0% acharam este documento útil (0 voto)
27 visualizações11 páginas

Rituais e Símbolos na Antropologia

Enviado por

Michele Scheller
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
27 visualizações11 páginas

Rituais e Símbolos na Antropologia

Enviado por

Michele Scheller
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

ANTROPOLOGIA

E CULTURA

Priscila Farfan
Barroso
Revisão técnica:

Guilherme Marin
Bacharel em Filosofia
Mestre em Sociologia da Educação

B277a Barroso, Priscila Farfan.


Antropologia e cultura / Priscila Farfan Barroso, Wilian
Junior Bonete, Ronaldo Queiroz de Morais Queiroz ;
[revisão técnica: Guilherme Marin]. – Porto Alegre:
SAGAH, 2017.
218 p. : il ; 22,5 cm.

ISBN 978-85-9502-184-6

1. Antropologia. 2. Sociologia. 3. Cultura. I. Bonete,


Wilian. [Link], Ronaldo Queiroz de Morais. III.Título.

CDU 31

Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin CRB-10/2147

Antropologia e Cultura_Iniciais_Impressa.indd 2 17/11/2017 16:23:27


Ritos e rituais
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

„„ Definir a relação entre símbolos e ritos.


„„ Explicar como se dá o processo ritual.
„„ Aplicar os estudos de rituais para o âmbito religioso.

Introdução
Para compreender um ritual, temos de estar atentos às ações simbólicas
que se desenvolvem nesse processo. Tendo em vista que a passagem
por um ritual envolve transformação de posição social.
Neste capítulo, você irá compreender a relação entre símbolos e ritos,
a fim de desvendar como se dá o processo ritual. E também vai analisar
as possibilidades de aplicação desse estudo, no âmbito religioso.

Os símbolos e os ritos
Pode se dizer, conforme propõe Marconi e Presotto (2010, p. 28), que crença
é “a aceitação como verdadeira de uma proposição comprovada ou não cien-
tificamente. Consiste em uma atitude mental do indivíduo, que serve de base
à ação voluntária. Embora intelectual, possui conotação emocional”.
Então, a maneira como cada sociedade guia os seus rituais está permeada
por crenças e valores construídos entre os seus membros ao longo dos tempos,
podendo ser transmitidos de geração a geração ainda que possa ter sofrido
pequenas alterações em sua forma original. Tendo em vista essa discussão,
vamos nos aproximar de um estudo de rituais em que os indivíduos de uma
sociedade manifestam seus sentimentos a partir de uma determinada ação.
Para isso, vamos acompanhar os estudos antropológicos de Victor Turner
(2008), que compreendia que os fenômenos culturais estão prenhes de símbolos
e de crenças de tipo não estrutural, diante da estrutura do processo ritual.

Antropologia e Cultura_U2_C10.indd 107 17/11/2017 14:13:43


108 Ritos e rituais

Nesse sentido, podemos dizer que Turner se contrapõe às ideias estrutu-


ralistas de Lévi-Strauss, pois a noção de levistraussiana enfatiza o cognitivo,
a arbitrariedade do significado e a ideia de estrutura separada do sentido das
ações e da intencionalidade dos atores. Enquanto que o pensamento turneriano
ressalta a produção das construções simbólicas baseadas nos valores e nas
crenças dos membros da sociedade.
A antropóloga Mariza Peirano se dedicou aos estudos dos rituais como
estratégia analítica e abordagem etnográfica, evidenciando em seu livro, O dito
e o feito, a “perspectiva durkheimiana que vê nos cultos e rituais verdadeiros
atos de sociedade nos quais são reveladas visões de mundo dominantes de
determinados grupos” (PEIRANO, 2002, p. 10). Ela acessou autores clássicos
da Antropologia que discutiram o assunto, assim, retomou o interacionista
simbólico Victor Turner que estudou os rituais entre Ndembus do noroeste
da Zâmbia, no centro sul da África.
Os interacionistas simbólicos entendiam que os símbolos servem para orientar
as ações nas sociedades humanas. Assim, como afirma Turner (1974), esses sím-
bolos são conscientes e atuam durante o processo ritual em que eles se apresentam
em forma de objetos, gestos, cantos, para expor a mensagem que querem passar
por meio do rito. Logo, o encadeamento de símbolos dentro do ritual, ordena e
constrói a ideia de que está se passando de um ponto da estrutura social a outro.
Assim, há certa estrutura social no processo ritual em que convive a ação
social e os arranjos sociais no desenrolar desse rito. De modo que, nesses
arranjos sociais, permeiam símbolos visuais e auditivos, operando cultural-
mente como combinações e associações de ideias que revelam cosmologias,
valores, axiomas culturais dispostos na sociedade, e que são transmitidos de
uma geração a outra também por meio do processo ritual.
Os estudos de Turner visaram compreender a ligação entre as fases do ritual
designando, para isso, aportes conceituais e teóricos na área da Antropologia.
Como explica melhor Peirano (2002, p. 21):

