Psicologia da Personalidade
Personalidade, o que é?
→ A palavra deriva de “persona” (Latim = “máscara”)
→ Um padrão de traços relativamente permanentes e de características únicas que
dão consistência e individualidade ao comportamento de uma pessoa.
Personalidade: Múltiplas definições
→ “Organização dinâmica no indivíduo dos sistemas psicofisiológicos que
determinam a sua adaptação única ao meio.” (Allport, 1937)
→ “Conjunto estável de características e tendências que determinam as semelhanças
e as diferenças no comportamento psicológico das pessoas (seus pensamentos,
sentimentos e ações), que têm continuidade no tempo” (Maddi, 1972)
→ “Características da pessoa ou das pessoas em geral, que contribui para padrões
consistentes de comportamento” (Pervin, 1989)
Das teorias
Facto: uma observação objetiva e verificável
Hipótese: a explicação sugerida de um fenómeno
Teoria: um modelo lógico, ou um quadro de referência, internamente consistente para
descrever o comportamento de um conjunto relacionado de fenómenos
Teoria científica: critérios
1. Prestar-se a verificação empírica;
2. Coerência interna, compreensível, organizada, integrado num sistema mais
amplo;
3. Parcimoniosa: o mínimo de conceitos (constructos) e enunciados ou princípios;
4. Aplicabilidade;
5. Valor heurístico: capacidade de sugerir novas ideias para futuras teorias e
pesquisas;
6. Precisão nos conceitos e comunicável.
As teorias científicas nunca podem ser verificadas ou justificadas”
(Popper, 1959)
→ H:a pode ser mais “forte” do que H:b se não for falsificada e H:b for contradita
por alguns resultados de observações (falsificação dedutiva);
→ Uma H pode ser mais “capaz de mostrar validade” (e não se é “verdadeira” ...)
do que outras;
→ A avaliação de uma H reside nas consequências deduzidas (predições)
Personalidade: um campo excitante e frustante
→ Diferentes assunções de base
→ Influência de duas tradições: clínica e experimental
Psicologia da personalidade & diversidade conceptual
→ Definições do conceito de personalidade
→ Abordagens e métodos em Psicologia da Personalidade
→ Perspetiva nomotética (não tentar compreender a personalidade) vs. ideológica
(tentar compreender porque é que alguém é como é – a sua personalidade)
→ Avaliação da Personalidade: estuda características universais, individuais e a
singularidade universal
Objetivo dos psicólogos da personalidade
→ Observar as pessoas cientificamente
→ Desenvolver teorias que sejam:
• Sistemáticas
• Testáveis
• Abrangentes
• Conversíveis em aplicações práticas.
3 Perguntas fundamentais
• Universais humanos: O que é verdade para as pessoas em geral? Quais são as
características universais da natureza humana?
• Diferenças individuais: Como é que as pessoas são diferentes umas das outras;
existe um conjunto básico de diferenças individuais
• Singularidade individual: Como é possível explicar a singularidade do individuo
de forma científica (atendendo a que a ciência busca princípios gerias, em vez de
retratos de entidades originais)?
Personalidade: aspetos comuns
• Consistência em várias situações;
• Diferenças individuais;
• Semelhanças entre os indivíduos (núcleo comum universal);
• Estabilidade;
• Visão global (pessoa).
Componentes de uma teoria da personalidade
• Estrutura da personalidade;
• Motivação - Pressupõem uma explicação para a motivação (e.g. recompensa no
behaviorismo);
• Desenvolvimento da Personalidade - Explica como o passado influencia o
presente.;
• Psicopatologia - Ninguém consegue olhar para uma psicopatologia sem olhar para
a personalidade;
• Saúde Psicológica;
• Mudança pessoal/Psicoterapia.
Meta-perspetivas no estudo da Personalidade
Traço: as pessoas possuem características individuais estáveis.
Psicanálise: as pessoas são motivadas por conflitos inconscientes cuja origem remonta à
infância.
Humanista: as pessoas possuem uma tendência inata para desenvolver o seu potencial e
buscar a autorrealização.
Cognitiva: pensamentos e crenças explicam e conduzem o comportamento individual.
Pseudociências e personalidade
Conjunto de ideias, pressupostos que são apresentados como científicos (ciência), embora
não reúnam os critérios para o serem. E.g. astronomia.
Frenologia – mapa de Gall e Spurzheim: Recurso a medidas de características cranianas
(craniómetros) para classificar a pessoa em função da raça, personalidade (e.g.
temperamento, inteligência).
