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Artigos • Psicol. Estud. 14 (1) • Mar 2009 •
Envelhecimento: um processo multifatorial
Envejecimiento: un proceso multifactorial
Aging: a multifactorial process
Resumos
O envelhecimento é um processo do desenvolvimento normal, envolvendo alterações
neurobiológicas estruturais, funcionais e químicas. Também incidem sobre o organismo
fatores ambientais e socioculturais - como qualidade e estilo de vida, dieta, sedentaris-
mo e exercício - intimamente ligados ao envelhecimento sadio ou patológico. Este es-
tudo teórico tem como objetivo ressaltar tópicos relevantes para o envelhecimento sa-
dio e o envelhecimento doentio, fundamentados em resultados recentes da pesquisa
em neurociências. Conclui-se que o aumento da idade não significa necessariamente
adoecer; com medidas preventivas pode-se manter o idoso em condições saudáveis
nos domínios físico e cognitivo, mantendo a autonomia de vida por longo período. Con-
tudo, na presença de disfunções, o diagnóstico e a intervenção precoces podem propi-
ciar uma melhor qualidade de vida ao paciente e sua família.
envelhecimento; cognição; neurologia
El envejecimiento es un proceso del desarrollo normal envolviendo alteraciones neuro-
biológicas estructurales, funcionales y químicas. También inciden en el organismo fac-
tores ambientales y socioculturales, como calidad y estilo de la vida, la dieta, el seden-
tarismo, ejercicio, íntimamente relacionados al envejecimiento saludable o patológico.
Este estudio teórico tiene como objetivo resaltar tópicos relevantes al envejecimiento
con salud o molestia, fundamentado en resultados actuales de investigaciones en neu-
rociencias. Si concluí que el aumento de la edad non significa necesariamente adole-
:
cer; con medidas preventivas si puede mantener la persona mayor en condiciones sa-
ludables, en los dominios físico y cognitivo, manteniendo la autonomía de vida por lar-
go período. Sin embargo, en la presencia de disfunciones, el diagnóstico y la interven-
ción precoz pueden propiciar una mejor calidad de vida para el paciente y su familia.
Envejecimiento; cognición; neurologia
Common sense designates the psychologist the most proficient professional to work
with sexuality. Rarely, though, we are Ageing is a process of the normal development
involving structural, functional and chemical neurobiological changes. The organism is
affected also by environmental, cultural and social factors, as quality and style of life,
diet, idleness, exercise, which are closely linked to healthy or pathological ageing. The
objective of this theoretical paper is to stress some important issues about healthy and
pathological ageing, based on recent research in neuroscience, which hallmarks the
necessity of early diagnosis and intervention. In conclusion, growing older does not ne-
cessarily mean to get ill. Preventive measures can maintain the elder in healthy conditi-
ons for long, both in the physical and the cognitive domains and keeping his/her auto-
nomy in life. However, in the presence of some dysfunction, early diagnosis and inter-
vention can provide better quality of life for the patient and his/her family.
Aging; cognition; neurology
ARTIGOS
Envelhecimento: um processo multifatorial
Aging: a multifactorial process
Envejecimiento: un proceso multifactorial
Flávia Heloísa dos SantosI; Vivian Maria AndradeII; Orlando Francisco Amodeo
BuenoIII
I
Doutora em Psicologia. Professora adjunta da Universidade Estadual Paulista,
UNESP/Assis, Departamento de Psicologia Experimental, Laboratório de Neuropsicolo-
gia
II
Doutora em Psicologia. Neuropsicóloga. Universidade Federal de Sergipe, UFS, De-
partamento de Fisiologia
III
:
III
Doutor em Psicobiologia. Livre-docente. Professor da Universidade Federal de São
Paulo, UNIFESP, Departamento de Psicobiologia
Endereço para correspondência
RESUMO
O envelhecimento é um processo do desenvolvimento normal, envolvendo alterações
neurobiológicas estruturais, funcionais e químicas. Também incidem sobre o organismo
fatores ambientais e socioculturais - como qualidade e estilo de vida, dieta, sedentaris-
mo e exercício - intimamente ligados ao envelhecimento sadio ou patológico. Este es-
tudo teórico tem como objetivo ressaltar tópicos relevantes para o envelhecimento sa-
dio e o envelhecimento doentio, fundamentados em resultados recentes da pesquisa
em neurociências. Conclui-se que o aumento da idade não significa necessariamente
adoecer; com medidas preventivas pode-se manter o idoso em condições saudáveis
nos domínios físico e cognitivo, mantendo a autonomia de vida por longo período. Con-
tudo, na presença de disfunções, o diagnóstico e a intervenção precoces podem propi-
ciar uma melhor qualidade de vida ao paciente e sua família.
