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NACIONAL com o número 242.475 L 430 Fl


135 em 15 de outubro de 2001.

Áurea

Aprendizes

I
SOBRE A AUTORA
O nome de batismo é Antônia da Silva
Barbosa, mas o apelido de infância, Áurea, é o
nome que escolhi, pois é assim que as pessoas
que mais amo sempre me chamaram .
Sou professora de Língua Portuguesa_
função ingrata, num país que não ama as letras.
Funcionária pública ,trabalho para o
estado do Rio de Janeiro há cinco anos e há sete
para o município de Belford Roxo.
Meu ingresso no magistério foi
problemático e eu cheguei, várias vezes, a pensar
em abandonar a carreira por sentir-me
impotente diante do descaso de que é vítima a
educação nesse país.
Fiquei e aprendi mais do que ensinei,
confesso, mas sei que os amigos que fiz ,entre
alunos e professores, e as pequenas experiências
que compartilhei durante esse tempo me
redimem .
O livro Aprendizes é um tímido começo na
carreira literária ,era algo que eu devia escrever
para sossegar uma mente irrequieta ,com um
milhão de idéias ociosas. Sim, acho que foi uma
espécie de exorcismo, nada mais, afinal, tendo
em Gabriel García Marquez o ideal literário, fica
quase impossível não sair frustrada de qualquer
tentativa nessa área.
O livro trata de anjos ,demônios e bruxos,
mas também de gente comum, com problemas
idênticos aos de qualquer pessoa . Ofereci-o ao
arcanjo Miguel, pois tenho grande simpatia por
esse anjo guerreiro. Acho que é [Link] leitura!
M altus é um mago poderoso que
viveu séculos atrás e que, para
conseguir a longevidade, fez
um pacto com o Diabo. Para conseguir reaver
sua alma, ele precisa encontrar um aprendiz
de alma pura, que não se deixe corromper.
O escolhido é Ângelo, um jovem
ajudante de bar , cujo maior sonho é
conquistar a menina mais cobiçada do
bairro: a intratável Vilminha.
Ângelo aceita o desafio de aprender os
segredos da magia para libertar o amigo e
mestre, e então começam para ele duras
provações: além do amor frustrado ,ainda
torna-se o alvo do próprio Anjo Caído que,
para desvirtuá-lo, toma forma humana e vem
à terra em seu encalço.
Há também Carlinho, chefe de um grupo
de delinqüentes, que tem sua vida mudada
ao conhecer o pai que o abandonara, o
policial Paulo. Sua relutância em aceitá-lo e
as constantes brigas com Ângelo e Maltus são
uma história à parte.
Esses e mais Elleta, outra personagem
de um longínquo passado, são os
“aprendizes” do título. Todos eles têm que
abrir mão de planos traçados e seguir por um
caminho novo e assustador.

II
A
o glorioso Arcanjo Miguel
General dos exércitos de Deus
Príncipe dos Anjos
Guardião dos Portais Sagrados

III
CAPÍTULO I

E
le chegou num dia nublado e abafadiço e
todos daquela rua admiraram-se de sua
figura.
Era um homem que aparentava pouco mais de cinqüenta
anos, barba branca e cerrada, e uma expressão nos olhos
negros que intimidava. Vestia sobre os trajes um sobretudo
negro, já surrado, e escondendo os cabelos grisalhos, que lhe
chegavam um pouco acima dos ombros, um chapéu também
negro, de abas largas. Cruzada nos ombros, trazia uma velha
bolsa de couro onde repousava sua mão direita. Seu talhe
esguio movia-se a passos largos, com a decisão de quem
sabe onde quer chegar.
Indiferente à curiosidade que despertou nos
moradores e aos olhares furtivos que lançavam em sua
direção, dirigiu-se a um barzinho onde, à sombra generosa
de uma velha amendoeira, os homens espalhavam-se em
mesas abarrotadas de garrafas e tentavam entender-se em
meio à confusão alegre de vozes, risos e música.
Ao notarem sua presença, mediram-no de alto a
baixo, com a arrogância costumeira com que sempre eram
ali recebidos os tipos estranhos:
__Cada coisa que aparece! – disse um deles,
provocando risadas nos demais.
Sem alterar a fisionomia, falou ao dono do bar,
em sujeito baixo e robusto:
__Sabe se o casarão do alto do morro está vazio?
O outro espantou-se com a voz profunda e clara.
Respondeu-lhe enquanto limpava o balcão, sem encará-lo:
__É abandonado, moço. Mas se está pensando
em ficar por lá, não é boa idéia, não!
__Por quê?

1
O dono do bar chegou o rosto próximo ao
estranho e disse, num tom reservado:
__É o esconderijo dos malandros!
__Obrigado.
O homem atrás do balcão viu o recém-chegado
sair com a mesma impassibilidade com que entrara, e para
seu espanto e dos demais, que tomava o rumo do velho
casarão.
__Esse dura pouco! – profetizou um dos
fregueses, enquanto enchia o copo.
À medida que escalava lentamente o morro, o
estranho sentia que se aproximava de seu destino. Era ali,
naquele casarão em estilo colonial, já devastado pelo tempo
e com o mato a invadir-lhe que deveria terminar a batalha.
Sabia que lá embaixo tinha deixado muitas
perguntas. Quem seria aquele homem de aparência tão
suspeita que não tinha medo de ocupar o esconderijo de
bandidos? O que estaria pretendendo ali? Com o tempo
viriam outras perguntas, novas suspeitas e – como sempre
havia acontecido _ hostilização.
Mas se para a gente daquele lugar ele era um
ponto de interrogação, nenhum mistério, ao contrário, lhe
representavam essas mesmas pessoas. Nada do que se
passava em suas mentes era-lhe desconhecido. Não que
pudesse essa figura singular ler pensamentos ou coisa
parecida, mas durante o tempo em que viajara pelo mundo,
através dos séculos, nunca encontrara um povo que se
distinguisse do outro de forma significativa. Eram as
mesmas perguntas, os mesmos olhares, as mesmas reações.
Um estranho nunca era bem vindo. Melhor assim, afinal,
para a vida que levava quanto mais distanciamento das
outras pessoas, melhor.
Chegando ao topo parou e, atentamente,
observou o lugar: a grama estendia-se como um tapete até
onde a vista alcançava. Ao longe, se podiam ver as pipas
2
dos meninos dançando no ar, como pontos coloridos.
Não havia por perto nenhuma outra casa. O que era ótimo,
pois não precisava de vizinhos.
Olhou para o casarão. Era circundado por
árvores frondosas, o que lhe amenizava o ar abandonado.
Notou que dali teria uma boa visão de toda a rua principal e
também das vizinhas. Sim, estava satisfeito. Parecia que este
refúgio era ermo o bastante para que tivesse alguma
privacidade, essencial ao seu trabalho.
Caminhou até a porta, mas antes que as vozes
juvenis lhe chegassem aos ouvidos, sentiu a presença deles.
Entrou sem hesitação. Já ouvira do dono do bar que o
casarão tinha moradores. Bem, precisariam desocupá-lo.
Ao vê-lo um deles gritou, enfurecido:
__Se manda, velho! Não tá vendo que o lugar já
tem dono?
Eram quatro. Estavam sentados no chão, em
círculo, e fumavam. Um deles trazia uma arma junto ao
corpo, por dentro da bermuda. A despeito de sua pouca
idade, um ódio antigo brilhava-lhe nos olhos gateados e era
mais denso que a fumaça que o envolvia.
Maltus adiantou-se, avançou em direção a eles e,
com tranqüilidade, depôs sobre um caixote a bolsa que
trazia consigo.
Disse-lhes:
__Vocês não podem ficar , meninos. Vão ter que
procurar outro esconderijo.
O invasor não precisou esperar muito pela
reação a suas palavras temerárias: ela veio embalada pelos
palavrões do que parecia ser o chefe do bando. Era o mesmo
que trazia a arma e que agora apontava para o homem
imperturbável a sua frente.
__Tu só pode ser maluco! Ou então burro! –
disse o rapaz antes de apertar o gatilho.

3
Disparou uma, duas, três vezes, e ... nada! O
alvo, inexplicavelmente, continuava ali, imóvel, como se
fosse inatingível.
A mesma expressão de incredulidade do rosto do
rapaz que atirara se repetia nos seus companheiros. Como
podia ser tal coisa? O que se adiantara tinha ótima pontaria e
aquele velho a sua frente não podia ser feito de outro
material senão carne.
Maltus estendeu a mão e lentamente abriu-a: ali
estavam as três balas, ainda fumegantes. Os quatro
arregalaram os olhos, incrédulos.
Então, quando já iam respirar, algo ainda mais
surpreendente lhes estancou novamente o ar nos pulmões. O
homem a sua frente começou a mudar de forma: a pele
escureceu rapidamente, nasceram-lhe garras e presas; os
olhos tornaram-se amarelados e oblíquos. Logo, um urro
selvagem lhes gelou as entranhas e como se já não
estivessem acordados, viram que aquele velho perdera o
aspecto humano e era agora uma gigantesca pantera, mais
negra que suas almas.
As patas possantes, então, flexionaram-se,
armando o salto fatal na direção dos rapazes. Estes, como
um raio, precipitaram-se porta a fora, aos encontrões,
liberando aos berros o medo que antes lhes congelara a
ação.
Ficando sozinho, Maltus voltou a sua antiga
forma. Não gostava desse tipo de demonstração nada sutil,
mas para aquelas inteligências abrutalhadas e
impressionáveis essa era ainda a melhor resposta.

4
CAPÍTULO II

Ângelo fora o único a ver. Por que aqueles


malandros haviam descido o morro do casarão daquele jeito
tão desesperado? Parecia até que toda a polícia do mundo
estava atrás deles. Mas sabia que polícia não poderia ser: ela
nunca chegavam em silêncio, sempre se faziam anunciar
primeiro, e os moradores, que não eram bobos, corriam e se
trancavam dentro de casa. Mas, então, o que mais – ou quem
– poderia tê-los deixado daquele jeito?
Bem, de qualquer forma, não era da sua conta.
Estava indo encontrar-se com a garota mais bonita da rua –
ou da cidade – e não iria perder tempo com aqueles
vagabundos. Eles que danassem!
Sorriu intimamente ao lembrar-se de todos seus
esforços para conseguir o encontro daquele dia. Ela não era
só a menina mais cobiçada dali, era também a mais difícil.
Por isso gastara horas se vestindo – como uma noiva, lhe
dissera a mãe – e também todo o perfume do frasco.
Vilminha estava esperando por ele próximo a
igreja, o que era ótimo, pois era esse o lugar por onde todos
passavam e assim todos testemunhariam sua vitória.
Era verdade que todos falavam do conhecido
gênio da sua quase namorado. Era uma fera! Mas isso não o
assustava. Muito pelo contrário! Achava que assim era até
mais emocionante! Agora só precisa lembrar-se de não
tentar agarrá-la no primeiro encontro. “Juízo, Ângelo!”,
pensava. Primeiro, iria deixá-la assombrada com sua
inteligência e boa educação. E aí, quando ela estivesse
caidinha – esfregou as mãos – acabava com aquele orgulho.
Olhou o relógio e apressou o passo. Droga!
Estava atrasado!

5
Ao lado da igreja, Vilminha batia os pés de
impaciência e olhava repetidamente o relógio, incrédula.
Ângelo devia ter chegado há dois minutos! E quando já ia
desistir de esperar o pretenso namorado, indignada, avistou-
lhe a figura, que agora vinha correndo enquanto acenava-
lhe.
Chegou onde ela estava, ofegante:
__Oi, Vilminha! Demorei?
__Nós marcamos duas horas, e já são duas e
dois! – disse, zangada.
__Perdão, é que eu estava me arrumando para
você!
Deu uma volta, braços abertos, exibindo a
camisa multicolorida. O perfume que ele usava pronunciou-
se com mais força e envolveu a moça numa nuvem
nauseante.
Vilminha olhou-o de alto a baixo com uma
careta. No que fora se meter? Com a doce voz cheia de
ironia, disse ao rapaz:
__Você está... lindo!
Ângelo sorriu satisfeito. Depois, timidamente,
segurou-lhe a mão.
__Vamos, então?
Vilminha soltou-se dele sem cerimônia.
Perguntou:
__Que filme vamos assistir?
__“Débi e Lóide”. Meus amigos já viram e
adoraram! – respondeu, enquanto passava o braço em torno
do ombro da moça.
__Imagino! – tirou o braço do rapaz de seus
ombros com uma careta – Será que não dava para usar um
perfume menos forte?
__Ah, qualé Vilminha? Perfume de homem tem
que ser forte mesmo!

6
A moça suspirou e estendeu o braço para o
ônibus que chegava, arrastando seu véu de poeira.
Eram pouco mais de sete horas da noite
quando Ângelo, cabeça baixa, voltava para casa. Enquanto
chutava uma lata de refrigerante, relembrava o fracasso de
seu encontro. A Vilminha não era fácil, mesmo! Reclamou
de tudo: sua roupa, seu perfume, do filme e até da pipoca!
Tentou beijá-la várias vezes, mas a danada desviava o rosto,
dizia que ele estava fedendo! E quando ele, inocentemente,
grudou um chiclete embaixo da cadeira e, sem querer__ sem
querer mesmo!__ passou a mão em sua perna? O barulho
do tapa fez tudo mundo no cinema tirar os olhos da tela.
Ainda bem que naquela escuridão não puderam saber quem
era o infeliz que apanhava da namorada. Ainda teve que se
segurar para não acertar o babaca do lado que rolava de
tanto rir. Droga de noite!
Parou diante do muro sem pintura. Antes de
chegar a porta, enxotou com o pé o cachorro que o saudava
com a alegria desinteressada dos cães.
Bateu e logo ouviu os passos da mãe e o girar da
chave.
__E então – quis saber D. Alzira – Como foi o
encontro?
__Esquece, mãe! Esquece!

CAPÍTULO III

7
M
altus estava exausto. Havia trabalhado
muito nos últimos dias e era preciso
recuperar-se. Seus sentido precisavam
estar atentos para não perderem nenhum sinal.
Sabia que alem dos espíritos aliados que o
acompanhavam, havia também o outro que aguardava
pacientemente por mais um erro seu.
Como poderia descrever seu oponente e ser
exato na descrição? Que palavra poderia nomeá-lo?
Os homens deram-lhe, ao longo dos séculos, nomes
incontáveis. Cada um deles dizia um pouco a respeito de
sua natureza, mas nenhum deles foi capaz de resumi-la.
Uma de suas vantagens era o domínio das
palavras. Palavras são caixas cheias de dualidades, e isso
lhe servia bem.
Podia, por isso, defender com maestria o pior
dos atos, justificar a mais hedionda das barbáries, lançar
dúvidas sobre a mais nobre das intenções.
Foram muitas as batalhas travadas, mas
mesmo que ele, Maltus, estivesse pleno de razão nunca
conseguiria arrancar-lhe a última palavra.
O outro sabia bem ao que pretendia:
obstinado em seus objetivos, perseguia a presa com
paixão de caçador. Sabia da crônica fragilidade humana,
de como suas mentes oscilavam entre o bem e o mal,
entre a prudência e a loucura. Aproveitava-se disso:
lançava-lhes nos espíritos a fagulha da dúvida e
enquanto a vítima debatia-se para apagá-la, lançava
outras e mais outras, até que o contendor, exaurido, se
deixava arrastar.
Era, na verdade, tudo o que tinha a fazer: semear
e esperar o tempo da colheita. A terra era fértil e ele tinha
toda a eternidade para esperar pelos frutos mais relutantes.
Maltus tinha muitos aliados no mundo espiritual
que o seguiam sempre, mas também havia aqueles espíritos
8
que eram aliados de Desafiador, seus servos. Por isso,
antes de se estabelecer ali, deveria conhecer suas
companhias espirituais naquele lugar.
Sentou-se no chão sobre os joelhos e pôs-se a
murmurar antigas preces, numa língua há muito esquecida.
Esteve assim alheio a realidade física por alguns minutos, e
quando por fim levantou-se, já sabia com que forças arcanas
teria de se relacionar.
Abriu a bolsa que trazia consigo e retirou alguns
pequenos frascos nos quais havia líquidos de diferentes
cores. Abriu um deles e logo o líquido vermelho
transmutou-se em fumaça da mesma cor que, lentamente,
envolveu toda a casa.

************************************

__Ô, Ângelo, olha a freguesa! Parece uma


tartaruga!
__Já vai Seu Agenor! Já vai!
Por mais que tentasse, Ângelo não conseguia
tirar o homem do casarão – era assim que o chamavam
agora – da cabeça. Quando ele chegara ali na rua não dera a
menor atenção – era só mais um maluco bêbado – ficara
apenas um pouco admirado com seu jeito já que era bastante
diferente dos outros bêbados que conhecia , nada mais.
Então lembrara-se do encontro com Vilminha e tudo perdeu
o sentido: a rua lamacenta só visitada pelos políticos em
época de eleição, os vagabundos que viviam pegando no seu
pé, a rabugice de Seu Agenor, o salário miserável... O
mundo todo era só Vilminha.
Depois do fracasso _ que ficara a noite toda
remoendo _ os sentidos voltaram a funcionar. Foi então que

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lembrara-se de que Seu Agenor havia comentado sobre o
estranho, de como estivera no bar perguntando pelo casarão,
e que, mesmo sabendo do perigo, dirigira-se para lá. O que
havia acontecido depois? Não sabia. Mas vira, algum tempo
depois, quando já ia se encontrar com a ingrata, Carlinho e
seu bando de dementes descendo o morro do casarão como
se o próprio Diabo estivesse atrás deles. Claro, na hora não
havia ligado os dois fatos, mas agora, pensando com mais
calma...
__Aqui seu refrigerante, Dona Neusa.
Tudo se encaixava! O velho tinha botado todo
mundo para correr! Sorriu, divertindo-se com a
possibilidade de Carlinho ter sido expulso de seu
esconderijo preferido.
Mas como isso poderia ter acontecido? Carlinho
raramente era visto sem uma arma. De que forma aquele
homem sozinho, conseguiria expulsar os quatro do casarão?
Era muito coragem pois conhecia bem os outros rapazes –
assassinos feitos, apesar da pouca idade – eles não
deixariam aquilo barato. Mesmo que o invasor fosse da
mesma laia deles , o que era mais provável.
__Cuidado com os copos, Ângelo!
Ninguém mais devia ter visto, senão, àquela
hora, todo mundo já estaria comentando o fato. Viram o
velho entrar no Casarão, não o viram sair e concluíram que
ele estava lá por que era conhecido dos malandros. Mas
agora Ângelo sabia que não era bem assim.
E os outros onde estariam? Não os tinha visto
ainda, o que era muito raro. Bom, se o que pensava estava
correto deviam estar doidos da vida, entocados em algum
lugar e planejando a vingança.
Acordou de seus pensamentos com o impacto de
um taco de sinuca na cabeça:
__Ai, Seu Agenor! Isso dói!

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__Se não doesse eu não perdia meu tempo,
sua lesma! Não tá vendo aquele freguês ali, te fazendo
sinal?
__Já vai, moço!
Foi até o freguês massageando a cabeça e
esbarrando nas mesas que se amontoavam no espaço
pequeno.
Agenor olhava-o e balançava a cabeça,
conformado. Às vezes tinha vontade de demiti-lo por sua
distração, mas não poderia. Tinha de admitir: o bar do
Agenor não era o mesmo sem ele. Até os fregueses mais
carrancudos não conseguiam segurar o riso quando ele, sem
nenhuma cerimônia, imitava algum morador. Era uma risada
geral! Imitava o jeito de falar e andar de qualquer um com
tanta perfeição que nem o próprio imitado ficava sério. Era
um artista para aquela coisas, o safado! E apesar de quase
sempre chegar atrasado e quebrar seus copos, não havia
outro como ele. Seu jeito despachado, meio moleque,
conquistava logo simpatias.
Alguns estabelecimentos comerciais mais
afortunados podiam contratar artista para atrair a freguesia.
Ele tinha o Ângelo.
__Seu Agenor, posso falar um segundo com o
senhor?
__Estou ocupado, Ângelo.
__É só uma perguntinha – falava baixo,
enquanto tirava cervejas do freezer – o senhor ouviu falar
mais alguma coisa sobre aquele homem que chegou aqui
ontem?
__O esquisitão? Nada! – fritava coxinhas, o
rosto suado e corado pelo calor __Tá entocado lá desde
ontem, no casarão. Isso, se o Carlinho já não deu um jeito
nele. Nesse caso, tá esticado em algum lugar. Por quê?
__Só curiosidade.

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__Sei! Melhor não se meter com essa gente!
Sabe-se lá quem é, de onde veio?

O bar fechava às oito, mas Ângelo tinha


conseguido, a muito custo, que Seu Agenor o liberasse às
seis. Ia até uma escola pública noturna onde cursava o
segundo ano do Ensino Médio. Não pretendia ser ajudante
de bar a vida toda.
Naquela noite, andando a passos rápidos, passou
pelo casarão e notou as janelas fracamente iluminadas.
Nenhum ruído. Será o velho, pensou, ou turma do Carlinho
que voltou? Eles não apareceram no bar aquele dia, o que
era de se admirar. Onde estariam? Sempre aprontavam
arruaças, cometiam pequenos furtos, andavam de lá para cá,
tirando o sossego de quem encontravam pela frente, ou
quando estavam cansados das velhas brincadeiras, iam até o
Bar do Agenor, espantavam os fregueses, comiam e bebiam
à vontade deixando o dono do bar à beira de ataque de
nervos.
Já eram, enfim, parte da paisagem, por isso a
estranheza de Ângelo com seu sumiço.
Estava pensando nisso quando, sem mais nem
menos, uma vontade doida de subir o morro do casarão e dar
uma olhada pela janela assaltou-o. Sabia o tamanho do risco
que isso representava e balançava a cabeça, reprovando
aquele pensamento. A vontade, no entanto, não o deixava.
Então, como saída, tentou argumentar com sua insensatez:
“Já pensou, seu idiota, subir o morro do casarão a essa hora?
E se você topa com a besta do Carlinho apagando o velho
maluco? E aí? Aí, você fica sendo testemunha e, pra não
abrir a boca, eles te enchem de bala também. Já pensou,
você jogado numa vala, sua mãezinha chorando, a Vilminha
fazendo cara de nojo?”

12
Ângelo dava a si mesmo razões as mais
sensatas possíveis para continuar no seu caminho, mas
algumas idéias entram na cabeça e dominam nossa vontade,
desdenhando qualquer argumento. E foi assim que, vencido,
ele começou a escalar o morro lentamente, arrastando-se por
entre os arbustos para não ser visto.
Aos poucos, `a medida em que avançava, as
paredes do casarão cresciam diante de seus olhos. Levantou-
se bem rente à parede enegrecida e aproximou o rosto da
janela, sempre olhando para os lados. Seu coração batia tão
desesperado, que chegou a pensar que lhe escaparia do
peito.
Quando, olhando pela janela, pode distinguir
alguma coisa, precisou tapar a própria boca para conter uma
exclamação de surpresa: o casarão, antes vazio, estava agora
completamente mobiliado. Estantes , mesas, cadeiras,
estranhos objetos que só vira em filmes, e livros, muitos
livros.
Em uma das parede, um enorme escudo dourado
atraiu sua atenção: havia duas espadas que se cruzavam logo
abaixo dele. Espalhados pela mesa de madeira escura,
papeis amarelados e alguma coisa que lhe parecia ser um
mapa.
A um canto, para seu horror, estava o velho. A
seu lado e um imenso caldeirão fumegava. O estranho
jogava dentro deles algumas plantas e dizia algo que não
conseguia ouvir.
Uma mão fria em seu ombro quase o fez
entregar a alma ao Todo Poderoso. Ângelo virou-se e lá
estava Carlinho, os olhos gateados brilhando e, em torno
dele, como uma matilha, seus amigos inseparáveis: Bira,
Branco e Rato, como eram conhecidos na rua.
__Olha só quem tá aqui! O palhaço do bar!
__E-eu só tava passando e...

13
__Cala a boca! A gente veio aqui para acertar as
contas com aquele velho macumbeiro. Quero ver ele fazer
mágica com isso aqui – Carlinho apontou a pistola que
trazia para a cabeça de Ângelo – e como tu tá bisbilhotando,
vai entrar no samba também!
Quando Ângelo já encomendava a alma, a figura
assustadora de Maltus parou diante deles. Era a primeira vez
que Ângelo o via de perto. Quanto aos outros, voltar a vê-lo
deixou-os atemorizados, pois a lembrança de seu último
encontro estava ainda bem viva. Mas, confiantes em suas
novas armas – conseguidas graças ao prestígio de Carlinho
junto aos chefões – não demonstraram espanto.
Maltus fitou-os por alguns instantes em silêncio
e então disse com sua voz inconfundível:
__Deixem o rapaz ir!
__Nada disso, velho desgraçado! Você enganou
a gente ontem, mas hoje não!
Carlinho e os outros apontaram as armas em
direção de Maltus mas não puderam dispará-las: com um
único gesto de braço, num movimento brusco ascendente,
ele lançou longe as armas sem tocá-las. Diante dessa nova
demonstração de poder, os companheiros de Carlinho não
esperaram por mais: convencidos, debandaram morro
abaixo, esquecidos do companheiro.
Carlinho, perturbado, não se decidia entre seguir
os amigos ou ficar. Ângelo continuava colado `a parede, os
olhos arregalados pelo assombro do que vira Maltus fazer.
__É melhor você seguir seus amigos.– Maltus
dirigia-se a Carlinho que ainda não se decidira, meio
paralisado.
Conseguiu enfim, falar. A voz saiu-lhe dessa vez
estranhamente calma, pela primeira vez despida da
arrogância costumeira:
__Como você faz isso?
__Se eu lhe explicasse você não entenderia.
14
Não sabendo mais o que dizer ou fazer,
contrariado e envergonhado, Carlinho desceu lentamente o
morro, a cabeça pendendo sobre o peito nu.
__E quanto a você... – Maltus falava agora a
Ângelo que a tudo assistira na mesma posição, com a
respiração suspensa.
__E-eu? Olha, eu só tava passando, e aí...
__E aí resolveu dar uma olhadinha. A
curiosidade tem sido, através dos tempos, a responsável por
muitas tragédias.
Ângelo via aquele homem – aquele bruxo! – vir
em sua direção e tentava desesperadamente lembrar-se das
orações de exorcismo que sua tia havia tentado, durante
anos, lhe ensinar.
__Desculpa! Eu não queria ficar olhando, mas ...
Eu não estava com aqueles caras!
__Eu sei, não precisa ter medo de mim. Entre
comigo um momento. Preciso falar-lhe.
Maltus pôs a mão levemente sobre o ombro do
rapaz e caminhou em direção à porta. Ângelo desesperou-se:
__Não! Espera, aí! Eu não posso entrar, tenho
aula agora, desculpa, tá? Quem sabe outro dia?
Ângelo tentava se soltar da mão que o conduzia
para dentro do casarão mas não teve sucesso. “Meu Deus”,
pensava, “Agora ele vai me jogar dentro daquele caldeirão
pra fazer alguma poção de bruxo! Pensa rápido Ângelo!”
__Sua aula já acabou há muito tempo. E não
fique impressionado com o que viu pela janela, as
aparências enganam, sabia?
Por um momento eles apenas se olharam.
Ângelo tentando vencer sua curiosidade suicida, Maltus
apenas aguardando que ele, mais uma vez, se deixasse
vencer.

15
__Tá legal! Mas eu não posso demorar – sabia
que não adiantava lutar contra a natureza, e a sua era
extremamente curiosa.
Maltus sorriu. Foi mais rápido do que esperava.
Tomou a frente do rapaz e pediu que o seguisse. Temeroso,
achando que alguma coisa terrível lhe aconteceria tão logo
entrasse, Ângelo, assim mesmo, obedeceu.
__Eu pensei que o casarão estivesse vazio.
__E estava. Até eu chegar.
__Mas... como você trouxe todas essas coisas
até aqui sem que ninguém notasse?
__Da mesma forma que eu desarmei os meninos
lá fora.
__Mágica?
__Conhecimento.
Ângelo viu Maltus pegar um dos livros da
estante e caminhar para ele. Apontou para a cadeira de
encosto alto.
__Sente-se.
O rapaz sentou-se onde lhe fora indicado e
Maltus numa cadeira a sua frente. Olhando-o fixamente,
disse:
__O conhecimento dá poder. Um grande poder.
Mas também cobra algo em troca. O que você viu tem um
preço, que não é baixo. Aqui – bateu na capa do livro – há
resposta para muita coisa, mas não tudo. Algumas coisas é
preciso que se descubra sozinho.
Ângelo coçou a cabeça, confuso. Por que ele
estava lhe dizendo tudo aquilo? Tomando coragem disse-lhe
o que passava na cabeça:
__Nós começamos a conversar e eu nem sei seu
nome ainda. Não é estranho?
__É verdade. Meu nome é Maltus. Você é muito
esperto, Ângelo. Acho que vamos ser amigos.

16
__Você já sabia meu nome. Mas uma coisa
estranha para minha lista.
__Digamos que eu já esperava você. O que você
chama de estranho é apenas algo que você desconhece.
Tudo que não conhecemos é assustador, porque não
sabemos como nos comportar diante do desconhecido.
__Hum... já vi que você não vai responder a
nenhuma das minhas perguntas... pelo menos não na minha
língua.
__Tenha paciência. Ainda vamos conversar
muito. Agora já é tarde. É melhor você voltar.
__Está bem... e obrigado por salvar minha vida.
Você me deixou tão tonto com seu “conhecimento” que até
ia me esquecendo de agradecer.
__Ângelo levantou-se e , meio sem jeito,
estendeu a mão para Maltus que a segurou firmemente.
__Gostaria de voltar amanhã?
__Eu posso?
__Eu estarei esperando. Amanhã, à mesma hora.
__Legal! Até amanhã, então.
Ângelo caminhou até a porta e Maltus o
acompanhou. Olhou para trás antes de iniciar a lenta descida
e levou consigo a imagem do mago envolta em sombras, os
olhos que o acompanharam até que desaparecesse na
escuridão da noite. Não sabia nada sobre ele, mas sua
presença era tão cativante, seu modo de falar de tal forma o
atingira, que não tinha dúvida que estaria ali no dia seguinte
para ouvi-lo novamente, e estaria de volta sempre que o
convidasse porque simplesmente não tinha como evitar.

