EAD
Qualidade no
Desenvolvimento do Software
1. OBJETIVOS
• Entender o conceito de qualidade no contexto computacional e a sua influência no de-
senvolvimento e na utilização do software.
• Conhecer e aplicar algumas normas para desenvolver software com qualidade.
• Apresentar um framework que contém algumas normas e indicar quando cada uma
delas deve ser considerada no desenvolvimento do software.
2. CONTEÚDOS
• Qualidade no desenvolvimento do software e seus fatores.
• Framework e as qualidades existentes em um software.
• Barreiras para a falta de qualidade no uso.
3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que você leia as orientações a se-
guir:
1) Leia os livros da bibliografia indicada para que você amplie seus conhecimentos sobre
formas de desenvolver sistemas com qualidade. Leia o material didático atentamente
e discuta a unidade com seus colegas de curso e com o tutor.
2) Visite o site da ISO – International Organization for Standardization. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 06 jul. 2010 e investigue o que são
normas e algumas das normas existentes para o desenvolvimento de software. Não
56 © Interface Humano-Computador
se limite apenas a esse site, explore a web e toda a sua riqueza de informação sobre
esse assunto.
3) Antes de iniciar os estudos desta unidade, pode ser interessante conhecer um pouco
das normas de qualidade existentes para o desenvolvimento de software, consideran-
do a usabilidade.
4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Se preocupar em entender os fatores humanos e a evolução da interação humano-compu-
tador permite ao projetista planejar e desenvolver um software adequado para o usuário, pois
ele pode utilizar esse conhecimento não apenas para adequá-lo às necessidades computacio-
nais de um usuário, mas também para desenvolver o software, considerando sua linguagem e
suas limitações tanto físicas quanto cognitivas, bem como outras características que diretamen-
te influenciam a forma que ele o utiliza.
Dessa forma, podemos dizer que todo o conhecimento adquirido por meio da leitura da
história da IHC possibilita ao projetista entender e evitar os erros já cometidos e, assim, aprovei-
tar as estratégias e os casos de sucesso obtidos anteriormente. Outra vantagem é que, conhe-
cendo o passado, o presente torna-se mais compreensível, e o futuro, menos imprevisível.
Não se preocupe se, ao ler a frase anterior, você estiver se perguntando a respeito da
responsabilidade de pensar sobre o que ainda está por vir, afinal, a área da computação, muitas
vezes, é realmente imprevisível, mas, na maioria das vezes, toda a invenção ou ideia tem um
processo, e entendê-lo é importante. Quanto mais você conhecer esse processo, maior será a
possibilidade de vislumbrar o seu resultado.
Procuramos conhecer cada vez mais não apenas da área computacional, mas também de
todas as outras áreas que a IHC envolve para desenvolver softwares com qualidade. Este é um
grande desafio que temos a partir do momento que estamos envolvidos nessa tarefa.
Se você pensar bem, não é apenas no desenvolvimento do software que a qualidade é
um quesito fundamental. É possível perceber que, em todas as áreas e no desenvolvimento de
todos os produtos, a busca por qualidade é sempre um objetivo. Garantir qualidade em um pro-
duto é ter a certeza de que ele estará adequado, funcional e, possivelmente, nesse caso, haverá
garantia de sucesso com a clientela.
5. QUALIDADE E SEUS FATORES
A qualidade está diretamente relacionada com vários fatores; dentre eles, estão o público-
alvo que se deseja atingir com o produto e com o planejamento que a empresa e/ou projetista
realizou antes de desenvolvê-lo. Por exemplo, imagine duas lojas de confecções de roupas, a
primeira tem como público-alvo pessoas de baixa e média renda e a segunda tem como público-
alvo pessoas de alta renda. Observe que, cada empresa tem um público-alvo diferenciado e,
dessa forma, o planejamento também se difere, embora o objetivo seja o mesmo, ou seja, ven-
der roupas. Existem algumas diferenças, uma delas é o valor que se deseja atribuir ao produto
e, este valor tem de estar de acordo com o público-alvo, afinal, há a necessidade de desenvolver
algo em um valor que seja acessível ao público-alvo desejado.
