PROCESSO CIVIL II - 2017
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PROVA DE 3 PONTOS
DIREITO DE EXCEÇÃO
1. Direito de ação – É um direito de natureza bilateral, pois ao direito de ação
atribuído ao autor, corresponde um direito de idêntica dimensão atribuído ao réu.
Desse modo, não existe direito de ação sem que seja também contemplado o direito
de exceção. O direito de ação comporta também o direito de defesa à parte contrária.
DIREITO DE DIREITO DE
AÇÃO EXCEÇÃO
2. Conceito – Poder jurídico de que se acha investido o réu e que lhe possibilita opor-
se/resistir à ação ou à pretensão formulada pelo autor. Em outras palavras, é o direito
de resistir ao que a outra parte está dizendo.
3. Natureza jurídica – Dentro da relação jurídica processual, a exceção é um ônus
processual do réu, e não um direito como o próprio nome sugere. Isso significa que
caso o réu não exerça essa prerrogativa processual, ele se sujeita a uma série de
consequências desfavoráveis – ao contrário de um direito, que não possui essas
consequências caso não seja exercido.
Art. 341. Incumbe também ao réu manifestar-se precisamente sobre as alegações de
fato constantes da petição inicial, presumindo-se verdadeiras as não impugnadas,
salvo se:
I - não for admissível, a seu respeito, a confissão;
II - a petição inicial não estiver acompanhada de instrumento que a lei considerar da
substância do ato;
III - estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto.
4. Revelia – Ao não exercer a exceção, o réu é chamado de revel – nome que dá
origem ao substantivo revelia, cujo significado é ausência de resposta do réu. As
consequências desfavoráveis ao réu em decorrência da revelia são:
I. Presunção de veracidade dos fatos afirmados pelo autor – Caso o réu não conteste
o que foi dito a seu respeito, presumem-se verdadeiras as alegações do autor. Em
razão dessa presunção, não há necessidade de que haja provas em relação a esses
fatos – ou seja, o autor não precisa provar o que afirmou na petição inicial. Essa
presunção não é absoluta, ou seja, o juiz não está obrigado a julgar em favor do autor
porque o réu não se opôs, da mesma maneira não é obrigado a seguir o processo sem
produção de provas. Assim, caso o juiz possua razões para desconfiar de algo dito pelo
autor, pode designar a produção de provas e perícias. Em outras palavras, a ausência
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de resposta do réu não resulta na automática continuação do processo em favor do
autor.
II. Possibilidade de julgamento antecipado da Lide – Como visto na revelia, em regra,
na ausência de dúvida quanto à veracidade dos fatos, não é necessário que esse
processo passe pela fase de produção de provas (fase instrutória), sendo possível ser
encaminhado direto para a parte decisória.
III. Desnecessidade de intimá-lo dos atos processuais subsequentes – Em um
processo, todos os atos devem ser comunicados a ambas as partes – por meio da
intimação do advogado das mesmas. Porém, quando o réu é revel, já foi afirmado que
ele não possui interesse em participar, e por meio de sua inércia fica desnecessário
informá-lo quanto ao andamento do processo. Em outras palavras, em razão dessa
inércia inicial, está dispensada a intimação do réu de todos os atos processuais
subsequentes. Caso o réu revel volte a ter interesse no processo, não serão repetidos
atos jurídicos anteriores (são atos jurídicos perfeitos). Assim, caso retorne, ele assume
o processo no estado em que se encontra.
A revelia ocorre mesmo no caso de direitos indisponíveis, não sendo nunca um dever
da parte, porém, nesse caso, ela não produzirá o seu principal efeito – a produção de
veracidade do que foi dito pelo autor. Portanto, será necessária a produção de provas,
além de não ser possível o julgamento antecipado, pois não será permitido pular a fase
instrutória. A única consequência que permanece é a desnecessidade de informação.
Existem dois casos em que a defesa de fato precisará obrigatoriamente ser exercida:
réu preso – há dificuldade de designar um procurador para agir em seu nome, e assim
não há como contatar um advogado, sendo necessário que o juiz designe um defensor
a ele e réu citado por via ficta – citação por edital ou por hora fixa – somente nessas
situações jurídicas o ordenamento permite que seja presumida a ciência do réu,
porém, nada garante que realmente houve a sua ciência, é apenas uma ficção legal,
sendo obrigatória a defesa, sendo nomeado um procurador para fazer sua defesa – e
esse é chamado de curador especial.
Art. 344. Se o réu não contestar a ação, será considerado revel e presumir-se-ão
verdadeiras as alegações de fato formuladas pelo autor.
5. Curador especial – Procurador (advogado) nomeado pelo juiz para a defesa do réu
preso ou do réu citado por via ficta. O curador especial pode contestar por negativa
geral/genérica – ou seja, pode contestar tudo o que foi afirmado pelo autor – e assim
será afastada a veracidade presumida, tendo o autor que provar tudo o que foi dito na
petição inicial. Esse é o ônus da impugnação especificada, ônus esse que exige que o
procurador do réu impugne especificadamente todos os pontos afirmados pelo autor
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na petição inicial. Aquilo que não for especificadamente impugnado gerará presunção
de veracidade (mas esta não é absoluta, podendo ser contestada pelo juiz). Esse ônus
existe devido à condição desses réus, pois seus procuradores provavelmente não terão
contato com eles, e assim não há como saber o que ele diz ser verdade ou não das
acusações contra eles.
Art. 72. O juiz nomeará curador especial ao:
I - incapaz, se não tiver representante legal ou se os interesses deste colidirem com os
daquele, enquanto durar a incapacidade;
II - réu preso revel, bem como ao réu revel citado por edital ou com hora certa,
enquanto não for constituído advogado.
Parágrafo único. A curatela especial será exercida pela Defensoria Pública, nos termos
da lei.
6. Classificação das exceções – São armas que o réu pode usar em sua defesa. Todas
são alegadas na contestação:
6.1 Defesa de mérito – Defesa em que o réu impugna/ataca os fatos ou fundamentos
jurídicos da pretensão do autor, ou a própria relação jurídica em que o autor se
ampara para formular sua preensão.
a) Direta – Quando há negação dos fatos ou fundamentos jurídicos. O réu se limita a
negar ou resistir àqueles fatos/fundamentos jurídicos/relação jurídica, afirmados pelo
autor. O ônus da prova é do autor, pois o réu apenas negou o afirmado na petição
inicial. Caso o autor não exerça esse ônus processual, a consequência desfavorável a
ele será a improcedência da ação. Alegar um vício se enquadra aqui, pois ataca a
relação já existente.
b) Indireta – Quando o réu não impugna os fatos e/ou fundamentos jurídicos, porém
apresenta/alega outro fato que impede, modifica ou extingue a pretensão do autor.
Em outras palavras, o réu não infirma os fatos/fundamentos jurídicos sustentados pelo
autor – na verdade, ele concorda com os mesmos, mas apresenta outros fatos que
impedem, modificam ou extinguem o direito do autor. Como o réu não está
infirmando o que o autor está dizendo, este não precisa provar nada neste caso –
como está apresentando novos fatos, ele mesmo deverá comprovar esse novo fato (o
ônus da prova é do próprio réu). Caso o réu não prove, a decisão será pela procedência
da ação. Exemplos: o réu deve pagar algo ao autor, e após pagar o autor continua
cobrando – o réu não contesta que deve pagar, mas alega que já depositou na conta
do cônjuge do autor; afirmar que houve prescrição, dizer que não cumpriu algo pois o
autor também deixou de cumprir algo, dizer que já cumpriu a obrigação etc.
Obs: É possível que a defesa seja direta e indireta ao mesmo tempo.
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Consequência prática: Quando a defesa de mérito é direta, o autor que deve produzir
as provas, enquanto na indireta, quem deverá produzir as provas é o próprio réu –
caso não prove sua alegação, a ação será procedente em favor do autor.
Questão: A quem incumbe o ônus da prova? Se for defesa de mérito direta, ao
autor; se for indireta, ao réu artigo 373.
Direta Indireta
AUTOR
RÉU produz
produz as
as provas
provas
6.2 Defesa Processual – Aquela em que o réu não ataca a lide ou o mérito, e sim a
viabilidade da ação ou do processo. Aqui, o réu quer extinguir o processo sem discutir
o mérito, deseja procrastinar e para isso alega um vício processual. O alvo do réu são
as próprias condições ou requisitos de regularidade processual. Ex: o assessor do
presidente, ao ser pego com a mala de 500 mil reais, alegava que a prova era ilícita,
etc, ou seja, alegava vícios processuais – sem discutir o mérito – quer dizer, sem falar
sobre a mala, sobre seus atos. Em outras palavras, na defesa processual o réu come
pelas beiradas .
6.3 Exceção em sentido estrito x Objeção – É chamada de exceção em sentido estrito
a matéria de defesa que só pode ser alegada pela parte (pelo réu) – ex: exceção de
incompetência relativa. Já a objeção se refere às matérias de defesa que podem ser
reconhecidas de ofício pelo juiz – são as chamadas matérias de ordem pública.
Em regra, as defesas processuais são matérias de ordem pública, podendo ser
reconhecidas pelo juiz – ex: litispendência, coisa julgada etc – se o juiz perceber
alguma irregularidade no processo, pode de ofício reconhecer esta matéria, sem
esperar a alegação das partes. Há também matérias de mérito que podem ser
reconhecidas de ofício – ex: prescrição – a diferença aqui é que o juiz não pode fazer
esse reconhecimento sem antes ouvir o réu. O novo código veda as decisões
surpresas , além de a prescrição ser um direito disponível, ou seja, pode ser
renunciada.
6.4 Ritual ou procedimental – São assim chamadas aquelas matérias de defesa que
são deduzidas por meio de um procedimento autônomo/ em autos apartados, e ainda,
levam à suspensão do processo. É alegada em procedimento próprio, ou seja, não é
junto com a contestação. Após sua apresentação, o processo é suspenso. Ex: exceção
de suspeição ou impedimento do juiz – o processo é suspenso e o juiz deve se
manifestar – se o juiz concordar, o processo é encaminhado ao seu substituto, caso
não concorde, essa exceção é encaminhada ao Tribunal Superior – e o processo fica
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suspenso até ser resolvido esse incidente (questão prejudicial). Caso fique decidido
que ele realmente não era imparcial, nada ocorre – no máximo é afastado sem
prejuízo de remuneração. Existe o Conselho Nacional de Justiça, que seria o
responsável por penalizar o juiz, mas isso só ocorre em casos extremos. A análise de
suspeição é muito subjetiva – por exemplo, não há como definir precisamente o que é
ser amigo íntimo de alguém.
6.5 Dilatória x Peremptória – A exceção é chamada de dilatória quando o seu
acolhimento/deferimento produz apenas o efeito de retardar a prestação jurisdicional
– ou seja, irá procrastinar/dilatar o andamento do processo. Ex: quando o réu
apresenta uma exceção de incompetência – o processo é encaminhado para outro juiz
que seja competente, apenas gerando uma demora a mais, retardando o
procedimento. Já a exceção peremptória é aquela cujo acolhimento extingue o
processo – assim, em outras palavras, se sua matéria de exceção for aceita, extingue-
se o processo. Ex: alegar prescrição, coisa julgada, litispendência, prescrição,
decadência – se for realmente constatado isso, o procedimento é extinto.
PROCESSO
1. O que é? (Oskar Von Büllow) e 2. Processo x Procedimento – Processo é um dos
institutos fundamentais (ação, exceção, processo e jurisdição). Era conceituado como
uma sucessão (lógica e cronológica) de atos processuais que formavam os autos do
processo, iniciando com uma petição inicial e encerrando com o trânsito em julgado.
Externamente, o processo nada mais é que uma sucessão de atos para resolver aquele
conflito. Um processualista alemão, chamado Oskar Von Büllow, ao escrever a Teoria
das exceções processuais e dos pressupostos processuais afirmava que os
processualistas apenas enxergavam aquilo que o processo era externamente, ou seja,
apenas viam o processo como uma sequência de atos formais, sem vislumbrar aquilo
que o processo é na essência – analogia: ao frequentar diferentes eventos (formatura,
clube), uma pessoa muda o traje – porém não muda quem ela é, assim como o
processo – internamente, é sempre o mesmo: uma relação jurídica processual. Assim,
ainda que a forma ou sequência dos atos processuais sejam diferentes, em sua
essência é tratada a mesma coisa – a relação jurídica processual.