17
CAPÍTULO IV

M
altus sabia que agora só restava
esperar. Tinha decifrado o enigma,
esperado o momento certo e feito o
primeiro contato. Agora que jogara a rede, só precisava
puxar lentamente e torcer para que a linha não se partisse.
Era preciso cativá-lo, e o mais difícil: educá-lo. Essa parte
dependia mais do rapaz do que dele próprio. Ângelo tinha o
espírito certo, mas também a imaturidade que poderia lhe
trazer a derrota mais uma vez – só que definitivamente.
Iria ele resistir ao Outro? Estaria pronto para o
combate invisível? Perceberia a importância de sua missão?
Maltus de repente, ficou alerta. Percebeu uma
energia poderosa se aproximando. Seria...?
O ar ao seu redor parecia ter ficado mais denso,
quase material. Ouviam-se vozes confusas de milhares de
seres irem aumentando de intensidade até que, o que
começou como sussurros, transformou-se em ovação
estridente, de tal modo poderosa, que chegou a abalar a
estrutura da velha casa. Era como se ali houvesse uma
platéia invisível que delirava ante a aproximação de um
ídolo. Maltus sabia que suas chegadas eram sempre
precedidas de algum estardalhaço. Fazia parte de sua
natureza impressionar.
O mago reuniu todo seu autocontrole e
aguardou.

18
Então, insinuando-se por entre uma fenda
aberta no próprio ar, sua figura vestida de trevas encarnou-
se diante dos olhos de mago. Por mais que já tivesse
presenciado inúmeras dessas apresentações, ele nunca
conseguira evitar um certo pavor humano em contemplá-lo.
Seus olhos nunca se acostumariam àquela aparição. Por
mais bela que fosse.
Estava o Outro agora na pele de um jovem muito
claro, cabelos longos que, revoltos, pairavam acima de seu
crânio como um halo negro, movimentando-se como
serpentes finíssimas. Os olhos líquidos e oblíquos tinham a
força e atração de um abismo: não se podia fitá-los
impunemente.
Parou diante de Maltus, o rosto erguido em
desafio, os lábios vermelhos emoldurando presas brancas,
enfileiradas num riso cínico.
Maltus o olhava fixamente sem aparente
comoção:
__Você peca por excesso.
__Só faço isso para pessoas importantes, Maltus.
Não me ofenda com sua indiferença – sua voz era como o
veludo: macia e envolvente, como convinha a um sedutor.
__O que fiz agora para merecer sua atenção?
__Você parece não ter jeito! Acha mesmo que
aquele ser terá sucesso onde outros melhores falharam? Está
perdendo o faro, Maltus!
__Então por que se preocupar? Por que vir até
mim?
__O tédio, o amaldiçoado tédio, o que mais?
Mas, vai mesmo levar isso adiante? Escute: vim propor-lhe
um trato que o poupará de mais uma frustração, e se você
for ainda tão sagaz quanto antes, saberá aproveitá-lo.
__É espantoso que quem se considera vencedor
venha oferecer opções ao vencido. Você está curiosamente
benevolente. Estou curioso mesmo assim. Do que se trata?

19
O visitante deslizou até onde estava Maltus e
pousou-lhe no ombro a mão que, apesar do aspecto suave,
tinha o peso de sua alma caída. Quando aproximou do mago
o rosto encantador, Maltus pode sentir o hálito quente e a
respiração feroz do predador que de fato era:
__Entregue a mim sua alma e asseguro-lhe uma
morte sem grandes tormentos e um eternidade...tolerável.
garanto não dar maior importância àquele que escolheu
como novo aprendiz. Não lhe parece uma proposta justa?
Tentando mascarar o desconforto que sentia
com sua proximidade, Maltus respondeu-lhe com voz
serena:
__O que pretende? Acha mesmo que depois de
tantos anos de resistência vou simplesmente entregar-lhe o
troféu antes de terminado o jogo? Não! Terá que aguardar
até o fim para merecê-lo. Disfarce melhor sua impaciência.
E lembre-se: eu, ao contrário de você, aprendo com meus
erros.
__É o que quer? Então, vamos ao jogo!
Afastou-se com fúria de Maltus e, com um
gesto majestoso, levou dali sua perturbadora presença e a
escuridão abissal que arrastava consigo, como a um manto.
Maltus suspirou de alívio, embora soubesse
ser um alívio passageiro. O pior estava apenas começando.
Precisava trazer o rapaz para o seu lado o quanto antes.

Carlinho não procurara pelos amigos. Precisava


ficar um pouco só e pensar.
Nunca, em sua curta existência, havia
encontrado alguém como aquele velho. O que poderia lhe

20
dar tanto poder? Não acreditava em bruxaria: sempre
achara que era tudo enrolação, só mais um jeito de enganar
trouxa. Mas agora ... como explicar o que vira senão como
bruxaria, coisa do demônio, como diziam?
O rapaz não conseguia achar uma resposta para
suas indagações, mas de uma coisa não tinha dúvida: aquele
poder era real e se aquele velho não era um demônio, então
tinha um segredo para a sua força. Faria qualquer coisa para
fazer o mesmo que aquele estranho fazia, venderia a própria
alma, se achasse que tina uma.
Mas agora havia outra coisa que precisava
resolver primeiro. Não admitia a humilhação que sofrera:
fosse quem fosse aquele velho, ele, Carlinho iria dar seu
jeito para se desforrar, mesmo que isso lhe custasse a vida.
E quanto a Ângelo aquele era outro que não poderia ficar
livre, rindo as suas custas.

21
CAPÍTULO V

ngelo levantou-se cedo aquela manhã e,

 como de costume, dirigiu-se ao bar onde


trabalhava.
Achava que depois do susto da noite passada
demoraria a ver Carlinho, mas se enganara: mal andou cem
metros, avistou-o sobre o muro de uma velha fábrica, a
espreita como um gato, modelando com um canivete um
pedaço de madeira. Ângelo não desviou de seu caminho ,
apesar do olhar pouco amistoso que o outro lançava-lhe de
propósito. Tinha seu orgulho.
Ao passar pelo muro da fábrica, Carlinho saltou
agilmente a sua frente e o encarou, apontando-lhe o
canivete:
__Quero levar um papo contigo!
__Estou indo trabalhar. – disse Ângelo,
encarando-o também.
__Não te perguntei nada! Só vim te avisar que o
que eu te prometi ontem ainda tá de pé. Te cuida!
__Obrigado pelo aviso!
Ângelo passou pelo outro rapaz e seguiu
tranqüilamente até o bar. Mas apesar da aparente serenidade
ele sabia que tinha motivos para se preocupar: Carlinho não
estava brincando. Não o perdoaria por presenciar sua derrota
para Maltus.
Pela primeira vez aquela semana não chegou
atrasado ao trabalho. Agenor ao vê-lo tão cedo, assustou-se.
Disse-lhe sorridente:
__Que milagre é esse? Viu fantasma pra levantar
tão cedo?

22
O ajudante não respondeu. Pôs o avental e
começou a arrumar as cadeiras em torno das mesas. Agenor
estranhou o comportamento. Nunca o vira assim, tão sério.
Tinha sempre a expressão risonha, uma piada para cada
momento. Seria alguma coisa com a saúde de D. Alzira ou
rabo de saia?
__Que cara é essa? Parece que veio de um
velório!
__Nada, não, Seu Agenor, só estou cansado.
__Pois é bom se animar, hoje tem muito
trabalho!
Durante o dia, Ângelo quebrou vários copos,
discutiu com os fregueses, deixou queimar os salgados e
para arrematar, quase derrama óleo quente sobre o patrão
que, defensivamente, saltou para trás pisando o gato e
recebendo em troca uma mordida e vários arranhões que lhe
marcaram a perna.
Agenor, num justificado acesso de raiva,
empurrou porta a fora o alucinado ajudante, enquanto
gritava-lhe maldições terríveis e o ameaçava de demissão
sumária.
Ângelo, então, pela primeira vez, teve que
admitir que o patrão não estava de todo errado. Aquela
conversa com Carlinho tinha mesmo mexido com ele.
Saiu ouvindo às suas costas a gritaria de Agenor:
que não voltasse nunca mais, que já bastava o prejuízo que
tinha com os vagabundos, que teria que comprar mais copos
e que mataria o amaldiçoado gato e ele junto assim que
tivesse chance.
Tudo conversa! Sorria Ângelo, já acostumado às
explosões do patrão. Não era a primeira vez que saia do bar
aos pontapés e na manhã seguinte voltava como se anda
tivesse acontecido. Agenor resmungava, dizia que era um
santo por aceitá-lo de volta, que só deixava que ele
continuasse trabalhando ali por consideração a sua mãe, que

23
não tinha culpa de ter um filho tão preguiçoso e desatento. E
continuava a falar por todo o dia quase levando-o à loucura.
Até que dizia alguma besteira engraçada e Agenor esquecia
tudo, em meio às risadas que lhe deixavam o rosto
vermelho.
Apesar de tudo já havia se acostumado às
rabugices do dono do bar e sabia que, lá no fundo, já
conquistara seu afeto.
Ângelo agora andava sem rumo, meio
aborrecido com o que acontecera.
Quando chegou próximo ao campinho ouviu
vozes conhecidas. Uma delas era de seu amor frustrado e a
outra daquele “doce e nobre rapaz”, Carlinho.
Dobrou a esquina com o coração aos pulos e
então, parou.
Vilminha tentava soltar-se da mão que lhe
segurava o braço e, com violência inútil tentava arranhar seu
agressor. Carlinho tentava segurar-lhe as mãos, enquanto
aproximava-se mais da moça. Parecia mais alterado que de
costume, os olhos estavam vermelhos e o rosto marcado por
arranhões.
__Deixa de se fazer de difícil! Tu tá a fim, que
eu sei!
A moça debatia-se, xingava, cuspia-o quando ele
aproximava o rosto do seu, mas o rapaz parecia mais
disposto em seu intento e não cedia.
Passada a surpresa, Ângelo, num impulso de
raiva, avançou sobre Carlinho e o derrubou com um soco.
Vilminha, ao ver-se finalmente livre, teve uma reação que
confirmava seu conhecido gênio: chutou com toda a força o
rosto do rapaz caído, ferindo-o com um corte superficial,
mas que o fez encolher-se de dor, o rosto já ensangüentado.
Diante disso, Ângelo esqueceu-se por uns
instantes do algoz e olhou para a moça boquiaberto. Aquela

24
menina, definitivamente, não fazia o gênero “donzela
desprotegida”.
Sem olhar para Ângelo, a moça apanhou a bolsa
caída a um canto e arrumou o cabelo com um gesto altivo.
Então, virou-se e continuou seu caminho como se nada
houvesse acontecido e sem dedicar a seu salvador a menor
palavra de gratidão.
__Ô, metida! Sabia que a palavra “obrigada” já
foi inventada? – gritou-lhe indignado.
Vilminha não se abalou com a cobrança e sequer
voltou-lhe o rosto.
O rapaz estava tão revoltado com a indiferença
da moça que esquecera-se de Carlinho que, apoiando-se ao
muro, ainda tonto, procurava pelo canivete no bolso da
calça.
Ângelo virou-se bem a tempo de desviar-se do
golpe com que o outro, numa agilidade surpreendente,
tentara acertá-lo. Carlinho olhava-o fixamente, com um
ódio antigo e, mais uma vez lançou-se contra Ângelo.
Encurralado contra o muro, desta vez não teve o rapaz o
espaço para desviar-se a ambos rolaram pelo chão. Ângelo
segurava firmemente o pulso do outro rapaz num esforço
tremendo para impedir que a lâmina lhe varasse a barriga.
Com um impulso, num gesto em que precisou concentrar o
que lhe restava de fôlego, conseguiu erguer o tronco e, sem
largar os pulsos do outro, derrubá-lo ao chão.
Enfrentaram-se novamente corpo a corpo, até
que Carlinho, com um gemido abafado, contraiu o rosto; as
veias do pescoço saltaram-lhe, o corpo imobilizou-se.
Ângelo viu-o segurar o canivete com ambas as mãos e,
lenta e penosamente, arrancá-lo da própria cintura. O sangue
agora fluía livre e ele, numa tentativa de amenizar a dor,
pressionava inutilmente o ferimento.
Ângelo ajoelhou-se ao seu lado, pálido de
espanto, tentando lembrar-se do momento em que aquilo

25
havia acontecido. Passou do assombro a preocupação: o que
faria agora? Carlinho estava ali, sangrando, tentando
articular alguma palavra. Teria que pedir ajuda a alguém,
mas quem seria? Os moradores fariam até festa se Carlinho
passasse desta para uma pior – como costumava se referir à
morte de alguém pouco querido no bairro_ seus amigos, se
os conseguisse encontrar, iriam querer primeiro sua cabeça.
Teria que pensar em outra solução.
Tirou a camisa, dobrou-a e pôs sobre o
ferimento do outro.
__Segura firme!
Nem sabia se Carlinho podia ouvi-lo, ele parecia
estar semi–inconsciente, apenas movia a cabeça de um lado
para outro, atormentado pela dor e murmurava algo, que
parecia ser o nome de alguém; mesmo assim, fez o que
Ângelo lhe pedira; logo, a camisa estava ensopada.
Em meio a confusão de sua cabeça, teve num
relampejar uma idéia que mesmo parecendo –lhe absurda
num primeiro momento, logo se impôs: tinha que procurar
Maltus! Aquele homem que vira apenas uma vez, não sabia
por quê, inspirava-lhe confiança, e era o único a quem
poderia pedir ajuda. Esse pensamento foi refutado por algo
que nele era sensato e ponderado – e que temia aquele
homem estranho que fazia objetos voarem e tinha um
caldeirão – mas decidiu-se quando viu que Carlinho não
mais se movia.
Estremeceu ante a possibilidade do outro estar
morto. Nem nos seus momentos de maior revolta contra ele
havia pensado em lhe tirar a vida. E mesmo que quisesse, a
morte de Carlinho poderia lhe causar muitas complicações.
Àquela hora não havia ninguém ali – só a
molecada ainda passava pelo local, para jogar bola, pois era
deserto, longe das casas e cercado por um denso matagal.

26
Preocupado, tomou o pulso do rapaz
inconsciente, mas para seu alívio ele ainda estava vivo.
Suspirou – dos males, o menor!
Então, com alguma dificuldade, ergueu Carlinho
sobre os ombros, depois de amarrar a própria camisa em
torno de sua cintura. Sabia que era uma medida inútil, mas
pelo menos evitava o contato direto do ferimento com seu
corpo, o que poderia agravá-lo.
Carregando-o, passou pelo campinho – àquela
hora abandonado – e seguiu por um atalho que levava ao
casarão. A subida por ali era mais íngreme, mas o capim
alto serviria-lhe de cobertura.
Enquanto escalava vagarosamente o morro, com
o corpo inerte do outro fazendo ainda mais penosa a subida ,
olhava ao seu redor, temendo ser visto. Como pesava o
safado! Sentia-se um idiota passando por aquilo, quando
fora ele que começara tudo e quase lhe havia atravessado a
barriga. Devia era tê-lo largado lá embaixo e deixado que se
afogasse no próprio sangue ruim.
Enquanto brigava com sua própria natureza,
tentava equilibrar-se, segurando-se nos arbustos. O sangue
do outro escorria-lhe pelo ombro.
Quando finalmente chegou ao casarão, mal
conseguia manter-se de pé, as pernas ameaçavam ceder e a
respiração pesada fazia doer-lhe as costelas. Felizmente, o
restante de suas forças foram suficientes para que chegasse
até a porta. Sua ansiedade dava-lhe mais coragem para
encarar o bruxo.
Deixou Carlinho sobe a grama e bateu com
força. A porta abriu-se como impelida por uma brusca
rajada de vento, e ele ouviu, de dentro da casa a voz de
Maltus, fria, lhe retumbar nos ouvidos:
__Traga o outro rapaz para dentro e feche a
porta.

27
Ângelo ia lhe perguntar como sabia que não
estava só, mas desistiu. Não ia se preocupar com isso agora.
Arrastou Carlinho para dentro e fechou a porta, como lhe
dissera o bruxo.
Maltus estava sentado em uma cadeira de
encosto alto, com um livro que parecera a Ângelo imenso.
Não demonstrou surpresa com a visita, nem lhe fez qualquer
pergunta.
Foi Ângelo quem se sentiu ansioso para dar-lhe
alguma satisfação:
__Desculpe. Eu não sabia a quem procurar.
__Fez bem em vir. O que houve?
__A gente brigou por causa de uma garota, mas
isso - apontou para a fonte do sangramento – foi um
acidente. Eu nem sei como aconteceu!
Maltus levantou-se e caminhou até o rapaz
desacordado.
Carlinho voltava da inconsciência, entreabriu os
olhos, mas não conseguia reconhecer Maltus.
Instintivamente, levou uma das mãos ao ferimento. Sentia
muito frio, embora a ferida queimasse numa dor latejante.
Sentiu que alguém tocava-o; fez um esforço
imenso para levantar-se, mas a pessoa o impediu, manteve-o
contra o chão frio.
Maltus examinou-o por alguns segundos. Então,
disse:
__É preciso estancar logo o sangue.
Isso Ângelo já sabia. Tinha medo que não
houvesse mais nada que Maltus pudesse fazer.
Perguntou-lhe, temeroso da resposta:
__Você acha que pode fazer alguma coisa?
__Talvez.
Não era uma resposta muito confortante, mas
viu que Maltus levantava Carlinho nos braços, sem nenhum
esforço, apesar de sua altura e peso consideráveis, e o
28
deitava sobre a mesa. Pediu a Ângelo que retirasse os
livros mapas e outras coisas que estava sobre ele, menos sua
velha bolsa, que usou para apoiar a cabeça de Carlinho. Em
seguida, foi até a estante e de lá retirou um pequeno baú.
Abriu-o e pegou um pequeno frasco onde um líquido escuro
que borbulhava como se tivesse vida própria.
Ângelo observava-o atenciosamente e notou que
ele derramava um única gota sobre o corte. Em contato com
o sangue, o conteúdo do pequeno frasco entrou em imediata
ebulição, e ele teve de correr para ajudá-lo a segurar
Carlinho, que ao sentir o remédio penetrar-lhe nas
entranhas, contraiu os músculo, num espasmo de dor. O
choque fez com que despertasse totalmente e, enfim, pôde
reconhecer as pessoas ao seu redor. Tentou dizer-lhes algo,
mas Maltus fez-lhe um gesto de silêncio e tranqüilizou-o
com o olhar que das outras vezes tanto o assustara.
Vendo que a hemorragia estancara, Ângelo
olhou Maltus admirado:
__Você entende de medicina?
__Não da convencional.
Carlinho pôde finalmente falar, a memória
voltara de repente.
Voltou a cabeça para Ângelo e disse com mais
força que conseguiu:
__Agora me lembrei! Tu me furou, seu ...!
A raiva que as lembranças despertaram agitou-
lhe o corpo e ele dobrou-se todo, tomado por uma onda de
dor que vinha da ferida recém-fechada.
Ângelo balançou a cabeça: ainda tivera medo de
que o animal morresse! Pelo visto ele já estava bem
disposto.
Maltus tinha entrado num outro cômodo mais
escuro do que aquele em que se encontravam. Voltava
agora, trazendo uma bacia que depôs sobre a mesa, ao lado
de Carlinho. Havia dentro dela várias raízes mergulhadas

29
em água morna. O cheiro era forte, mas não desagradável. O
rapaz olhou-o e permaneceu mudo, mas o rancor
concentrara-se em seus olhos claros.
Maltus ignorou a ofensa silenciosa e, com um
pano umedecido na mistura que preparara, pôs-se a limpá-lo
do sangue coagulado em seu rosto e corpo. Carlinho desviou
os olhos e fixou-os na parede, permanecendo imóvel durante
o tempo em que o mago cuidava dele.
Quando Maltus acabou, entrou novamente no
quarto e deixou Carlinho e Ângelo sós. Encararam-se por
alguns segundos, até que Carlinho, com mais cuidado, disse-
lhe:
__Por que me trouxe pra cá?
__O que você queria que eu fizesse? –
respondeu Ângelo, irritado – Esqueceu quem começou tudo
isso?
__Não interessa! Quando eu sair daqui não vai
ficar barato, tá ouvindo?
__Eu devia era ter te deixado lá sangrado até
morrer!
__E não deixou por quê? Se fosse eu...
Nesse momento, Maltus voltou com um pequeno
cálice e a ambos calaram-se. Viram-no misturar ao líquido
vermelho um pó escuro que retirava e um pote. Depois foi
até o Carlinho e ajudou-o a sentar-se para, em seguida,
estender-lhe a bebida, agora mais escura e levemente
borbulhante:
__Beba.
Carlinho retraiu-se, assustado:
__De jeito nenhum! Eu nem sei o que é isso,
cara!
__Nada que lhe faça mal. Você perdeu muito
sangue, isso vai lhe ajudar.
__Muito abrigado, mas eu tô ótimo!

30
Carlinho af7astou bruscamente a mão que
lhe estendia a taça e levantou-se da mesa num ímpeto.
No entanto, ao tentar o primeiro passo em
direção à porta ,tudo oscilou e ele precisou agarrar-se à
borda da mesa para não desabar.
__Cabeça oca! __disse Ângelo ,fazendo-o
deitar-se novamente.
__Me larga!
__Pode deixar, Ângelo.
Maltus aproximou novamente a taça de Carlinho
e olhou-o com uma severidade que não dava lugar para
contestação:
__Beba por sua vontade, ou contra ela. Você
escolhe.
O rapaz não duvidou sabia do que o outro era
capaz. Tomou a taça com ambas as mãos, olhou-a ,
hesitante, e então bebeu-lhe o conteúdo amargo de uma só
vez. Depois, encarou o mago sem medo, devolveu-lhe o
olhar hostil:
__Posso ir agora ? Ou tem mais veneno aí que
você quer testar?
Maltus sorriu. Apreciava a disposição do rapaz.
__Quando você acordar estará pronto para ir.
Carlinho ia replicar, dizer que não pretendia
dormir ali de jeito nenhum, mas seu corpo prostrou-se numa
dormência repentina e logo sua consciência foi arrastada por
um sono profundo.
Ângelo olhou o outro que dormia. Disse a
Maltus:
__Desculpa pelo incômodo, mas eu não podia
deixar ele lá...se bem que deu vontade!
__Fez bem em me procurar. Agora, venha
comigo, preciso lhe falar sobre um assunto muito sério.
O rapaz ficou intrigado, o que Maltus teria para
falar-lhe ? Mal se conheciam.

31
O mago levou-o até uma pequena sala onde
havia um quadro que tomava quase toda uma parede. No
quadro, um homem de grandes barbas, vestido de vermelho,
segurava em suas mãos um grande livro de capa dourada.
Ao seu lado ,um escudo de ouro. Maltus apontou-lhe uma
cadeira e sentou-se na outra em frente.
__E o Carlinho ?__perguntou Ângelo
__Ele não vai acordar tão cedo.
Com o rosto mais sombrio que o de costume,
continuou:
__Sei que nosso primeiro encontro foi muito
brusco e não pudemos conversar melhor. Também sei que
não compreende porque o chamei para conversarmos. Há
muita coisa que preciso contar-lhe a meu respeito...
__Por que para mim?
__porque o único motivo de eu Ter vindo até
aqui foi para encontrá-lo. Mas só vai conseguir entender
isso, e também as coisas que já viu, depois que eu lhe contar
minha história. Para começar, é preciso que saiba que nasci
em 1314.
__O quê?! Isso é...Impossível! __ia acrescentar
“você é louco!” mas reprimiu-se a tempo.
__Não, não é.
__Mas uma pessoa não pode viver tanto! Como
você pode ainda estar vivo?
__Ouça tudo primeiro. Talvez, depois disso, não
ache tão incrível assim.
“Nasci numa pequena aldeia ,na Europa, numa
época em que chegar vivo aos trinta anos era uma proeza.
Ainda muito jovem , em meio a toda miséria que me
cercava, eu apaixonei-me perdidamente pela magia. Sabia
que esse era um assunto proibido, punido com a morte na
fogueira, mas tamanho era meu encanto, meu entusiasmo,
que não tomava conhecimento do perigo. Meu único
cuidado foi evitar que alguém em minha aldeia percebesse
32
essa minha inclinação, e à noite, secretamente, me
aventurava nas florestas à procura dos bruxos e bruxas que
lá viviam , degredados, mas sempre por perto.
“Quando fiz dezesseis anos, soube que um
grande bruxo, muito temido , estava a procura de um
aprendiz. Entusiasmado pela perspectiva de ter acesso a
conhecimentos mais consistentes, fugi tão logo tive chance,
para encontrá-lo.
“No caminho, passei por grandes perigos e
provações. O refúgio do feiticeiro era além das florestas
mais sombrias, e para encontrá-lo, peregrinei durante meses,
passei por lugares quase nunca visitados.
“Encontrei-o finalmente, e tanto insisti, tanto o
cerquei com minha ânsia de saber, que ele acabou cedendo e
aceitou-me como aprendiz.
“Para tanto , trabalhei arduamente, da manhã à
noite, para conseguir dele algumas migalhas do seu
conhecimento.
“Na verdade , com isso ele queria apenas me
desestimular , julgando ser apenas leviandade de jovem o
que me levara até ali. Quando, no entanto, percebeu que eu
não desistiria até que tivesse o que viera buscar, ele permitiu
que eu acompanhasse a uma de suas experiências . Assisti a
tudo deslumbrado. Ali estava o maior prêmio que a vida
poderia me conceder.
“Depois de alguns meses auxiliando-o com suas
poções, mas sendo-me ainda negado o direito a perguntas,
meu mestre, por minha grande aplicação, julgou-me digno
de ser iniciado nos verdadeiros segredos da magia.
“Aprendi tudo que podia, retirei dele até a última
gota de compreensão das coisas e das pessoas, até que ele
nada mais tinha a oferecer-me . Mas eu continuava ansiando
por mais. Sabia que o que tinha aprendido era apenas o
começo. Despedimo-nos. Meu mestre recomendou-me
cuidado, advertiu-me sobre o excesso de curiosidade que ,

33
em mim, beirava a morbidez. Ofertou-me alguns livros e
moedas e eu parti.
“Agora queria apenas conhecer o mundo e testar
o que havia aprendido, para saber mais e mais. Estabeleci-
me em uma cidade da Itália, Florença, a serviço de um rei,
como engenheiro militar. Através dessa profissão tornei-me
respeitado e gozava de grande liberdade. Mas é claro que
tudo não passava de um disfarce para que eu pudesse
dedicar-me a minha ocupação preferida, e ainda conhecer
outros mestres em magia que também vivessem misturados
às pessoas comuns. Durante muito tempo, reunia-me a
muitos outros magos em lugares secretos para trocarmos
experiências e deliberarmos sobre muitas questões, políticas,
religiosas e em tudo mais que nos afetasse.
Maltus avaliou por alguns segundos a expressão
de Ângelo à procura de algum sinal de descrédito, mas tudo
que viu foi expectativa.
Ângelo aproveitou a pausa para respirar.
Perguntou ao mago:
__Ninguém nunca descobriu que você era
bruxo?
__Eu nunca ficava num mesmo lugar por muito
tempo. Viajei o mundo todo, conheci muitos outros magos.
Era uma vida excitante, cheia de descobertas, de
experiências fantásticas. Era como viver à parte num mundo
dominado pelo fanatismo e pela limitação intelectual.
Passei ao largo das tragédias humanas , limitando-me ao
papel de observador.
“Ao contrário de alguns colegas , eu não me
interessava por poder ou riquezas, queria apenas aprender
tudo que houvesse para ser aprendido. Nunca envolvi-me
sentimentalmente a ninguém, ligava-me apenas àqueles que
tinham algo a me elucidar .Quanto às mulheres, preferia a
companhia daquelas que eram liberais o bastante para nada
me cobrarem no dia seguinte.
34
“Assim vivia, até que uma idéia nova
ocupou meus pensamentos: eu, a despeito de todo saber
acumulado, um dia morreria. Esse possibilidade me
aterrorizou. Não fazia sentido buscar tanto algo que não
seria meu por muito tempo. E quanto aos tempos que
viriam, às novas descobertas? Não me conformava em ser
deixado para trás enquanto o tempo avançava ,indiferente.
“Procurei de todas as formas descobrir uma
poção que me assegurasse vida eterna, mas não tive sucesso.
Desesperei-me. E foi aí que cometi o maior de todos os
meus erros: apelei para a magia negra. Fui até o fundo
desses conhecimentos profanos sem qualquer tipo de
remorso. Fracassei, porém , em todas as minhas tentativas
de fazer um pacto com espíritos malignos , e quando já ia
desistir, julgando sem nenhum fundamento essas práticas,
ele veio até mim.
__Ele?
__Sim, o pior de todos os demônios. Ele
apareceu-me sem disfarce, sem meias palavras. Fiquei
atordoado, mas também eufórico. Era o que eu tanto havia
esperado. Sua presença, entretanto, era tão perturbadora que
eu, apesar de quase não me chocar com coisa alguma,
cheguei a duvidar da validade do que havia feito. Mas ele
soube persuadir-me . Conhecia todas as artimanhas das
palavras, da arte do argumento e logo o pacto estava selado:
diante das estrelas eu renunciei a minha alma para ter o
direito de acompanhar a aventura humana até quando esse
planeta resistisse. Ele me advertiu de que eu nunca deveria
interferir nos destinos humanos, foi-me proibido qualquer
gesto de compaixão, por menor que fosse , por qualquer ser
que respirasse. Se quebrasse esse acordo, perderia o direito à
longevidade e teria que partir com esse anjo deposto para
compartilhar de sua perdição eterna.
__Peraí! Se eu entendi direito... Você vendeu a
alma ao Diabo?!