Nesse contexto, a partir do momento em que se definiu o público-alvo e pensou no valor,
há a necessidade de definir e estabelecer a qualidade do produto a ser vendido. Observe que,
nesse caso, a qualidade é influenciada pelos dois fatores citados anteriormente, pois eles estão
© U3 – Qualidade no Desenvolvimento do Software 57
diretamente relacionados em quais serão os materiais adquiridos, na forma que as roupas serão
fabricadas, entre outros detalhes.
Você pode estar pensando que, com certeza, a empresa que tem o público-alvo de maior
renda possui produtos com mais qualidade. De maneira geral, você está com a razão, pois have-
rá a possibilidade de se investir mais nos materiais etc., mas se pensarmos de forma específica,
considerando o público-alvo, as duas empresas vendem produtos de qualidade.
Cada empresa planejou e desenvolveu algo de acordo com o seu público-alvo e, possivel-
mente, esse público está satisfeito em comprar e usar as suas roupas, pois elas, de alguma for-
ma, estão acessíveis e foram planejadas para atendê-los da melhor forma possível. Vale ressaltar
que, nesse exemplo, foram citadas duas empresas hipotéticas que possuem responsabilidade e
que têm como objetivo produzir produtos de maneira eficiente e eficaz.
Esse exemplo foi utilizado para você perceber o quão difícil é definir e avaliar qualidade,
pois o que pode ser qualidade para um, não é para outro. A qualidade é um quesito um tanto
subjetivo, mas fundamental em todo o processo e, especialmente, no produto final. Devido à
subjetividade e à importância desse assunto em muitas áreas, surgiram tentativas comuns para
de alguma forma garantir e/ou atribuir qualidade.
Uma dessas formas criadas foi a ISO – International Organization for Standardization –,
que é uma entidade que estabelece padrões ou normas mundiais que devem ser seguidas para
garantir qualidade (BEVAN, 1999).
Existem normas para diversos contextos, como saúde, computação, entretenimento etc.,
e em diversos níveis do projeto como planejamento, desenvolvimento, produção, instalação,
serviços associados etc. (ISO_A, 2010).
Devido à rigorosa forma em definir as normas e pelo fato de cada uma ser adaptativa de
modo a atender as necessidades mundiais, a ISO tornou-se um padrão adotado em todo o mun-
do, tanto que, hoje, a adoção da ISO significa que a empresa, produto etc. possui os requisitos
de qualidade ideal.
Por ter sua eficiência e eficácia comprovada e por ser algo conhecido e adotado em todo
o mundo, há, nesta unidade, uma discussão sobre algumas ISOs existentes para o desenvolvi-
mento de software. É fundamental o conhecimento dessas ISOs, pois permitirá a você pensar e
adotar normas que são utilizadas e exigidas em todo o mundo e, uma vez atendidas, há a pos-
sibilidade de você garantir qualidade no que está desenvolvendo. Assim, algo que até então era
subjetivo e difícil de mensurar será mais "palpável" e viável de se avaliar.
Como citado anteriormente, há várias normas, e cada uma é identificada por um número.
Por exemplo, existem ISO 8402 com normas para estabelecer a capacidade de um item desem-
penhar uma função requerida (BEVAN, 1999) ISO 14000 com um conjunto de atributos que têm
impacto na capacidade do software de manter o seu nível de desempenho etc. (ISO_B, 2010). E
cada norma é para algo específico, por isso, para o desenvolvimento de um software, há diver-
sas normas que devem ser consideradas.
A variedade de normas existentes faz que os profissionais envolvidos nesse processo te-
nham dificuldade em conhecer e aplicar essas normas; no entanto, existe uma pesquisa publica-
da por Nigel Bevan que estabelece uma estrutura dividida por parte (BEVAN, 1999). Cada uma
representa uma etapa importante no desenvolvimento do software e, para cada parte, possui
um conjunto de ISOs que deve ser considerado.
