AS PARTICULARIDADES DO RACISMO BRASILEIRO E SEUS
EFEITOS NA AUTOIMAGEM DO NEGRO
O racismo no Brasil carrega características peculiares que o diferenciam de
outras formas de racismo como o racismo nos Estados Unidos. Apesar do país ser
frequentemente elogiado por ser diverso racialmente e culturalmente, essa celebração
mascara uma realidade marcada por discriminação e preconceito profundamente
enraizados. Sendo o último país das Américas a abolir a escravidão, o Brasil herda uma
estrutura social construída na visão do negro enquanto inferior, o que se tenta esconder
com o mito da democracia racial. Este ensaio propõe uma análise das particularidades
do racismo brasileiro, destacando suas consequências sobre a autoimagem e autoestima
dos negros no país, principalmente a partir das contribuições de Clóvis Moura.
Em Dialética Radical do Brasil Negro, Clóvis Moura realiza uma análise
profunda sobre as dinâmicas históricas e sociais que constroem o racismo no Brasil.
Moura argumenta que esse mito é uma construção ideológica que esconde a opressão e
a desigualdade racial, mascarando a construção de uma visão de supremacia racial
branca por mais que está tente se esconder. Para compreender como esse mito se
formou, é essencial voltar ao período do Escravismo Pleno e entender os processos
históricos que consolidaram a estrutura racista do Brasil.
O Escravismo Pleno, período de auge da escravidão no Brasil, foi marcado pela
utilização massiva de mão de obra africana, principalmente para atender às demandas da
economia agroexportadora, como a produção de açúcar e café. Durante esse período, o
Brasil consolidou-se como uma sociedade escravista, onde a posição social dos negros
era apenas como sendo propriedade dos senhores de engenho. Essa fase não foi apenas
um momento de exploração econômica, mas também de construção de uma ideologia
que justificava a inferioridade racial dos negros. A escravidão no Brasil foi legitimada
por discursos que naturalizavam a hierarquia racial, reforçando a visão de que o negro
era uma mercadoria, desprovido de humanidade e, portanto, merecedor da sua condição.
Com o enfraquecimento do sistema escravista e a consolidação do capitalismo,
juntamente com pressões internacionais para o fim do tráfico negreiro, o Brasil passou
por mudanças que começaram a preparar o terreno para a transição para o trabalho livre.
Um ponto central nesse processo foi a promulgação da Lei de Terras, em 1850. Política
pública profundamente racista, que, ao determinar que o acesso à terra deveria ser feito
apenas por meio da compra, excluiu completamente a população negra recém-liberta,
que não possuía condições econômicas para adquirir terras.
A Lei de Terras foi uma resposta à possibilidade de negros libertos se tornarem
pequenos proprietários rurais e competirem economicamente com os senhores de
engenho brancos. Ao impedir o acesso à terra, essa legislação garantiu a manutenção da
estrutura agrária concentrada nas mãos de grandes proprietários brancos, forçando os
negros a continuarem em condições de subordinação, muitas vezes como trabalhadores
assalariados ou em regimes análogos à escravidão. Esse processo foi uma forma de
transição do escravismo para o capitalismo, mas de modo a manter a desigualdade
racial, sem a necessidade formal da escravidão. Outro marco importante do período foi
a Lei Eusébio de Queiroz, também de 1850, que proibiu o tráfico de escravos no Brasil.
Embora essa lei tenha encerrado oficialmente o tráfico transatlântico, ela não foi uma
medida que visava à emancipação da população negra. Ao contrário, a elite brasileira já
havia acumulado um número suficiente de escravos para sustentar a economia interna, e
a lei foi uma resposta à pressão internacional, especialmente da Inglaterra, não um gesto
de benevolência ou uma política antirracista.
Com o fim formal da escravidão em 1888, através da Lei Áurea, consolidou-se a
ideia de que o Brasil havia superado as suas desigualdades raciais, criando a falsa
percepção de que não havia mais racismo no país. Esse foi o momento inicial da
construção do mito da democracia racial. Segundo Moura, essa narrativa de harmonia
racial foi amplamente promovida pelas elites brasileiras para ocultar a realidade de
exclusão e marginalização dos negros, que continuaram a enfrentar enormes
dificuldades no acesso à terra, educação, emprego e outros direitos básicos.
Esse racismo velado torna a luta por libertação mais complexa, pois é impossível
combater aquilo que não se vê ou que se reconhece a existência. Além dos efeitos
econômicos o racismo tem efeitos extremos em como pessoas negras constroem sua
identidade e autoestima que são essenciais de serem pensados se queremos de algum
modo construir uma sociedade antirracista.
A construção da identidade negra no Brasil está profundamente influenciada por
um sistema racista que molda subjetividades, impondo à população negra um processo
de embranquecimento inconsciente. De acordo com Lucas Veiga, no texto Consciência
Negra para um inconsciente embranquecido, a produção simbólica e discursiva da
sociedade brasileira associa poder, beleza e prestígio à branquitude, relegando os negros
a posições de subalternidade. Essa narrativa é reforçada desde o período colonial,
quando a história do negro foi contada a partir da condição de escravo, sem reconhecer
suas contribuições ou resistências. Colocando que quaisquer avanços em pautas raciais
foram graças a boa vontade de brancos moralmente superiores que decidiram dar à luz
da graça aos negros. O apagamento de figuras e comunidades autônomas que lutaram
diretamente contra a supremacia racial na história de nosso país cria um ambiente no
qual a própria imagem negra é desvalorizada, levando a um processo de auto-ódio. No
máximo se lembra superficialmente de Palmares, mas não se lembra que só na antiga
província de Minas Gerais entre 1711 e 1798 existiram 127 quilombos.
A raiz desse processo reside na maneira como o Brasil forjou seu inconsciente
coletivo, criando uma nação onde o branco é o padrão de humanidade e valor. Isso
ocorre tanto nos discursos midiáticos quanto nas práticas cotidianas e nas instituições de
poder, como a televisão, as universidades, e as representações políticas. As narrativas
dominantes reforçam estereótipos que associam o negro à pobreza, ao crime e à
marginalidade, e não à resistência, cultura ou protagonismo histórico. Através dessa
produção discursiva, muitas vezes inconsciente, os negros são provocados a negar seus
traços físicos, história e cultura, numa tentativa de se conformar ao padrão
embranquecido que lhes é imposto.
Percebi e refleti profundamente a pouco tempo sobre esse embranquecimento do
inconsciente em mim mesmo, como eu não me sentia bem com a minha aparência
porque não conseguia compreender traços negros como algo positivo ou belo. E além da
aparência, como o auto-ódio se construiu em mim por entender valores positivos
enquanto brancos e me vendo no lugar de negro não entendia como poderiam a ver
quaisquer qualidades em mim. Esse auto-ódio não apenas se mantém no indivíduo
negro como o prefixo “auto” pode sugerir, mas também nas relações com outras pessoas
negras, levando muitos homens negros a não se relacionarem afetivamente de forma
profunda com mulheres negras por entender que elas são inferiores a uma mulher
branca.
A partir da conscientização racial, é possível confrontar o inconsciente
embranquecido e ressignificar a identidade negra. O conceito de “tornar-se negro”
pensado por Neusa Santos Souza mostra um caminho, um processo de construção de
uma identidade afirmativa e positiva que se baseia no reconhecimento da história e da
cultura africanas. Para isso é fundamental o enegrecimento dos símbolos e discursos
através da valorização das produções literárias, artísticas e científicas de pessoas negras,
além de um exercício constante de interpretar a realidade considerando os efeitos do
racismo nas subjetividades.