Grafologia: Análise da escrita/ caligrafia (tipo de letra influência a personalidade)
Eneagrama: Teoria espiritual da personalidade baseada em 9 traços
Teorias implícitas da personalidade: conjunto de pressupostos acerca das relações entre
as características da personalidade (traços) e comportamentos (maioritariamente
influenciados por crenças, estereótipos, preconceitos)
Autoenviesamentos (self-serving bias)
Ética/ Moralidade/ Virtudes: enviesamentos sobre nós próprios, tendemos a ver-nos de
forma mais positiva do que os outros nos avaliam
Competência profissional: tendemos a dizer que os nossos “clientes” são melhores que
os outros
Expressões emocionais
• Expressões emocionais parecem influenciar as impressões de traços de
personalidade (mesmo controlando a atratividade)
Paradigma do erro: conclusões excessivas
As pessoas julgam ver a influência da personalidade no comportamento onde ela
não existe.
Portanto, qualquer investigação sobre a precisão do julgamento da personalidade
seria intrinsecamente paradoxal
Modelo Realista da Precisão – RAM (Funder, 1995, 2012)
Condições:
1. A pessoa-alvo do julgamento tem de fazer algo relevante para o traço;
2. comportamento relevante para o traço terá de estar disponível para quem julga;
3. O comportamento relevante para o traço terá de ser detetável para quem julga;
4. A informação relevante, disponível e detetável terá de ser interpretada
corretamente.
Variáveis moderadoras:
• “Bom Alvo”: pessoas “julgáveis” e transparentes relativamente extrovertidas,
amáveis, conscienciosas, emocionalmente estáveis. As pessoas mais fáceis de
julgar são melhores.
• “Bom Traço”: alguns traços são mais visíveis por mais acessíveis e fáceis de
detetar (e.g. extroversão).
• “Boa informação”: Quantidade (várias observações em diferentes contextos);
Qualidade (variedade de informação); Proximidade (presencial vs. à distância).
Pessoa estável.
• “Bom avaliador”: sermos bons avaliadores é uma aptidão importante para a
sobrevivência social; sexo feminino; amável; satisfeito com a vida (vs. Narcisista,
ansioso, orientado para o poder; hostil).
Efeito Barnum
• Tendência para as pessoas se identificarem com descrições de personalidade da
natureza vaga e genérica (sem se aperceberem de que as descrições se podem
aplicar a qualquer pessoa)
Indicadores fisiológicos e personalidade
Base fisiológica da personalidade
Modelo 3D de Eysenck (1967):
• Baixa extroversão – elevado nível de atividade do sistema reticular ativador
ascendente;
• Neuroticismo – sistema límbico;
• Psicoticismo – hormonas de controlo do impulso sexual
Dos genes à personalidade – Temperamento
Temperamento: tendências emocionais e comportamentais de base biológica que são
evidentes na primeira infância (Strelau, 1998).
• Quatro dimensões:
• Emotividade – choro;
• Atividade – crianças que se mexem muito, não param quietas;
• Sociabilidade – vê-se pelo olhar, movimento espontâneo
• Impulsividade – rapidez de resposta / ação a estímulos externos.
Determinantes da personalidade
Determinantes genéticos da personalidade (Modelo ACE)
Três influências distintas sobre a variância fenotípica:
• Efeitos genéticos aditivos (A)
• Efeitos ambientais compartilhados (C) – o que é partilhado e comum entre
membros da família que os torna semelhantes
• Efeitos ambientais exclusivos ou não compartilhados (E) – influências ambientais
que são experienciadas de forma única e torna os membros da família diferentes
entre si
Determinantes genéticos da personalidade – métodos de estudo
• Adoção
• Gémeos
• Família
• Genética molecular
Genética molecular
Três dimensões comportamentais fundamentais têm sido propostas para corresponder
a diferenças de atividade nos sistemas de neurotransmissores:
• dopamina comportamentos de aproximação
• Serotonina e noradrenalina comportamentos de evitação
• serotonina, noradrenalina e GABA (ácido gama-aminobutírico)
Comportamentos agressivos ou luta-fuga.
Estudos de gémeos
Os scores dos gémeos Mz tendem a correlacionar-se .50, em média
As correlações dos gémeos Dz estão na faixa de .25 a .30
Heritabilidade
Proporção de variância fenotípica que é atribuída à variância genética numa dada
população, ou proporção de variância observada em grupos de indivíduos atribuível à
herança genética.
“Uma vez que os dados da genética comportamental indicam que cerca de 40%
da variância das características de personalidade individuais e da personalidade global
são determinados por fatores genéticos, então o resto da variância da população resulta
de uma combinação de efeitos ambientais e de erros de medida.”