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58 © Interface Humano-Computador
Essa estrutura, que Bevan (1999) chama framework, será discutida nesta unidade por ser
algo que enfoca muitos detalhes importantes, os quais estão relacionados com as etapas do
desenvolvimento do software, especialmente na interface. É importante que você compreen-
da que essa unidade não descreve em detalhes todas as normas existentes, pois isto pode ser
encontrado em muitos lugares na literatura. O principal objetivo que temos é apresentar como
garantir qualidade em cada etapa do desenvolvimento do software e a influência que a Intera-
ção Humano-Computador tem para se ter um software de qualidade.
6. FRAMEWORK E AS QUALIDADES EXISTENTES EM UM SOFTWARE
Antes de iniciarmos a discussão sobre como atribuir qualidade ao software, é importante
entendermos esse conceito no contexto computacional. Segundo Bevan (1999), qualidade é um
conjunto de características para satisfazer as necessidades explícitas e implícitas; assim, de algu-
ma forma, quando você se preocupa com a qualidade, está considerando além das necessidades
relatadas pelo usuário.
Bevan (1999), em seu framework, descreve três tipos de qualidade – como ilustrado na
Figura 1 –, que são: Qualidade Interna, Qualidade Externa e Qualidade no Uso. Cada qualidade
está relacionada com uma norma: Qualidade Interna – ISO/IEC 9126-3; Qualidade Externa – ISO
/IEC 9126-2 e; Qualidade no Uso – ISO/IEC 9126-4.
Figura 1 Relação entre a Qualidade Interna, Externa e no Uso (BEVAN, 1999, p. 3).
Agora veremos em que consiste cada qualidade de acordo com Bevan, 19
Qualidade Interna considera a inspeção na especificação ou nos requisitos e no código
fonte. De maneira geral, há a preocupação de avaliar a forma com que o programa foi imple-
mentado (linguagem, organização, documentação etc.) e, se essa implementação foi realizada
considerando os requisitos, ou seja, se o que foi implementado está de acordo com o que foi
planejado, em outras palavras, se está de acordo com as necessidades do usuário.
Qualidade Externa descreve a importância de analisar o comportamento do código quan-
do ele é executado. Dentre as preocupações, estão observar se o software gera resultados pre-
cisos ou dentro do esperado; sua capacidade de interagir com os outros sistemas de acordo com
© U3 – Qualidade no Desenvolvimento do Software 59
o especificado; frequência de falhas; capacidade do produto para manter determinados níveis
de desempenho mesmo na presença de problemas; capacidade do software para restabelecer o
nível de desempenho desejado e recuperar dados em caso de ocorrência de falha etc.
Qualidade no Uso envolve o usuário diretamente, pois é necessário observar o efeito do
software em um determinado contexto de uso. É preciso verificar a facilidade que o usuário terá
para reconhecer as funcionalidades existentes no software e a forma com que cada uma delas
será utilizada por ele, bem como observar a facilidade encontrada pelo usuário para aprender a
utilizar o produto com todas as suas características.
É importante que você entenda que, apesar dessas qualidades estarem descritas sepa-
radamente, elas estão relacionadas diretamente, como pode ser observado na Figura Não há
possibilidade de garantir Qualidade no Uso se não há Qualidade Interna e assim por diante, uma
vez que as funcionalidades, a interface e todas as outras características que o usuário tem aces-
so, enquanto está interagindo com o sistema, advém dos requisitos definidos, e todos esses tem
de estar implementados no software (Qualidade Interna). Contudo, de nada adianta se tudo
estiver implementado se não estiver funcionando de maneira adequada (Qualidade Externa);
tudo o que está no software tem que agir de acordo com o esperado e estar visível, para que o
usuário, ao interagir com o sistema, possa identificar suas funcionalidades e conseguir utilizá-las
de forma amigável (Qualidade no Uso).
Figura 2 Relação entre as qualidades (BEVAN, 1999, p. 4).