Palavras-chave: envelhecimento, cognição, neurologia.
ABSTRACT
Common sense designates the psychologist the most proficient professional to work
with sexuality. Rarely, though, we are Ageing is a process of the normal development
involving structural, functional and chemical neurobiological changes. The organism is
affected also by environmental, cultural and social factors, as quality and style of life,
diet, idleness, exercise, which are closely linked to healthy or pathological ageing. The
objective of this theoretical paper is to stress some important issues about healthy and
pathological ageing, based on recent research in neuroscience, which hallmarks the
necessity of early diagnosis and intervention. In conclusion, growing older does not ne-
cessarily mean to get ill. Preventive measures can maintain the elder in healthy conditi-
ons for long, both in the physical and the cognitive domains and keeping his/her auto-
nomy in life. However, in the presence of some dysfunction, early diagnosis and inter-
vention can provide better quality of life for the patient and his/her family.
Key words: Aging, cognition, neurology.
Brasil
RESUMEN
El envejecimiento es un proceso del desarrollo normal envolviendo alteraciones neuro-
Psicologia em Estudo
biológicas estructurales, funcionales y químicas. También inciden en el organismo fac-
tores ambientales y socioculturales, como calidad y estilo de la vida, la dieta, el seden-
tarismo, ejercicio, íntimamente relacionados al envejecimiento saludable o patológico.
Este estudio teórico tiene como objetivo resaltar tópicos relevantes al envejecimiento
con salud o molestia, fundamentado en resultados actuales de investigaciones en neu-
rociencias. Si concluí que el aumento de la edad non significa necesariamente adole-
cer; con medidas preventivas si puede mantener la persona mayor en condiciones sa-
:
ludables, en los dominios físico y cognitivo, manteniendo la autonomía de vida por lar-
go período. Sin embargo, en la presencia de disfunciones, el diagnóstico y la interven-
ción precoz pueden propiciar una mejor calidad de vida para el paciente y su familia.
Palabras-clave: Envejecimiento, cognición, neurologia.
Para Palácios (2004), o envelhecimento não é um processo unitário, não acontece de
modo simultâneo em todo o organismo nem está associado à existência de uma doen-
ça. De fato, envolve múltiplos fatores endógenos e exógenos, os quais devem ser con-
siderados de forma integrada, sobretudo, em situações diagnósticas. O objetivo deste
estudo teórico é destacar alguns tópicos relevantes sobre o envelhecimento típico e
atípico, e apresentá-los de forma integrada, embora sem a intenção de esgotar o tema.
Em termos metodológicos foram identificados pela base de dados PUBMED artigos
científicos publicados entre 1991 e 2006 sobre o envelhecimento humano. A busca foi
limitada a artigos publicados em inglês ou português das áreas específicas de neurolo-
gia, psiquiatria, geriatria, psicologia e neuropsicologia. Estudos-piloto, ensaios clínicos
cruzados e estudos de caso foram excluídos. A busca foi complementada por capítulos
de livros pertinentes às referidas áreas, seguindo-se os mesmos critérios. Optou-se por
estudos relativos aos aspectos epidemiológicos, neurobiológicos, neuropsiquiátricos e
de reabilitação, de forma a se construir um arcabouço de informações mais consolida-
do e geral sobre o envelhecimento humano.
DADOS EPIDEMIOLÓGICOS
Estima-se que o ser humano esteja programado para viver entre 110 e 120 anos.
