Inteligência Artificial e Mediação Social
Inteligência Artificial e Mediação Social
DOI:10.34117/bjdv6n9-202
Dora Kaufman
Professora do TIDD PUC/SP. Pós-Doutora pela COPPE/UFRJ e pelo TIDD PUC/SP.
Pós-Doutoranda na Filosofia USP. Doutora em Comunicação pela ECA-USP.
Mestre em Comunicação e Semiótica PUC/SP. Economista PUC/RJ.
E-mail: dkaufman@[Link]; dkaufman@[Link]
RESUMO
Cunhado em 1956 por John McCarthy, o termo “Inteligência Artificial” (IA) deu início a um
campo de conhecimento associado com linguagem e inteligência, raciocínio, aprendizagem e
resolução de problemas. O avanço recente (Deep Learning) permite às máquinas executar tarefas
tradicionalmente desempenhadas pelos seres humanos e outras que superam a capacidade humana.
Estabelece-se uma matriz de inputs que introduz inéditas formas de mediação. Os algoritmos
interferem diretamente nos processos cognitivos, na interação nas redes sociais, e na redistribuição
de funções e de poder entre os agentes.
ABSTRACT
Coined in 1956 by John McCarthy, the term "Artificial Intelligence" (AI) has initiated a field of
knowledge associated with language and intelligence, reasoning, learning and problem solving.
The recent breakthrough (Deep Learning) allows machines to perform tasks traditionally
performed by humans and others that surpass human capacity. It sets up an array of inputs that
introduces new ways of mediation. The algorithms directly interfere in cognitive processes, in the
interaction on social networks, and the redistribution of functions and power among the agents.
1
Artigo apresentado ao Eixo Temático 15 – Inteligência artificial, hibridização homem-dispositivos, trans-
humanismo, wearables do X Simpósio Nacional da ABCiber.
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não é uma propriedade intrínseca, mas algo que se forma em sua interação com as chamadas
Partículas de Higgs. “Os elétrons parecem ganhar massa por estarem se movendo não pelo espaço
vazio, mas por uma lama de partículas de Higgs. Ele fica mais pesado porque, quando é empurrado,
também são empurradas todas as partículas de Higgs que estão ao redor” (Smolin, 2004, p. 66).
Há uma referência explícita à ideia relacional e de interdependência: "o fato de o elétron ter ou
não massa depende de sua interação com as partículas de Higgs, o que por sua vez depende da
condição de o mundo conter o gás de partículas de Higgs, que por sua vez decorre das condições
globais de temperatura do universo" (Kaufman, 2017, p.27). A evidência básica, presente na física
desde o início do século XX, é que a vida neste planeta é um sistema interconectado e
interdependente.
Esse paradigma, dentre outros das ciências da natureza, influenciou as ciências sociais e
está na base da ideia ecológica da comunicação, em que a comunicação não é mais percebida como
um fluxo de informações. Di Felice (2017b) propõe substituir o termo media, “que exprime
inevitavelmente uma relação de instrumentalidade, pela expressão ‘forma formante’ ou por
‘condição habitativa’, capaz de projetar-nos em uma dimensão ecológica e não mais funcionalista
dos processos de interação e comunicação” (pp. 39-40). Segundo ele (Di Felice, 2009, 2012, 2017a,
2017b), nas conexões das redes digitais - indivíduo, mídia, informação, território, dispositivos,
banco de dados, etc. - as relações entre os atores não são realidades distintas. "Observa-se uma
interdependência e uma indistinção entre cada um dos autores, numa condição habitativa que
redefine cada entidade a partir de sua conexão com as demais entidades” (Di Felice apud Kaufman,
2017, p.53).