Ao considerar essas três qualidades em todo o processo de desenvolvimento do software,
você estará agregando a ele algumas características necessárias para garantir o sucesso de sua
aplicação. De acordo com Bevan (1999), algumas dessas características são:
1) Aumento da eficiência – capacidade para atender todas as necessidades do usuário,
ou seja, a garantia de que, no software, existem todas as funcionalidades desejadas
pelo usuário e observadas durante o levantamento de requisitos. E, como um dos
principais objetivos de utilizar um sistema computacional é realizar uma determinada
tarefa de modo mais fácil e automática, espera-se que o software seja capaz de auxi-
liar o usuário em todas as tarefas, permitindo a ele realizá-las de uma maneira mais
eficiente, pois o que antes era trabalhoso e difícil agora tem de ser intuitivo, simples
e rápido.
2) Melhora na produtividade – possibilidade de estender as capacidades do usuário.
Observe que o uso do sistema computacional é como se fosse qualquer outro instru-
mento para apoiar o usuário na realização de suas atividades. Por exemplo, até um
tempo atrás, era muito comum utilizar um prego e um martelo para fazer um furo
na parede. Apesar desses equipamentos ainda serem utilizados atualmente, hoje em
dia há a possibilidade de utilizar uma furadeira para realizar a mesma tarefa. O que
muda com esse novo instrumento? A facilidade de furar a parede, o menor esforço em
executar essa tarefa e o aumento da produtividade, pois o usuário poderá fazer uma
quantidade maior de furos em menos tempo e com menor esforço. A mesma ideia
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pode ser aplicada com o uso do computador, afinal, a ideia é que, com a facilidade e
agilidade de realizar uma determinada tarefa, o usuário consiga fazer muito mais, da
melhor forma, em menos tempo. Por isso, é comum dizer que há a possibilidade de
estender a capacidade do usuário, pois ele já é capaz de realizar uma determinada
tarefa; o software apenas irá aprimorar a forma com que ela é realizada.
3) Redução de erros – permite ao usuário realizar uma determinada tarefa de forma cor-
reta. Quando o sistema é intuitivo, fácil de ser compreendido, enfim, quando possui
uma interface de qualidade, o usuário consegue fazer tudo o que precisa sem dificul-
dades. Uma boa interface possui uma linguagem comum e fácil de ser entendida pelo
usuário, e não há alguns erros comuns em interfaces, como inconsistências e ambigui-
dades. Sem esses erros, não haverá vários caminhos para o usuário atingir a sua meta,
e isso permitirá que o usuário não fique perdido, bem como que toda a informação
que for exibida por meio da interface será exata. Assim, não haverá redundâncias ou
palavras de duplo sentido.
4) Redução no treinamento – capacidade de utilizar o sistema sem esforço cognitivo.
Essa é uma característica que, até pouco tempo, não era tão citada quanto deveria,
uma vez que os projetistas e desenvolvedores estavam mais preocupados no tempo
e nos gastos que ocorriam durante todo o processo de desenvolvimento do softwa-
re até a sua entrega ao usuário, e poucos se preocupavam em como o sistema seria
utilizado depois, qual seria a dificuldade do usuário em realizar a tarefa etc.; enfim,
a preocupação era enquanto o software estava nas mãos deles, e não nas mãos dos
usuários. Isto é algo que, hoje em dia, tem de ser levado em consideração, pois, a
partir do momento em que você se responsabilizou por algo, é necessário ter o com-
prometimento e a responsabilidade com ele em qualquer lugar que esteja. Quando
a interface é difícil de ser compreendida mesmo tendo todas as funcionalidades, o
usuário não consegue utilizar o sistema com muita facilidade, e, na maioria das vezes,
isto significa que um dos participantes do desenvolvimento do software terá de se
responsabilizar em explicá-lo para o usuário, algo que, em alguns casos, pode demorar
de horas até dias. Observe que qualquer profissional longe da empresa ou de seu am-
biente de trabalho significa aumento de custos ou diminuição da produtividade, pois o
que ele fazia antes você terá de pagar outro para fazer ou ele terá de fazer menos para
se dedicar mais tempo ao usuário. Podemos perceber que a descrição ilustra alguns
pontos negativos para os profissionais ligados ao desenvolvimento; no entanto, para
o usuário, há muitos outros pontos negativos que podem até ser considerados piores
e que influenciarão o relacionamento entre profissionais e usuário, pois, a partir do
momento em que o usuário contratou profissionais para realizar um desenvolvimen-
to, ele espera que tenha, no final, algo de qualidade, e se os resultados previstos não
forem alcançados, o usuário poderá mudar sua opinião sobre o profissionalismo das
pessoas e suas capacidades relacionadas ao desenvolvimento; o que, com certeza, in-
fluenciará em sua decisão nas futuras contratações e indicações para outras pessoas.