35
__Eu não julgava que isso fosse algo assim tão
terrível. A limitação que ele me impôs não era uma
dificuldade para mim ,pois jamais havia sentido o impulso
de envolver-me em qualquer causa que não fosse a minha
própria.
“Mas com o passar dos anos, isso mudou.
Conheci um monge, homem de grande virtude e fé.
Afeiçoei-me a ele como a um irmão. Era um homem muito
esclarecido para sua época, e sua bondade, sua doação às
pessoas ,quaisquer que fossem elas, me contagiaram..
Tínhamos longas conversas e nossa amizade se fortalecia
dia a dia.
__Ele sabia quem você era de verdade?
__Não. Só veio saber muito tempo mais tarde. A
ele eu devo o fato de estar hoje aqui.
“O que mudou tudo, entretanto, foi a doença
incurável que ele contraiu. Eu não podia suportar a idéia de
que ele morreria, não naquele momento em que eu estava
fazendo tantas descobertas novas, graças a ele. Então,
depois de procurar exaustivamente, encontrei uma poção
que poderia curá-lo, como de fato o curou.
__Mas isso não foi bom para você...
__Não. Quando o demônio soube que eu havia
gasto noites procurando desesperadamente a cura para
aquele homem que , por sua natureza, era um inimigo
odiado, sua fúria veio sobre mim com toda a intensidade.
Foi terrível contemplá-lo na sua forma mais bestial ,
exigindo reparação.
“Eu sabia que não teria como escapar ao meu
destino. Pela janela do mosteiro, onde velava pela
recuperação de meu amigo, despedi-me da vida. No entanto,
sem que eu esperasse, ele apareceu. Trazia no rosto as
marcas da longa reclusão a que a doença o obrigara, mas se
podia ver que não havia quebrado seu espírito. Ele encarou
o demônio sem melindres, como se aquela visão não fosse
36
aterradora. Encarou-o com serenidade e até com certa
compaixão. Depois, inquiriu-me o significado de tudo
aquilo. Aniquilado, contei-lhe em breves palavras.
“O outro tinha pressa em arrastar-me com ele e
para intimidar o monge usou de tudo que sabia, de pressão
psicológica à física, mas tudo em vão: a força daquele
espírito moldado na simplicidade e na renúncia não se
abalou. Ele se interpôs entre mim e a perdição eterna e a
vontade do ser maligno não prevaleceu.
“Mas as coisas não seriam assim tão simples:
para o tamanho do meu erro, só o que poderia livrar-me
definitivamente do jugo do mal seria uma expiação, e isso
só eu podia fazer. Dessa vez , o acordo foi refeito tendo meu
amigo por testemunha . Eu deveria procurar um aprendiz
que não se deixasse corromper. Deveria ensinar-lhe o que
sabia, mas esse conhecimento deveria ser totalmente voltado
para o bem, sem nunca ser maculado.
“Ironicamente, agora meu destino estava nas
mãos de outra pessoa, eu que nunca dependera de ninguém.
Teria direito a três tentativas e ,se falhasse em todas,
ninguém poderia impedir que se cumprisse o acordo.
“Depois disso, o demônio retirou-se. A vitória
não lhe tinha sido totalmente tirada, mas sua frustração por
não Ter o que queria de imediato se fez sentir em alguns
anos: a peste dizimou milhões de pessoas , a terra apodrecia
pelo sangue derramado em guerras que nunca acabavam.
Ele teve seu banquete de desforra.
__Nossa! Que história!
__Ainda não acabou. Eu falhei nas minhas duas
primeiras tentativas. Meus aprendizes, apesar de muito
promissores, não conseguiram resistir às antigas tentações
da riqueza e do poder. Eu os perdi, e com eles ,duas de
minhas chances de reaver minha alma.
__Então quer dizer que agora você só tem mais
chance?

37
__Isso mesmo! Você, Ângelo.
O rapaz deu um salto da cadeira, pálido:
__Eu?!
Ser incluído naquela história não o alegrava nem
um pouco. Começou a imaginar se não estaria diante de um
louco e perguntou-se o que estava fazendo ali, afinal,
ouvindo todas aquelas maluquices.
Maltus esperou que ele tornasse a se sentar:
__Sei o que está pensando agora. Não é uma
coisa fácil de aceitar, mesmo depois de Ter presenciado o
que posso fazer. Não posso obrigá-lo a nada. A decisão deve
ser espontânea e muito bem pensada. Eu não tenho m ais
tempo para experiências.
__Digamos que eu acredite em você. Mas, como
sabe que eu sou a pessoa certa para isso?
__Eu fiz muitos aliados no mundo espiritual,
inclusive meu velho amigo, o monge. É através deles que eu
tenho pista de onde encontrar possíveis aprendizes.
Ângelo não respondeu. Não sabia o que dizer a
Maltus ou que pensar a respeito de tudo que ouvira. Foi o
outro que , percebendo o que se passava no íntimo do rapaz,
falou novamente:
__Não posso culpá-lo por não saber o que me
dizer. Reflita primeiro sobre o que conversamos.
__Acho que , de agora em diante, só vou
conseguir pensar nisso. Embora eu ache que essa história de
aprender magia, falar com espíritos...tudo isso é...
__Coisa de louco. Eu sei. Mas como já havia
dito, só você pode decidir. Talvez, aceitar minha história
seja seu primeiro teste.
__E eu que pensei que minha vida nunca
mudaria muito. Posso pensar primeiro?
__Deve! E seriamente. A leviandade agora seria
fatal para nós dois.

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Ângelo sabia que Maltus não podia estar
brincando e sentiu medo.
Medo de aceitar e não estar à altura da missão,
de vacilar como os dois outros aprendizes de Maltus.
Como poderia aceitar envolver-se em algo tão
sério sem antes Ter certeza de que queria __ou poderia __ir
até o fim?
Ângelo levantou-se e disse:
__Eu volto amanhã com uma resposta.
Obrigado pela ajuda, tomara que eu possa retribuir.
O mago apenas balançou a cabeça, assentindo.
Acompanhou o rapaz com os olhos enquanto ele dirigia-se à
porta
Antes de sair, Ângelo virou-se. Esquecera-se
completamente do outro rapaz que dormia sobre a mesa de
Maltus
__E o Carlinho ? Como vai ser depois que
ele acordar?
__Não se preocupe com ele. Vou mandá-lo
de volta para casa.

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CAPÍTULO VI

C
arlinho estava de volta a sua
casa. Deitado, olhando para o
teto decorado por teias de
aranhas, ele não conseguia desviar o pensamento do que
havia acontecido no dia anterior. Acordara de manhã no seu
antigo esconderijo. Mas não era mais o mesmo de que se
lembrava: estava cheio de móveis estranhos, coisas que
pareciam ser muito antigas.
Levantara-se devagar, buscando as lembranças
que se atropelavam em sua cabeça, confusas, fora da ordem.
Só quando o bruxo apareceu a sua frente, mandando-o sair –
sair do seu esconderijo, onde antes, só entrava quem ele
queria – é que tudo clareou em sua memória.
Havia chegado em casa ainda um pouco tonto,
por isso foi até o banheiro e lavou o rosto. Olhou
atentamente seu reflexo no espelho partido: havia um corte
na face direita. “A vadia”, pensou, recordando-se do
encontro com Vilminha. Lembrou-se também de Ângelo e
instintivamente levou a mão até o ferimento, já cicatrizado.
A medida que refazia, minuciosamente, os
detalhes do que havia acontecido naquele dia, mais seu ódio
o atormentava.
Voltou para o quarto e tentou organizar as
idéias. Queria planejar uma vingança terrível contra Ângelo
e o outro de quem agora conhecia o nome: Maltus. É claro
que não deixaria a dondoca de fora da brincadeira, mas isso
ficaria pra depois.
Do quarto ao lado, no entanto, ouviu risos cada
vez mais altos. A mãe devia estar com um novo namorado.

40
Essa idéia, misturada a todo o resto, fez com que a
raiva que pulsava dentro dele aumentasse até deixá-lo
sufocado.
Levantou-se de um salto e, com um pontapé
escancarou a velha porta que, num estrondo, quase se
esfacelou contra a parede. A mãe e seu companheiro
desvencilharam-se com o susto, mas antes que fizessem ou
dissessem algo, Carlinho avançou sobre eles com um
pedaço de madeira – sobra da antiga cama – que achara
jogada a um canto. O homem soltou rápido, mas não evitou
o golpe que o alcançou na cabeça e o fez cambalear.
Carlinho ia acertá-lo novamente, mas a mãe pôs-se entre ele
e o amante, e conseguiu com esforço e berros, conter o novo
ataque, antes que ele a empurrasse de volta à cama.
A breve pausa deu ao homem a chance de
escapar, meio nu, o rosto coberto por uma máscara de
sangue. O rapaz seguira-o ainda, mas o ímpeto já não era o
mesmo, e deixou que se fosse, porta a fora, escada abaixo,
caindo e levantando, sem olhar para trás. Da porta ouvia os
gritos histéricos da mãe, a que já se acostumara.
Gritou-lhe também algumas palavras ásperas e saiu,
chutando o que achou pela frente.
No caminho, decidiu que devia procurar pelos
amigos e andou mais rápido, em direção a um velho barraco
onde se reuniam agora.
Encontrou-os sentados em caixotes, fumando e
conversando. Voltaram-se, quando ele chegou, meio
espantados com seu aspecto.
__E aí, moçada!
__ Tava sumido – disse Branco – Que que
houve com a cara ?
__ Foi uma onça que eu tava tentando amansar.
__ E tu deixou a onça levar a melhor, mermão?
Os outros riram do que disse Bira, mas
Carlinho continuou sério:

41
__ Ela só levou a melhor porque o mané
do bar resolveu dar uma de macho, agora que sabe que o
bruxo velho tá do lado dele!
__ O carinha tá ficando abusado. Vai
precisar levar um corretivo pra aprender – animou-se Rato,
que já havia entendido por que Carlinho fora procurá-los.
__ Foi por isso que eu vim aqui. Vamos dá
uma chegada lá no bar e ver se ele ainda esta tão corajoso.
Os outros dois animaram-se com a idéia, já
fazia algum tempo que não se reuniam para se divertirem,
mas Bira não aprovou o combinado.
__ Tô fora ! O velho já protegeu o veadinho uma
vez e pode aparecer de novo.
__ Tu é um froxo, mermo! Quer que aqueles
dois fiquem rindo da nossa cara ?
__ Só porque tu levou a pior brigando com
aquele babaca tá querendo que a gente se ferre também?
Na falta de argumento, Carlinho lançou-se
contra Bira e o derrubou. Este levantou-se rápido, pronto
para o contra – ataque, mas os outros dois o impediram.

Bira soltou-se, chegou bem perto de Carlinho,


tremendo de raiva, os olhos ameaçadores:
__Escuta aqui, Carlinho, a gente é irmão, faz a
cabeça junto, sai pra fazer uns ganho, mas num me provoca,
não ... ou então um dos dois vai ter que sair do grupo, falei?
Os dois nunca haviam se entendido muito e
Carlinho sabia que Bira não havia aceitado bem sua
liderança. Não foi até ali pra brigar, mas o jeito como o
outro o estava enfrentando lhe dava vontade de descarregar
o revólver que trazia na cabeça dele. Precisou controlar-se
para não pôr a idéia em prática imediatamente.
Respirou fundo e, simulando uma serenidade
que nunca sentira, levantou as mãos, em sinal de trégua,
chegou mesmo a abraçar o desafeto, que manteve-se
42
impassível, nem um pouco convencido da boa vontade
do colega.
__Calma aí, moçada! Eu não vim aqui para
brigar. Se vocês não tão a fim, tudo bem, mas sem querer
jogar na cara, eu nunca deixei vocês na mão antes, ou
deixei?
Esse tipo de apelação sempre dava resultado.
Rato foi o primeiro a morder a isca.
__ Eu tô contigo, Carlinho!
__ E isso aí, quem mexe com um do grupo,
mexe com todos!
Carlinho sorriu e depois olhou para Bira, que
continuava calado.
__E aí – perguntou Carlinho – tá com a gente ou
não?
__E se o velho resolver se meter de novo?
__Que nada! Tá entocado naquele casarão
desde que chegou.
A decisão de Carlinho derrubou os últimos
cuidados de cada um. Saíram calados, com um rumo certo e
sem plano definido. Na hora, Carlinho decidiria o que fazer.
Era ele quem guiava a ação.

Ângelo não fora ao bar aquela manhã. A


discussão com Carlinho e a conversa inacreditável que
tivera com Maltus não o deixaram dormir. Estava sentado na
praça, ou algo que se parecia vagamente com uma, e
pensava no rumo que daria a sua vida. Era muito tentadora a
possibilidade de levar uma vida como a de Maltus: correr o
mundo, conhecer pessoas e lugares incríveis, descobrir
segredos inimagináveis. Mas a responsabilidade e a idéia de
ser visado por demônios lhe esfriava o entusiasmo.

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Estava nisso, quando, de longe, viu que Carlinho
e seu bando, caminhavam em direção ao bar onde
trabalhava. O que estariam querendo? Boa ciosa não era.
Resolveu segui-los a uma distância segura, sem ser visto.
Enquanto Ângelo os seguia, os quarto chegaram
ao bar do Agenor. Entraram com estardalhaço, derrubando
as mesas que estavam em seu caminho. Alguns fregueses
saíram imediatamente. Pararam em frente ao balcão.
Carlinho falou a Agenor, bastante alto para que todos
ouvissem:
__Ô coroa, chega aí!
Agenor suspirou, conformado, mas já sentido a
velha palpitação. Aproximou-se dos quatro, perguntou o que
queriam.
__ Aí, manda aquele palhaço que trabalha aqui
trazer umas cervejas pra gente, bem rápido.
Agenor empalideceu. Alguma coisa estava
errada, não era à toa que o ajudante não aparecera naquele
dia.
__Como é, tá surdo? – Branco socou o balcão, o
restante dos fregueses saiu o mais rápido possível.
Com a voz trêmula, Agenor tentou acalmar os
quatro:
__ É . . . que ele não apareceu aqui hoje . . . mas
eu posso trazer as cervejas. Por que vocês . . .
__Tá mentindo pra gente, seu Agenor? – Disse
Carlinho pondo a arma sobre o balcão – E bom ele aparecer
rapidinho, senão, amanhã, teu bar não vai poder abrir!
Para dar mais crédito às palavras do colega, os
outros derrubaram as mesas e cadeiras ainda de pé. Bira
pulou o balcão e encheu os bolsos com dinheiro que achou.
Agenor sentiu as pernas bambas. Nunca os vira
tão violentos. O que Ângelo teria aprontado para aquelas
pestes?
Carlinho apontou a arma:
44
__Não saí daí! Se tiver escondendo ele vai
ser pior!
E saiu em direção à cozinha. Agenor ouviu o
bater de porta, o barulho de vidro se partindo. O rapaz
parecia alucinado.
__Ele não tá lá dentro! Cadê ele, velho? E bom
falar logo senão . . .
__Tá me procurando, Carlinho?
Os quatro viraram-se e viram Ângelo na porta
do bar. O rapaz ouviu a ameaça de Carlinho e temera pela
vida do patrão. Os quatro pareciam dispostos a qualquer
coisa para se vingar.
__Resolveu aparecer filho da . . . – rosnou
Carlinho, avançado em direção à Ângelo, que não se moveu.
Carlinho apontou a arma para Ângelo, os outros
rodearam. Agenor, sentindo que estava prestes a ter um
colapso, encostou – se à parede e começou a rezar
mentalmente.
Com uma serenidade que surpreendeu até ele
próprio, Ângelo caminhou até o rapaz que lhe apontava a
arma. A cena não era nova, mas dessa vez Ângelo decidiu
que não iria demonstrar medo – mesmo que o coração, que
disparara, não cooperasse.
__Por que a gente não resolve isso lá fora?
Deixa seu Agenor fora disso!
__Nossa, como ele tá corajoso! – Carlinho,
encostando o cano do revólver na testa de Ângelo – Vamos
ver até quando!
__Não faz isso, pelo amor de Deus! – Gritou
Agenor que apesar do medo, não conseguia ficar indiferente
à possibilidade de ver o ajudante morrer na sua frente.
__ Cala a boca! Senão, depois que eu acertar as
contas com esse aqui, vai ser tu vez de morrer!
__Ninguém vai morrer!

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Maltus estava parado na porta do bar. Ao vê-lo,
os quatro desordeiros ficaram completamente sem ação, pois
não esperavam que ele se abalasse do casarão até ali para se
envolver em outros assuntos. Apesar de transtornado,
Agenor não pôde deixar de notar o efeito que a súbita
aparição daquele estranho provocou nos quatro invasores.
Eles pareciam paralisados. Ao que tudo indicava, esse
homem só poderia ter ligação com os marginais para ser tão
respeitado por eles.
A passos lentos e determinados, sem desviar os
olhos de Carlinho, Maltus caminhou bar a dentro. Ângelo
prendeu a respiração: era a segunda vez que ele lhe salvava
a vida em menos de uma semana.
Maltus encarou um a um, e então disse a
Carlinho:
__ Acho que você já sabe o que fazer.
Mais refeito da impressão que o outro lhe
causava, o rapaz respondeu:
__ Se tá achando que eu vou sair correndo, tá
muito enganado! Eu vim aqui pra cobrar o que esse daqui
me deve, e só vou sair quando ele tiver pagado!
__Carlinho, é melhor a gente . . .
Branco resolveu chamar o amigo à razão. Além
do mais, tinha verdadeiro horror a Maltus, pois achava que
ele não era humano.
__Cala a boca! Se tão com medo vão embora, eu
vou terminar o que comecei! – gritou, sem desviar a arma da
cabeça de Ângelo.
__Tu que sabe!
Branco saiu rapidamente, os outros dois o
seguiram. Já na porta, Rato ainda tentou convencer
Carlinho, mas o outro sequer o olhou, tinha os olhos fixos
em Maltus.
Por fim, Rato também saiu, balançando a
cabeça.
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__Por que não solta a arma ? Se
quisesse, já tinha atirado. – Disse Maltus.
__ Tu acha que eu não tenho coragem!?
Carlinho apertou o gatilho. Ângelo e Agenor
encolheram-se ao mesmo tempo. Maltus manteve-se na
mesma posição, a fisionomia inalterada.
Ângelo, então, abriu os olhos, procurou pela
mancha vermelha no corpo, o sangue escorrendo, mas nada
achou. Carlinho, fora de si, apertou novamente o gatilho, e
mais uma vez e mais outra, até que, enraivecido, jogou a
arma ao chão.
Agenor, que até então estivera calado à parede,
com as mãos sobre os olhos, abrira-os assustado com o
impacto, e viu Carlinho abaixar-se lentamente até o chão,
transtornado, o corpo sacudido num choro violento.
Agenor tornou a fechar e abrir os olhos,
rapidamente. Não podia ser Carlinho quem estava ali, num
canto, soluçando. Não o mesmo Carlinho que entrara
há pouco, disposto a tudo. Devia ter perdido alguma
coisa enquanto estivera de olhos fechados.
Maltus caminhou até Ângelo e pôs-lhe a mão no
ombro. O rapaz ainda estava assustado, mas conseguira
fazer com que o coração voltasse à atividade normal.
Então o mago olhou para Agenor, que desabara
sobre uma cadeira, com a mão no peito, e disse-lhe:
__Será que poderia trazer um pouco de água
para o rapaz? – E apontou Ângelo. Queria um pretexto para
que o dono do bar os deixassem por alguns minutos.
Agenor consentiu com a cabeça e saiu em
direção à cozinha. Era do que ele precisava também: água ,
com algumas colheres de açúcar , para tentar acalmar os
nervos.
Maltus, então, foi até Carlinho e pousou-lhe a
mão sobre a cabeça. O rapaz olhou para ele, agredindo-o
com os olhos esverdeados.

47
__Você precisa saber quando parar – disse
Maltus –O ódio não é bom conselheiro.
__Tu acha que eu quero lição de moral, velho?
Tira a mão de mim!
Ele levantou-se e, quando ia sair, Maltus
segurou-o pelo braço:
__Não! Antes, nós vamos conversar.
Obrigou o rapaz a sentar-se e fez mesmo.
Ângelo fechou o bar, para evitar curiosos e encostou-se ao
balcão, tendo o cuidado de recolher a arma que Carlinho
lançara fora.
Agenor voltou com a água e entregou-a Ângelo.
__Que que está acontecendo?
__ Eu acho que ele vai pedir ao Carlinho para
não incomodar mais o senhor . . . Por que o senhor não vai
dormir? Eu vou dar uma arrumada nessa bagunça e fecho
tudo.
Agenor avaliou por uns segundos a situação,
mas depois de tudo não tinha mesmo o que pudesse
fazer. Deixaria para interrogar o ajudante no dia seguinte.
__ Acho que vou fazer isso mesmo . . . minha
cabeça está explodindo!
Saiu, olhando os estragos e balançando a
cabeça, conformado. Pelo menos estavam todos vivos.
__ O que tu quer comigo? – Perguntou Carlinho
a Maltus.
__ Dar-lhe um aviso. Até hoje tenho sido
paciente com você, mas não vou permitir que o que
aconteceu hoje se repita. Ângelo é meu amigo, e tudo que
acontecer a ele diz respeito a min.
__ É só isso?
__ Eu quero saber se você entendeu o que eu
disse.
__ Entendi, é para deixar o babaca aí em paz,
senão você me joga no teu caldeirão. Posso ir agora?
48
__ Sim.
Carlinho levantou-se, encarou Ângelo por
alguns segundos e então saiu o mais rápido que pôde.
Ângelo segui-o com os olhos até que a escuridão da noite
ocultou-lhe a figura.
Olhou para Maltus que também se levantara e
dirigia-se á porta:
__ Obrigado de novo. Dessa vez achei que
não escapava.
__ Nós somos amigos.
__ Você acha que o Carlinho vai sossegar?
__Não. Mas, deve ficar longe de você.
__Ele vai acabar achando o que procura!
__ O rapaz vai ter a chance dele. Tomara que
seja inteligente o bastante para não desprezá-la.
__Como assim?
__Vá para casa. Você já tem muito com que
ocupar mente.
__Maltus . . . eu acho que já tenho sua resposta
__Pense mais um pouco. Seja qual for sua
resposta, dê-se uma chance de mudar de idéia. Amanhã nos
falamos.
Maltus finalmente retirou-se e Ângelo pôs-se a
arrumar mesas e cadeiras caídas e recolher as garrafas
quebradas.
__Eles já foram embora?
Agenor, recuperado do susto, voltava para
contar os prejuízos e tentar falar com Ângelo. Não ia
conseguir mesmo dormir.
__Acordei o senhor?
__Você acha que eu consigo dormir? O que
você tá fazendo?
__Eu estava tentando arrumar um pouco essa
bagunça.
__Deixa isso!

49
O dono do bar aproximou-se do rapaz e encarou-
o, sério:
__Ângelo, o Carlinho veio aqui atrás de
você. Ele tava louco da vida. O que você aprontou pra
ele querer te matar?
__Eu salvei a Vilminha dele, só isso. Depois a
gente brigou e ele levou a pior. Eu sabia que ele vinha
atrás de min aqui no bar, por isso vim atrás. Não queria que
o senhor pagasse o pato no meu lugar.
Agenor passou a mão nos poucos cabelos,
num gesto de cansaço. Depois bateu no ombro do ajudante:
__A intenção foi boa, mas agora, além do
meu prejuízo, eles não vão te deixar em paz. Você tem que
sumir, senão eles vão te pegar, mais cedo ou mais tarde.
__Eu não posso, seu Agenor, não tenho para
onde ir. Além do mais tem minha mãe, o senhor sabe. Mas
eu não venho mais aqui, não precisa se preocupar. Ou eles
vão implicar com o senhor também.
__Deixa de besteira, moleque! Se não trabalhar
aqui, vai trabalhar onde, assim desastrado, preguiçoso?
__Mas, seu Agenor . . .
__Nem mais, nem menos. Eu sei o que faço, não
vou deixar que um bando de vagabundos se metam nos
meus negócios!
__Ah, é? E se eles aparecerem aqui de novo,
como é que vai ser?
__A gente pensa em alguma coisa.
__Nossa! Nunca vi o senhor tão corajoso!
__É que a gente cansa! Cansa de viver com
medo de uns moleques como aqueles! Mas . . . mudando de
assunto. . . eu não entendi nada quando aquele maluco
apareceu aqui. Afinal de contas, por que os vagabundos
foram embora assim que viram ele? E o Carlinho? Eu nunca
vi ele tão assustado!

50
Ângelo já esperava por aquela pergunta.
Deu de ombros simulando a mais completa ignorância:
__Sei lá, seu Agenor! Eu também fiquei muito
impressionado.
__Taí uma coisa que eu vou descobrir!
__Ih, seu Agenor é melhor não se meter com
essa gente!
__Olha só quem fala! Tô te estranhando,
Ângelo! Logo você que é mais curioso do que mulher
fofoqueira?
__E o senhor acha pouco a confusão em que eu
tô metido?
__E . . . nisso você tem razão. Quer saber? Eu
vou é dormir que por hoje já chega de aventura. E você? Vai
voltar pra casa?
__É o jeito, senão D. Alzira não dorme hoje.
__Toma cuidado que eles podem estar
escondidos, só te esperando sair.
__Não . . . eu acho que eles também já tiveram
muita aventura por hoje.
Ângelo saiu e Agenor ficou pensando se havia
sido mesmo uma boa idéia deixar que ele continuasse
trabalhando ali. Sabia que o rapaz era boa pessoa, mas fora
se encrencar logo com Carlinho e agora não estaria seguro
em nenhum lugar ali no bairro. Eles voltariam ao bar para
procurá-lo e já não tinha certeza se manteria a resistência
heróica que anunciara ao ajudante. E aquele homem que
tinha vindo não se sabia de onde e que metia medo até nos
bandidos, quem seria? Não devia ser tão mau assim, já que
impedira uma tragédia. E, se não fosse outro marginal,
talvez fosse até bom tê-lo por perto.

Ângelo voltou para casa e encontrou a mãe já


dormindo, assim não precisou explicar a demora. No

51
caminho de casa não pensou no que lhe acontecera – ou
quase – mas na decisão que tomara. Quando, no dia
seguinte, fosse comunicá-la a Maltus precisava estar certo
de que era mesmo aquilo que queria. Deixou-se cair no sofá
e ali mesmo dormiu, depois de algumas horas pesando prós
e contras.
Levantou-se cedo aquela manhã, e foi direto
para o trabalho sem nem ao menos esperar a mãe para o
café, única refeição que faziam juntos. No caminho, nem
sombra de Carlinho e companhia.
Chegando ao bar, encontrou o patrão, varrendo
a calçada e assobiando como se nada houvesse
acontecido na noite passada. Admirava aquela qualidade
nele: o mundo podia cair em sua cabeça, mas no dia
seguinte estaria pronto para outra.
Viu-o caminhar em sua direção, com a
expressão subitamente preocupada:
__E então? Viu algum deles hoje?
__Ainda não.
__Graças a Deus. Hoje mesmo já perguntaram
umas cem vezes sobre o que aconteceu ontem à noite.
__E o que o senhor disse?
__Ora, a verdade! – disse e olhou
expressivamente para Ângelo – ou quase! Mas ninguém
acreditou muito quando eu disse quem botou os meninos
para correr.
__Claro, seu Agenor! Eu que vi não acredito!
Sentiu-se um pouco culpado por mentir tão
descaradamente, mas acabou concluindo que seria loucura
contar a verdade.
__Tu acha que ele também pode ser um desses
vagabundos? Só isso explica o medo que os malandrinhos
têm dele:
__Sei não, seu Agenor. Ele não tem jeito de
bandido
52
__E daí? Por acaso quem vê cara, vê
coração? Veja só o Carlinho! Eu conheço aquele sem –
vergonha desde que ele era deste tamaninho. Quem é que
dizia que aquele menino com carinha de anjo virava
bandido?
__Também . . . com a mãe que ele tem . . .
__Isso é . . . Ah, olha lá um freguês! E eu que
pensei que hoje ninguém aparecia por aqui!
__O povo já está acostumado. Deixa eu ir lá.
Ao longo do dia o movimento foi pequeno.
Entre um freguês e outro, Agenor e Ângelo conversaram
ainda sobre Maltus. Agenor se convencera de que o novo
morador do casarão tinha poder sobre os delinqüentes
porque era um deles. Ângelo discordava, mas sem
demonstrar muita convicção, pois não queria que pensassem
que conhecia Maltus melhor que o resto dos moradores. Por
fim, quando não havia mais fregueses, mas ainda era muito
cedo para fechar, sentaram-se e o assunto desviou-se de
Maltus para Carlinho:
__O Carlinho podia ter tido uma vida diferente,
se não tivesse sido criado por aquela qualidade de mulher.
Ou se o pai tivesse assumido ele.
__O senhor conheceu o pai dele?
__Todo mundo conheceu, mas com o tempo as
pessoas esquecem, arrumam coisa melhor para falar.
Quando a mãe do Carlinho era nova conheceu um policial,
Paulo o nome dele, e os dois foram viver juntos. Mas não
durou muito. Cedo ele descobriu que tipo de mulher tinha
arranjado. Ele foi embora de vez quando pegou ela com
outro, na cama deles. Na época, foi o maior escândalo da
rua. Não se falava em outra coisa. O coitado não agüentou a
vergonha e sumiu, ninguém sabe pra onde. Depois de uns
meses a safada foi procurar ele, grávida. Queria que ele
assumisse o filho.
__Era o Carlinho?

