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Amor e Segredos no Palácio

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— Por que você não me contou?

— Eu sussurrei para Aspen, minhas


palavras mal audíveis por cima do zumbido do avião.

De repente ele tinha se tornado inalcançável novamente. Eu poderia


listar a idade e as peculiaridades de todos os seus irmãos, contar a
história por trás da longa cicatriz em seu braço e explicar com detalhes
o quanto ele sentia falta de seu pai. Mas agora que eu sabia a verdade,
tudo isso parecia falso. Apesar de três semanas de longas conversa e
beijos escondidos, era quase como se eu não o conhecesse, no fim das
contas.

Eu brincava com uma parte do meu uniforme. Depois dos vestidos


bonitos que eu usei na casa dos Singer – mesmo as roupas antigas da
minha senhorita – meu uniforme parecia muito mais grosseiro.
Sempre apertado, sempre engomado, sem espaço para brincar, dançar
ou muito menos abraçar. Apenas mais uma jaula.

— Temi colocá-la numa situação esquisita.

Eu podia dizer que havia mais do que ele queria dizer. Ele geralmente
era tão confiante e essa era uma das coisas que havia me atraído nele
– e uma das nossas mais admiráveis diferenças. De muitas maneiras,
eu achava que erámos semelhantes. Dedicados ao extremo, o tipo que
os outros subestimariam pois levávamos tempo formando nossos
pensamentos; o tipo que mantinha partes próprias escondidas na
escuridão. Mas ele era seguro de si. Corajoso. Tomava riscos. Eu
queria ser tão corajosa quanto ele.

Tão corajosa quanto a senhorita América.

O primeiro amor dele?

Eu arrisquei dar uma olhada no rosto dele e pude ver o


desapontamento.

— Me apaixonar por você foi a última coisa que eu esperava que


acontecesse — ele disse — e eu já perdi alguém que era especial para
mim uma vez.

Olhei para o corredor. Eu podia ver apenas parte do cabelo da


senhorita e o dedo aflito dela desenhando um oito de novo e de novo.
Especial para mim.

Voltei-me para ele, enquanto ele continuava.

— Eu não achei que você gostaria de ficar comigo se soubesse que a


última garota com quem me importei era a mesma que você veste
todas as manhãs.

Lágrimas brotaram nos meus olhos, mas lutei contra elas. Eu tinha
sido derrotada por elas ultimamente. E tinha que agradecer Aspen por
isso.

— Eu te contei tudo — eu respirei, ainda afastando a dor. — Foi


assustador te deixar saber quão próxima eu tinha estado da felicidade
antes, quão partida eu tenho estado no palácio, como esperar por você
arruinou meu relacionamento com Anne e Mary.

— Elas não têm nada a ver com a gente. — Ele rebateu rapidamente.

— Elas têm tudo a ver com a gente. Assim como ela — adicionei,
acenando na direção da senhorita America. — Assim como sua família,
o príncipe e meu o pai. Porque nós vivemos nossas vidas com eles,
Aspen. Você não pode ter um relacionamento em uma bolha. Isso não
pode sobreviver.

Aspen piscou algumas vezes, como se isso o tivesse atingido em seus


cantos mais remotos. Ele sacudiu a cabeça.

— Você está certa. E é por isso que você tem que saber: não importa o
quanto eu quisesse que desse certo na época, o relacionamento com a
América não teria durado. Ele nunca veria a luz do dia.

— Nem o nosso — eu suspirei, me recusando a desviar o olhar.

Ele e eu precisávamos confessar tudo o que nós éramos e tudo que


tínhamos construído – e quão rapidamente estava desmoronando.

— Eu achei que fosse melhor assim. A princípio, de qualquer maneira.


Mas não quero mais que isso fique desse modo.

Eu estava tão cansada de desculpas. Elas pareciam cair em cima de


mim de todos os lugares. Você não pode se apaixonar por causa da sua
casta. Você não pode ficar com sua mãe porque ela está doente. Você
não pode se sentir segura porque mesmo o palácio não é o bastante
para proteger você. Um motivo idiota atrás do outro construindo uma
parede entre mim e a vida com qualquer tipo de alegria.

— O que eu posso fazer, Lucy? — ele implorou baixinho. — Me diga o


que você quer.

Virei-me para ele.

— A verdade.

Aspen sentou-se, apoiando-se. Eu não sabia se havia uma pergunta em


particular que ele tivesse medo de ouvir, mas comecei com a que eu
tinha mais medo de perguntar.

— Você ainda a ama?

Ele começou a balançar a cabeça quase instantaneamente, mas eu o


parei.

— Não me diga o que você acha que eu preciso ouvir, não tente me
proteger. Me diga tudo.