Em resumo, o processo é:
a) Externamente procedimento (sequência de atos processuais que dão vida ao
processo);
b) Internamente relação jurídica de direito processual (vínculo entre autor – Estado-
juiz – réu).
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Existem vários tipos de procedimento, ou seja, são várias as sequências ou tipos de
atos que podem ser praticados pelas partes, mas internamente sempre será a mesma
relação.
3. Procedimento comum – 5 fases:
1ª. Postulatória – Se inicia com a petição inicial do autor e se encerra com a resposta
do réu;
2ª. Saneadora – O juiz verifica a regularidade formal do processo – serão feitas
quaisquer alterações necessárias para que o processo continue. São fixados os pontos
controvertidos (pontos afirmados por uma parte e infirmados por outra – a
importância disso é que são esses pontos controvertidos que serão objeto da
produção de provas);
3ª. Instrutória – Fase onde há a produção de provas, com base nos pontos
controvertidos fixados na fase anterior;
4ª. Decisória – Fase onde é tomada a decisão judicial. Enquanto não houver trânsito
em julgado, não se encerra essa fase (os recursos estão inclusos aqui).
5ª. Cumprimento de Sentença – Fase onde é posta em prática a decisão judicial.
Para certas situações são exigidos procedimentos especiais (normalmente em virtude
do tempo) – ex: alimentos fixados em favor do feto; tutela antecipada. Os
procedimentos especiais são disciplinados para atender situações específicas do
direito material, onde a tutela desse direito seria prejudicada se fosse aplicado o
procedimento comum. As regras do procedimento comum são aplicadas
subsidiariamente aos outros processos
PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO – Normas que constituem os mandamentos/
fundamentos de determinada disciplina, além de justificarem a autonomia dessa
disciplina, passando a constituir as normas de onde derivam todas as outras normas.
Princípios gerais do processo são as normas fundamentais que dão origem ao Direito
Processual Civil.
1. Princípios informativos – São impropriamente denominados de princípios, pois seu
conteúdo é de um axioma – regra evidente, algo que não exige demonstração, não
possui conteúdo político-ideológico, além de não se referirem exclusivamente ao
Direito Processual, existem em qualquer âmbito da existência humana. São regras
empregadas diariamente em tudo que fazemos, não se referindo apenas ao Processo.
Não há positivação expressa desses princípios.
1.1 Lógico – De acordo com esse princípio, todos os atos praticados dentro do
processo devem observar uma pré-determinada ordem lógica. Não faria sentido, por
exemplo, que a resposta do réu fosse apresentada antes do autor exercer o direito de
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ação, assim como não faria sentido que a decisão do juiz fosse dada antes que o autor
formulasse suas pretensões, e nem que a produção de provas fosse feita após a
sentença. Isso não é exclusivo ao Processo Civil, em todas as áreas do Direito e da vida
deve haver uma ordem lógica dos atos.
1.2 Econômico – De acordo com esse princípio, os atos processuais devem ser
praticados na maneira menos onerosa possível e com melhores resultados possíveis.
Isso é chamado comumente de eficiência , ou seja, gerir algo com eficiência é
produzir mais resultados gastando menos. Assim como os outros princípios, não é
exclusivo ao Processo Civil – no dia a dia, em tudo o que as pessoas fazem querem
gastar menos tempo e menos recursos econômicos e atingir os melhores e maiores
resultados.
1.3 Jurídico – De acordo com esse princípio, os atos processuais devem ser praticados
de acordo com as normas jurídicas.
1.4 Político – Refere-se à jurisdição atingindo seu objetivo (promover a pacificação
social) com menor sacrifício possível aos direitos individuais do autor e do réu.
2. Direito Processual Constitucional – Princípios fundamentais – O novo código de
Processo Civil repetiu o conteúdo dos princípios fundamentais, o que é um grande e
desnecessário pleonasmo. Os princípios fundamentais podem estar previstos na
Constituição ou em normas infraconstitucionais. Direito Processual Constitucional é o
estudo nas normas processuais localizadas na Constituição. Aqui realmente se tratam
de princípios, são normas com conteúdo político-ideológico cuja interpretação muitas
vezes depende das condições pessoais daqueles que a interpretam. Justamente por
esse conteúdo político-ideológico que existem distintas conclusões acerca do tema.
Art. 5º - CF Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta
Constituição;
LIV - ninguém será privado da liberdade (processo penal) ou de seus bens (processo
civil) sem o devido processo legal;
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são
assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;
2.1 Devido Processo Legal (Due Process of Law) – Foi previsto pela primeira vez na
Magna Carta, sendo o primeiro documento da Common Law inglesa, que foi outorgada
pelos barões ao rei João Sem Terra. Esse princípio tinha por objetivo garantir regras
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mínimas para o Processo Penal. A Constituição expressamente refere-se à importância
do devido processo legal para o Processo Civil, ao citar os bens no texto legal.
Bastaria esse princípio para que todas as garantias processuais fossem asseguradas –
exemplo: não há devido processo legal se o processo demora 30 anos para resolver o
conflito, se o processo é sigiloso, se não há contraditório e ampla defesa, se não há
explicação do juiz acerca de sua decisão. Assim, todos os demais princípios são
garantidos por esse princípio geral. Esse princípio possui natureza normogenética ,
que é o potencial para que dele se extraiam outras normas.
Atualmente é dito que esse princípio possui uma dimensão formal e uma substancial.
Em sua dimensão formal, o devido processo legal possui como destinatário o Poder
Judiciário, no exercício da jurisdição (sua atividade típica) e o Poder Executivo (em sua
atividade típica, que é a administrativa) – assim, formalmente há um devido processo
quando todos os direitos e garantias processuais do autor e do réu foram observados
em determinado processo judicial ou administrativo. Já na dimensão substancial, o
devido processo legal volta-se ao Poder Legislativo, pois se refere ao conteúdo das
normas processuais, que não pode ofender a razoabilidade e a proporcionalidade. Essa
dimensão busca estabelecer um limite para a atuação do legislador.
Exemplo de norma que viola o devido processo legal: a exigência da Justiça do
Trabalho em cobrar R$10.000 para atingir o duplo grau de jurisdição (que é um direito
constitucional) e se quiser revista para o TST ou STF deve pagar mais R$20.000.
2.2 Isonomia – A Constituição exige que os administrados sejam tratados todos como
iguais. É a chamada igualdade formal. Já a igualdade material (ou substancial), exige
que haja um tratamento desigual entre aqueles que são desiguais, ou seja, entre
aqueles que se encontram em uma situação fática (de fato) diferente. No Direito Civil,
esse princípio exige que o Estado-Juiz (o juiz) trate as partes com simetria, que
dispense o mesmo tratamento ao autor e ao réu. Ambas as partes devem ter as
mesmas oportunidades no processo. Essa igualdade deve ser substancial – ou seja, há
casos onde deve haver tratamento desigual em virtude de uma situação material
distinta entre as partes. É por isso, por exemplo, que aquele que comprovar que não
pode recolher custas tem direito ao benefício da assistência judicial gratuita (justiça
gratuita) – assim, pode ser que uma das partes pague custas e a outra não. É por isso
também que a Fazenda Pública possui prazo em dobro. Outro caso de tratamento
desigual é a inversão do ônus da prova, onde o consumidor, por ser a parte
hipossuficiente da relação, não precisa provar o afirmado, e sim a outra parte.
2.3 Contraditório – É composto pelo binômio ciência + possibilidade de reação, assim,
é a ciência dos atos processuais praticados pela outra parte e pelo órgão jurisdicional e
a possibilidade de se manifestar/reagir sobre eles. Toda vez que o autor pratica algum
ato do processo, o réu tem direito de saber e se manifestar sobre, assim como quando
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o réu pratica algum ato o autor possui esse direito e também quando o juiz pratica
algum ato as outras partes possuem esse direito.
Existem várias situações processuais que ensejam a discussão acerca do princípio do
contraditório. A primeira é a possibilidade de concessão de liminar sem ouvir a outra
parte (liminares inaudita altera pars) – na prática o réu é citado sobre a petição inicial
e já recebe a decisão judicial, tendo que se entregar ou entregar um bem. Esses casos
são situações em que ou o bem jurídico disputado naquele processo estava em uma
situação de risco, não sendo possível aguardar o final do processo, ou que a ciência do
réu poderia comprometer o resultado útil do processo (ex: apreensão de um carro – se
o réu tiver ciência, vai ocultar o mesmo, e mesmo que a outra parte ganhe não vai
conseguir a posse daquilo). Assim, nesses casos existe o contraditório, porém em um
momento posterior – é o chamado contraditório postergado.
Prova emprestada: Possibilidade de se utilizar em um processo a prova que foi
produzida em outro. Exemplo: utilizar a perícia utilizada para constatar a
impossibilidade do empregado trabalhar, em razão de um acidente de trabalho (ação
contra a previdência social), em outra ação, como em uma indenização por danos
morais, materiais ou estéticos (contra o empregador). Isso viola o princípio do
contraditório, pois o réu é outro – não possui ciência da produção da prova e não teve
possibilidade de questionar essa prova (por meio de perguntas ao perito, impugnação
do laudo, pedido de perícia complementar, parecer de um outro perito etc). Assim, em
regra, a utilização de prova emprestada viola o princípio do contraditório se as partes
não forem as mesmas – se forem as mesmas é possível. Exemplo: A ajuíza ação contra
B pedindo dano moral (houve perícia), e posteriormente ajuíza outra ação também
contra B pedindo dano estético – não há óbice para a utilização da mesma perícia, pois
B já pode exercer o contraditório na primeira ação.
Há também o caso onde a prova da primeira ação foi indeferida, e assim mesmo que
as partes não sejam as mesmas é possível utilizar a mesma prova, pois o autor já
exerceu o contraditório. Em outras palavras, mesmo que as partes não sejam as
mesmas, será possível utilizar a prova do primeiro processo contra o próprio autor que
a produziu, pois o mesmo já exerceu o contraditório. Exemplo: A ajuíza ação contra a
previdência social, é feita a perícia e o processo é indeferido. Posteriormente A ajuíza
ação contra o empregador pleiteando danos morais – o empregador poderá utilizar a
perícia do processo anterior em seu favor – pois esta constatou que não houve o
prejuízo ao autor.
Art. 372 - NCPC O juiz poderá admitir a utilização de prova produzida em outro
processo, atribuindo-lhe o valor que considerar adequado, observado o contraditório.
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2.4 Publicidade dos atos processuais: A Constituição garante aos que são parte em
qualquer processo judicial a publicidade dos atos que são praticados no processo. De
maneira geral, todos os processos são públicos. A publicidade tem como fundamento
assegurar a transparência dos atos de um dos Poderes da República (Judiciário) e
possibilitar o controle pela opinião pública. A Constituição também possibilita que haja
restrição à publicidade: situações onde exista o interesse público recomendando o
segredo de justiça (ex: manter em sigilo para que seja assegurado o interesse coletivo,
como no caso das indenizações do show do Alok) ou quando o interesse privado do
autor e do réu recomendam que haja esse segredo (ex: principalmente direito de
família e direito digital – situações de guarda, pensão, divórcio, inventário, sigilo de
alguma postagem ofensiva, pois se fosse público atrairia muita atenção para aquilo).
São normalmente situações que envolvem a intimidade das pessoas, e assim se o
processo fosse público poderia causar constrangimento. Em relação às partes e seus
advogados não há sigilo/segredo de justiça.
Art. 5º - CF - LX A lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a
defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem;
Art. 93 – CF Lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal, disporá
sobre o Estatuto da Magistratura, observados os seguintes princípios:
IX – Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e
fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a
presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a
estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo
não prejudique o interesse público à informação;
2.5 Fundamentação das decisões judiciais: A constituição, de modo a possibilitar o
controle da decisão, especialmente pelas partes, exige que as decisões judiciais
tenham explicitadas suas razões. As razões de fato e de direito devem ser
expressamente discriminadas na sentença, por três razões: 1. Assegurar o cuidado na
formação da vontade decisória – como o juiz sabe que precisa fundamentar, tomará
mais cuidado ao tomar sua decisão; 2. Fornece transparência à decisão, pois se sabe o
motivo do juiz estar decidindo daquela maneira; 3. Possibilita o controle da decisão
pela parte – o que permite que a parte recorra; a exposição das razões permite que
seja feito o controle, e que a outra parte possa impugnar aquilo (se as razões não
forem jurídicas e se o juiz exceder a matéria do processo. O juiz deve se manter no
limite das pretensões formuladas pelo autor – sentença extra petita – ex: condenar por
assédio moral sem demonstrar os requisitos que comprovam esse assédio). Sem
fundamentação, a sentença é nula. No caso de fundamentação genérica, o NCPC
elenca várias hipóteses onde não será considerada fundamentada a sentença – o juiz
não contextualiza os argumentos da decisão com a situação de fato (art 489 §1º).