53
__Era. Claro que ele não engoliu a história. Se
fosse eu desancava a ordinária mas o Paulo nunca foi
homem pra esse tipo de coisa, bater em mulher, apesar da
profissão.
__E aí?
__Ora, aí ele, o Carlinho, se criou aqui, com um
e com outro, aprendendo tudo que não prestava. A mãe não
parava em casa, e quando vinha, nunca vinha só. Na escola,
ele nunca se deu bem, aprontava tanto que era expulso um
mês depois de entrar. Até que acabou assim ... pensando
bem dá até pena ... ele não teve sorte.
__Mas isso não é justificativa, seu Agenor. Se
todo mundo resolver ser bandido por que não teve
uma boa infância ...
__Eu não estou justificando as safadezas dele!
Mas tem uma coisa sobre o Carlinho que pouca gente sabe.
__O quê?
__O Paulo voltou quando ele tava grandinho.
Devia ter uns oito, nove anos. Sentou aqui, numa dessas
mesas e ficou olhando o menino de longe, jogando bola.
__Então, ele achava que o Carlinho era mesmo
seu filho.
__Me contaram depois que a ordinária não sabia
mais da onde tirar dinheiro. Os homens dela nem sempre
queriam pagar pelo serviço e ela não se conformava de ter
que sustentar o moleque sozinha. Então, alguém disse para
ela fazer o DNA, esse exame que se descobre com certeza se
uma pessoa é ou não filha da outra . . .
__Sei! Sei! Adiante!
__Pois é! Então ela arrumou dinheiro não sei
com quem, fez o tal exame e foi atrás do Paulo exigir
pensão.
__Mas ele não quis saber do filho, mesmo tendo
certeza da paternidade?

54
__Acho que não, porque, que eu saiba, só
voltou aqui mais uma vez, para perguntar dele.
__E o que o senhor disse?
__O que eu ia dizer? Naquela época ele já estava
metido com o que não prestava. Fiquei enrolando . . .
__ E o Carlinho? Nunca ficou conhecendo o
pai?
__Aí é que está, se o que me contaram uma vez
é verdade, conheceu sim. Mas você sabe como o povo fala
muito ...
__É . . . eu sei. Mas conta logo, seu
Agenor! Não enrola!
__Você gosta de uma fofoca, hein? Pois bem . . .
uma vez, o carro da polícia veio aqui e acabaram pegando o
Carlinho e o bando dele lá no casarão. Aí aconteceu o que
todo mundo já sabe. Os polícias começaram a bater neles
para saberem onde fulano se entocava, onde beltrano
escondia a droga, o de sempre. Diz que de longe se ouviam
os gritos. Aí disseram que viram o Paulo chegar, entrar no
casarão também e sair carregando o Carlinho nos ombros
mais morto que vivo. Parece que se estranhou feio com os
colegas e quis até largar a farda.
__Sei . . . e depois?
Bom, uns dias depois, eu mesmo vi o Carlinho
com o braço engessado e a cara, uma lástima que só vendo.
Ficou de cara amarrada por uns tempos, nem saía mais com
os amigos, pra “fazer uns ganho” como eles dizem.
Ninguém sabe até hoje se foi com medo da polícia pegar ele
de novo, ou porque o pai abriu o jogo com ele. E quem ia
perguntar?
__Então, o Carlinho deve saber . . . quer dizer,
nesse dia que o tal Paulo levou ele daqui eles devem ter
conversado e aí . . .

55
__Não sei . . . mas o pai dele nunca mais
apareceu aqui e eu nunca mais ouvi nenhum comentário
sobre isso.
__Seja como for – disse Ângelo, levantando-se –
naquele ali ninguém dá mais jeito! Ih, olha só! Eu fiquei
aqui ouvindo suas fofocas e nem vi a hora passar! Tá na
hora da escola, seu Agenor!
__Fofoca, né? Mas bem que você gosta! Vai,
vai! Aposto que vai é correr atrás de rabo de saia!
__Que é isso, seu Agenor?
__Acho que vou fechar o bar . . . vai que aqueles
anjos resolvam voltar hoje? Ah, cuidado no caminho, hein?
__Pode deixar, “mamãe”!

Na verdade, Ângelo não pretendia aparecer na


escola aquela noite, tinha um encontro com Maltus. Quando
se lembrava que naquela noite também mudaria seu destino
e nem sabia se para melhor, estremecia.
Pegou os cadernos e saiu. Lá fora a noite estava
quente. Havia muitas pessoas na rua àquela hora, começo de
noite: Mulheres conversando no portão, crianças correndo,
barulhentas. Andava devagar, cumprimentando um e outro
conhecido, olhando as meninas que passavam, provocantes.
Procurou inconscientemente, por um rosto claro, de grandes
olhos escuros, nariz empinado, esnobando o resto dos
mortais, mais não achou. Ela devia estar iludindo outro
otário. Precisava esquecê-la, concentrar seus pensamentos
em outra coisa, mas a imagem de Vilminha sempre lhe
parecia nos momentos mais improváveis, e quando achava
que estava prestes a esquecê-la, aí sim é que sua lembrança
voltava com mais força.
Ao passar pelo campinho, já perto do morro do
casarão, viu, ao longe, um vulto sobre o muro de uma velha
fábrica abandonada. Não se intimidou e prosseguiu, até que,
56
chegando bem perto, reconheceu Carlinho. Pronto, já
tinha encrenca para o resto da noite! Passou por ele e ficou
aguardando a provocação, mas tudo que ouviu foi o miado
de um gato de rua que dividia o espaço com o outro. Menos
mau, talvez Carlinho tivesse percebido que não adiantava
provocar briga com Maltus.
Ângelo pôs-se a subir pela trilha que levava ao
casarão. A escuridão era quase absoluta, mas sua ansiedade
era tamanha que isso não o desencorajava.
Bateu na porta e ouviu a conhecida voz
responder-lhe:
__Entre, Ângelo.
Maltus estava como a vira pela primeira vez:
fazia uma espécie de poção. Ângelo entrou e Maltus
continuou o que estava fazendo, parecia muito concentrado.
O rapaz achou melhor esperar, já conhecia um pouco do
jeito do seu novo amigo.
Por fim, o mago virou-se e perguntou-lhe sem
rodeios:
__E então?
__Eu topo, Maltus. Eu pensei muito, como você
disse. Tenho que retribuir o que você já fez por mim . . . e
também eu . . . eu quero aprender o que você sabe. E um
mundo novo. Dá medo, mas parece interessante, cheio de
coisas que eu nem imaginava!
__Você quer aventura, então?
__Eu ia mentir se dissesse que não. Mas também
quero ajudar você. Você merece, Maltus.
O mago ficou um instante apenas observando
Ângelo, avaliando o que ele dissera. Então falou:
__Acredito na sua boa vontade e na sua força.
Bem- vindo então a esse novo mundo, mas se você está
esperando um tapete vermelho, aviso-o logo de que não é
isso que vai encontrar.
__Eu sei, mas você vai estar comigo.

57
__Só no começo, filho. Depois você só poderá
contar com o que tiver aprendido.
__Então eu vou aprender o máximo que puder!
Ângelo percebeu o esboço de um sorriso no
rosto do mago. Maltus sentou-se em sua cadeira e apontou-
lhe outra em frente. Ângelo sabia que seu aprendizado ia
começar e de repente sentiu que nascera para aquele
momento, que sua decisão não poderia ter sido outra.
Acreditou pela primeira vez em destino.
Maltus disse:
__Antes de tudo, um aprendiz precisa ter a
mente e o coração preparados para conter tudo que vai
aprender do mestre. Nunca poderá repetir nada do que lhe
for dito ou mostrado sem ter o prévio consentimento. Se o
conhecimento adquirido se transformar em motivo de
vaidade, num mero objeto de exibição, então ele estará
perdido para sempre. Não servirá ao nosso propósito. Essa é
sua primeira lição e tudo o que você vier a fazer daqui por
diante deverá estar coerente com ele. Consegue perceber a
extensão do que acabei de lhe dizer ?
__Acho que sim.
__A segunda lição é o autocontrole. Alguém que
não domina suas paixões não se domina, e nunca poderá
usar convenientemente o que aprender.
__Dá para explicar um pouco melhor?
__Você deve procurar ser moderado em tudo
que fizer. Cuidado com a ira, a tentação do poder, a
ganância e o orgulho. Essas coisas podem ser usadas como
iscas . Isso vai ser muito difícil, pois você é ainda muito
jovem. Mas, manter-se alerta vai ajudá-lo. Não caia no
engano de achar que essas coisas vão aparecer na sua vida e
serão facilmente reconhecidas. Elas o pegarão sempre
desprevenido, disfarçadas numa situação qualquer,
cotidiana, aparentemente sem conseqüências.

58
__O que você quer é que eu preste atenção
aos detalhes é isso?
__Basicamente. E nas pequenas coisas que
somos testados. Às vezes, fica-se esperando que grandes
calamidades aconteçam para que possamos mostrar nossa
generosidade ou nossa coragem, quando já fomos testados
centenas de vezes no dia –a- dia, sem nos darmos conta.
__Acho que peguei.
__Não é simples assim. E muito mais
complicado na prática.
De repente, Maltus levantou-se e ficou
parado, pressentindo algo:
__Ele já sabe!
__Ele? Ele quem?
__Eu preciso ficar só, agora, Ângelo. Você não
está preparado para isso ainda.
__Eu não sei do que você está falando, mas
também sei que não adianta perguntar. Volto amanhã,
então?
__Isso mesmo. Tenha paciência.
__Por mim, tudo bem. Até amanhã!
Ângelo saiu um pouco preocupado com o estado
em que deixara Maltus. Ele estava tenso, como quando
alguém espera algo terrível contra o qual não tem defesa. Se
não conhecesse bem o poder do amigo ficaria preocupado.
Fosse o que fosse – ou quem fosse – tinha certeza de que
Maltus podia resolver. Agora pretendia voltar para casa e
pensar no que ele lhe dissera àquela noite. Não queria
decepcioná-lo pois tinha a consciência de que depositara
nele suas últimas esperanças.

59
CAPÍTULO VII

O
que cê tá fazendo aqui?
__Procurando você.
Carlinho não esperava ver o pai outra
60
vez. O último encontro que tiveram reforçou a certeza
de que estava sozinho no mundo, não podia contar com
ninguém.
Lembrava-se da primeira vez que o vira: ele,
Carlinho, estava no casarão com seus amigos e, de repente,
chegaram os policiais, fizeram as perguntas de sempre.
Depois vieram os socos os pontapés e a escuridão. Quando
acordou, estava num hospital e ao seu lado aquele
homem que nunca havia visto. Ele, no entanto despertara-
lhe ódio imediato pela farda que vestia. Quando a
consciência voltou totalmente e a dor cedeu, quis saber por
que estava ali. O homem não lhe deu resposta, apenas o
olhava. Por fim tirou do bolso uma foto de um menino
jogando bola, que Carlinho reconhecera ser ele próprio.
Depois, sem olhá-lo, atropelando palavras e detalhes, falou-
lhe da traição de sua mãe, de como o rejeitara ainda no
ventre.
Então, contara-lhe do exame que fora obrigado a
fazer e da certeza tardia da paternidade. Carlinho ouvira-o
dizer ainda muitas outras coisas, mas ficara surdo para o
resto. Como, depois de tanto tempo, alguém aparecia-lhe do
nada e jogava-lhe assim a paternidade? Ele já nem se
lembrava mais de que um dia houvesse desejado um pai,
ainda mais um pai policial. Quando ele lhe pedira
compreensão, teve vontade de gargalhar. Compreender um
homem que o abandonara e mesmo depois da certeza de que
era seu pai, nunca o havia procurado? Só podia ser uma
piada. Ele tentou ainda dizer-lhe alguma coisa, mas Carlinho
estava saturado de ouvir. A cabeça lhe doía, ele não
suportava a presença fardada daquele homem. Pouco se
importava se era seu filho ou de outro qualquer.
Carlinho não lembrava bem das coisas que lhe
havia dito então. Sabia apenas que lhe chegaram a boca com
fúria e despejou-as sobre o outro sem medir palavras,
escolhendo as que pudessem feri-lo mais, aquelas que lhe

61
provocassem uma reação de descontrole, lhe
desmanchassem a serenidade do rosto. Então uma
enfermeira havia chegado, pedido silêncio, e o homem que
se dizia seu pai partira, de cabeça baixa, derrotado. Voltou
outras vezes, depois de sua saída do hospital, fora até sua
casa, discutira com a mãe, mas ele, Carlinho, não lhe
dirigira uma palavra sequer, apesar de sua insistência. Não
havia o que ser dito e ele achava que o outro não o
procuraria mais.
Até que ali estava novamente, sem a maldita
farda, mas com o mesmo jeito autoritário que lhe havia
ficado na memória.
__Por que tu não me esquece, cara?
Paulo olhou bem para o filho. Vê-lo naquele
barraco imundo, se drogando e, talvez, tramando algum
roubo, causava-lhe uma mistura de raiva e remorso. Pensava
que ele tivesse tido uma outra infância, uma mãe e um pai
presentes, não estaria naquela situação. Durante anos Paulo
lutara com sentimentos opostos: o orgulho ferido e o amor
pelo filho que, desde a primeira vez que havia visto, tivera a
certeza de que não poderia ser de outro. Agora ele não era
mais o menino que vira tantas vezes, de longe, brincar de
bola. Era um homem, e não sabia como se aproximar dele
sem começar uma briga.
__Por que não procura um emprego, ou volta a
estudar?
__Você veio aqui pra me dizer isso? Não enche!
__Onde você acha que vai chegar levando a vida
que leva?
__Minha vida não é da tua conta!
__Você sabe que é, eu sou seu pai.
__Devia ter lembrado disso antes. Agora, eu não
preciso nem de você, nem de ninguém!
__Pois eu acho que você precisa tanto quanto
antes. Talvez até mais.
62
__Essa conversa já cansou. Some, porque
eu não quero que meus amigos me vejam falando com um
policial!
__Eu ainda não acabei.
__Mas eu já! Sai da minha frente, que eu tô
cansado de olhar pra tua cara!
Carlinho foi em direção à porta, mas Paulo se
adiantou a sua passagem:
__Fica com isso – disse , retirando um cartão do
bolso – É meu endereço. Se você mudar de idéia, ou
precisar de alguma coisa . . .
Carlinho teve um gesto de impaciência, mas
deixou que o pai guardasse o cartão no bolso de sua calça,
talvez assim lhe deixasse em paz mais rápido. Depois, deu-
lhe as costas e saiu. Paulo ficou olhando-o de longe, até que
também entrou no carro e partiu.
Perto dali, oculto pelo mato, Bira esperava até
que o policial se distanciasse. Apesar de não estar fardado,
reconhecera-o. Havia chegado há alguns minuto atrás e
pudera ouvir a última frase de Paulo a Carlinho e também
viu quando o policial pôs alguma coisa no bolso do colega.
Dinheiro, com certeza.
Quem diria, Carlinho um dedo-duro!

CAPÍTULO VIII

63
M
altus teve novamente a mesma
sensação que experimentava toda vez
que ele se aproximava. O ar se
tornava pesado, quase irrespirável e, do nada, ouviam-se
vozes confusas e estridentes.
Não queria assustar seu aprendiz antes da hora,
por isso pedira que ele fosse antes da chegada do inimigo.
Então, saído das regiões que só ele conhecia,
encarnou-se novamente diante do mago, dessa vez na pele
de um jovem árabe, o turbante e a túnica branca que vestia
acentuando o moreno suave de sua pele.
__Estou profundamente decepcionado contigo,
Maltus.
__Fico muito triste por isso.
__A ironia não lhe cai bem. Deixe-a para mim,
que faço melhor uso dela.
__Acredito que você não veio até aqui para um
duelo de palavras.
O visitante gargalhou:
__Eu só estava tentando “quebrar o gelo” meu
amigo. Mas, se você prefere ir direto ao assunto . . .
Francamente! Esperava de você uma escolha mais coerente.
O que espera daquela criança ignorante?
__Você está preparado para escolhas coerentes.
Esse foi o grande erro que cometi das outras vezes. Quem
sabe agora não o surpreendo?
__Você me faz rir! Espera me surpreender com
aquele menino?
__Se o despreza tanto, por que vir até mim
novamente se nada de novo há para dizer?
__Porque me irrita que você tenha escolhido
para duelar comigo alguém tão despreparado, que não
representará nenhum desafio, nenhum estímulo!
__Sinto muito. Não era meu desejo cortar seu
suprimento de diversão.
64
__Escute, já lhe ocorreu que você possa
não estar preparado para uma possível vitória de seu novo
aprendiz?
__Acho que não entendi.
__Ora, com certeza, você não se esqueceu de
que se seu amigo pudesse ganhar-me, você morreria. Todo o
peso dos anos que carrega cairiam sobre você, mago, de
uma só vez. Afinal, meu amigo, sua raça não foi feita para a
imortalidade.
__Isso não me importa, contanto que eu consiga
de volta aquilo que você mantém cativa.
__Você se refere a sua medíocre alma?
Se não odiasse tanto perder fosse o que fosse, já a teria
devolvido, tão pouco é o préstimo que me tem. Bem, adeus,
tenho muito do que cuidar!
E como um raio partiu dali, deixando Maltus
com medo de que a provação para Ângelo começasse antes
dele estar preparado.

__E aí, Carlinho? Onde é que tu se meteu o dia


todo?
__Não é da tua conta!
Bira sorriu, já esperava por aquela reação.
Depois de contar o que vira aos outros, resolveram se reunir
no novo esconderijo e esperar que Carlinho voltasse.
__Tá nervoso por quê? Tá escondendo alguma
coisa da gente?
__Que papo é esse?

65
Carlinho pressentiu que estavam aprontando
alguma. Bira estava muito sorridente. Foi o próprio que
tornou a pergunta-lhe:
__O que foi que aquele policial te entregou
hoje?
Ah, então era isso, só faltava agora passar por
dedo-duro por causa do outro. Mas não iria dar o gosto aos
falsos amigos de saberem a verdade:
__Escuta aqui, Bira, aquele cara me confundiu
com um mané aí, que tá sendo procurado, por isso parou pra
falar comigo. Quando sacou que não era eu, se mandou.
__E o que ele entregou antes de ir embora?
__Ele me deu o telefone pra eu ligar se visse o
cara por aí. Disse que tão oferecendo recompensa.
__Ah é? – sorriu Bira com descrédito – é quem é
esse que os home tão procurando?
__Deve ser gente importante, já que tão
oferecendo até recompensa – disse Rato, sorrindo também.
__Podem rir. Eu não tô nem aí para o que vocês
pensam!
__Mas eu conheço gente que vai querer ouvir
essa história outra vez . . . só não sei se vai levar fé . . .
Carlinho não deixou o rapaz terminar a ameaça,
acertou-o com um soco. O outro cambaleou, foi ao chão.
Carlinho não se deu por satisfeito. Atingiu-o novamente
com um pontapé no rosto. Os outros mantiveram-se
sentados, acostumados àquelas cenas entre os dois.
Carlinho apontou o dedo para Rato e Branco:
__Não se metam na minha vida!
Saiu, esmurrando as paredes. Bira levantou-se
tentando conter o sangramento no nariz:
__Esse daí tá escondendo muita coisa!
__Pode até tá dedurando a gente – disse Branco,
jogando ao amigo a própria camisa para que ele se limpasse.
__Ele vai se arrepender muito, podem apostar!
66
Agenor estava distraído com seus pensamentos,
aguardando Ângelo, novamente atrasado, e não se dera
conta de que alguém se aproximava:
__Bom dia, seu Agenor.
O dono do bar virou-se. A sua frente, Carlinho,
com a expressão carregada de sempre.
__O que você quer aqui? – perguntou Agenor,
esquecendo a vassoura de lado e tentando controlar o
tremor na voz.
__Calma, seu Agenor. Eu vim numa boa. Só
quero conversar um pouco, poder ser?
O outro não respondeu logo, indeciso. O que
aquele vagabundo estaria querendo? Por fim, com um
suspiro contrariado, apontou uma cadeira ao rapaz e sentou-
se também, olhando para os lados.
__Eu tenho que abrir o bar daqui a pouco,
Carlinho.
__É coisa rápida.
Calou-se por um momento, embaraçado, então,
prosseguiu:
__Aquela noite que eu vim aqui com outros . . .
foi mal, seu Agenor . . . não vai acontecer de novo.
Agenor demorou a acreditar no que ouvia.
Aquilo era um pedido de desculpas?
__Deixa pra lá – disse, depois de passado o
choque – todo mundo pode perder a cabeça . . .
__Mas eu não vim aqui só por isso. O senhor
mora aqui há muito tempo, não mora? Conhece quase todo
mundo.
__É verdade. Quando eu chequei aqui, a maioria
das casas nem existia.

67
__Então o senhor deve ter conhecido . . . meu
pai.
Outra coisa que Agenor não esperava: Carlinho
vir até ali perguntar pelo pai. Tentou responder com cautela:
__Conheci. Ele e sua mãe se conheceram aqui
no bar.
__Depois que foi embora, alguma vez ele
voltou?
__Voltou sim. Eu sei porque seu pai, o Paulo,
veio aqui no bar perguntar por você. Mas você não deve se
lembrar, porque era muito criança.
Carlinho ficou um momento pensativo:
__Não . . . não me lembro. Ele voltou outras
vezes?
__Só mais uma vez. Que eu tenha visto . . . mas
dessa vez ele não te viu. Só ficou aqui conversando comigo.
__Ele não falava em me conhecer? Falar
comigo?
__Não . . . acho que não tinha coragem . . .e, na
época, nem certeza de que você era mesmo filho dele . . .
Pronto, pensou Agenor, falara demais. No
entanto, Carlinho apenas se recostou na cadeira e, por
alguns instantes esteve com o olhar perdido num ponto
intangível. Então, levantou-se:
__Só mais uma coisa; quem mais sabe que ele é
meu pai?
__Os moradores mais velhos. Mas como ele
passou tempo sem aparecer aqui as pessoas esquecem.
__Valeu, seu Agenor.
Agenor viu Carlinho sair do bar com alívio.
Nunca se sabia o que ia por aquela cabeça. E resolver
perguntar pelo pai agora, por que seria? Bem, não era da sua
conta. Só esperava que isso não significasse mais encrenca
para o seu lado.

68
Ângelo sabia que o patrão já devia tê-lo xingado
com todos os palavrões que conhecia. Vinha quase
correndo, distraído procurando mentalmente uma boa
desculpa para o novo atraso que não notou Carlinho vindo
na sua direção.
Esbarraram-se e só então olharam um para o
outro:
__Olha por onde anda, mané! – gritou Carlinho,
empurrando o outro rapaz.
__Não começa, senão . . .
__Senão, você vai correndo contar pro bruxo?
__Eu estou atrasado. Se você tá a fim de briga,
vai procurar em outro lugar!
Ângelo ia seguir o seu caminho, mas o outro
pôs-se a sua frente:
__Espera aí! Eu tava querendo falar contigo...
numa boa.
Parecia mentira, mas Ângelo resolveu ouvir,
para não chegar mais atrasado ainda.
__Tu é amigo daquele bruxo, só vive naquele
casarão...
__E daí?
__Daí que eu tava querendo levar um papo com
ele.
Ângelo estanhou o pedido, mas continuou
calado. O outro prosseguiu.
__Você podia perguntar pra ele se tudo bem se
eu aparecesse por lá...
Por que não? Carlinho não podia fazer mal
algum a Maltus e talvez fosse até bom. Quem sabe o amigo
não preenchia o vazio da cabeça daquele anormal com
alguma coisa que prestasse?
__Tudo bem. Só isso?

69
__Só. Eu passo amanhã lá no bar pra saber a
resposta. Ah, e vê se para de esbarrar nos outros!
Ângelo ficou observando Carlinho se distanciar.
Que abusado! Pena que não podia mais acertar aquela cara
cínica. Tinha que lembrar das lições de Maltus; ele devia
isso ao amigo.

Os moradores da rua não eram indiferentes a


Maltus. Quando ele descia do casarão os cochichos
aumentavam. Por onde passava ouvia sempre comentários,
alguns chegavam a fazer-lhe perguntas – que o mago nunca
respondia diretamente – As crianças, ao passarem pelo
casarão, costumavam jogar pedras nas janelas sempre
fechadas para ver se o estranho reagia, mas era inútil,
nenhum protesto era ouvido.
Depois dos acontecimentos no Bar do Agenor, a
notícia de como Maltus havia resolvido a questão correu de
boca em boca. Agenor não escondia de ninguém suas
suspeitas em relação a Maltus e, o que antes era apenas uma
suposição, virou fato, já que era a notícia mais difundida.
E assim, o que era apenas objeto de curiosidade,
virou antipatia e por fim, medo. Ninguém se aproximava do
“esquisito”. Os mais curiosos sufocaram as perguntas e
ninguém mais lhe dirigia palavra.
Maltus não via mal nos falatórios, contanto que
não interferissem em seus planos. Pediu a Ângelo para que
fosse o mais discreto possível.
O aprendiz tinha finalmente saído da teoria. Já
era capaz de, baseado em seus novos conhecimento sobre
plantas, preparar pequenas poções. Estava também
aprendendo a latim e o grego, pois nessas línguas foram
escritas obras indispensáveis a sua instrução.
70
Ângelo falara com o mestre a respeito de
Carlinho. O mago não se opôs a sua visita, desde que fosse
na parte da manhã, para não atrapalhar as lições.
Carlinho não teve ânimo de procurá-lo assim
que soube do consentimento, ainda não confiava no mago e
foram precisos alguns dias para que se resolvesse.
Foi procurá-lo muito cedo, antes do raiar do dia,
pois não queria ser visto por um dos companheiros, que já
estavam bem desconfiados por conta de seu último
encontro.
Parou diante da porta do casarão, sem coragem
de bater. Não havia qualquer ruído dentro da casa e, quando
levantou a mão para a porta, ela abriu-se sozinho. Ouviu a
voz do mago chamando-o lá de dentro:
__Entre. Por que o medo?
Carlinho refez-se da surpresa e entrou
cuidadosamente. Lá dentro, os olhos de Maltus dardejavam
no semi-escuridão da sala e o rapaz se perguntou se fizera
bem indo até ali.
__Sabia que era eu?
__Por que a surpresa?
__Tem razão. Eu já vi coisa pior – disse
Carlinho, com um meio sorriso, lembrando-se de seus
desentendimentos.
__Sente-se. Tem algo a me perguntar, não
precisa fazer rodeios.
__É sobre meu pai . . . quer dizer, eu não tenho
certeza se ele é mesmo . . . E que eu não queria que ele
fosse!
__Por que é um policial?
__É. . . você sabe!
__Mesmo que isso o desagrade, você pode
chamá-lo de pai, pois é isso que ele é.
Carlinho esmurrou o braço da cadeira, num
gesto involuntário de contrariedade:

71
__Merda!
__Dê uma chance a ele. Pode acreditar: existem
destinos piores.
__Ele me abandonou. Mesmo quando teve a
certeza de que era meu pai.
__Já parou para pensar que foi preciso mais
coragem para procurar você agora do que antes?
__E daí? Do que adianta isso agora?
__Tem certeza de que deve mesmo recusá-lo?
__Eu não vou procurar ele!
__Talvez não precise.
Carlinho percebeu que não havia mais nada a
dizer. Levantou-se e disse a Maltus:
__Eu já sei o queria. Melhor ir embora . . .
Maltus conduziu-o até a porta em silêncio.
Carlinho já ia saindo, mas voltou-se:
__Você é mesmo um bruxo?
__O que você acha?
Carlinho refletiu por uns instantes:
__Eu acho que se você não é um bruxo, imita
muito bem um de verdade.
Maltus bateu-lhe no ombro, com a sombra de
um sorriso:
__Boa resposta.
__Té mais! Valeu pela ajuda!
Carlinho afastou-se lentamente do casarão,
olhando às vezes, para trás. No caminho de volta não sabia
avaliar ainda se a certeza que o mago lhe dera era boa ou
ruim, sabia apenas que não seria fácil para ele aceitar que
aquele estranho que aparecera de repente em sua vida lhe
chamasse de filho.