Seu ciclo vital atinge maturidade biológica, o ápice da vitalidade, por volta dos 25, 30
anos. Dos 25 até os 40 o indivíduo pode ser considerado um adulto inicial; até 65 anos,
adulto médio ou de meia idade, dos 65 até 75 anos, adulto tardio na velhice precoce, e
desta idade em diante, vem a chamada velhice tardia (Palácios, 2004).
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (1994; 2002) estimam
que o percentual de brasileiros com mais de 60 anos de idade até o ano 2025 passará
de 8,9% para 18,8%. Entre os idosos, o segmento que mais cresce é o dos mais ve-
lhos: no grupo com 75 anos ou mais, o crescimento foi de 49,3% entre 1991 e 2000.
Tamai (1997) ressalta que a população idosa, no Brasil, apresenta uma taxa de cresci-
mento maior do que a da população total e daquela abaixo de 15 anos. Assim, o Brasil
está se tornando um país da terceira idade e precisa voltar suas atenções para as ne-
cessidades dos senescentes (Tamai, 1997).
Observa-se nas últimas décadas avanço nas práticas médicas e aumento do número
de pesquisas e publicações científicas sobre o assunto (Prado & Sayd, 2004), as quais
não se limitam mais aos idosos, mas incluem aqueles que se encontram em transição
da adultez para a velhice. Neste sentido, destacamos a importância da prevenção
como condição para uma senescência saudável.
FATORES NEUROBIOLÓGICOS
:
Ao que parece, ocorre uma deterioração geneticamente programada, posto que há um
envelhecimento celular e uma finitude na capacidade das células de se dividir, renovar-
se e regenerar-se. Este tipo de decrepitude é inevitável e ditado por regras biológicas
não totalmente esclarecidas, como os processos primários (quando e como o envelhe-
cimento se inicia na vida de um indivíduo) e secundários (qualidade e estilo de vida,
dieta calórica, atividades físicas), vinculados ao aumento da idade e ao controle pesso-
al (Palácios, 2004).
Défices físicos, cognitivos e comportamentais observados no envelhecimento resultam
de um conjunto de alterações biológicas que desencadeiam cascatas de eventos mole-
culares e celulares as quais geram apoptose, radicais livres, mudanças protéicas e ou-
tros danos secundários. No cérebro ocorrem mudanças em diversos âmbitos neurobio-
lógicos e neurofisiológicos (sinapses diminuídas, lentidão do fluxo axoplasmático, de-
créscimo na plasticidade), neuroquímicos (alterações na circuitária colinérgica; ao nível
das monoaminas) e estruturais (neocórtex, complexo hipocampal, núcleos da base)
(Drachman, 1997). Do ponto de vista morfológico, o cérebro do indivíduo idoso diferen-
cia-se do cérebro do indivíduo jovem (redução do tamanho e do peso cerebral), parti-
cularmente daquele idoso que sofreu um envelhecimento patológico (alargamento ven-
tricular e dos sulcos e afinamento dos giros). Nestes últimos é evidenciada, por meio
de estudo post-mortem, a presença de placas senis e de produtos de degeneração ce-
lular não absorvida (Lent, 2004).
TRANSTORNOS MENTAIS
Fatores neuropsiquiátricos como depressão e demência estão entre os transtornos mé-
dicos que mais comprometem a qualidade de vida dos idosos (Forlenza & Almeida,
1997).
A incidência de admissões psiquiátricas por queixas isoladas de ansiedade após os 65
anos é baixa e não se caracteriza como um transtorno psíquico preeminente. Uma pos-
sível explicação é que os idosos substituiriam a clássica reação de "luta e fuga" diante
de situações ameaçadoras por uma reação de "congelamento", baseada na aceitação
e contemplação do estímulo, o que daria origem a manifestações depressivas ou psi-
cossomáticas mais do que ansiosas (Forlenza & Almeida, 1997).