O avanço recente da Inteligência Artificial (IA), particularmente o processo de aprendizado
profundo (Deep Learning), agrega novos elementos à essa ecologia de interação e comunicação
ao permitir às máquinas executar tarefas tradicionalmente desempenhadas pelos seres humanos
(reconhecimento visual, tomada de decisão, reconhecimento de voz, tradução) e outras que
superam a capacidade humana (manipular e processar grandes bases de dados, denominado em
inglês de Big Data). Estabelece-se uma matriz de inputs que introduz inéditas formas de
mediação.“Hoje nós não estamos mais numa interação entre humano e técnica […] Estamos
falando de interações entre inteligências2” (Di Felice, 2017a, p. 133).
2 Definição de Inteligência (referência): "Individuals differ from one another in their ability to understand complex ideas, to adapt
effectively to the environment, to learn from experience, to engage in various forms of reasoning, to overcome obstacles by taking
thought. Although these individual differences can be substantial, they are never entirely consistent: A given person's intellectual
performance will vary on different occasions, in different domains, as judged by different criteria. Concepts of "intelligence" are
attempts to clarify and organize this complex set of phenomena. Although considerable clarity has been achieved in some areas,
no such conceptualization has yet answered all the important questions and none commands universal assent”. Intelligence: Knowns
and Unknowns, [Link]
Não até que uma máquina possa escrever um soneto ou compor um concerto por
causa de pensamentos e emoções sentidas, e não por causa de símbolos, poderemos
concordar que essa máquina é igual ao cérebro - isto é, não só escreve, mas sabe o
que escreveu. Nenhum mecanismo pode sentir (e não apenas um sinal artificial, um
dispositivo simples) prazer em seu sucesso, queixa quando suas válvulas se fundem,
seja aquecido por lisonjas, seja miserável por seus erros, fique encantado pelo sexo,
fique bravo ou deprimido quando não pode obter o que quer (Jefferson apud Turing,
1950, p.445).
Quase setenta anos depois, a AI está compondo música, escrevendo soneto, pintando
quadro, criando arte, embora não por causa de pensamentos e emoções sentidas como vaticinou
Jefferson (retornaremos à Turing, o que desejamos pontuar aqui é o seu papel como precursor das
máquinas inteligentes). Definir pensamento, emoção, sentimento, bem como consciência, não é
uma tarefa simples nem consensual. Na conferência Ethics of Artificial Intelligence, em 2016, na
Universidade de Nova York, perante o argumento de distinção entre humano e artificial atribuído
à consciência por alguns filósofos, o Prêmio Nobel de Economia Daniel Kahneman, psicólogo de
formação, contra-argumentou: “Sobre o que afinal vocês estão falando? como podem considerar
consciência ou ausência de consciência, se não avançamos em nada sobre o entendimento do que
seja consciência?”. Circunscrito a temática do artigo responder à essas questões não é essencial; o
propósito é descrever e refletir sobre os impactos das tecnologias de IA na mediação, tomando
como exemplo os algoritmos da rede social Facebook. Antes, porém, uma breve introdução ao
campo da IA.
3
Alan Mathison Turing (1912-1954) foi influente no desenvolvimento da ciência da computação e na formalização
do conceito de algoritmo e computação, importante na criação do computador moderno. Turing foi o responsável pela
“quebra do código” alemão (Enigma) na Segunda Guerra Mundial.
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2 CONTEXTUALIZANDO O CAMPO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA)4
O termo apareceu pela primeira vez no título do evento Dartmouth Summer Research
Project on Artificial Intelligence (Projeto de Pesquisa de Verão de Dartmouth sobre Inteligência
Artificial), realizado no Dartmouth College em Hanover, New Hamshire, EUA, no verão de 1956,
com o apoio da Fundação Rockefeller. Liderado por eminentes pesquisadores – Claude Shannon,
Nathaniel Rochester, Marvin Minsky e John McCarthy -, o evento reuniu um grupo de dez
cientistas na crença de que trabalhando juntos por dois meses conquistariam avanços significativos;
a determinação era descobrir como fazer com que as máquinas usem linguagem, abstrações de
forma e conceito, e resolvam tipos de problemas do domínio humano. O seminário não levou a
nenhuma nova descoberta, mas deu início a um campo de conhecimento associado com linguagem
e inteligência, raciocínio, aprendizagem e resolução de problemas (Russell; Norvig, 2009).