72
CAPÍTULO IX

ngelo acordara com uma sensação

 estranha: havia um zumbido em seus


ouvidos que não o largaria por todo o dia.
Acompanhou-o até o emprego, como uma corrente negra
que o afogava em pensamentos sombrios, confusos,
impertinentes como uma dor para a qual não existe remédio.
Então ele sentiu que do fundo de sua alma, arrastando-se

73
rumo à luz, vinha um ódio sem motivo, contra tudo.
Rancores antigos e recalcados voltaram com força renovada,
esmagando-o. Como um veneno que asfixiava, todo o peso
da realidade dura em que vivia e que sempre soubera driblar
com bom humor, desnudou-se diante dele, e para escapar
desse encontro inevitável, Ângelo refugiou-se na cozinha do
bar, a apertar a cabeça entre as mãos sufocando o grito
que o libertaria ou afogaria de vez na loucura.
Agenor, que já o estava observando com
estranheza desde que o ajudante chegara no bar, achou que
tudo era conseqüência das pressões por que havia passado e
por que Carlinho, com certeza ainda não havia desistido da
vingança, por isso, preferiu não o atormentar ainda mais
com perguntas.
Ângelo percebeu que todos o olhavam de forma
questionadora. Onde estava o palhaço do bar, que fazia todo
mundo rir? Mas naquele momento, nada lhe importava.
Tentava apenas equilibrar uma bandeja cheia de copos e
controlar a animosidade crescente que lhe subia pela
garganta e amargava-lhe a boca.
Um freguês costumeiro, já meio bêbado, alheio a
sua agonia interior, puxou-o bruscamente pela camisa para
reclamar-lhe a demora num pedido. O gesto fez com que o
rapaz perdesse o já precário equilíbrio e deixasse espatifar-
se na mesa ao seu lado a bandeja que trazia. Num gesto
impensado e que não teve como controlar, Ângelo lançou-se
sobre o causador do incidente com toda a fúria que tentara
durante todo o dia controlar. O outro, mais surpreso do que
ferido, ficou alguns segundos imóvel sobre a mesa onde fora
arremessado, tão boquiaberto quando o restante da
freguesia.
Agenor, depois de ajudar o rapaz agredido a
levantar-se e balbuciar um rápido pedido de desculpas,
levou o ajudante cozinha a dentro, empurrando-o para fazê-

74
lo andar, pois Ângelo, transtornado, permanecia
estático tentando acreditar no que acabara de fazer.
__Ficou maluco, rapaz? Precisava fazer aquilo
por tão pouco? O que foi que te deu?
Ângelo permaneceu calado. De repente, lhe veio
à cabeça as conversas que tiveram com Maltus. Estava
sendo testado! Só isso explicava a atitude que tivera.
Precisava sair dali, respirar um pouco. Mas antes precisava
fazer uma coisa. Algo que o ajudaria a retomar o controle e
justificaria todas suas lições .
Saiu apressado da cozinha, seguido de perto pelo
patrão.
__Peraí! O que você vai fazer agora?
__Fica frio, seu Agenor.
Ângelo parou diante do rapaz, que
resmungando, esfregava o queixo e já ia deixar o bar:
__Desculpa, eu não sei o que deu em mim.
__Desculpa uma ova! Sabe o tu merece?
__Um murro na cara. Mande ver.
O outro ficou um momento surpreso e hesitou.
Mas, pensando na humilhação que sofrera em público,
levantou a mão fechada e acertou em cheio o rosto do
ajudante, que chocou-se contra a parede. O que bateu saiu
rápido, sem olhar para trás, vingado, mas não tão satisfeito
quanto esperava.
Quando se recobrou do impacto, o rapaz jogou
o avental sobre o balcão e saiu também, não quase correndo,
como o outro, mas com uma expressão tão carregada, entre
triste e constrangido, que ninguém, nem mesmo o patrão,
teve coragem de tentar impedi-lo.
Na rua, caminhando a esmo, Ângelo sentiu-se
mais aliviado. Pelo menos tivera a coragem de encarar as
conseqüências de seu descontrole. Lembrou-se no momento
do que Maltus lhe dissera uma vez: “fugir só adia o
confronto, quanto mais se corre, mas se é perseguido.”

75
No entanto, a angústia que o oprimia desde cedo
ainda persistia, ameaça destruir represas, como um rio
caudaloso. Foi a até o campinho, vazio àquela hora da tarde,
e sentou-se numa barreira que servia de arquibancada
depois do horário a aula. Respirou fundo e, numa súbita
inspiração descobriu o segredo: quanto mais tentava se
livrar dos pensamentos que tomaram sua mente, mais eles se
insinuavam. Então não mais resistiu a eles: deixou que todos
o invadissem e limitou-se a observá-los como se fosse
apenas um espectador. E eles vieram, todos juntos, como
predadores famintos sobre a presa que desiste de lutar.
Ângelo analisou um a um com calma. Riu de
algumas, ponderou seriamente sobre outros, espantou-se
com a verdade inegável, embora dura, de outros tanto. Ficou
um tempo considerável nesse exercício, aprofundou-se tanto
que esqueceu-se de onde estava. Enquanto ia avançando por
esse novo território, o que o oprimia desfez-se da mesma
forma que o fogo, quando não encontra mais o que
consumir.
Aliviado, mas também exausto como um
guerreiro que duela com muitos opositores, levantou-se e
viu que o lugar já não estava mais vazio. Então, dirigiu-se
para casa, sereno, e novamente senhor de sua alma.

_______________________________________

Há dias, desde seu encontro com Maltus,


Carlinho evitava sair de casa. O pai não voltara a procurá-lo
o que, apesar de não confessar, o decepcionava.
Depois de briga com os colegas, também evitava
encontrá-los. Sabia que agora nada poderia ser como antes
e, por isso, precisava tomar algumas decisões, coisa difícil
para ele, acostumado a agir impulsivamente, a se deixar
levar pelos acontecimentos sem nunca refletir sobre certo ou
76
errado, bom ou ruim. Sentia que algo novo acontecia
dentro dele, na contramão de tudo que sempre fora.
A mãe havia estranhado tanto recolhimento.
Nunca vira o filho dentro de casa mais do que algumas
poucas horas, para comer, ou – mais raramente – para
dormir. Nunca o havia questionado sobre o destino que ele
escolheu, porque via isso como um caminho natural, assim
como o seu próprio.
Vendo-o tão mudado, teve vontade de perguntar-
lhe alguma coisa, mas não soube como. E já que sua
presença tirava-lhe a liberdade a que estava acostumada,
passou ela a ficar longos dias fora, na casa de algum
namorado ou amigo.
Num desses dias, estando Carlinho só em casa,
ouviu passos que sabia não serem de sua mãe. Foi até a
porta, achando que flagraria algum dos namorados dela a
procurá-la. Com esse pensamento, abriu a porta com fúria.
Não houve tempo sequer para um gesto de surpresa. A
frente da porta estava Rato, que o atingiu na cabeça com
uma barra de ferro, e atrás dele os outros ex-companheiros.
Com o impacto Carlinho ajoelhou-se com a vista totalmente
escurecida, e então desmaiou. Arrastaram-no para trás da
casa, e de lá por uma trilha coberta de capim alto, levaram o
corpo desfalecido do rapaz, até o barraco onde agora se
reuniam.
Lá chegando, amarraram seus pulsos e
prenderam a corda nos caibros do telhados, num vão onde
faltavam algumas telhas. Rato puxou lentamente a ponta da
corda, temendo que a precária estrutura não agüentasse o
peso do outro, enquanto Branco apoiava o corpo de
Carlinho. Então’, Bira ajudou Rato a amarrar a corda a um
tronco de abacateiro que crescera rente a única janela do
esconderijo, mantendo assim, o corpo do capaz inconsciente
ereto, seguro apenas pelos pulsos.

77
Bira aproximou-se de Carlinho, suado e
resfolegante pelo esforço, e jogou-lhe no rosto uma caneca
d’água.
A água gelada fez com que Carlinho
despertasse. Abriu os olhos devagar, ferindo-os na claridade.
__E aí Carlinho? Há quanto tempo, hein?
Carlinho esforçou-se por falar, mas a dor na
cabeça era insuportável, e o esforço que fazia para manter o
corpo ereto, poupando a pressão nos pulsos, fazia o ato de
respirar um tormento.
__Pensou que tudo ia ficar por isso mesmo –
continuou Bira – Que ia ficar recebendo dinheiro de policial
para entregar a gente, e tudo bem?
Rato bateu forte no rosto de Carlinho, que só
então pôde reconstituir mentalmente o que acontecera.
Tentou falar novamente, mas foi outra vez atingido no rosto.
Sentiu o sangue escorrer do lábio e a vista turvar-se.
__Traz aí ,Branco!
Branco foi até o canto do barraco e retirou de
sob uma lona rasgada uma garrafa plástica, cheia.
Bira abriu a garrafa e jogou seu conteúdo sobre
o corpo do ex-colega de uma só vez.
__Agora tu vai aprender a não sacanear teus
amigo!
Ao sentir o forte cheiro de gasolina sobre o
corpo, Carlinho debateu-se inutilmente na tentativa de
soltar-se. Os outros riram de seu desespero e para o
prolongarem, mostraram ao rapaz uma caixa de fósforo.
Bira abriu-a lentamente, com os olhos em Carlinho e retirou
dela um palito.
__Por que tu não experimenta pedir perdão?
Quem sabe a gente não resolver ser bonzinho e só queima
da cintura pra baixo?
Os três gargalharam. Carlinho permaneceu
mudo, esperando que tudo acabasse logo.
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__Vai logo Bira, a gente ainda tem muita
coisa pra fazer hoje! – disse Rato, ansioso.
Bira concordou, mas quando finalmente decidiu
acender o fósforo, foi tarde demais. Os outros dois viram-no
cair com um grito de dor segurando a mão ensangüentada.
Antes que pudessem entender o que se passava viram
na porta do barraco, segurando um revólver, o homem que
Bira imediatamente reconheceu.
Ele apontou-lhes a arma e gritou:
__Sumam! E levem o babaca que está gritando
com vocês!
Como se mantivessem paralisados ainda pela
surpresa, Paulo atirou outra vez. O tiro passou de raspão por
Rato e foi se cravar no tronco do abacateiro. Depois disso,
Branco ergueu bruscamente Bira e desapareceram pela
mesma trilha por onde haviam chegado.
Enquanto Paulo apressava-se a desamarrar o nó,
Carlinho olhava-o, surpreso.
Depois de desfeito o laço que o mantinha preso,
Carlinho, sem força para manter-se erguido, foi ao chão com
os braços dormentes. O pai correu até ele e soltou-lhe os
pulsos feridos. Depois, passou-lhe o braço pela cintura e
ajudou-o a sentar-se.
Carlinho olhou-o aliviado e confuso:
__Como você sabia?
__Depois eu explico. Vamos sair daqui
primeiro! Os seus amigos podem ter ido buscar reforços.
Carlinho tentou andar, mas não o pode fazer na
velocidade que Paulo desejava, por isso foi erguido nos
ombros e el vado até o carro que estava escondido atrás de
um barraco, a pouca distância dali.
Chegando ao carro, Paulo deitou Carlinho no
banco traseiro e deu a partida, saindo em alta velocidade.
Sentindo-se melhor, o rapaz tentou sentar-se, mas Paulo

79
pediu que se mantivesse deitado, pois não queria que fosse
visto.
Depois de alguns minutos, tendo eles já se
afastado do bairro, Carlinho insistiu na pergunta:
__Como você sabia onde eu tava?
Paulo olhou o filho pelo retrovisor:
__Eu fui procurar você em casa porque não te
achei em lugar nenhum. Quando cheguei, a casa estava
vazia e a porta aberta. Aí eu vi sangue ainda fresco no
chão e rastros. Desconfiei do que devia ter acontecido e
segui até o barraco. Cheguei na hora certa, graças a Deus.
Paulo fez uma pausa, então continuou:
__Por que eles fizeram aquilo, Carlinho?
O rapaz sorriu, ironicamente:
__Você nem imagina?
Paulo refletiu alguns segundos, intrigado:
__Por que está me perguntando isso?
__Se liga! Eles te viram naquele dia, quando
você foi me procurar. As bestas pensavam que eu tava
recebendo dinheiro pra dedá eles!
Paulo ficou calado. Não havia lhe passado pela
cabeça essa possibilidade quando foi atrás do filho naquele
dia. Carlinho adivinhou o que se passava no íntimo do pai e
teve vontade de lhe dizer algo agradável, que não havia sido
culpa dele, mas ficou calado. O antigo rancor ainda
persistia.
__Vou levar você a um médico, é melhor.
__Pra quê?
__Para darem uma olhada nessa cabeça dura
__Não tô a fim. Só tô um pouco tonto. E odeio
hospital!
__Quem falou em hospital? Nós vamos para
minha casa. Lá você toma um banho e a gente conversa
melhor!

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__Não tenho nada pra falar contigo. E
ainda tenho que acertar as contas com aqueles três safados!
__Você pode procurar seus amigos outro dia.
Hoje, você tem pra onde ir. Conversa encerrada.
Apesar de não sentir nenhum ânimo para
discutir, a forma como Paulo decidia seu destino naquele
momento, irritou-o ao extremo:
__Escuta aqui, cara … eu não vou pra merda de
lugar nenhum contigo! Pára esse carro, que eu sei me virar
sozinho!
Paulo já estava preparado para a reação. Com
voz tranqüila disse:
__É … eu vi como você sabe se virar … Agora
deixa de ser criança, eu só quero ter certeza de que você está
bem… depois se quiser voltar pra continuar a guerrinha com
aqueles marginais, problema seu, eu não me meto mais.
Carlinho pensou em responder, mas desistiu.
Resolveu guardar energia para mais tarde.
Paulo rodou por alguns quilômetros até
chegarem numa rua pouco movimentada. Saiu da principal,
passou por dois quarteirões e estacionou em frente a uma
casa murada, com uma grande varanda e um jardim
esquecido. Desceu e ajudou Carlinho a sair também.
Entraram na casa, Carlinho amparados pelo pai, pois ainda
não tinha recuperado a firmeza nas pernas. Paulo deixou-o
no sofá e abriu as janelas. A claridade revelou a sala
confortável apesar da desordem, que denunciava a ausência
feminina.
Carlinho observou esse fato e disse ao pai:
__Você não casou de novo?
__Na minha profissão é melhor não ter
compromisso.
__Ou tá com medo de ser chifrado outra vez?

81
Paulo encarou-o com um olhar zangado.
Carlinho sustentou o olhar, feliz por ter acertado o ponto
certo. O outro percebeu a intenção, não se deixou pegar:
__Você tá precisando de um banho, moleque!
Quem sabe assim melhora esse humor?
Depois, arrastou-o do sofá até o banheiro, ligou
o chuveiro e manteve o rapaz embaixo da água enquanto
ele, aos berros, xingava-o com todos os palavrões que
aprendera.
Paulo assobiava alto, sem prestar atenção aos
protestos revoltados de Carlinho.
__Pronto, já deu pra esfriar a cabeça?
A resposta foi um “dane-se”, dito com os
olhos cintilando de raiva. Paulo sorriu:
__Pelo menos o cheiro de gasolina saiu!
Quando achou que era o suficiente, ele desligou
o chuveiro e jogou uma toalha ao rapaz:
__Você já está bem disposto! Já pode se vestir
sozinho!
Foi até o guarda-roupa e jogou-lhe algumas
roupas. Depois, saiu em direção à cozinha. Carlinho foi até a
cama, controlando a tontura e apoiando-se nas paredes.
Vestiu-se com alguma dificuldade e deixou-se desabar,
exausto.
Paulo voltou ao quarto minutos depois, com uma
bolsa de gelo, mas achou o filho dormindo. Enquanto
mantinha o gelo sobre o ferimento em sua cabeça, pensava
em como tudo teria sido diferente se ele, Paulo, tivesse tido
a coragem de procurá-lo antes ou mesmo de tirá-lo da mãe,
enquanto ainda era um menino. Agora, talvez fosse um
pouco tarde para fazer o papel a que se negara no passado.
Se pelo menos conseguisse convencer Carlinho a ficar, em
vez de voltar àquele lugar atrás de desforra …Bem
precisaria segurá-lo ali pelo menos um dia, para que se
recuperasse.
82
Paulo suspirou, pesando na batalha que
teria pela frente

CAPÍTULO X

ngelo achou que seria melhor aparecer na

 escola aquele dia ou seria reprovado na


freqüência. Na volta, caminhando sozinho,

83
pensou novamente no que lhe havia acontecido de manhã.
Estava feliz consigo mesmo por ter achado o jeito certo de
vencer aquela primeira provação.
Ainda pensava no mesmo assunto, quando viu, a
poucos metros de si, Vilminha, que conversava com um
rapaz que era desconhecido de Ângelo. Provavelmente
alguém novo no bairro. Cogitou passar por ela e dizer
alguma coisa, mas desistiu. Já tinha muitos problemas na
cabeça. Achava que se tivesse que haver ainda alguma coisa
entre eles, deveria, agora, ser por iniciativa dela, ou um
acaso.
Passou pelo casal sem olhá-los, com o ar mais
indiferente que seu ciúme lhe permitiu. Vilminha fingiu não
notar a presença de Ângelo, mas para provocá-lo, chegou
mais perto do rapaz com quem conversava e, num gesto
natural, para deixar clara a intimidade entre eles, beijou-o no
rosto, mais demoradamente do que o costume, despedindo-
se em seguida com seu jeito afetado, mas que nela caia tão
bem.
Ângelo suspirou, balançou a cabeça com
desânimo. Com tanta mulher no mundo por que teve que se
prender logo a ela?
Chegou em casa cedo para admiração de Alzira.
Depois de trocarem algumas palavras, a mãe foi deitar-se
recomendando-lhe que não fosse dormir muito tarde.
Ângelo nem precisava ouvir aquela recomendação, estava
mais cansado aquela dia do que nos outros, por isso,
contrariando o que sempre fazia, tão logo acabou de jantar
foi, dormir.
O sono veio rápido, mas dessa vez não trouxe os
sonhos costumeiros, seus amigos, que não deixavam marcas,
não lhe pesavam na alma. Esse abriu-se diante dele com
uma nitidez impressionante: não tinha apenas cor, mas todos
os seus sentidos participaram ativamente dele, como se
houvesse sido transportado a uma outra realidade.
84
Tudo a sua volta resumia-se a um imenso
tabuleiro de xadrez e ele era uma das peças. Olhou para
cima onde um céu sem estrelas o ameaçava e viu um
homem gigantesco, vestido de escuridão. O que se
sobressaía de sua figura era o rosto luminoso e as
mãos compridas, branquíssimas, que terminavam em
unhas transparentes. Seus olhos eram dois lagos de fogo,
dois sóis a queimá-lo. Ângelo podia ouvir sua respiração e
senti-la quente no rosto. Quando o gigante ergueu-o `a altura
dos olhos, sentiu o corpo ser atravessado por flechas
chamejantes e, bem próximo a si, ele disse uma única
palavra, sonora, indecifrável. A voz do gigante saiu-lhe da
garganta como um trovão, mas lenta, profunda, carregada de
rancor e fúria, e congelou a alma do rapaz, invadiu-o por um
medo que ele pensava não existir, algo tão único que lhe deu
forças para despertar.
Ângelo acordou gelado, estático e ficou na
mesma posição por alguns minutos, tamanha a impressão do
pesadelo. Mas sabia que havia sido mais do que isso.
Levantou-se devagar, sentou-se na cama e tentou
acalmar o coração. Qual tinha sido mesmo a palavra? A
palavra que ouvira tão alta, tão clara, que lhe despertava um
mundo de sensações? Esforçou-se por algum tempo mas
nada conseguiu. O pior era que tinha quase certeza de que a
criatura só lhe havia dito porque ele não poderia lembrar-se
dela depois. Não sabia por que, mas achava que aquela
palavra era uma espécie de chave, um detalhe importante
que serviria a Maltus. Ou era apenas impressão?
Olhou o relógio: quase sete horas. Deu um pulo
da cama. Ultimamente havia testado demais a paciência do
patrão e queria desculpar-se com ele. Engoliu o café que a
mãe prepara e saiu pela porta em disparada. Mas não foi
muito longe: chocou-se com alguém que vinha que em sua
direção e estancou. Afobado, ia desculpar-se e retomar a
corrida, mas emudeceu ao ver quem tinha quase derrubado.

85
__Aposto que você fez de propósito! – disse
Vilminha abaixando-se para apanhar uma pasta que trazia.
Ângelo já sabia que não adiantava se desculpar,
ela não prestaria atenção. Então, já sorrindo com a idéia,
resolveu usar outra tática.
__Vai ficar aí na minha frente? Tá pens…
A moça não esperava por uma resposta tão
fulminante: Ângelo, sem dar-lhe tempo de se esquivar,
apertou-lhe a cintura contra o corpo e beijou-a
apaixonadamente. Então, soltou-a brusco e retomou seu
caminho sem olhar para trás, mais rápido e mais leve do que
antes. Vilminha ainda ficou parada, sem acreditar no
atrevimento do rapaz e no que estava sentindo.
Agenor já esperava Ângelo na porta do bar.
Quando o viu, cruzou os braços, fechou a cara, numa
simulação de raiva que não enganava ninguém. O rapaz
parou diante dele e ficou sério também:
__Foi mal, seu Agenor.
__E só isso que você tem pra me dizer “foi
mal”? O que deu em você ontem, hein, moleque? Ficou
maluco, perdeu o juízo?
__Posso entrar primeiro?
__Eu não sei nem se vou te deixar entrar! Sabe,
se não fosse pela D. Alzira eu não agüentava isso. E você
sabe que horas são?
Durante todo o dia o ajudante teve que ouvir
uma interminável ladainha, que suportou pacientemente, já
que não podia contar a verdade. Os fregueses também não o
pouparam. As perguntas sobre a trocas de socos entre ele e o
outro rapaz foram repetidas um número incontável de vezes,
testando toda a sua capacidade de inventar mentiras. A
intenção era que o fato que tanto o constrangia virasse piada
e caísse logo no esquecimento para que pudesse retomar sua
rotina, pelo menos ali, já que pelas suas últimas experiências

86
acreditasse que sua vida nunca mais tão rotineira
quanto antes.

_______________________________________
_

Sobre um rochedo escarpado, tendo como


vista, abaixo, a lava revolta que abriga seres bestiais, e
acima um firmamento eternamente negro, sufocado por uma
atmosfera plúmbea, o Anjo Negro refletia. A pressão
psicológica não fizera no aprendiz o efeito que esperava,
precisava reforçá-la, então, com algo mais palpável. Tendo
isso decidido, levantou-se de um impulso só e, como um
raio, atravessou aquele mundo ao qual estava eternamente
ligado.
Parou sobre a atmosfera azulada da terra e então,
airoso como um pássaro, desceu, rasgando as tênues nuvens,
refazendo os detalhes de seu plano.
Pousou sobre o pico de uma alta montanha, nas
regiões geladas. Ali, um pouco abaixo de onde estava, jazia
soterrado o corpo de um dos tantos aventureiros que
escalavam montanhas como aquela, perseguindo a glória
humana. Esse que ali, sob o olhar indiferente de um arcanjo,
daria seu último suspiro, foi um dos que fracassaram nesse
intento. Estava já com o sorriso da vitória, tão próximo do
objetivo, mas fora vitimado por uma repentina tempestade
de neve que o amortalhara ainda vivo.
Sobre o pico, à espera, o anjo podia ouvir-lhe as
batidas do coração perderem a força, o sangue congelar-se-
lhe nas veias. Podia intuir seus últimos pensamentos, seu

87
desespero impotente, a consciência plena da morte e o medo
que lhe paralisaram a circulação antes do gelo implacável.
Ele apenas esperava, com a paciência que a
certeza concede. E, quando o infeliz alpinista libertou-se do
peso da existência humana, o outro apossou-se
imediatamente de seu corpo, animou-o com seu espírito
eterno, arrastando-o para fora de sua branca sepultura.
Chegou ao mar aberto e ali, nas costas de um
enorme cetáceo, velejou, guiando a besta marinha em
direção às regiões litorâneas do ocidente, fugindo das vistas
das embarcações, dos assombros histéricos dos seres
humanos.
Domado por uma força superior a sua, a pobre
criatura rasgou as águas numa velocidade incomum, com
sua massa colossal.
Por onde passava, o estranho surfista animava a
fúria adormecida de vulcões, fazia tremer pequenas ilhas,
cujo nativos, assombrados, corriam a entoar preces a seus
deuses pagãos.
Relâmpagos riscaram o céu, num aviso. Ele se
deteve a olhar, fascinado: o céu podia recusá-lo, mas nunca
ignorar sua presença!
Esteve assim a brincar, até que uma lufada de
vento morno veio saudá-lo. Chegara a seu destino.
Respirou o ar marinho da praia onde estava e
caminhou entre os mortais, vestido de pele e sangue,
mascarando sua aura com o odor medíocre dos filhos de
Eva.

_______________________________________

Ângelo estava limpando distraidamente o


balcão, quando viu entrar alguém que nunca tinha visto ali:
88
tinha a pele extremamente clara e seus olhos, de um
azul vivo e imaculado, fechavam-se, atormentados pelo sol
de quase quarenta graus daquele dia de verão. Seria um
estrangeiro perdido por ali?
Ele ocupou uma das mesas, muito observado
pelos outros fregueses. Fez um gesto a Ângelo, chamando-o.
O rapaz foi até ele, curioso:
__Pois não?
__O que há para beber?
A voz era vibrante como um instrumento.
Ângelo notou que ele não tinha sotaque. Estrangeiro não
era.
__Refrigerante, cerveja… _Respondeu.
O homem interrompeu-lhe com um simpatia
inata:
__Cerveja…nunca experimentei.
__Trago uma, então?
__Sim, por favor.
Que figura! Devia ser algum “Yuppie” querendo
tirar uma com a cara dos suburbanos. O tédio de ter tudo o
que queriam devia deixá-los muitos chateados.
Retornou à mesa com o pedido:
__Mais alguma coisa?
__Por enquanto, não.
O rapaz ocupou-se dos outros fregueses que iam
chegando aos poucos, lotando as mesas. Logo, o bar estava
tomado pela conhecida algazarra de todos os dias.
Entre um pedido e outro, olhava o desconhecido
com curiosidade e sempre encontrava aqueles olhos
mirando-o de volta. Desviava os seus, constrangido. Parecia
que a curiosidade era recíproca.
Implicara com o desconhecido sem saber por
quê. Talvez fosse pelo jeito como sua pessoa, sem que
Ângelo pudesse explicar, tomava conta do ambiente. Os
outros fregueses já nem mais o olhavam com a insistência

89
prepotente de que eram vítimas todos os desconhecidos
naquela rua. Só Ângelo continuava a estranhá-lo muito, uma
estranheza que ia além do seu tipo físico incomum. Tinha,
às vezes, a impressão de que já o conhecia, mas sabia que
isso era loucura. Ultimamente, vivia tendo sensações e
pensamentos que lhe tiravam o sossego.
Havia os encontros com Maltus, as lições
tornando-se cada vez mais difíceis, mais profundas,
exigindo dele uma concentração e uma disciplina que ele
nem sabia de onde tirava. Tinha ainda que dar conta da
escola e do trabalho ali no bar que lhe consumia quase
toda energia. Mas sabia que tinha que levar adiante o
compromisso assumido com Maltus. Ele o prevenira de que
a batalha que teria que travar poderia pegá-lo desprevenido,
com o espírito vulnerável, se não se exercitasse
continuamente.
Além de tudo, havia Vilminha. Por causa de sua
lembrança, muitas vezes tivera que recomeçar todo um
cansativo exercício de visualização.
Os pesadelos, agora freqüentes, levavam-no a
um mundo onde era jogado de um lado para outro, como se
fosse um boneco. Não conseguia livrar-se deles nem mesmo
acordado, pois a impressão que lhe ficava roubava-lhe toda
a atenção.
Falara com Maltus a respeito dos sonhos. O
mago havia sorrido – coisa rara, pois não costumava fazê-lo
em nenhuma ocasião – e lhe dissera: “considere o aperitivo.
O principal ainda será servido”. Isso o havia assustado de
verdade.
__Maus pensamentos?
__O quê?
Ângelo virou-se bruscamente. Era o novo
freguês. Pôde sentir sua voz ressoando dentro da cabeça,
como se ele houvesse estado o tempo todo lá, ouvindo seus
pensamentos.
90
__Desculpe, mas você parecia estar tão
distante.
Inconscientemente, Ângelo evitou encará-lo:
__O senhor ia pedir mais alguma coisa?
__Não, não. Mas parece que aquele freguês ali,
sim.
Na mesa em frente, um homem resmungava,
irritado.
Antes de atendê-lo, Ângelo disse ao outro:
__Obrigado pelo toque. Eu ando meio distraído.
Ele sorriu-lhe, compreensivo, mas algo nele
desmentia as boas intenções. O ajudante afastou-se, mas a
presença do outro cercava-o.
Quando o último freguês saiu, o desconhecido,
cuja mesa estava agora abarrotada de cerveja, chamou
Ângelo e finalmente pediu a conta. Olhando para a
quantidade de garrafas vazias, O rapaz imaginou que o outro
só se levantaria com ajuda, mas estava enganado. O freguês
ergueu-se sem dificuldade. No seu rosto não havia nada que
denunciasse o excesso. A voz continuava clara e profunda,
como o tinir do cristal.
Retirou da carteira duas notas de cinqüenta e
entregou-as a Ângelo:
__Apenas uma dessas paga sua conta – disse o
rapaz.
__Fique com o troco.
__Como?
__E difícil ser bem atendido hoje em dia. Você
mereceu.
__Não fiz nada de mais.
__A modéstia lhe cai bem, mas não deixe que o
atrapalhe.
Ângelo calou-se, era uma discussão inútil.
Estava cansado e o outro não parecia estar bêbado.

91
Provavelmente, só queria impressionar. Pegou então as
notas e disse-lhe, meio sem jeito:
__Obrigado.
__Que bom que você não é orgulhoso.
Ele caminhou até a porta, mas antes de sair
virou-se:
__Pretende trabalhar aqui por muito tempo?
__Por enquanto, não tenho escolha.
__Gostaria de ter?
Aquele interrogatório sem propósito e fora de
hora irritou o rapaz. O que aquele babaca estava querendo?
Com uma ironia ríspida, que não costumava
usar, respondeu-lhe:
__Por que? O senhor é o gênio da lâmpada? Está
aqui para me atender três desejos?
Para sua surpresa, o freguês gargalhou, parecia
estar achando tudo muito engraçado. Ângelo teve vontade
de jogar-lhe de volta a nota e fechar-lhe a porta na cara. O
outro, no entanto, caminhou até o rapaz e , subitamente
muito sério, disse-lhe:
__Talvez eu seja. Por que não experimenta e faz
o pedido?
__Olha, eu tô muito cansado e ainda tenho que
encarar escola...Valeu pela gorjeta, mas eu acho...
O homem não o deixou terminar:
__Se você estiver realmente cansado, aqui está
uma escolha _ disse, tirando do bolso um cartão e deixando-
o sobre a mesa__ Eu volto amanhã e talvez você esteja com
menos pressa.
Retirou-se dessa vez sem olhar para trás. Ângelo
pegou o cartão . Era o logotipo de uma agência de
publicidade. Embaixo , o nome Hans Büdchen.

