INTRODUÇÃO: A PSICOLOGIA
SOCIAL COMUNITÁRIA
Regina Helena de Freitas Campos
A comunidade, seja geográfica - um bairro, por
exemplo - ou psicossocial - por exemplo, os colegas de
profissão é o lugar em que grande parte da vida cotidiana
é vivida Entretanto, o conceito de comunidade utilizado
pela psicologia social comunitária tem algumas
características próprias, derivadas da própria forma como
surgiu entre nós esta nova área de estudos. Sabemos
que a prática científica não e imune aos movimentos
sociais em cujo contexto se desenvolve, e a psicologia
social comunitária não é exceção a esta regra
Desde meados da década de 60, no Brasil, a
utilização de teorias e métodos da psicologia em
trabalhos feitos em comunidades de baixa renda, visando,
por um lado, deselitizar a profissão, e, de outro, buscar a
melhoria das condições de vida da população
trabalhadora, constitui o espaço teórico e prático do que
passamos a denominar a ”psicologia comunitária”, ou
”psicologia na comunidade” (Freitas, 1994) Bairros
populares, favelas, associações de bairro, comunidades
eclesiais de base, movimentos populares em geral foram
os lugares em que tiveram início essas experiências de
”psicologia comunitária”
Mais recentemente, com a ampliação dos sistemas
de saúde e educação pública no país, e o aumento do
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número de psicólogos trabalhando em postos de saúde,
creches, instituições de promoção do bem-estar social, ou
setores do sistema judiciário voltados para o cuidado de
famílias e menores, enfim em instituições públicas que
visam promover o desenvolvimento social, a psicologia
social comunitária procura desenvolver os instrumentais
de análise e intervenção relevantes para as novas
problemáticas que se apresentam aos psicólogos.
Tipicamente, os trabalhos comunitários partem de
um levantamento das necessidades e carências vividas
pelo grupo-cliente, sobretudo no que se refere às
condições de saúde, educação e saneamento básico. A
seguir, utilizando-se métodos e processos de
conscientização, procura-se trabalhar com os grupos
populares para que eles assumam progressivamente seu
papel de sujeitos de sua própria história, conscientes dos
determinantes sócio-políticos de sua situação e ativos na
busca de soluções para os problemas enfrentados. A
busca do desenvolvimento da consciência crítica, da ética
da solidariedade e de práticas cooperativas ou mesmo
autogestionárias, a partir da análise dos problemas
cotidianos da comunidade, marca a produção teórica e
prática da psicologia social comunitária.
A perspectiva da psicologia social comunitária
enfatiza:
- em termos teóricos, a problematização da relação entre
produção teórica e aplicação do conhecimento: parte-se
do pressuposto de que o conhecimento se produz na
interação entre o profissional e os sujeitos da
investigação. Utilizando-se a conceituação do papel dos
intelectuais de Gramsci, pode-se dizer que os psicólogos
atuando em trabalhos de psicologia social comunitária
desempenham o papel de intelectuais tradicionais, na
medida em que organizam o saber já constituído pela
psicologia social, e se encarregam de transmiti-lo, mas
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visando a formação de intelectuais orgânicos, isto é,
sujeitos capazes de sintetizar o ponto de vista da
comunidade e de coordenar processos de transformação
do instituído;
- em termos de metodologia, utiliza-se sobretudo a
metodologia da pesquisa participante, na qual o
pesquisador e os sujeitos da pesquisa trabalham juntos
na busca de explicações para os problemas colocados, e
no planejamento e execução de programas de
transformação da realidade vivida;
- em termos de valores, os trabalhos de psicologia
comunitária enfatizam sobretudo a ética da solidariedade,
os direitos humanos fundamentais e a busca da melhoria
da qualidade de vida da população focalizada. Ou seja,
questiona-se a visão da ciência como atividade não-
valorativa, e assume-se ativamente o compromisso ético
e político. Em termos éticos, busca-se trabalhar no
sentido de estabelecer as condições apropriadas para o
exercício pleno da cidadania, da democracia e da
igualdade entre pares. Em termos políticos, questionam-
se todas as formas de opressão e de dominação, e
busca-se o desenvolvimento de práticas de autogestão
cooperativa (Bomfim, 1987).
Góis (1993) define a psicologia comunitária como
”uma área da psicologia social que estuda a atividade do
psiquismo decorrente do modo de vida do
lugar/comunidade; estuda o sistema de relações e
representações, identidade, níveis de consciência,
identificação e pertinência dos indivíduos ao
lugar/comunidade e aos grupos comunitários. Visa ao
desenvolvimento da consciência dos moradores como
sujeitos históricos e comunitários, através de um esforço
interdisciplinar que perpassa o desenvolvimento dos
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grupos e da comunidade. (...) Seu problema central e a
transformação do indivíduo em sujeito”.
Em trabalho recente sobre a situação da psicologia
social no Brasil, Bomfim observa o crescimento da área
entre nós, e informa que ”as atividades são, em sua
grande maioria, constituídas por atuações em equipes
multidisciplinares que estabelecem procedimentos
práticos de acordo com a demanda social e
possibilidades de ação” (Bomfim, 1994). As principais
estratégias de ação detectadas foram: reuniões com os
moradores para análise das necessidades e possíveis
soluções, inclusive com o incentivo à formação de grupos
de autogestão e à formação de recursos humanos da
própria comunidade, e propostas de atividades
específicas. Para que a formação de recursos humanos
capazes de desenvolver e dar continuidade a projetos de
melhoria da qualidade de vida seja viável, tem-se
verificado a importância de fortalecer o envolvimento
afetivo com os objetivos e programas de ação propostos.
