Reorganização do PCB em Alagoas (1980-1982)
Reorganização do PCB em Alagoas (1980-1982)
(1980-1982)
Com uma barba densa, alguns fios brancos, o ex-vereador Nilson de Amorim
Miranda, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em Alagoas, cujo mandato
fora cassado com os primeiros expurgos decorrentes do Golpe Civil e Militar de 1964,
havia retornado ao país na semana anterior, 15 anos depois de deixar o Brasil para
fugir à prisão por questões de ordem política. Durante o exílio, Miranda viu seus cinco
filhos crescerem sem ele, em um intervalo de tempo no qual se tornou sogro e avô.
Aos 46 anos de idade, parecia mais moderado que o explosivo vereador da Câmara
Municipal nos idos de 1964, quando teve de abandonar o estado3.
No exílio, estudou História em Paris e trabalhou como jornalista para uma cadeia
de publicações de entidades sindicais ligadas aos trabalhadores. Conheceu toda a
Europa e eventualmente tomou contato em Bruxelas com outro alagoano exilado,
Vladimir Palmeira. Ainda hospedado no Rio de Janeiro, Nilson Miranda concordou
em ser entrevistado por repórteres do jornal alagoano Desafio. A entrevista havia sido
pedida ao seu irmão Haroldo Miranda, que estava presente no desembarque. No seu
contato, Nilson Miranda evitou todo o tempo tratar de temas pessoais, para não
envolver a família nos assuntos políticos.
Ao ser questionado se pretendia voltar a atuar politicamente, Miranda respondeu
que pretendia primeiramente restabelecer os seus direitos e regularizar suas atividades
1
Doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco. Bolsista CNPq. Professor Auxiliar
da Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca. E-Mail: <rodrigojosedacosta@[Link]>.
2
“LUGAR de brasileiro é no Brasil. Voltou o primeiro alagoano exilado – Anistia: Os outros querem
voltar”. Desafio, Maceió, n. 77, 19 mai. 1979, p. 5.
3
“LUGAR de brasileiro...”.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 195
profissionais, mas o retorno à militância política não estava de maneira alguma
descartado. Porém, o caminho para uma atividade política saudável no país passaria
obrigatoriamente por uma anistia. Mesmo beneficiado por um processo de abertura, o
que importava mesmo, segundo ele, era a anistia4.
No decorrer da entrevista, Nilson relatou acerca de sua saída de Maceió no
primeiro dia de abril de 1964, à noite. O governo de Luiz Cavalcante já havia
começado as prisões em todo o movimento sindical5. Escondido na casa de amigos,
depois de um mês deixara o estado para só retornar uma década e meia depois.
Alguns desses amigos morreram enquanto esteve no exílio. Quando perguntado o
que mais lhe dava saudades no exílio, Miranda afirmou que “o nordestino emigra por
razões econômicas; fora de sua terra, ele tem saudades, agora, calcule quanta
saudade ele sentirá se emigra por razões políticas. A dose é dupla. A verdade é que
em 1964 o Brasil ficou pequeno para mim, mesmo esse Brasil de dimensões
continentais”6.
Questionado sobre como via o movimento grevista dos trabalhadores no Brasil, ele
foi categórico em afirmar que, em 15 anos, a classe operária sempre foi
marginalizada. Todo o processo de desenvolvimento do Brasil, consistiu no
achatamento dos salários. Citando a tese de Delfim Neto e outros de que “era hora de
fazer crescer o bolo para depois dividir. O bolo cresceu e não dividiram. A coisa então
foi ficando como uma panela de pressão sem válvula”7. Para o entrevistado, o
movimento grevista era um indicativo de que os trabalhadores estavam defendendo a
sua participação na vida social. Se eram responsáveis pela estabilidade econômica do
país, seria justo que tivessem o seu papel na vida social.
Sobre a imagem do regime brasileiro no exterior, Miranda afirmou que naquele
momento, era visto como uma tendência de abertura. Apesar de eleição indireta para
governador, apesar dos biônicos, a imagem havia mudado. “Mudou muito em função
das eleições passadas”8, quando a oposição recebera maior número de votos que o
partido governista.
No caso da situação dos brasileiros exilados no exterior, ele citou que a angústia
maior de todos era o desejo de regressar ao país. De Clodomir Morais, em Portugal,
Francisco Julião, no México; Vladimir Palmeira, Miguel Arraes, Leonel Brizola, todos,
enfim, queriam voltar. No fim da entrevista, perguntado sobre suas expectativas sobre
o Governo Figueiredo, Nilson disse não esperar nada. Em sua opinião, o presidente
poderia e deveria fazer o encontro que o presidente anterior, Ernesto Geisel, deixou
de fazer, que era o encontro do Estado com a Nação. A questão econômica é
também uma questão social e política. O país precisava urgentemente de uma
4
“LUGAR de brasileiro...”.
5
Sobre o governo Luiz Cavalcante e o Golpe Civil e Militar de 1964, ver: COSTA, Rodrigo José. O golpe
civil-militar em Alagoas: o governo Luiz Cavalcante e as lutas sociais. Dissertação (Mestrado em
História). Universidade federal de Pernambuco. Recife, 2013. MEDEIROS, Fernando Antonio
Mesquita. Homo Inimicus: Igreja Católica, Ação Social Católica e discurso anticomunista em Alagoas.
Maceió: EdUFAL, 2007.
6
“LUGAR de brasileiro...”.
7
“LUGAR de brasileiro...”.
8
Miranda se refere às eleições legislativas de 1978, quando o partido de oposição legal ao Regime
Militar, o Movimento Democrático Brasileiro – MDB, conseguiu eleger um número significativo de
parlamentares.
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Assembleia Nacional Constituinte. O general Figueiredo poderia se propor a atender a
esse interesse nacional. Se ele decidisse fazer isso, teria que começar pela anistia.
Em Alagoas, com o golpe de abril de 1964, os comunistas foram presos e
perseguidos. As forças da repressão destruíram a redação do semanário editado pelo
PCB, o jornal A Voz do Povo, confiscando todos os documentos. O líder sindical e
dirigente comunista Rubens Colaço foi o primeiro a sofrer com a repressão violenta
dos golpistas alagoanos. Preso durante a madrugada do dia 1º de abril, Colaço foi
submetido a sessões de torturas. As prisões atingiram frontalmente a direção regional
e demais organizações intermediárias do PCB9. Foram presos intelectuais, operários,
camponeses, estudantes com filiação política ou não. O Golpe desarticulou o PCB e
durante alguns meses a direção estadual não conseguiu se reunir, obrigando os
principais dirigentes a sair do estado. Aos poucos os comunistas se rearticularam e
passaram a atuar com menos força na sociedade civil. O PCB, depois do golpe, se
resumiu a um pequeno grupo de velhos militantes e alguns poucos jovens recrutados
no movimento estudantil10.
Na década de 1970, o PCB alagoano ficou praticamente inativo, sem contato com
a direção nacional – esta última exilada em Moscou – e reduzido a poucos militantes
com atuação esporádica apenas em momentos eleitorais, mas sem qualquer
influência social. O partido ficou durante quase dez anos sem uma direção
formalmente organizada para dirigir os poucos comunistas em Maceió e no interior 11.
