Capı́tulo 1
Introdução e Resultados Principais
As desigualdades de Sobolev desempenham um papel de grande importância na
teoria de Equações Diferenciais Parciais - EDP’s. Elas basicamente traduzem a imersão
de espaços de Sobolev em espaços de Lebesgue. Sua forma clássica foi introduzida pela
primeira vez pelo matemático Sobolev em 1936. Esta afirma que, dada uma função
f : Rn → R no espaço de Sobolev D1,p (Rn ) com n ≥ 3, existe uma constante Cn > 0
de forma que
kf kq ≤ Cn k∇f kp (1.1)
1
em que q
= p1 − n1 e k·kp e k·kq denotam as normas com respeito ao espaço de Lebesgue
Lp e Lq dadas. A saber, dado p ≥ 1, denotamos por Lp (Rn ), ou simplesmente Lp , o
espaço das funções p-integráveis munido da norma
Z 1/p
p
kukp = |u| dx
Rn
em relação à medida de Lebesgue em Rn . Para definir o espaço de Sobolev D1,p (Rn )
usamos a noção de derivada fraca. Dizemos que uma função u ∈ Lp (Rn ) possui a
i-ésima derivada fraca, se existe uma função mensurável vi de forma que, para toda
função teste φ ∈ C ∞ (Rn ) com suporte compacto tem-se que
Z Z
∂φ
u dx = − vi φdx.
Rn ∂xi Rn
Quando existe tal vi , ela está unicamente definida a menos de um conjunto de medida
∂u
nula. Assim, denotamos vi = ∂xi
. Não é difı́cil verificar que se u é derivável, a i-ésima
derivada fraca coincide com a i-ésima derivada convencional. Deste modo podemos
1
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO E RESULTADOS PRINCIPAIS 2
∂u ∂u
definir também ∇u = ∂xi
, . . . , ∂x n
no sentido fraco, desde que existam cada uma das
i-ésimas derivadas fracas. O espaço de Sobolev D1,p (Rn ) é, então, definido por
D1,p (Rn ) = {u ∈ Lq (Rn ); ∇u ∈ Lp (Rn )} ,
∂u
na qual 1
q
= 1
p
− n1 . Dizer que ∇u pertence a Lp é o mesmo que dizer ∂xi
∈ Lp para
i = 1, . . . , n.
No decorrer dos anos, outros matemáticos também trabalharam nesta desigual-
dade, em particular E. Gagliardo e L. Niremberg estabeleceram uma famı́lia de de-
sigualdades que é uma generalização da desigualdade de Sobolev conhecida como De-
sigualdade de Gagliardo-Niremberg-Sobolev que é usada no estudo de EDP’s elı́pticas.
Esta diz que, dados 1 < p < n, 1 ≤ s < ∞ e 0 ≤ θ ≤ 1, existe uma constante Cn > 0
tal que para toda u ∈ D1,p ∩ Ls ,
kukq ≤ kuks1−θ k∇ukθp ,
1 1 1
em que q
=θ p
− n
+ 1−θ
s
. É fácil ver que, para θ = 1 temos a própria desigualdade
de Sobolev. Ainda, um estudo de grande importância firmou-se no fato de poder-se
encontrar uma constante Cn que minimizasse a razão
kf kq
,
k∇f kp
isto é, encontrar a menor constante positiva tal que a desigualdade (1.1) ainda seja ver-
dadeira. Neste caso temos um problema equivalente ao de encontrar as funções para as
quais temos igualdade. Deste estudo surge a Desigualdade de Sobolev Ótima. Esta é
utilizadas em estimativas de nı́veis crı́ticos de alguns tipos de funcionais de energia. Pos-
teriormente, foi estabelecida também a desigualdade de Gagliardo-Niremberg-Sobolev
ótima motivado pelo problema de Yamabe.
Atualmente, tem sido objeto de estudo encontrar relações entre estas desigual-
dades e outras áreas da matemática, assim também como encontrar provas alternativas
para as desigualdades de Sobolev ótimas. Uma dessas demonstrações devidas a S.G.
Bobkov e M. Ledoux, encontrada em [?], parte da conhecida desigualdade de Brunn-
Minkowski e é esse o objeto de estudo central desta dissertação. Apresentaremos aqui
a prova encontrada por estes matemáticos, a partir de estudos atuais relacionando de-
sigualdades como a de Brunn-Minkowski, Prékopa-Leindler, Sobolev ótima, Sobolev
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO E RESULTADOS PRINCIPAIS 3
Logarı́tmica e ainda outras. É um fato conhecido, como podemos ver em [?], que a De-
sigualdade de Brunn-Minkowski implica diretamente na desigualdade isoperimétrica,
que por sua vez leva à desigualdade de Sobolev no caso particular em que p = 1. Esta,
por sua vez, implica na desigualdade de Sobolev para 1 < p < n. O que Bobkov e
Ledoux lograram fazer foi encontrar uma prova direta da desigualdade de Sobolev com
a constante ótima diretamente da desigualdade de Brunn-Minkowski. Note que, neste
caso, é usada um desigualdade que nasceu da Geometria Diferencial para se demonstrar
outra que compete à teoria de EDP’s.
Esta dissertação está dividida da seguinte maneira. No Capı́tulo 1 apresenta-
mos os espaços de Sobolev, bem como uma demonstração da Desigualdade de Sobolev
clássica. O Capı́tulo 2 é destinado à demonstração de dois resultados que serão im-
portantes no decorrer da demonstração principal. São estes a Desigualdade de Brunn-
Minkowski e a Equação de Hamilton-Jacobi. O Capı́tulo 3 é onde demonstramos o
resultado principal deste trabalho a partir das ferramentas mostradas no capı́tulo 2.
