escadas, e ligo a cafeteira, com
cuidado para não provocar barulhos
desnecessários. Meu pai ainda está dormindo,
seu despertador só funciona às nove da
manhã. Me sento com uma xícara de
capuccino, e encaro o cômodo paralelo a
cozinha. Mamãe vasculha alguns papéis nas
prateleiras da estante envernizada do
corredor, antes de finalmente se sentar.
- Sobre... ontem. Está tudo bem aí? – ela faz
a mesma pergunta de sempre, arqueando as
sobrancelhas grossas e escuras.
- Sim. Parece que sim.
Ela abre um pacote de cookies, e o
arremessa desajeitadamente para o meu lado
da mesa. Seus olhos continuam fixos em mim,
esperando uma frase mais longa. Ignoro.
- Quer achocolatado?
- Espinhas. – Falo, apontando para o rosto
com o indicador.
Ela balança positivamente a cabeça e bebe
alguns goles de café com leite. Ajeito a gola V
da camisa, soltando um suspiro desafinado.
- Ansiosa para o dia de hoje?
Não deveria estar, mas estou. Dizer algumas
palavras animadas às oito da manhã na frente
de mil alunos não é um grande obstáculo. Há
uma técnica para isso, que consiste em
apertar os olhos e imaginar que estou na
frente da câmera do smartphone, em uma live
do Instagram. O público não é o que me
preocupa, mas as minhas limitações. Sou
uma aberração, e isso pode ficar evidente em
qualquer momento.
Tomar a minha voz, meu ser, e minhas
palavras fúteis de líder de torcida.
- Muito ansiosa. Mas treinei a noite toda. Quer
dizer, a umas duas noites atrás.
- Tenho certeza de que vai se sair bem.
- É, eu espero que sim.
Me levanto, colocando as louças na máquina
de lavar. Caminho até a sala, e procuro meu
celular pelo estofado do sofá. Feliz ou
infelizmente, a carga continua completa, como
deixei anteriormente, o que indica que Renan
não o utilizou por mais de trinta minutos.
- Só não deixe nada te distrair. Lembre de
quem você é. – me aconselha. – A
princesinha da mamãe.
Desbloqueio a tela, conferido as milhares de
notificações, e tentando, sem sucesso, ignorar
as mensagens de garotas apaixonadas e
tweets sinistros. Há uma mensagem de
Dimitri, me convidando para sair depois de
seu torneio de futebol. Aceito sem pensar.
- Obrigada mãe. Tenho que ir agora. Vou
acabar me atrasando.
- Tudo bem, querida. Não se esqueça da
terapia amanhã. Precisa que eu avise os
professores que vai faltar?
Dia de terapia. Eu havia me esquecido
completamente.
- Não, não precisa. Pode deixar, não vou
esquecer.
Pego a mochila na pequena mesa de centro,
com uma vistoria rápida confiro se todos os
objetos estão aqui, e se Renan não substituiu
minhas apostilas por garrafas de vodca. Saio
pela porta da frente, dando de cara com o
portão fechado.
- O chaveiro de borboleta, em cima do
interruptor. – Minha mãe indica, gritando da
cozinha.
- Obrigada. – Mando um beijo, que ela finge
pegar no ar.
Fecho a porta, e atravesso o jardim, me
distanciando pouco a pouco da faixada de
casa, até ela se tornar invisível no quarteirão
seguinte. Hoje felizmente está frio, o que
significa transpiração a menos, ainda assim,
borrifo um pouco de perfume, enquanto me
acomodo em um banco da calçada para
esperar o ônibus.
Apesar de ter meu próprio carro, ainda não
aprendi a dirigir, então, ele fica com mamãe,
são e salvo, facilitando sua locomoção até o
emprego.
- Amberly! – Dara grita, cruzando a rua.
- Oi amiga! – Me aproximo com passos largos,
correspondendo a um abraço dela. – Como foi
o fim de semana?
- Nada demais. Netflix, um pouco de corrida
matinal, e pizza. Duas ou três fatias. – Fala,
cerrando os olhos e erguendo a blusa laranja
pêssego acima do umbigo. – Falando nisso,
você acha que engordei?
- Correu antes ou depois da pizza?
Ela franze a testa por alguns segundos,
pensando na resposta.