5) Aumento da aceitabilidade – relação de bom uso do software pelo usuário. O usuário
tende a gostar mais do software quando há informações e funcionalidades fáceis de
serem encontradas e utilizadas, bem como se todas as coisas visíveis pelo sistema es-
tiverem em um formato adequado e puderem ser assimiladas com facilidade. Como e
o que o usuário pode fazer no software por meio da interface influencia, diretamente,
em sua aceitabilidade. A ideia, nessa característica, é simples e muito similar ao que
acontece em nosso cotidiano, uma vez que nós aceitamos com mais facilidade aquilo
que nós gostamos, compreendemos e nos identificamos. Com o software, esses pon-
tos também são considerados pelo usuário para definir se ele vai gostar ou não.
Observe que essas cinco características apenas são possíveis se houver as três qualidades
descritas anteriormente. Vale ressaltar que, em cada qualidade, é importante considerar a efi-
ciência, produtividade, satisfação etc., pois é preciso garantir que cada qualidade possua tudo o
que é necessário. Entretanto, a terceira qualidade, Qualidade no Uso, possui fatores adicionais
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que devem ser considerados, como as características, os objetivos e o contexto do usuário. É
nessa Qualidade que o usuário terá maior contato, uma vez que tudo estará visível e disponível
por meio da interface; por isso, tem de haver um maior cuidado com ela.
Bevan (1999) comenta algumas pesquisas que mostram que a maioria dos problemas en-
contrados nos softwares está na usabilidade: cerca de 60% dos erros são na usabilidade, e ape-
nas 15% dos erros estão relacionados às funcionalidades. Esses valores mostram que ainda há
uma preocupação e compreensão maior no processo de perceber as necessidades, entende-se
como funcionalidades, desejadas pelo usuário e codificá-las; no entanto, os projetistas não estão
sendo tão eficazes em mostrar essas funcionalidades para o usuário. Por isso, há a importância
de se dedicar e buscar entender todos os conceitos descritos nesse material, pois a dificuldade
da maioria dos profissionais, possivelmente, está na falta de conhecimento. Saber sobre o que
pode influenciar um melhor uso e, consequentemente, a diminuição de erros pode trazer mui-
tas vantagens – dentre elas, a vantagem competitiva.
7. BARREIRAS PARA A FALTA DE QUALIDADE NO USO
A falta de conhecimento é um dos fatores principais para essa quantidade de erros na usa-
bilidade. No entanto, Bevan (1999) descreve mais três barreiras que também influenciam, como
pode ser observado na Figura 3.
Figura 3 Barreiras para a falta de Qualidade no Uso.
Além da falta de conhecimento, podemos observar, na Figura 3, que as demais barreiras
descritas por Bevan (1999) são: cultura, técnica e estratégia.
Cultura
A cultura, nesse caso, não está relacionada com o conhecimento do usuário, mas, sim,
com a forma que todos os envolvidos no desenvolvimento do software trabalham, ou seja, é a
cultura da empresa ou a cultura dos profissionais. Geralmente, o que acontece é que os profis-
sionais não conhecem as atividades e as formas de se desenvolver uma interação centrada no
usuário ou, muitas vezes, essa forma de desenvolvimento não faz parte do dia a dia deles, pois
o que frequentemente ocorre são profissionais mais preocupados com as funcionalidades, e a
questão da interface, da usabilidade etc. ficam em segundo plano caso haja tempo ou nem são
consideradas. Esta é uma cultura que, aos poucos, está sendo mudada, mas ainda hoje existem
profissionais com esse pensamento. Portanto, é importante se preocupar desde o início com es-
ses fatores e, sempre que possível, envolver o usuário nesse processo. Não há ninguém melhor
do que ele para dizer se algo está bom ou não; por isso, há a necessidade de se trabalhar com os
profissionais para que eles possam se atentar e/ou mudar a visão e a forma de trabalho.