Um guarda colocou sua cabeça para fora algumas filas atrás, e eu me


aquietei novamente, olhando para Aspen e esperando.

Ele engoliu em seco.

— Acho que uma parte de mim sempre vai amá-la. Eu não posso
deixar o desejo de lutar por ela, de resgatá-la. Não sei se é um amor
romântico, mas sei que está aqui. E eu sei que quando o príncipe se
casar com ela, o que estou certo de que ele vai fazer agora, não
aceitarei isso bem. Porque é muito difícil ver algo que você queria
tanto simplesmente desaparecer.

Eu abaixei minha cabeça. É claro.

— Mas eu também sei — ele continuou — que se ela quiser ficar


comigo de novo, eu passarei todos os dias lembrando-me desse
momento e me perguntando “e se?” sobre você. Levou anos para ela
ter algum efeito em mim. Levou semanas para você.

Senti minhas bochechas corarem. Eu queria muito acreditar que eu


tinha me ligado tão firmemente a ele como ele tinha se ligado a mim.

— Ela tentaria? Ela pediria para voltar com você?


Na casa dela, a senhorita America gritara que seu relacionamento
com Aspen tinha ficado no passado. Mas se era verdade, por que
ambos estavam tão deslocados sobre isso?

Ele considerou.

— Não. Ela vai se casar com o príncipe.

Inclinei-me.

— Essa escolha é de Sua Majestade, não dela. Você está assumindo


que o príncipe Maxon vai pedi-la em casamento. E se não pedir? Ela
iria querer você então? Ela tem algum motivo para acreditar que você
estará esperando?

Eu podia dizer pelo olhar nos olhos dele que ele não queria responder
essa. Finalmente ele acenou.

Eu me afastei, me pressionando no assento. Anne estava certa. Eu


mirei muito alto.

— Lucy — suplicou ele — Lucy olhe para mim.

Sua voz era suave, cheia de nossos segredos. Ela me implorava para
não ir embora. E eu senti tudo isso. A maneira como ele me fazia rir e
a sensação de seus dedos fazendo cócegas em meu rosto. O mel e
cascalho no som de sua voz no meu ouvido e as piscadelas rápidas que
ele me lançava sorrateiramente nos corredores.

Convoquei todos os últimos fragmentos de força que eu tinha e olhei


para ele.

— Por favor, senhor, não fale comigo de maneira tão íntima. Eu não
desejo me envolver com um homem comprometido.

Com a respiração irregular, lutei para me manter em inteira. Encarei


a janela, observando como perseguíamos a luz do dia na direção de
casa. Eu não queria pensar sobre as complicações de nossas vidas
juntos, então me concentrei neste momento, aqui e agora. Se eu
apenas colaborar com cada minuto, eu posso vencê-los.

— Lucy — suplicou ele — eu prometo a você, vou corrigir isso. Vou


corrigir agora.

Ouvi-o ficar de pé, e observei com os olhos arregalados enquanto ele


caminhava para a minha senhorita. Agora? O que ele diria a ela
agora? Ele ia contar a ela sobre nós? Será que ela me odiaria?

Não, ela não podia. Eu estive ao lado dela durante meses. Eu cuidei
dela apesar dos constrangimentos e da perda de sua melhor amiga.
Eu tinha me sacrificado por ela, e ela tinha feito o mesmo por mim.
Nenhuma outra garota da Elite teria pensado em arrastar suas
criadas para área segura reservada para a família real. Senhorita
America não pensou duas vezes. Coloquei minha cabeça em seu
ombro na noite em que ela fez sua apresentação. Ela me vestiu com as
roupas dela como uma irmã. Ela me defendeu.

Meu coração acelerou com a esperança impossível – minha senhorita


poderia alegrar-se por mim.

Por um breve momento, eu estava consumida com uma antecipação


brilhante. Talvez eu não tenha sido infeliz por nada!

Ouvi um som abafado quando alguém se sentou. Era Aspen, uma


fileira atrás de mim e do outro lado do corredor. Ele não olhou para
mim. Ele não fez nada.

Então ele não estava livre. E nem eu.

Dentro do palácio, fiquei atrás da minha senhorita, grata por alguém


ter vindo com o casaco dela. Fiquei com medo do que ela poderia ver
em meus olhos se eu me aproximasse muito.

Aspen afastou-se para falar com um oficial superior, e a senhorita


America foi escoltada para uma recepção de boas-vindas.

Ninguém notou quando entrei no Grande Salão. De lá, eu poderia sair


para o corredor por uma porta lateral e voltar a ser invisível.

Tentei não me deixar ficar muito desapontada. Pelo menos eu tinha


uma casa. Meu pai ainda estava por perto. Eu experimentei o amor
duas vezes na minha vida. Não durou, mas era mais do que Mary ou
Anne já haviam tido.
Eu deveria ser grata.