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Art. 489 - NCPC São elementos essenciais da sentença:
I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do
pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento
do processo;
II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito;
III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe
submeterem.
§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória,
sentença ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar
sua relação com a causa ou a questão decidida;
II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua
incidência no caso;
III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese,
infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus
fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta
àqueles fundamentos;
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela
parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a
superação do entendimento.
2.6 Princípio do acesso à justiça/ Inafastabilidade da jurisdição – Não se excluirá da
apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de lesão a direito. O Estado-juiz veda a
utilização da força pelo particular (vedação à autotutela), e por essa razão a Justiça
deve estar sempre à disposição da sociedade. Mesmo que não exista lei, a jurisdição
não poderá de eximir de julgar a lide – deve-se utilizar analogia, costumes etc. Nem
mesmo a fixação das condições da ação podem afastar a jurisdição – se não estiver
presente alguma das condições, deverá a mesma ser preenchida e assim acontecer o
julgamento do mérito (e não simplesmente deixar de julgar por faltar certa condição).
A prestação da jurisdição deve ser efetiva, adequada e tempestiva – é necessário que
tenha essas características para que os meios de tutela do interesse da parte possam
se adequar às situações específicas de conflito de interesses, ou às situações de
urgência.
2.7 Princípio do duplo grau de jurisdição – Garante aos jurisdicionados que seja
possível um reexame de fatos, argumentos ou provas. Problemas: 1. Esse princípio não
possui expressa previsão constitucional – é presumido pelo fato do Poder Judiciário ser
organizado em dois graus, o que permite implicitamente a revisão judicial; 2. O STJ e o
STF não fazem esse tipo de reexame – em regra os recursos interpostos a esses
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tribunais buscam preservar a integridade da lei federal ou da Constituição Federal, e
não recursos que buscam alterar a apreciação dos fatos e argumentos – discute-se se a
decisão do juiz viola as leis citadas; 3. Há casos em que os tribunais superiores atuam
no exercício de competência originária, e aí surge o problema quanto a quem irá
reanalisar a decisão, pois não há tribunal acima dos mesmos – ex: Mensalão – não
feriria esse princípio pois em um acórdão há 11 decisões diferentes, além de haver a
possibilidade de recurso; 4. Esse princípio possui previsibilidade no Pacto de San José
da Costa Rica.
2.8 Princípio da duração razoável do processo – artigo 5º inciso LXXVIII – CF. Não há
no ordenamento um prazo compreendido como razoável para a duração do processo.
No Código Eleitoral, por exemplo, o prazo é de um ano. No Processo Civil não há prazo
definido, mas existem critérios que permitem analisar subjetivamente a razoabilidade
– ex: não é razoável que um processo demore 20 anos ou que um recurso
extraordinário dure 10 anos para ser analisado. A prestação jurisdicional deve ocorrer
enquanto ainda for útil para resguardar o interesse da parte.
3. Princípios infraconstitucionais – São previstos no Código de Processo Civil ou em
outros diplomas que não sejam a Constituição.
3.1 Dispositivo – Traduz a ideia de que a função jurisdicional está à disposição das
partes – ou seja, a resolução de um conflito no Poder Judiciário não é uma obrigação
às partes, pois essa pode escolher outros meios de solução. Em outras palavras, o
Judiciário só atua mediante provocação.
a) Propositura da ação – Em relação à propositura da ação vige o princípio do
dispositivo – a jurisdição só atua mediante provocação.
b) Produção de provas – Quanto à iniciativa para produção de provas, é
responsabilidade do juiz tomar providências para que sua decisão corresponda com o
que de fato ocorreu – assim, mesmo que o ônus seja da parte, o juiz pode pedir a
produção de provas – e isso não viola a imparcialidade pois ele não sabe qual será o
resultado daquilo. Obs: a prova é produzida para o juiz, pois esse que deve ser
convencido. Conclusão: em relação à iniciativa da produção de provas, não se aplica o
princípio do dispositivo – o juiz não é inerte, podendo de ofício determinar a produção
de qualquer prova, em virtude da responsabilidade do Judiciário em tutelar a verdade
real e em razão do fato de que por não saber o resultado da prova não há qualquer
relação com a imparcialidade no caso. Aqui rege o princípio inquisitivo.
3.2 Princípio da persuasão racional – Disciplina a apreciação da prova pelo juiz.
Existem três sistemas que disciplinam o modo como o juiz pode apreciar as provas
produzidas no processo: a) Sistema da prova tarifada ou legal – o próprio
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ordenamento jurídico fixa valor às provas. No ordenamento jurídico brasileiro, o CPC
não valora as provas, apenas disciplina o procedimento – ou seja, não há hierarquia
entre os meios de prova. Artigo 406 – CPC – quando o instrumento público é da
substância do ato, se ele não ocorrer, não existirá o ato/negócio jurídico – não é
questão de valoração de prova, e sim de inobservância de elemento do ato/negócio.
b) Sistema do julgamento de acordo com a consciência – de acordo com esse sistema,
o juiz aprecia/valora livremente as provas de acordo com sua convicção/consciência,
não precisando justificar essa apreciação. – pode hierarquizá-las da maneira como
preferir; c) Livre convencimento motivado – o juiz é livre para apreciar, valorar e
hierarquizar os meios de prova, mas as razões de tal valoração devem ser
expressas/explicitadas/justificadas. Na prática, normalmente as provas são
convergentes, o que afasta do juiz a necessidade de explicar como apreciou as
mesmas.
3.3 Princípio da oralidade – Em seu significado originário se referia à forma dos atos
processuais. São três formas: a) Escrita; b) Oral; c) Mista. No nosso ordenamento
jurídico não existe a possibilidade de se praticar um ato processual exclusivamente de
forma oral – mesmo aqueles que por sua essência sejam exteriorizados oralmente
precisam ser documentados, e essa documentação é essencial à garantia de outros
direitos das partes. Nosso sistema é o misto – mesmo que a prova seja oral, é
necessário documentá-la. Esse princípio atualmente não se refere à forma do ato
processual, e sim à proximidade que o juiz deve ter da colheita da prova. Existem
quatro sub-princípios:
3.3.1 Princípio da imediatidade – Exige que o juiz colha a prova sem a utilização de
intermediários – deve ser pessoalmente/diretamente.
3.3.2 Princípio da identidade física do juiz – O juiz que colhe prova oral em audiência
está vinculado ao julgamento do processo. O que vincula o juiz ao julgamento não é a
audiência, e sim a colheita de prova oral. Caso isso não seja o mesmo juiz colhendo as
provas e julgando, o ato será nulo, devendo ser realizado novamente – entretanto, não
se decreta a nulidade se não houver prejuízo à parte que alegou nulidade. Exceção:
cartas precatórias.
3.3.3 Princípio da concentração – A audiência de instrução e julgamento é una e
concentrada – ou seja, é uma audiência só – e essa concentra todos os atos de colheita
de prova oral, debate dos representantes das partes e julgamentos. O propósito dessa
audiência é a visão panorâmica dos atos, tanto pelas partes quanto pelo juiz, e assim
possibilitar uma visão mais sistemática dos fatos. Depois da colheita de provas orais
teoricamente deveriam acontecer as alegações finais; porém, em regra isso nunca é
feito em audiência – o juiz costuma fixar prazos para que essas alegações sejam
apresentadas (por escrito), também chamadas de memoriais. Não se costuma fazer
isso devido à pauta diária do juiz, geralmente muito extensa.
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3.3.4 Princípio da irrecorribilidade das decisões interlocutórias – Não significa que
essas decisões interlocutórias são irrecorríveis, e sim que o recurso que delas é cabível
não suspende o andamento do processo – portanto, não afasta o processo do juiz, ele
continua próximo da colheita das provas. Decisões interlocutórias são as tomadas no
curso do processo e que não colocam fim ao processo (é a chamada sentença) – é
suscetível de causar prejuízo às partes, por este motivo sendo recorrível. Quando há
um risco grave de dano à parte, essas decisões podem ser atacadas imediatamente,
por meio de um recurso chamado agravo de instrumento (o processo não será
remetido ao tribunal e nem suspenso, não impedindo assim que o processo continue
com o juiz da primeira vara). Serão formados novos autos com petições do processo
original que está em 1º grau, e estas cópias formam esse instrumento que é
protocolado diretamente no tribunal. Quando o agravo de instrumento é físico, é
necessário informar ao juiz a interposição do mesmo; quando é digital, não há essa
necessidade. Quando as razões alegadas são acolhidas no agravo, o tribunal oficia o
juiz, mandando-o tomar providências para alterar ou reformar sua decisão. Art 994, II
e 1015 NCPC. Obs: no JEC existe ao final do processo o recurso inonimado, interposto
para o próprio juiz.
3.4 Princípio do impulso oficial – Embora a jurisdição seja inerte (como prevê o
princípio do dispositivo), uma vez provocada, todos os atos subsequentes são
praticadas por impulso oficial, ou seja, são os próprios atos que impulsionam o
processo para frente – ou seja, a jurisdição passa a realizar os atos de ofício, o próprio
Judiciário automaticamente impulsiona a marcha processual.
3.5 Princípio da lealdade processual – Exige que as partes atuem sempre de boa fé, e
com espírito de cooperação. A conduta daquele que age de má-fé sujeita a parte a
pagamento de multa para a outra parte e eventualmente pode sujeitá-la à condenação
de multa em favor do Poder Judiciário, quando se verifica um ato atentatório à
dignidade da justiça, ou seja, há atos que a parte pratica com intenção de prejudicar a
outra parte e há atos que pratica com o intuito de enganar o Poder Judiciário. Ex: art
77 – CPC.
3.6 Princípio da congruência, adstrição ou correlação entre o pedido e a sentença – A
jurisdição apenas atua nos limites em que foi provocada. O juiz apenas sentencia
aquilo que a parte pediu. Se a decisão judicial não estiver de acordo com o que a parte
pediu, ela será nula, por um dos três vícios a seguir:
a) decisão extra petita – o juiz aprecia uma pretensão que não foi requerida pela parte;
b) decisão infra petita – decisão em que o juiz deixa de analisar ou se manifestar sobre
a pretensão do autor (não é uma decisão onde o juiz não concedeu o que o autor
pediu, e sim não analisou o que foi pedido). Por meio de um recurso chamado
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embargo de declaração, é possível informar ao juiz que ele esqueceu de apreciar uma
pretensão do autor;
c) decisão ultra petita – é aquela em que o juiz aprecia a pretensão mas com uma
intensidade distinta daquela solicitada pela parte – essa decisão é nula.
PROVA DE 7 PONTOS
JURISDIÇÃO
Conceito e contexto histórico – A expressão jurisdição decorre do latim iuris dictio,
que significa dizer o direito / dicção do direito . Esse conceito foi dado por Francesco
Carnelluti. Francesco defendia que inicialmente o que diferenciava a função
jurisdicional da legislativa e da executiva era a característica de dizer o direito – o
problema era que essa característica também podia ser observada nos outros
poderes/funções.
Outro autor, chamado Enrico Allorio, passou a conceituar a função jurisdicional em
razão da definitividade, que decorre da coisa julgada – e assim, esse seria o diferencial
desse poder – porém, novamente surge um problema, pois também há atos dos outros
poderes que são definitivos – ex: impeachment. Ao lado da coisa julgada, a
Constituição Federal coloca o ato jurídico perfeito – (executivo) – que é o ato que não
pode ser mudado após ser decidido, ainda que haja alteração posterior; e o direito
adquirido – (legislativo) – no qual após conceder um direito não há mais como retirá-
lo.
A conclusão acerca do que é Jurisdição vem de Giuseppe Chiovenda, que defende que
o diferencial da função jurisdicional seria a substitutividade (em caráter definitivo)– ou
seja, o Poder Judiciário é o único que permite que o Estado substitua a vontade das
partes, e confere a essa substitutividade um caráter definitivo. Embora o Poder
Legislativo também substitua a vontade das partes ao criar as leis, essa substituição
não é definitiva, porque é possível ir ao Judiciário questionar esse ato (p. exemplo: é
possível questionar multas de trânsito).