A IA propicia a simbiose entre o humano e a máquina ao acoplar sistemas inteligentes
artificiais ao corpo humano (prótese cerebral, braço biônico, células artificiais, joelho inteligente
e similares), e a interação entre o homem e a máquina como duas entidades distintas conectadas
(homem-aplicativos, homem-algoritmos de IA). Tema de pesquisa em diversas áreas - computação,
linguística, filosofia, matemática, neurociência, entre outras -, a diversidade de subcampos e
atividades, pesquisas e experimentações, dificulta descrever o “estado-da-arte” atual da IA. Os
estágios de desenvolvimento bem como as expectativas variam entre os campos e suas aplicações,
que incluem os veículos autônomos, reconhecimento de voz, games, robótica, tradução de
linguagem natural, diagnósticos médicos, assim por diante. Atualmente, os sistemas inteligentes
permeiam praticamente todas as áreas de conhecimento.
Por milhares de anos, tentamos entender como pensamos; isto é, como um mero
punhado de matéria pode perceber, compreender, prever e manipular um
mundo muito maior e mais complicado do que ele mesmo. O campo da
inteligência artificial, ou IA, vai ainda mais longe: tenta não apenas
compreender, mas também construir entidades inteligentes (Russsell; Norvig,
2009, p. 1).
Existem inúmeras definições de IA, reflexo das especificidades intrínsecas a cada campo
de conhecimento. Russell e Norvig (2009) listam oito delas agrupadas em duas dimensões: (a) as
relativas à pensamento, processos e raciocínio e (b) as relativas à comportamento.
4
O conhecimento e informações da autora sobre IA têm origem (a) na leitura de extensa bibliografia, (b) em cursos,
simpósios, e conferências no Brasil e no exterior e (c) nas interações da autora com o cientista da computação Davi
Geiger, Courant Institute / NYU.
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Historicamente, todas as quatro abordagens de IA tem seguidores, cada
uma por pessoas diferentes com métodos diferentes. Uma abordagem centrada
no ser humano, em parte, está associada a ciência empírica, envolvendo
observações e hipóteses sobre o comportamento humano. Uma abordagem
racionalista, envolve uma combinação de matemática e engenharia. Os vários
grupos tem tanto depreciado quanto ajudado uns aos outros. (Ibidem, p. 2)
5
Q. What is artificial intelligence? A. It is the science and engineering of making intelligent machines, especially
intelligent computer programs” Disponível em [Link]
último acesso em 29/jan/2018.
6
Publicado originalmente em 1994 e seguido de várias novas edições, adotado nas universidades americanas como o
livro de referência sobre IA.
7
Aparelho telegráfico, transmite diretamente um texto por meio de um teclado datilográfico, registrando a mensagem,
no posto receptor, sob a forma de letras impressas.
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de um leigo. Ademais, substituir o conceito de inteligência pelo conceito de “passar no teste de
Turing” parece a Block destituído de sentido.
O foco no desempenho e não na competência seria outra falha: “É claro que o desempenho
é uma prova da competência, mas o núcleo de nossa compreensão da mente reside na competência
mental, não no desempenho comportamental” (Block, 2009, p. 384).
b) Machine Learning
Subcampo da IA, dá aos "computadores a capacidade de aprender sem serem
explicitamente programados. Arthur Lee Samuel, um pioneiro norte-americano no campo de jogos
de computador e inteligência artificial, cunhou o termo “Machine Learning" em 1959 (enquanto
funcionário da IBM). Evoluindo a partir do estudo do reconhecimento de padrões e da teoria de
aprendizagem computacional na IA, o Machine Learning explora o estudo e a construção de
algoritmos que podem aprender e fazer previsões sobre dados - esses algoritmos seguem instruções
estritamente estáticas ao fazer previsões ou decisões baseadas em dados, através da construção de
um modelo a partir de entradas de amostra. O aprendizado de máquina é empregado em uma
variedade de tarefas.