- Pizza no sábado à noite, corrida no domingo.
- Perfeito. Não engordou.
Arranco um sorriso dela, que abaixa
novamente a blusa, encarando um pouco a
própria barriga antes disso. Sua preocupação
exagerada com o corpo às vezes parece
patológica.
- Fiquei esperando você publicar alguma foto
ontem. Por que passou o dia todo offline?
- Acabei me esquecendo. Fiquei ocupada
relendo meu discurso de abertura.
Na verdade, estou usando essa desculpa a
quase duas semanas.
- Tem certeza que é só isso? Quer dizer,
concordo com a coisa do discurso, mas você
tem quase dez mil seguidores e precisa estar
atualizando sempre.
- Sei disso, não se preocupe. Vou publicar
alguma coisa hoje. – Forço um sorriso.
- Se precisar de inspiração, podemos ir ao
shopping.
Posso ouvir Renan protestar contra isso, e
franzo a testa sem querer. Fico em silêncio
por alguns segundos enquanto ela curva o
pescoço para encarar a rua.
- Ainda não peguei a minha mesada.
- Certo, certo. Esse mês seus pais estão
demorando. Mas quando pegar, não se
esqueça de visitar a Victor Hugo comigo.
Mesmo que seja minha melhor amiga, Dara
não sabe muito sobre mim. Não o lado
negativo, como a depressão e todos os outros
transtornos, que consigo disfarçar com
maestria. Então, preciso pintar uma felicidade
espontânea por qualquer coisa que ela
sugere.
- Vamos visitar, com certeza. E publicar tudo
no IGTV!
- Boa ideia. Você tem um chiclete? – muda de
assunto.
- Acho que sim.
Vasculho os bolsos de lantejoula da mochila,
até encontrar um. O vento balança nossos
cabelos, criando uma estranha melodia com
os sopros. Me apresso para colocar os óculos
escuros, que ajudam a diminuir o incômodo
causado pelas lentes de contato.
- Obrigada. – Ela rasga a embalagem com os
dentes.
- Estudou para estatística? Estou muito
ansiosa, todos dizem que é a pior matéria.
- Sim, estudei um pouco. Mas não acho que
seja pior que as aulas teóricas, porque elas
me dão muito sono.
- É. Tem razão. – Solto uma gargalhada.
O ônibus estaciona à nossa frente. A cor
amarela ovo destacando-se na paisagem
opaca. Um homem desce, acenando para o
motorista, em seguida, nós subimos.
- Olá, garotas.
Balbuciamos um oi, e caminhamos em
equilíbrio, sentando nos primeiros bancos.
- Não vejo a hora de pegar minha carteira de
motorista. Andar de ônibus é tão idiota. –
Minto, usando o mesmo comentário de
sempre.
- Também acho que você precisa. Tipo,
urgente. Pelo menos antes do meu pai me dar
um carro.
Agora, posso sentir que não estou sozinha,
alguém luta pelo comando. Por algum motivo
imbecil, o trajeto até a faculdade é um desafio
enorme. Tento ser forte, mas a verdade é que
muitas coisas servem de gatilho, e nem todo
brilho labial do mundo consegue evitar isso.
Muitas pessoas juntas. Atletas, roqueiros e
cdfs, e garotas que como Dara e eu, lutam
pela desejada popularidade.
- Vai ficar para assistir os jogos? – Questiono,
testando minha voz.
- Não. Me contento em te ver fazendo a
abertura. No máximo vou ficar para ver as
mascotes idiotas. E você?
- Acho que vou sair com Dimitri depois dos
jogos.
- Dimitri? – tento analisar se ela está surpresa
ou simplesmente não se recorda dele.
- De educação física.
- Ah! Isso significa que vocês estão, tipo...
juntos?
- Não significa! – dou um tapinha em seu
ombro.
- Vou fingir que acredito. – pisca. – Mas, me
conta, vocês já transaram?
- Dara! – grito.
- O que foi? Achei que fosse sua melhor
amiga, preciso saber dos detalhes!
- Não tem detalhes, e é isso. – Visto
novamente a mochila, e solto um riso.
Relações sexuais sempre foram um problema
para mim. Relação sexual com um garoto
lindo e popular chamado Dimitri? Um
verdadeiro tabu, crime sujeito a pena de
morte. Para quebrar essa lei, seria
equivalente semanas de discussão com as
outras pessoas da república da minha cabeça.