1.1 Espaços de Sobolev
De fato, u ∈ Lp , por definição, se kukp ≤ ∞. É claro que o espaço L1 (Rn ) é o
espaço das funções integráveis no sentido de Lebesgue.
Dada , dizemos que uma função u ∈ Lp (Rn ) possui a i-ésima derivada fraca,
se existe uma função mensurável vi de forma que, para toda função teste φ ∈ C ∞ (Rn )
com suporte compacto tem-se que
Z Z
∂φ
u dx = − vi φdx.
Rn ∂xi Rn
Definimos neste espaço a norma
n
X ∂u
kuk1,p = kukp + .
i=1
∂xi p
Em certas circunstâncias, como vemos em [?], esta norma é equivalente à k∇ukp . Com
a norma kuk1,p o espaço de Sobolev D1,p é um espaço de Banach. Uma propriedade
importante dos espaços de Sobolev vista em [?] também é o fato de que toda função
u ∈ D1,p pode ser aproximada por uma sequência de funções uk ∈ C ∞ , isto é, o espaço
das funções infinitamente diferenciáveis C ∞ é denso no espaço de Sobolev D1,p . Pelo
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO E RESULTADOS PRINCIPAIS 4
teorema de imersão de Sobolev, D1,p ֒→ Lq continuamente. Deste modo, existe uma
constante positiva C de moso que para toda u ∈ D1,p tem-se
kukq ≤ Ck∇ukp ,
que é justamente a desigualdade de Sobolev a qual demonstramos a seguir.
1.2 A Desigualdade de Gagliardo-Niremberg-Sobolev
Através da Desigualdade de Sobolev e da Desigualdade de Hölder os matemáticos
E. Gagliardo e L. Niremberg demonstraram independentemente a seguinte desigualdade
Teorema 1.1 (Desigualdade de Gagliardo-Niremberg-Sobolev) Sejam 1 ≤ p <
n, 1 ≤ s < ∞ e 0 ≤ θ ≤ 1. Existe uma constante positiva C, tal que, para todo
u ∈ D1,p (Rn ) ∩ Ls (Rn ),
kukq ≤ Ckuks1−θ k∇ukθp ,
1 1 1 1−θ
em que q
=θ p
− n
+ s
.
Esta desigualdade generaliza não só a desigualdade de Sobolev quando θ = 1, mas
também uma série de outras desigualdades.
1.3 Desigualdades Ótimas
Em certos tipos de problemas relacionados a EDP’s é necessário resolver algum
problema de minimização com o qual estão envolvidas desigualdades de Sobolev ótimas.
Nestes casos estamos interessados em encontrar funções extremais e assim determinar
as melhores constantes para estas desigualdades. De maneira mais precisa, considere E
e F dois espaços de Banach e seja T : E → F uma aplicação linear contı́nua. Sabemos
que existe uma constante positiva C tal que, para todo u ∈ E
kT ukF ≤ CkukE .
Digamos que C0 seja a mento constante que satisfaz a desigualdade acima para todo
u ∈ E. Perguntamo-nos então, se existe alguma função u ∈ E tal que kT ukF = C0 kukE
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO E RESULTADOS PRINCIPAIS 5
e desejamos saber qual é a forma da constante C0 . O problema de encontrar uma função
extremal é equivalente ao problema de minimização
C1−1 = inf{kukE ; u∈E e kT ukF = 1}.
De fato, se este ı́nfimo é atingido para alguma u1 ∈ E, com kT u1 kF = 1, então
kT u1 kF = C1 ku1 kE e assim, C0 = C1 . Reciprocamente, se alguma u1 ∈ E satisfaz
kT u1 kF = C0 ku1 k, então
C0−1 = inf{kukE ; u∈E e kT ukF = 1}.
e os problemas são equivalentes. No caso particular em que E = D1,p (Rn ) e F = Lq (Rn )
com 1 ≤ p < n, temos a desigualdade de Sobolev ótima
kukq ≤ C0 k∇ukp , ∀u ∈ D1,p .
Daı́, o problema de minimização associado é
Z Z
inf |∇u|p dx; u ∈ D1,p (Rn ) e q
|u| dx = 1 .
Se existir alguma u ∈ E extremal, podemos explicitar a constante C0 fazendo C0 =
kT ukE
kukF
. Os matemáticos T. Aubin e G. Talenti foram os primeiros a contribuiram neste
estudo provando independentemente o teorema seguinte.
np
Teorema 1.2 Sejam 1 ≤ p < n e q = n−p
. Então
1. Para todo u ∈ D1,p (Rn ),
kukq ≤ C(n, p)k∇ukp , (1.2)
na qual
n1
p−1 n
Γ 1 + Γ(n)
1 1 p−1 p
C(n, p) = π − 2 n− p 2
n−1 n
Γ p Γ 1+n− p n
R∞
em que a função gama Γ é definida por Γ(x) = 0
tx−1 e−t dt, para x > 0.
2. C(n, p) é a melhor constante em (1.2) e tem-se igualdade se, e somente se, u é
da forma
p
p−n
p
u(x) = a + b|x| p−1 ,
em que a e b são constantes positivas.
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO E RESULTADOS PRINCIPAIS 6
Neste trabalho, vamos encontrar diretamente da desigualdade de Brunn-Minkowski,
a desigualdade de Sobolev ótima, mostrando que as funções extremais são, de fato, da
forma apresentada acima e ainda apresentar uma outra forma explı́cita para a constante
C(n, p).