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62 © Interface Humano-Computador
A ISO/IEC TR 15504 provê algumas indicações de como a cultura influência na Qualidade
no Uso descrevendo algumas frases de profissionais. A seguir, são descritas algumas afirmações
ou alguns questionamentos e uma discussão de como deve ser a característica desse profissio-
nal ou da empresa em que ele trabalha (BEVAN, 1999).
Tente, antes de ler essas frases, pensar no que você diria com relação à forma que você
trabalha e a sua preocupação ou dúvida com relação à Qualidade no Uso. Se caso alguma das
frases descritas a seguir for de encontro com o seu pensamento, preste ainda mais atenção na
discussão sobre ela. Vejamos!
Muitos profissionais afirmam que "não tem problemas com usabilidade. No entanto, o
que acontece de fato é que este é um assunto não discutido. É simples afirmar que não há pro-
blema com a usabilidade se ela não for observada, avaliada e levada em consideração. A afirma-
ção "nós não sabemos por que temos problemas com usabilidade" remete a alguns profissionais
que podem conhecer o assunto, mas não utilizam de fato um processo para atingir esse objeti-
vo; a questão da usabilidade não é vista e discutida com a seriedade que deve ter.
"É absolutamente necessário ter problemas com usabilidade?". Nesse caso, geralmente
há uma preocupação maior com a usabilidade, e, em alguns casos, esse profissional utiliza um
método para identificar os problemas. No entanto, o método é utilizado de forma inadequada,
pois a preocupação está centrada nos problemas que poderão ocorrer, e não na melhor forma
de apresentar e desenvolver algo para o usuário. Observe que os problemas devem ser identi-
ficados de acordo com a preocupação em adequar o software para o usuário e não tentar ade-
quar o software de acordo com os problemas que podem acontecer.
"Por meio dos processos, nós estamos identificando e resolvendo nossos problemas". Pro-
fissionais que pensam assim conhecem e utilizam de fato algum método que tem como preo-
cupação e objetivo a usabilidade. Eles veem resultados na utilização dos processos, mas nem
sempre os resultados possuem o benefício esperado. "Prevenir erros de usabilidade é uma ro-
tina que faz parte do desenvolvimento do software". Nesse caso, os processos estão integrados
de forma eficaz à rotina de trabalho do profissional, uma vez que ele conhece e se preocupa em
entender todos os fatores que podem influenciar para o não surgimento de erros na usabilida-
de, sendo o principal a preocupação em considerar o usuário.
"Nós sabemos por que nós não temos problemas com usabilidade". Com essa afirmação,
o profissional garante não apenas que conhece sobre o assunto, mas também que se preocupa
e toma todas as atitudes necessárias para evitar esse tipo de erro.
Essas frases são para ilustrar um pouco os diversos profissionais existentes no mercado de
trabalho, e cabe a você, um profissional que conhece e se preocupa com as questões sobre a
interação humano-computador, conversar com esses profissionais e mostrar as vantagens de se
dedicar a uma área de extrema importância; enfim, tentar, de muitas formas, mudar a cultura
desses profissionais.
Técnica
É importante criar e/ou aprimorar e, especialmente, utilizar processos ou frameworks que
incluem métodos e atividades que apoiem os profissionais no desenvolvimento de um software
de forma adequada, ou seja, que também atenda às necessidades da interação humano-compu-
tador. É necessário esclarecer que, algumas vezes, a falha está no próprio processo, pois alguns
deles não possuem, de forma clara, a sua finalidade e os benefícios de serem utilizados; algo que
poderia cativar e chamar a atenção dos profissionais.