- Boa diversão para vocês então. Eu vou
tentar não vomitar durante o discurso da
Scarlet. Por favor, me salve logo. – Ela ri.
- Darei o meu melhor para não matar vocês
de tédio. – Ficamos de pé, e nos equilibramos
de volta para sair do ônibus.
- E mande vibrações positivas, sabe, para que
eu me divirta também.
- Estarei torcendo. – Pisco. – Se não estiver
com as mãos ocupadas, é claro.
- Oh, certo, certo. – Balança a cabeça
negativamente. – E esses óculos? Tem
certeza de que precisa deles?
- Eu gosto. – Cerro os olhos.
- Fica bonito no seu Instagram. Mas, sabe, é
meio ultrapassado. –
Dou de ombros e me afasto, retirando-o do
rosto.
- Oi Amberly.
Um garoto de jaqueta preta diz, quase
esbarrando conosco na saída. Não me
preocupo em vasculhar minhas memórias em
busca de seu nome, mas, acho que mesmo
se fizesse, dificilmente encontraria.
- Oi. – Me concentro em dar passos largos,
escapando da multidão.
- Espera, gata! –Toca meu ombro, ficando
entre Dara e eu. -Por que não respondeu
minhas mensagens no fim de semana?
Seu rosto era um emaranhado, graças a
minha amnésia recorrente. Talvez não esteja
me lembrando de seu nome, ou, alguém
esteja usando o meu para sair com ele. Dara
revira os olhos, e aperta o passo, me
deixando para trás.
- Fiquei um pouco ocupada. – Forço um
sorriso.
- Puxa. Desde quando não nos falamos? Senti
sua falta.
O sotaque sulista e a forma descarada de
continuar um assunto indesejado, me fazem
lembrar seu nome. Eric, vinte e poucos anos,
aluno de um curso técnico, não tenho certeza
de qual. Gatilho. Maldito gatilho. Eu
costumava ser forte, mas, ultimamente, uma
aproximação masculina já era suficiente para
perder o controle.
‘’ Responde, vadia. Desde quando? Desde
que ele te arrastou para o fundo do
estacionamento?’’ Ouço Renan dizer.
- Desculpe, Eric, preciso ir. – Me afasto.
Há uma coisa chamada headspace. Uma
espécie de rede social biológica e secreta, em
alguma parte do meu cérebro, onde
normalmente conseguimos nos comunicar,
através de pensamentos. Apesar de preferir o
Instagram em quase todas as ocasiões, usar
o headspace é indispensável às vezes.
‘’ Vou sair com Dimitri hoje. Por favor, tente
não surtar.’’ Tomo cuidado para meus lábios
não se moverem muito.
‘’ Me esforçarei bastante, prometo.’’ Ele
responde, sarcástica e imediatamente.
- Dara, espera. – Aperto os passos.
Entrar sozinha no território da atlética não era
uma possibilidade cogitada por nenhuma de
nós duas. E nem devia ser.
- Que cara chato! Mas é bonito.
- Nem me fale.
Entramos na quadra. Os olhares se fixam em
nós duas por alguns segundos. Aceno
aleatoriamente para os que estão se
acomodando na arquibancada, e caminho
observando o palco, preparado especialmente
para Scarlet e eu.
- Espero que tenha ensaiado bastante,
querida. São mais pessoas do que eu
imaginava.
Ida é a coordenadora de curso. Os olhos
grandes cor de mel parecem ameaçadores,
mas sei que ela não faz por mal, é uma
perfeccionista e ansiosa nata.
- Não mais de dez mil. Tudo bem, é sério, vai
ser brilhante. Sei lidar com isso.
- Eu tenho certeza de que ela vai se sair bem.
– Dara incentiva.
A mulher acaricia meu ombro como resposta,
e se afasta para aplicar outra tensão
psicológica, dessa vez nas jogadoras de vôlei.
- Obrigada, ela é uma chata.
- E eu não sei? – ri, checando o celular. –
Temos dez minutos, quer retocar a
maquiagem ou andar por aí admirando seu
público?
- Acho que a segunda opção. – Seguro seu
braço suavemente, guiando-a.