O processo de reorganização do PCB aconteceu após a anistia para os presos e
exilados políticos em 1979. A direção nacional foi quem reestruturou as atividades
retomando os contatos, há muito perdidos, nos estados. Em Alagoas, o primeiro
contato efetivo entre os poucos e dispersos comunistas ocorreu com a chegada do
exílio de Nilson Miranda. Esse foi o marco zero no trabalho de retomada de contato
entre os remanescentes e alguém com vínculos com a direção nacional12.
No decorrer do ano de 1980 os contatos foram restabelecidos entre o Comitê
Central e a seção regional de Alagoas, trabalho esse que se deu durante quase dez
anos ininterruptos13. O núcleo inicial constituído para reorganizar o PCB em Alagoas
foi composto por ex sindicalistas, estudantes, alguns profissionais liberais e
jornalistas14.
Diante do exposto, é meu objetivo neste trabalho analisar a reorganização do PCB
em Alagoas entre 1980 e 1982. A atenção recairá inicialmente nos dois processos
paralelos que envolveram de um lado, a reorganização do Partido em nível nacional,
com o retorno do Comitê Central o qual se encontrava exilado desde meados da
década de 1970; de outro, as estratégias adotadas pelos comunistas alagoanos para a
9
Cf. MAJELLA, Geraldo de. “Preservando a memória: a trajetória dos comunistas em Alagoas (1924-
1991)”. In: ______________ (org.). O PCB em Alagoas: documentos (1982-1990). Maceió: EdUFAL,
2010, p. 22.
10
MAJELLA, “Preservando a memória...”, p. 24-25.
11
Cf. LESSA, Golbery. “Os principais momentos do PCB em Alagoas”. In: SALDANHA, Alberto (org.). A
indústria têxtil, a classe operária e o PCB em Alagoas. Maceió: EdUFAL, 2011, p. 105.
12
Cf. MAJELLA, “Preservando a memória...”, p. 25.
13
Cf. SALDANHA, Alberto. “O PCB alagoano depois de 1980: cultura comunista e mitos
coesionadores”. In: SALDANHA, A indústria têxtil...
14
Cf. LESSA, “Os principais momentos...”, p. 107-109.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 197
reestruturação da agremiação no estado. Antes da profunda atuação na campanha
pela Anistia, as articulações para as eleições legislativas de 1978 foram um marco no
trabalho da militância pecebista alagoana, ao mesmo tempo em que possibilitaram a
entrada de um grupo de jovens estudantes os quais, juntamente com os antigos
comunistas deram o passo decisivo para restabelecer a atuação política do Partido em
Alagoas a partir do ano de 1980.
As fontes utilizadas neste trabalho tiveram o seu sustentáculo em dois acervos
distintos, contudo, complementares. O primeiro compreende os documentos dos
planos de organização e de campanha nos processos eleitorais do PCB alagoano,
organizados e publicados por Geraldo Majella no livro O PCB em Alagoas:
documentos (1982-1990). O segundo grupo foi originário do Fundo Geraldo Majella
disponível no portal Memórias Reveladas15. Assim como os documentos que foram
compilados no livro, as fontes disponíveis neste fundo pertenceram durante muito
tempo ao arquivo privado de Geraldo Majella, historiador alagoano e ex militante
comunista na década de 1980. Na vigência do Projeto Memórias Reveladas16, em
2010, elas foram doadas ao Arquivo Público de Alagoas.
Também foram consultados alguns números do jornal Voz da Unidade, editado
pelo PCB a partir de março de 1980, bem como algumas entrevistas realizadas com
ex-militantes do PCB alagoano e livros de memória, publicados na última década.
Desencontros
15
Disponível em: <[Link]
16
O Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil, denominado “Memórias Reveladas”, foi
institucionalizado pela Casa Civil da Presidência da República e implantado no Arquivo Nacional com
a finalidade de reunir informações sobre os fatos da história política recente do País. Em novembro de
2005, foi assinado o decreto regulamentando a transferência para o Arquivo Nacional dos acervos dos
extintos Conselho de Segurança Nacional, Comissão Geral de Investigações e Serviço Nacional de
Informações, até então sob a custódia da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). O Centro constitui
um marco na democratização do acesso à informação.
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maneira organizada e armada17. Daí a convicção de que a resistência e a derrocada
da ditadura teriam de ser pela via das armas e com respaldo popular amplo. Uma
parte muito significativa do PCB também tendeu a seguir essa avaliação, o que se
explicitou nos encontros preparatórios do VI Congresso, realizado em 1967, ao ponto
de se gerarem diversas cisões18.
No entanto, para a militância que seguiu essa orientação, o drama iniciado em
1964 se transformou em tragédia, com a luta desigual travada contra o Estado entre
1969 e 1973. Na visão de Marcos Del Roio,
17
REIS FILHO, Daniel Aarão. A revolução faltou ao encontro: os comunistas no Brasil. São Paulo:
Brasiliense, 1990.
18
REIS FILHO, A revolução faltou ao encontro..., p. 47. O lapso temporal transcorrido entre o golpe e o
VI Congresso realizado em 1967, marcou o período de fragmentação do PCB em uma série de
miniorganizações que se multiplicaram pelos anos seguintes. Se, por um lado, o PCB atribuía ao
“esquerdismo” a responsabilidade pelo golpe, para as correntes internas, as quais começavam a
discordar da linha geral do Partido, pelo contrário, adviriam do “direitismo” as causas da derrota. Para
os primeiros tratava-se de esconjurar os líderes nacionalistas e comunistas que quiseram ir longe
demais. Para os segundos, era necessário fazer rolar as cabeças dos dirigentes do PCB, a de Prestes em
particular. Sobre os acontecimentos decorrentes da fragmentação do PCB ver: GORENDER, Jacob.
Combate nas trevas: a esquerda brasileira – das ilusões perdidas à luta armada. 4. ed. São Paulo:
Ática, 1990.
19
DEL ROIO, Marcos. “Prefácio”. In: PINHEIRO, Milton (org.). O que resta da transição. São Paulo:
Boitempo, 2014, p. 8-9.
20
DEL ROIO, “Prefácio”, p. 8-9.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 199
respaldo institucional da Igreja. Mesmo assim, a política de frente dos comunistas
angariou frutos, e a pressão popular difusa deslocou uma área liberal para o campo
da democracia, incluindo algumas lideranças intelectuais em particular21.
No começo da década de 1980, o debate em torno da questão democrática
ressoou forte no interior do PCB. Muitos defendiam a manutenção da proposta de
frente ampla contra a ditadura e combatiam a concepção instrumental da democracia
adotada no passado. Para alguns de seus militantes, a organização havia se
distanciado dos princípios revolucionários e perdido sua identidade de classe. Em vez
de assumir o papel de vanguarda do proletariado, o PCB estava se transformando
num partido reformista, próximo da social democracia22.
Maria Alice Carvalho aponta que, quando o PCB aprofundava sua orientação
democrática em meio a um intenso movimento de massas contra o regime militar, era
razoável supor que o acerto de sua política favorecesse a elaboração de uma práxis
coerente com ela. Mas, na visão da autora, “o PCB não soube ganhar”23. E a
experiência acumulada na luta por uma sociedade progressivamente mais justa e
democrática, se não se perdeu de todo – pois acabou incorporada como ponto de
passagem obrigatório à reflexão de esquerda no Brasil – não lhe serviu como
plataforma para sua própria refundação.