Características da jurisdição
1. Lide – A expressão lide abrevia um conceito: conflito de interesses qualificado por
uma pretensão resistida ou insatisfeita. A existência da lide é uma das maiores razões
de existir da função jurisdicional. Embora haja exceções, em regra a movimentação do
judiciário depende de uma lide. Existem casos de certas relações jurídicas que, ainda
que não exista um conflito real entre os interessados, qualquer alteração ou
modificação depende obrigatoriamente da supervisão do Poder Judiciário – é o
chamado Controle Jurisdicional Obrigatório/Processo Necessário. A justificativa para
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isso é a de que há um interesse público naquela relação jurídica, há interesse do
Estado em saber os termos daquela relação – mesmo que seja uma relação particular.
Exemplo: todos os casos que envolvem interesse de menor (e nesses casos o
Ministério Público também participa obrigatoriamente, por exercer a curadoria da
infância ).
2. Inércia: Ne procedat judex ex officio – Tradução literal: não procede o juiz de
ofício. A jurisdição, por ser apenas um dos meios de resolução dos conflitos – ou seja,
não é um meio obrigatório, não se impõe como forma de resolução dos conflitos –
está à disposição dos jurisdicionados.
Princípios Correlatos
a) Princípio do dispositivo – É aplicado em relação à iniciativa para propositura da
ação, pois o Poder Judiciário é inerte, só atuando mediante provocação.
b) Princípio da congruência – Além de apenas atuar mediante provocação, a jurisdição
apenas atua nos limites objetivos em que foi provocada. O juiz não aprecia uma
pretensão que não foi expressamente objeto da petição inicial – São os chamados
contornos objetivos da lide . É o autor que delimita esses contornos objetivos, pois é
ele que formula as pretensões iniciais. A decisão será nula caso não seja respeitado
esse princípio.
c) Princípio do Impulso Oficial – Embora a jurisdição só atue mediante provocação e
nos limites dessa, o processo se desenvolve por impulso oficial – assim, apesar do
início da função jurisdicional depender da provocação da parte, os atos posteriores são
impulsionados pela jurisdição.
Exceções: Em hipóteses excepcionalíssimas (e raríssimas) previstas no código, o
Judiciário age de ofício, dá origem à atividade jurisdicional sem ninguém o provocar.
Exemplo: herança jacente (herança que não possui herdeiro) – por não ter herdeiros, o
Judiciário pode arrecadar os bens e reverter em favor da Fazenda Pública; renúncia à
herança – se os herdeiros a renunciarem, o Poder Judiciário também arrecada de
ofício; inventários também podem ser iniciados de ofício – se os herdeiros não
tomarem a iniciativa, o Judiciário pode fazer isso (pois ao falecer o parente, o herdeiro
já possui impostos a pagar); exibição de testamento (quando quem o tem não o exibe)
– não é possível fazer a partilha sem essa exibição.
3. Definitividade – Não são todos os pronunciamentos do Poder Judiciário que
apresentam a característica da definitividade. Em razão disso é necessário estudar
todos os tipos de pronunciamento para identificar sobre quais recai essa característica.
-Classificação dos pronunciamentos judiciais – Pronunciamentos judiciais são as
manifestações do juiz durante o processo.
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a) Despacho: É uma manifestação judicial desprovida de conteúdo decisório, e que,
portanto, não pode causar qualquer prejuízo às partes – e em razão disso não são
recorríveis. É um ato de mero expediente forense, destinado a dar andamento ao
processo, impulsioná-lo.
b) Decisão Interlocutória: É um pronunciamento onde é tomada uma decisão, que
hipoteticamente pode trazer prejuízo às partes – porém, não coloca fim ao processo. É
possível recorrer dessa decisão, por meio do recurso chamado Agravo de
Instrumento , cujas hipóteses de cabimento estão no artigo 1015 – NCPC (caso não
seja interposto o recurso, ocorre preclusão). Os vícios que não versarem nos incisos do
art. 1015, poderão ser alegados no início da apelação, antes de discutir a sentença.
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que
versarem sobre:
I - tutelas provisórias;
II - mérito do processo;
III - rejeição da alegação de convenção de arbitragem;
IV - incidente de desconsideração da personalidade jurídica;
V - rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua
revogação;
VI - exibição ou posse de documento ou coisa;
VII - exclusão de litisconsorte;
VIII - rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio;
IX - admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros;
X - concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à
execução;
XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1o;
XII - (VETADO);
XIII - outros casos expressamente referidos em lei.
c) Sentença – Pronunciamento judicial que possui conteúdo (art. 485/487) e finalidade
(força para extinguir o processo em 1º grau de jurisdição, se não houver recurso).
CONTEÚDO
SENTENÇA
FINALIDADE
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I. Sem mérito: Quando a sentença for sem mérito, o processo terá seu fim, porém sem
julgamento do conflito – ou seja, a lide não é resolvida. É chamada de sentença
meramente processual/sentença terminativa, pois não houve pronunciamento acerca
da relação jurídica de direito material, a pretensão do autor não foi sequer analisada.
O conflito que existia continua existindo, e por essa razão, esse pronunciamento
judicial, embora seja uma sentença, não possui a característica definitividade .
Em outras palavras, embora esse pronunciamento seja uma sentença, por ter
conteúdo do artigo 485 e colocar fim ao processo em 1º grau, não resolve a lide (o
conflito continua existindo) – assim, esse pronunciamento não impede que seja
ajuizada uma ação idêntica. Diz-se que formalmente houve coisa julgada, enquanto
materialmente não – dentro desse processo essa decisão não pode ser alterada, pois,
mesmo que formalmente, houve coisa julgada (interna).
Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando:
I - indeferir a petição inicial;
II - o processo ficar parado durante mais de 1 (um) ano por negligência das partes;
III - por não promover os atos e as diligências que lhe incumbir, o autor abandonar a
causa por mais de 30 (trinta) dias;
IV - verificar a ausência de pressupostos de constituição e de desenvolvimento válido e
regular do processo;
V - reconhecer a existência de perempção, de litispendência ou de coisa julgada;
VI - verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual;
VII - acolher a alegação de existência de convenção de arbitragem ou quando o juízo
arbitral reconhecer sua competência;
VIII - homologar a desistência da ação;
IX - em caso de morte da parte, a ação for considerada intransmissível por disposição
legal; e
X - nos demais casos prescritos neste Código.
II. De mérito: Quando o juiz defere ou indefere as pretensões do autor, quando
homologa acordo judicial entre as partes, ou quando reconhece prescrição. Nessa
sentença é resolvida a lide/conflito. Como a sentença resolve o conflito, ela faz coisa
julgada material – e se o conflito foi julgado, há definitividade.
Em resumo, de todos os pronunciamentos judiciais, o único que possui a
característica da definitividade é a sentença de mérito.
Observação: Muitas vezes o pronunciamento judicial possui todas as características de
sentença, mas não é por não resolver o conflito. Exemplo: alegar prescrição (que se
enquadra no artigo 485) em relação a um dos pedidos, porém não colocar fim ao
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processo por ainda existirem outros conflitos. Seria uma decisão interlocutória, por
causar prejuízo mas não ser um ato final do processo. Assim, se não for o ato final do
processo, não é sentença.
Art. 487. Haverá resolução de mérito quando o juiz:
I - acolher ou rejeitar o pedido formulado na ação ou na reconvenção;
II - decidir, de ofício ou a requerimento, sobre a ocorrência de decadência ou
prescrição;
III - homologar:
a) o reconhecimento da procedência do pedido formulado na ação ou na reconvenção;
b) a transação;
c) a renúncia à pretensão formulada na ação ou na reconvenção.
Parágrafo único. Ressalvada a hipótese do § 1o do art. 332, a prescrição e a
decadência não serão reconhecidas sem que antes seja dada às partes oportunidade de
manifestar-se.
Em hipóteses excepcionais é possível desconstituir/rescindir a coisa julgada material,
por meio de uma ação chamada rescisória – artigos 966 a 975 NCPC.
PRINCÍPIOS DA JURISDIÇÃO – Essa não é uma expressão tecnicamente correta, pois na
verdade são mais características/atributos da função judicial do que propriamente
princípios.
1. Investidura – De acordo com esse princípio, só presta a atividade jurisdicional o
órgão que se encontra investido da função jurisdicional. Essa investidura se dá por
meio de concurso de provas e títulos (títulos são os graus de formação – ex: mestre e
doutor, que são pontuados (produções acadêmicas também são pontuadas)), também
por meio do quinto constitucional – isto é, 1/5 das vagas dos Tribunais Superiores são
ocupados por juristas advindos da advocacia ou do Ministério Público; são indicados
pelo respectivo órgão de classe ao chefe do Poder Executivo. A última forma é no caso
dos ministros da Suprema Corte (STF), onde há livre nomeação do Presidente da
República (chefe do Executivo), que posteriormente passa por sabatina no Senado
para ser aprovado ou não (observa-se se há algum impedimento).
2. Aderência ao território – Refere-se ao âmbito espacial de atuação do Poder
Judiciário. A função jurisdicional é um dos atributos da Soberania do Estado, que se
manifesta por meio dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A Soberania do
Estado está limitada ao território nacional, assim também a função jurisdicional, que é
limitada pelo território geográfico. Sempre que houver necessidade de praticar um ato
jurisdicional em outro país, é necessário que o Poder Judiciário solicite a esse país, por
meio de um instrumento chamado carta rogatória.
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3. Indelegabilidade – A função jurisdicional não pode ser transferida a terceiros que
não possuam tal investidura.
4. Inevitabilidade – Refere-se à impossibilidade de que as decisões do órgão
jurisdicional não sejam cumpridas por particulares. O que é evitável é a provocação da
jurisdição, enquanto o cumprimento da sentença judicial é inevitável – cabendo ao
descumprimento até mesmo uma penalidade penal chamada desobediência .
5. Indeclinabilidade – O Poder Judiciário não pode se eximir/escusar de resolver
qualquer conflito de interesses que lhe seja submetido. Isso se dá pois o Estado-juiz
assumiu o monopólio da força, e assim, retirando dos particulares o poder de resolver
conflitos, deve obrigatoriamente resolvê-los. A indeclinabilidade é uma contrapartida
que o Estado oferece ao jurisdicionado em virtude de retirar deles a possibilidade de
resolução do conflito. Mesmo nas situações onde não há um direito material a ser
aplicado, há a indeclinabilidade – ou seja, se não há lei, devem ser achados outros
meios de resolução (analogia, princípios gerais do Direito etc). A diferença quanto ao
princípio da inafastabilidade da jurisdição é a existência de ameaça nesta última.
6. Juízo natural legal – De acordo com esse princípio, a jurisdição é prestada sempre
por órgão já constituído, antes do conflito. Não é possível a constituição de órgão
jurisdicional para julgar fatos ou pessoas determinadas após a realização dos atos que
geraram o conflito submetido ao órgão jurisdicional – ou seja, não é possível a criação
de Tribunais de Exceção. O juízo natural legal é aquele previsto constitucionalmente e
antes do conflito. Isso é uma garantia de que a função jurisdicional não será utilizada
como instrumento de perseguição. Os tribunais de exceção são ex post factum ou ad
personam. Artigo 5º, incisos XXXVII e LIII:
Art 5º XXXVII – CF. Não haverá juízo ou tribunal de exceção;
Art 5º LIII – CF. Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade
competente.
7. Inafastabilidade da jurisdição – Não se exclui da apreciação do Poder Judiciário
lesão ou ameaça de lesão a direito. Assim, em qualquer ameaça de lesão o órgão
jurisdicional, se provocado, tem a obrigação de resolvê-la. A diferença com o princípio
da indeclinabilidade é que neste as situações que foram levadas ao Poder Judiciário
não podem deixar de serem resolvidas, enquanto na inafastabilidade são enquadrados
também os direitos ameaçados, e não apenas os efetivamente lesados.
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LIMITES DA JURISDIÇÃO – A função jurisdicional, assim como as demais funções e
poderes, encontra certos limites, ou seja, há determinadas circunstâncias de matéria,
pessoa ou território que impedem o exercício da função jurisdicional.
