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A Jornada de Tiago em Busca da Liberdade

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Ana Rodrigues
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© All Rights Reserved
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Às vezes penso: e se eu pudesse ir mais longe…

E se eu pudesse explorar o mundo e todos os seus segredos…


E se eu pudesse voar?
Estas eram as perguntas feitas por Tiago, um menino curioso, sempre com os olhos voltados
para o céu, a observar os pássaros que planavam livremente entre as nuvens.
Este era o seu passatempo preferido: ficar a olhar para o céu enquanto a mãe tratava do jardim,
cercado pelo cheiro das flores e a brisa suave do vento. Nesses momentos, ele deixava a sua
imaginação voar junto com os pássaros.

E se eu pudesse voar? Era essa a pergunta que ecoava na minha mente, algo que
eu questionava todos os dias. Queria conhecer as montanhas mais altas, os oceanos mais
vastos, lugares que nunca vi e que existem apenas na minha imaginação.
No outro dia, na escola, eu não conseguia parar de pensar nos pássaros que cantavam e voavam
pelo pátio. A professora falava sobre os continentes e os oceanos e, de repente, surgiu-me uma
ideia. Queria fazer uma pergunta, então levantei a mão:

— Professora, para onde vão os pássaros quando voam tão alto? Eles podem atravessar o
mundo todo?

A professora sorriu e respondeu:

— Que ótima pergunta, Tiago! Sim, muitos pássaros voam longas distâncias. Isso é chamado de
migração. Algumas espécies voam milhares de quilômetros para encontrar lugares mais quentes
ou para se reproduzir. Eles cruzam oceanos e desertos, mas seguem o caminho que os seus
instintos os guiam.

Nunca tinha imaginado que os pássaros pudessem viajar até tão longe, muito menos que eles
pudessem voar sem parar por tanto tempo.

— Mas como é que eles sabem para onde ir? — perguntei intrigado.

A professora aproximou-se do quadro e desenhou uma seta longa no mapa.

— Eles orientam-se de várias maneiras: pelo sol, pelas estrelas e mais alguns fatores. E também
seguem rotas que aprendem ao longo do tempo. É um verdadeiro mistério da natureza, Tiago, e
mesmo os cientistas ainda não entendem completamente como eles conseguem fazer isso com
tanta precisão.

Fiquei em silêncio, refletindo sobre tudo o que acabei de aprender. Fiquei atento à janela da sala
de aula e ao movimento no céu. Imaginar que eles podem estar numa longa jornada, a viajar
para lugares distantes, deixou-me ainda mais fascinado.

Nesse final de tarde, um vento suave começou a soprar, abanando as árvores ao redor do jardim
de casa. O céu, com os seus tons alaranjados, parecia ainda maior que o normal.
Algumas aves migratórias cruzavam o horizonte em direção ao desconhecido. Mas lembrei-me
da seta que a professora tinha-me ensinado na aula de hoje: as aves seguiam em direção
contrária ao que a professora tinha explicado. Era algo estranho…
Então decidi explorar para onde iriam, pois talvez estivessem perdidas e precisassem de ajuda.
Entrei na floresta e caminhei durante algum tempo até que, entre os galhos das árvores, vi algo
curioso ao longe: uma torre de gaiolas.
Esta erguia-se, enorme e misteriosa, no meio da floresta, como se estivesse ali o tempo todo, à
espera de ser descoberta. A torre parecia incerta e gasta, e ao redor vários pássaros voavam
silenciosamente. Algo nela dizia que ali estava uma oportunidade, uma chance de alcançar o
céu e, quem sabe, voar…
Tinha uma escada mesmo na base da torre, ganhei coragem e comecei a subir. À medida que
subia, comecei a notar que as gaiolas ao redor estavam ocupadas por pássaros de cores e
formas diferentes. O primeiro que encontrei foi um pequeno pardal de olhos brilhantes. Ele
parecia observar cada movimento ao seu redor com curiosidade.
— Ó rapaz para onde vais? — perguntou o pardal, sem se mexer.