A técnica não ensina as máquinas a, por exemplo, jogar um jogo, mas ensina como aprender
a jogar um jogo. O processo é distinto da tradicional “programação”. Para fazer uma máquina
“aprender” algo, é possível utilizar diversas técnicas baseadas em princípios lógicos e matemáticos,
mais ou menos complexos. O objetivo é fazer com que um sistema apreenda informações dadas e
execute uma tarefa visando o melhor resultado, sem depender de interferência humana. É um
método usado para conceber modelos e algoritmos complexos que se prestam à previsão. Esses
modelos analíticos permitem que pesquisadores, cientistas de dados, engenheiros e analistas
produzam decisões e resultados confiáveis e replicáveis, e revelem "idéias ocultas” (tendências)
em relacionamentos históricos contidos nos dados.
A rede geralmente tem entre 10-30 layers empilhados de neurônios artificiais. Num
reconhecimento de imagem, por exemplo, o primeiro layer procura bordas ou cantos; os layers
intermediários interpretam as características básicas para procurar formas ou componentes gerais;
e os últimos layers envolvem interpretações completas. Na identificação de fotos nas redes sociais,
a máquina percebe padrões e “aprende” a identificar rostos, tal como alguém que olha o álbum de
fotos de uma família desconhecida e, depois de uma série de fotos, reconhece o fotografado. O
reconhecimento de voz, que junto com a visão computacional está entre as aplicações mais bem-
sucedidas, já permite a comunicação entre humanos e máquinas, mesmo que ainda precária
(assistentes virtuais como Siri, Alexa, Google Now, bots). Na cognição, onde estão os sistemas de
resolução de problemas, ocorreram igualmente importantes avanços.
8
“Learning representations by back-propagating errors”, David [Link], Geofrrey E. Hinton & Ronald J.
Williams, Nature, Vol. 323, October, 1986. Disponível em
[Link] Acesso em 29/jan/2018.
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No senso comum, a IA está associado aos filmes de ficção científica com os robôs, em
geral, ameaçando a espécie humana, previsão que nem de perto tangência o estágio atual de
desenvolvimento dessas tecnologias. A robótica, inclusive, é apenas um dos campos de aplicação
da IA, e o mercado já disponibiliza “robôs do bem” (ainda que com baixo grau de autonomia). Na
maior conferência de tecnologia da Ásia, Rise, em Hong Kong, na edição de julho/2017, a Ubtech
Robotics apresentou o Alpha 2 como o primeiro humanoide para a família, capaz de lembrar
compromissos, fazer pequenos reparos, cozinhar, configurar alarmes, lembrar horários de
medicamentos, fazer ligações telefônicas, checar mensagens de voz, ler e enviar textos e emails.
Seu antecessor, o Alpha 1 pode ser comprado na Internet por R$ 1.541,45. Com funcionalidades
mais sofisticadas, o humanoide Sophia participou como palestrante na Rise sobre o tema “o papel
dos robôs no futuro da humanidade”. Produzido pela Hanson Robotics, Sophia incorpora a beleza
clássica de Audrey Hepburn, foi capa de revista feminina, cantou em concerto, e debateu em fóruns
de negócios.
d) Algoritmos
Algoritmo é um conjunto de instruções matemáticas, uma seqüência de tarefas para
alcançar um resultado esperado em um tempo limitado. Os Algoritmos antecedem os
computadores – o termo remonta ao século IX ligado ao matemático al-Khwãrizmi, cujo livro
ensinava técnicas matemáticas a serem equacionadas manualmente. “Algorismus" era
originalmente o processo de calcular algarismos hindo-arábicos. Ed Finn (2017) define um
Algoritmo como “qualquer conjunto de instruções matemáticas para manipular dados ou
raciocínio através de um problema” (p.17) ou, numa definição pragmática, “os algoritmos são
adequados para um propósito, iluminando caminhos entre problemas e soluções” (p.18). Brian
Christian e Tom Griffiths (2016) extrapolam o conceito para além do âmbito da matemática :
“Quando você cozinha pão a partir de uma receita, você está seguindo um algoritmo, o mesmo
quando você tricota uma peça com base num determinado padrão. […] Algoritmo faz parte da
tecnologia humana desde a Idade da Pedra” (p.4). De forma mais pragmática, o Google define
Algoritmo como “processos e fórmulas computacionais que levam suas perguntas e as convertem
em respostas” (Algorithms - Inside Search - Google). Seja como for, o Algoritmo é um conceito
fundamental na ciência da computação (e em nossas vidas).
