O Relógio do Fim do Mundo
Em uma colina esquecida pelo tempo, cercada por um bosque onde as árvores
sussurravam segredos, havia uma torre antiga. No topo dela, um relógio imenso
marcava as horas, mas seus ponteiros estavam imóveis, congelados às onze horas e
cinquenta e nove minutos. Diziam os aldeões que, quando o relógio completasse a
meia-noite, o mundo chegaria ao fim.
As histórias atraíram Calen, um jovem arqueólogo obcecado por lendas. Ele ouviu
falar do Relógio do Fim do Mundo numa taverna e, ignorando os avisos dos aldeões,
decidiu explorar a torre. Ele era cético por natureza, mas algo sobre aquela
história o fascinava.
Ao chegar à colina, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A torre parecia
observá-lo, imponente contra o céu nublado. Calen empurrou a porta de madeira
maciça, que rangeu em protesto, e entrou em um mundo de poeira e sombras.
O interior da torre era uma espiral de escadas, gravuras antigas e runas
desconhecidas. Cada passo parecia ecoar na eternidade. Calen subiu por horas até
alcançar a câmara do relógio. No centro da sala, uma mesa de pedra sustentava um
diário desgastado.
“Somente aquele que ousar mexer no tempo descobrirá a verdade”, dizia a capa.
Ao abrir o diário, Calen encontrou anotações de um guardião do relógio. Ele falava
sobre um pacto antigo feito pelos homens para aprisionar o tempo. Os ponteiros do
relógio pararam momentos antes de um cataclismo, suspendendo o mundo em um
equilíbrio frágil. Mas o tempo exigia liberdade, e a torre era sua prisão.
Curioso, Calen aproximou-se do relógio. Os ponteiros eram feitos de um metal
reluzente que parecia vibrar sob seu toque. Ele percebeu que uma pequena chave
estava presa no centro do mecanismo. Instintivamente, ele a girou.
Um som profundo reverberou pela torre, como se o próprio edifício estivesse
despertando. Os ponteiros começaram a se mover, e um vento sobrenatural encheu a
sala. Calen sentiu-se sugado para fora do tempo e do espaço, e quando abriu os
olhos, estava em um lugar diferente.
Era o mesmo bosque, mas parecia mais vivo, com cores intensas e um céu cheio de
auroras. A torre estava em ruínas, e uma figura apareceu entre os escombros. Era
alta, etérea, com olhos brilhantes como estrelas.
– Você libertou o tempo – disse a figura, em uma voz que era ao mesmo tempo um
sussurro e um trovão. – O ciclo precisa recomeçar.
Calen tentou entender o que havia feito, mas a figura o silenciou com um gesto. Ela
estendeu a mão, e o relógio flutuou até ela, seus ponteiros girando rapidamente.
– Não tenha medo – disse ela. – O fim nunca é o fim. É apenas o começo.
Com um estalar de dedos, a figura desapareceu, e o mundo ao redor de Calen começou
a se desintegrar em partículas de luz. Ele sentiu-se parte de tudo: do tempo, do
espaço, da vida.
Quando acordou, estava de volta à colina, mas a torre havia desaparecido
completamente, como se nunca tivesse existido. No lugar, havia apenas um relógio de
bolso antigo em sua mão, os ponteiros parados às doze horas em ponto.
Calen voltou à aldeia, mas não contou o que havia acontecido. Ele sabia que ninguém
acreditaria. No entanto, de vez em quando, quando o vento mudava e o céu ficava
cheio de luzes dançantes, ele sentia uma presença familiar e sabia que o tempo
estava observando. E esperando.