Epigenética e personalidade
O “ADN-lixo” (partes sem função codificadora) afeta genes próximos, alterando
os genes em resposta direta ao ambiente
Interação vs. Correlação
Genótipo – ambiente
Interação:
• respostas diferentes ao mesmo ambiente devido a composição genética diferente
• o ambiente tem um impacto diferente dependendo
Correlação:
• medidas associadas ao ambiente mostraram evidências de influência genética
• as personalidades dos indivíduos afetam os ambientes em que se inserem e como
descrevem esses ambientes nos questionários
Irmãos que crescem na mesma família
As experiências familiares (e.g., perceções de aceitação e afeto dos pais nos
adolescentes) estão sujeitas a influência genética.
As pessoas criam muito da sua experiência do mundo, em parte, através de
mecanismos genéticos...
→ por meio da perceção de experiência
→ os padrões de comportamento influenciados geneticamente tendem a
provocar padrões comuns de respostas a partir do ambiente (as pessoas
gravitam em torno de ambientes que satisfazem as suas necessidades
psicológicas e evitam os que não o fazem).
Influências ambientais compartilhadas
Uma explicação radical: os pais pouco contribuem para a socialização dos seus filhos
além dos genes porque ...
• a maioria da socialização ocorre em interações no contexto dos pares, não da
família
• a aprendizagem é dependente do contexto: o que é aprendido em casa não é
aplicado a situações importantes que ocorrem fora de casa.
Cultura e personalidade
“A cultura em que vivemos define as nossas necessidades e os nossos meios de satisfazê-
las, as nossas experiências das diferentes emoções, como expressamos o que sentimos, as
nossas relações com os outros e connosco mesmos, o que pensamos que é divertido ou
triste, como lidamos com a vida e a morte, e o que vemos como sadio ou doentio.”
“A cultura é um fator determinante do que significa ser uma pessoa”
(Benet-Martinez & Oishi, 2008)
Cultura e Personalidade
Self e cultura
Self-construral: a forma como os indivíduos constroem o self
Desenvolvimento da personalidade
“… continuidades, consistências e estabilidades nas pessoas ao longo do tempo e o modo
como mudam ao longo do tempo…”
Estudos longitudinais: Questões metodológicas
Efeitos da idade: distinção de efeitos da idade em si ou da idade
Efeito do período: tempo histórico
Como estabelecer comparações indiretas: comparação entre diferentes grupos: pedir
organização de cartões por importância por mim como se fosse outra pessoa que conheço
que os organizou?
• Uso do q-sort
Mudança e estabilidade da personalidade: 3 níveis de análise
Mudança:
• Interna (intrínseca)
• Duradoura (se não é duradoura não é mudança)
Níveis de mudança:
1. População (eg. Impulsividade)
2. Grupal (eg. Diferenças/ sexo)
3. Individual (eg. Preditores de acontecimentos e fenómenos futuros)
Tipos de estabilidade:
• Estabilidade diferencial (rank-order): manutenção da posição relativa num grupo
ao longo do tempo (“o grau em que a ordem relativa dos indivíduos numa
determinada característica é consistente ao longo do tempo")
→ Estabilidade de:
• Big-five:
1. Abertura para a experiência
2. Conscienciosidade
3. Extroversão
4. Neuroticismo
5. Agradabilidade
• Autoestima
• Estabilidade absoluta: nível médio de estabilidade: manutenção do nível médio de
uma característica ao longo do tempo
→ Conscienciosidade e Agradabilidade: ligeiro acréscimo com a idade
→ Neuroticismo e hostilidade: declínio com a idade
Similaridade e mudança
Casamento: as escolhas do parceiro podem ser fatores de estabilidade ou mudança
Neuroticismo e impulsividade: preditores essenciais da insatisfação marital e do
divórcio
Estabilidade emocional: prediz formas positivas de lidar com a morte do cônjuge
“O temperamento…medeia e formata a influência do ambiente…”
A importância da vinculação e o impacto negativo da privação de
cuidados parentais
Necessidade universal de desenvolvimento de ligações afetivas de proximidade ao longo
da vida
Base de segurança para exploração do self, dos outros e do mundo com confiança
Função biológica da vinculação para a sobrevivência e proteção (perspetiva evolutiva) e
dependente do comportamento do prestador de cuidados e do ambiente
Contributos da psicanálise e da etologia: importância da qualidade da vinculação no
desenvolvimento, na saúde geral e mental e na personalidade
Três formas de vinculação (Ainsworth)
Modelos teóricos do desenvolvimento da personalidade
Maturidade do desenvolvimento do Ego
Ciclo de vida adulta – transições, estruturas de vida
“As oito idades do homem" Erikson, 1959
Distúrbios da personalidade (DSM IV e V)
Padrão estável de experiência interna e de comportamento que se afasta marcadamente
do esperado para o indivíduo numa dada cultura.