É assim que, em fins da década de 1970, o argumento democrático se
desvencilhou da sua subordinação à questão nacional, estabelecendo-se a conquista
das liberdades democráticas como foco central da luta comunista. Em maio de 1978
se consagrou a via eleitoral como “forma superior de luta” e, em novembro daquele
mesmo ano, uma nova resolução política do Comitê Central sustentou que, para os
comunistas, “luta pela democracia é parte integrante da luta pelo socialismo”, sendo a
frente antifascista indiferente aos interesses econômicos das forças que a compunham.
Muitos fatores colaboraram para a vitória, naquele momento, da concepção de
democracia progressiva, considerando-se que tal concepção não era inteiramente
estranha à Declaração de Março de 1958 nem ao VI Congresso, em 1967. Mas, em
ambos, persistiu um viés terceiro-mundista, o que conferiu limites severos à nova
identidade que a questão democrática fomentava entre a militância comunista.
Não obstante esses impasses, em 1980, houve o rompimento do secretário geral
do PCB, Luís Carlos Prestes, o qual ocupara o cargo desde a década de 1940.
Discordando da linha assumida pelo partido, Prestes, que se encontrava exilado em
Moscou desde 1971, viu fortalecer-se a corrente antiprestista no interior da
agremiação. O “Cavaleiro da Esperança” foi acusado por seus companheiros de ser
“personalista, caudilho, autoritário e esquerdista”24.
21
DEL ROIO, “Prefácio”, p. 8-9.
22
PANDOLFI, Dulce Chaves. “A trajetória de Luís Carlos Prestes”. In: FERREIRA, Jorge & REIS, Daniel
Aarão. As esquerdas no Brasil: Revolução e democracia (1964...), volume 3. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2007, p. 236. Em 2014, o historiador Daniel Aarão Reis publicou a biografia do
líder comunista, abarcando toda a sua trajetória política e pessoal ao longo de praticamente todo o
século XX. Ver: REIS, Daniel Aarão. Luís Carlos Prestes. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
23
CARVALHO, Maria Alice Rezende. “Breve história do ‘comunismo democrático’ no Brasil”. In:
FERREIRA, Jorge & REIS, Daniel Aarão. As esquerdas no Brasil: Revolução e democracia (1964...),
volume 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 264.
24
PANDOLFI, “A trajetória...”, p. 237.
200 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Em março de 1980, Prestes, que havia retornado ao Brasil em outubro de 1979
após oito anos de exílio forçado, beneficiado com a decretação da anistia, elaborou
uma “Carta aos Comunistas”, criticando as posições “reformistas” assumidas pelo
partido. Denunciava a falência da direção, responsabilizando-a pela prisão e morte
dos dez membros do Comitê Central assassinados pelos órgãos policiais em 1974.
Destituído do cargo de secretário-geral, que passou a ser ocupado por Giocondo
Dias, Prestes, procurou, sem sucesso, o apoio da União Soviética. Em junho de 1980,
juntamente com sua mulher, viajou a Moscou para apresentar suas divergências com
os comunistas brasileiros. Em vão. O interlocutor privilegiado dos soviéticos era o
PCB, não mais Prestes.
De acordo com Anita Leocádia Prestes, convencido do abandono por parte da
direção do PCB de seus objetivos revolucionários consagrados nos documentos
partidários, Prestes, tendo compreendido que não havia condições para organizar de
imediato um partido revolucionário no Brasil, iria dedicar os últimos dez anos de sua
vida a difundir suas ideias, principalmente junto aos trabalhadores e aos jovens25. Ao
mesmo tempo, procuraria participar, ao lado de seus apoiadores, da vida política
nacional, com o objetivo de acumular forças e contribuir para a criação das condições
propícias ao surgimento de organizações efetivamente revolucionárias, habilitadas a
conduzir a realização das transformações necessárias ao advento do socialismo no
país.
Prestes percorreu todo o Brasil a convite das mais diversas entidades sociais, de
trabalhadores, de estudantes, de intelectuais, de políticos e de numerosos
admiradores. Participou das principais campanhas eleitorais, procurando sempre dar
apoio aos candidatos comprometidos com as causas populares e dispostos a
contribuir para o avanço real da democratização do país.
Ao empenhar-se na luta pela efetiva democratização do Brasil, ao denunciar a
permanecia do regime ditatorial durante o governo Figueiredo – repelindo as teses
dos liberais e da direção do PCB de que se estariam atravessando um período de
“transição” para a democracia –, Prestes insistia na continuidade do “poder militar”,
ao qual voltaria a referir-se repetidas vezes durante aqueles anos26.
O rompimento de Prestes com o PCB pode ser acompanhado no semanário Voz
da Unidade, editado pelo partido a partir de março de 1980. Em seu primeiro
número, o jornal traz uma matéria na qual relatou uma palestra proferida pelo até
então Secretário Geral na cidade de São Paulo, oportunidade em que Prestes
discorreu sobre a questão da reforma partidária27. Ele analisou a situação dos partidos
oposicionistas em formação, detendo-se em especial no papel que o PMDB – como
partido que melhor expressava a diversidade de interesses inscrita na frente ampla –
poderia desempenhar na luta pela democracia no País. Para Prestes, o objetivo
visado pelo regime com a reformulação partidária era o de dividir as oposições: uma
25
PRESTES, Anita Leocádia. “Luiz Carlos Prestes e a luta pela democratização da vida nacional após a
anistia de 1979”. In: PINHEIRO, Milton (org.). O que resta da transição. São Paulo: Boitempo, 2014,
p. 119-120.
26
PRESTES, “Luiz Carlos Prestes...”, p. 119-120.
27
“PRESTES: frente única no combate à ditadura”. Voz da Unidade. São Paulo, n. 01, 30 mar. a 05 abr.
1980, p. 7.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 201
manobra que se combinava com uma “desavergonhada corrupção, que faz o Sr.
Maluf operar o milagre de transformar a minoritária Arena no majoritário PDS”. O
líder comunista, entretanto, lembrou que a ditadura “está enganada se pensa que
basta dividir os políticos para dividir as massas”28.
Manifestando-se defensor de uma constante preocupação com a unidade das
oposições, Prestes colocou-se não só a favor da participação de todos os partidos em
formação – PTB, PT e PP, com suas características específicas – na frente de luta
contra o regime, como também da “unificação da classe operária para atuar num
partido revolucionário”. Com isso, a classe operária interviria como fator decisivo na
“frente única de luta contra a ditadura”, formada não apenas com os quadros da
esquerda, mas com “todos os que desejarem ser nossos aliados nessa luta” 29.
Com essa perspectiva, Prestes defendeu firmemente a legalização do PCB,
afirmando ser o mesmo o “partido que sempre lutou pela democracia no país”30. Para
isso, era preciso organizar e unir as massas numa campanha pela revogação da Lei de
Segurança Nacional, para que o partido pudesse ser legalizado. Coincidindo nesse
ponto com diversas declarações de líderes do PCB, Prestes entendia a luta pela
legalização do partido como o resultado de um amplo trabalho político de massas:
Tal campanha teria, assim, que ser colocada na ordem do dia pelos comunistas e
pelo conjunto das forças democráticas. Com ela, avançaria o processo de
democratização na sociedade brasileira. Pois, como lembrou Prestes, concordando
com as posições dos membros do Comitê Central do PCB, “a atual ditatura não pode
mais ser chamada de fascista, depois da revogação do AI-5 e da conquista da anistia.