92
___________________________________
________

Carlinho abriu os olhos devagar e, como sempre,


não reconhecia o lugar onde estava , se era dia ou noite, se
estava só ou acompanhado. Aos poucos, à medida que ia
despertando, ele tateava as paredes da memória
cuidadosamente, temendo o que ia encontrar .
As imagens voltaram instantaneamente,
atropelando-o. Como um filme assistido de trás para frente,
ele recordou-se do banho forçado, do caminho percorrido no
carro , de uma mão ensangüentada, do sorriso mau que
mostrava-lhe um fósforo e, por fim, de abrir a porta de sua
casa e da surpresa que apenas esboçara. Nesse ponto, ele
levou a mão à cabeça. A dor não cedera, mas a raiva que o
invadiu pelas lembranças recuperadas deu-lhe ânimo para
levantar-se. Não queria continuar ali.
__Aonde está indo?
Carlinho voltou-se. Era Paulo que retornava da
cozinha com uma bandeja. O rapaz ignorou a pergunta e
caminhou ,ainda um pouco tonto ,até a porta. Girou a
maçaneta.
Paulo pôs a bandeja sobre a mesa:
__Está trancada.
__E onde tá a chave?!_ gritou Carlinho ,sentindo
a cabeça pesar e um princípio de náusea.
__Você não vai precisar dela agora. Senta e vê
se come alguma coisa.
A resposta foi um relampejar de olhos, enquanto
o rapaz caminhava até o pai, fervendo de irritação:
__Abre essa merda agora!
Paulo mostrou uma serenidade que não sentia.
Achava que o pior já havia passado, mas o gênio do filho
não abrandava.

93
Bem próximo a ele, segurou-lhe a nuca numa
tentativa de acalmá-lo, mas Carlinho afastou sua mão com
violência.
Paulo encarou-o com severidade:
__Você está descontando a raiva na pessoa
errada.
__Então abre a porta e me deixa descontar nas
pessoas certas!
__Eles não estão mais lá. Eu atirei num deles,
devem estar escondidos.
__Isso é problema meu, cara! Você acha que
pode me prender aqui?
__Melhor do que numa cela lotada.
__Vai dar uma de policial pra cima de mim?
__Só não quero que você piore ainda mais sua
vida.
__Minha vida não é da tua conta, eu já te disse
isso!
Paulo suspirou. Sentou-se no sofá com uma
expressão cansada:
__Eu não vou perder tempo discutindo com
você .
Tirou o telefone do gancho e digitou um
número. Aguardou alguns instantes, ouvindo o chamado do
outro lado da linha.
Enquanto isso, Carlinho pôs-se a andar de um
lado para outro, socando as paredes. Quando notou que o pai
não lhe prestava a mínima atenção, descarregou sua fúria
nos objetos da estante, derrubando-os de uma só vez . Paulo
ignorou. Alguém atendeu o telefone, conversaram
rapidamente . Carlinho suspendeu a destruição , pois parecia
ter ouvido seu nome ser mencionado. Viu o pai recolocar o
telefone no lugar e encará-lo.
__Pronto. Resolvi seu problema.
__Com quem cê tava falando?
94
__Um amigo meu. Ele é médico e eu pedi
que ele viesse até aqui dar uma olhada em você .
__Ele vai olhar a mãe dele!
__Olha a língua moleque!
Carlinho ,então, resolveu terminar o que havia
começado na estante, mas Paulo adiantou-se e impediu-o
passando-lhe o braço em volta do pescoço:
__Chega, Carlinho! Pára de bancar a criança
fazendo pirraça!
O rapaz não tentou se soltar. Paulo afrouxou o
braço e então virou-o para si, abraçando-o com cuidado,
como se esperasse uma reação, mas Carlinho manteve-se
imóvel, os braços pendidos, apenas a respiração ficou
pesada, como se despendesse um grande esforço físico.
Paulo segurou-lhe o rosto molhado, viu os olhos
vermelhos e líquidos:
__Por quê não se pode conversar com você sem
brigar?
O rapaz não o encarou, e recuperando a decisão
de antes, afastou-se:
__Me deixa!
Paulo observou-o enquanto ele estendia-se no
sofá e fixava os olhos no teto, subitamente sereno.
Aproximou-se ,queria dizer-lhe alguma coisa,
tentar reiniciar a conversa, mas acabou achando que era
melhor deixá-lo quieto por algum tempo. Talvez servisse
para lhe esfriar a cabeça.
Vinte minutos mais tarde, Carlinho continuava
inerte, apenas o movimento do peito denunciava-lhe a
respiração. E era tamanha a imobilidade que Paulo
começava a preocupar-se. Sua atenção foi desviada pelo
toque da campainha. Foi até a porta e abriu-a: era Mendes,
seu amigo.
Há algum tempo não se viam devido ao trabalho
de ambos, mas o médico em nada lhe parecia mudado,

95
olheiras, cabelos desgrenhados, e todo ele a demonstrar
pressa, tanto na fala como no andar, mesmo quando não
havia motivo para tal.
Abraçaram-se. Mendes olhou a sala ,surpreso:
__Que que houve por aqui? Furacão?
Paulo lembrou-se dos objetos espalhados pela
sala, lançou-lhes um olhar desconsolado:
__Mais ou menos _disse ele e apontou com um
movimento de cabeça o rapaz estirado no sofá.
O médico sorriu-lhe ,compreensivo:
__Que barra, hein?
E depois de aproximar-se do sofá:
_O que ele tem?
__Birra, eu acho. Mas também levou uma
pancada feia na cabeça.
__Tudo bem. Eu vou examinar. Enquanto isso,
que tal uma cerveja? Tá um calor danado lá fora!
__Bebendo em serviço ,doutor?
__Estou sempre em serviço, então vou beber
quando?
Paulo sorriu e saiu em direção a cozinha.
Mendes abriu a maleta que trazia e retirou um isqueiro,
companheiro de um outro vício seu. Depois, aproximou-o
do pé do rapaz e acendeu-o .
Carlinho chutou o ar com um grito. Então
encarou Mendes, furioso:
__Você é maluco?!
__Depende do ponto de vista. Bem, pelo menos
sei que você não está catatônico.
__Filho da p...!
Paulo ouviu os gritos e voltou correndo, com a
cerveja que o outro pedira:
__Que aconteceu?
__Não precisa mais se preocupar- disse o
médico, avançando na garrafa- ele não está em coma.
96
__O que você fez?
Mendes mostrou-lhe o isqueiro:
__Terapia de choque.
__Como é que eu não pensei nisso antes?
__ O maluco queimou meu pé!
__Deixa o tio dar uma olhada...__ disse Mendes,
com um ar de falso interesse __ Ora, não foi nada! Nem
ficou vermelho. Agora, deixa eu ver essa cabecinha dura...
__Vai pro diabo!
__Paulo, você precisa ensinar bons modos ao
menino!
__Eu já tentei.
__Vamos entrar num acordo, garoto. Eu ainda
tenho muito que andar , por isso deixa eu fazer meu trabalho
que eu divido a cerveja com você, ok?
Carlinho olhou para ambos, contrariado, mas
acabou consentindo, afinal, quanto mais discutisse, mais
tempo ficaria ali. Queria voltar logo para casa e procurar os
responsáveis pelo galo que tinha na cabeça o quanto antes.

97
CAPÍTULO XI

P
ela primeira vez desde que começou suas
lições com Maltus, Ângelo não foi vê-lo .
Sentia-se esgotado àquela noite, não só
fisicamente. Também não conseguiu realizar os exercícios
de visualização que sempre fazia ao chegar em casa. “Por
uma vez só”, pensou, “Maltus não vai se importar”
No dia seguinte a primeira coisa que lhe veio à
cabeça foi o cartão que o estranho lhe deixara no dia
anterior. Procurou-o no bolso, estava lá: “Hans Bündchen”.
Nome estranho. Ele dissera-lhe que voltaria naquele dia
com uma proposta de emprego, se é que tinha entendido
direito. Até que gostaria que fosse verdade. Um emprego de
verdade, com um salário decente, gente nova para
conhecer...Suspirou. Não podia levar aquilo a sério, afinal,
por que alguém que não conhecia lhe ofereceria um
emprego assim ,sem mais nem menos? E logo alguém que
bebera uma dúzia de cervejas! Sabia que não o veria de
novo, com certeza estava só brincando um pouco com sua
cara , para variar de ambiente.
Chegou ao emprego. Conversava com o patrão
enquanto cumpria maquinalmente a rotina de arrumar as
cadeiras em torno das mesas. Não havia escapado ao
observador dono do bar a presença daquele homem que
nunca vira por ali, com aquela pinta de gente que tem muito
dinheiro. E também sabia que esse homem havia trocado
algumas palavras com seu ajudante antes de ir embora.
98
Exatamente por isso, Agenor esperava Ângelo naquele
dia com tanta ansiedade:
__E então, Ângelo. Quem era o sujeito?
__Sei lá, seu Agenor! Não fico fazendo
perguntas aos fregueses. _ desconversou o rapaz.
__Mas vocês conversaram que eu vi!
Ângelo preparou a língua para uma resposta
malcriada mas a atenção de ambos foi desviada pela visão
de um belíssimo carro branco, que acabava de estacionar na
porta do bar. Agenor arregalou os olhos, assobiando de
admiração. Do carro desceu, impecavelmente vestido num
terno preto, o novo objeto de admiração da rua . Ângelo
quase não pode acreditar.
__Bom dia! _saudou o recém- chegado.

__bom dia, bom dia!_ derreteu-se Agenor,


puxando uma cadeira __ Por favor! O senhor vai querer
alguma coisa?
__Não, obrigado! Estou só de passagem._ disse
o outro, e virando-se para Ângelo _ Podemos conversar um
minuto?
__Se Seu Agenor liberar...eu estou em horário
de serviço.
__Claro!_ apressou-se o dono do bar em dizer_
Ainda não chegou ninguém. Fiquem à vontade!
E saiu em direção a cozinha , mordendo-se de
curiosidade.
Logo que Agenor saiu, Hans virou-se para
Ângelo:
__E então ,já tem minha resposta?
__Eu não me lembro da pergunta.
__Ofereci-lhe um emprego ontem. Quero saber
se aceita.
__Para falar a verdade , eu entendi muito pouco
do que o senhor disse ontem __ ironizou Ângelo.

99
__O que exatamente gostaria de entender?
__Por que todo esse interesse numa pessoa que o
senhor nunca viu?
Hans sorriu:
__Espero que não esteja pensando nada de
impróprio a meu respeito.
__Isso é o senhor quem vai me dizer.
__Estou começando negócios neste país e
preciso de profissionais que preencham certos requisitos...
__Quais?
__Juventude, iniciativa, criatividade. Coisas que
um diploma nem sempre garante. Além do mais, quero
começar com uma equipe totalmente moldada por mim, sem
aquele ranço acadêmico que tanto me irrita.
__Então o senhor sai pelos subúrbios e recruta
ajudantes de bar?
__Você está desconfiado. É um bom sinal,
mostra inteligência. Mas, respondendo a sua pergunta, eu
não escolho qualquer um.
__E como sabe quem escolher?
__Tenho uma certa prática nisso.
Ângelo não soube mais o que dizer. Tudo aquilo
era improvável demais para ser verdade. É claro que sempre
quisera um emprego melhor, mas nunca imaginou que ele
cairia do céu.
Hans percebeu o dilema interior do rapaz. Disse-
lhe:
__Eu entendo sua hesitação. Mas, se quiser
verificar, no cartão que lhe entreguei há o endereço de
minha agência . Por que não pede uma folga amanhã e vai
nos visitar? Talvez eu não seja um louco...ou um
pervertido...
Terminou a frase com um sorriso conciliador.
Ângelo respondeu-lhe, já quase seguro de sua honestidade:
__É ...pode ser.
100
__Já tomei muito do seu tempo. Não quero
que lhe chamem sua atenção por minha causa._ sorriu
novamente, estendendo a mão ao rapaz __ Então, quem
sabe, até amanhã?
Ângelo assentiu em silêncio .O outro ,antes de
sair ainda virou-se:
__Você ainda não me disse seu nome.
__Ângelo.
__Ângelo_ repetiu o outro caminhando até a
porta _Foi um prazer. Pense com cuidado.
O rapaz observou-o entrar no carro e então
voltou a cuidar do que estava fazendo antes. Não faria mal
dar uma olhada ,ele poderia mesmo ser um excêntrico e ter
seus próprios métodos de contratar funcionários.
__E então, Ângelo? O que ele queria contigo?
Agenor voltara correndo, assim que ouviu o
barulho do motor.
__Casamento. Mas eu recusei, ele não faz o meu
tipo.
__moleque malcriado! Deixo você ficar de bate-
papo na hora do trabalho e olha só o que ganho em troca!
__Tá bom ,Seu Agenor! Mas o senhor não vai
gostar...
__Por quê?
__Porque ele me ofereceu um emprego.
__O quê?!
__É isso mesmo. E eu estava pensando...o
senhor não me libera amanhã para conhecer a agência dele?
__Mas isso é um abuso! É um...Peraí! Mas ,por
que ele te ofereceu um emprego assim, sem mais nem
menos? Conta essa história direito!
__Se for enrolação eu vou saber. E aí , tô
liberado?
Agenor pensou por uns instantes, depois, com
um sorriso de pouco caso, disse:

101
__Se você quiser...Mas duvido que arranje
grande coisa! No mínimo ,meu filho, o que ele quer mesmo
é casamento!
__Seu Agenor! O que o senhor está insinuando?!
O dono do bar respondeu com uma gargalhada.
__Acha que emprego cai assim do céu? E já que
vai vagabundear amanhã, melhor compensar hoje!

_____________________________________

__Posso entrar?
__Entre, Ângelo
Maltus estava misturando o conteúdo de
diferentes frascos e parecia bastante concentrado nessa
atividade. Ângelo observou-o em silêncio por alguns
instantes. Por fim, disse:
__Desculpe por ontem. Eu não pude vir porque
o movimento no bar estava demais.
__Não precisa explicar.
Maltus estava mais soturno do que nunca, e
Ângelo ficou considerando se devia ou não contar-lhe sobre
Hans.
Maltus interrompeu seu conflito:
__Podemos começar.
O mago ensinou-lhe novas técnicas de
meditação que exigiam muita aplicação e disciplina , mas o
aprendiz não conseguia acompanhá-lo.
Na terceira tentativa frustrada, Maltus inquiriu-o
com preocupação e desapontamento nos olhos:
__O que está incomodando você?

102
Ângelo suspirou. Não tinha como enganar
o outro. Contou-lhe então sobre a proposta que Hans lhe
fizera e as impressões que teve a seu respeito.
Maltus ficou alguns segundos considerando o
que tinha ouvido. Depois, disse:
__E o que você pretende fazer?
__Eu estava pensando em ir até lá, só para ter
certeza. Quer dizer... eu não queria ser ajudante de bar a
vida inteira. Não confiei muito nele, mas...O que você acha?
__Você não tem opção.
Ângelo olhou-o ,confuso:
__Como assim?
__Se não for, vai ficar sempre achando que
perdeu alguma coisa.
__É...Acho que você está certo. Como sempre!
Maltus levantou-se e retornou a sua tarefa
inicial, deixando em Ângelo o remorso de não ter condições,
pela segunda vez, de se dedicar as suas lições.
Para amenizar esse sentimento disse ao amigo:
__Eu posso ajudar você no que está fazendo?
__Primeiro resolva o que lhe está tirando a
concentração.
__Tudo bem, mas amanhã eu prometo que vou
estar preparado!
__Não se comprometa com o amanhã sem antes
avaliar o que você pode dar hoje.
Ângelo entendeu o que o mago quis dizer, mas
nada respondeu. Despediu-se com um boa-noite apressado e
saiu.
Maltus balançou a cabeça tristemente. Não
havia como abrir os olhos do rapaz. Sempre chegava o
ponto em que seus aprendizes deviam seguir sozinhos,
quando sua sensibilidade e honestidade eram postos à prova.
Era a pior parte. Era onde já havia sido derrotado duas
vezes.

103
Os dois outros aprendizes esperaram por um
confronto direto, mas se viram diante de um inimigo
invisível que usava armas tão sutis, que os ferimentos só
foram percebidos quando era tarde demais.
Esperava que Ângelo estivesse espiritualmente
melhor preparado que seus antecessores.

104
CAPÍTULO XII

ngelo acordou naquele dia disposto a tirar

 a prova em relação a oferta de emprego


que Hans lhe fizera, senão não teria mais
tranqüilidade para se dedicar a sua missão de aprendiz. Não
queria decepcionar Maltus outra vez. Também tinha que
aproveitar a boa vontade do patrão. Se bem que, Ângelo
sabia, não era boa vontade o que fizera Agenor liberá-lo do
trabalho aquele dia, era apenas a certeza de que tudo não
passava de gozação.
No fundo, Ângelo também pensava da mesma
forma.
Saiu de casa bem cedo e, duas horas depois,
chegava ao centro, no endereço indicado no cartão. Era um
prédio imponente, e reconheceu logo o logotipo vistoso que
iniciava o cartão.
Mostrou- o na portaria, informaram-lhe o andar
do escritório de Hans.
Sua sala ficava no último andar, no final de um
corredor atapetado. À porta, a secretária sorriu-lhe e disse
que o senhor Hans Büdchen o estava esperando. Surpreso
,Ângelo bateu de leve na porta e em seguida entrou.
Hans estava de pé, costas viradas para uma
janela envidraçada que tomava toda uma parede. A sala era
ampla, e os poucos móveis, em estilo moderno, estavam
perfeitamente distribuídos no espaço .
O dono da agência de publicidade parecia
distraído com algo ,mas virou-se logo, com um sorriso de
boas-vindas.
__Fez muito bem em vir!
__É ...Eu resolvi arriscar.

105
__Não vamos perder tempo com conversa inútil.
Venha, eu vou mostrar a agência para você!
Andaram por quase todas as salas, enquanto
Hans explicava-lhe resumidamente como funcionava o
trabalho que se fazia ali.
Então, levou-o até onde estavam reunidos
alguns rapazes e moças de sua idade. Apresentou-lhes
Ângelo de maneira informal. Todos ali pareciam muito
satisfeitos e foram bastante simpáticos com o convidado.
“Parece até que estou num comercial” pensou ele, pois ali
as coisas pareciam perfeitas demais , fora da realidade.
Uma mocinha morena puxou-o pela mão,
descontraidamente:
__Não precisa ficar tímido, Ângelo! Se você vai
trabalhar aqui precisa nos ajudar na campanha.
__Campanha?
__Se liga! Isso aqui é uma agência de
publicidade ,não é? _disse um rapaz de óculos, moreno
,chamado André.
__Tá...mas é que eu ainda não faço parte do
grupo.
Hans interrompeu ao notar o embaraço do
rapaz:
__Se esse é o problema....Considere-se parte do
grupo oficialmente!
__Assim? Sem...
__Sem experiência, sem entrevista, sem exame
de admissão. Isso mesmo! Eu disse a você que tinha meu
próprio jeito de contratar. Sou um perito em pessoas, por
isso sei que você tem o que eu preciso aqui.
__Pode acreditar, Ângelo. O Hans nunca se
engana!
Era André novamente. Ângelo olhou para todos
literalmente de queixo caído. Tudo continuava parecendo-

106
lhe tão irreal! Sentia-se agora em uma ponte que
balança sobre um precipício.
Vendo o rapaz estático, Hans foi até ele, bateu-
lhe de leve no ombro:
__Deixamos você sem fala ,hein?
Todos riram . Um outro rapaz do grupo, Fábio,
disse:
__É assim mesmo, não fique assustado.
Aconteceu a mesma coisa com a gente , e hoje somos a
melhor equipe da agência.
__Bem, eu vou deixar vocês à vontade para
conversarem melhor. Tenho que resolver umas coisas_
disse o dono da agência, e virando-se para Ângelo __No
final do expediente eu volto para acertarmos os detalhes.
Então saiu da sala e Ângelo permanecia mudo.
Não estava conseguindo acompanhar os fatos . Uma outra
jovem, Ana, tentou despertá-lo:
__Vai ficar paradão aí? Senta!
Ângelo concordou com um sorriso sem jeito e
juntou-se a eles no tapete onde formavam um círculo. No
chão, espalhados, estavam blocos, canetas hidrográficas e
muitos outros objetos de criação. Falavam todos ao mesmo
tempo, fazendo uma algazarra ensurdecedora.
Depois de algum tempo apenas observando,
perguntou a Ana:
__Vocês têm algum curso?
A resposta foi uma gargalhada geral:
__O Hans não faz questão disso. Prefere que se
aprenda tudo na prática ._respondeu André. Ângelo
percebeu que ele se destacava entre os demais.
__E como foi que conheceram ele?
__Cada um aqui tem sua história _ Disse Ana
__Mas uma coisa é igual para todos : se não fosse ele ,não
sei o que seria da gente!

107
__Pode crer! _ completou Fábio __Eu nunca
imaginei que ia conseguir um emprego desses sem nem ao
menos ter terminado o segundo grau!
Quando eles falavam em Hans ,Ângelo notava
uma exaltação fanática em suas vozes. Pareciam todos meio
enfeitiçados.
Até o final do dia, já se sentia totalmente
integrado à turma. Já chamava a todos pelo nome e com a
intimidade de velhos conhecidos.
Planejavam uma campanha para uma marca de
roupas famosa, e Ângelo deu idéias que todos consideraram
geniais.
Era tudo tão novo e divertido que até esquecera-
se da hora .Então ouviram-se passos no corredor.
Era Hans. Abriu a porta, sorridente e disse:
__Acabou a diversão, crianças! Hora de ir para
casa!
Então todos entoaram um “ahhh!” comprido e
decepcionado, enquanto levantavam-se e recolhiam o
material espalhado pela sala .
Hans despediu-se paternalmente de cada ume
quando todos saíram , fechou cuidadosamente a porta e
perguntou a Ângelo:
__Então? Gostou do seu primeiro dia de
trabalho?
__Para ser sincero, eu não sei se encarei dessa
forma...
__Você não gostou dos meninos?
__Gostei muito. Mas não é deles que eu estou
falando.
__Eu sei o que é: desconfiança!
Hans esperou uma resposta, mas o outro nada
disse. Então ele continuou:
__Por que você não faz uma experiência ?
__Como ?
108
__Fique uma semana. Se não gostar, pode
ir embora sem dar satisfações. Que tal ?
__Por que não? Afinal, pode ser que eu esteja
errado e milagres realmente aconteçam.
Hans exibiu seu sorriso mais inofensivo e
gargalhou por dentro.

Maltus ouviu os passos do aprendiz de longe,


mas não eram os mesmos. Os passos do Ângelo que
conhecera eram ligeiros e hesitantes, os que ouvia agora
eram arrastados, carregavam o peso da obrigação. Já
assistira ao mesmo ritual duas outras vezes e sabia como
terminava.
__Desculpe a demora.
A voz também não era a mesma , parecia mais
velha e um pouco triste.
__Sente-se um instante, você deve estar
cansado.
__Só um pouco. Podemos começar?
__Por que primeiro não me conta o que
aconteceu hoje?
__Eu fui até lá, mas não deixei nada definido.
__Por que não?
__Achei melhor ficar um período de
experiência...uma semana.
__Seu patrão já sabe?
__Não, eu ainda não tive tempo de passar lá.
Vim direto falar com você.
__Você ainda não me disse a impressão que
teve.

109
__Tudo me pareceu muito bom...bom demais
para ser verdade. Mas eu tenho medo de jogar fora uma boa
oportunidade por excesso de desconfiança.
__Você tomou a decisão certa. Dadas as
opções...
Começaram então as lições. Ângelo esforçava-se
para acompanhar Maltus, mas algumas vezes precisou
recomeçar algum exercício, pois flagrava-se com a mente
longe, na agência.
O mago percebeu, mas não demonstrou qualquer
sinal de aborrecimento. Foi ,ao contrário, mais paciente que
de costume, e menos exigente. Insistiu nos pontos mais
difíceis, abordando-os de outra forma e conseguiu subtrair
da mente do rapaz a forte impressão que o outro lhe causara.
No final, Ângelo estava satisfeito consigo
mesmo. Há alguns dias q eu não tirava verdadeiro
proveito das lições de Maltus. Parecia que sua concentração
se havia esvaído. E justo naquele dia, quando se sentia tão
pouco disposto, encontrara novamente aquela sensação de
deslumbramento que Maltus lhe causara nos primeiros
encontros. O mestre lhe pareceu desta vez mais humano,
mais próximo a ele.
O mago percebeu que havia chegado à alma do
rapaz e isso o animou. Se soubesse agir com mais engenho
talvez conseguisse resgatá-lo.
Despediram-se e Maltus quase sorriu. Olhou o
céu, enquanto ainda ouvia os passos do rapaz iniciando a
descida. Não era o mesmo céu de sua aldeia natal, mas ele
também não era o mesmo.

______________________________________

110
__Divertindo-se “Hans”?
As sombras do ocaso avançavam lentamente
pela sala ampla, onde, através da janela envidraçada, um
personagem singular contemplava a despedida do dia, que
se esvaía em tons rosados.
Hans girava em sua cadeira, numa atitude
displicentemente humana, sem contudo perder a severa
majestade dos arcanjos.
Parecia belo à visitante, assim emoldurado
pelos reflexos avermelhados do fim de tarde, tendo o negro
esmaecido das sombras por fundo.
Quando ele virou-se para encarar a intrusa, esta
pôde notar que , apesar de estar ele em outro corpo, os olhos
eram ainda os mesmos: hesitavam entre a tristeza e a
arrogância. Poderia reconhecê-los sob qualquer disfarce.
Diante dele, ela nunca conseguia reprimir um
sentimento inusitado de simpatia e curiosidade, que
disfarçava da melhor forma possível.
A ironia era, nessas horas, a capa preferida de
sua alma.
Hans não se levantou. Sorriu a que chegara de
seu trono improvisado, docemente, quase sem rancor pelos
antigos e numerosos conflitos entre eles:
__É tudo que me resta: diversão! E você? Tem
visto algo de novo entre o céu e o abismo?
__Nada que lhe provoque interesse. Mas, não
fuja do assunto. Quando perguntei se estava se divertindo,
referia-me especificamente ao seu jogo inacabado.
__Eu conduzo o navio em águas mansas em
direção a um rochedo. A tripulação de nada desconfia,
dormem! Meu único amotinado bate os punhos contra uma
porta cerrada, tentando tirar o cúmplice do transe, pois é ele
que tem as chaves da prisão. Mas o rapaz esta enamorado de

111
lindas sereias que ao longe lhe estendem os braços , e não
pode ouvir o condenado. Acha que fui claro?
__Claro e pouco objetivo. Como consegue isso?
Hans levantou-se e a moça aproximou-se
também da parede translúcida. Ambos observaram em
silêncio por alguns instantes o dia que se acabava e os
milhares de pontinhos brilhantes em que se transformaram
as ruas abaixo deles.
Por fim, o anjo olhou sua interlocutora , ferindo-
lhe os olhos com a dolorosa agudeza dos seus e perguntou-
lhe, com a voz perigosamente melíflua:
__Com certeza, esta não é uma visita de
cortesia. O que você realmente quer ,Elleta?
Elleta, que no peso de seus anos mortais , já
consumados, fora uma feiticeira assumida_ pois era esse o
nome que se dava , naqueles tempos sombrios, às mulheres
que se aventuravam em conhecimentos tidos por
exclusivamente masculinos_ e que tivera , desgraçadamente,
acrescida a sua inteligência incomum ,beleza e coragem
igualmente invulgares, fora condenada à fogueira_ morte
devidamente precedida do costumeiro suplício_ mantendo-
se, ainda assim, impenitente até o último sopro de vida.
Isso havia sido entre os seus, motivo de grande
espanto e benziam-se sempre com grande contrição a
simples menção de seu nome amaldiçoado.
Sua grande curiosidade e inventividade em vida
só não suplantaram o grande mestre de Vinci, seu
contemporâneo, mas ela conseguiu ir além em
conhecimentos arcanos.
Quando seu espírito libertou-se das chamas e
ascendeu ao criador, ela descobriu que não teria morada
entre os santos que muito amaram , pois sua vida mundana
fora dedicada a seus próprios prazeres, exclusivamente, e
nunca pudera achar justificativa na pobreza , orações e

112
penitências com que os cristãos procuravam adornar a
alma e impingir a todo o resto, a ferro e a fogo.
Nela não havia, contudo, nenhum mal que
justificasse sua descida ao abismo. Vivera honestamente,
segundo os princípios de seu coração, e havia criado regras
de conduta que esforçava-se por não transgredir.
Contra ela , havia também a total indiferença
pelo resto da humanidade e um princípio de soberba que
não a deixava se comparar a outro ser humano, homem ou
mulher.
Sempre aspirara às estrelas, queria abarcar o
universo todo em seu ser, estar em todos os lugares, ser
testemunha intocada de tudo que existia e de tudo que viria
a existir.
Teve seu desejo atendido em parte, e a tudo teve
acesso, menos às portas do paraíso e aos braços de Deus.
Com o passar dos séculos, como espectadora
privilegiada desde o crescimento da grama à morte das
estrelas, sua sede foi aplacada e tudo que lhe ficara do
antigo sonho foi um imenso vazio. O Supremo juiz nunca
deixava impunes os que violavam o primeiro mandamento ,
e ela descobriu, tarde demais, porque o Portador da Luz,
apesar de toda liberdade de que gozava tinha quase sempre o
semblante cansado e entristecido. Ambos eram viajantes
extenuados que não podiam voltar para casa . O pai lhes
fechara a porta e, como banidos, teriam sempre tudo, menos
o regaço daquEle que amavam a contragosto.
Elleta em tudo assemelhava-se a Maltus, exceto
em uma coisa: o mago arrependera-se de sua impenitência.
Ela, não.
Respondendo à pergunta que lhe fora feita,
Elleta sorriu:
__Não posso negar que torço pelo mago e seu
aprendiz.
__E veio dizer-me isso frente a frente, querida?