Victor Turner procurou resgatar a dimensão do viver, definindo os ri-


tuais como loci privilegiados para se observar os princípios estruturais
entre os ndembu africanos, mas também apropriados para se detectar
as dimensões processuais de ruptura, crise, separação e reintegração
social, cujo estudo ele havia iniciado com sucesso mediante a ideia de
“drama social” – ritos seriam dramas sociais fixos e rotinizados, e seus
símbolos, no âmbito da razão durkheimiana, estariam aptos para uma
análise microssociológica refinada. Fascinado pelos processos, conflitos,
dramas – em suma, pelo vivido –, para Turner, símbolos instigam a ação.

Antropologia e Cultura_U2_C10.indd 108 17/11/2017 14:13:43


Ritos e rituais 109

Nesse sentido, cabe utilizar o aporte teórico e conceitual turneriano para


compreendermos as possibilidades de estudo da área e até termos condições
de realizar análises de ritos e rituais relacionados às crenças e aos valores
presentes na sociedade em que vivemos.

Desvendando o processo ritual


Para compreendermos o processo ritual, temos de resgatar o que diz Van
Gennep (2011) sobre os estudos de ritos de passagem. Ele chamou assim
todos os ritos de transição que acompanham a mudança de lugar, estado ou
posição social de idade. E enfatizou três fases que esses ritos se desdobram:
separação, margem (“limiar”) e agregação. De modo que todo ritual, de
qual ordem fosse, estaria submetido a essa configuração.
A primeira fase é quando o indivíduo ou grupo social inicia o afastamento da
estrutura social em si. A segunda fase é o período limiar, no qual as características
do sujeito ritual – que é quem está passando pelo ritual – são ambíguas, pois
ele está fora da estrutura mais próxima a ela, em uma condição extrema. E a
terceira fase é quando há a passagem e o indivíduo ou grupo social é reintegrado
na estrutura, e volta a ter direitos e obrigações definidos e estruturados.
Dessa maneira, como explica Gennep (2011), espera-se que o indivíduo
ou grupo social se comporte de acordo com as normas e padrões éticos da
sociedade em questão, conforme a nova posição social que ocupa ou ocupam
após o ritual, conforme definido pela relativa estabilidade da estrutura.
Por ritual, Turner (2005, p. 57) entende:

[...] o comportamento formal prescrito para ocasiões não devotadas à


rotina tecnológica, tendo como referência a crença em seres ou poderes
místicos. O símbolo é a menor unidade do ritual que ainda mantém as
propriedades específicas do comportamento ritual; é a unidade última
de estrutura específica em um contexto ritual.

Assim, devemos entender o ritual como um sistema de significados.


Logo, esse autor se apropria das ideias de Gennep e realiza os estudos de
ritos de passagens buscando as concepções interestruturais – que ele chama
de communitas – em meio a passagem de um estado a outro na estrutural
social (TURNER, 1974). No entanto, ele não trata esses dois momentos –
communitas e estrutura social – como oposição, e sim de forma análoga, de
modo que há uma relação dialética entre esses dois momentos que sustentam