Entretanto, a ditadura preserva o fundamental de sua essência”, devendo, por isso,
ser combatida por um amplo movimento de massas32.
28
“PRESTES: frente única...”, p. 7.
29
“PRESTES: frente única...”, p. 7.
30
“PRESTES: frente única...”, p. 7. Grifos meus. Dulce Pandolfi aponta que ao longo da história do PCB
houve uma tendência a reelaborar a memória partidária no sentido de valorizar a opção pela luta
democrática, principalmente depois da Declaração de Março de 1958 e do V Congresso de 1960, em
detrimento de linhas políticas insurrecionais adotadas quando da “Intentona” de 1935 e do período
compreendido pela perda do registro eleitoral em 1947, intensificadas depois do Manifesto de Agosto
de 1950, cuja revisão depois de 1954 vai culminar na concepção de revolução em duas etapas: a
primeira, nacional-democrática e a segunda socialista. Para um aprofundamento da questão, ver:
PANDOLFI, Dulce. Camaradas e companheiros: História e memória do PCB. Rio de Janeiro: Relumé
Dumará, 1995. SEGATTO, José Antonio. Reforma e revolução: as vicissitudes políticas do PCB (1954-
1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.
31
“PRESTES: frente única...”, p. 7.
32
“PRESTES: frente única...”, p. 7.
202 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Já no número seguinte, diante da controvérsia criada com a publicação por parte
de Prestes da “Carta aos Comunistas”, os dirigentes emitiram uma declaração onde
defendiam a legitimidade do Comitê Central, condenavam o golpismo e
manifestavam confiança na política de intervenção de massas adotadas pelo PCB33.
Admitindo a existência de “divergências políticas de fundo” entre as atuais
posições do secretário geral e a linha do PCB, os dirigentes reafirmaram a
legitimidade do Comitê Central e lamentavam a forma “anárquica” e pouco
democrática pela qual Luís Carlos Prestes vinha colocando em discussão a política
adotada desde o VI Congresso, realizado em 1967. No texto da “Declaração”
afirmaram que:
Assinada por Giocondo Dias, Salomão Malina, Teodoro Mello, Hércules Correia e
Armênio Guedes a declaração dos dirigentes comunistas insistia em que essa linha
visava “orientar a ação do PCB no rumo de uma política de massas”, tratando-se,
portanto, de uma concepção que condenava o golpismo, o “esquerdismo”, a busca
de perigosas tensões como método obsessivo de um suposto caminho revolucionário.
Segundo os dirigentes comunistas, ao contrário, a concepção de frente única
defendida por Prestes supunha que a derrota da ditadura implicava necessariamente
a constituição de um poder antimonopolista e antilatifundiário, o que, em sua
opinião, não correspondia à realidade dos fatos.
Manifestando-se frontalmente contrários ao “liquidacionismo”, os dirigentes
recusavam-se a considerar válida a proposta da autodissolução do Comitê Central;
enfatizavam que a luta pela legalidade do PCB era inseparável da realização do VII
Congresso – instância onde tais divergências deveriam ser resolvidas – e não
abdicavam da possibilidade de “dar à discussão um encaminhamento e uma
conclusão democráticos”34.
Na polêmica “Carta”, o então Secretário-Geral pregava a dissolução das direções e
considerava superada orientação política do VI Congresso35. Constatando a existência
de “uma séria crise já flagrante e de conhecimento público” no interior do Partido,
Prestes pretendeu denunciar o que considerava ser a “falência de sua direção”, a
quem, acusava de “oportunista, carreirista, reboquista e sem princípios”36.
A carta de Prestes acabou por ser amplamente reproduzida, na íntegra ou em
partes, pela imprensa periódica do país durante os dias que se seguiram a sua
publicação. Ao mesmo tempo em que questionava a legitimidade do atual Comitê
33
“DIVERGÊNCIAS: comunistas respondem ao Secretário geral”. Voz da Unidade, São Paulo, n. 2, 10 a
16 abr. 1980, p. 3.
34
“DIVERGÊNCIAS: comunistas respondem...”, p. 3.
35
“A CARTA de Prestes aos comunistas”. Voz da Unidade, São Paulo, n. 2, 10 a 16 abr. 1980, p. 4.
36
“A CARTA de Prestes...”, p. 4.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 203
Central, apelava aos companheiros “para que tomem os destinos do movimento
comunista em suas mãos”, rompendo com a passividade e “rebelando-se contra as
arbitrariedades e os métodos mandonistas da direção”. Além disso, Prestes buscava
manifestar-se sobre a questão da legalidade do PCB e sobre a realização do seu VII
Congresso, afirmando que a orientação política do PCB estava superada e não
correspondia à realidade do movimento operário e popular daquele momento.
Cerca de seis semanas depois, Prestes foi afastado da Secretaria e Giocondo Dias
foi eleito para ocupar o mais alto cargo na hierarquia do PCB37. Após declarado vago
o cargo de Secretário-geral, ocupado por Prestes por quase 4 décadas, Dias foi
aclamado novo dirigente máximo dos comunistas brasileiros. Segundo os dirigentes, o
ex Secretário-geral do PCB, o qual desde 1943 ocupava o cargo, tendo sido eleito na
famosa Conferência da Mantiqueira, não foi reconduzido por não ter atendido a
várias convocações do órgão dirigente máximo para discussões, o que configurava,
na prática, a “vacância do cargo”, agora formalizada.
Em documento divulgado na ocasião, cinco dos principais dirigentes políticos
comunistas – Giocondo Dias, Salomão Malina. Teodoro Mello, Hércules Correa e
Armênio Guedes – prometeram uma crítica “mais circunstanciada” às posições
assumidas por Prestes38. O documento elaborado pela Direção remanescente,
intitulado “Luta por liberdades não é mero expediente tático” afirmava que:
37
“GIOCONDO é eleito novo secretário comunista”. Voz da Unidade, São Paulo, n. 8, 22 a 28 mai.
1980, p. 1.
38
“COMUNISTAS afastam Prestes da Secretaria”. Voz da Unidade, São Paulo, n. 8, 22 a 28 mai. 1980,
p. 8.
39
Este trecho do documento se encontra reproduzido na matéria citada na nota anterior.
204 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
coletiva, permitindo uma participação mais coerente dos comunistas na vida política
nacional40.
A súmula das divergências de Prestes com o PCB diziam respeito sobretudo ao
encaminhamento da revolução socialista, abandonada pelo Comitê Central na visão
do “Cavaleiro da Esperança”, o que, por conseguinte, acarretava no não
questionamento da dominação do Capital. Não à toa, Giocondo Dias e seus
partidários eram acusados de um “antissovietismo envergonhado”, enquanto Prestes
defendia o apoio sem reservas à URSS e ao campo socialista41.
Na avaliação do regime democrático, os primeiros eram favoráveis a uma
“democracia pura”, o segundo insistia no seu “conteúdo de classe”. Para uns, a
ditadura já era coisa do passado, estendiam a mão para o ditador de turno, o general
Figueiredo, e conchavam com ele a legalização do PCB. Para Prestes, a ditadura
continuava de pé, o país permanecia sob a tutela dos militares, e a legalização do
Partido só podia ser concebida no horizonte das lutas sociais e como resultado de
suas conquistas. Do ponto de vista imediato, ao passo que o CC defendia o caminho
eleitoral e parlamentar, apoiado numa ampla frente social e política, “a reboque da
burguesia liberal”, os partidários de Prestes sustentavam a alternativa das “lutas de
massa”, com a unificação das “forças de esquerda” no contexto de uma frente
democrática da qual seriam excluídos os representantes dos “monopólios”. No plano
da organização partidária, os homens do CC não só negavam uma “autocrítica
profunda dos métodos de organização”, como insistiam na existência de uma
“atividade terrorista na condução da luta interna”42.