A promoção deste envolvimento tem sido feita
exatamente através da busca de uma definição pela
própria comunidade das prioridades de atuação. Neste
sentido, o psicólogo atua mais como um analista-
facilitador, que como um profissional que toma as
iniciativas de solucionar os problemas. São centrais,
portanto, nesta área de estudos, os conceitos que
contribuem na análise da constituição do sujeito social,
produto e produtor da cultura, e as metodologias de
desenvolvimento da consciência.
Neste volume, estudos e reflexões sobre algumas
dessas problemáticas específicas da psicologia social
comunitária são apresentados ao leitor. Pioneira na
delimitação conceituai da área na America Latina, Sílvia
Tatiana Maurer Lane, professora de psicologia social no
programa de estudos pós-graduados em psicologia da
Pontifícia universidade Católica de São Paulo, explica o
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surgimento da psicologia comunitária entre nós, durante
os anos 70, como reação à opressão política e
dominação econômica e ideológica que caracterizaram o
período militar na região. Observa-se, nos relatos de
experiências na área, a tentativa de promover, em
comunidades populares, a crescente consciência da
situação de opressão e a iniciativa de ações
transformadoras autônomas que levassem em
consideração a necessária vinculação entre condições
objetivas de vida e processos psicológicos. A partir
desses relatos, a autora busca definir os principais
conceitos teóricos necessários ao trabalho do psicólogo
em comunidade, e a evolução dos modelos de atuação
no Brasil.
A seguir, Bader Sawaia, também lecionando no
programa de estudos pós-graduados da Pontifícia
universidade Católica de São Paulo, explora as origens
do próprio conceito de comunidade na história do
pensamento social. A autora analisa a evolução do
conceito como contraponto ao avanço do senso
individualista que caracteriza o capitalismo.
Acompanhando as perspectivas que informaram a
elaboração teórica da noção de comunidade na sociologia
e na psicologia, Sawaia observa como, a partir de um
ponto de vista totalitário, o conceito passa, no final do
século XX, a incorporar o sentido da resistência à
opressão e da luta pela cidadania plena.
Maria de Fátima Quintal de Freitas, docente do
mestrado em psicologia da Universidade Federal do
Espírito Santo, acompanha a evolução do conceito de
comunidade em psicologia a partir das representações e
práticas dos psicólogos, e observa que a principal fonte
de definição da área da psicologia comunitária, nos anos
60 e 70, vinculava-se a práticas comprometidas com a
perspectiva de libertação sócio-política da população. Já
no curso da década de 80 e início dos anos 90, esta
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perspectiva se modifica, a partir de transformações no
próprio sistema de saúde pública no país. Estas
transformações se tornam mais evidentes a partir da
própria mudança de denominação: a psicologia na
comunidade passa à psicologia da comunidade, tomando
como unidade de análise o grupo comunitário, e a
psicologia comunitária, que toma como objeto de análise
o sujeito construído sócio-historicamente.
Já Pedrinho Guareschi, professor no programa de
pósgraduação em psicologia social da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, convida o
leitor a compartilhar sua reflexão sobre conceitos
fundamentais da psicologia social comunitária, como os
conceitos de relações sociais, relações de dominação e
relações comunitárias, procurando demonstrar que e na
comunidade que se estruturam as relações democráticas
desejáveis.
Jacyara Nasciutti, professora no programa de pós-
graduação em comunidades e ecologia social da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, busca esclarecer
as relações entre instituições e comunidades, de um
ponto de vista psicossocial, e mostra como utilizar os
conceitos da análise institucional na análise das
instituições de saúde mental no Brasil.
Naumi Vasconcelos, também professora no
programa de pós-graduação em comunidades e ecologia
social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reflete
sobre a relação entre qualidade de vida e habitação,
focalizando especialmente o processo de ocupação do
espaço urbano e da construção de hábitos comunitários
em habitações urbanas, as relações corpo-casa, e seus
impactos sobre as representações da qualidade de vida.
Procura, assim, uma definição subjetiva de qualidade de
vida, que possa ser incorporada, como contribuição da
psicologia social, aos indicadores objetivos deste
conceito.
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Regina Helena de Freitas Campos, do programa
de mestrado em psicologia social da Universidade
Federal de Minas Gerais, trabalha sobre as relações entre
comunidade, cultura e consciência. Busca, assim, refletir
sobre como as teorias sobre os processos de construção
do conhecimento produzidas pela psicologia social podem
se aproximar das práticas da psicologia comunitária,
sobretudo no que se refere à emergência dos processos
de conscientização mencionados na literatura da área.
Esta coletânea espera contribuir para o
desenvolvimento teórico da psicologia social comunitária,
estabelecendo bases mais sólidas para os conceitos de
interesse para estudantes e profissionais da área.
BIBLIOGRAFIA
BOMFIM, Elizabeth M. ”Comum, moderna, cidade”. In:
Bomfím, E. e Machado, M. Em torno da psicologia social,
Belo Horizonte, publicação autônoma, 1987.
— ”Psicologia social, psicologia do esporte e psicologia
jurídica”. In: Achcar, R. et alii. Psicólogo brasileiro:
Práticas emergentes e desafios para a formação, São
Paulo, Casa do Psicólogo, 1994.
FREITAS, Maria de Fátima Q. Psicologia comunitária:
Professores de psicologia falam sobre os modelos que
orientam a sua prática (Tese de doutorado), São Paulo,
Pontifícia universidade Católica de São Paulo, 1994.
GÓIS, Cezar Wagner de Lima. Noções de psicologia
comunitária, Fortaleza, Edições UFC, 1993.
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