1. Limites Subjetivos – Referem-se às pessoas que não se sujeitam ao poder de um
órgão jurisdicional, ou seja, não se limitam ao Poder Judiciário – qualquer que seja a
pretensão ou o tipo de conflito. Ex: chefe de estado estrangeiro, membro de corpo
diplomático ou embaixada – esses sujeitos não se subordinam ao Poder Judiciário pois
representam um Estado estrangeiro, que se encontra em uma posição/situação de
igualdade soberana em relação ao Brasil – logo, não poderia a soberania nacional,
manifestada por meio do Poder Judiciário, julgar representantes estrangeiros,
principalmente no campo penal. Há imunidade total quanto à justiça brasileira. Para
sanar esse problema, houve a divisão da atuação em:
Atos de soberania (ius imperium) – Atos que representam o Estado; há completa
imunidade.
Atos de gestão (ius gestiones) – Celebrações jurídicas que não guardam vínculo com
a soberania do Estado, ou seja, atuam em caráter privado. Ex: contratar uma babá para
cuidar do filho. Em relação a esses atos não há qualquer imunidade (não há
administração dos atos do Estados, e sim da própria vida particular). Mesmo nessas
hipóteses subsiste a imunidade de execução, pois os bens desses sujeitos são
considerados bens de Estado estrangeiro, e por isso não podem ser
executados/expropriados (caso não se sujeitem voluntariamente à decisão judicial).
2. Limites Internos – Referem-se às pretensões específicas que não podem ser objeto
de apreciação inicial. Ex: mérito do ato administrativo – consiste no juízo de
oportunidade e conveniência que o administrador público utiliza na gestão dos
recursos públicos. Isso está dentro de sua discricionariedade, administra do modo que
entende mais conveniente – assim, por exemplo, não há como impor restrições ao
chefe do Executivo, pois ele governa e toma suas decisões de acordo com sua opinião
própria, tendo sido investido para isso. Observação: há certas limitações como o
respeito à lei orçamentária. Em casos extremos há como fazer um controle de
legalidade em situações que violem o princípio da proporcionalidade (decisões
absurdas, desproporcionais).
3. Limites Territoriais – Os limites territoriais são estabelecidos em virtude da
necessidade de que se reconheça a atividade prestada por órgão jurisdicional
estrangeiro. Referem-se às situações em que órgãos judiciais estrangeiros já
resolveram questões que poderiam ser resolvidas pelo Poder Judiciário brasileiro – e
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que por respeito à soberania dos Estados não serão rediscutidas no território nacional.
Ex: divórcio entre pessoas de diferentes nacionalidades.
o Competência interna concorrente – Situações em que o órgão judicial brasileiro
admite que o órgão judicial estrangeiro solucione a lide/conflito. Os artigos 21 e 22 do
NCPC fixam essa possibilidade. Entretanto, para que a decisão do órgão estrangeiro
possa produzir qualquer efeito no Brasil, é necessário que ela seja homologada pelo
STJ, por meio do procedimento chamado exequatur (homologação de sentença
estrangeira). Depois de homologada pode inclusive fazer coisa julgada, devendo o
Brasil respeitar essa decisão estrangeira. Obs: o STJ pode recusar essa homologação.
Art. 21. Compete à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações em que:
I - o réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver domiciliado no Brasil;
II - no Brasil tiver de ser cumprida a obrigação;
III - o fundamento seja fato ocorrido ou ato praticado no Brasil.
Parágrafo único. Para o fim do disposto no inciso I, considera-se domiciliada no Brasil
a pessoa jurídica estrangeira que nele tiver agência, filial ou sucursal.
Art. 22. Compete, ainda, à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações:
I - de alimentos, quando:
a) o credor tiver domicílio ou residência no Brasil;
b) o réu mantiver vínculos no Brasil, tais como posse ou propriedade de bens,
recebimento de renda ou obtenção de benefícios econômicos;
II - decorrentes de relações de consumo, quando o consumidor tiver domicílio ou
residência no Brasil;
III - em que as partes, expressa ou tacitamente, se submeterem à jurisdição nacional.
Art. 105 – CF. Compete ao Superior Tribunal de Justiça:
I - processar e julgar, originariamente:
e) as revisões criminais e as ações rescisórias de seus julgados;
Art. 109 – CF. Aos juízes federais compete processar e julgar:
X - os crimes de ingresso ou permanência irregular de estrangeiro, a execução de carta
rogatória, após o "exequatur", e de sentença estrangeira, após a homologação, as
causas referentes à nacionalidade, inclusive a respectiva opção, e à naturalização;
o Competência interna exclusiva – Hipóteses/casos onde o Poder/órgão judicial
brasileiro não admite que a lide seja resolvida/solucionada por um órgão judicial
estrangeiro (não importa em que instância esteja esse processo no outro país). Ex:
ações que versem sobre bens imóveis situados no Brasil. É possível que o STJ faça um
reconhecimento parcial da decisão estrangeira, não aceitando apenas a parte que
esteja relacionada aos imóveis – ex: aceita um inventário feito em outro país, porém
não aceita a parte que dispõe sobre os imóveis.
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Art. 23. Compete à autoridade judiciária brasileira, com exclusão de qualquer outra:
I - conhecer de ações relativas a imóveis situados no Brasil;
II - em matéria de sucessão hereditária, proceder à confirmação de testamento
particular e ao inventário e à partilha de bens situados no Brasil, ainda que o autor da
herança seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território
nacional;
III - em divórcio, separação judicial ou dissolução de união estável, proceder à partilha
de bens situados no Brasil, ainda que o titular seja de nacionalidade estrangeira ou
tenha domicílio fora do território nacional.
O NCPC institui uma nova hipótese/hipótese genérica: competência estrangeira
exclusiva, fixando um limite ao próprio órgão judicial brasileiro – no caso de contratos
internacionais em que haja a eleição de um foro estrangeiro (não pode tratar de
contratos de consumo); isso em razão da necessidade de cooperação internacional.
Art. 25. Não compete à autoridade judiciária brasileira o processamento e o
julgamento da ação quando houver cláusula de eleição de foro exclusivo estrangeiro
em contrato internacional, arguida pelo réu na contestação.
JURISDIÇÃO CONTENCIOSA x JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA
Jurisdição contenciosa é aquela prestada para a resolução de lides/conflito de
interesses. Jurisdição voluntária é a administração pública de interesses privados em
situações em que não há de fato um conflito de interesses, mas há uma exigência legal
de atuação jurisdicional em razão de um interesse público (embora não haja conflito, o
órgão jurisdicional quer ficar a par do processo, e assim exige que ele seja feito no
Poder Judiciário); é uma jurisdição inerte. Diferenças:
Contenciosa:
-Existem partes, pois os interesses são divergentes/opostos;
-Há lide;
-A jurisdição deve observar a estrita legalidade;
-Existe processo (relação jurídica processual entre autor, estado-juiz e réu (estão em
polos opostos);
-Existe coisa julgada;
-Substituição da vontade das partes.
Voluntária:
-Existem interessados, pois os interesses são convergentes;
-Não há lide, e sim uma administração pública de interesses privados;
-Admite-se julgamento por equidade;
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-Existe apenas um procedimento que é necessário para que determinado ato possa
produzir efeitos (não há autor e réu em polos opostos);
-Não existe coisa julgada;
-Não há substituição da vontade, pois há uma convergência de interesses – o Estado
não está substituindo a vontade das partes e sim homologando o que os particulares
desejam (procedimento burocrático para que a vontade dos interessados possa
produzir os efeitos desejados).
CLASSIFICAÇÃO DA JURISDIÇÃO – Divide a função jurisdicional de acordo com vários
critérios.
1. Quanto ao objeto (da jurisdição)
a) Civil – O objeto da pretensão possui natureza civil ou patrimonial. Julgam tais
pretensões: juiz de direito, juiz federal, justiça do trabalho (única que apenas possui
jurisdição civil), justiça eleitoral.
b) Penal – O objeto da pretensão possui natureza penal, ou seja, uma pretensão que
envolve o direito de liberdade. Julgam tais pretensões: juiz de direito, juiz federal,
justiça eleitoral, justiça militar (único órgão de 1º grau que não julga pretensões civis,
não possui jurisdição civil).
2. Quanto ao organismo que a exerce
a) Comum – É a prestada sem que haja uma vinculação específica a uma área do
direito material. É chamada de residual, pois não possui uma competência segundo
um direito material específico, é alcançada por exclusão, ou seja, julga o restante
que não foi alcançado pela justiça do trabalho, eleitoral ou militar. Compreende o Juiz
de Direito (Justiça Estadual) e o Juiz Federal. Ainda, a Justiça Estadual é duplamente
residual, pois julga aquilo que não for de competência da Justiça Federal (art 109 – CF).
b) Especial – É assim denominada pois há um tipo específico de pretensão/direito
material que vincula sua atuação. Compreende a Justiça do Trabalho – é especial por
seu exercício envolve pretensões trabalhistas, Justiça Eleitoral – envolve o direito
eleitoral e a Justiça Militar – que julga segundo o Código Militar.
3. Hierarquia
a) Superior – Órgãos onde é interposto o recurso. No caso do STF, quando for iniciado
nele o processo, ele próprio julgará o recurso – assim, fica claro que os Tribunais
podem possuir competência originária, e não apenas recursal.
b) Inferior – Refere-se aos órgãos que exercem competência ou jurisdição originária,
ou seja, órgão judicial onde começa o processo.
4. Quanto à fonte empregada no julgamento
a) Direito – Quando a jurisdição é exercida de acordo com a legalidade estrita.
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b) Equidade – Quando a jurisdição não esteja vinculada à estrita legalidade. Ex:
jurisdição voluntária, Juizado Especial Cível (JEC).
COMPETÊNCIA – Está inclusa na matéria Jurisdição , pois todo órgão judicial possui
jurisdição (função jurisdicional), possuindo poder para aplicar o Direito às ações
concretas, resolvendo o conflito de interesses. Porém, isso não quer dizer que eles
possam exercer jurisdição de qualquer tipo, havendo assim divisão entre os órgãos e
sendo atribuída uma parcela deste poder para cada um deles – a essa parcela de poder
dá-se o nome de competência.
1. Conceito: Parcela/medida da jurisdição atribuída a cada um de seus órgãos.
2. Distribuição da Competência – 3 etapas:
a) Criação e estruturação de cada uma das justiças em ao menos dois graus de
jurisdição – Isso em respeito à exigência do princípio do Duplo Grau de Jurisdição;
além disso, também foram criados os tribunais de sobreposição (STJ e STF).
b) Formação de grupos de causas ou ações que seriam distribuídas a cada um dos
órgãos, utilizando como critério os elementos da ação – Após a criação dos órgãos, as
ações seriam distribuídas aos mesmos, de acordo com seus elementos.
Nas ações em que há atuação da União ou de Empresa Pública Federal (ex: Caixa)
como parte ou terceiro interessado, a competência é da Justiça Federal;
A Justiça do Trabalho julga pretensões civis que possuam como causas de pedir uma
relação de emprego;
A competência da Justiça Eleitoral também é fixada em razão da causa de pedir –
quando a pretensão civil ou penal é formulada na Justiça Eleitoral, é sempre algo
relacionado ao pleito eleitoral.
c) Distribuição interna da função jurisdicional (dentro de cada uma das justiças ) –
Distribuição entre as comarcas/foros (Justiça Estadual) e subseções judiciárias (Justiça
Federal).
PERCURSO PARA ENCONTRAR O ÓRGÃO JURISDICIONAL (6 FASES)
1. Competência de jurisdição – Saber qual justiça é competente. É importante lembrar
que várias justiças possuem dois graus, sendo assim necessário identificar qual delas é
a competente.
2. Competência originária – Onde é inicialmente proposta a ação. Caso seja de 2º
grau, a identificação da justiça competente é mais fácil, pois há apenas um – ex: Justiça
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estadual Tribunal de Justiça do estado. Caso seja de 1º grau, é mais complicada a
identificação pois existem várias justiças (estadual, federal, trabalhista etc).
3. Competência de foro (competência territorial) – Consiste na identificação da
comarca ou subseção judiciária. A expressão foro normalmente é utilizada como
gênero, em relação às justiças de 1º grau (e é esse sentido da palavra que será
utilizado durante as aulas). Porém, a palavra foro também é utilizada como sinônimo
de comarca, sendo assim se deve analisar se está se referindo ao foro (justiças de 1º
grau) ou à comarca (subdivisão da justiça estadual de 1º grau). É a mais complexa das
fases.
4. Competência de juízo ou vara – Análise de qual órgão jurisdicional dentro do foro é
o competente (ou seja, dentro daquela divisão territorial). Ex: vara da família.