Foi sem dúvida um primeiro semestre agitado em 1980, quando o PCB, a duras
penas, conseguiu dar os primeiros passos para sua reinserção na cena política
nacional. Em Alagoas este processo de reaglutinação da militância pecebista havia se
iniciado um pouco antes, mas, nem por isso ela deixou de apresentar instabilidades,
seja o eco das disputas irradiadas do Comitê Central, seja os problemas de ordem
local os quais veremos a seguir.
Encontros
40
“O GOLPISMO só nos afasta das amplas massas”. Voz da Unidade, São Paulo, n. 9, 29 mai. a 04 jun.
1980, p. 8-9.
41
REIS, Luís Carlos..., p. 417.
42
REIS, Luís Carlos..., p. 418.
43
Entrevista de Geraldo Majella Fidélis de Moura Marques, concedida ao autor em 23/07/2014.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 205
Apesar de jovem, Geraldo Majella àquela altura já mantinha uma militância
significativa no movimento estudantil secundarista de Maceió. Proveniente de Anadia,
cidade do interior alagoano, era um jovem estudante cujo contato com assuntos
políticos se dera através da leitura de periódicos da imprensa alternativa44, a exemplo
do jornal carioca O Pasquim, como também o jornal Movimento. O acesso a esses
periódicos lhe havia sido facultado através da vivência com Sebastião Barbosa de
Araújo, ex-deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP), que militara pelo
PCB antes de 1964.
É o próprio Majella que recorda que num momento posterior outras leituras foram
sendo incorporadas, os romances Pessach de Carlos Heitor Cony, a trilogia
Subterrâneos da Liberdade de Jorge Amado e, por fim, o livro Memórias do Cárcere
de Graciliano Ramos45. Um momento em particular rememorado, foi quando
Sebastião Araújo ofereceu ao jovem estudante o livro Manifesto do Partido
Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels. Paulatinamente, Majella tomava um
contato cada vez maior com a cena política de Maceió, em um momento no qual os
debates sobre o rumo da Ditadura Militar, o processo de abertura política e o
restabelecimento do regime democrático se tornavam cada vez mais frequentes e
intensos.
Em meados de 1977, quando começaram as movimentações pelas eleições para o
senado, a serem realizadas no ano seguinte, Majella pôde manter um contato mais
efetivo com antigos militantes do PCB em Alagoas, todos mobilizados na campanha
de José Moura Rocha na disputa por uma cadeira no legislativo federal.
Os pouco mais de treze anos de Ditadura vividos até aquele momento impuseram
obstáculos significativos aos pecebistas alagoanos. Dispersos e sem uma organização
formal, a atuação dos comunistas e, acima de tudo, sua mobilização, foram se
tornando rarefeitas diante da escalada repressiva do regime militar. Com a
perseguição sofrida, muitos dos militantes das décadas de 1950 e 1960 e,
principalmente, depois de 1964, saíram de Alagoas e os que permaneceram estiveram
frequentemente sob a vigilância dos órgãos policiais locais.
É o caso, por exemplo, de Rubens Colaço. Dirigente comunista em Alagoas desde
os anos 1950, Colaço foi presidente do Sindicato dos Rodoviários e secretário do
44
Durante os anos de governo militar – notadamente durante a década de 1970 – proliferou no Brasil
um tipo de imprensa que ficou conhecida como imprensa alternativa. Eram jornais de formato tabloide
ou mini tabloide, muitas vezes de tiragem irregular, alguns vendidos em bancas, outros de circulação
restrita, e sempre de oposição. Durante a ditadura, esses jornais questionaram o regime, denunciaram
a violência e a arbitrariedade, expressando uma opinião e uma posição de esquerda num país que
praticamente havia suprimido quase todos os canais de organização e manifestação política de
oposição. A imprensa alternativa congregava jornais de vários tipos: a) jornais de esquerda (que se
vinculavam tanto a jornalistas de oposição quanto aos partidos e organizações políticas clandestinas);
b) revistas de contracultura (que reuniam intelectuais e artistas “alternativos” ou “malditos” – os que
produziam fora do esquema comercial); e c) publicações de movimentos sociais (englobando nesse
campo o movimento estudantil, os movimentos de bairro e, principalmente, um tipo especifico de
imprensa alternativa – aquela vinculada a grupos de minorias políticas, como a imprensa feminista, a
chamada “imprensa negra”, os jornais de grupos homossexuais organizados, as publicações indígenas
e etc. Para mais informações sobre a imprensa alternativa ver: KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e
revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Scritta, 1991.
45
Entrevista de Geraldo Majella Fidélis de Moura Marques, concedida ao autor em 23 jul. 2014.
206 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) no estado. Preso diversas vezes pela
polícia política local46, desempenhara militância significativa nos meios operários
durante grande parte do período liberal-democrático inaugurado em 1946 e,
juntamente com os irmãos Nilson e Jayme Amorim de Miranda47, integrava a direção
local do PCB quando da deflagração do golpe em 1964.
A relação entre Colaço e Majella se estreitou de forma que os dois passaram a
conviver diariamente. Para além dos encontros com Nilson Miranda e Rubens Colaço,
um terceiro, com Cícero Péricles de Carvalho, estudante de Economia, recém
retornado da Europa, seria um dos passos na reestruturação PCB em Alagoas. Os
outros passos consistiram em aglutinar a militância dispersa, o restabelecimento do
contato com o Comitê Central e, acima de tudo, o recrutamento de novas forças que
engrossassem as fileiras do Partido. Pelos menos é esse o tom tanto do depoimento
pessoal de Geraldo Majella como o de Rubens Colaço48. Esse núcleo reorganizador
também contou com José Graciano, Geraldo Oliveira, Antonio Omena, Mário Correia
da Silva, e Sebastião Barbosa de Araújo49.
O (re) estabelecimento destes contatos, ponto de partida para a retomada da
atividade do Partido também aparece no primeiro documento oficial do PCB
alagoano datado daquela conjuntura. O “Balanço histórico” do ano de 1982 retrata a
reorganização da agremiação como um encontro entre a geração atuante no PCB
antes do Golpe com uma nova, composta em sua maioria de estudantes, cujo
ingresso no partido em fins da década de 1970 possibilitou a reinserção dos
comunistas no cenário político que se desenhava50.
46
Para mais informações sobre a atuação da polícia política em terras alagoanas, ver: COSTA, Rodrigo.
“Inimigos de estado: trabalhadores, comunistas e polícia política em Alagoas”. In: XII Encontro
Estadual de História da ANPUH/RS, 11-14 ago. 2014. São Leopoldo: ANPUH, 2014, p. 1-17.