→ Expressa-se em, pelo menos, duas das seguintes áreas:
• Cognição
• Afetividade (inadaptação de expressão perante outros)
• Funcionamento interpessoal
• Controlo dos impulsos
APA (1994):
• É inflexível e persiste numa gama variada de situações pessoais e sociais
• Gera sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social,
ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo
• É estável e de longa duração, com início na adolescência ou no jovem adulto,
• Não é mais bem explicado como uma manifestação ou consequência de outra
perturbação mental.
• Não decorre dos efeitos diretos fisiológicos de uma substância (e.g., consumo de
substâncias, medicação) ou de uma condição médica geral (e.g., traumatismo
craniano).
Categorias ou dimensões
Categoria:
• Dominante na clínica
• O indivíduo apresenta (é diagnosticado) a perturbação ou não
Dimensão: Continuum: local <-> distúrbio leve
Efeitos do contexto
Cultura: emigrantes de culturas diferentes podem ser vistas como inadaptados
Idade: instabilidade de identidade na adolescência
Género: diferença: distúrbio antissocial mais frequente nos homens, depressão mais
frequente nas mulheres
Cluster A: “excêntricos" (Larsen & Buss, 2002)
Paranoide: um padrão de desconfiança e suspeição em que as motivações dos outros são
interpretadas como malévolas
Esquizoide: padrão de desinteresse (“corte”) pelas relações sociais e restrita expressão
das emoções em contextos sociais (tendência ao isolamento e frieza emocional)
Esquizotípia: padrão de desconforto acentuado nas relações íntimas, distorções
cognitivas e preceptivas, envolvendo comportamento excêntrico
Características típicas do distúrbio de personalidade paranoide:
• Suspeita e desconfiança
• Tendência para ver-se como irrepreensível
• Em alerta em relação ataques percebidos dos outros
Características típicas do distúrbio de personalidade esquizoide & Esquizotípia:
• Relações sociais superficiais e/ou inadequadas (desconforto na esquizotípia,
indiferença na esquizoide)
• Incapacidade e falta de vontade de formar vínculos com os outros
• Crenças excêntricas (esquizotípia)
Cluster B “erráticos”
Antissocial: padrão de desrespeito ou violação dos direitos dos outros
“Borderline": instabilidade nas relações interpessoais, autoimagem e afetos, e acentuada
impulsividade
Histriónica: padrão de excessiva emotividade e busca de atenção
Narcisista: padrão de grandiosidade, necessidade de ser admirado e falta de empatia
Características típicas do distúrbio de personalidade antissocial:
• Manipulação deliberada (e sem culpa) dos outros – mentira compulsiva
• Baixo desenvolvimento moral
• Impulsividade extrema; irresponsabilidade
• Inabilidade para seguir modelos de comportamento socialmente aceite
• Comportamento enganoso/ sedução
• História do comportamento problemático na infância
Características típicas do distúrbio de personalidade borderline:
• Instabilidade emocional, comportamental, relacional
• Tentativas de automutilação ou suicídio
• Sensação crônica de tédio/ medo de abandono
• Mudanças de humor drásticas
• Ira inadequada
• Impulsividade
Características típicas do distúrbio de personalidade histrónica:
• Busca de atenção + irritabilidade e explosões de cólera quando essa busca é
frustrada
• Perturbação exagerada com a atratividade
• Auto-dramatização
• Emoções expressas de forma excessiva e em público
Características típicas do distúrbio de personalidade narcisista:
• Falta de empatia
• Discurso autopromocional e autorreferencial
• Preocupação em obter a atenção dos outros (dependem dos outros para verificar a
importância que julgam ter)
• Necessidade de admiração social
• Grandiosidade na autoestima (mas frágil), sensação de superioridade
• Inveja dos outros mascarada de ironia
Cluster C “ansiosos”
Evitante: padrão de inibição social sentimentos de inadequação e hipersensibilidade a
avaliações negativas
Dependente: padrão de comportamento submisso associado a uma necessidade excessiva
de que tomem conta dele
Obsessivo-compulsiva: padrão de preocupação coma ordem, perfecionismo e controlo
Características típicas do distúrbio de personalidade evitante:
• Insegurança na interação social e no desencadear de relações sociais
• Hipersensibilidade à rejeição social
• Timidez, ansiedade social
• Hipersensibilidade à crítica
• Baixa autoestima
Características típicas do distúrbio de personalidade dependente:
• Subordinação das necessidades próprias para manter os outros envolvidos nas
relações
• Desconforto em estar sozinho(a)
• Pede segurança aos outros
• Não trabalha bem sozinho(a)
• Dificuldade em separar-se nos relacionamentos
Características típicas do distúrbio de personalidade obsessivo-compulsiva:
• Preocupação excessiva com a ordem, regras e detalhes triviais
• Falta de expressividade e cordialidade
• Dificuldade em relaxar e divertir-se
• Perfeccionismo
Os blocos de construção dos disturbios de personalidade
• Variantes inadaptadas ou combinações de traços
• Variantes inadaptadas de motivações
• Processos cognitivos distorcidos
• Variantes extremas da vivência e expressão de emoções
• Instabilidade e distorção do Self (autoconceito)
• Relações sociais perturbadas e inadaptadas
• Componentes genéticas
Causalidade nos distúrbios de personalidade
Borderline: Quebra na vinculação precoce, abuso sexual infantil exposição a estimulação
de emocional caótica e impulsividade dos adultos
Esquizotipia: Possível influência genética – associada à esquizofrenia
Antissocial: Abusos da infância; aprendizagem social; genética
Abordagem disposicional/ traços
Traço: categoriza as pessoas de acordo com o grau em que manifestam uma característica
específica.
