RECURSO ESPECIAL Nº 910.
794 - RJ (2006/0273335-8)
RELATORA : MINISTRA DENISE ARRUDA
RECORRENTE : J P G B - MENOR IMPÚBERE E OUTRO
REPR. POR : NEY REIS BUSTAMANTE FILHO E OUTRO
ADVOGADO : JOÃO TANCREDO E OUTRO
RECORRENTE : MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO
PROCURADOR : MARIA LUÍZA ALKIMIM E OUTRO(S)
RECORRIDO : OS MESMOS
EMENTA
RECURSO ESPECIAL DE JPGB E OUTROS. ADMINISTRATIVO.
RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. ERRO MÉDICO. HOSPITAL
MUNICIPAL. AMPUTAÇÃO DE BRAÇO DE RECÉM-NASCIDO. DANOS MORAIS
E ESTÉTICOS. CUMULAÇÃO. POSSIBILIDADE. QUANTUM INDENIZATÓRIO
FIXADO EM FAVOR DOS PAIS E IRMÃO. RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.
1. É possível a cumulação de indenização por danos estético e moral, ainda que
derivados de um mesmo fato, desde que um dano e outro possam ser reconhecidos
autonomamente, ou seja, devem ser passíveis de identificação em separado.
Precedentes.
2. Na hipótese dos autos, em Hospital Municipal, recém-nascido teve um dos braços
amputado em virtude de erro médico, decorrente de punção axilar que resultou no
rompimento de veia, criando um coágulo que bloqueou a passagem de sangue para
o membro superior.
3. Ainda que derivada de um mesmo fato - erro médico de profissionais da rede
municipal de saúde -, a amputação do braço direito do recém-nascido ensejou duas
formas diversas de dano, o moral e o estético. O primeiro, correspondente à
violação do direito à dignidade e à imagem da vítima, assim como ao sofrimento, à
aflição e à angústia a que seus pais e irmão foram submetidos, e o segundo,
decorrente da modificação da estrutura corporal do lesado, enfim, da deformidade a
ele causada.
4. Não merece prosperar o fundamento do acórdão recorrido no sentido de que o
recém-nascido não é apto a sofrer o dano moral, por não possui capacidade
intelectiva para avaliá-lo e sofrer os prejuízos psíquicos dele decorrentes. Isso,
porque o dano moral não pode ser visto tão-somente como de ordem puramente
psíquica - dependente das reações emocionais da vítima -, porquanto, na atual
ordem jurídica-constitucional, a dignidade é fundamento central dos direitos
humanos, devendo ser protegida e, quando violada, sujeita à devida reparação.
5. A respeito do tema, a doutrina consagra entendimento no sentido de que o dano
moral pode ser considerado como violação do direito à dignidade, não se
restringindo, necessariamente, a alguma reação psíquica (CAVALIERI FILHO,
Sérgio. Programa de Responsabilidade Civil. 7ª ed. São Paulo: Atlas, 2007, pp. 76/78).
6. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 447.584/RJ, de relatoria do
Ministro Cezar Peluso (DJ de 16.3.2007), acolheu a proteção ao dano moral como
verdadeira "tutela constitucional da dignidade humana", considerando-a "um
autêntico direito à integridade ou à incolumidade moral, pertencente à classe dos
direitos absolutos".
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7. O Ministro Luix Fux, no julgamento do REsp 612.108/PR (1ª Turma, DJ de
3.11.2004), bem delineou que "deflui da Constituição Federal que a dignidade da
pessoa humana é premissa inarredável de qualquer sistema de direito que afirme a
existência, no seu corpo de normas, dos denominados direitos fundamentais e os efetive
em nome da promessa da inafastabilidade da jurisdição, marcando a relação umbilical
entre os direitos humanos e o direito processual".
8. Com essas considerações, pode-se inferir que é devida a condenação cumulativa
do Município à reparação dos danos moral e estético causados à vítima, na medida
em que o recém-nascido obteve grave deformidade - prejuízo de caráter estético - e
teve seu direito a uma vida digna seriamente atingido - prejuízo de caráter moral.
Inclusive, a partir do momento em que a vítima adquirir plena consciência de sua
condição, a dor, o vexame, o sofrimento e a humilhação certamente serão
sentimentos com os quais ela terá de conviver ao longo de sua vida, o que confirma
ainda mais a efetiva existência do dano moral. Desse modo, é plenamente cabível a
cumulação dos danos moral e estético nos termos em que fixados na r. sentença, ou
seja, conjuntamente o quantum indenizatório deve somar o total de trezentos mil
reais (R$ 300.000,00). Esse valor mostra-se razoável e proporcional ao grave dano
causado ao recém-nascido, e contempla também o caráter punitivo e pedagógico da
condenação.
9. Quanto ao pedido de majoração da condenação em danos morais em favor dos
pais e do irmão da vítima, ressalte-se que a revisão do valor da indenização
somente é possível quando exorbitante ou insignificante a importância arbitrada.
Essa excepcionalidade, contudo, não se aplica à hipótese dos autos. Isso, porque o
valor da indenização por danos morais - fixado em R$ 20.000,00, para cada um dos
pais, e em R$ 5.000,00, para o irmão de onze (11) anos, totalizando, assim, R$
45.000,00 -, nem é irrisório nem desproporcional aos danos morais sofridos por
esses recorrentes. Ao contrário, a importância assentada foi arbitrada com bom
senso, dentro dos critérios de razoabilidade e proporcionalidade.
10. Recurso especial parcialmente provido, apenas para determinar a cumulação
dos danos moral e estético, nos termos em que fixados na r. sentença,
totalizando-se, assim, trezentos mil reais (R$ 300.000,00).
RECURSO ESPECIAL ADESIVO DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO.
PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL.
REVISÃO DO VALOR DA INDENIZAÇÃO. INVIABILIDADE. SÚMULA 7/STJ.
RECURSO NÃO-CONHECIDO.
1. O recurso especial adesivo fica prejudicado quanto ao valor da indenização da
vítima, tendo em vista o exame do tema por ocasião do provimento parcial do
recurso especial dos autores.
2. O quantum indenizatório dos danos morais fixados em favor dos pais e do irmão
da vítima, ao contrário do alegado pelo Município, não é exorbitante (total de R$
45.000,00). Conforme anteriormente ressaltado, esses valores foram fixados em
patamares razoáveis e dentro dos limites da proporcionalidade, de maneira que é
indevida sua revisão em sede de recurso especial, nos termos da Súmula 7/STJ.
3. Recurso especial adesivo não-conhecido.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os
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Ministros da Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça: A Turma, por maioria,
deu parcial provimento ao recurso especial dos autores, vencido o Sr. Ministro Luiz
Fux, que lhe dava provimento integral, e, por unanimidade, não conheceu do recurso
adesivo do Município do Rio de Janeiro, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora.
Os Srs. Ministros Benedito Gonçalves, Francisco Falcão e Teori Albino Zavascki
votaram com a Sra. Ministra Relatora. Sustentou oralmente o Dr. João Tancredo, pela
parte recorrente: J. P. G .B - Menor Impúbere e Outro. Manifestou-se pelo Ministério
Público Federal a Exma. Sra. Dra. Célia Regina Souza Delgado, Subprocuradora-Geral
da República.
Brasília (DF), 21 de outubro de 2008 (Data do Julgamento).
MINISTRA DENISE ARRUDA
Relatora
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