5. Competência interna – Dentro de uma vara ou juízo pode haver mais de um juiz,
sendo necessário identificar qual o competente. Ex: juiz titular e juiz auxiliar. É uma
distribuição feita pelo cartório, e não pelo advogado.
6. Competência recursal – Órgão que exerce o 2º grau (órgão a quem recorrer). Ex:
justiça federal – TRF; justiça militar – TJM, justiça do trabalho – TST, justiça eleitoral –
TSE, justiça estadual – TJ.
COMPETÊNCIA DE FORO (DE COMARCA OU COMPETÊNCIA TERRITORIAL) – fase 3
1) Foro comum (art. 46) – É o foro regra . No Processo Civil, prevalece o foro do
domicílio do réu – ressalvada a existência de um foro especial e de convenção entre as
partes (foro de eleição). Existem alguns problemas quanto a esse foro de domicílio
(não são exceções do art. 46, são apenas hipóteses relacionadas a esse fato):
-No caso de pluralidade de domicílios, configura-se uma hipótese de foro concorrente
(ou seja, há mais de uma opção de foro competente), podendo o autor ajuizar em
qualquer um deles.
-Se o réu não possuir domicílio certo, considera-se domicílio o local em que for
encontrado.
-Se a ação é ajuizada contra mais de um réu (ou seja, vários réus com domicílios
diferentes), o autor pode ajuizar em qualquer um deles (também é foro concorrente) –
art. 46 §4º.
-Se o réu não possui domicílio no Brasil, é competente o foro de domicílio do autor. Se
o autor também não possui domicílio no Brasil, a ação pode ser ajuizada em qualquer
foro (essa é uma regra especial, exceção ao foro comum).
2) Foros especiais – Todas as regras estão no NCPC:
2.1) Foro da situação da coisa (art. 47) – As ações que versem sobre direito real
imobiliário (poder de fato de uma pessoa sobre uma coisa, diferentemente dos
direitos pessoais ou obrigacionais, em que há uma relação entre pessoas. Quando esse
direito real for sobre coisas imóveis, há esse foro especial) devem ser ajuizadas no foro
da situação da coisa. Os direitos reais estão taxativamente expressos no artigo 1225
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do Código Civil. Esse foro especial se justifica pelo fato de o juiz ficar próximo do
imóvel, tendo mais facilidade para produzir provas (pois claramente não há como levar
o bem imóvel até o fórum), tornando mais célere a prestação jurisdicional. Os
parágrafos 1º e 2º são exceções especiais.
-No caso de imóvel que alcance mais de um foro, há foro concorrente, ou seja, pode
ser escolhido qualquer um deles.
Art. 47 Para as ações fundadas em direito real sobre imóveis é competente o foro de
situação da coisa.
§ 1o O autor pode optar pelo foro de domicílio do réu ou pelo foro de eleição se o litígio
não recair sobre direito de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação de
terras e de nunciação de obra nova.
§ 2o A ação possessória imobiliária será proposta no foro de situação da coisa, cujo
juízo tem competência absoluta.
2.2) Foro do domicílio do autor da herança/falecido/de cujus (art. 48) – As ações
devem ser ajuizadas no foro onde o falecido era domiciliado. Se o morto não possuía
domicílio certo, é competente o foro de onde estão os seus bens imóveis (e caso esses
estejam em mais de um foro, pode ser escolhido qualquer um deles). Caso não
possuísse bens imóveis, é competente o foro onde estão seus outros bens. Se não
houver bens, não há razão para discutir herança.
-Morte presumida: aplica-se a mesma regra (art. 49).
2.3) Foro do domicílio do representante (art. 50) – As ações ajuizadas contra o incapaz
devem ser ajuizadas no foro do domicílio de seu representante – aqui há um
problema: segundo o Código Civil, o domicílio do incapaz é obrigatoriamente o mesmo
de seu representante, ou seja,a ação será ajuizada no próprio domicílio do incapaz
Assim, essa não é uma regra especial, e sim comum (domicílio do autor).
2.4) Ações contra a União, Empresa Pública, Autarquias – pessoas jurídicas de direito
público (art. 51, §único e 109 CF) – Há quatro foros concorrentes: domicílio do autor,
distrito federal (domicílio da União), ocorrência do ato ou fato que originou a ação e
foro da situação da coisa que é disputada no processo. Essa regra já existia na CF, o
NCPC apenas a repetiu (não existia no CPC antigo).
2.5) Divórcio (art 53, I)
Art. 53. É competente o foro:
I - para a ação de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento ou
dissolução de união estável:
a) de domicílio do guardião de filho incapaz;
b) do último domicílio do casal, caso não haja filho incapaz;
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c) de domicílio do réu, se nenhuma das partes residir no antigo domicílio do casal;
Obs: Essas hipóteses não são de foro concorrente, e sim de foro subsidiário.
2.6) Alimentos (art. 53, II) – Foro de domicílio do autor (ou seja, de quem está pedindo
os alimentos (chamado alimentando)).
Art. 52 II - de domicílio ou residência do alimentando, para a ação em que se pedem
alimentos;
2.7) Pessoa jurídica (art. 53, III) – Domicílio de sua sede (não é regra especial). Se
existem filiais, cada uma delas é considerada domicílio para as obrigações que
contraiu. Aqui não se encaixam as relações de consumo, que são disciplinadas pelo
CDC (o foro competente é o domicílio do consumidor). A sociedade de fato pode
demandar a ação no local em que exerce sua atividade (pois não possui sede). As
ações em que se busca o cumprimento de uma obrigação (dar, fazer ou não fazer)
podem ser ajuizadas no local em que a obrigação deve ser cumprida – entretanto, se
essa ação envolver perdas e danos ou dissolução de contrato, o foro será comum.
Art. 53 III - do lugar:
a) onde está a sede, para a ação em que for ré pessoa jurídica;
b) onde se acha agência ou sucursal, quanto às obrigações que a pessoa jurídica
contraiu;
c) onde exerce suas atividades, para a ação em que for ré sociedade ou associação sem
personalidade jurídica;
d) onde a obrigação deve ser satisfeita, para a ação em que se lhe exigir o
cumprimento;
2.8) Idoso (art. 53, III, e ) – o NCPC autoriza que o idoso litigue em seu domicílio, ou
seja, no domicílio do autor – quando estiver em disputa qualquer direito previsto no
Estatuto do Idoso. O uso do termo residência exclui a necessidade de o idoso estar em
um local permanente (ânimo de efetividade). Assim, o idoso não precisa provar ser
domiciliado naquele foro.
Art 53, III, e) de residência do idoso, para a causa que verse sobre direito previsto no
respectivo estatuto;
2.9) Local do ato ou fato (art. 53, IV) – Será o local onde ocorreu o fato ou o ato
danoso. Caso esse ato ou fato ocorra em decorrência de acidente de trânsito, o autor
pode ajuizar no local do ato/fato ou no foro de seu domicílio. Por veículo entende-se
qualquer meio de deslocamento de tração mecânica, animal ou humana.
Art. 53 IV - do lugar do ato ou fato para a ação:
a) de reparação de dano;
b) em que for réu administrador ou gestor de negócios alheios;
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V - de domicílio do autor ou do local do fato, para a ação de reparação de dano sofrido
em razão de delito ou acidente de veículos, inclusive aeronaves.
Quando a competência é fixada em razão do território, admite-se o chamado foro
de eleição , e também pode ser modificada por determinação legal. E também não é
possível a prorrogação da competência se o réu não alegar ou não arguir a
incompetência do órgão jurisdicional.
A existência de foro especial é um benefício ao autor, que provavelmente está em
uma situação de hipossuficiencia, e assim pode abrir mão desse benefício (com
exceção da hipótese dos bens imóveis, pois é algo destinado ao juiz, e não ao autor).
COMPETÊNCIA ABSOLUTA E COMPETÊNCIA RELATIVA
1. Absoluta (art. 64) – O critério de fixação da competência busca satisfazer o
interesse público, sendo assim o artigo 64 é uma norma cogente, e não dispositiva (ou
seja, não admite modificação por vontade das partes). Assim, o juiz pode de ofício
reconhecer a incompetência absoluta, encaminhando para o juiz competente. A
inexistência de incompetência absoluta é um pressuposto processual de validade, de
modo que, se o juiz absolutamente incompetente julgar o processo, será possível
inclusive que a coisa julgada seja rescindida, por meio da ação rescisória (art. 966, II).
Competência mínima ou atômica – Todo juiz, ainda que absolutamente
incompetente, possui uma competência mínima ou atômica (é a competência da
competência). Essa competência mínima é a possibilidade de avaliar a própria
competência e remeter o processo ao colega que entender competente – isso não
deixa de ser um ato processual, por isso é considerada como uma competência, ainda
que mínima.
Momento de alegação da incompetência: No Código de Processo atual, o réu pode
alegar a incompetência absoluta a qualquer tempo e grau de jurisdição ordinária. O
momento oportuno (logicamente adequado) é na contestação, nas questões
preliminares – porém, se fizer posteriormente, qualquer que seja o meio (simples
petição, forma oral etc), não será atribuído a ele qualquer consequência
desfavorável/sanção. No CPC antigo, caso o réu não alegasse na contestação, poderia
alegar a qualquer tempo, porém, teria que pagar as custas do retardamento.
Validade dos atos decisórios (art. 64 §4º) – De acordo com o CPC antigo, todos os
atos decisórios praticados por juiz absolutamente incompetente são nulos de pleno
direito (os não decisórios continuam válidos, pois não acarretam prejuízo ao processo).
O NCPC alterou isso, fixando que os atos decisórios continuam produzindo efeito até
que sejam invalidados pelo juízo competente (se for o caso) – se o juiz competente não
falar nada, serão ratificados.
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2. Relativa – É fixada para atender os interesses privados/particulares. Assim, admite-
se modificação por vontade das partes – e por essa razão, não pode ser reconhecida
de ofício pelo juiz. Há prazo específico para sua alegação (é o prazo da contestação).
Possui forma específica – é a preliminar da contestação. Caso não sejam observados o
prazo ou a forma, entende-se que houve concordância do réu com o foro indicado
pelo autor.
3. Critérios de fixação da competência (art. 62 e 63):
3.1 Objetivo:
Matéria – Trabalhista, militar, cível, eleitoral etc. Quando o critério de fixação é a
matéria, a competência é absoluta (não há como modificar por vontade das partes).
Valor da causa – É competência relativa (se for um valor menor, não há obrigação
de ajuizar necessariamente no JEC, pode ser na justiça comum também).
Territorial – Competência relativa – admite modificação por vontade dar partes.
Com exceção do foro da situação da coisa, todos os demais são relativos.
3.2 Funcional, hierárquico ou pessoal – Competência fixada em razão da função
exercida pelo órgão jurisdicional ou pela sua posição hierárquica (ex: função recursal).
Não há como modificar por vontade das partes (atende ao interesse público).
4. Validade da eleição do foto – Quando a competência for relativa, poderá ser
modificada por vontade das partes, por inércia do réu ou vontade das partes. Para ser
modificada por vontade das partes, o NCPC fixou alguns requisitos:
Deve ser competência relativa;
Deve ser feito documento escrito (acordo escrito);
Deve ser identificada a relação jurídica/negócio jurídico a que essa eleição se refere;
Não pode ser escolha abusiva (e essa cláusula abusiva pode ser declarada de ofício
pelo juiz). Ex: se as partes escolheram um foro que não facilita a prestação jurisdicional
para nenhuma delas.
PRORROGAÇÃO DE COMPETÊNCIA – Ampliação da competência originária de
determinado órgão jurisdicional. Essa ampliação pode ocorrer tanto por determinação
legal (prorrogação legal) quanto pela vontade das partes (prorrogação voluntária). Essa
prorrogação só pode ocorrer em relação à competência relativa (aquela fixada em
razão do valor da causa e do território) – competência absoluta não se prorroga.
1) Prorrogação legal (art. 54/56) – É aquela fixada por determinação legal.
Art. 54. A competência relativa poderá modificar-se pela conexão ou pela continência,
observado o disposto nesta Seção.
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a) Conexão (art. 55) – Possibilidade de reunião de duas ou mais ações por
apresentarem um elemento comum – a causa de pedir ou o pedido. Assim, ao ter um
desses elementos idênticos em duas ou mais ações, será possível reuni-las e julgá-las
conjuntamente. Exemplo: em decorrência de um mesmo acidente (causa de pedir
remota), são ajuizadas três ações distintas, com partes diferentes e em comarcas
diferentes – autoriza-se a reunião dessas três ações em um mesmo foro, para que
sejam julgadas conjuntamente.