Assunções fundamentais:
• Estabilidade ao longo do tempo
• Estabilidade de situação para situação (média)
Ligamos certos traços a certas características:
• Ansioso, facilmente perturbado
• Extrovertido, entusiasta
• Convencional, pouco criativo
• Crítico, quezilento
• Desorganizado, descuidado
Teoria de G. Allport
Enfase à personalidade como fator preditor (explica o comportamento)
Enfase na individualidade ideográfica; importância do conceito de si mesmo, como se vê
e é visto pelos outros
Traço: predisposição para que um indivíduo se comporte de modo semelhante num largo
leque de situações.
→ Cardinais: característica única que orienta a maioria das atividades da pessoa
→ Centrais: características fundamentais da pessoa
→ Secundárias: influenciam o comportamento em menor grau
Autonomia funcional do comportamento: a motivação atual é independente da
motivação no passado
Proprium (1955;1961) → integração da personalidade
• Sentido do corpo
• Sentido da identidade
• Autoestima
• Extensão
• Autoimagem
• Racionalidade
• Empreendimento
Teoria de H. Eysenck
O modelo de traços da personalidade que tem como base 2 mega traços tipo que molda
de acordo onde as pessoas se encaixam (extroversão/ introversão vs. estabilidade
emocional/ neuroticismo)
Psicoticismo: pessoas encontram-se mais para o lado da neurose ou da psicose
Personalidade com base numa teoria hierárquica:
• RH: Respostas habituais
• RE: Respostas específicas
• Traço: são conjugáveis num único traço-tipo
• Traço-tipo: aglutinação dinâmica de traços
Teoria de R. Cattel
Reduziu a lista de traços de Allport para 171traços e introduziu novos modelos e provas:
modelo dos 16 fatores
16 traços de Cattel:
• Afabilidade • Atrevimento • Abertura à
• Raciocínio • Sensibilidade mudança
• Estabilidade • Vigilância • Autossuficiência
• Dominância • Abstração • Perfecionismo
• Animação • Privacidade • Tensão
• Atenção às • Apreensão
normas
Traços:
• Profundos (source traits)
• Superficiais
• Constitucionais vs. moldados pelo ambiente
→ Extroversão
→ Dureza
→ Autocontrolo
→ Ansiedade
→ Independência
Antecessores do modelo dos Big Five (leary, 1957; Wiggins, 1979)
Análise de léxico descobriu 4.504 termos de traço
Com base no trabalho estatístico de Cattel, Fiske (1949), Norman (1963) e outros
identificaram uma solução de 5 fatores notavelmente semelhantes conhecido como “Big
Five”
Traços impessoais (Wiggins, 1989): Adjacência, Bipolaridade e Ortogonalidade
Modelo FFM “Big-five”
Extroversão:
Quantidade e a intensidade das
interações interpessoais, nível
de atividade, necessidade de
estimulação, e a capacidade de
exprimir alegria
Neuroticismo:
Adaptação vs. a instabilidade
emocional. Identifica sujeitos
com propensão para a
descompensação emocional, e
respostas de coping
desadequadas.
Agradabilidade:
Qualidade da interação
interpessoal num contínuo que
vai desde a compaixão ao
antagonismo nos pensamentos,
sentimentos e ações
Conscienciosidade:
Organização, persistência e
motivação no comportamento
orientado para um objetivo.
Contrasta pessoas que são de
confiança e escrupulosas com
aquelas que são preguiçosas e
descuidadas
Abertura à experiência:
Procura proactiva, a apreciação da
experiência pela experiência, a
tolerância e a exploração do não
familiar.
Universais na interação social (Goldberg, 1981)
• X é dominador / ativo ou submisso/ passivo?
• X é agradável ou desagradável?
• Posso contar com X?
• X é imprevisível ou estável?
• X é Inteligente?