47
Jaime Amorim de Miranda [1926-1975] nasceu em Maceió, foi jornalista e advogado. Enquanto
estudava direito, foi secretário-geral do PCB em Alagoas, diretor do semanário comunista A Voz do
Povo. Foi preso em Recife e transferido para Maceió, onde ficou mais de um ano preso. Isso ocorreu
durante o governo Arnon de Mello. Representou os comunistas alagoanos, em 1960, no V Congresso
do PCB, sendo eleito para a direção nacional. Nas eleições de 1961 foi candidato a deputado
estadual, ficando na primeira suplência. No dia 1º de abril de 1964, o jornal A Voz do Povo foi
destruído, seus bens foram furtados, seus colaboradores foram presos, inclusive o diretor-geral, Jaime
Miranda. Ao sair da prisão, não demorou muito tempo em Maceió; entrou na clandestinidade, indo
morar no Rio de Janeiro com a família. Realizou algumas viagens internacionais como dirigente
nacional do PCB, mas em 1975 foi sequestrado pelos órgãos de repressão. Nunca mais foi visto. Faz
parte da relação dos desaparecidos políticos do Brasil. Nessa época integrava a Comissão Executiva do
Comitê Central do PCB. Nilson Amorim de Miranda [1933] nasceu em Maceió. Jornalista e radialista,
ex editor do semanário A Voz do Povo, ex-vereador de Maceió pela legenda do Partido Social
Progressista – PSP. No final da década de 1950 trabalhou para fundar o Sindicato dos Radialista de
Alagoas e foi o seu primeiro presidente. Quando eclodiu o golpe militar em abril de 1964, entrou na
clandestinidade, tendo de evadir-se de Alagoas, pois passou a ser procurado pela polícia. Para mais
informações sobre alguns dos militantes políticos da família Miranda, ver: MAJELLA, Geraldo.
“Comunismo em família”. Novos Rumos, vol. 1, 2005, p. 60-64.
48
MAJELLA, Geraldo. Rubens Colaço – paixão e vida: a trajetória de um líder sindical. Recife: Edições
Bagaço, 2010, p. 196.
49
MAJELLA, “Preservando a memória...”, p. 28.
50
“BALANÇO Histórico”. In: PCB em Alagoas: Documentos (1982-1990). Maceió: [s. n.], 2011, p. 31-
38.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 207
Este documento também traz um balanço importante da situação vivida pelo PCB
alagoano a partir da instauração da Ditadura em 1964. Logo nas primeiras horas do
Golpe no estado, foram presos comunistas, trabalhistas, sindicalistas e trabalhadores.
Os golpistas vinham sendo mobilizados e contaram com o integral apoio do
governador Luiz Cavalcante, articulador do golpe na Região Nordeste. Por seu lado,
o PCB, o qual vinha numa linha de crescimento político e organizacional, com o
golpe se desorganizou. O Comitê Estadual e os seus principais dirigentes ficaram
imobilizados; uns estavam presos, e os que não estavam não conseguiram manter
nenhum tipo de atuação. O historiador Dirceu Lindoso, um dos intelectuais e
dirigente estadual, foi demitido do emprego quando se encontrava na prisão, e sem
condições de sobrevivência em Maceió, dadas as circunstâncias, viu-se obrigado a
morar no Rio de Janeiro51.
O trabalho de reorganização do partido nos meses que se seguiram àquele abril de
1964 teve início efetivamente em 1965, após saírem da prisão os principais dirigentes.
Jayme Miranda, secretário político, Lindoso, o operário João Moura e Rubens Colaço
foram os últimos dirigentes pecebistas a serem soltos entre os presos políticos. Os que
ficaram continuaram o árduo trabalho de reorganização do PCB, estruturação de
bases de bairros, fábricas, estudantes, e em vários municípios alagoanos52.
A participação nas eleições de 1970 foi a última tentativa que o PCB teve com a
expectativa de eleger um parlamentar. O candidato a vereador, Eduardo Davino,
então dirigente do Sindicato dos Petroleiros de Alagoas, teve a candidatura cassada,
foi afastado da diretoria do sindicato e ainda teve os direitos políticos cassados por
dez anos53. Para uma organização que já vinha sofrendo baixas voluntárias, tornava-
se cada vez mais preocupante a ação dos comunistas enquanto organização que
resistia à Ditadura. Depois do Ato Institucional n.º 5, ficou cada vez mais restrito o
campo de atuação. Além dos problemas causados pela repressão, também houve a
perda de jovens militantes, estudantes em particular, para os agrupamentos de
esquerda criados para iniciar a luta armada. As bases operárias eram cada vez mais
raras, ficando o campo de atuação do PCB reduzido ao movimento estudantil
basicamente. Em meados da década de 1970, as ligações com a direção nacional
foram cortadas, o restabelecimento do contato só foi possível em 1980.
Mesmo com o clima de terror, o qual imobilizou os setores mais progressistas da
sociedade, a atuação se deu de forma ativa nas entidades trabalhistas, ora criando
sindicatos rurais (Anadia, Coruripe, Capela, Penedo etc.) juntamente com os setores
não conservadores da Igreja Católica, ora dirigindo, como força hegemônica, o CGT
(Comando Geral dos Trabalhadores) e o PUA (Pacto de Unidade e Ação), refletindo
seu trabalho organizado em sindicatos (Arrumadores, Estivadores, Conferentes,
Ferroviários, Rodoviários, Têxteis, Açúcar etc.) e Associações Profissionais (Portuários
etc.) O golpe lacerante sofrido foi especialmente sentido no movimento sindical, onde
as ações foram dificultadas.
Em determinado trecho do documento, é mencionado que o recuo do Partido se
deu “por conta à sua escassa bagagem teórica e sua diminuta estrutura
51
MAJELLA, “Preservando a memória...”, p. 29.
52
MAJELLA, Rubens Colaço..., p. 178.
53
MAJELLA, “Preservando a memória...”, p. 24.
208 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
organizativa”54. Vivendo num quadro desfavorável, a partir dessa data, houve um
declínio contínuo em termos de organização interna e de força social. Mesmo
conseguindo realizar uma Conferência Estadual, no final de 1967, com 18 delegados
eleitos nas bases, o Partido em Alagoas não conseguiu, após este evento, dar
dinamicidade, levar à prática a linha do Partido.
As quedas ocorridas em 1974, atingindo quase toda a direção nacional,
diminuíram as chances de uma recuperação imediata. A inexistência de uma direção
capaz – que não conseguiu continuar o trabalho no movimento sindical, estudantil e
camponês –, a imigração dos quadros mais ativos e a perda de contato com a direção
nacional em 1971, fizeram com que o Partido fosse declinando na sua força até
atingir um ponto próximo à letargia, quando um reduzido número de militantes
mantivera em suas mãos a responsabilidade do que chamavam “direção”. Tratava-se,
na verdade, de um ínfimo grupo de pessoas, sem nenhuma vinculação com o
movimento social (sindicatos, associações, clubes, universidades), que vivia de
lembranças de um passado distante.
Segundo a caracterização feita no documento,
54
“BALANÇO Histórico”, p. 31.
55
“BALANÇO Histórico”, p. 32.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 209
(1980-82), o Partido dos Trabalhadores tentava sua organização em Alagoas,
conseguindo absorver antigos militantes do PCB.