A hierarquia estudantil parece estranhamente
visível agora, de um jeito absurdamente
clichê, o que me deixa bastante feliz.
- Eu não acredito que aquela garota ainda usa
calças jeans coloridas. – Dara sussurra,
olhando para um grupo de nerds.
- Piores são aqueles couros sintéticos das
jaquetas. – Uma observação bastante
aleatória.
- Até que fica bem nos garotos. – Cerra os
olhos.
Os atletas estão reunidos ao redor de Scarlet,
que dá ordens como uma abelha rainha.
Dimitri está lá também, e acena para mim
antes de atear a mochila no chão, enquanto
passo.
- Já volto. – Falo.
- Onde vai? – Ela pergunta.
- Dizer olá para Scarlet.
Eu a vejo revirar os olhos enquanto retoco o
gloss da boca, seguindo o contorno dos lábios
sem olhar o resultado no espelho.
- Certo, certo, não vou participar disso. Até
mais tarde então?
- Até depois do discurso. – Jogo um beijo para
ela com as mãos.
- Nos encontramos na saída, não esqueça! –
Grita.
Balanço a cabeça em sinal positivo, e penteio
com os dedos algumas mechas de cabelo que
caem em meus ombros. Cruzo a quadra em
direção a Dimitri, que me corresponde sem
delongas.
- Amberly! Como vai a minha princesa?
- Estou bem, obrigada. Um pouco ansiosa,
acho.
- Nosso encontro ainda está de pé? – Ele
sussurra.
- Claro que sim. – Dou de ombros.
- Perfeito.
Dimitri se curva para me beijar. Correspondo
com um selinho rápido.
- Caramba, Amber! Quem é sua manicure?
A voz surge atrás de nós enquanto nossos
lábios se afastam. Scarlet abre espaço entre
os outros atletas. Dimi dá um passo para trás,
e ela segura minhas mãos.
- Fica na quinta avenida. Ao lado da Privallia.
- Está incrível! – Ela sorri, exibindo a fileira de
dentes brilhantes, e o strass no dente canino.
- Obrigada. – Checo o horário na tela do
celular.
Uma garota alta de cabelos negros e
perfeitamente ondulados, segura minhas
mãos também, sem olhar para o meu rosto.
Não me recordo dela, e acho que Renan
também não.
- Bom, Amber. Não esqueça de parecer
animada quando me chamar ao palco. Sabe
como as pessoas notam essas coisas.
- Obrigada pela dica, Scarlet. – Forço um
sorriso.
- Vamos garotas! Já são oito horas! – Uma
veterana loura interrompe, segurando minha
mão.
- Me encontre no portão da frente daqui a
quarenta minutos. – Dimitri fala, depositando
um beijo na minha bochecha.
- Combinado. – Sorrio, e sigo a veterana até o
palco, sentindo os olhos brilhantes do público
pousados em mim.
Capítulo dois: Bolsas de sangue
- Ambenrly! Seu discurso foi ótimo. – Não
tento identificar a voz.
Ás vezes parece impossível tirar tanta
maquiagem usando a porra de um lenço de
papel, mas é a única opção. Tento fazer isso
rapidamente, por dois motivos: Primeiro, o
banheiro da quadra é fétido,
independentemente se uso o feminino,
masculino, ou o exclusivo para deficientes
físicos. Segundo, fora as lentes de contato
esse tom alaranjado nas pálpebras é tão
ridículo quanto o contraste com as lentes de
contato, que, graças as malditas unhas
postiças, não consigo remover.
‘’ Amberly? ‘’ uma garota ruiva e baixinha
entra no banheiro. E essa é a terceira coisa
que me faz odiar esse corpo e querer pular a
janela: sua popularidade teatral.
‘’ Vai se foder. ‘’ Esfrego o rosto ainda mais
depressa.
‘’ Entendi. Você mudou de humor. ‘’
Permaneço em silêncio, mas ela não move
nem um músculo em direção oposta. ‘’ É um
desperdício gastar tanta maquiagem para
depois tirar tudo com toalhas descartáveis que
dão espinhas. ‘’
‘’ Sério? Obrigado pela informação.’’ Olho
para ela tentando expressar sarcasmo. Será
que seu mínimo encéfalo consegue captar
isso?
‘’ Dimi está procurando por você. ‘’ Continua.