Alguns estudos, porém, ressaltam que os sintomas de ansiedade e depressão podem
ser muito similares e até coexistir. Beekman, Balkom, Deeg, Dyck e Tilburg (2000) es-
tudaram um grupo da terceira idade (55 a 85 anos) moradores do Reino dos Países
Baixos (Holanda) e descobriram que a co-morbidade prevalecia em 47.5% dos pacien-
tes, enquanto 26.1% tinham depressão sem ansiedade.
DÉFICES MNEMÔNICOS E DEMÊNCIA
Entre as queixas cognitivas mais freqüentes em idosos destacam-se os défices de me-
mória, mas estas também podem ser influenciadas por fatores culturais. Em um estudo
comparativo entre diferentes regiões brasileiras verificou-se que as queixas mais
freqüentes entre idosos da classe média em São Paulo foram: nomes, locais no quais
foram deixados objetos, número de telefone que acabou de olhar, palavras (Brucki,
:
Bertolucci, & Okamoto,1994). Por outro lado, idosos ribeirinhos de Manaus esqueciam
predominantemente onde colocavam objetos e as estórias contadas e recados; e preci-
savam esforçar-se para lembrar determinada situação ou necessidade imediata (Bruc-
ki, Moura & Nitrini, 2002).
De fato, o declínio da memória no decorrer do processo de envelhecimento tem sido
amplamente estudado nestes últimos tempos (Abrisqueta-Goméz, Bueno, Oliveira &
Bertolucci 1999; Balota, Dolan & Duchek, 2000; Busse & Blazer, 1989; Katzman, 1997;
Schneider, 1985; Stuart-Hamilton, 2002). Estes estudos permitiram identificar que se
encontram preservadas habilidades como, por exemplo a memória de procedimento e
a pré-ativação, expressas pela capacidade de dirigir, ler, executar tarefas de completar
palavras e leitura de palavras invertidas, assim como a memória semântica (lembrar-se
do sabor de uma fruta, da capital de um país, da voz de um ente querido e de elemen-
tos de uma dada categoria) e a alça fonológica, medida pela recordação imediata de
uma seqüência de dígitos ou letras. Por outro lado, encontram-se comprometidas as
memórias: episódica (lembrar-se de um evento pessoal e suas circunstâncias), pros-
pectiva (tomar uma medicação a cada oito horas ou lembrar-se de desligar o forno em
meia hora) e operacional, caracterizada pela capacidade de reter e manipular informa-
ções por um curto período de tempo (para revisão conceitual e histórica dos sistemas
de memória, ver Bueno e Oliveira, 2004).
Uma tentativa para esclarecer a natureza destes défices mnemônicos foi a hipótese
dos lobos frontais. Moscovitch e Winocur (1995) avaliaram tanto pacientes com lesões
frontais quanto idosos e observaram que ambos os grupos são prejudicados em testes
que requerem recordação da ordem temporal do material apresentado, recordação da
origem das informações, memória operacional e recordação livre de material organiza-
do - portanto, tarefas mnésticas que envolvem estratégia ou componentes inibitórios. A
hipótese, embora não conclusiva, é corroborada por observações de outros autores
que investigam a ineficiência dos processos inibitórios.
De acordo Anderson e Craik (2000), idosos podem sofrer um déficit de inibição dos
mecanismos para supressão da ativação de informações irrelevantes às tarefas: 1) são
mais susceptíveis a distração com informações irrelevantes; 2) mantêm por mais tem-
po informações irrelevantes; 3) recordam-se mais facilmente de informações que lhes
tinha sido sugerido esquecerem; 4) experimentam maior interferência da memória.
Outra teoria que busca explicar o funcionamento cognitivo durante o envelhecimento
diz respeito ao modelo de Redução da assimetria hemisférica em adultos mais velhos
(do inglês HAROLD - Hemispheric asymmetry reduction in older adults). Segundo
este modelo, o envelhecimento traz como conseqüência a reorganização global das
redes neurocognitivas, assim como mudanças neurais regionais, o que pode ser de-
monstrado pelo desempenho de jovens e idosos em tarefas de memória episódica,
operacional, percepção e controle inibitório em estudos de neuroimagem funcional.
Esta reorganização se caracteriza pela diminuição da lateralização hemisférica funcio-
nal em contraste com um aumento na atividade bilateral em adultos mais velhos (Ca-
beza, 2004).