Se os anos transcorridos desde a implantação da Ditadura em 1964 haviam trazido
uma série de consequências negativas para o PCB, o começo da década de 1980,
porém prometia uma virada no seu destino. Diferentemente do final da década de
1960 e início dos anos 70, quando a inércia e a incapacidade política de sua
organização perderam a parte mais ativa da juventude para organizações de extrema
esquerda (PCBR, VAR Palmares, PCR), desfalcando o Partido de futuros quadros, o
quadro começava a se alterar. Coincidindo com a fase de redemocratização
(liberdade de imprensa, anistia etc.), na qual se inseria o aparecimento da Voz da
Unidade, jornal legal do Partido, e “quando a sociedade brasileira acordava de uma
longa noite de fascismo”, o PCB em Alagoas recebia novas adesões.
Novamente, a alusão ao encontro de gerações:
Com requintes de ironia, uma nova alusão ao choque geracional é trazida à tona:
a entrada de novos militantes, aliada ao crescimento das atividades políticas, fez com
que se abrisse um processo de luta interna: primeiro, devido à recusa de alguns
militantes em não participar do movimento político, contrariando inclusive a linha do
PCB e, consequentemente, não permitindo o crescimento da organização, resistindo
inclusive à reorganização do Partido; segundo, refletindo a crise nacional do Partido,
muitos se agarravam a dogmas para não permitir que o debate, que se travava a nível
nacional, chegasse com vida ao seio da organização. Defendiam a posição de que o
Partido deveria ser composto por ‘’poucos e bons”, não compreendendo a luta dos
comunistas para tornar o PCB uma organização legal e de massas. Essa concepção de
partido de “poucos e bons” é suficientemente clara para identificar que os seus
defensores tinham um conceito de partido – ou mais que isso, de PCB – forjado
principalmente quando da legalização do Partido, em 1945.
Essa querela teve seu fecho numa reunião ampliada, realizada em Maceió em
outubro de 81, quando 16 camaradas representando cerca de 50 companheiros se
reuniram pela primeira vez em mais de 14 anos, para renovar a direção e encaminhar
novas propostas. Alguns camaradas da antiga direção, não acatando as decisões do
ampliado, se desligaram das atividades de Partido, assumindo uma postura de críticas
pessoais, mas não de confronto. A nova direção incorreu no erro de não continuar o
debate político com esses camaradas, ajudando assim para o distanciamento56.
56
“BALANÇO Histórico”, p. 33.
210 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Os anos transcorridos desde o fechamento do Regime, em 1968, até o momento
inicial de reorganização, trouxeram uma mudança na composição social do Partido.
Se antes a organização compunha-se de base trabalhadora manual, naquele
momento de reestruturação a composição havia se tornado mais heterogênea,
revelando a predominância de elementos oriundos de setores não operários
(funcionários públicos, estudantes, professores etc.).
A essa constatação das dificuldades vividas no seio do Partido ao longo dos,
então, dezesseis anos de Ditadura, somava-se outra de igual pesar: a situação
presente não era das melhores:
57
“BALANÇO Histórico”, p. 33.
58
Os Encontros da Classe Trabalhadora – ENCLATs foram eventos estaduais cujo objetivo principal era
a eleição de delegados para a participação no Congresso Nacional das Classes Trabalhadoras –
CONCLAT, o qual aconteceu em agosto1983. Foi neste evento que foi criada a Central Única dos
Trabalhadores – CUT. Sobre o sindicalismo brasileiros nos anos 1980 e a criação da CUT, ver: BOITO
Jr., Armando [et. al.]. O Sindicalismo brasileiro nos anos 80. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 211
movimento do campo só eram brevemente atenuadas na modesta atuação nas
Associações de Moradores. No movimento estudantil, eram uma pequena força.
Esse ritmo lento do crescimento do Partido devia-se, sobretudo, a uma não
definição de plano de trabalho. Plano detalhado com tarefas distribuídas de forma
objetiva e com uma cobrança feita de forma regular. Não existia no Partido, por parte
da direção, uma definição clara dos diversos níveis em que pessoas com uma maior
ou menor ligação com a organização pudessem trabalhar. Urgia definir o trabalho de
direção, suas funções específicas, quem era militante do Partido, quem era aliado e
quem era simpatizante.
Segundo o “Balanço...”, teria sido mais fácil se o PCB tivesse condições de enviar
para Alagoas algum militante experiente, para que orientasse na organização do
Partido no estado. A cisão da direção nacional (Prestes versus Comitê Central) trazia
problemas internos, ainda que não atingisse o nível de outros estados. De acordo com
o documento “companheiros mais experientes, com vivência inclusive em outros
Centros, se escudam nas divergências com a direção nacional para não dar uma
contribuição mais efetiva”59.
Outro impasse residia na espécie de autogestão vivida àquela altura: cada militante
gerenciava sua própria participação política e, essa situação impedia “uma maior
disciplina e a prática da crítica e da autocrítica”60. Em agosto de 1982 foi realizada a
Conferência cujo objetivo era debater e aprovar as teses do VII Congresso do PCB,
além de eleger uma nova direção. Apenas um artigo saído de Alagoas, e escrito por
um simpatizante, foi publicado no Caderno de Debates, o que já demonstra a ínfima
intervenção. Os debates sobre as teses foram travados ligeiramente durante a
realização da Conferência, refletindo o nível político ainda pouco desenvolvido.
A preparação e a realização da Conferência e, num segundo momento, a eleição
da nova direção e do delegado ao VII Congresso foram marcadas pelo clima do
período eleitoral das eleições estaduais de 1982. A direção eleita teve a tarefa de
pegar o bonde eleitoral correndo: acabou por não atuar – talvez não saber – como
direção, muita improvisação e pressa. A eleição de 15 de novembro foi, porém, uma
lição de aprendizado profundo, conquanto se pudesse tirar dessa lição os
ensinamentos necessários.
O primeiro era não repetir a atuação dos meses que antecederam a eleição,
quando o Partido se dissolveu na frente política (PMDB) e não conseguiu dirigir
efetivamente os trabalhos do Comitê Eleitoral dos seus candidatos. A incapacidade de
combinar o trabalho do Partido com o do Comitê, tornando alguns militantes
reticentes em participar da campanha. Apenas o trabalho organizado no PMDB
jovem refletiu algum espirito de organização.
Outra imprecisão foi não priorizar áreas de atuação. Em vez de um trabalho nas
maiores concentrações urbanas, onde existia uma relativa tradição de trabalhos
organizados principalmente na grande Maceió (Rio Largo, Barra de Santo Antônio,
Pilar, Satuba, Santa Luzia, Coqueiro Seco e Marechal Deodoro), foram investidos
recursos humanos e financeiros de forma demasiada em municípios pequenos e
distantes, recursos que, se alocados com maior acerto, tornariam diferente o
59
“BALANÇO Histórico”, p. 35.
60
“BALANÇO Histórico”, p. 35.
212 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
resultado. Ainda assim houve aspectos positivos no lançamento da candidatura de
um membro do Partido a deputado estadual: Nilson Miranda. Era uma candidatura
do Partido. Esse fato evidentemente, acabou por atrapalhar o já dificultoso trabalho,
dado que o anticomunismo ainda era uma arma facilmente manejada, e de uma
precisão quase cirúrgica.