Bufo. ‘’ Não enche, porra. Será que dá para
me deixar em paz? ‘’ Grito. Sei que é errado
gritar com garotas, mas, ás vezes sou
obrigado a abrir exceções, porque,
especificamente as amigas de Amberly, são
chatas para porra, e quase nunca as suporto.
Exceto pelos selinhos lésbicos.
‘’ Quer que eu diga isso a ele?’’ Pergunta.
‘’ Tanto faz. ‘’
Retiro uma alça da mochila, deixando-a
dependurada em meu braço direito. Caminho
em direção a saída, empurrando de leve seu
ombro. Estou provavelmente com grandes
borrões de maquiagem pela face, posso
enxergar de determinado ângulo, fios escuros
de rímel colando nas olheiras. Alguns garotos
na quadra estão comemorando, atirando as
camisas suadas e nojentas para a plateia. O
cara de cabelos claros com um corte militar
ridículo sorri e corre em minha direção.
‘’ Então... ele começa.’’
‘’ Vou dar o fora.’’ Interrompo, sem diminuir
os passos.
‘’ Só espera um segundo, preciso avisar o
pessoal. Eles vão procurar por mim. ‘’ Diz.
Forço uma gargalhada, parando em sua
frente. A testa suada quase brilha acima das
marcas de expressão. Ele deve perceber que
há algo estranho em meu olhar, por que o
sorriso idiota evapora de seu rosto e agora os
olhos ficam cerrados. ‘’ Acho que você não
entendeu. Eu vou dar o fora, sozinho.’’ Falar
no masculino ainda é inevitável, mesmo que
todos tenhamos um pequeno curto-circuito ao
dar gênero as palavras. ‘’ Quer dizer, sozinha.
‘’
‘’ Mas...a gente tinha combinado. ‘’
‘’ Foda-se. ‘’ Mostro o dedo médio, e volto a
caminhar para a saída.
‘’ Você é maluca ou o quê? ‘’ Ele berra. Não
respondo.
São dez e quarenta. Me sento em um dos
bancos no corredor, próximo ao
estacionamento, e vasculho a bolsa idiota em
busca do aparelho celular. Amber não se
lembrou de trazer uma blusa ou camisa
unissex, ou, mais possivelmente, tenha feito
de propósito, mas pelo menos trouxe um par
de chinelas, que visto, enfiando seus sapatos
ridículos desajeitadamente na mochila. Desvio
do corredor, e caminho, cada vez mais
distante da quadra, percorrendo com cuidado
os blocos de salas vazias. Analiso, um a um,
como um predador sorrateiro. As grades de
proteção, sempre desprovidas de cadeados,
portas pequenas demais que tornam
impossível a passagem de mais de cinco
pessoas por vez.
‘’ Bom dia. ‘’ Um velho de bigode diz
formalmente. ‘’ Bom dia. ‘’ Respondo,
tentando parecer educado.
Ele se afasta com pegadas barulhentas, e
olho por cima dos ombros para observá-lo
virar à esquerda. Enxergando esse rosto,
ninguém sabe quem realmente sou. Meu
nome é provavelmente oriundo de uma placa
vista de relance em uma sepultura, ou retirado
de uma notícia trágica do jornal local de anos
atrás. Eu tenho uma história, um passado,
mas eles não passam de enchimento falso e
podre preenchendo as lacunas do nosso
cérebro.
Fotografo e filmo com o aparelho celular,
escondendo tudo em uma nuvem secreta do
meu outlook. Tudo faz parte do plano. O
grande plano, que finalmente revelará minha
verdadeira face para o mundo. Meus dedos
digitam rápido enquanto faço o retorno, e
subo a esquina até o Pub Universitário, que,
as onze da manhã, vende mais chocolates
quentes que cerveja.
‘’ Tem que ser bem bolado, Renan. Nada
pode sair do controle, senão, vai dar merda.’’
‘’ Relaxa. Vou encarar tudo como um maldito
hobbie. Vai ser demais.’’
Encerro a janela anônima, sem digitar mais
nada, mas, pela barra de notificação posso
ver a última mensagem de Dylan.
‘’ Boa sorte, meu amigo.’’
Removo a capa protetora do aparelho,
pegando a nota alaranjada de vinte reais, que
atiro em cima do balcão quando chega minha
vez na fila.