— Eu vou até ao topo. Quero ver o mundo de lá, quero aprender a voar — respondi, determinado.

— O que tu não sabes é que o voo começa dentro de ti, não nos teus pés ou asas. — O pardal,
com um pio suave, bateu as asas e voou, deixando uma brisa leve atrás de si. Talvez o pardal
quisesse dizer que, para voar, era preciso sonhar primeiro, visualizar o que se deseja alcançar.

Subi mais alguns degraus, refletindo sobre isso. Se eu pudesse voar, seria porque meus sonhos
me levariam até lá. Logo acima, encontrei um corvo preto, com penas brilhantes que pareciam
absorver a luz do sol. O corvo observava-me com um olhar enigmático.

— Porque é que estás a subir? — perguntou o corvo, com sua voz rouca e grave.

— Quero aprender a voar, como vocês. — respondi.

O corvo riu suavemente.

— Voar é mais do que moveres-te pelo céu. — Ele abriu as suas grandes asas, cobrindo uma
parte da gaiola. — Já observaste as estrelas à noite? Elas não se movem, mas guiam os que
estão perdidos. Voar não é apenas o movimento, mas a direção. O corvo voou silenciosamente,
desaparecendo entre as nuvens. Voar não é apenas sair do chão, mas também saber para onde
ir… Ao alcançar até um ponto mais alto subindo mais umas dezenas de degraus, encontrei uma
coruja verde sentada em um galho que crescia no meio da estrutura de gaiolas. Os seus olhos
grandes e sábios observavam tudo em silêncio.

— Queres mesmo aprender a voar? — perguntou a coruja, quebrando o silêncio com sua voz
tranquila e calma.

— Sim, mais do que tudo — respondi sem hesitar.

— Então fica a saber que voar, para alguns, não tem nada a ver com as asas. — A coruja virou
a cabeça, apontando para um livro que nem tinha notado que estava lá. — Algumas das maiores
aventuras começam na mente. É pela leitura, pelo conhecimento e pelas descobertas que muitas
pessoas "voam". Se tu leres e aprenderes, podes voar para onde quiseres, mesmo sem sair do
lugar. Abri o livro e, enquanto o folheava, lembrava-me das muitas histórias que lia com sua mãe
antes de dormir. Cada uma levava-me para terras distantes, mundos mágicos e aventuras
incríveis. A coruja estava certa. Já tinha voado tantas vezes sem dar conta.

Quando finalmente cheguei ao topo da torre, um pássaro branco, o mais bonito que eu já tinha
visto, voou para perto de mim. Pousou mesmo ao meu lado e ficou a observar-me. Aquele
pássaro parecia querer dizer algo, como se soubesse das perguntas que eram feitas no meu
pensamento. E se eu pudesse voar? — pensei, mais uma vez.
Foi então que percebi… o voo que tanto imaginava não era apenas sobre sair do chão e ganhar
asas. O que eu realmente queria era a liberdade que os pássaros pareciam ter, a liberdade de ir
além, de explorar o desconhecido e de crescer com cada nova descoberta. Mas, mais do que
isso, percebi que, de certa forma, eu já podia "voar". Eu podia explorar o mundo, assim como
tinha explorado e entrado nesta aventura, explorar tudo ao meu redor de maneiras que ainda
não tinha tentado, e cada novo dia era uma oportunidade de alcançar novos horizontes, mesmo
sem sair do chão.

Respirei fundo e olhei para o pássaro branco. Eu não tinha asas, mas, naquele momento, entendi
que não precisava delas para me sentir livre.
A liberdade estava em cada passo que escolhia dar.
Desci a montanha, a sentir-me de forma diferente, senti algo agradável perto do coração. Quando
voltei para casa e olhei novamente para o céu, em vez de invejar os pássaros, apenas… sorri.
Agora que sei que posso voar, não como um pássaro, mas que posso voar de alguma forma,
preciso encontrar as minhas próprias maneiras de explorar o mundo e todos os seus segredos.
E assim, voltei para casa, a saber que em cada dia que passa consigo voar um pouco, mesmo
que fosse com os pés fixos no chão.

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