Esse aspecto positivo não atenuaria o fato de não se ter sabido avaliar
corretamente o nível de forças. Afinal, propuseram-se a participar de uma campanha
sem a estrutura e a experiência as quais contribuiriam para sair com resultado
positivo, concorrendo com vários candidatos com discursos parecidos e contra o
poder financeiro dos demais candidatos. O fator inexperiência os levou a aceitar, sem
discussão profunda, o lançamento de candidaturas. As alianças refletiram mais a
opinião pessoal do candidato pecebista a deputado estadual que a iniciativa conjunta
do Partido, refletindo assim o personalismo reinante nesse período. Faltou habilidade,
como Partido, para tirar proveito do espaço que se abriu durante os seis meses de
campanha. Não houve crescimento da organização, não foi feito um trabalho de
finanças nem se ampliaram e/ou se melhoraram os contatos. Nesse aspecto, não se
pode contar com um órgão de imprensa, nem aproveitar o espaço criado pela
Tribuna de Alagoas. O veículo de imprensa do Partido tinha uma natural dificuldade:
era um jornal identificado publicamente como porta-voz do PCB, era feito para o
público interno, e isso tornava difícil o trabalho de massa, já que não havia um jornal
de agitação. Concorrendo com outros jornais alternativos, se sofria desvantagens, já
que a Voz trazia textos longos, de análises com poucas matérias de fácil leitura.
O resultado final acabou por demonstrar uma posição pouco cômoda. Isso devido
à política de alianças se revelar muito estreita. Como o voto era vinculado, era
necessário um maior número de candidatos a vereador, seja na capital ou no interior,
mobilizados para a tarefa principal, que era eleger o deputado estadual do Partido.
Apesar disso, a votação final representou em parte, na avaliação do documento, um
voto consciente em um candidato comunista. A eleição do jornalista Freitas Neto, um
aliado do PCB, a vereador na capital trazia uma chance de se ter alguém de
identidade quase completa com o projeto político comunista, abrindo o horizonte
para a realização de um trabalho nos bairros da capital, assim como no movimento
sindical urbano.
O documento conclui que o comitê eleitoral não funcionou corretamente, não
sabendo atrair parcelas da juventude ávida de participação. Um espirito de clube
familiar predominou nas discussões políticas internas. Os sentimentos pessoais
passavam por cima da análise política concreta. No período pré-eleitoral, foi
descartada a possibilidade de trabalho comum com outras candidaturas. Candidatos
de posições políticas avançadas poderiam ter tido apoio crítico dos pecebistas61.
Terminando o balanço, a palavra de ordem residia na necessidade de organização.
A sede provisória do jornal, onde estaria concentrado o centro de atividades fora
recém estabelecida. Em seguida, organizar uma biblioteca, onde os diversos textos
editados, que tivessem afinidade com o trabalho, estivessem à disposição do conjunto
de militantes do Partido. Até então, o material bibliográfico (livros, revistas e jornais)
era comprado, lido e guardado pelos membros em suas bibliotecas particulares.
61
“BALANÇO Histórico”, p. 37.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 213
A definição da sede consistia num avanço, dado que o nível político da
organização poderia tomar um impulso com promoções de cursos teóricos (sobre o
movimento operário, economia política, filosofia, filosofia marxista etc.) e outras
atividades que contribuíssem na melhoria na capacidade de análise e intervenção. A
sede permitiria também desenvolver trabalho em dois outros setores vitais do Partido.
Primeiro, o trabalho feminino. O PCB tinha várias militantes que mantinham uma
relação de expectativa. Não estavam organizadas efetivamente pelo simples fato de
não se ter tomado a iniciativa de reuni-las. Durante a campanha eleitoral, esse tipo de
trabalho ficou impossibilitado de ser posto em prática pelas exigências de outras
tarefas. Por fim, outro setor que merecia atenção especial era o juvenil. A definição de
uma política em relação à juventude se tornava latente. Tarefas específicas dos jovens
deveriam ser realizadas pelos membros da juventude do Partido. A tarefa consistia na
criação de canais de participação num setor onde havia amplas possibilidades de
trabalho.
Expectativa e esperança. Baque e decepção. Extremos que estarão presentes em
todos os documentos produzidos a partir de então. De um lado, um ânimo que se
queria inabalável na capacidade de trabalho, na força da organização, no potencial
transformador da agremiação cuja atuação pretérita a tornara a principal força de
esquerda em Alagoas antes da instauração da Ditadura; do outro lado, o choque com
a realidade presente, cujo ritmo de transformações se acelerava e impunha respostas
imediatas às quais os comunistas ainda não estavam em condições – ou quem sabe,
não estavam mais – de dar.
Considerações Finais
O processo de abertura política, intensificado depois da Lei de Anistia em 1979,
permitiu a reorganização PCB no país. Até 1985, quando conseguirá legalização
definitiva, o partido se manteve sob as asas do (P)MDB, atuando abertamente na
sociedade brasileira sem, no entanto, deixar de ser alvo da repressão da Ditadura
ainda vigente. Junto a isso, presenciou em 1980 o rompimento de Luís Carlos
Prestes, Secretário Geral da instituição desde a década de 1940. A linha política a
qual deu o norte da atuação pecebista ao longo década apostava na formação de
uma frente única capaz de isolar e derrotar o Regime Militar.
Em Alagoas, com a volta do exilio de Nilson Miranda, o partido conseguiu se
reorganizar contando com alguns dos militantes atuantes no PCB antes de 1964
juntamente com uma geração de jovens oriundos do movimento estudantil. A partir
das eleições de 1978, da campanha pela Anistia em 1979, os comunistas alagoanos
participarão de uma série de movimentos políticos com o objetivo de superar a
Ditadura, dos quais as eleições de 1982 e as Diretas Já serão os pontos máximos de
mobilização.
Ainda assim, mesmo o empenho na luta pela redemocratização do país não será
capaz de deter a tensão paulatinamente acirrada no âmbito do PCB alagoano. Duas
gerações, com formações e culturas políticas diferenciadas, se encontrarão em um
impasse no que diz respeito às ações prática da agremiação.
214 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
RESUMO ABSTRACT
O objetivo deste artigo é analisar a The aim of this paper is to analyse the
reorganização do PCB em Alagoas entre 1980 e reorganization of the Brazilian Communist Party
1982. A atenção recairá inicialmente nos dois in the State of Alagoas, between 1980 and
processos paralelos que envolveram, de um 1982. The focus will be initially in two parallel
lado, a reorganização do Partido em nível processes involving, the one hand, the Party's
nacional, com o retorno do Comitê Central, o reorganization at national level, with the return
qual se encontrava exilado desde meados da of the Central Bureau, which was in exile since
década de 1970; de outro, as estratégias the mid-1970s; the other, the strategies adopted
adotadas pelos comunistas alagoanos para a by communists in Alagoas for the restructuring
reestruturação da agremiação no estado. Antes of the association in the state. Before the
da profunda atuação na campanha pela Anistia, profound role in the campaign for Amnesty, the
as articulações para as eleições legislativas de joints for the 1978 parliamentary elections were
1978 foram um marco no trabalho da militância a milestone in the work of local communist
pecebista alagoana, ao mesmo tempo em que militancy, while that allowed the entry of a
possibilitaram a entrada de um grupo de jovens group of young students who, along with former
estudantes os quais, juntamente com os antigos communist gave the decisive step to restore the
comunistas deram o passo decisivo para Party's political activity in Alagoas from 1980.
restabelecer a atuação política do Partido em Keywords: Brazilian Communist Party; Military
Alagoas a partir do ano de 1980. Dictatorship; Amnesty.
Palavras Chave: Partido Comunista Brasileiro;
Ditadura Militar; Anistia.