:
Um fenômeno de interesse desde a década de 60 é a distinção entre esquecimento
benigno da senescência e esquecimento maligno (demência). Novos termos e descri-
ções surgiram na década de 80 até os recentes critérios que definem o comprometi-
mento cognitivo leve (CCL): queixa de memória, preferencialmente confirmada por um
familiar; prejuízo mnemônico em testes neuropsicológicos ajustados para idade e esco-
laridade; preservação das demais funções cognitivas; e manutenção integral das ativi-
dades da vida diária portanto, ausência de demência (Petersen et al., 2001). O obje-
tivo destes pesquisadores era investigar se o CCL seria um estágio intermediário entre
o envelhecimento normal e a demência, diagnóstico mais prevalente na senescência,
caracterizado por déficit mnemônico e de pelo menos uma outra função cognitiva (Ma-
nual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais [DSM-IV], 1995). A avaliação
neuropsicológica na senescência tem um papel fundamental no diagnóstico precoce e
diferencial entre comprometimento cognitivo leve e demência.
As neurociências têm reunido evidências de que o CCL seria uma condição de alto ris-
co para o desenvolvimento da doença de Alzheimer (DA). Por exemplo, estudos post
mortem encontraram nos cérebros de uma grande porcentagem de idosos com CCL as
alterações morfológicas compatíveis com DA (Morris, Storandt & Miller, 2001). Estudos
longitudinais revelaram que idosos com CCL que se transforma em DA também apre-
sentam aumento nos níveis de proteína tau no líquido cefalorraquidiano (Sunderland;
Wolozin & Galasko, 1999). Na verdade, a maioria dos idosos com CCL evolui para DA
numa razão entre 10 a 15% ao ano, comparando-se a uma razão de 1 a 2% ao ano
para idosos sadios (Petersen et al., 1999). Esta razão de progressão aumenta com o
acompanhamento por vários anos: 80% em 6 anos (Petersen et al., 2001) a 100% em
9 anos (Morris et al., 2001). Esses achados reforçam consistentemente a necessidade
de investimentos em medidas preventivas e políticas públicas de saúde.
Em 2005, Engelhardt et al., representando a Academia Brasileira de Neurologia, publi-
caram recomendações e sugestões para o tratamento da DA em nosso país incluindo
tratamento farmacológico e não farmacológico. O tratamento farmacológico para indiví-
duos portadores de DA em grau leve ou moderado inclui os inibidores da acetilcolines-
terase (donepezil, rivastigmina, galantamina), sendo mais recomendável em estágios
mais avançados da doença a memantina; no entanto, há também outros fármacos em
desenvolvimento e avaliação, com maior seletividade para outros tipos de demência
(Ringman & Cummings, 2006). Deve-se também considerar o tratamento não farmaco-
lógico, que compreende a reabilitação neuropsicológica. Há relatos, porém, de que a
associação entre ambas as abordagens de tratamento seja mais satisfatória (Bottino et
al., 2002).
Cabe ressaltar que pessoas portadoras de deficiência intelectual (DI) também podem
apresentar défices em diferentes tipos de memória e perfis cognitivos específicos rela-
cionados à etiologia. Por exemplo, crianças com síndrome de Down têm prejuízo em
testes de memória operacional para informações verbais, enquanto aquelas com sín-
drome de Williams são afetadas na retenção em curto prazo de informações visuoes-
paciais (Jarrold, Baddeley & Hewes, 1999). Por outro lado, crianças com DM inespecífi-
ca tendem a ser prejudicadas em sua memória de longo prazo (para revisão, ver San-
tos 2005, Santos 2006). Em geral, a literatura discute estes achados, em termos de
:
desenvolvimento cognitivo, no tocante às dificuldades de aprendizagem, e raramente
estes défices são discutidos em relação ao prognóstico, particularmente a seu impacto
sobre o envelhecimento (Santos 2005, Santos 2006).