© U3 – Qualidade no Desenvolvimento do Software 63
Uma forma de permitir um bom processo para os profissionais é a documentação de tudo
o que é feito durante o desenvolvimento. Apesar de ser considerada uma tarefa um pouco te-
diosa para alguns, essa atitude permitirá que sejam registrados todos os processos adotados ou
não, a forma que foi feito o levantamento de requisitos, planejamento, desenvolvimento, testes
etc.; enfim, o que aconteceu e, especialmente, as ações e estratégias certas e erradas. Esse do-
cumento, mesmo como rascunho, começa a ser um processo da própria empresa ou profissio-
nais das lições aprendidas, e, de acordo com a ocorrência de mais projetos, esse processo pode
ser aprimorado e outros profissionais podem ter acesso e, assim permitir a disseminação do
conhecimento. Enfim, você não pode culpar a sua não preocupação em adotar uma técnica por
causa dos processos existentes, pois você, além de utilizá-los, terá condições de aprimorá-los.
A ISO 13407 explica como atingir a Qualidade no Uso incorporando e considerando as
técnicas de IHC como objetivo principal durante todo o clico de vida do desenvolvimento do sof-
tware, ou seja, considerando toda a multidisplinaridade que esta área envolve e incorporando
os fatores humanos, entre outros fatores já discutidos até o presente momento (SOUZA, 2006).
Essa ISO possui quatro tarefas que devem fazer parte do ciclo de vida:
1) Entender e especificar o contexto de uso.
2) Especificar e entender os requisitos da empresa e de seus usuários.
3) Produzir solução de interação (interface e todas as outras características que influen-
ciam a IHC).
4) Avaliar a solução da interação considerando os requisitos.
Observe que essas tarefas podem ser consideradas como um ciclo, pois, além de ser im-
portante manter essa sequência, ela pode ser repetida indefinidamente, uma vez que, a cada
novo requisito a ser implementado, pode ser detalhado em outros e ter de passar novamente
pelas quatro tarefas, de tal forma a obter detalhes suficientes para desenvolver algo de quali-
dade.
Estratégia
Os profissionais devem pensar e considerar a Qualidade no Uso como o principal objetivo
durante o desenvolvimento do software. Quando a estratégia é considerar a qualidade desde o
início, a possibilidade é bem maior de alcançá-la. Essa qualidade deve constar nos requisitos e
ser uma prioridade. Em muitos casos, não há informações precisas sobre a Qualidade no Uso, e,
com isso, há pouco incentivo de ser o objetivo principal. Segundo Bevan (1999), também exis-
tem algumas diferenças no que é qualidade entre o usuário e os profissionais; essas diferenças
têm de ser esclarecidas e compreendidas o quanto antes para que, no planejamento e desen-
volvimento, essas divergências não atrapalhem a qualidade do software.
A ISO 9241-11 (ISO_C, 2010) descreve como a Qualidade no Uso pode ser definida, docu-
mentada e avaliada como parte da qualidade do sistema conforme a ISO 9001 (BEVAN, 1999),
que são:
1) Identificar o contexto de uso: informações sobre as características do usuário, os ob-
jetivos, as tarefas e o ambiente em que o usuário trabalha são algumas das informa-
ções que prove o contexto de uso.
2) Especificar qualidade nos requisitos de uso: especificar quais serão os critérios para
se definir a Qualidade no Uso que o sistema deve atingir e, com isso, serem observa-
dos durante os testes. Para especificar qualidade, é preciso pensar em uma forma de
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64 © Interface Humano-Computador
identificar e medir a eficiência, a produtividade e a satisfação, bem como os critérios
para identificar a aceitabilidade do software.
3) Monitorar a Qualidade no Uso: avaliar a qualidade do software durante as várias
etapas que fazem parte do processo de desenvolvimento. As informações obtidas por
meio das avaliações serão decisivas para identificar quais serão as modificações na
interface e em toda a interação.
4) Avaliar a Qualidade no Uso: estar em um ambiente que faz parte do contexto real é
importante, pois a melhor forma de avaliar essa qualidade é realizar testes no próprio
ambiente em que o software será utilizado, sendo assim, observar a utilização do sof-
tware no local em que o usuário irá utilizá-lo.
8. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Sugerimos que você procure responder, discutir e comentar as questões a seguir que tra-
tam da temática desenvolvida nesta unidade.
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para você testar o seu desempenho.