Antropologia e Cultura_U2_C10.indd 109 17/11/2017 14:13:43


110 Ritos e rituais

o caráter de humanidade para além de posição social. Ele entende que muitas
vezes é preciso passar pelo processo ritual, mas para que se restabeleça a
estrutura social.
A communitas é o momento de suspensão das relações cotidianas, é espontâ-
nea, autógena e reduz as diferenças sociais, enquanto a estrutura social reforça
essas diferenças e marcações das relações cotidianas. Como a estrutura social
é a arena na qual eles perseguem seus interesses materiais, a communitas é
recalcada para o inconsciente. Os ritos, os símbolos e os mitos são complexos,
e suas formas culturais na communitas pressupõe que esses elementos possam
ser vivenciados com maior profundidade do que em qualquer outro contexto.
Logo, na communitas cabe mais a transmissão das relações entre símbolos,
ideias e valores do que a própria marcação das posições sociais.
Vamos aprofundar o que diz Turner sobre essas fases! Em relação a segunda
fase, que considera os períodos liminares, Turner (1974) entende que é um
estar fora e dentro da estrutura social ao mesmo tempo, já que se suspende
os relacionamentos sociais normais para ser reintegrado novamente. E o
indivíduo ou grupo social que passa por esse ritual fica em uma espécie de
invisibilidade estrutural, como se estivessem sido colocados à uma condição
uniforme que é o communitas, para ser formatado de novo e em uma outra
situação venha a ser realocado em outra posição social. Durante esse período
de communitas, as manifestações que ali ocorrem devem parecer perigosas e
sem organização, de modo que há algumas restrições nessa fase.
Nesse sentido, a condição limiar do indivíduo ou grupo social, durante o
processo ritual, tem algumas especificidades, como explica Turner (2008, p. 241):

[...] numa situação temporariamente liminar e especialmente marginal,


os neófitos passageiros são despidos de status e autoridade num rito de
passagem prolongado – em outras palavras, removidos de uma estrutura
social que é em última estancia mantida e sancionada pelo poder e pela
força – e posteriormente nivelados até um estado social homogêneo
pela disciplina e pelo ordálio [...] muito do que vinha sendo cerceado
pela estrutura social é liberado, notadamente o senso de camaradagem
e comunhão, em suma, de communitas [...].

Nesse sentido, o Turner (2008) ainda vai citar três situações da cultura onde
a communitas, que é esse momento de suspensão das relações cotidianas, pode
estar presente, são elas: liminaridade, outsiderhood e inferioridade estrutural.
Na liminaridade, é quando em um processo ritual se passa de um ponto de
classificação a outro, o que está entre betwix e between, de modo que o neófito

Antropologia e Cultura_U2_C10.indd 110 17/11/2017 14:13:43


Ritos e rituais 111

fica em um ponto inclassificável na estrutura social. Para Turner (2008), a


liminaridade considera uma fase da vida social em que as atividades realizadas
pelo sujeito ritual não estão demarcadas na estrutura social, de modo que essa
fase se mantém como um estado e não mais uma passagem.
O outsiderhood corresponde a quem tem uma posição diferenciada na
sociedade, como líderes messiânicos, médiuns, xamãs, pais de santo, etc.,
pois eles não se encaixam na estrutura, já que analisam a estrutura social
para analisar criticamente aos seus seguidores. Diferente dos liminares, eles
não têm garantias de resolução final para sua ambiguidade, de modo que não
têm um status social reconhecido.
E o último é a inferioridade estrutural, que se trata da condição de certas
classes sociais ou da sociedade de castas, em que se considera uns inferiores em
relação a outros superiores. A função simbólica dos que são rejeitados seria a
de representar a humanidade sem qualificações, de modo que há recompensas
desiguais para essas que são concedidas por suas posições diferenciadas.

Você pode ver o ensaio fotográfico dos Dinkas do


Sudão, realizado pelas fotógrafas Carol Beckwith e
Angela Fisher, ao acompanhar o cotidiano, cerimônias
e rituais que relevam crenças e valores desses povos.

[Link]

Processo ritual na religião


Podemos nos valer dessa discussão mais teórica para pensar sobre o processo
ritual no contexto religioso. De modo geral, crenças e rituais são elementos
constitutivos das práticas religiosas, uma vez que é por meio delas que o
indivíduo ou o grupo social manifesta seus sentimentos (MARCONI; PRE-
SOTTO, 2010).
De modo que reconhece e aceita a superioridade do sobrenatural e se coloca
em devoção a ele, o ritual religioso cultuará o sobrenatural por meio de uma
atividade acordada socialmente, podendo contar com elementos que compõe
as práticas específicas envolvendo crenças e valores daquela sociedade.