‘’ Duas cervejas. ‘’ Falo para a mulher, que
carrega uma carranca na face atrás no
balcão.
‘’ Não é muito cedo para beber? ‘’
‘’ Se eu não beber agora, depois pode ser
tarde. ‘’
‘’ Certo. ‘’ Ela balança a cabeça em sinal
positivo, mas acho que não entende a
referência. ‘’ Mas preciso da sua identidade,
existem menores no campus e posso ser
presa por isso.’’
Reviro novamente os bolsos, e entrego para
ela o RG. Outro fato que odeio nesse corpo,
são os traços infantis, que me fazem parecer
inofensivo. Sara tem nove anos, e mesmo
quando não está aqui, acho que influencia uns
quarenta por cento em nosso rosto
estupidamente delicado. ‘’ Obrigado. ‘’
Agradeço, pegando as duas latas de cerveja
barata.
O restante das pessoas faz comentários
sobre mim, mas não me preocupo em ouvi-
los, essa é uma cruz que Amberly deve
carregar sozinha. Escolho a última mesa para
me sentar, e abro a lata com um pouco de
dificuldade, quebrando a unha postiça enorme
e brilhante do indicador. Ideia brilhante.
Remover as outras nove não é uma tarefa
difícil, o faço durante os próximos minutos.
Infelizmente ainda estou sóbrio, e duas latas
não são suficientes. Lembranças e desejos
perambulam minha mente. Me levanto e peço
mais uma, culpando o frio por toda minha
angústia. A baixa temperatura me lembra o
passado, e todas as noites em que me
esforcei sozinho para permanecer quente,
enquanto Amber cortava os pulsos na
varanda de casa.
‘’ Não exagere.’’ A mulher carrancuda
aconselha. ‘’ É a última. Literalmente. ‘’
Me lembro da fila no mercado a algumas
semanas, quando ficamos juntos no controle,
e todas as coisas que prometemos enquanto
comprávamos bebidas alcóolicas coloridas,
mais pela cor, que pelo sabor. Nossos dedos
se entrelaçavam e soltavam sem nexo,
enquanto a mão esquerda segurava o celular,
para fingir que estávamos em uma vídeo
chamada. O Headspace positivamente
barulhento. Acho que sinto saudades, e me
odeio por isso. Eu deveria ser o protetor, mas
acho que sou um parasita sádico.
Bebo a última cerveja mais rápido que as
duas primeiras, acho que por causa dos
olhares que começam a me incomodar,
inevitavelmente. Meus dedos estão doloridos
por causa das unhas recém arrancadas, e os
pedaços de fibra no chão, provavelmente
causarão estranheza nos funcionários
encarregados de limpar. Sorrio ao pensar
nisso.
O tempo acelera depressa, e enquanto
retorno ao campus, o relógio de parede da
portaria aproxima-se do meio dia. Passo pela
clínica e pelo posto de saúde comunitário,
locais que, assim como as salas de aula, não
são protegidos por seguranças. Três garotas
estão ofendendo umas às outras com
acusações, e um homem alto, vestindo um
jaleco branco, parece notar minha
curiosidade, porque se aproxima e passa a
caminhar comigo. Estou um trapo, então, ele
não deve ter o intuito de me foder, apenas de
tentar ser legal.
‘’ Desapareceram duas bolsas do banco de
sangue. Dois litros de A positivo. ‘’
‘’ Agora? ‘’ Pergunto. ‘’ Agora.’’
‘’ Uau. ‘’ Arregalo os olhos, fingindo
curiosidade.
‘’ Calma, sei que não foi você. ‘’
Não passou pela minha cabeça o fato de
poder ter furtado pacotes nojentos de sangue,
mesmo assim, fico aliviado por não parecer
suspeito.
‘’ Tenho certeza que vão encontrar. ‘’
‘’ O pior é que já é a quarta vez, desde que
assumi o cargo.’’
‘’ Porra. Acha que alguém está roubando? ‘’
‘’ Não sei, mas não quero ser culpado por
isso. Aquelas garotas são umas cabeças de
vento. ‘’ Ele balança a cabeça, e seus cabelos
presos em um rabo de cavalo curto passam
pelo ombro.
‘’ Tenho que ir agora. ‘’ Falo.
‘’ Transporte público? ‘’ Ele adivinha.