Mas estava cansada de ser grata por uma vida meio vivida.

Fiz meu caminho escada abaixo, notando quando cheguei ao fim que o
salão comum estava vazio. Finalmente, eu estava sozinha. Caí em uma
das antigas cadeiras, frágil e surrada, e deixei as lágrimas virem.
Enterrei meu rosto nas mãos, tentando bloqueá-las e soltá-las ao
mesmo tempo. Deus, isso dói. Dói pensar nos lábios dele nos meus, de
todas as possibilidades que ele tinha sussurrado para mim nos
cômodos escuros. Ele parecia tão real, tão possível.

Mas eu estava brincando comigo mesma. Tinha sido tão fácil me


agarrar a ele após anos de tristeza, como a luz da Estrela do Norte à
noite.

Não era para ser. Não para alguém como eu.

Não importa.

Era hora de me livrar da esperança a qual eu havia me agarrado e


abraçar o que estava a minha frente. Eu trabalharia como criada até
que eu não fosse considerada bonita o suficiente ou apta o suficiente
para ser um dos rostos no palácio. Quando isso acontecesse, eu me
juntaria ao pessoal da lavanderia. Cuidaria de papai até que ele se
fosse, e dedicaria minha vida a serviço da coroa. Isso era tudo que eu
tinha.

— Lucy.

Tirei minha cabeça das mãos. Aspen esgueirou-se até mim. Enxuguei
minhas lágrimas, levantei e comecei a caminhar em direção ao
alojamento das criadas.

— Por favor, me deixe em paz. Isso só vai piorar as coisas.

— Eu tentei falar com ela, mas ela está com medo de enfrentar
Maxon. Ela não estava pronta para ouvir. De manhã, eu me certificarei
de que ela saiba que eu segui em frente.

— Se você se importa afinal de contas, não faça isso comigo. Eu já


tenho passado por coisas o suficiente. Não preciso de outra mentira.

Eu cheguei ao meio do salão antes que Aspen agarrasse meu braço,


me forçando a encará-lo.
— Isso não é mentira, Lucy.

Eu queria acreditar, aceitar o olhar nos olhos dele como verdade. Mas
se ele tinha guardado o segredo – e ele tinha prometido uma vez que
consertaria e falhou – como eu poderia acreditar?

— Eu vou te odiar para sempre por ter partido meu coração — eu


jurei. — Mas sabe o que é pior?

Aspen balançou a cabeça.

— Que eu vou te amar para sempre, também. Você salvou minha vida.
Eu estava desmoronando, e você deteve isso. Essa é a pior parte.

Ele encarou, boquiaberto.

— Como? Como eu te salvei?

Eu dei de ombros.

— Salvando. Ambos perdemos os pais e tivemos que nos contentar


com quase nada. Você tem visto os rebeldes de perto. Eu tenho sido
forçada a guardar tantos segredos. Mas você não deixou isso te
abater. Eu achava que se você podia se manter forte, eu também
podia.

Eu espiei, me odiando por esperar tanto para ver o rosto dele. Fiquei
chocada quando encontrei os olhos dele transbordando de lágrimas.

— Minha mãe nasceu como uma Quatro — ele confessou. — Ela


desistiu de tudo para ficar com meu pai. Às vezes eles falavam como
eles começaram o casamento deles – sem teto, mas com sorrisos em
seus rostos. — Ele balançou a cabeça, seus lábios quase formando um
sorriso. — Ele desistiu de muito por ela. Ele usava sapatos com solas
desgastadas, mas sempre comprava para ela uma laranja. Ela adora
laranjas. Quando ele deveria ir trabalhar e ela estava doente, ele fazia
o trabalho dos dois, mesmo se isso significasse ficar dias sem dormir.

“E mamãe? A família dela a abandonou. Ela deixou uma vida limpa e


segura por um apartamento abarrotado de crianças. Então ele morreu
e ela continuou se sacrificando.”

Ele parou. Talvez triste por ela e pelo pai dele. Talvez triste por ele
mesmo.

Vendo que o ligeiro tremor em seus lábios era demais para mim, eu
não pude me impedir de chorar de novo.

— Então — ele continuou — esse é o único tipo de amor que eu já


entendi. Quando você ama alguém, você se sacrifica. E eu me recuso a
deixar alguém fazer isso por mim — ele insistiu, apontando para seu
peito. — Eu queria ser o herói. America e eu discutíamos o tempo todo
por causa disso. E ela estava pronta para descer uma casta por mim,
mas eu não poderia deixá-la. Eu queria dar tudo, prover tudo, toda a
proteção. Para descobrir que eu tinha feito isso, não tendo feito nada,
no fim das contas. — Ele levantou os braços e os deixou cair. Como se
estivesse cansado. — E você provavelmente não faz ideia, — ele
murmurou — que você tem feito o mesmo por mim.