Art. 55. Reputam-se conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido
ou a causa de pedir.
b) Continência (art. 56) – Pode ocorrer quando em duas ou mais ações se tem as
mesmas partes, a mesma causa de pedir e o pedido de uma é mais amplo que o
pedido formulado pela outra (ou seja, um pedido está contido no pedido de outra
ação) – ex: Duas ações de A contra B, sendo a causa de pedir o dano material, porém
em uma o pedido era 50 mil e em outra 100 mil (assim, há uma ação continente (a de
100 mil) e uma ação contida (a de 50 mil, pois está contida nos 100 mil) – ou reuni e
julga, ou extingue a de 50 mil; porém não é possível extinguir por litispendência,
podendo apenas extinguir por falta de interesse. Esse artigo é inútil, pois para reunir as
ações em razão da continência são necessários três requisitos cumulativos, como visto
acima – ao ponto que na conexão é necessário apenas um requisito – mesma causa de
pedir ou mesmo pedido – ou seja, em todos os casos onde é possível unir as ações por
continência, já era possível unir por conexão muito antes, justamente por ser
necessário apenas um requisito.
Art. 56. Dá-se a continência entre 2 (duas) ou mais ações quando houver identidade
quanto às partes e à causa de pedir, mas o pedido de uma, por ser mais amplo,
abrange o das demais.
1.1) Justificativa – A principal justificativa dessa união se dá para que não sejam dadas
decisões diferentes a um mesmo caso – em outras palavras, uma das justificativas é
evitar que haja decisões conflitantes em relação aos mesmos fatos/mesma relação
jurídica. Outra justificativa é em relação à eficiência na gestão de recursos públicos
(Estado-Juiz) e de recursos das partes, além da economia processual; assim, evita-se a
repetição de atos probatórios – ex: não há necessidade de produzir três perícias em
relação ao mesmo acidente.
1.2) Obrigatoriedade – Ao contrário da leitura do artigo 55, que impõe uma ordem
obrigacional para a conexão, fixou-se uma margem de discricionariedade para que no
caso concreto o juiz decida se é conveniente ou não realizar a conexão dos processos –
se já houver sentença em algum, não há razão para unir, assim como não há
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conveniência em reunir ações que estejam em fases diferentes (não é eficiente pois
pode acontecer de um processo estar pronto para ser decidido e ter que aguardar
mais dois anos em razão da reunião, pois todas as ações deverão chegar à mesma
fase).
1.3) Exceção: artigo 55 §3º – Esse parágrafo autoriza a reunião de processos em que
haja risco de decisões conflitantes/contraditórias mesmo que não exista nenhum
elemento de conexão – ex: Pessoa Jurídica entrou com ação contra A (que tinha se
retirado da PJ) reivindicando a devolução de dois veículos que são da PJ; A também
entrou com ação contra a PJ, para reaver sua participação do capital social – embora
não houvesse nenhum elemento em comum, as ações foram reunidas pois haviam
decisões conflitantes – um juiz deferiu liminar para que A devolvesse os carros e outro
juiz deferiu liminar para que A ficasse com os carros – assim, a contraditoriedade das
decisões impedia que ambas fossem cumpridas, devendo haver a reunião de ambas as
ações – ou A ou a PJ podia ficar com os carros, não havia como ambas ficarem.
Art 55. § 3o Serão reunidos para julgamento conjunto os processos que possam gerar
risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias caso decididos
separadamente, mesmo sem conexão entre eles.
1.4) Foro prevento ( prae venire ) – Os processos são reunidos perante o foro que
estiver prevento – foro prevento é o que primeiro tomou conhecimento do caso, ou
seja, aquele que primeiro recebeu a petição inicial, tomando assim conhecimento do
caso.
1.5) Quem alega? Prazo? – Pode ser alegada pelo autor ou ser determinada de ofício
pelo juiz. Se forem razões de ordem pública, pode ser reconhecida de ofício pelo juiz
ou pode ser alegada pelas partes, a qualquer tempo e grau de jurisdição – não há
prazo (não há preclusão), mas devem ser alegadas até antes da sentença. Será
expedida sentença única para todas as ações conexas.
2) Prorrogação voluntária – A ampliação da competência relativa ocorre por vontade
das partes.
2.1) Expressa (art. 63, §3º e §4º) – Quando as partes expressamente elegem um
foro/comarca – é a chamada eleição de foro. Normalmente, essa eleição é objeto de
uma cláusula contratual. Para que essa eleição seja válida, é necessário que exista
paridade ou simetria entre as partes, pois se houver por exemplo disparidade técnica
ou econômica, essa cláusula de eleição de foro pode ser considerada abusiva, e,
portanto, anulada de ofício pelo juiz. É chamado de contrato de adesão, pois uma das
partes adere à vontade da outra. O juiz apenas pode reconhecer a abusividade de
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ofício antes da citação do réu, pois citado o réu, incumbe-lhe (ao réu) o ônus de alegar
a nulidade na contestação – caso não alegue na contestação, não há mais chance de
alegação.
Art. 63. As partes podem modificar a competência em razão do valor e do território,
elegendo foro onde será proposta ação oriunda de direitos e obrigações.
§ 3o Antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada
ineficaz de ofício pelo juiz, que determinará a remessa dos autos ao juízo do foro de
domicílio do réu.
§ 4o Citado, incumbe ao réu alegar a abusividade da cláusula de eleição de foro na
contestação, sob pena de preclusão.
2.2) Tácita – Ocorre quando o autor ajuíza uma ação em um foro distinto daquele que
era aplicável à situação de fato e o réu, em sua contestação, não alega a
incompetência relativa; concordando tacitamente com o foro escolhido pelo autor.
3) Perpetuatio jurisdictionis (artigo 43) – É a perpetuação ou estabilização da
competência. Ajuizada a ação, são irrelevantes as alterações das circunstâncias de fato
ou de direito que ocorrerem posteriormente – em outras palavras, a compet ência se
estabiliza no momento em que foi proposta a ação, não cabendo alterações após essa
estabilização – sejam razões de fato ou de direito, não ocorrerá alteração. Mesmo que
surja lei nova alterando as regras quanto à competência, ela não será alterada.
Exceções: extinção do órgão judicial ou nova lei que altere a competência absoluta.
Art. 43. Determina-se a competência no momento do registro ou da distribuição da
petição inicial, sendo irrelevantes as modificações do estado de fato ou de direito
ocorridas posteriormente, salvo quando suprimirem órgão judiciário ou alterarem a
competência absoluta.
1. CONFLITO DE COMPETÊNCIA (art. 66) – Verifica-se quando dois ou mais juízos se
declaram competentes ou incompetentes para a análise de determinado processo.
1.1 Espécies – Quando a disputa é para o julgamento do processo, diz-se que o
conflito de competência é positivo; enquanto quando a disputa é para não julgar o
processo, diz-se que o conflito de competência é negativo. O NCPC trouxe mais uma
hipótese de competência – artigo 66 III: disputa sobre a reunião ou não de dois ou
mais processos, ou seja, conexão e continência.
Art. 66. Há conflito de competência quando:
I - 2 (dois) ou mais juízes se declaram competentes;
II - 2 (dois) ou mais juízes se consideram incompetentes, atribuindo um ao outro a
competência;
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III - entre 2 (dois) ou mais juízes surge controvérsia acerca da reunião ou separação de
processos.
Parágrafo único. O juiz que não acolher a competência declinada deverá suscitar o
conflito, salvo se a atribuir a outro juízo.
1.2 Iniciativa – A iniciativa é das partes, do Ministério Público (nos casos em que tiver
que agir como fiscal da lei) ou o próprio juiz de ofício.
1.3 Julgamento – Quando o conflito se dá entre órgãos jurisdicionais vinculados ao
mesmo tribunal, compete a este o julgamento do conflito. Quando os juízes estão
vinculados a tribunais distintos, o conflito de competência será julgado pelo STJ (pois é
o órgão de sobreposição dos demais tribunais). O conflito é enviado ao STJ pelo juiz a
quem o juiz inicial remeteu o processo (A remete a B que remete ao STJ (B não pode
devolver para A, pois este já se declarou incompetente)).
2. Competência da Justiça Comum Federal (art. 108 e 109 CF)
2.1 Regra – Em razão da condição de parte ou de terceiro interessado no respectivo
processo é que se fixa, em regra, a competência da Justiça Federal. Em algumas
exceções, a competência é fixada em favor da Justiça Federal apesar de não existir
interesse de um ente federal – exemplos:
A)Disputa sobre interesses indígenas;
B)Descumprimento de tratado internacional – estado ou município.
Assim, embora haja exceções, se houver interesse de um ente federal, será de
competência da Justiça Federal.
2.2 Identificada por exclusão – É uma competência residual, pois é alcançada/fixada
por exclusão, ou seja, resolve aquilo que as justiças especializadas não forem
competentes, e é fixada, em regra, em razão da disputa do processo de um interesse
de titularidade de algum ente federal.
2.3 Entes que deslocam a competência – União, Empresas Públicas Federais (ex: Caixa
Econômica), autarquias federais e entidade de classe com representação nacional (ex:
OAB, CRM). Não é necessário que esses entes estejam no processo como partes, basta
que sejam terceiros interessados.
Obs: Sociedade de economia mista – pessoa jurídica de direito privado, onde o capital
não é exclusivamente público; há capital público e privado, sendo o Estado o maior
detentor do capital votante (direito ao voto) – ex: Banco do Brasil. A competência,
nesse caso, é da Justiça Estadual, não podendo ser deslocada para a Federal.
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Súmula 508 – STF - Compete à Justiça Estadual, em ambas as instâncias, processar e
julgar as causas em que for parte o Banco do Brasil S. A.
2.4 Exceções:
Competência da justiça especializada – caso haja o interesse de entes federados,
porém o teor do processo seja de competência da justiça especializada, essa que irá
julgar (ex: ações trabalhistas).
Competência da justiça comum estadual – Juízo universal da falência prevalece
sobre a competência da justiça federal, mesmo que já houvesse em curso ações nela.
2.5 Interesse da União – Só a Justiça Federal que pode avaliar se existe ou não o
interesse do ente que se diz interessado. O juiz estadual, por não ter competência para
julgar as ações previstas pelo art. 109, não poderia julgar a manifestação de interesse,
devendo submeter à justiça federal. Se a justiça federal analisar que de fato há o
interesse da união, dará seguimento ao processo, julgando-o. Porém, se concluir que
não há o interesse da União, encaminha o processo de volta à justiça estadual. De
acordo com a súmula 150, caso o interesse manifestado pela União seja
flagrantemente inexistente, a justiça estadual não precisa enviar o processo para que a
justiça federal aprecie esse interesse.
SÚMULA 150 – STJ - Compete à justiça federal decidir sobre a existência de interesse
jurídico que justifique a presença, no processo, da união, suas autarquias ou empresas
publicas.
2.6 Ações em que a União é parte (art. 109 §§1º a 3º e art 45 NCPC) – Seguem a regra
geral da competência, ou seja, são ajuizadas no foro-domicílio do réu. Entretanto, nas
ações em que a União é ré, é estabelecido um foro concorrente, pois o autor poderá
optar pelo domicílio do réu (Distrito Federal), pelo domicílio dele (autor) ou pelo local
do ato/fato que é objeto do processo (onde é discutido o processo).
Art 109 – CF
§1º As causas em que a União for autora serão aforadas na seção judiciária onde tiver
domicílio a outra parte.
§2º As causas intentadas contra a União poderão ser aforadas na seção judiciária em
que for domiciliado o autor, naquela onde houver ocorrido o ato ou fato que deu
origem à demanda ou onde esteja situada a coisa, ou, ainda, no Distrito Federal.
§3º Serão processadas e julgadas na justiça estadual, no foro do domicílio dos
segurados ou beneficiários, as causas em que forem parte instituição de previdência
social e segurado, sempre que a comarca não seja sede de vara do juízo federal, e, se
verificada essa condição, a lei poderá permitir que outras causas sejam também
processadas e julgadas pela justiça estadual.
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3. Ações em que são parte os estados federados – Repete-se a regra da União. Obs:
esse foro concorrente nas ações em que o estado federado é parte surgiu com o Novo
Código (NCPC), pois em relação aos estados não tinha nenhuma regra especial – o que
criava grande dificuldade de acesso à justiça (ex: no estado de São Paulo havia
necessidade de se deslocar até a capital).