‘’ É. ‘’ Sorrio de lado. ‘’ Boa sorte para
encontrar as bolsas de sangue. ‘’
Ouço-o agradecer e virar à direita em
direção a cantina. Não posso evitar de rir
sozinho, e aperto a mochila com mais força
contra minha costela, para garantir que não
estou alucinando. O garoto ainda não sabe,
mas acaba de salvar quase cinquenta futuros
enfermeiros, simplesmente por ter sido gentil
comigo. Ou talvez, eu esteja bêbado demais e
imaginando coisas. De qualquer forma, a
cerveja começa a pesar em meu cérebro e
vejo estrelas no caminho até o ponto de
ônibus. Vou em silêncio para casa. Sem
interferências de Amberly, sem garotas
tagarelando, e sem grana para comprar balas
que disfarcem o hálito de álcool.
Capítulo três: Nuvens pesadas
Volto ao controle com pequenos e
embaraçados vestígios do que acontecera
nas últimas horas. Não há perfume masculino
em minhas roupas, e nenhuma lembrança de
Dimi para vasculhar. A dor de cabeça retorna,
ainda mais latente, e agora, as pontas dos
dedos doem também. Abaixo meus olhos até
eles enquanto desço do ônibus, sem me
despedir do motorista. As unhas agora se
resumem a pequenos tocos esfolados, e
cutículas em carne viva. Tento segurar as
lágrimas que começam a se formar em meus
olhos. Pode parecer ridículo chorar por isso,
mas, pequenas autodestruições, somadas
umas às outras, acabam comigo.
Caminho, mais lentamente que de costume,
até chegar na rua de casa. Vejo papai
estacionando o carro, seu rosto se vira em
minha direção, como se estivesse encerrando
uma longa busca. ‘’ Priscila ligou para sua
mãe hoje. ‘’
‘’ O que ela disse? ‘’ Pergunto, me
aproximando.
‘’ Que você não pegou o primeiro ônibus. ‘’
‘’ Não peguei? Eu... devo ter confundido. De
novo. ‘’
‘’ Sua mãe vai ficar uma fera. ‘’ Há uma
sobrecarga de drama em sua voz.
‘’ Desculpa. Foram os jogos da atlética, sabe
como é. ‘’ Dou de ombros, me desviando
enquanto ele confere as portas fechadas do
carro.
‘’ Tudo bem. Agora preciso resolver algumas
coisas no escritório. Nos falamos depois.’’
Suspiro um "ok". Meu pai, é advogado, e essa
semana tem sido relativamente boa para
nossa vida financeira, o que significa que ele
está mais ocupado que de costume.
Abro a porta da sala, fechando-a atrás de
mim em seguida, deixando o ar gelado para
fora. Mamãe está na sala vendo televisão,
gargalhando alto por alguma piada de
seriados aleatórios. ‘’ Amberly! Eu fiquei
preocupada, sua amiga telefonou dizendo que
não voltaram juntas no ônibus. O que houve?
‘’
‘’ Não foi nada, a gente só... se
desencontrou.’’
‘’ É melhor avisá-la, deve estar preocupada.’’
‘’ Mandarei uma mensagem depois.’’ Vou até
a cozinha procurar algo comestível. A náusea
começava a formar um gosto amargo de bile
em minha garganta.
‘’ Você tem que ser mais cuidadosa. ‘’ Seus
olhos voltam a fixar na televisão enquanto fala
comigo. ‘’ É perigoso.’’
‘’ Eu sei, desculpe. Não vai acontecer de
novo. ‘’
‘’ Vem cá. ‘’ Volto a caminhar para sala,
sentindo o estômago borbulhar, enchendo-se
de borboletas, e, talvez, insetos mais
peçonhentos. Ela estende os braços e dá
batidas leves no assento ao seu lado, me
convidando para sentar, e é o que faço. Seus
olhos analisam meu rosto, como se pudessem
desvendar algo escondido em minha pele cor
de jambo.
‘’ O dia foi bom? ‘’
‘’ Sim.’’
‘’ Deu tudo certo? ‘’
Balanço a cabeça em sinal positivo. ‘’ Você já
comeu?’’ Mudo de assunto.
‘’ Não, estava esperando por você.’’
‘’ Não quero almoçar.’’ Faço uma careta.