Ele estava desfocado através das minhas lágrimas.

— O que você quer dizer?

Ele laçou seus dedos com os meus.

— Todo dia você diz ou faz alguma coisa que me desafia, me muda.
Você acha que anda, Lucy? Eu acho que você voa. Você se vê em um
uniforme? Eu te vejo em uma capa. Você é uma heroína, da natureza
mais tranquila, mas a mais genuína.

Olhei fixamente para o chão. Ninguém falava de mim desse jeito. Eu


era apenas uma criada. Eu era apenas uma Seis. Eu não tinha
importância.

Senti seus dedos deixarem minhas mãos e irem para meu queixo, me
pedindo – não, me forçando – a olhar para ele. Eu olhei.

— É por isso que você não pode desistir. Heróis não desistem.

Eu tentei esconder um sorriso, mordendo a parte interna das minhas


bochechas.

— Você tem me tornado melhor. E eu quero ser melhor para você. Eu


quero ser melhor com você.

Fiquei na ponta dos pés, pressionando minha testa na dele.

— Mas você já é bom o bastante, Aspen. Assim como você é.

Sua respiração ficou presa.

— Isso quer dizer que eu estou perdoado?


— Eu quero ser sua. Você sabe disso. Desde o começo você soube.

Ele sorriu, e havia algo malicioso em seu sorriso.

— Verdade. Eu nunca vou esquecer.

— Nem eu.

Poucas horas depois do anúncio da senhorita America ter decidido


que ficaria no palácio e que iria lutar, eu decidi lutar também. Quando
encontrei Aspen em sua ronda naquela noite, fiz um convite
atrapalhado para comer comigo. Ele parecia tão chocado que eu
quase virei e corri... mas então ele disse sim. Eu tinha estado a frente
de tudo desde então. Minhas aflições, minhas esperanças, meus
sentimentos.

Aspen, por outro lado...

Me afastei e olhei profundamente nos olhos dele.

— Eu te amo, Aspen. Eu sei disso mais firmemente do que sei


qualquer outra coisa sobre mim. Mas não posso ficar com você se
você ainda está conectado com a senhorita America.

Ele acenou.

— Eu sei que eu disse que sempre fui atraído por ela, e eu quis dizer
isso. Nós temos estado muito próximos para eu não me sentir assim.
Mas tudo que eu sou é seu. E eu lhe prometo: amanhã de manhã,
aconteça o que acontecer, eu vou fazer isso direito.

Eu não duvidava dele. Eu podia perdoar seus erros, e ele perdoaria a


minha raiva, mas amanhã nós começaríamos de novo.

Porque, realmente, havia tanto tempo.

— Por favor, não me decepcione. — Eu suspirei.

— Nunca! — Ele jurou, baixando sua boca na minha.

Eu queria ficar lá a noite toda, segurando-o, sentindo a promessa


estabelecer-se. Aspen me segurou contra ele e o mundo inteiro
parecia bonito e seguro.

Um pequeno assovio chamou nossa atenção.


— Oh, olá, soldado Avery, — eu gaguejei afastando-me e alisando meu
vestido. — O soldado Leger e eu, uh, nós estávamos... uh...

Eu espiei Aspen, mas ele estava apenas sorrindo.

— Olha, eu previa isso semanas atrás, então você não tem que
explicar nada para mim. — O soldado Avery disse, rindo, enquanto
atravessava o salão comum.

— Está indo dormir? — Aspen perguntou a ele.

Ele acenou o braço em volta d espaço vazio.

— Você não sabe? Estamos todos de plantão. Eu esqueci meu cinto,


então estou indo pegar e vou direto para o meu posto. O anúncio vai
acontecer pela manhã, então todos estão trabalhando.

Eu cobri minha boca, chocada, entusiasmada e aterrorizada ao mesmo


tempo. Nós teríamos uma nova princesa amanhã!

— Sei que acabou de voltar, mas você está escalado esta noite para
proteger a senhorita America. — Avery deu um simpático tapinha no
ombro de Aspen antes de ir para o seu quarto e ficar fora do alcance
da voz.

Aspen olhou para mim.

— Acho que significa que eu vou cuidar disso bem cedo.

Eu ri, sentindo que nada poderia me segurar, nem os muros do palácio


ou a costura do meu vestido.

— Eu te amo, Lucy. Você cuida de mim e eu cuido de você?

Não era uma promessa, mas um convite. E eu acenei minha cabeça,


aceitando, e entrando em um futuro maior do que qualquer um de nós
poderia ter esperado.

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