Conforme apontam estudos longitudinais, o declínio de memória pode ocorrer precoce-
mente em pessoas com DI. De fato, adultos com síndrome de Down acima de 45 anos
apresentam um risco elevado para DA, tendo-se em vista a associação genética entre
estas desordens. Isto ressalta a necessidade de se identificar o declínio cognitivo em
seus estágios iniciais, bem como os instrumentos de investigação cognitiva que pos-
sam atuar como indicadores dos primeiros sinais da DA nesta população (Santos 2005,
Santos 2006).
Em geral, as funções cognitivas de idosos com DI são avaliadas satisfatoriamente por
baterias neuropsicológicas pediátricas, complementadas pela entrevista com o famili-
ar/cuidador (Santos 2005, Santos 2006). Por outro lado, screening tests (testes de ras-
treio comumente administrados a idosos da população em geral, tais como o mini-exa-
me do estado mental) não são adequados para pessoas com DI. Algumas escalas po-
dem ser consideradas como instrumentos alternativos. Então, a validação de instru-
mentos especializados em diagnóstico para a população brasileira precisa ser encora-
jada. Por exemplo, o uso de escalas que avaliam a participação social, a integração
comunitária e a tomada de decisão podem ser alternativas viáveis (Santos, 2005; San-
tos, 2006).
FATORES DE PROTEÇÃO AO ENVELHECIMENTO
Os fatores de prevenção primária referem-se à atenção aos riscos ambientais ou pes-
soais que possam ser desencadeadores de doenças e não podem ser alterados, como
idade, etnia e fatores genéticos. Assim, é possível que o envelhecimento saudável seja
conquistado por indivíduos que desde a juventude, ou antes, tenham se preocupado
em fazer uso de uma dieta adequada e de práticas esportivas, não se tornar depen-
dente químico ou de fatores debilitantes, como alto nível de estresse físico e mental.
Em outras palavras, a qualidade de vida é imperativa para um bom envelhecimento.
Um grupo de pesquisadores canadenses (Shatenstein, Kergoat & Nadon, 2001) confir-
mou esta afirmativa por meio de um estudo científico. Sabiam que, com o envelheci-
mento, numerosas mudanças ocorrem na composição do corpo, por exemplo, nos índi-
ces de massa corpórea e na altura; mas o que os pesquisadores queriam descobrir é
se fatores ambientais -como a qualidade e o estilo de vida, a realização de atividades e
o bem-estar do indivíduo - influiriam nestes índices, e para isso acompanharam dois
grupos de idosos durante cinco anos. Um dos grupos foi composto por 140 idosos insti-
tucionalizados e o outro por 487 idosos pertencentes à comunidade. A massa corpórea
foi acompanhada durante esse período, observando-se prejuízo em ambos os grupos;
no entanto, a perda de peso foi mais preeminente em homens institucionalizados aci-
ma de 75 anos (2 quilos). Além disso, a estatura decresceu mais entre os institucionali-
zados (2 cm) do que no grupo da comunidade (1.4 cm).
A partir do estudo de 5874 pessoas acima de 65 anos, outro grupo canadense (Njego-
van, Hing, Mitchell & Molnar, 2001) demonstrou que o comprometimento cognitivo pro-
gressivo está associado a um padrão específico de perdas em tarefas funcionais hie-
:
rárquicas, o que revela uma associação entre limiar cognitivo e autonomia. As escalas
de qualidade de vida e de atividades diárias mostram idosos ativos, independentes,
que se dizem capazes de fazer compras e pagamento de contas em bancos, cozinhar,
cuidar das finanças, etc., enquanto os idosos dependentes respondem que comem, se
vestem, caminham. Para cada item funcional o escore de pessoas que perderam a au-
tonomia foi maior do que para o grupo que permaneceu independente (Njegovan et al.,
2001). Assim, os autores dos dois estudos concluem que uma boa qualidade de vida e
um estilo de vida com dieta nutricional adequados, assim como um planejamento mais
específico para esta época da vida, são fundamentais para um envelhecimento mais
saudável.