Polémica “Pessoa vs. Situação”
Consistência ao longo do tempo
A pesquisa indica consistência ao longo do tempo para traços gerais, mas...
→ Embora consistente ao longo do tempo, como é que um traço, que se manifesta
no comportamento, pode mudar ao longo do tempo?
→ Como pode haver consistência num traço caso se saiba que muda com a idade
(e.g., a impulsividade)?
Foco nas diferenças de ranking entre as pessoas
Os Modelos de Traço tradicionalmente assumiram a consistência trans-situacional. Mas
se as situações, controlam, no essencial, o modo como as pessoas se comportam, a
existência ou a relevância dos traços é questionável
Ideia chave: os psicólogos da personalidade devem abandonar seus esforços para
explicar o comportamento com traços, concentrando-se em situações.
“Situacionismo”: se o comportamento varia consoante as situações, então as diferenças
situacionais e não os traços de personalidade determinam o comportamento.
→ Antecedentes do situacionismo: o estudo Hartstone e May (1928) sobre a
honestidade
→ Fraca evidência da consistência comportamento-situação
→ Paradigma: comportamento em situação – Dúvida: que situação?
→ R baixos (.30, .40) – Correlação ilusória
→ Em defesa dos traços: agregação de dados vs. traços isolados
→ Relevância do traço: 10% de variância (razoável)
Levou a duas mudanças duradouras:
• Foco na interação pessoa x situação
• Prática de agregação de dados
Perspetiva interacionista:
• Situação forte vs. fraca (e.g., reatividade emocional)
• Especificidade da situação (e.g., Dominância e Amabilidade (estranhos vs.
conhecidos)
• Seleção situacional: As pessoas selecionam as situações em que se inserem
• Evocação: Certos traços evocam certas respostas do meio, i.e., as pessoas criam o
seu meio.
• Manipulação: Influência do comportamento dos outros, alterando a situação social
Marcos na génese da Psicanálise
• 1886 – Freud trabalha com Charcot – uso da hipnose
• 1890 – Estudos sobre a histeria com J. Breuer –catarse /associação livre
• 1900 – A interpretação dos sonhos
• 1902 – Sociedade de Psicanálise
• 1905 – 3 ensaios sobre a teoria da sexualidade
A pessoa como sistema de energia
• Instintos sexuais
• Instintos de autoconservação
• Pulsões de vida
• Pulsões de morte
Inconsciente – retorno do reprimido no sonho
Pedia-se que pensasse, mencionasse ou não pensasse em pessoas conhecidas e não
conhecidas
Existe um aumento significativo do pensamento na pessoa conhecida quando é pedido
que não se pense nela
Qualidades dos fenómenos psíquicos (1ª tópica)
Consciente: contacto com o mundo exterior. Conjunto formado pelos factos psíquicos e
pela atividade mental de que há consciência clara
Pré-consciente: lugar dos processos mentais que, temporariamente inconscientes, não
são repetidos e podem tornar-se conscientes
Inconsciente: difícil acesso. Conjunto formado pelos factos psíquicos e pela atividade
mental que escapam à consciência
Evolução psicossexual
• Fase oral (1ºano de vida)
→ Oral dependente
→ Oral sádica
• Fase anal (1-3 anos)
→ Anal retentiva
→ Sádica
• Fase fálica (3-6 anos)
→ Complexo de édipo
• Latência (6-11 anos)
• Genital (puberdade)
Psicanálise – aparelho psíquico (1ª e 2ª tópicas)
Id: Princípio do prazer; Elaboração secundária
Ego: Princípio da realidade; Elaboração secundária
Superego: normas morais/ ideias
Psicanálise – mecanismos de defesa
Recalcamento: ações através da qual uma pessoa afasta ou mantem no inconscientes
representações que estão ligados a um estímulo
Denegação: negar algo para me proteger
Racionalização: atribuição de pensamentos lógicos e aceitáveis a sentimentos e ações
não tão aceitáveis/ inaceitáveis (inconsistência entre pensamento e ações)
Deslocamento: “descarregar” um sentimento ameaçador para uma ação numa pessoa/
coisa
Sublimação: mudança de foco, transformação de emoções conflituosas em algo bom
Projeção: projetar no outro a vontade que tenho de fazer algo; atribuir a outra pessoa o
que penso de mim
Formação reativa: falamos/ demonstramos o oposto ao que estamos a sentir
Regressão: regressão para uma fase anterior da vida, uma fase infantil, onde sentia
segurança
Abordagens psicanalistas não freudianas (Carl Jung)
Três elementos estruturais da personalidade:
• Ego: Consciência de si
• Inconsciente individual:
→ Material recalcado ou esquecido
→ Complexos emocionais ancestrais (temáticos/simbólicos)