113
__Não para aborrecê-lo. Queria apenas
acompanhar mais de perto o desenrolar do lance, como se
diz hoje em dia “de cadeira”!
__Contanto que não interfira...você deve se
lembrar que quebrando as regras, seu escudo cai e você fica
tão indefesa quanto qualquer mortal. Lembra-se da última
vez?
Por sob o fino tecido do vestido ele escorregou
mansamente as mãos e tocou-lhe as costas onde havia uma
cicatriz avermelhada destacando-se na pele alva.
Fugindo ao toque que lhe paralisava a vontade,
Elleta respondeu-lhe com a mesma serenidade com que
chegara, esquivando-se à provocação e medindo-o sem
assombro:
__Não vim para desafiá-lo ou para relembrar
experiências desagradáveis. Sei que estava em seu direito e
não tornarei a repetir o erro.
Terminou a fala com um tom que tanto poderia
ser sinceridade como falácia. Do rosto de linhas perfeitas e
impessoais como o de uma estátua, nada se flagrava.
O anjo sorriu, encantado: quanto talento lançado
fora!
__Agora sim , estou assustado! De onde veio
tanta resignação?
__É apenas bom senso.
__Você continua dando voltas. Por que veio,
afinal?
__Unicamente, já que falou em direitos há
pouco, porque queria estar aqui, e isso deve lhe bastar
“Senhor das Trevas”!
__Mulher, em toda Criação apenas uma de tua
espécie pode prevalecer-se de mim!
__Não conhecia esse seu lado machista! Está
muito tempo entre os mortais.

114
Elleta riu, divertida com o ar severo de seu
interlocutor, e então, num gesto temerário e provocante,
estendeu os braços em torno do pescoço dele, que ainda
tinha os olhos em brasa, e entrelaçou em sua nuca os dedos
longos e delicados.
A expressão de deus aviltado do outro não lhe
desencorajou a intenção: beijou-o em ambas as faces, com o
cuidado de quem acaricia um tigre e o prazer infantil de
pintar bigodes em figuras solenes.
Percebendo a intenção zombeteira, ele tentou
aprisioná-la e terminar o jogo, mas ela tornou-se imaterial e,
lépida, escapou-lhe entre os dedos.
Sua risada estridente e jovial ainda ecoou na sala
por alguns instantes e então, sem deixar rastros ,foi-se
também.

_______________________________________

__Então é pra valer ,moleque?


__É sim ,Seu Agenor.
Agenor virou-se para o balcão, dando as costas
ao ajudante para disfarçar a tristeza. Sabia que esse dia
chegaria, mas não imaginava que seria tomado por esse
sentimento.
No entanto, não queria estragar a alegria do
rapaz com lamúrias , então procurou dar `a voz um tom
brincalhão de indiferença:
__E pra quê essa cara? Nem parece que agora
vai ter um trabalho sério...
__É que é chato sair assim...deixar o senhor na
mão...

115
__Besteira! Acha que não vou conseguir arranjar
outro preguiçoso para o seu lugar rapidinho?
__Valeu, Seu Agenor! Apesar das rabugices, foi
legal trabalhar aqui!
Ângelo estendeu a mão, mas o dono do bar
retribuiu com um safanão de pouco caso , o rosto muito
vermelho, como ficava sempre que se achava embaraçado.
Fingindo pressa, empurrou o rapaz porta a fora.
__Chega de lenga-lenga! Quer chegar atrasado
no primeiro dia do trabalho novo? Pensa que lá vão te dar o
mole que você tinha aqui?
__Sempre implicante!
__Some!
Ângelo foi andando em direção ao ponto de
ônibus, mas ainda voltou-se para dizer:
__Passo aqui no domingo para ver quem o
senhor colocou no meu lugar!
__Pode vir, mas dessa vez , vai ter que pagar
para comer!_ gritou-lhe de volta Agenor, chamando atenção
de quem passava na rua.
Quando o rapaz já estava fora de visão, entrou
no bar, meio cabisbaixo. Nisso entrou um freguês,
cumprimentou-o e acomodou-se em uma das mesas:
__O Ângelo arrumou mesmo outro emprego,
Agenor?
__É...
__Bom pra ele!
Agenor manteve-se calado a observação do
conhecido, e durante todo o resto do dia.

116
CAPÍTULO XIII

E
ra final de expediente. Ângelo sentia um
cansaço bom de quem tinha cumprido
com o dever. Tinham conseguido, ele e
os outros da equipe, contentar um cliente que queria
divulgar uma nova marca de bebida.
No começo sentira-se inseguro, era grande a
responsabilidade, mas depois de trabalharem por três dias,
conseguiram um resultado surpreendentemente bom, e ele
mesmo espantara-se com a criatividade que brotava dele.
Depois que Hans aprovou a idéia, reuniram-se
com o cliente, e fora ele, Ângelo quem começou a
apresentação, explicando, com a ajuda de esboços, como
seria o anúncio. Ganhava mais segurança à medida que lia
no rosto do empresário sinais claros de aprovação.
No final saíram todos para comemorar, e ele,
pela primeira vez desde que começara na agências, há dois
meses, não pensou em Maltus.
Lembrar do amigo agora lhe causava mal-estar.
Cobrava-se o fato de não mais ter tempo para dedicar-se às
lições e de chegar tão cansado que mal ouvia o que Maltus
dizia-lhe ,nas vezes em que se encontravam no casarão.
Custava-lhe admitir, mas desde que mudara de
emprego ,seu entusiasmo por assuntos ligados à magia
decresceu muito, e ele sentia-se muitas vezes tentado a
abandonar as poucas visitas que fazia ao amigo.
Entretanto, o compromisso que assumira e as
dívidas que tinha para com ele ainda pesavam mais na
balança.

117
Mas não fora apenas a mudança radical que se
operou em sua vida que o afastava de Maltus. Uma semana
após começar a trabalhar para Hans, na hora da saída, o
patrão o chamou para beberem alguma coisa num bar
próximo, enquanto conversariam sobre um novo trabalho
que lhe estava encomendado. “Encare como hora extra”,
disse-lhe ele na ocasião.
Falaram sobre o trabalho em questão e, num
parênteses, sobre trivialidades. Naquele instante, entrara no
bar um homem vestido de maneira incomum e sentou-se a
um canto, reservado e sombrio.
__Veja só que tipo!_ dissera-lhe Hans_ Nunca
confie em alguém que se veste dessa forma!
__Não julgue pelas aparências._ Havia
respondido então Ângelo, pois o homem o fizera lembrar-se
imediatamente de Maltus.
Hans olhara-o diretamente nos olhos, meio a
sério, meio brincalhão:
__Se não o conheço só posso julgá-lo pela
aparência. Ir além seria, no mínimo, leviandade.
__Então não o julgue.
__Sempre que se olha para alguém , forma-se
em nossa mente um julgamento. Certo ou errado, é
inevitável!
__Algumas pessoas podem parecer mais
estranhos do que esse homem e serem ótimos amigos!
__Talvez...Mas só um louco se vestiria assim!
Olhe bem para ele...Ele não lhe parece louco?
__Não para mim. Sabe, tenho um amigo que se
você conhecesse talvez o considerasse assim ,mas ele é a
pessoa mais incrível que já encontrei.
__Incrível em que área?
__Em todas, acho. Ou quase.
__É mesmo? E onde está esse papa do
conhecimento humano?
118
__Lembra aquele casarão que você achou
interessante?
__Casarão... No seu bairro? Ah, sim! Acho que
me lembro. O que tem ele?
__Ele mora lá. Quase sempre o visito e ele tem
me ensinado muitas coisas.
__Pensei que o lugar estava abandonado.
__Eu menti. Ele não gosta de aparecer, nem de
ser alvo de curiosidade.
__Então trata-se de um excêntrico! Cuidado,
rapaz , você é muito jovem para relacionar-se com alguém
tão anti-social.
__Você não conhece Maltus. Se conhecesse
entenderia porque, mesmo quando chego cansado, ainda o
procuro.
__Deve ser mesmo alguém muito diferente, para
que você prefira a companhia dele a de nossa amiga Ana_
disse, sorrindo maliciosamente.
Ângelo entendera perfeitamente a alusão. Não
era segredo para ninguém que Ana esforçava-se desde o
princípio para tê-lo sempre por perto.
__Eu gosto muito dela, mas existem coisas mais
importantes do que luxúria e depravação.
Hans havia gargalhado.
__Mais importante ,sim, mas não tão divertidas!
__Não se pode falar sério com você.
__O que vou lhe dizer agora é sério: você tem
inteligência , mas ainda não aprendeu a separar as coisas.
__Como assim?
__Se faz tanta questão de aprender sei-lá-o-que
com seu amigo esquisito, tudo bem, mas precisa dedicar-lhe
também domingos e feriados?
__Mas...
__Escute. Algumas coisas só se aprende
vivendo. Se você ignorar as oportunidades de conhecer

119
gente nova e se divertir, não vai estar jogando fora apenas
sua juventude, mas também sua sanidade!
__Não é bem assim...
__Se ele é realmente seu amigo vai querer que
você se divirta de vez em quando. Ou vai esperar até os
quarenta anos para tentar recuperar o que você está
perdendo agora?
Ângelo não lhe respondera . Mas, já havia
pensado muito a respeito do que o outro lhe dissera. Antes,
quando sua vida estava limitada ao seu bairro, sua escola ,
o bar e quase não tinha dinheiro até mesmo para o essencial,
procurava não pensar em diversão ,pois parecia-lhe
supérfluo.
Projetava tudo para um futuro distante,
esperando um dia arranjar um emprego melhor, sonhando
em tirar dos ombros da mãe todo o peso que ela suportava ,e
aí sim ter direito a um pouco mais de liberdade.
Agora, tinha um emprego infinitamente melhor
do que sonhara e um salário que causaria inveja a muitos
profissionais ,no entanto, ainda sentia-se preso, acanhado
em relação à vida.
No fundo Hans tinha razão. Por que deveria
empregar todo seu tempo, dedicar toda sua juventude a
serviço de uma pessoa que conhecia há tão pouco tempo?
Era verdade que Maltus lhe salvara a vida duas
vezes, ensinara-lhe muito, abrira sua mente para o mundo,
fez com que enxergasse tudo de forma mais clara,
descomplicada. Tudo isso era verdade. Mas, por outro lado,
também era verdade que aquela história sobre imortalidade,
contrato com o Diabo e outras coisas, já há algum tempo lhe
caíra quase que totalmente no descrédito.
Pensando melhor sobre o assunto, relembrou o
dia em que Maltus lhe havia contado tudo. Ele, Ângelo, não
poderia Ter se deixado sugestionar pela admiração que
sentia pelo amigo? Não engoliu tudo aquilo rápido demais?
120
Além da palavra do mago, o que mais
confirmava aquela história? O que o vira fazer.
Sim, no começo, não duvidava da história de
Maltus, até que ,alguns dias depois da conversa no bar, Hans
o levara para conhecer um amigo seu que era ilusionista e
mestre na arte do hipnotismo. Vira o homem fazer coisas
fantásticas, até mesmo, quem diria, levitação! Bem ali,
diante de seus olhos.
Sempre havia respeitado o amigo, mas ele não
era mais o rapaz ingênuo, empregado de um barzinho de
subúrbio que corria atrás de uma garota mimada. Aprendera
tanto nesses dois meses quanto aprendera com Maltus.
Conheceu lugares e pessoas, sua mente expandia-se.
Sim ,até agora havia evitado pensar nisso, mas
precisava rever alguns conceitos, tomar algumas decisões
difíceis, libertar-se, viver!
E, para isso, talvez precisasse cortar alguns
laços.

121
CAPÍTULO XIV

C
arlinho acordou no dia seguinte, um
pouco antes das onze da manhã ,
sentindo-se mais bem disposto. O
ferimento na cabeça já não o incomodava tanto e a confusão
mental de que quase sempre era vítima, aquela vez não
ocorreu.
Podia lembrar-se com clareza do amigo maluco
do pai examinando-o, fazendo-o engolir comprimidos de
gosto insuportável.
Depois que o tal médico se fora, achou que
também era seu momento de sair, mas começou a sentir-se
sonolento e acabou dormindo ali mesmo no sofá. Coisa do
pai, com certeza, para impedi-lo de sair.
Levantou-se um pouco cambaleante ,mais pelas
horas de inatividade do que por debilidade física. Quando
pôde firmar os passos, foi cuidadosamente até a porta.
Estava aberta. A casa parecia vazia ,estava no mais absoluto
silêncio. Achava que o pai insistiria em mantê-lo ali contra a
vontade, mas provavelmente enganara-se.
Carlinho hesitou. A mão continuava imóvel
sobre a maçaneta, enquanto refletia. Então, num impulso,
abriu a porta e saiu rapidamente. Havia coisas que ele
precisava fazer antes de decidir se o pai faria ou não parte de
sua vida dali por diante.
Quando Paulo voltou, `a noite, e constatou que o
filho não mais estava ali, não se surpreendeu. Ficou um bom
tempo ponderando sobre o que deveria fazer agora. Ir atrás
dele e pedir que voltasse não daria resultado.
Talvez a única coisa a fazer fosse observar de
longe , como havia feito por tanto tempo. E esperar.

122
__Lembrou que tem mãe?
A pergunta era apenas praxe. Ela, na verdade,
não se importara muito com a ausência do filho, mas ao vê-
lo assim de repente, diante dela, achou que deveria dizer
alguma coisa.
Carlinho não respondeu. Quase nunca
respondia-lhe e quando o fazia, era com monossílabos.
A mãe esperou que ele fosse até a cozinha ,
comesse alguma coisa e tornasse a sair, mas para seu
espanto, viu o rapaz apoiar-se na parede e encará-la:
__Quero te perguntar uma coisa.
Ela passou por ele e foi até o quarto. Ouviu-se o
som de gavetas sendo reviradas.
__Cadê a merda do cigarro?
O rapaz seguiu-a até o quarto e pôs-se na porta,
impedindo-lhe a saída.
__Você ouviu o que eu disse?
__O que é?
Ela havia encontrado o maço. Sentou-se na cama
desfeita e encarou-o zangada. Esperava que a conversa
durasse o mínimo possível pois tinha um encontro que lhe
renderia algum dinheiro, coisa que Carlinho há um bom
tempo não trazia para casa
__Por que você não me contou que ele tinha me
procurado?
Ela sorriu com desdém:
__Você tá falando daquele policial de merda que
eu acho que é teu pai?
__Ele é meu pai, sua galinha!

123
Ela não se abalou com o adjetivo. Ficou mais
admirada com a certeza que o filho mostrava e com o súbito
interesse por um assunto que para ela já estava encerrado.
__Talvez seja. Mas foi ele mesmo quem não
quis saber de você!
__Você disse que ele nunca tinha me procurado.
__Veio aqui umas vezes, deixava uma esmola e
se mandava ! Nem olhava pra tua cara! Era a galinha aqui
que ralava pra te sustentar!
__Mentira! Ele te deixava dinheiro todo mês,
que tu devia era gastar com teus macho!
__Quem andou enchendo teus ouvidos? Foi ele?
Ele andou te procurando, dando uma de bonzinho, né?
Aquele...!
Carlinho viu o rosto da mãe avermelhar-se. Ela
empurrou-o com raiva e saiu do quarto.
Ele foi atrás. Dessa vez queria que a discussão
fosse até o fim.
__Ele só me disse o que todo mundo já sabe!
__Quer saber! Vai atrás dele! Vocês são farinha
do mesmo saco!
__É isso que você quer! Assim fica livre pra
encher a casa de homem.
Dessa vez ela não respondeu. Apanhou a bolsa
largada sobre o que restava de um sofá e saiu. Já do lado de
fora virou-se, os olhos vermelhos:
__Faz o que você quiser, eu me viro bem
sozinha!
Ele esperou até que ela se afastasse. Olhou em
volta , não queria mais ficar ali. Aquele lugar lhe parecia
mais sujo do que antes e mais triste.
Foi até o quarto, pegou uma velha mochila,
encheu-a com algumas peças de roupa e saiu também.
Lá fora o sol estava forte, a luminosidade
cegava. Pela primeira vez , não sabia o que fazer da vida ,
124
aonde ir. Rompera com os amigos e com a mãe,
deixava o lugar que chamava de casa e não tinha coragem
de voltar para junto do pai.
Resolveu que voltaria para o esconderijo que
usavam desde que Maltus tomara conta do casarão., mas já
não torcia para encontrar os ex-companheiros para a
desforra. Tinha um turbilhão de coisas na cabeça, tudo que
mais queria era ficar só uns dias e pensar.
De fato o lugar ainda estava vazio , parecia que
os outros ainda não se haviam animado a voltar. O dinheiro
que escondera em casa há algum tempo e que trazia consigo
bastaria para uns poucos dias, com dificuldade.
Três dias depois, decidiu que deveria dar um
rumo a sua vida, fosse qual fosse. Mas antes, iria até o Bar
do Agenor comer alguma coisa com os trocados que lhe
sobraram.
No caminho, viu Ângelo descer de um ônibus ,
voltando do trabalho. Carlinho deteve-se e observou-o por
alguns segundos. O outro rapaz parecia-lhe diferente, tinha
um jeito decidido e estava tão bem vestido que quase não o
reconhecera. Será que o ajudante do seu Agenor tinha
arrumado outro emprego?
Ângelo também viu Carlinho. Avistou-o de
longe, mas não mudou de direção como costumava fazer
antes. Quando se cruzaram ,ambos reprimiram a curiosidade
e apenas trocaram um olhar rápido. O ex-ajudante de bar via
sua vida tomar uma nova direção e não queria olhar para
trás. Carlinho procurava um destino, mas o outro também
lhe causava muitas recordações desagradáveis.
Carlinho chegou ao bar e sentou-se . Notou que
muitos o olhavam de lado, meio espantados, e que alguns
saíam rapidamente .
Quando o dono do bar avistou-o, seu rosto suado
contraiu-se como se algum órgão lhe doesse. Carlinho sorriu

125
com tristeza. Pobre Agenor! Com certeza estava se
lembrando dos prejuízos que já lhe dera.
Esperou que ele se aproximasse:
__Fica frio, Seu Agenor, eu só vim comer
alguma coisa . E eu vou pagar!
O comerciante quase deixa a bandeja que
segurava ir ao chão. Era uma das coisas mais incríveis que
já ouvira! Carlinho pagando uma conta!
Disfarçou a incredulidade da melhor forma que
pôde, não valia a pena contrariá-lo:
__Está bem. Vá até o balcão e pegue o que
quiser. __Suspirou, conformado __Eu estou muito ocupado
aqui.
__Valeu...o mané não tá mais trabalhando aqui?
__O Ângelo? Não...arrumou outro emprego!
Agenor deixou Carlinho e continuou atendendo
os outros pedidos. Estava esgotado! Desde que Ângelo saíra
ainda não havia conseguido um ajudante, apesar da tabuleta
pendurada na porta há quatro dias. Ninguém queria mais
trabalhar!
Virou-se para Carlinho. Ele tinha ido até o
balcão e voltava com uma cerveja e um prato de salgados.
Pensava que tinha ficado livre dele, mas pelo visto nada
havia mudado.
Quando, bem mais tarde, o movimento resumiu-
se a um freguês dormindo sobre uma mesa e Carlinho, que
inacreditavelmente tinha parado na primeira cerveja, Agenor
desabou numa cadeira, abanando-se com a bandeja,
finalmente vazia.
Carlinho foi sentar-se a seu lado. Tirou do bolso
algumas moedas e pôs sobre a mesa.
__Parece que vou ficar devendo de novo, Seu
Agenor.
__Deixa disso! Você nunca pagou mesmo!
__É ...mas agora eu quero que seja diferente!
126
__Que bicho te mordeu? Some e agora
volta querendo pagar conta . Daqui a pouco vai querer
trabalhar também!
__Se o senhor me aceitar como ajudante...
Carlinho foi obrigado a sorrir diante dos olhos
esbugalhados do dono do bar , e teve de abaixar-se em
seguida para recolher a bandeja.

__E então ,Maltus, já reconhece sua derrota? De


que adiantou iludir-me? Mil anos são como um só dia !
Maltus tentava ignorar a presença do anjo , até
onde era possível. Estava ocupado com o preparo de uma
poção quando ele chegou e continuou preparando-a,
enquanto ele falava , cercando seus movimentos como a
hiena ansiosa por despedaçar a presa.
__Estou quase a roubar-lhe sua última tábua de
salvação!
Seus olhos acesos pelo antigo ódio irredimível
estavam sobre o mago insistentemente. Maltus fitou-o por
um momento: através deles podia ver seu destino. Por
quanto tempo mais poderia evitá-lo?
__Prefere o silêncio? Na sua situação é o mais
recomendável!
__Você já disse o que queria. Por que não deixa
que eu fique em paz o tempo que me resta?
__Finalmente aceitou o inevitável?

127
__Se isso servir para apressar sua ida, reconheço
que está conduzindo bem a vontade do rapaz. Você não
seria quem é se não conseguisse isso.
O outro sorriu ,desdenhoso:
__Isso! Tente amenizar a situação! Enquanto
pode!
Dito isso, ele retirou-se, não mais como espírito,
mas caminhando com seus pés mortais e gargalhando com
sua voz emprestada.
Quando ele se foi, Maltus deixou de lado a
fórmula e sentou-se em sua cadeira. Com as mãos
entrelaçadas ,apoiadas na testa como em oração , o mago
procurou o contato de seus aliados no mundo espiritual, em
busca de conselho e apoio.
Eles vieram até ele ,sussurraram palavras de
esperança e conforto. Maltus ouviu , agradeceu –lhes por
todo o tempo que o auxiliaram e então, despediu-se deles.
Suas palavras eram como a chuva fina em meio a um
incêndio: uma esperança, mas não a solução. Era sua última
batalha e o último lance seria seu.
Caminhou até a janela e contemplou longamente
as estrelas . Lembrou-se de sua aldeia e de como desejava
naquela época estar lá no alto, entre as constelações.
Fechou os olhos, inconsolável: assim tudo havia
começado!

128
CAPÍTULO XV

V
ocê por aqui ,Hans?
__Vim buscar você.
Era sábado e Ângelo estava saindo de
casa para ver Maltus. Ficou surpreso quando viu o carro de
Hans parado próximo a seu portão, e mais ainda ao vê-lo
conversando animadamente com sua mãe.
__Você nunca me disse que tinha uma mãe tão
jovem!
D. Alzira sorriu:
__O senhor tem certeza de que não quer entrar e
tomar um café ?
__Se o convite ainda estiver de pé da próxima
vez que eu voltar aqui, prometo que não vou recusar, mas
agora __virou-se para Ângelo__ por que não tenta
convencer seu filho de que uma festa na minha casa é mais
saudável do que encontrar-se com um velho louco?
__Hans , eu preciso...
__Meu filho, seu patrão veio até aqui só para
convidar você. Por que não conversa com esse seu ...amigo
outro dia?
O rapaz olhou atentamente para a mãe. Ela já
estava completamente fascinada pelo homem a sua frente e
nunca o tinha visto antes. Hans tinha esse poder. Parecia
saber falar todas as linguagens . Já o vira conversar com
porteiros, frentistas, ambulantes , banqueiros e empresários,
velhos ou jovens ,homens e mulheres e com todos a
identificação era imediata.
Ficou ali, indeciso. Então suspirou, não podia
com os dois juntos:
__Tá legal, tá legal! Mas eu não posso demorar!
__Trago você de volta a hora que pedir.
Ambos despediram-se de [Link] e entraram no
carro. Quando eles saíram a mulher fez uma prece silenciosa

129
a Deus por ter posto no caminho do filho aquele anjo que
em tão pouco tempo tinha mudado suas vidas para melhor.
Era verdade que o filho havia mudado: não tinha
mais aquele jeito de menino de que ela tanto gostava , não o
flagrava cantarolando pela casa como antes ,mas com
certeza, isso se devia ao fato de ele agora ter um emprego
sério , que exigia muita responsabilidade. E devia tudo
àquele homem, que ali aparecera por acaso.
Um feliz acaso mandado por Deus!

Se antes Ângelo atraía a freguesia ao Bar do


Agenor com seu jeito despachado, Carlinho era agora a
nova atração.
Ninguém acreditou quando o terror da rua
apareceu servindo bandejas, dois dias depois de convencer o
dono do bar de que “não estava tirando um sarro” ao pedir-
lhe o emprego de Ângelo.
A notícia correu de boca em boca , com a
velocidade dos grandes escândalos. Todos a uma só vez
queriam comprovar a veracidade do que ouviram e
estancavam ,incrédulos , na porta do bar como se ali
estivesse exposta alguma aberração.
Durante alguns dias as mesas permaneceram
todas ocupadas e do lado de fora ,em pequenos grupos ,
especulava-se exaustivamente sobre o motivo de tão
assombrosa mudança.
Carlinho, ciente do que significava estar ali,
naquele papel, escondia-se sob uma máscara de total
indiferença. Ouvia os comentários, os risos, as perguntas e
buscava dentro de si um refúgio. Nem sempre funcionava.
Se não desistira foi somente porque precisava
agarrar-se a algo para não afundar no vazio em que se

130
tornara sua vida . Em algum ponto o que ele havia
sido se perdera e ele não sabia dizer quando exatamente isso
havia acontecido. Sabia apenas que não tinha como voltar .
Dentro dele verdades acenderam-se subitamente
e eram elas que o empurravam para frente, apesar do
interesse cruel de todo bairro.
Naqueles dias de provação, a única pessoa que
lhe vinha insistentemente à cabeça era Maltus. Não entendia
como uma pessoa a quem já havia odiado tanto , pudesse
agora ser a única em quem confiava realmente. Sua voz
tinha o dom de fazê-lo despertar. Queria ouvir algo que não
o deixasse voltar atrás, que o animasse no novo caminho.
Os dias passaram-se . Enquanto Ângelo
adaptava-se cada vez melhor na agência, onde tudo e todos
pareciam estar a seu favor, Carlinho, com dificuldade,
avançava tateante, refazendo seu caminho dia a dia,
recalcando velhos impulsos a cada olhar ,a cada provocação.
Era já tarde da noite quando Ângelo retornava de
mais uma das festas do novo patrão. Apesar da exaustão,
resolveu que aquela seria a noite em que teria uma conversa
definitiva com Maltus, pois já a havia adiado muitas vezes,
temendo magoar o amigo e também porque ultimamente,
entre trabalho e festas , não lhe sobrava muito tempo.
Começou a escalada com um suspiro cansado,
quando esbarrou em alguém.
__Vive esbarrando nos outros, hein, cara!
Ângelo assustou-se . Apesar da pouca luz ,
reconhecera o dono da voz. O que Carlinho estaria querendo
àquela hora no casarão?
__Você também está indo falar com Maltus ? __
perguntou ele.
__Ia __disse Carlinho __ Mas é melhor deixar
para amanhã.
E de fato ia voltar , mas o outro rapaz pôs-lhe a
mão no ombro:

131
__Na verdade eu quase não me agüento nas
pernas...Vai você.
__Você que sabe.
__É verdade que você está trabalhando lá no
bar?
Ângelo ouvira os comentários mas não
conseguia acreditar . Aproveitou então a chance de saber
diretamente de Carlinho.
__É...Virei o palhaço da rua! __respondeu o
outro __Todos os babacas ficam lá o dia todo só pra olhar
pra minha cara!
__Deve ser difícil...
__É um pé no saco ,isso sim!
__Mas , o que aconteceu para você mudar tanto?
Carlinho balançou a cabeça , num gesto de
enfado:
__Eu sabia que você ia me perguntar isso! Todo
mundo me pergunta a mesma coisa! Até minha mãe foi lá
no bar só pra me encher a paciência!
__É que você...
__Eu sei, eu sei! se alguém me dissesse, um
tempo atrás que eu ia servir bandeja naquele bar eu morria
de tanto rir! Ou então matava! Mas aconteceu muita coisa
aqui dentro __e apontou para a cabeça__ As pessoas
mudam, sabia?
__É, eu sei.
__Ambos calaram-se sem saber como reatar a
conversa. Foi Carlinho quem reencontrou o fio:
__E você? Mudou de emprego, né?
__É, eu dei sorte.
Calaram-se novamente. Carlinho procurava a
palavra para iniciar a frase que lhe estava presa na garganta.
__Olha... Esquece aquelas bobeiras que eu
aprontei. Eu levei tanto na cabeça, que o parafuso solto
acabou encaixando.
132
__Deixa pra lá ! Ninguém nasce sabendo.
__Então, eu tô indo. Você acha que o cara lá
ainda tá acordado?
__O Maltus? Aquele ali nunca dorme!
__Té mais ,então!
__Até mais! Te cuida!
Ângelo ficou observando o outro afastar-se
morro acima. Não acreditava que aquele com quem estivera
conversando fosse mesmo Carlinho. Que mudança! O que
teria acontecido desde a última vez que se viram? Seria
Maltus o responsável por aquela transformação ou Carlinho
teve uma experiência tão traumática que o arrancara da
marginalidade?
De qualquer forma, era bom saber que pelo
menos algumas pessoas conseguiam mudar o destino.