O Algoritmo é a matemática da IA. Ao combinar múltiplas formas de cálculos estatísticos
na análise de dados, permite desde compreender o comportamento dos usuários das redes sociais,
ou até mesmo identificar “suspeitos” a serem eliminados por Drones militares, passando por
9
Propositalmente, substituímos o termo “máquina” por “dispositivo”, pela forte associação/conteúdo do primeiro as
“máquinas mecânicas”.
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usuário (mensagens, imagens, vídeos etc.). Dentre esse conjunto de informações, os algoritmos do
Facebook identificam as preferências e interesses do usuário e selecionam de 100 a 150 itens a
serem exibidos no Feed de notícias desse usuário, com a intenção de facilitar sua experiência. A
seleção assertiva de “conteúdos relevantes” é processada por meio dos algoritmos de IA
manipulando um conjunto de dados gerados das interações do usuário na sua rede de
relacionamento, tais como seus “Likes”, suas publicações (posts), as publicações comentadas e o
conteúdo dos comentários, as publicações compartilhadas, as fotos publicadas e compartilhadas,
as conexões prioritárias, o tempo de permanência em determinado tipo de postagem, em suma,
todos os rastros da atividade do usuário na rede social. Com os dados coletados, os algoritmos
buscam combinações e intersecções com base em quatro macro fatores: (a) quem postou,
considerando o nível de interação entre os usuários, (b) quando postou (quanto mais recente maior
a chance de aparecer no Feed de notícias), (c) tipo de conteúdo, com base na pesquisa de suas
preferências e interesses, e (d) engajamento com o post, sua e de sua rede. Em paralelo, o Facebook
segue um procedimento de categorização, conferindo prioridade a (a) amigos e família, (b)
postagens informativas, (c) entretenimento, (d) convergências de opiniões e ideias, e (e)
autenticação (elimina os spam, boatos, etc.). Periodicamente, são implementadas alterações, em
geral, testadas em regiões pré-selecionadas (função das características do novo produto/sistemática)
e anunciadas previamente10.
Em janeiro de 2018, o Facebook anunciou uma mudança na classificação das mensagens
no Feed de notícias, motivado, em parte, pela proliferação das Notícias Falsas (Fake News) que
tiveram grande impacto nas eleições americanas de 2016, e, prioritariamente, para atender ao
interesse de seus usuários. Pesquisas da própria rede social (complementadas por pesquisas
externas), indicaram que os usuários preferem (“se sentem melhor”) interagir com conteúdos
publicados por amigos e familiares 11 . Os algoritmos passaram a privilegiar as publicações de
amigos e familiares em detrimento de publicações jornalísticas, de empresas e vídeos virais, ou
seja, promover conteúdo originado de "interações significativas” e reduzir o "conteúdo passivo”.
Uma das principais razões pelas quais as pessoas vêm ao Facebook é ver o que está
acontecendo em seus News Feeds. Nosso objetivo com News Feed sempre foi mostrar
às pessoas as coisas que eles querem ver. Quando as pessoas vêem conteúdo que é
relevante para eles, tornam-se mais propensas a se envolver com News Feed. […]
Como parte de uma pesquisa em andamento, perguntamos à centenas de milhares de
pessoas como se sentem sobre o conteúdo em seus News Feeds. As pessoas nos
12
Fonte: [Link]
13
Pesquisa do Pew Research Center, apurou que 67% dos americanos em 2017 acessaram notícias por meio das mídias
digitais, incluindo os usuários maiores de 50 anos.
