Letras em dia, Português, 10.
° ano Educação Literária
Poesia trovadoresca • Rimas
Lê os dois textos e as notas. Na resposta às questões, tem em consideração ambos os
textos.
TEXTO A
Do que sabia nulha rem1 nom sei,
polo mundo, que vej’ assi andar;
e quand’ i cuido2, hei log’ a cuidar,
per boa fé3, o que nunca cuidei:
5 ca4 vej’ agora o que nunca vi
e ouço cousas que nunca oí5.
Aquesto6 mundo, par Deus, nom é tal
qual eu vi outro, nom há gram sazom7;
e por aquesto, no meu coraçom,
10 aquel desej’ e este quero mal:
ca vej’ agora o que nunca vi
e ouço cousas que nunca oí.
E nom receo mia morte por en8
e, Deus lo sabe, queria morrer;
15 ca nom vejo de que haja prazer
nem sei9 amigo de que diga bem:
ca vej’ agora o que nunca vi
e ouço cousas que nunca oí.
E se me a mim Deus quisess’ atender,
20 per boa fé, ũa pouca razom10,
eu post’ havia11 no meu coraçom
de nunca jamais nem um bem fazer:
ca vej’ agora o que nunca vi
e ouço cousas que nunca oí.
25 E nom daria rem12 por viver i13
en’ este mundo mais do que vivi.
Pero Gomes Barroso (CBN 1366, CV 974), in LOPES, Graca Videira (ed. coord.), 2016.
Cantigas medievais galego-portuguesas. Corpus integral profano – Vol. 2.
Lisboa: Biblioteca Nacional, Instituto de Estudos Medievais e Centro de Estudos de
Sociologia e Estética Musical (p. 389)
1. nulha rem: nada, coisa nenhuma; 2. i cuido: penso nisso; 3. per boa fé: realmente, por Deus; 4. ca:
porque; 5. oí: ouvi; 6. Aquesto: Este; 7. há gram sazom: há muito tempo; 8. por en: por isso; 9. sei:
conheço; 10. E se me a mim Deus quisess’ atender,/ per boa fé, ũa pouca razom: E se Deus quisesse
atender o meu pedido e me desse um pouco de razão; 11. post’ havia: tinha decidido; 12. rem: nada,
coisa alguma; 13. í: aí.
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Letras em dia, Português, 10.° ano Educação Literária
TEXTO B
Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram1;
os campos florescidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.
5 Passou o verão, passou o ardente estio2,
ũas cousas por outras se trocaram;
os fementidos3 Fados4 já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
10 o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura5 e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
CAMÕES, Luís de, 1994. Rimas (texto estabelecido, revisto e prefaciado por Álvaro J.
da Costa Pimpão). Coimbra: Almedina (p. 168)
1. enturbaram: tornaram turvas;
2. estio: calor, verão;
3. fementidos: falsos, desleais;
4. Fados: destino;
5. natura: natureza.
1. O tema da mudança é comum aos dois textos.
Explicita dois dos aspetos que a evidenciam em cada um dos poemas.
2. Mostra como, em ambas as composições, a temática da mudança e do desconcerto se desenvolve
a partir de um contraste.
3. Explicita de que modo o estado de espírito do sujeito poético do Texto A confirma a perspetiva
apresentada nos versos 10 a 14 do Texto B.
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Letras em dia, Português, 10.° ano Sugestões de resolução
Educação Literária
Poesia trovadoresca • Rimas
1. No Texto A, a mudança é evidenciada pelas coisas novas/diferentes que o sujeito poético vê e ouve (refrão), assim
como pela perda da felicidade (v. 15) e do valor da amizade (v. 16). No Texto B, a mudança revela-se nos ciclos da
natureza (vv. 1-6) e na transformação que afeta as pessoas e suas opiniões e costumes (v. 12).
2. A cantiga de escárnio (sirventês moral) aborda o tema da mudança, fazendo contrastar «Aquesto mundo» (v. 7), o
presente do sujeito poético, ao qual ele quer «mal»
(v. 10), com o «outro» (mundo) (v. 8), a realidade passada não há muito tempo («nom há gram sazom», v. 8) e que o
«eu» deseja (v. 10), por nela ainda não existirem as «cousas» que lhe desagradam «agora» (refrão). O soneto camoniano
explora a mudança através da descrição da passagem do tempo e das alterações cíclicas na natureza, previsíveis e
regulares, por contraponto com a desordem e a confusão do mundo (vv. 10-11).
3. Nos versos 10 a 14 do poema de Camões, o sujeito poético sugere o desconcerto do mundo, votado de tal modo ao
abandono divino, à confusão nas ações, nas palavras e nas tradições que resta apenas a sensação de que a vida se
resume à dimensão física da existência. Tal desalento é notório nas palavras do sujeito poético no Texto A, o qual, cons-
tatando a sua incapacidade de perceber a estranheza do «mundo» (vv. 1-2) em que vive, expressa o seu desânimo,
confessando (inclusivamente a Deus, v. 14) a sua falta de vontade em continuar a existir no mundo conforme o vê.
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