• Inconsciente coletivo: Herança psicológica da humanidade
Orientações do Ego: Extroversão /introversão
Funções psicológicas:
• Racionais
→ Pensamento – Sentimento
• Irracionais
→ Intuição – Sensação
Abordagens psicanalíticas contemporâneas
Estilos de vinculação → relações adultas
→ Relação segura
→ Relação evitante
→ Relação ambivalente
Grau moderado de estabilidade na segurança de vinculação de idades precoce à adulta
Estilo de vinculação na infância prediz o apoio prestado aos parceiros
Abordagem humanista e fenomenológica
É uma abordagem de Gestalt, em que o comportamento depende de estímulos exteriores
(reforço e punição)
Responsabilidade pessoal: rejeição da ideia de que o ser humano não se domina a si
próprio
Aqui e agora: rejeição do passado enquanto determinação ao presente
Fenomenologia: refere os fenómenos do sujeito, analisa aos fenómenos que são seus
Crescimento pessoal: liga-se à psicologia positiva
Teoria fenomenológica de Carl Rogers
Tendência à autorrealização:
• Fato biológico
• Não radica na redução de tensão
• Processo de valoração das experiências de vida: processo de “valoração
organísmica”
Perspetiva fenomenológica
• “Todo o indivíduo existe num mundo de experiência do qual é o centro e que está
em permanente mudança”
• Quadro interno de referência
• Campo preceptivo → o indivíduo reage como um todo organizado
• “o comportamento é ... um esforço dirigido para satisfazer as suas necessidades
tal como são experimentadas”
→ Facilitado pela emoção (aspetos pesquisadores do comportamento)
→ Intensidade da emoção significado para a “subsistência e evolução” do
indivíduo
• “o melhor ângulo para a compreensão da conduta é a partir do quadro de
referência interno do próprio sujeito”
→ Empatia
→ Visão não histórica das causas do comportamento
• SELF: As experiências de vida são...
→ Apreendidas e organizadas numa relação com o self
→ Ignoradas porque não se capta a relação com o self
→ Registadas de forma distorcida porque são incoerentes com a estrutura do
Self
• O desenvolvimento do SELF
→ Necessidade de atenção positiva
→ Auto vs. hétero atenção positiva
→ Condições de valor → atenção positiva condicional
→ Atenção positiva incondicional
• Processos de defesa
→ Ameaça – experiências “subcepcionadas “
→ Conscientes, mas em conflito com o self → defesa
→ Distorção preceptiva
→ Racionalização
→ Negação
• Pessoa plena (maturidade psicológica)
→ Abertura à experiência
→ Vivência existencial
→ Cada experiência como única
→ “Confiança organísmica”
→ Experiência organísmica como fonte de informação
→ Liberdade experiencial (subjetiva)
→ Responsabilidade pelas ações próprias
→ Criatividade
Self, hoje: Desenvolvimento do self
Teoria humanista de A. Maslow
“Freud forneceu-nos a parte doente da psicologia... temos de preencher a parte saudável”
→ Visão da natureza humana
→ Otimismo
→ Holismo
Hierarquia das necessidades básicas
Pessoas autorrealizadas:
→ Perceção mais eficiente da realidade
→ Espontaneidade, simplicidade
→ Aceitação
→ Centragem nos problemas
→ Necessidade de privacidade
→ Autonomia
→ Apreciação contínua
→ Frequência elevada de “experiências-clímax”
→ Sentimento abrangente de comunidade
→ Criatividade e resistência à aculturação
→ Relações interpessoais aprofundadas
Autorrealização: de Maslow à atualidade
• Características das pessoas autorrealizadas:
→ Autoaceitação
→ Criatividade na abordagem das tarefas quotidianas
→ Não conformistas “regulados mais pelas leis do seu carácter do que pelas
regras da sociedade”
→ Experiências – clímax (peak exp.) frequentes
Constructo predecessor da “experiência otimizada”
→ Teoria da autodeterminação
→ necessidades psicológicas básicas e universais: autonomia,
competência e parentesco
Behaviorismo & personalidade
Teremos de abandonar a ilusão de que os homens são agentes livres, com controlo do seu
próprio comportamento; independentemente de gostarmos ou não, todos nós somos
“controlados”
“A mente é aquilo que o corpo faz. É aquilo que a pessoa faz. Por outras palavras, é o
comportamento...”
“A Personalidade envolve a descoberta do conjunto único de relações entre o
comportamento do organismo e as suas consequências reforçadoras ou punitivas”
Aprendizagem social
Funções do reforço:
• Informação
→ Observando as consequências do comportamento do modelo, conduz-se o
comportamento próprio em conformidade.