Se você encontrar dificuldades em responder a essas questões, procure revisar os conteúdos estu-
dados para sanar as suas dúvidas. Esse é o momento ideal para que você faça uma revisão desta
unidade. Lembre-se de que, na Educação a Distância, a construção do conhecimento ocorre de for-
ma cooperativa e colaborativa; compartilhe, portanto, as suas descobertas com os seus colegas.
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu desempenho no estudo desta
unidade:
1) Uma característica que todo software deve ter é a qualidade, pois, garantindo a qualidade, se garante que o que
foi feito é bom, eficiente e eficaz. No entanto, considerar a qualidade em todas as fases de desenvolvimento
nem sempre é uma tarefa trivial. Nesse contexto, existe um framework que permite aos profissionais pensarem
em qualidade considerando cada parte do desenvolvimento. De maneira geral, existem três tipos de qualidades,
que são:
I – Qualidade Externa: observa o funcionamento do código durante a codificação, com o intuito de observar a
organização e a linguagem que foram utilizadas.
II – Qualidade Interna: observa se o que foi implementado está de acordo com os requisitos definidos.
III – Qualidade no Uso: observa o software que está sendo utilizado pelo usuário para identificar possíveis
erros, dificuldades etc.
a) A alternativa correta é I.
b) A alternativa correta é II.
c) A alternativa correta é I e II.
d) As alternativas corretas são II e III.
e) As alternativas corretas são I, II e III.
2) Ao considerar a qualidade em todo o desenvolvimento do software, você estará agregando a ele algumas carac-
terísticas de suma importância para o seu sucesso. Relacione essas características e seus significados a seguir:
(1) Aumento da eficiência. ( ) Permitir ao usuário realizar suas atividades
em um menor tempo com mais facilidade.
(2) Melhora na produtividade. ( ) Ter todas as funcionalidades e fazer que
elas sejam acessíveis e intuitivas, para que o
usuário possa gostar do sistema e continuar
utilizando.
(3) Redução de erros. ( ) Apoiar o usuário na realização de suas
atividades de tal forma que ele não possa se
confundir com a maneira que ela deve ser feita
utilizando o software.
(4) Redução no treinamento. ( ) Suprir as necessidades do usuário permi-
tindo que ele realize, por meio do software, as
tarefas desejadas.
© U3 – Qualidade no Desenvolvimento do Software 65
(5) Aumento da aceitabilidade. ( ) Fazer que o software se torne tão simples e
intuitivo que o usuário conseguirá utilizá-lo sem
problemas.
Gabarito
Depois de responder às questões autoavaliativas, é importante que você confira o seu
desempenho, a fim de que possa saber se é preciso retomar o estudo desta unidade. Assim, con-
fira, a seguir, as respostas corretas para as questões autoavaliativas propostas anteriormente:
1) d) As alternativas corretas são II e III
2) Veja a sequência das respostas.
( 2 ) ( 5 ) ( 3 ) ( 1 ) ( 4 )
9. CONSIDERAÇÕES
É possível perceber que as três qualidades e os três fatores a mais que devem ser consi-
derados na Qualidade no Uso – característica, objetivo e contexto – de alguma forma estão des-
critos nas unidades anteriores. No entanto, eles também serão especificados com mais detalhes
nas próximas unidades. Esse cuidado em descrever as qualidades em detalhes está diretamente
relacionado com suas influências para uma melhor interação humano-computador, uma vez
que a não consideração delas significa, na maioria das vezes, uma interface de má qualidade e,
consecutivamente, uma interação difícil e não proveitosa.
As três qualidades estão diretamente relacionadas com a forma com que se planeja, de-
senvolve e testa o software, e, para que isto seja feito de forma satisfatória, é necessário seguir
um modelo de processo para desenvolver um software, considerando as etapas estrategica-
mente definidas para apoiar todos os profissionais nesse desafio de atingir as qualidades. Nesse
contexto, a próxima unidade possui a descrição de alguns modelos de processos que podem ser
considerados.
10. E-REFERÊNCIAS
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ISO_B – INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 14000 essentials. Disponível em: <[Link]
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Claretiano - Centro Universitário
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