133
CAPÍTULO XVI

E
lleta acompanhava de perto a crescente
desolação do mago . Sabia que seu
destino estava nas mãos do jovem
aprendiz e esse praticamente o abandonara. Sabia também
que no dia em que Ângelo ,formalmente, se desligasse de
Maltus não haveria mais salvação para ambos.
Maltus havia escapado por pouco aquela noite!
Elleta observou Carlinho subir até o casarão, impedindo,
inconscientemente, que Ângelo dissesse ao mestre que não
mais desejava ser seu aprendiz.
Ela via o rapaz sucumbir aos poucos, cheia de
tristeza. Ele perdera a crença na magia , acompanhava Hans
em suas transgressões morais disfarçadas em liberalidade. Já
vira o mesmo acontecer com os dois outros aprendizes de
Maltus, mas não se envolvera. Entretanto, sem saber por que
, agora era diferente. Mesmo sabendo das conseqüências, do
que significava para ela intervir em qualquer questão, já
havia decidido: abriria os olhos do jovem aprendiz, tiraria a
máscara de Hans.
E aceitaria toda a agonia que viria depois!

134
__Sei lá, meu filho! Já estou tão
acostumada aqui! Além do mais , quem garante que vamos
poder pagar essas prestações?
__Claro que vamos, mãe! O Hans liberou um
adiantamento do salário.
__Não sei...
__Quando a senhora vir o apartamento, vai
mudar de idéia rapidinho!
Alzira calou-se por um momento, refletindo.
__Mas ainda acho que estamos querendo dar um
passo maior que a perna !
Dito isso, ela viu o filho mudar de semblante.
Agora era quase sempre assim. Seu antigo bom-humor , sua
leveza de espírito haviam desaparecido. Abandonara a
escola e quase sempre chegava em casa cheirando a bebida.
Agora, Ângelo havia decidido que deviam
mudar-se . O patrão havia conseguido para eles um
apartamento num condomínio no centro da cidade. Claro,
ela sempre havia sonhado em viver num lugar assim, mas
achava que tudo estava acontecendo rápido demais para que
pudesse acompanhar.
Quando soube que o filho visitava o homem do
casarão, ficara apavorada. Agradecera, então , a todos os
santos do céu por que havia aparecido alguém como Hans
para livrar o filho daquela má influência. Agora...
Começava a achar excessiva a total confiança
que o filho depositava no patrão. Tudo que ele dizia era
aceito sem pensar . Uma vez ela havia dito isso a ele e vira-o
ficar subitamente aborrecido.
Exatamente como agora:
__Eu não entendo a senhora ! Quer morar aqui o
resto da vida? Se a gente perder essa oportunidade , nunca
vamos ter outra! Pelo menos, não tão cedo.
O rapaz viu a mãe concordar em silêncio e sair
da sala, meio triste. Ele concordava, apesar de não lhe dizer

135
, que os acontecimentos o estavam atropelando, mas não
havia como evitar.
O condomínio pertencia a um amigo de Hans e
tinha apenas um apartamento ainda vago. Mas não ficaria
assim por muito tempo. Graças ao patrão, tinha assegurado
um empréstimo e um desconto nas prestações, coisas que ele
dificilmente conseguiria sozinho.
Na verdade, a rua onde morava , aquela casa, as
pessoas dali, já lhe causavam constrangimentos. Não
poderia convidar nenhum dos novos amigos para fazer-lhe
uma visita .
E era como Hans mesmo já o havia prevenido:
quem muito pensa deixa passar as oportunidades.
Mas não era apenas isso. Havia Maltus. Não
tinha como ignorar sua presença se continuasse a morar ali
tão próximo. O outro praticamente não saía , não se
manifestava, mas Ângelo sentia uma espécie de cobrança
que o esmagava , como uma dívida não paga . Ainda o
considerava muito, apesar de não mais levar a sério todas as
bobagens em que ele o fizera acreditar . Sorriu ao lembrar-
se de sua ingenuidade , em como chegara mesmo a se auto-
sugestionar, criando para si terrores e perigos inexistentes .
Ainda assim , não achava certo abandoná-lo sem
explicações afinal, mesmo sendo possivelmente louco, o
pretenso mago o salvara diversas vezes , ensinando-lhe
muitas coisas. Se hoje sabia técnicas de memorização,
disciplina, apresentar-se e falar com segurança e até mesmo
muita coisa em latim e grego__ que impressionava, apesar
de não usar esse tipo de conhecimento regularmente__
devia a ele ,Maltus, ao tempo de aprendizado no casarão.
Sim, não tinha dúvidas de que queria outra vida,
outra vizinhança e outro mestre, mas devia dizer-lhe isso
frente a frente, com lealdade.

136
De manhã bem cedo, mesmo que o céu
caísse, subiria pela última vez até o velho casarão, para
despedir-se do amigo.

Já era quase hora de fechar o bar. Agenor


recolhia as cadeiras e mesas da calçada , quando viu parar
um carro e dele descer alguém conhecido. Viu o homem
caminhar até ele , sorridente, e cumprimentá-lo. Fazia um
bom tempo que não se viam.
__Paulo! __disse Agenor apertando a mão que o
outro lhe estendia.
__Há quanto tempo ,hein! O Carlinho está aí?
__Está, sim.
__Eu nem acreditei quando me disseram que ele
estava trabalhando aqui!
__Eu também precisei de um tempo para me
acostumar...e todo mundo daqui!
__Então será que dá para liberar seu funcionário
um minuto?
__O horário de serviço dele já acabou. Mas ,por
que você não entra ? É melhor conversarem lá dentro.
__Boa idéia!
Entraram. Carlinho limpava o balcão,
aparentemente distraído, mas já ouvira a voz do pai e o
esperava entrar.
__Carlinho __disse Agenor __Seu pai está aqui.
Carlinho virou-se:
__E aí, cara? Tava sumido...
__Não me diga que ficou com saudade.
__Talvez.
Paulo não esperava por uma resposta tão
receptiva, mas ainda não sabia o que esperar do filho.

137
O rapaz continuou:
__Queria ver se era verdade que eu estava
trabalhando?
__Também.
Paulo já o tinha ido procurar em casa antes, mas
só encontrou a ex-mulher. Foi por ela que ficou sabendo o
que nunca poderia imaginar : Carlinho trabalhava agora no
Bar do Agenor e era segundo a mulher, o novo espanto da
rua. Foi então que decidiu conferir pessoalmente a
informação, e ali estava o filho !
Ele não perdera o jeito arrogante, mas era só
isso, uma impressão, um estilo, talvez. A antiga ferocidade
que primeiro vira em seus olhos tinha-se apagado.
Observou-o enquanto terminava de recolher
algumas garrafas sobre as mesas.
__Onde você está morando? Sua mãe disse que
você não voltou para casa.
__Seu Agenor me deixou ficar aqui até eu
arrumar outro lugar.
__Devia ter me procurado.
__Eu sempre me arranjei bem sozinho. Desde
cedo.
Paulo sabia onde a conversa iria chegar . Por
isso, ignorou a observação do filho.
__ Mesmo assim ,você vai ter que vir comigo.
__Por quê ?
__Você não voltou a Ter notícias de seus
colegas?
__Não. Tomara que tenham se ferrado!
__Foi exatamente o que aconteceu.
__O quê?
__Eu andei investigando. Queria pegá-los
primeiro, antes que você procurasse encrenca.
__E você encontrou os safados?

138
__Só o que sobrou deles. Parece que vocês,
quando trabalhavam juntos, nem sempre repassavam todo o
dinheiro aos chefões. Acertei?
__Mixaria . E já faz tempo!
__Quem mandou matar os três parece que não
liga pra isso! E adivinha quem vai ser o próximo?
__Eu nunca achei que ia ficar pra semente.
__Então você vai ficar aqui esperando eles
virem te pegar? Já pensou que vai acabar sobrando pro
Agenor também?
Carlinho refletiu por alguns segundos. O pai
estava certo, não podia deixar que Seu Agenor pagasse pelos
seus erros.
Paulo aproveitou a hesitação do rapaz:
__Você pode ficar comigo só até as coisas
esfriarem. Depois, se ainda quiser voltar, você já mostrou
que é bastante homem para decidir sua vida.
__Tudo bem__ disse enfim, Carlinho __ Mas só
até eu encontrar outro lugar.
O policial não deixou que o filho visse sua
satisfação:
__Então eu vou conversar com seu patrão e
explicar tudo.
Carlinho aguardou até que ambos retornassem
da cozinha . Dez minutos depois estavam de volta. Paulo
despediu-se de Agenor e disse ao filho que o esperaria no
carro.
O rapaz disse ao patrão:
__Eu não queria sair assim, Seu Agenor . Sei
que vou deixar o senhor na mão. Mas se quiser, eu posso...
__De jeito nenhum! O seu pai me contou tudo.
Você está correndo risco de vida aqui. Alem do mais, você
não precisa morar de favor tendo um pai tão gente boa como
o Paulo! Vocês acabam se entendendo.
Carlinho estendeu-lhe a mão:

139
__Valeu por tudo ! Desculpa qualquer coisa...
__Besteira, rapaz! Vai! Teu pai está te
esperando.
Agenor viu-o arrumar as poucas coisas na
mochila e sair, despedindo-se dele mais uma vez com o
olhar agradecido.
Estava tudo muito bem , mas no meio de tudo
isso ele é que ficava no prejuízo. Perdia mais um ajudante e
teria que trabalhar em dobro mais uma vez!

140
CAPÍTULO XVII

H
á um bom tempo Ângelo não sonhava.
Especialmente aquele tipo de sonho.
Era uma mulher linda envolvida por
uma espécie de névoa. A voz era delicada e clara. Ele sentiu
imediatamente que seria um sonho diferente, como aqueles
que costumava Ter quando ainda era o aprendiz de Maltus.
Ela aproximou-se de sua cama e ele não pôde
mover-se, impressionado com o magnetismo de sua figura.
__Ângelo __disse ela __ eu vivi há muitos
séculos atrás, meu nome é Elleta. Para estar aqui hoje,
quebrei as leis que me garantem proteção contra espíritos
malignos.
__Mas, o que você quer?
__Abrir seus olhos. Você esqueceu as lições de
seu mestre rápido demais! Vendeu sua alma.
__Essa história de novo! Eu não acredito em
mais nada disso __ e Ângelo levantou-se, ficando bem
próximo à mulher__ Me deixa em paz!
__E no que você acredita agora? Que
empresários estrangeiros andam pelos subúrbios oferecendo
facilidades sem exigir nada em troca? Não acha que tudo
arranjou-se muito rápido?
O rapaz perturbou-se. Teve medo que ela
continuasse , que lhe mostrasse alguma horrível verdade
escondida:
__Chega, chega! Vai embora!
Ela continuou, ignorando a alteração do outro:

141
__Esqueceu-se de que Maltus tantas vezes o
preveniu para que ficasse alerta?
__Pára de falar no Maltus!
__Antes de condená-lo ao abismo, tente
lembrar-se da palavra!
Instantaneamente Ângelo retornou ao seu
primeiro pesadelo, reviveu o terror que sentira:
__Que palavra?
__Não finja que não se lembra! A palavra que
Hans disse-lhe no seu primeiro presságio.
__Não foi Hans que...
__Lembra-se dela?
__Não...
__Abyssus!
Ângelo sentiu um calafrio percorrer-lhe todo o
corpo. Era aquela a palavra que tentara em vão lembrar-se
durante tanto tempo. A palavra que achava que salvaria
Maltus!
__Abyssus...Abismo _ murmurou, desvendando
seu sentido em latim.
__Agora, você já sabe o que precisa para libertar
o mago...E a si próprio!
__Mas do que adianta essa palavra? Eu não vou
recomeçar com aquela loucura!
__É bem mais fácil se deixar levar, não é? Se
quiser assim mesmo saber a verdade, junte as peças!
__Do que você está falando? Será que não pode
falar sem enigmas, droga!
Mas ela nada mais disse . Lentamente seu corpo
desfez-se na névoa e ele foi arrastado de volta à realidade.
A voz da moça ainda doía-lhe na cabeça, nítida.
Levantou-se e olhou pela janela. Tudo ainda estava escuro.
Olhou o relógio: 5h30m. “Abyssus...” A palavra era-lhe
estranhamente familiar. Arrastou-se até o banheiro, com a
palavra repetindo-se impertinente dentro dele.
142
Lavou o rosto, olhou-se no espelho.
Precisava livrar-se de tudo aquilo de uma vez! Sair daquele
lugar. Não iria permitir que mais uma vez sonhos sem
sentido lhe tirassem a paz.
A palavra, contudo, não o deixava. Decidiu,
então, sair mais cedo aquele dia , para respirar um pouco,
deixar para trás a sensação opressiva do sonho , da imagem
daquela mulher.
Foi até o guarda roupa e retirou o paletó que
usava na agência: Tinha o nome dela gravado na altura do
peito , em letras negras : “Sussyba”.
Fixou os olhos no nome. Sempre o achara
engraçado, destoante. Perguntou uma vez a Hans , qual sua
origem, seu significado. Ele sorriu, com seu sempre ar de
mistério e disse-lhe que não significava coisa alguma . Era
apenas uma palavra que ouvira certa vez, já nem se
lembrava em que país . Uma palavra sonora, diferente, que
se destacava. Por isso a escolhera, gostava do ar de surpresa
que faziam quando ouviam o nome da agência , e depois
dificilmente esqueciam-se dela.
Ângelo sentou-se na cama, trêmulo. De uma só
vez ele percebeu o engodo, a lama onde afundava de bom
grado. Se não tivesse desprezado as lições de Maltus , já
teria percebido o óbvio, não se teria prestado ao papel de
isca.
Na sua cegueira, deixara-se enganar por um jogo
de letras invertidas, uma charada primária. Hans devia ter
rido muito, não precisou sequer usar sua melhor estratégia!
Lembrou-se de Maltus e uma dor profunda o
atravessou, sufocou-lhe os soluços na garganta.

Ângelo encontrou-o em sua sala, ocupado com a


contemplação deslumbrada do céu. Quando notou a

143
presença do rapaz, sobressaltou-se como se despertasse de
um sonho.
Sorriu então, amigavelmente:
__Chegou cedo, hoje! E então? Podemos fechar
negócio com meu amigo?
__Não.
Hans estranhou a frieza do rapaz. Uma idéia
faiscou-lhe na alma. Não! Não podia ser!
__Há algum problema? __perguntou, já intuindo
a resposta
__Isso é seu __respondeu o rapaz, estendendo-
lhe o cheque __ Estou me demitindo formalmente.
Hans aproximou-se de Ângelo. Este reconheceu
a mesma respiração quente, feroz, do gigante que lhe
atormentara os sonhos.
Olharam-se em silêncio por alguns instantes, até
que o anjo, com um meio sorriso, perguntou candidamente:
__Por que não fica? Mesmo assim?
Era uma última tentativa, mas dessa vez o rapaz
podia defender-se:
__Você perdeu “Hans”! Adeus.
Ele jogou o papel sobre a mesa e deu as costas
ao outro, sem mais palavras.
Já do lado de fora, ouviu seu grito e o estilhaçar
de vidros que o acompanhou. Não era só a frustração da
derrota, era também uma promessa de desforra.
Ângelo apressou os passos.

Elleta estava sobre as rochas de uma praia


deserta. Sentada, admirava a impetuosidade das ondas e, às
vezes, lançava uma pedra às águas para vê-la afundar.

144
Esperava. Sabia que ele a encontraria ali.
Por isso, quando sentiu sua presença, não se
moveu. Ouviu seus passos afundarem-se na areia,
lentamente. Não o olhou ,mas sabia exatamente que
expressão trazia no rosto, as palavras que lhe diria.
__Foi você ,mulher. Eu sei!
Elleta olhou-o. O sol fazia-lhe uma auréola
brilhante em torno da cabeça. Respondeu-lhe sem se
levantar, escondendo o medo que sentia:
__Sim, fui eu!
Ele ajoelhou-se a sua frente, contornando os
primeiros impulsos:
__Por quê?
__Cansei-me dessa inatividade. Eu queria
intervir novamente, sentir-me viva !
__Mesmo que por pouco tempo?
__Mesmo assim.
Ele, então, levantou-se bruscamente, já
repossuído pela cólera . Ela não fez nenhum gesto , deixou
que ele guiasse o desfecho.
__Não vou partir sem levar nada! __ disse ele
puxando-a do chão__ Se você me arrancou a vitória certa,
terá que recompensar-me à altura!
A um gesto seu, o espaço abriu-se e Elleta
contemplou sua nova morada. Não teve como reprimir um
grito de terror, um súbito estremecimento do corpo.
__O que foi querida? Não me diga que já se
arrependeu? __disse o anjo enquanto arrastava-a pela mão
até a passagem aberta.
E, quando ambos já iam atravessá-la, uma
presença clara, brilhante, saltou de uma das rochas e
interpôs-se entre eles e a garganta flamejante do abismo.
__Ela não poderá acompanhá-lo!
Elleta nunca estivera em sua presença antes, mas
sabia de quem se tratava pelo porte e pela autoridade da voz.

145
Viu o algoz soltar-lhe o pulso e encarar o outro anjo, com
rancor e uma tristeza que só ela percebia:
__Isso não é de sua conta, Miguel! Estou
fazendo justiça!
__Há muito, meu irmão ,que você perdeu a
capacidade para tanto! Elleta arriscou a própria alma para
salvar o mago e seu aprendiz. Está, por isso, justificada
diante do Eterno!
__Ela quebrou as regras que Ele mesmo
determinou. Isso a justifica?
__Uma regra pode ser quebrada, no momento
certo e de coração puro, com a plena consciência do que
significa transgredi-la. Assim, a mãe estabelece à criança
que engatinha os limites de sua liberdade, mas amplia-os à
medida que ela aprende a andar.
__Aforismo barato!
__Você tem melhores, admito! __sorriu Miguel
__Mas para justificar a mentira é preciso ser perito no jogo
de palavras. Já a verdade não carece de subterfúgios.
__Então assim termina! Devo me contentar em
ser enganado e voltar de mãos vazias! A justiça dos céus é
uma infâmia assombrosa!
Miguel tornou a sorrir. O outro nunca perdia a
chance de fazer seu teatro, onde sempre encenava o mesmo
papel: a grande vítima da insensatez divina!
__Nem lhe valeu a experiência? __perguntou o
arcanjo.
__A derrota não conta como experiência válida!
__respondeu Lúcifer.
Encarou o céu com arrogância e continuou:
__Mas, pelo menos, aviva-me a memória e
renova minha aversão!
E tendo dito isso procurou Elleta, com os olhos
acesos pelo furor :

146
__Parabéns, querida! Você saciou a carne e
o espírito, antes e depois da morte, e ainda conseguiu o céu!
Foi bem mais afortunada do que eu!
Depois, com uma mesura exagerada, de uma
zombaria explícita, despediu-se de Miguel:
__Adeus, irmão ! Diga a seu Deus que com
tanto refugo entulhando o céu, fico feliz que Ele não me
abra mais as portas!
O Príncipe dos arcanjos não respondeu e quando
o outro, altivo, ia partir, Elleta impediu-lhe a passagem,
pondo-se a sua frente. Então consultou com o olhar o
Guardião dos Portais Sagrados e tendo dele recebido o
consentimento, enlaçou o pescoço do Anjo Caído.
Ele não se opôs ao abraço, recebeu friamente o
beijo de despedida e não se comoveu com a lágrima que viu
descer em seu rosto de neve; tampouco aceitou as desculpas
que ela lhe sussurrou ao ouvido. Nunca aceitaria restos, não
fora criado para ficar com menos do que achava que lhe era
devido.
Mesmo que lhe fosse oferecido por uma criatura
que amava.

Depois de se desligar de Hans, Ângelo voltou


apressado para o bairro onde morava para falar
imediatamente com Maltus. Precisava pedir-lhe perdão e
contar-lhe o que fizera.
Subiu até o casarão de um fôlego só. Antes de
abrir a porta já podia ver o amigo sentado em sua cadeira ,
com um livro, ou a misturar ervas. Mas não foi o que
encontrou quando a luz do sol recém- despertado invadiu a
sala da velha casa.

147
Maltus, encolhido a um canto, parecia Ter mais
de cem anos! O corpo, antes vigoroso, murchava, como uma
planta seca.
Após o impacto, o rapaz correu para ele ,
procurou vida nos olhos encovados, embaciados por uma
capa branca. A pele estava profundamente sulcada e flácida,
tanto que nem o podia reconhecer.
Chamou por ele , em desespero, vendo naquele
acontecimento uma conseqüência de sua traição:
__Maltus! O que aconteceu com você? Você
está ouvindo? Fui eu o culpado, eu duvidei de você, esqueci
tudo o que me ensinou!
__Não, Ângelo__ sussurrou o mago, com um fio
de voz __ você fez sua parte...conseguiu...desmascará-lo...!
__Mas você...
__Eu não...podia...ficar com ... o que ...não ...
me pertence!
__Então você conseguiu sua alma de volta?
__Sim ...a Providência ...não me ... abandonou!
Adeus...!
Ângelo viu Maltus definhar lentamente , até que
nada mais restava de seu corpo além de pó.
Só então pudera compreender: tudo o que o
mantinha vivo era o contrato que tinha com o demônio.
Aquele acordo fora finalmente quebrado , com a ajuda de
alguém que nenhum dos dois conhecia, então ele não
poderia continuar naquele corpo que estivera usando por
séculos indevidamente.
Sentou-se em uma cadeira e olhou os objetos de
Maltus ,com uma tristeza profunda. Mal puderam conversar
novamente, para que ele ,Ângelo, tivesse a chance de
explicar-se como devia. Mas de alguma forma compreendeu
que , apesar de seu deslize, cumprira sua missão, pelo
simples fato de tê-la aceitado.

148
Observou mais atentamente a estante e viu
que ela se desfazia em pó, corroída por vermes invisíveis.
Continuou onde estava, hipnotizado, até que a imensa peça
de madeira sólida, com seus inúmeros livros , frascos,
mapas e tudo mais que nela se acomodava, era nada mais
que cinzas. O mesmo aconteceu à mesa , ao caldeirão e à
cadeira onde estava sentado.
Ele saiu porta a fora para observar a casa à
distância. Suas paredes ,uma a uma , esfacelaram-se, como
se fosse uma construção de areia.
Quando a destruição acabou, não restavam
escombros, vestígios, nada! Foi como se naquele lugar
nunca houvesse existido coisa alguma . Apenas uma grande
falha na grama provava que o velho casarão um dia estivera
ali.
Ângelo ainda se reteve lá por alguns minutos,
lembrando-se do mago, da primeira vez que o vira e de tudo
que com ele havia aprendido.
Então, quando com um suspiro de tristeza, ia
descer, descobriu junto ao tronco de uma das árvores que
sombreavam o casarão um pequeno baú. Abriu-o com
pressa , as mãos trêmulas . Lá dentro, alguns objetos
caprichosamente arrumados: um livro, um frasco escuro
fechado com uma rolha , o anel que Maltus usava e uma
folha em forma de pergaminho, com o nome do rapaz na fita
vermelha que a prendia. Ângelo arrancou a fita e leu aos
pulos a letra inconfundível:
“Meu caro Ângelo ,quando tiver entre suas mãos
este escrito com certeza já não mais estarei com você, mas
se a encontrou é porque tudo terminou bem, e você poderá,
se assim quiser, retomar nossas lições de alma limpa.
“Sei que não foi fácil abrir mão de sua juventude
, mesmo que por pouco tempo, para salvar a alma de alguém
que você conheceu há tão pouco tempo e por vias tão
tortuosas. Agradeço-lhe sinceramente por isso.

149
“Não desista da magia, ela está em seu sangue e
mesmo que você só se dê conta disso muito tempo mais
tarde, acabará por se render a ela. Tenha em mente que se
decidir seguir por esse caminho, seguirá sozinho, pois a
magia exige dedicação exclusiva .
“Deixei para você alguns objetos que o
auxiliarão, mas com o tempo você não precisará mais deles,
ou forjará outros, mais poderosos.
“Ângelo, lembre-se de que a missão de um mago
é estabelecer uma ponte entre os mundos , uma
comunicação constante com seres de outros planos para que
a humanidade evolua através do conhecimento e através
dele seja apressada sua redenção. Você será um elo, um
instrumento para que Deus equilibre as forças contrárias que
regem nosso planeta e, além dele, todo o universo.
“Não caia no erro , como já o havia prevenido,
de usar o que aprender para seu próprio uso ou glória
terrena, pois isso desvirtuará o saber conquistado e ele não
mais poderá ser usado para propósitos puros, e você
recomeçará do ponto de partida.
“Sei que tendo vencido essa primeira provação,
você terá uma dura escolha a fazer: criar raízes, estabelecer-
se ou voar, desprender-se. Será difícil e eu entenderei se
você capitular. Mas lembre-se de que tudo que você ousar o
deixará mais forte, e tudo que reprimir ,por medo, será
motivo de angústia na velhice.
“Nada mais tenho a dizer-lhe, exceto que onde
estiver agora meu espírito, junto a ele estará sua lembrança.
Dou-lhe minha benção, e junto a ela a de todos os espíritos
que me acompanharam nessa jornada.
“Maltus”

150
EPÍLOGO

U
m ano se havia passado.
Ângelo há seis meses, visitava magos,
cujos endereços, nomes e referências,
Maltus lhe havia deixado.
Encontrava-se agora numa pequena ilha da
Grécia, onde há dias procurava por um mago que
continuaria suas lições de magia.
Ele nunca imaginaria, após ler a carta que
Maltus lhe deixara , que chegaria tão longe.
Naquele dia, voltara para casa arrasado e tentou,
por dias, reprimir a angústia. Finalmente, aos poucos, foi
retomando a vida que largara quando conheceu Hans.
Voltou a trabalhar no Bar do Agenor, e ia tentando reajustar
–se aos costumes que já considerava ultrapassados para ele.
Não foi tarefa fácil, mas conseguira explicar-se
razoavelmente à mãe que ,para espanto seu, pareceu até feliz
em vê-lo longe da agência. Mas o que mais lhe doeu na
readaptação foi vê-la voltar a procurar emprego. No entanto,
ela decidiu que trabalharia em casa ,com aquilo que melhor
sabia fazer: cozinhar. Tendo isso decidido ,entrou de muita
boa vontade e cheia de disposição para o ramo de confeitar
bolos e doces para festas. Vendo a mãe tão conformada e até
feliz ,um pouco do peso que tinha na alma dissipou-se.
Reatou o namoro com Vilminha, mas descobriu
que não tinha o mesmo sabor de antes. Nada era igual__
nem poderia ser __ depois do que vivera. Não tinha mais as
ilusões de antes, nem a mesma fé na vida. Queria fazer o
que Maltus lhe aconselhara na carta ,ousar, estudar magia,
mas foi se deixando levar, quase sem perceber, pelo
conformismo. Ia se arrastando pelos dias , cumprindo

151
mecanicamente suas funções de empregado, namorado,
aluno e filho, relegando para o dia seguinte uma tomada de
decisão.
Até que ,inexplicavelmente, a vida fez uma
curva a seu favor e tudo pareceu se resolver como se uma
mão invisível guiasse os acontecimentos.
Sua mãe tinha mais tempo livre e a amizade com
Seu Agenor se fortaleceu. De amizade, passou a algo mais
sério, e um belo dia, mordendo-se para reprimir as risadas,
abriu a porta e encontrou Agenor vestido de terno e gravata,
com um buquê de flores murchas e uma caixinha preta na
mão.
Toda a rua compareceu ao casamento e ninguém
estava mais feliz do que Ângelo , porque sabia que a mãe
não estaria mais sozinha caso decidisse seguir seu rumo.
Alguns dias depois , Vilminha veio dizer-lhe que
queria “dar um tempo”, mas para surpresa da moça ,Ângelo
não se desfez em lágrimas.
Depois de desfeito mais esse laço que o prendia,
Ângelo foi para casa , agora só dele, e começou a remexer
nas coisas que o mago lhe deixara, pois até então não se
havia animado a tocar em nada. Abriu o frasco escuro
distraidamente, mas para seu espanto e alegria não era um
líquido o que o preenchia até a boca, mas um pó amarelado
e brilhante que ,na excitação da surpresa, quase espalhara
sobre a cama.
Uma semana antes de viajar atrás do
conhecimento que em vida Maltus tanto perseguira, ele
ainda teve notícias de Carlinho. Soube, pelo melhor repórter
da rua, seu agora padrasto, que Paulo largara a farda e abrira
um restaurante modesto, um sonho antigo. Carlinho o estava
ajudando, e não brigavam mais que o necessário. Segundo
Agenor, Vilminha e Carlinho voltaram a se encontrar algum
tempo depois, quando a moça e o novo namorado saíram
para jantar e escolheram justamente o restaurante do ex-
152
policial. A moça, com seu bom gênio de sempre,
reclamou da comida, da decoração , do atendimento e da
música, não se furtando a expressar sua opinião em alto e
bom som a um regenerado Carlinho__ mas não santo!
O resultado foi que o rapaz respondera-lhe da
mesma forma pouco gentil e ambos acabaram rolando no
chão do restaurante, separados com ajuda do segurança e do
namorado da moça__ que não escapou de alguns arranhões
e mordidas.
O incidente não foi o suficiente para manchar a
imagem do recém –aberto restaurante , e Paulo conseguiu
manter uma clientela fiel, mas o filho parecia-lhe outra vez
perdido __não para a marginalidade__ mas num romance
tumultuado onde havia beijos e palavras apaixonadas e
sobravam tapas e objetos que se espatifavam nas paredes.
Ângelo não ficou para saber o desfecho daquela
história de amor, mas tinha certeza de que ambos haviam
sido feitos um para o outro. Embora sentisse pena de
Carlinho__ Ele estava indo tão bem !
Após deixar sua terra e conhecer tantas outras ,
teve a certeza de que Maltus acertara a previsão: a magia era
seu destino, a escolha nunca poderia Ter sido outra.
Além do mais, tal qual Maltus, ele nunca estaria
só. Além dos inúmeros amigos que fizera em suas andanças,
havia os outros , os que já haviam partido, mas estavam
sempre por perto, animando-o com conselhos, desviando na
medida do possível as pedras de seu caminho__ ou ajudando
a contorná-las.
Entre eles, Elleta, e o próprio Maltus.

FIM

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