Antropologia e Cultura_U2_C10.indd 111 17/11/2017 14:13:43


112 Ritos e rituais

O estudo sobre o candomblé é amplo e complexo. Alguns pesquisadores


se dedicaram a pesquisar os elementos que compõe sua concepção e suas
práticas. Dias (2014) estava interessado na discussão do ori, que é um sentido
peculiar dado à cabeça, a partir do contexto religioso, e explica a relevância
de fazer essa análise:

A análise da concepção e ritualidade em torno do orí nos permitiu alcançar


todo um vasto quadro interpretativo e utilitário, fornecendo novos dados
a um campo de análise tradicionalmente unívoco e unidimensionalmente
formatado. Tal ideia equivale a dizer que com este trabalho, de algum
modo, se abre um novo campo de possibilidades de leituras, interpretações,
significações e configurações sobre os padrões de pensamento religioso
yorùbá e afro-brasileiro, e suas expressões rituais (DIAS, 2014, p. 38).

Nesse sentido, as análises etnográficas dos contextos rituais no âmbito


religioso contribuem com a própria problematização do campo de atuação
das religiões, mas também com a produção de registro dessas práticas por
meio da escrita. O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva (1991, p. 57), que
estudou longamente religiões afro-brasileiras, entende que esses estudos
também são contribuições para quem permitiu ser estudado, pois, segundo
ele, “as etnografias vão constituindo assim o “corpus inscriptionum” da
religião.
De modo geral, o estudo dos rituais religiosos envolve a compreensão de
seres, entidades, forças, almas, elementos rituais, cânticos entoados, entre
outros. Há o culto dos objetos sagrados e até mesmo forma de ritos que são
realizados. Marconi e Presotto (2010, p. 159), resumem que:

A religião, de modo geral, reforça e mantem os valores culturais, estando


muito deles ligados à ética e à moral, pelo menos implicitamente. Sus-
tenta e inculte normas particulares de comportamento culturalmente
aprovadas, exercendo, até certo ponto, poder coercitivo. Ajuda na con-
servação de conhecimentos ao transmitir, através de rituais e cerimônias
dramatizadas, os procedimentos ou normas de conduta importantes em
determinada cultura.

Portanto, enfatizamos a relevância da análise do processo ritual no âmbito


religioso, uma vez que o grupo praticante se encontra, cultua suas crenças e
dá continuidade às práticas que fazem sentido para eles.

Antropologia e Cultura_U2_C10.indd 112 17/11/2017 14:13:43


Ritos e rituais 113

DIAS, J. F. À cabeça carrego a identidade: o orí como um problema de pluralidade


teológica. Afro-Ásia, Salvador, n. 49, jan./jun. 2014 . Disponível em: <[Link]
[Link]/[Link]?script=sci_arttext&pid=S0002-05912014000100001&lng=en&n
rm=iso>. Accesso em: 1 out. 2017.
GENNEP, A. Van. Os ritos de passagem. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
MARCONI, M. de A.; PRESOTTO, Z. M. N. Antropologia: uma introdução. 7. ed. São
Paulo: Atlas, 2010.
MUSEU DO ÍNDIO. Rituais indígenas. 2017. Disponível em: <[Link]
[Link]/rituais-indigenas/>. Acesso em: 1 out. 2017.
PEIRANO, M. A análise antropológica de rituais. In: PEIRANO, M. (Org.). O dito e o feito.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
SILVA, V. G. A crítica antropológica pós-moderna e a construção textual da etnografia
religiosa afro-brasileira. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 1, n.1, 1991. Disponível em:
<[Link] >. Acesso em:
1 out. 2017.
TURNER, V. A floresta dos símbolos. Rio de Janeiro: EDUFF, 2005.
TURNER, V. Dramas, campos e metáforas. Niterói: EDUFF, 2008.
TURNER, V. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.

Antropologia e Cultura_U2_C10.indd 113 17/11/2017 14:13:45


Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
Conteúdo:

Você também pode gostar