4. Competência de juízo ou vara – Esta competência é absoluta, pois não pode ser
modificada por vontade das partes. A disciplina legislativa da competência em âmbito
nacional, feita especialmente pela CF e pelo NCPC, fixa regras de competência até o
foro/comarca. A competência estabelecida a partir daí é fixada/regulamentada por
normas de organização judiciária, em virtude de esta divisão ser feita sempre para
atender a interesses locais – Não seria viável que o código estabelecesse as varas ou
juízos, devido à análise particular de cada área, necessária para se fazer essa divisão
(além do fato de a extensão do país ser enorme, tornando impossível que essa
divisão fosse fixada pelo código e pela lei maior do país). Ainda, excepcionalmente,
dentro de um mesmo juízo ou vara pode existir mais de um juiz, sendo essa
distribuição também automática.
LITISCONSÓRCIO
1. Conceito – Significa Lide em consórcio/lide em conjunto . Consiste na
possibilidade de que duas ou mais pessoas litiguem conjuntamente, no mesmo
processo, como coautores ou co-réus.
2. Classificação
2.1 Quanto ao momento da formação: inicial/ulterior – Pode ser formado logo
que proposta a ação e também posteriormente. O instrumento chamamento ao
processo consiste no fato de um devedor solidário trazer ao processo os outros
devedores solidários, pois mesmo tendo dever de pagar a totalidade da obrigação, tem
direito de regresso em relação aos outros que estão em solidariedade – essa é
hipótese de litisconsórcio ulterior.
2.2 Quanto à posição – Pode ser ativo – quando houver mais de um autor; passivo
– quando houver mais de um réu, ou misto – quando houver mais de um autor e mais
de um réu. Obs: Não obrigatoriamente é necessário o mesmo pedido no litisconsórcio
ativo.
2.3 Quanto à obrigatoriedade da formação – Quando por imposição legal ou pela
natureza da relação jurídica de direito material que é disputada no processo tiverem as
partes que litigarem conjuntamente, o litisconsórcio será chamado de necessário (ou
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seja, há obrigatoriedade em sua formação). Ex: ações em que se discute direito real
sobre imóvel – pessoas casadas devem ajuizar a ação em conjunto com seus cônjuges
(e caso estejam na outra parte, ambos deverão ser réus). Quando for de
obrigatoriedade necessária, o juiz deverá velar pela formação do litisconsórcio, pois
como é uma imposição legal, se eventualmente não for formado, é possível que
posteriormente se declare a nulidade do processo, devendo ser retomado desde os
atos iniciais. Quando o litisconsórcio não for obrigatório, será chamado de facultativo
– é aquele em que o litígio em conjunto decorre da vontade das partes.
2.4 Quanto ao resultado – Pode ser simples ou unitário. Litisconsórcio simples é
aquele em que se admite que haja decisões diferentes para cada litisconsorte – ex:
ações em que a decisão é diferente para cada co-réu. Litisconsórcio unitário é aquele
em se impõe uma decisão singular/única para todos os litisconsortes (em uma mesma
relação jurídica material é necessária uma mesma decisão) – ex: processo dos policiais
rodoviários, pleiteando a anulação das questões do concurso de promoção.
Atenção: Quando o litisconsórcio é necessário, essa imposição existe porque a
decisão deve ser a mesma – assim, em regra, o litisconsórcio necessário também será
unitário. Porém, há casos de litisconsórcio necessário porém simples – ex: usocapião.
Há também casos de litisconsórcio facultativo e unitário – ex: caso dos policiais
rodoviários (a decisão deveria ser a mesma para todos, mesmo não sendo necessário
colocar todos os que fizeram o concurso como autores na mesma ação).
Necessário + unitário – se estiver faltando algum dos liticonsortes, a decisão é nula.
Necessário + simples – se estiver faltando algum, a decisão será válida, porém
ineficaz em relação aos ausentes (só pode ser executada contra os que foram réus).
3. Hipóteses do litisconsórcio facultativo: Comunhão de direitos e obrigações,
pretensões que contenham o mesmo fundamento de fato (ex: show do Alok e que caiu
o palco) ou de Direito, afinidade entre as situações de fato e de direito (não são as
mesmas, mas se aproximam) e situações em que haja conexão entre duas ou mais
ações (em razão da mesma causa de pedir ou mesmos pedidos).
4. Limitação do litisconsórcio facultativo – O litisconsórcio facultativo pode ser
limitado, pois pode ser que não seja conveniente, por razões de eficiência ou
economia processual, que se litigue conjuntamente. Ex: um dos três réus se muda de
país e ninguém tem conhecimento de seu paradeiro – se esperar pela citação dele, o
processo demorará muito (e pode ser que nem o encontrem); assim, limita-se o
litisconsórcio, seguindo a ação com apenas os outros dois réus.
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5. Princípio da autonomia dos liticonsortes – Em regra, os atos de um dos liticonsortes
não beneficia e nem prejudica os outros coautores/co-réus – cada um tem as
prerrogativas processuais próprias, há autonomia em relação aos atos processuais de
cada um. Há uma exceção: no litisconsórcio unitário, a decisão deve ser igual a todo
mundo, assim, os atos praticados por algum pode beneficiar ou eventualmente
prejudicar os outros – ex: confissão de um dos réus – não obriga que os outros
confessem, mas poderão ser prejudicados pela confissão daquele.
INTERVENÇÃO DE TERCEIROS
Conceito: Possibilidade de quem não é parte participar em processo alheio. O conceito
de terceiro é alcançado por exclusão: aquele que não é autor e nem réu. Assim,
percebe-se que o terceiro não é parte do processo. Intervém em processo alheio pois
possui interesse jurídico, interesse esse que pode ser afetado direta ou indiretamente
pelo resultado do processo em que está intervindo.
O que legitima e autoriza a intervenção de terceiro (em todas as modalidades) é a
existência de um interesse jurídico. Esse interesse é caracterizado pelo seguinte: o
terceiro precisa demonstrar que é titular de uma relação jurídica de direito material
que será direta ou reflexamente alcançada pela decisão do processo. Não é suficiente
que esse terceiro tenha um interesse meramente econômico ou afetivo (ex: pais
intervirem em um processo que envolve o filho, apenas para ajudar, por afeto ) –
apenas pode intervir com fundamento em um interesse jurídico (que como afirmado
acima é a demonstração de que a relação jurídica será afetada direta ou indiretamente
pela decisão daquele processo).
Modalidades de intervenção de terceiros
1. Assistência – É uma modalidade por meio do qual o terceiro intervém no processo
para auxiliar uma das partes. A iniciativa de intervenção é do próprio terceiro –
ninguém o chama para intervir, faz isso por iniciativa própria. A intervenção do
assistente pode ocorrer a qualquer momento do processo – até mesmo em grau
recursal – logicamente podendo participar apenas dos atos seguintes (os anteriores
são atos jurídicos perfeitos).
a) Simples – O terceiro intervém no processo porque é titular de uma relação jurídica
que será reflexamente alcançada pela decisão (ex: uma seguradora intervém em um
processo alheio de um segurado para ajudá-lo, pois caso ele ganhe, como não há
direito de regresso, a seguradora não será acionada). O terceiro intervém pois outra
relação jurídica será alcançada. O direito material discutido na relação é de titularidade
do assistido (e não do assistente), por essa razão, a atuação processual do assistente
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está subordinada à vontade do assistido – ou seja, o assistente não pode fazer nada
que afronte um ato processual do assistido.
O assistente se sujeita à Justiça da Decisão (artigo 123) – quando o juiz aprecia se o
assistente possui ou não um interesse jurídico (para ser admitido no processo), deve
fazer uma fundamentação decidindo pela intervenção ou não – e essa decisão (que é a
justiça da decisão) não pode ser objeto de discussão posterior em outro processo – é
uma decisão interlocutória, podendo apenas ser agravada.
b) Litisconsorcial – O terceiro intervém porque será alcançado diretamente por aquilo
que se decidir no processo – a diferença é que aqui o alcance é direto, enquanto na
modalidade simples é reflexo. O terceiro intervém pois é a própria relação jurídica que
será alcançada. Como a relação também é de titularidade do assistente, sua atuação
não está subordinada à vontade do assistido. É diferente do litisconsórcio pois nele há
uma ação com mais de um autor/réu, enquanto na assistência litisconsorcial o terceiro
não é parte, intervém no processo alheio.
2. Denunciação da Lide – Modalidade que consiste na possibilidade de uma das partes
(autor ou réu) denunciar a lide – ou seja, trazer ao processo terceiro que, por
determinação legal ou em função de uma relação contratual, possui o dever de
ressarcir qualquer prejuízo que eventualmente tenha o denunciante. Trata-se de lide
eventual, do denunciante contra o denunciado, que será apreciada/julgada se o
denunciante perder. A ação eventual fica em stand-by , sendo julgada apenas se o
denunciante perder, pois nesse caso haverá direito de regresso – é cabível nos casos
de contrato de garantia. Caso essa obrigação seja legal, será chamada de evicção, que
é a perda da coisa adquirida onerosamente – nesse caso, há o dever de indenizar por
parte do vendedor.
O NCPC admite a denunciação sucessiva – possibilidade do denunciado fazer uma
nova denunciação – comum em cadeias de domínio que possuem fraude.
A denunciação da lide era obrigatória no Código anterior. No atual, é facultativa – não
há obrigação de denunciar, podendo o denunciante ajuizar ação posteriormente. O
novo código também autoriza, no caso de procedência da ação principal e da eventual,
que a pretensão do autor seja executada contra o réu e contra a seguradora
(denunciante e denunciado), já condenados no processo (pode executar ambos ou
qual quiser). Caso a ação principal seja improcedente, há a necessidade de o
denunciante pagar honorários sucumbenciais ao terceiro (da ação eventual), pois ele
foi trazido ao processo de forma a assegurar o direito de regresso – o denunciante
poderia ter aguardado a decisão da ação principal e depois entrar com outra, mas
preferiu já deixar garantido na ação principal mesmo. No código anterior isso causava
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conflito, pois a denunciação era obrigatória, havendo essa obrigação de pagar os
honorários sucumbenciais mesmo se tivesse feito a denunciação sem querer.
3. Chamamento ao processo – Consiste na possibilidade do réu chamar/trazer ao
processo terceiro que é co-obrigado/co-devedor ou terceiro que é devedor principal
(se ele (réu) for devedor subsidiário). É semelhante à assistência litisconsorcial –
porém aqui os co-devedores são forçados a entrar no processo, enquanto na
assistência entram voluntariamente. O chamamento ao processo é feito para haver o
direito de regresso contra o réu que foi condenado – existem dois títulos judiciais na
mesma sentença– condenação de B a pagar A e o direito de regresso entre C e
D para B (devem indenizar B pois ele pagou tudo sozinho).
4. Desconsideração da personalidade jurídica – Consiste na possibilidade de se afastar
a autonomia da personalidade da pessoa física ou da pessoa jurídica, nas hipóteses
legais do CC e CDC, para que uma pessoa física ou jurídica responda pelas obrigações
da outra (jurídica/física). Em outras palavras, há autonomia patrimonial entre as
pessoas físicas e jurídicas, pois são personalidades distintas – autorizando-se nessa
modalidade que essa autonomia seja afastada, para que uma responda pelas
obrigações da outra. Hipóteses: confusão patrimonial, abuso de direito e fraude.
O NCPC instituiu a desconsideração inversa da personalidade jurídica – onde a pessoa
jurídica que responde pelas obrigações pessoais do sócio. Precedentes: ações de
divórcio. A pessoa jurídica/física que é despersonalizada é como um terceiro, por isso é
encaixada como uma modalidade. Pode ocorrer em qualquer fase do processo,
podendo ser requerida pelas partes ou pelo MP, nos processos em que intervir.
5. Amicus curiae – Terceiro (pessoa física ou jurídica) que intervém em um processo
com o propósito de auxiliar o órgão jurisdicional, por meio informações, dados
técnicos etc. Não há interesse mediato dele na decisão. Seus poderes são fixados pelo
órgão que o admite – se julgar relevante sua ajuda. Não pode recorrer, apenas
apresentar embargos. Também pode ocorrer em qualquer fase do processo. As
hipóteses em que é cabível: casos de grande repercussão e casos em que é necessário
complexo conhecimento técnico.
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