A prevenção secundária caracteriza-se pela avaliação de indivíduos que já possuam
alguma disfunção ou pertençam a um determinado grupo de risco. As doenças crôni-
cas não transmissíveis tais como as cardiovasculares e respiratórias, o diabetes e o
câncer são responsáveis por 60% das mortes e incapacidades em todo o mundo e
de até 73% em 2020. No Brasil essas doenças foram responsáveis por 62% de todas
as mortes e 39% das hospitalizações (Achutti & Azambuja, 2004). Um estudo domiciliar
realizado no início dos anos 90 em dez subdistritos de cinco regiões do município de
São Paulo, estratificado pelo nível socioeconômico, revelou que 86% dos idosos entre-
vistados apresentavam pelo menos uma doença crônica (Ramos et al., 1993). Também
a avaliação da acuidade auditiva ou visual por especialistas deve ser considerada. Es-
tes índices refletem, em parte, a necessidade de melhora na qualidade e no estilo de
vida dos idosos, assim como do atendimento à sua saúde. Por fim, a prevenção terciá-
ria diz respeito ao tratamento, suporte e reabilitação para minimizar os efeitos da doen-
ça ou até mesmo buscar sua cura. No caso dos défices cognitivos, por exemplo, uma
alternativa viável é a reabilitação neuropsicológica.
É crescente a busca de fatores de proteção como, por exemplo, o desenvolvimento de
atividades físicas para amenizar e prevenir tanto distúrbios emocionais quanto desor-
dens somáticas, tais como as doenças cardiovasculares. Atividade física também é
uma intervenção com potencial para reduzir a associação entre a depressão e a deteri-
oração cognitiva dos idosos, produzindo efeitos positivos no seu humor (para ilustrar,
veja-se o estudo brasileiro de Antunes, Stella, Santos, Bueno e Mello, 2005).
Outro fator de proteção altamente pesquisado na atualidade é o nível de escolaridade.
Um estudo realizado pelo SABE - Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento - em parceria
com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, a Organização
Pan-Americana da Saúde e a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp)
avaliou 2.143 idosos residentes na cidade de São Paulo com idade acima de 60 anos
(Lebrão & Oliveira, 2003). Este grupo tinha, em média, 69 anos de idade, com predo-
mínio de mulheres (60%). Dentre os vários aspectos investigados, de particular interes-
se foi identificação de que 60% destes idosos têm menos de 7 anos de escolaridade.
Problemas cognitivos, observados em 11% da amostra, foram mais freqüentes em ido-
sos que nunca freqüentaram escola (em 17%) do que em idosos com mais de sete
anos de estudos, dos quais apenas 1% relatou dificuldades (Lebrão & Oliveira, 2003).
De acordo com Satz (1993), a escolaridade contribui para o desenvolvimento da Re-
:
serva Funcional ou Reserva Cognitiva conceito hipotético correspondente à ca-
pacidade de atenuar, nas habilidades cognitivas, os efeitos do declínio neural associa-
dos ao envelhecimento.
REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
Neuropsicologia é um ramo das Neurociências e uma especialidade em Psicologia re-
gulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, CFP, 2004, Resolução 002/2004,
dedicada à investigação, avaliação e reabilitação de funções cognitivas. Considera-se
Reabilitação Neuropsicológica a intervenção integrada de tratamentos: cognitivo,
psicoterapêutico (individual e familiar), medicamentoso e atividades de inserção social
e profissional.
É fundamental que haja investigação diagnóstica o mais precocemente possível para
que sejam implantadas medidas capazes de minimizar, temporariamente estabilizar ou
postergar a progressão deste processo degenerativo, como o tratamento medicamen-
toso e o neuropsicológico.
A recuperação de funções cognitivas depende tanto da plasticidade neural, que é a ha-
bilidade do cérebro em recuperar uma função através de proliferação neural, migração
e interações sinápticas, quanto de plasticidade funcional, isto é, o grau de recuperação
possível de uma função por meio de estratégias de comportamento alteradas (McCoy,
Gelder, Vanhorn, & Dean, 1997). Tal recuperação é primeiramente determinada pela
idade, localização neural e função envolvida, mas também por fatores como compro-
metimento cerebral bilateral, presença de co-morbidades, níveis pré-mórbidos de funci-
onamento cognitivo, entre outros. Igualmente importantes são os fatores sociais,
econômicos e culturais (Santos, 2004).