• Incentivo
→ Quando o comportamento do modelo é reforçado são criadas expectativas
positivas em relação à adoção desse comportamento.
• Aprendizagem emocional
→ A observação de reações emocionais numa dada situação pode gerar
predisposição a reagir do mesmo modo em situações idênticas
• Influência
→ A suscetibilidade ao reforço direto aumenta através da observação das
respostas do modelo a reforços semelhantes
→ Modificação do estatuto do modelo: o status do modelo “sobe” ou
“desce” consoante as contingências de reforço
Autorregulação (Bandura, 1986)
Muitos comportamentos são motivados e regulados por:
• Normas internas
• Reações de autoavaliação das ações próprias.
A autorregulação decorre da capacidade de autorreflexão, que “... permite que as pessoas
analisem as suas experiências e pensem nos próprios processos de pensamento.”
Determinismo recíproco
Autoeficácia
Teoria da aprendizagem social (Rotter)
Potencial de comportamento: “Potencial de ocorrência de um comportamento, numa
determinada situação ou conjunto de situações, relativamente à obtenção de um
determinado reforço ou conjunto de reforços”
Expectativa: “probabilidade, avaliada pelo indivíduo, de que um reforço particular
ocorrerá em função de um comportamento específico numa situação específica”
Valor de reforço: “...o grau de preferência pela ocorrência de qualquer reforço se as
possibilidades das ocorrências fossem todas iguais”
Locus de controlo
Expectativa generalizada em relação ao controlo (interno vs. externo) do reforço e dos
resultados das suas ações, em geral.
Relação causal percebida entre os esforços próprios e as consequências ambientais
Efeitos: Internos prestam mais atenção a informações que lhes podem ser úteis mais tarde
e também retêm mais informações do que os mais externos
Teoria dos construtos pessoais (G. Kelly)
O indivíduo-como-cientista:
• gera e testa hipóteses acerca da realidade
• tenta predizer e controlar acontecimentos
• Experiências passadas → Expectativas/Antecipação
• Individualidade na construção da realidade
Constructo: Modo de percecionar ou interpretar os acontecimentos
Sistema de constructos: Relação entre constructos
Perspetiva e autoesquema
Egos possíveis (possible selves)
O comportamento é dirigido não só pelas representações cognitivas do modo como
pensamos sobre nós mesmos, no momento, mas também pelas representações do que nós
poderíamos ser
Estes Egos Possíveis parecem ser estáveis ao longo do tempo
Modelo cognitivo-afetivo da personalidade
Modelo ideográfico:
• Organização “individual” e modo único como o indivíduo se expressa nas
interações com o mundo social
• permite o Estudo NOMOTÉTICO de indivíduos que partilham padrões e
processos dinâmicos semelhantes em termos das redes de interação no CAPS
CAPS: premissas básicas
Estabilidade & variabilidade trans-situacional:
• A personalidade é um sistema estável que medeia a seleção, construção e
processamento de informação social (que gera comportamento social).
• Os indivíduos diferem na seleção, na codificação, e nas respostas emocionais às
situações em que se envolvem
Implicações:
• os indivíduos são descritos em termos de uma organização distintiva das suas
cognições, sentimentos e das características psicológicas das situações em que são
ativados.
• Há um padrão estável de variabilidade no indivíduo que marca a sua organização
distintiva do seu comportamento
Padrões individuais:
• Consistências na personalidade → padrões Se.../Então, distintos e estáveis, de
variabilidade através das situações.
Modelo CAPS: Unidades afetivo-cognitivas da personalidade
Afetos- respostas afetivas e emoções
Estratégias de codificação – Categorias (construções) para codificação de informações
sobre si mesmo, outras pessoas, evento e situações
Expectativas e crenças – Predições sobre os resultados do comportamento (incluindo
Autoeficácia).
Objetivos e Valores – resultados e estados afetivos desejados / aversivos
Competências e planos de autorregulação – comportamentos e scripts potenciais
(organização da ação / estados afetivos)
Personalidade e psicologia evolucionária
Os objetivos teóricos da psicologia da personalidade não podem ser alcançados sem uma
consideração explícita dos processos causais que originaram os mecanismos da mente
que definem a natureza humana
Evolução e Big Five
Extroversão - forte e positivamente relacionada com número de parceiros sexuais
Extrovertidos - iniciam mais comportamento social e têm mais apoio social
Em ambientes ancestrais, um certo nível de neuroticismo pode ter sido necessário para
evitar perigos graves
Ansiedade - reforça a deteção de estímulos ameaçadores, acelerando a reação a elas,
interpretando estímulos ambíguos como negativos, e bloquear a atenção para eles
O valor ideal de neuroticismo pode plausivelmente depender das condições locais
específicas e outros atributos pessoais