A Canção do Oceano Perdido
Nas profundezas do Oceano de Valmeris, onde a luz do sol nunca chega, dizia-se que
havia uma cidade esquecida, construída de coral e cristal. Os pescadores a chamavam
de Nyméria, o Reino Submerso, e alertavam para suas águas. Era um lugar onde
marinheiros desapareciam, onde o canto das sereias ecoava e onde o oceano parecia
respirar como uma coisa viva.
Cailen, um jovem navegador, nunca acreditou nessas histórias. Ele vivia para o
vento e para as estrelas, confiando em mapas e bússolas, não em superstições. Mas
tudo mudou na noite em que ele encontrou uma canção flutuando sobre as ondas.
Era uma melodia suave, impossível de ignorar. Os violinos do vento se misturavam ao
som das ondas, e vozes femininas pareciam emergir do próprio oceano. Cailen seguiu
o som, fascinado, até encontrar um recife de coral brilhante. Ali, no topo do
recife, estava uma mulher de cabelos azuis como o céu de inverno.
– Você ouviu minha música – disse ela, com uma voz tão doce quanto o canto. –
Poucos conseguem.
Cailen hesitou, mas algo no olhar dela o fez sentir-se seguro. Ele desceu ao
recife, sem perceber que a maré havia mudado, fechando o caminho de volta ao seu
barco.
– Quem é você? – perguntou ele.
– Sou Merys, guardiã de Nyméria. Preciso de sua ajuda, navegador.
Merys explicou que a cidade submersa não era apenas um mito. Nyméria fora real, um
reino próspero e cheio de magia. Mas a ganância de seus habitantes os condenou.
Eles roubaram o Coração do Oceano, uma joia que mantinha o equilíbrio das marés, e
usaram seu poder para construir armas e expandir seu império. O oceano, furioso,
afundou Nyméria e escondeu o coração em sua parte mais profunda.
– O equilíbrio do mar está se desfazendo – disse ela. – Se o Coração não for
recuperado, toda a vida oceânica será destruída.
Relutante, mas sem escolha, Cailen aceitou a missão. Merys o guiou pelas correntes
secretas do oceano, protegendo-o com sua magia enquanto desciam cada vez mais
fundo. Eles enfrentaram horrores nas profundezas: cardumes de peixes-fantasma,
correntes traiçoeiras e uma sombra gigantesca que parecia segui-los.
No fundo do abismo, eles encontraram o Coração do Oceano. Era uma joia imensa,
pulsando com uma luz azul, como um coração vivo. Mas antes que pudessem alcançá-lo,
a sombra se revelou. Era um Leviatã, um monstro antigo criado para proteger a joia.
A batalha foi feroz. Merys conjurou tempestades de água e fragmentos de gelo,
enquanto Cailen usava suas habilidades de navegação para confundir o monstro.
Finalmente, com um golpe preciso, Merys usou sua magia para selar o Leviatã em uma
prisão de cristal.
Com o Coração em mãos, os dois retornaram à superfície. Merys devolveu a joia ao
oceano, e uma onda de energia percorreu as águas, restaurando o equilíbrio perdido.
– Você salvou mais do que pode imaginar – disse Merys a Cailen. – E por isso,
Nyméria sempre será grata.
Antes que ele pudesse responder, ela desapareceu nas ondas, levando consigo o
mistério e a magia das profundezas. Cailen retornou ao seu barco, mas algo dentro
dele havia mudado. Ele sabia que nunca mais veria o oceano da mesma forma.
Daquele dia em diante, os pescadores notaram que as águas estavam mais calmas, os
peixes mais abundantes, e o som de uma música distante às vezes ecoava pelas ondas.
Cailen sabia o que significava: o oceano estava em paz novamente, e sua guardiã,
Merys, cantava em gratidão.