14
Palestra proferida no Festival Transmediale, Berlim, fevereiro/2017.
15
Fonte: entrevista da autora com equipe do Facebook Brasil, janeiro/2018.
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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O dilema conveniência versus privacidade permeia os debates entre especialistas,
acadêmicos e usuários da Internet, e tem sido destaque nos congressos e conferências 16 . A
percepção predominante é a de que estamos cada vez mais dispostos a trocar nossos dados
pessoais, advindos da movimentação online ("rastros digitais”), por conveniência — no sentido
amplo: desde o acesso ao Facebook e ao Google e a tudo que essas plataformas oferecem, até o
compartilhamento nas redes sociais, ou em comunidades de interesse, de questões específicas em
busca de recomendação, solidariedade, troca de experiências, passando pelo acesso do aplicativo
Waze aos nossos itinerários (rotinas).17 Parte do significado do termo “conveniência" advém de
sua relevância (quanto mais relevante, maior a percepção de utilidade e/ou conveniência).
Não por coincidência, a movimentação da web é cada vez mais baseada no conceito de
“relevância”. Em seus primórdios, a Internet e a web ofereciam a perspectiva de "livro acesso” a
toda e qualquer informação, se opondo a tradição da mídia com a figura do “GateKeeper”.
Recentemente, o avanço dos algoritmos representou uma mudança no modo como a informação
flui nas redes digitais, e como ela é personalizada por filtragens de conteúdo. Para Eli Pariser
(2011) houve um deslocamento do Gatekeeper humano para o Gatekeeper algoritmo. O ativista
político alerta que o Facebook não é o único que usa algoritmos para priorizar os conteúdos
relacionados à um conjunto particular e individual de informações online, em um processo
denominado por ele de “Filter Bubbles”. O que as companhias de tecnologia - Facebook, Google
16
Predominou, por exemplo, na Conferência RISE, o maior evento de tecnologia da Ásia, em sua versão de
julho/2017.
17
Não por acaso, cresce a exposição pública de temas até recentemente restritos ao âmbito privado (referência
sexual, atividade sexual, questões de gênero, saúde, e similares).
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- mostram é o que o usuário quer ver, e não o que o usuário “deveria ver”. “Temos que assegurar
que a web nos dê acesso não só ao que é relevante, mas também ao que é importante,
desconfortável, desafiador e outros pontos de vista”.18
A matemática americana Cathy O’Neil (2016) destaca a quantidade significativa de poder
do Facebook (assim como Google, Apple, Amazon, e outros conglomerados de tecnologia), na
manipulação dos dados gerados pela movimentação de seus usuários, com interferência direta nos
processos de mediação. Ela ilustra seu ponto de vista com o produto “voter megaphone”,
concebido para estimular os americanos à cumprir seu “dever cívico” de votar 19 . Durante as
campanhas eleitorais de 2010 e 2012, os pesquisadores do Facebook observaram a influência dos
posts sobre o comportamento do potencial eleitor, ou seja, a sensibilidade do potencial eleitor aos
distintos conteúdos e formatos da publicações nos Feeds de notícias da plataforma.
18
PARISER, TED “Tenha cuidado com os filtros bolhas on-line”, 2011, disponível em
[Link] Acesso em 29/jan/2018.
19
"Estudos demonstraram que a satisfação silenciosa da realização de um dever cívico é menos propensa a mover as
pessoas do que o possível julgamento de amigos e vizinhos”” (O’NEIL, 2016, p.180).
20
Nick Bostrom (2014), no livro "Superintelligence", define superinteligência como "um intelecto que excede em
muito o desempenho cognitivo dos seres humanos em praticamente todos os domínios de interesse".
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desde as “tecnologias vestíveis” (Wearable) até a introdução de dispositivos de IA. Trata-se de
inéditas mediações, de interações e diálogos entre inteligências.
REFERÊNCIAS