A reabilitação cognitiva objetiva o restauro funcional, isto é, o fortalecimento de pa-
drões de comportamento cognitivo aprendido e estratégias compensatórias, represen-
tados pelo aprendizado de novos padrões que permitam ao paciente lidar com as dis-
funções persistentes (Wilson, Baddeley, Evans & Shiel, 1994). Para cada caso é traça-
do um plano de tratamento de reabilitação cognitiva conduzido pelo neuropsicólogo e
apoiado por equipe interdisciplinar, uma vez que suas prioridades são: auto-ajuda, in-
dependência para atividades de vida diária, melhora no desempenho acadêmico ou
profissional e capacitação de habilidades interpessoais e socioemocionais. O sucesso
da reabilitação cognitiva depende de o paciente estar consciente do benefício potencial
de cada exercício e motivado para o processo (Ben-Yishay, 1981).
Sessões de treinamento cognitivo incluem exercícios e atividades que estimulem as
estratégias de memorização, como: reverberação, categorização, associação do estí-
mulo-alvo com estórias, rimas e locais, imagem visual, etc. A estratégia de reverbera-
ção da informação por intervalos de tempo tem se mostrado efetiva em pacientes com
DA. Orientação para uso de auxílio externo como agendas, alarmes, calendários, modi-
ficações e adaptações no ambiente físico e nas rotinas nele realizadas e o uso de pis-
tas para redução do erro durante a aprendizagem são efetivos (Wilson, 1987; Wilson et
al., 1994). Há relatos brasileiros de experiências bem-sucedidas de reabilitação cogniti-
va de idosos (Abrisqueta-Goméz et al., 1999; Bottino et al., 2002; Ávila, 2004).
:
Perspectivas futuras da neurorreabilitação incluem o uso de técnicas de neuroimagem
funcional tanto para compreensão dos mecanismos subjacentes aos fenômenos plásti-
cos cerebrais como na avaliação dos programas de reabilitação cognitiva implantados
(Santos, 2004). Incluem ainda intervenções que visem à restauração dos níveis nor-
mais de neurotransmissão e de atividade neuronal, como a estimulação encefálica pro-
funda, transplantes de células produtoras de neurotransmissores, implantes neuronais
de tecidos fetais e cirurgias esterotáxicas para destruição de células em regiões espe-
cíficas (Lundy-Ekman, 2004).
CONCLUSÃO
Há múltiplos fatores associados ao processo de envelhecimento: fatores moleculares,
celulares, sistêmicos, comportamentais, cognitivos e sociais. Estes interagem e regu-
lam tanto o funcionamento típico quanto o atípico do indivíduo que envelhece. É funda-
mental que o profissional, assim como os próprios idosos, seus familiares e cuidadores
tenham uma visão integrada destes fenômenos. Muitos avanços têm sido feitos no
sentido de apoiar medidas que propiciem um funcionamento saudável nesta faixa etá-
ria, bem como de intervir nos fenômenos associados ao envelhecimento patológico,
podendo-se citar com exemplo a reabilitação neuropsicológica associada ao tratamen-
to farmacológico. Com o planejamento precoce desta época da vida, levando em consi-
deração, desde idades anteriores, a qualidade e o estilo de vida, dietas de baixa calo-
ria, atividades físicas e mentais, é possível conquistar longevidade e saúde, uma díade
desejada e perseguida por muitos.
Recebido em 24/08/2006
Aceito em 05/08/2008
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Endereço para correspondência:
Flávia Heloísa dos Santos. Universidade Estadual Paulista, UNESP, Campus de Assis.
Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Laboratório de Neuropsicologia. Avenida
Dom Antônio, 2100, CEP 19806-900, Assis-SP, Brasil.
E-mail:
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Datas de Publicação
» Publicação nesta coleção
29 Jun 2009
» Data do Fascículo
Mar 2009
Histórico
» Aceito
05 Ago 2008
» Recebido
24 Ago 2006
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