‘’ Podemos assar uns bolinhos se você quiser.
‘’
‘’ Parece ótimo.’’
Me acomodo no sofá, colocando a mochila
de lado.
‘’ O que fez com suas unhas? ‘’ Ela fala em
tom alto, arregalando os olhos. Até então,
havia me esquecido delas, mas retornam a
doer após o lembrete.
‘’ Não fui eu. ‘’ É a única coisa que consigo
dizer.
‘’ Como assim não foi você, Amberly? ‘’
‘’ Desculpa, mãe. Não foi nada. ‘’
‘’ Eu te fiz uma pergunta. Como assim não foi
você? Será que pode me dizer quem foi?’’
‘’ Fui eu...Eu não sei. Acho que não tomei
cuidado e elas se quebraram. ‘’ Sou péssima
em criar mentiras, e o tempo que passo
vasculhando meu cérebro atrás de uma boa
desculpa, é equivalente para deixa-la irritada.
" Só quero entender porque diz que não foi
você. É difícil explicar?"
Explicar que há um garoto rebelde e ignorante
dentro de mim? Aparentemente é.
" É sobre aquilo que sua psicóloga disse?" Ela
continua.
"Parece que você não acredita nela".
" Não é isso querida." Ela curva levemente o
pescoço, tentando parecer gentil, como um
animal dócil. " Só não aprendi a lidar
com...tudo isso ainda.
"Eu sei."
" E não temos mais dinheiro para manicure."
" Não quero. " Dou de ombros. As lágrimas
que ficaram presas ameaçam sair, e me sinto
patética por isso.
" Aquele Renan. Foi ele?" Ela gesticula
novamente, apontando para minhas mãos, eu
encolho os dedos institivamente.
" Ele é um idiota."
"Olha o que você aprontou. Feliz agora?"
Envio a mensagem para o meu headspace. O
centro vazio da minha cabeça, vibra.
Me lembro de uma das férias de verão do
ensino fundamental, quando Renan tomou o
controle por semanas seguidas. Meus pais
ficaram preocupados com o fato de eu querer
usar somente roupas masculinas, e, na
época, já aceitaram minha escolha transexual.
Mas, no outono do mesmo ano, Renally
tomou o controle, uma garota nerd que
encheu o meu quarto de livros. A lista foi
crescendo conforme os anos se passavam,
meu nome ficando cada vez mais submerso, e
as identidades se tornando manchas escuras
na minha reputação.
Assamos os bolinhos, e comemos juntos ao
redor da mesa quando papai sai do escritório.
Todos provando a essência de baunilha
inundando a massa fresca. Ignoramos o fato
de que ali, existem mais que quatro pessoas.
Envio uma mensagem para Priscila, pedindo
desculpas pelo desencontro e avisando sobre
a ausência do dia seguinte. Há várias
mensagens de Dimitri na barra de
notificações, mas, por enquanto, não as
correspondo. Subo para o quarto. Há batom
vinte e quatro horas ainda está intacto, como
um borrão claro no meu queixo. Me atiro
desajeitadamente na cama, e choro. Choro
tanto que meus travesseiros se tornam
nuvens pesadas. Choro, porque não sei quem
sou. E porque não consigo odiar a sombra
densa que se forma ao redor da minha
cabeça.
" Foi mal por estar vacilando tanto" Renan
responde, a voz ecoando por todo nosso
corpo.
" Tudo bem. Eu quem sou fraca demais para
isso." Não me importo com meus lábios, que,
desrespeitosos, espalham a frase para fora da
minha cabeça, em direção ao mundo real.
Capítulo quatro: Banheiro feminino

Abro os olhos, e há um ponto latejante


acima da minha testa. A roupa de dormir
apertando exageradamente a cintura. São dez
da manhã, mas, para mim, é como se fossem
sete. Nunca acordo tão cedo.
‘’ Você?’’ A mãe de Amberly solta a pergunta
retórica enquanto me aproximo para tomar
café, nu da cintura para cima, tapando os
seios com uma faixa. Ela entrega para mim a
caneca de porcelana, mantendo uma
distância segura, e decido degusta-la sozinho
na sala.
‘’ A psicóloga
Eu finjo que está tudo bem, mas você deveria
me ver chorando na cama, tarde da noite.

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